In memoriam. Thalita do Valle morreu em 2022, na Ucrânia, servindo como voluntária. Esta conversa foi gravada em 2020.
Modelo, advogada e voluntária humanitária
Thalita do Valle foi membro da comissão de refugiados da OAB e atuou como voluntária no norte do Iraque, junto às forças curdas.
Transcrição do áudio do episódio.
Eron Falbo: [0:04] Aqui quem fala é o narrador de suas mais intensas emoções, Eron Falvor. Vamos comigo. Vamos sair dos nossos tempos agora. Vamos subir a bordo de um barco. Existem sete grandes oceanos nesse mundo. Agora a gente vai para o oitavo oceano, um oceano que é abaixo desse mundo, abaixo da Terra sólida. Um livro, uma caneta, uma criança e um professor podem mudar o mundo. Malala Yousafzai. Agora, uma pessoa muito querida, queria apresentar pra vocês, senhoras e senhoras, a princesa guerreira, modelo de metralhadora, a querida do povo curdo, Thalita do Vale!
Thalita do Valle: [0:56] Olá, pessoal.
Eron Falbo: [1:03] Olá, querida, tudo bem? Boa noite.
Thalita do Valle: [1:06] Boa noite, tudo bem?
Eron Falbo: [1:08] Tudo bem, graças a Deus, e com você?
Thalita do Valle: [1:11] Tudo ótimo por aqui também.
Eron Falbo: [1:13] Que bom, vamos fazer um brinde para começar essa conversa?
Thalita do Valle: [1:17] Vamos, vou brindar aqui o meu licorzinho de chocolate, de cacau.
Eron Falbo: [1:22] O meu também, o licor de ouro e de coca. Um brinde aos povos que precisam da ajuda de outros povos e que eles se libertem.
Thalita do Valle: [1:32] Isso aí.
Eron Falbo: [1:38] E aí, faz tempo que a gente não se fala, você foi uma das primeiras entrevistadas no nosso programa e deu um problema, porque na época a gente usava live do Instagram e às vezes dava, você deve saber disso, às vezes dava uns problemas que não gravava, não dava opção de salvar e infelizmente a gente perdeu uma conversa linda que a gente já teve.
Thalita do Valle: [2:04] É verdade. Mas estamos aqui para uma nova.
Eron Falbo: [2:07] Aquela foi muito boa mas acho que a gente consegue construir em cima daquela. Já deve ter tido novas experiências para contar para a gente. Só para atualizar. Você continua em São Paulo. Você ficou por aí na pandemia durante todo o tempo.
Thalita do Valle: [2:33] Na pandemia fiquei bem quietinha em casa. Eu tive covid. Peguei né. Mas assim não tive nenhum sintoma. Foi bem tranquilo. Mas fiquei em casa para não passar para o pessoal.
Eron Falbo: [2:49] Você acabou de voltar de Dubai há pouco tempo. Você foi rapidinho.
Thalita do Valle: [2:55] Rússia também.
Eron Falbo: [2:56] Você foi para a Rússia também. Caramba.
Thalita do Valle: [2:58] Também.
Eron Falbo: [3:00] Caramba, eu queria saber o que você vai fazer nesses lugares. Mas só para o pessoal te conhecer um pouquinho, fala um pouco, porque eu sinceramente... Acho que ninguém melhor do que você para se definir. Não se definir, mas se explicar, se narrar, porque você não precisa ser definida. A gente sempre vai mudando. Mas conta de modelo a guerrilheira, por onde você passou, quem é você, como é que você se vê?
Thalita do Valle: [3:36] Desde bem novinha, eu já fui do teatro. Meus pais são diretores de teatro também, de cinema. Então, comecei uma carreira artística com o teatro. Com oito anos de idade, fui para a parte mais publicitária, propagandas, revistas, enfim. E, depois desse tempo, fui também fazer faculdade, estudar, fiz enfermagem, estudei direito também. Como se diz a artista, hoje em dia precisa ter duas profissões, como se diz minha mãe. Só que, nesse tempo, quando eu estava estudando Direito, eu entrei para a comissão da UAB, pelos direitos dos refugiados. Sou membro efetiva dessa comissão e foi aí que comecei a ter mais contato com esse mundo, principalmente árabe. Com o pessoal de fora, com os refugiados que começaram a chegar em São Paulo.
Thalita do Valle: [4:38] Então, o meu trabalho era diferente. As pessoas chegavam de guerra, vítimas de guerra, então elas chegavam só com o enderecinho da mesquita e elas iam dormir a noite na mesquita, só que elas tinham que sair, porque elas não poderiam ficar na mesquita de quatro horas. Então, elas ficavam trambulando na rua. E eu tinha meio que um contrato com o governo, Alguns locais a gente poderia fazer assentamentos, né? De forma assentamencial.
Eron Falbo: [5:10] Alê, só um segundinho, acho que tá tendo uma interferência. Deixa eu só ver se é algum equipamento nosso ou se é a internet. Desculpa te interromper.
Thalita do Valle: [5:17] Tá.
Eron Falbo: [5:19] É o que? Eu acho que é o microfone dela.
Thalita do Valle: [5:22] Meu microfone tá baixo?
Eron Falbo: [5:24] Não, tá tendo uma interferência. Você tem certeza que não é a internet? Olha só a internet pra ter certeza de quanto tá de velocidade.
Thalita do Valle: [5:33] O meu tá forte aqui.
Eron Falbo: [5:36] É, parece que a imagem tá boa, mas tá tendo alguma coisa... Não é sempre.
Thalita do Valle: [5:43] Vê se melhorou.
Eron Falbo: [5:45] Não, tá... Você quer tentar sem microfone? Tirar o...
Thalita do Valle: [5:50] Tentar sem? Deixa esse aqui ficar. Melhorou?
Eron Falbo: [5:58] Melhorou. Melhorou, né? Ué, mas... Mas agora eu não tô te ouvindo. Peraí. Não, eu tava te ouvindo. Quando você perguntou melhorou, tava. Agora foi embora. Cê mutou? Oi? Não te ouço. Não, mas quando ela falou melhorou, aí deu pra ouvir, ué. Agora parou. Acho que mutou, não? Ou... Ou talvez... Talvez na configuração... Desculpa. Talvez na configuração dela... Agora voltou. Não, não voltou não. Alô, agora parece que voltou. Alô, agora voltou.
Thalita do Valle: [6:46] Pergunta se tá fazendo barulho. Voltou?
Eron Falbo: [6:49] Tá com uma estática no fundo. E agora o áudio tá desincronizado com sua voz. Com a sua imagem. Você tirou de novo o microfone?
Thalita do Valle: [7:03] Eu coloquei ele de novo, porque eu não tava descutando.
Eron Falbo: [7:07] Ah, tá. Também não tava descutando, então acho que deu algum problema. Quando você tirou, acho que a configuração mudou aí.
Thalita do Valle: [7:14] Vê se melhorou. Se tá acucheado.
Eron Falbo: [7:16] Não, tá desincronizado. Tenta sair e entrar de novo, só pra gente tentar ver se... Às vezes... Você fala... É, sai da sala, aperta o Hang Up e depois volta no link.
Thalita do Valle: [7:33] Peraí, deixa eu sair da cara. Ai. Não dá, gente. Peraí, calma, não chega. Não dá. Aí. Aí. Melhorou?
Eron Falbo: [7:55] Agora voltou.
Thalita do Valle: [7:57] Agora tá certinho.
Eron Falbo: [7:58] Agora tá certo.
Thalita do Valle: [7:59] Voltou?
Eron Falbo: [7:59] Voltou, então agora vamos. Tá bom. Desculpa. Então, você estava falando da sua trajetória, explicando como é que você começou a trabalhar com os refugiados, que você estava numa comissão especial para refugiados da OAB, e foi aí que você começou a ter contato com o pessoal que ia para a mesquita e que só conhecia o mundo deles, era só o que eles conheciam dentro da mesquita que eles chegavam como refugiados e não sabiam nada sobre o Brasil.
Thalita do Valle: [8:30] Isso. Eles não poderiam ficar o horário integral dentro dessa mesquita. Eles só podiam dormir. Então, eles tinham que sair de dia, buscar emprego, sem saber falar nada em português. Eles falam todas as outras línguas, porém português não, que eles acham difícil. Então, eles saíam de dia para procurar alguma coisa para fazer. Então, a gente fazia esse trabalho de ir até eles, A gente ia sempre com um xer, que é um membro em árabe, e a gente geralmente pegava, dava preferência para as mulheres, com crianças, grávidas, pessoas de idade, depois homens, senhores, depois homens, e a gente levava para esses assentamentos que eram permitidos por nós. A gente tinha, na verdade, uma parceria com o governo, assentamentos legais que poderiam ser ocupados para pessoas em situação de rua.
Thalita do Valle: [9:32] Esse assentamento, inclusive, era basicamente mais de refugiados.
Eron Falbo: [9:39] É, peraí que eu acho que deu algum... Não, vamos continuar, só tava tentando ver se voltou. Então, mas como começou pra você, assim, como que você sentiu que você precisava dar mais atenção pra isso, precisava participar mais desse quadro, né, que você percebeu?
Thalita do Valle: [10:03] Então, eu comecei a ver que a situação Lá, assim, não que o nosso país não tenha, né, situação complicada também, que eu também ajudo em algumas ações aqui, mas eu comecei a perceber que no país deles o Estado Islâmico estava muito grande, né? Eles estavam formando califados, assim, muito fortes. E isso, claro, que futuramente poderia atingir qualquer país, até o nosso, né? Então, eu comecei a perceber que era uma coisa que poderia ser mundial, né? Conversava com os membros da equipe lá do exército deles. E foi assim que a gente foi fazendo um meio de campo. As famílias estavam aqui, os homens estavam na guerra com as filhas e geralmente a mulher aqui que tinha um bebezinho, que tinha criança menorzinha, estava fugindo para cá.
Eron Falbo: [11:02] E aí você começou a se envolver mais. Qual foi esse envolvimento?
Thalita do Valle: [11:07] Então, eu falava sempre com eles por WhatsApp. Elas começaram a confiar bastante em mim, porque viram que eu estava ajudando e tudo. Então, eu fazia parte de um grupo de WhatsApp deles, de generais, de capitães, enfim. E estava sempre em contato, falando sobre a família. E aí, eu decidi que eu ia para lá levar uma ajuda humanitária. Primeiro de roupas, alimentos, Tudo que eu conseguia entre amigos, eu juntei para a gente poder levar. Porém, nesse tempo todo, a gente juntou um grupo. Fizemos um grupo de WhatsApp de mais ou menos umas 60 pessoas e fomos em três só, mas separadamente também.
Eron Falbo: [11:53] E isso é quem bancava? Quem fomentava era a OAB? A OAB tinha um grupo que fazia isso? Como isso era executado?
Thalita do Valle: [12:07] Não, a UAB nessa parte de a gente chegar a ingressar mesmo, isso daí era por nossa conta mesmo. A única barra que a UAB atuava...
Eron Falbo: [12:16] Mas não tinha grupo nenhum? Era o grupo das próprias pessoas ou assim individualmente mesmo?
Thalita do Valle: [12:24] Na verdade fui eu mesma que criei um grupo de militares, ex-militares, de pessoas combatentes, de pessoas que têm... Alguma experiência em ajuda humanitária, fui eu que montei esse grupo. A parte que a UAB me deu um impulso relacionado a isso foi de eu trabalhar com os assentamentos, essas coisas de refugiados, que eu tive mais contato. Porém, eu comecei a montar por mim mesmo esse grupo de pessoas que gostariam de ajudar.
Eron Falbo: [12:57] Aí você foi pra lá e o que você encontrou lá e onde é lá exatamente? Foi na Síria?
Thalita do Valle: [13:06] Não, foi no Iraque, na parte do norte do Iraque, em Erbil, a capital do Curitibão Iraqueano, porém a gente também foi pra alguns lugares da Síria, em Raqqa, na Síria também.
Eron Falbo: [13:20] Vamos também explicar, que até eu não sei tão bem, o que é exatamente o Kurdistão. Kurdistão é um território, um povo, um território e um povo que acho que nunca teve um estado próprio.
Thalita do Valle: [13:36] Na verdade, os kurdos são um dos povos mais antigos do Oriente Médio. Tem relatos de kurdos até 8 mil anos antes de Cristo. Só que eles não têm uma região correta, um país deles, na verdade. Então, eles ocuparam os nortes, na maioria Iraque, Irã, Síria e Turquia. E ali tem a parte de maior número de curdos. E no Iraque é muito forte. O norte do Iraque, tanto que eles têm um presidente próprio. Eles são meio que considerados separatistas. Iraque e Bagdá é uma coisa, Iraque e Curdistão é outra. Até eles não se dão muito bem. Iraque e Bagdá, Iraque e Curdistão. Eles se respeitam, mas não se dão tão bem.
Eron Falbo: [14:32] São diferentes. Engraçado isso, mas como é que funciona isso? O Iraque permite isso? Tem uma tolerância? Ou antes tinha refugiado também do Saddam Hussein, agora com os Estados Unidos é diferente? Como é que é na prática?
Thalita do Valle: [14:50] Então, deu uma misturada ali, né? Depois da morte do Saddam, porque o Iraque tem muito curdo mesmo, né? É uma população, eu não sei a estimativa hoje, mas é uma população grande de curdos. Então, O Iraque falou, ah, eles não deixam de ser curdo-iraquianos, né? Então, eles ficam na região norte e a gente fica aqui na parte Bagdá, aqui, a gente fica aqui no nosso canto e eles lá no canto deles. Foi basicamente isso. Mas eles se toleram, assim, eles lutaram juntos contra o Estado Islâmico, né? Porém, de vez em quando, eles têm uma briga, assim, por causa da região.
Eron Falbo: [15:27] E quando você estava lá, você percebeu que eles seguem leis diferentes? Porque eles são muçulmanos também, igual os iraquianos. E também uma outra pergunta, não sei se você sabe lá conversando com eles, mas em termos... Se eles são uma religião mais antiga do que o Islã, como é que é essa convivência com o Islã? Eles têm outros costumes que não são islâmicos? Você sentiu isso?
Thalita do Valle: [15:57] Então, senti. Assim, os curdos, eles têm uma religião, inclusive, mais antiga do que o catolicismo. Chama-se yazidismo. Eles têm, na verdade, lá um templo, tudo certinho, porém eles só não são considerados religião, o yazidismo, porque eles não têm um livro sagrado. Um livro sagrado, assim, apresentado, mas eles possuem esse livro sagrado dentro desse templo, porém eles falam que eles só vão apresentar no momento certo. As leis yazidistas. Mas eles são muito tranquilos. Essa religião veio antes de Cristo e em relação aos muçulmanos tem as divisões tunitas, chiitas, jihad e por aí vai. Os mais extremistas são os jihad e os chiitas. Mas dentro da religião muçulmana tem várias.
Eron Falbo: [17:00] Pô, tem um milhão de denominações.
Thalita do Valle: [17:01] De vários tipos, é. Isso. Porém, o yazidismo eles respeitam bastante, assim, os muçulmanos lá, né? Os islâmicos muçulmanos, eles respeitam muito os yazidis, entendeu? Que eles são um dos povos mais antigos curdos, né? Por isso que eles têm essa religião.
Eron Falbo: [17:18] Uau, muito interessante. Só por curiosidade, você conheceu muitos Yazidis? Você teve contato com... Porque eu me interesso pessoalmente por religiões, diferentes religiões. Você teve contato com Yazidis?
Thalita do Valle: [17:33] Sim, bastante. Na verdade, os Yazidis foram o povo mais atacado pelo Estado Islâmico, porque o Estado Islâmico não aceita católicos ele não.
Eron Falbo: [17:44] Aceita muçulmanos aceita nada só eles e.
Thalita do Valle: [17:48] Os e as redes eles consideram assim a pior raça. Assim eles falam que é porque eu ia dizer eles são povos excêntricos assim meio parecido com o budismo sabe é legal a religião. Então eles acham eles totalmente impuros. Enfim eu tive muito contato com a maioria que foi atacado pelo Estado Islâmico eram e as redes. Então tem muita criança sem família hoje lá porque é Yazidi. Geralmente os campos de refugiado lá dentro são de Yazidis, entendeu?
Eron Falbo: [18:21] Eu tive muito contato. E por acaso tem alguém aqui no Brasil que seja especialista em Yazidi, alguma coisa assim? Porque eu gostaria de saber mais sobre isso. E também para outras pessoas que estão nos assistindo descobrir um pouco mais. Você tem noção de aqui no Brasil, além de você,.
Thalita do Valle: [18:42] Muita noção daqui, quem sabe sobre asidismo? Não, é bem raro até que as pessoas saberem, né? Sabem assim por cima, alguns jornalistas que eu já conversei, repórteres, eles sabem um pouquinho por cima, mas não assim tão a fundo.
Eron Falbo: [18:59] Ah, porque uma das coisas que a gente... Desculpa. Só para você entender de onde está vindo a minha pergunta, é porque aqui no nosso programa a gente busca trazer conhecimento que as pessoas estão ignorando. Essa questão do Yazidi, além do povo kurdo, claro que o povo kurdo já é por si só, um assunto que é relevantíssimo, tanto que uma das razões de você estar aqui, entre outras, é pelo seu conhecimento da questão curda. Só que mais ainda do que os curdos é o yazidismo, porque é uma religião que as pessoas nem sabem que existe. Até o zoroastrismo, que é uma coisa que as pessoas esquecem, é uma coisa que existe em especialistas e tudo. E é muito parecido no sentido de que é uma religião antiga. E religiões antigas, que ainda são vivas, nos trazem muito conhecimento precioso sobre quem a gente é de verdade, de onde a gente veio.
Eron Falbo: [20:10] Porque religiões como o Islã, Cristianismo, até o Budismo, do jeito deles, mas especialmente o Cristianismo e o Islã, eles vieram apagando culturas locais com todo respeito a cristãos, mas uma realidade política do Islã e do Cristianismo. Assim como o Estado Islâmico está fazendo agora, no início do Cristianismo, em outros momentos, durante as cruzadas, etc. E no Islã atualmente, em muitos lugares como o Estado Islâmico, existe esse proseletismo, essa vontade de fingir que eles são os únicos e sempre foram os únicos que estiveram nas regiões. Com isso a gente perde muita sabedoria, perde muita cultura humana. Que eu pessoalmente acredito que é preciosa, que é uma coisa que nos ensina sobre de onde a gente veio de verdade. Isso tem resonância?
Eron Falbo: [21:13] Conhecendo esse povo mais antigo e tudo, você sente alguma coisa assim? Você sente que tem a ver isso que eu estou falando de alguma forma?
Thalita do Valle: [21:23] Eu acho que muitas religiões apagaram muito, as outras menores, que sejam religiões, culturas, por conta do catolicismo, que seja o budismo, são as mais conhecidas. Porém, existem muitas que tem no Afeganistão, outros tipos de religião, assim como tem essa dos curdos, que são, às vezes, apagadas por essas maiores. Eu tenho conhecimento de muitas religiões, sim, sabe, voltado para esse pessoal. Porém, os islâmicos, né, muçulmanos islâmicos, eles aceitam bem o yazidismo. Eles convivem bem, eles estão sempre em contato com os yazidis. O que não aceita o yazidismo são os jihads, entendeu?
Eron Falbo: [22:11] É um grupo pequeno, porém muito violento e vocal. Isso é uma coisa boa para a gente falar para as pessoas que estão nos ouvindo, que os muçulmanos têm uma péssima reputação por causa dos problemas políticos americanos e também por causa desses grupos. Mas também existe muita propaganda enganosa feita por por americanos e outros grupos que têm vieses econômicos e políticos contra. Eles querem o óleo do Oriente Médio, então eles criam inimizade muito grande. Não é só a culpa, eu não acredito que é só a culpa dos jihadistas. Tem muita coisa envolvida.
Thalita do Valle: [22:54] Tem a política envolvida, tem muita coisa envolvida nesse meio do jihad. Eles são extremistas Não é só por conta da religião, são por vários pontos.
Eron Falbo: [23:07] Eu acho importante esclarecer isso, porque a maioria das pessoas tem só uma visão de que o muçulmano é um louco, violento, agressivo, e para a maioria é o contrário. Para a maioria do povo mesmo é o contrário, eles são super serenos e pacíficos, eles não bebem, não usam drogas, são pessoas quase meditativas, rezam, todo mundo tem terço, fica rezando no carro o tempo todo, são pessoas extremamente tementes a Deus, eu não falo nem isso como religioso, eu mesmo já fui religioso, mas não sou, e eu já morei em Israel, morei três anos em Israel, E em Israel, como judeu, você sente muita pressão para odiar muçulmano, porque existe uma tensão muito grande com os palestinos. Pessoas perdem a vida, perdem familiares. Então a tensão, a tentação de sentir antagonismo contra a religião inteira é muito grande.
Eron Falbo: [24:14] Então, mesmo assim, eu posso dizer que a minha experiência pessoal, conhecendo os árabes, conhecendo palestinos, conhecendo muçulmanos, e isso porque eu era judeu ortodoxo quando eu morava lá. Era de conhecer pessoas do bem, pessoas que estavam querendo resolver de forma... Não era todo mundo resbolar, não era nem todo mundo político. A grande parte das pessoas, inclusive até os israelenses judeus, eram mais agressivos. E eu também não os culpo, porque é uma situação complexa, mas os árabes palestinos que eu conhecia lá, muitos deles gostavam de morar em Israel, estavam felizes de estar sob domínio, entre aspas, sobre regime judaico, por estar numa situação de liberdade relativa, comparado com outros, porque se você vai escolher entre entre viver na Síria de Ísis ou viver na faixa de Gaza, que não tem tanto, mas se Jordânia, talvez, ou até ser um cidadão da grande Israel geral, sendo árabe, sem ter todos os direitos que um judeu tem.
Eron Falbo: [25:37] A situação, no geral, é mais favorável para eles do que quase qualquer situação árabe. Então, para eles, eles eram muito pacíficos, muito... Como é que se diz? Assim com boa disposição civilização. Exato.
Thalita do Valle: [25:59] Aquele povo ali não se cortando o que acontece é um povo dos judeus e os palestinos. Eles são um povo que eles são irmãos. Primeiramente então ali aquela terra ali é de ambos. Eles são irmãos. Só que eles não se aceitam por conta territorial por conta política. É meio que mais ou menos o que acontece nos Kurdistões, entendeu? Por exemplo, na Síria tem o Kurdistão sírio. Bashar al-Assad não aceita os kurdos. Ele próprio ataca o povo sírio-kurdo. Vai entender. A Síria do Bashar ataca a Síria kurda. Dentro do território kurdo, né? Sírio-kurdo. Então tá todo mundo ali na Síria, mas ele tá atacando o próprio povo dele. Não dá pra entender.
Eron Falbo: [26:50] Eu tenho uma teoria, ver se você concorda com isso, que existe uma pressão do... Quem tem esse viés econômico-político que alimenta esse ódio no povo. Claro que por serem de países de bordas diferentes, apesar de serem da mesma cultura, eles vão ter um pouquinho de diferença, vão falar a língua um pouquinho diferente, vão ter costumes um pouquinho diferentes. Aí, como a Síria, a Grande Síria, tem problemas com o Grande Iraque, aí eles alimentam... É a mesma coisa de que você falou, o Israel e os árabes, né? É, os parencheiros, mas todos os árabes, independente de serem... Porque também tem árabes cristãos, né? As pessoas esquecem isso. Tem todo tipo de povo lá, né? Até deve ter curdo no Israel, não sei, mas deve ter.
Thalita do Valle: [27:35] Tem, bastante também.
Eron Falbo: [27:37] Então, esses povos entram no fogo cruzado de pessoas que têm demagogos. Tipo assim, os Estados Unidos querem que o Oriente Médio não seja estável de árabe, Porque os árabes fazem embargo da OPEC, sei lá como é que é em português, e controlam os preços, aí querem ter hegemonia, querem dominar essa coisa econômica, então querem manter eles divididos. E os árabes, obviamente, querem ter mais poder do próprio óleo, mais autonomia, etc. Aí colocam fogo, colocam lenha na fogueira de tipo dizer que Israel está oprimindo os palestinos, aí Israel também se defende muito forte, porque os Estados Unidos apoiam demais Israel para também não deixar os palestinos terem tanta autonomia, e eles próprios não conversam, eles ficam sofrendo influências de coisas maiores, mais políticas e econômicas, menos religiosos, menos humanistas.
Eron Falbo: [28:45] Você sentiu isso, que na prática, no humanismo mesmo, na religião, eu senti isso, que a galera se dá bem no dia a dia, não tem problema.
Thalita do Valle: [28:53] Isso. Eu senti bastante isso daí, tanto no Iraque quanto na Síria, o pessoal em si, eles se dão bem mesmo, mas é essa coisa que você falou, você deixou bem explicado mesmo a referente, a política, grandes potências querendo interferir nesses países, colocando o povo contra. É bem complicado isso daí lá. E falta o humanismo.
Eron Falbo: [29:18] E qual é a sua visão da atualidade lá? Para que caminho vai? Imagino que você se mantém conectado com as pessoas lá. Eu sei que você se importa de verdade. Você está sempre ajudando da maneira que você pode. Qual é o futuro disso dessa situação como é que está agora.
Thalita do Valle: [29:40] Então o Estado Atlântico teve na verdade agora estava todo mundo sabe que estava sobre o domínio há um tempo já e a parte de Bagdá estava comandada pelos Estados Unidos. Então na época mesmo já do Trump os Estados Unidos Mordia e assoprava, ajudava e não ajudava, né? Na verdade, ele.
Eron Falbo: [30:04] E,.
Thalita do Valle: [30:06] Por exemplo, no Afeganistão, os Estados Unidos abandonou, foi embora. Eles ficaram lá, todo mundo sabe, com os talibãs. E no Kurdistão, digo, no Kurdistão hierarquiano, continua o mesmo presidente, na parte kurda, a parte Bagdad, a Shia, né? Que é como se fosse uma milícia que toma conta. Porém, eles estão convivendo pacificamente, mas o Estado Atlântico está querendo se reerguer de novo. Eles se juntam bem quando tem o Estado Atlântico querendo voltar. Então, os dois maiores califados, um estava em Raqqa, na Síria, e o outro estava em Mossul, não no Iraque. Então, com essa derrubada desses dois califados,.
Eron Falbo: [30:54] Quando você fala califado, vê se está certo. Eles estão tentando reviver uma coisa chamada Estado Islâmico, que era uma coisa que existia lá na época de Maomé, que instalava como se fossem governadores de um grande Estado maior, que eram chamados califos, que são como se fossem tiranos, reis absolutistas. Que comandam, através da demagogia religiosa, praticamente absolutamente os povos. Estou certo com isso? Estou chutando aqui.
Thalita do Valle: [31:28] Você está certo. Você está correta com a forma que você colocou. A gente só que não, nós, que era parte exército, parte interna, só nós não colocávamos eles como nem Estado e nem islâmico. Entendeu? Porque ISIS, E-I-I no Brasil, a sigla em inglês, E-I-I, aqui no Brasil, Estado Islâmico, a gente não chamava eles nem de Estado nem de Islâmico, porque Estado basicamente ali não fazia isso e os Islâmicos também não faziam isso. Então, a gente ajudava um nome que chamava Daesh. Daesh são seres da discórdia. A gente não gostava de denominar eles como algo grande, entendeu? Porque isso dava força. Mas basicamente você descreveu o que seria mesmo ele.
Eron Falbo: [32:22] Isso aí é incrível. Então agora caiu recentemente esses califados do Iraque? É isso que eu não acompanhei?
Thalita do Valle: [32:32] Caiu o califado de Monsur, né? O Iraque, que era onde eu estava, no Sul, e caiu o de Raqqa na Síria também, que eram os dois maiores califados deles.
Eron Falbo: [32:44] Então isso é boa notícia. Mas aí o que entra no lugar? O Iraque deve estar totalmente abalado pela estadia americana, incompetente, que eles instalaram lá. Como é que está essa questão de quem está liderando o Iraque? Vamos tentar ir mais sobre o que você viveu lá e o que você tem ouvido falar das pessoas, porque a gente, se baseando só nas notícias, a gente sabe que são muito deturpadas, dependendo da mídia que está divulgando.
Thalita do Valle: [33:23] Então, os Estados Unidos continuam tendo um certo domínio sobre Bagdad, sobre Irak e Bagdad. Os curdos continuam com o presidente deles, o Maksoud Barzani. Os Barzani continuam comandando a parte curda. O estado islâmico foi vencido, entre aspas. A gente fala que nunca foi vencido porque eles podem se reerguer novamente. Só estão sem o líder maior deles que foi morto. Mas eles podem se reerguer a qualquer minuto.
Eron Falbo: [33:55] É um ideal deles.
Thalita do Valle: [33:58] E eles têm muitos membros, eles têm muitos homens, inclusive muitos estrangeiros são parte do Estado Islâmico. Muitos franceses, tem quatro brasileiras no Estado Islâmico, para você ter ideia. Então eles ficam tentando de alguma forma se reerguer. Você vê que no Afeganistão, eles já estão fazendo ataque por lá. Eles já estão conseguindo voltar de leve lá, brigando com os talibãs também. Só que assim, no Iraque, por exemplo, lá tem muita milícia. Entendeu? Tem muita milícia. Não é só o Estado Islâmico. Lá tem quatro tipos de milícia menores.
Eron Falbo: [34:46] É como se fosse briga de gangue. Ficam brigando o tempo todo.
Thalita do Valle: [34:53] Isso. Tem os grupos menores. Uns têm uma ideologia, outros têm outra. Enfim, o maior era o Estado Islâmico mesmo por conta do setor terrorismo que ele causou no mundo inteiro. Inclusive, o Estado Islâmico foi o que tomou o Al-Qaeda. Ele se transformou no Estado Islâmico. Então lá tem muita milícia. Então o grupo que eu tava, os membros do grupo que eu tava, eles combatiam e combatem até hoje essas milícias. Os Pechmergas são um grupo, um exército lá que combate grupos de terrorismo.
Eron Falbo: [35:33] E qual é o nome deles?
Thalita do Valle: [35:37] Pechmerga.
Eron Falbo: [35:39] Pechmerga. Os peixe-mergas, qual o objetivo final deles? Eles querem um Estado curdo? Eles querem combater a corrupção e estabelecer uma espécie de democracia? Eles têm uma agenda a longo prazo desse tipo? Um ideal deles?
Thalita do Valle: [36:02] Sim, eles têm o presidente deles, o Barzani, que é o presidente ali, total ali da parte curda, principalmente curdo-iraquiana, que é a maior parte curda que tem. Então, eles têm sim essa coisa da soberania, do presidente, e eles são democráticos. Feito com votos, eles seguem bem a democracia mesmo. Porém, quem cuida do país é a parte exército. Lá não existe policiais na rua, são poucos. Lá é o exército 24 horas, entendeu? O policial que a gente via lá era um policial de trânsito, uma briga de trânsito, porém eles estão preparados para a guerra. Então a soberania é dos Barzani e dos Pechimergas lá. Quem manda no país é esse exército gigante junto com o Barzani, que é o presidente.
Eron Falbo: [37:00] E foi isso que você participou, né? Você participou, lançou uns mísseis lá com... Lançar mísseis? Porque eu já vi umas fotos suas lá com bazuca, sei lá, como é que foi? Eu sei, como é que foi a sua participação disso? Nisso.
Thalita do Valle: [37:16] Ah, então, eu cheguei lá para ajudar, né, nos campos de refugiados, aí não... Ajudei três dias lá, né, com as crianças e tudo, e aí depois eu pedi para me alistar, né, porque no Brasil já... Já sou atiradora esportiva, profissional, eu pedi para me alistar no grupo deles e passei em todos os testes, em dois exércitos, tanto no da Síria quanto no do Iraque, e fiquei no do Iraque, esse dos peixe-merdas kurdos no Iraque.
Eron Falbo: [37:50] E aí você chegou a ver algum tipo de ação? Como é que foi a sua experiência? Como alistada?
Thalita do Valle: [38:01] É diferente do que a gente vê no Brasil. Eu dou cursos aqui, faço palestras, tanto para as forças, para vários tipos de forças militares, enfim. E é tudo diferente. A gente nunca passou por isso aqui no Brasil, a não ser lá. Guerra no Paraguai.
Eron Falbo: [38:21] É muito tempo atrás.
Thalita do Valle: [38:22] Enfim, né? É muito tempo atrás. Então, é diferente, né? Nós brasileiros, a gente não tá acostumado. Por mais treinamento que a gente tenha, que eu tenha aqui, é muito diferente lá. Porque ali é aquela coisa 24 horas. Você fica em alerta 24 horas. E aprendi muita coisa com ele lá. Então, eu tava sempre acompanhando o grupo, ficava sempre perto de generais. Conhecia mais, sabe? Sempre segui na hierarquia, que eles têm uma hierarquia bem forte também.
Eron Falbo: [38:58] E você, como é que foi essa adaptação? Porque eu imagino que você deve ter sentido medo de estar nessa situação, o que pode acontecer. Como é que foi essa adaptação sua, em termos de você ser a mulher que você precisa ser pra fazer as coisas que você fez?
Thalita do Valle: [39:23] Olha, pra falar a verdade, eu fui muito tranquila pra lá, porque Lá tem exércitos criados por mulheres. Elas já pediram as curdas em si. Elas já pediram elas fizeram a revolução delas. Elas já tiraram o Rijab e tiraram a palavra não. A gente começou o exército lá com elas. O que acontecia elas eram raptadas pelo Estado Islâmico junto com a família. Marido filho eles matavam já os maridos delas. Assim, na frente delas, levavam as crianças e levavam elas. E o que que eles faziam? Elas viravam escravas sexuais deles, né? Elas eram vendidas dentro do Estado Islâmico, né? Então, chegava numa certa idade, já tá muito velha e passava pra outro membro do Estado Islâmico. E se elas eram estupradas, todos os tipos de violência, essas mulheres sofriam. E as crianças eram levadas pra formar um exército também, que eram de crianças, chamados leõezinhos, né, do Estado Islâmico.
Thalita do Valle: [40:26] Então, era criança já pegando um revólver, matando, enfim. Eles criavam essas crianças pra serem mesmo... Pra atacar, pra serem meninos bomba, enfim. E as mulheres, às vezes, estavam fazendo a mesma coisa. Porém, elas ficaram quietinhas, aproveitaram todo o treinamento, enfim. E teve uma hora que elas próprias conseguiram se rebelar contra eles. Então, foi criado por mulheres. Então, a força feminina, a revolução curda feminina lá é muito forte. E eu fui sem nenhum tipo de medo, assim, porque eu já sabia da força das mulheres lá. Todo mundo falava, nossa, mas tá indo pra um país muçulmano, um país árabe, é perigoso, estupro, isso, aquilo. Mas eu já sabia que existia elas lá, entendeu? Então eu fui tranquila.
Eron Falbo: [41:10] Essa revolução feminina curda é um assunto também por si só, né? A gente podia conversar uma hora sobre isso.
Thalita do Valle: [41:18] Tem muita coisa.
Eron Falbo: [41:20] E você sabe... O que eu ia perguntar? Como é que foi a sua relação com os homens lá? Eles foram ok com essa revolução? Alguns apoiam, alguns não. Como é que é a relação?
Thalita do Valle: [41:39] Então, a princípio, elas começaram a lutar contra o Estado Islâmico. Eles não davam lá muita bola. Achavam que era um grupinho qualquer que estava começando. Mais um grupinho terrorista estadilâmico, só que quando ele começou a ganhar muita proporção, formar califado, eles viram que era uma coisa séria que estava ocorrendo por lá e começaram a apoiar elas. Quando elas fizeram essa revolução de rasgar o hijab, a burka, de querer se vestir da forma que quiser, de poder usar um batom, de poder se mostrar da forma ocidental, eu digo, dessa forma mais livre, eles começaram a apoiar, deixaram elas fazer o que elas queriam fazer. E elas têm muita força, então elas respeitam muito, assim como eles. O homem lá, ele respeita muito a mulher. São coisas assim que eu fiquei extremamente até chocada, porque eu não imaginava. Por exemplo, um membro do Peixe Merga, ele não pode cruzar a perna na sua frente, ele não pode coçar a barba na sua frente.
Thalita do Valle: [42:44] É uma falta de respeito à mulher.
Eron Falbo: [42:45] Então os homens também têm que entrar na linha.
Thalita do Valle: [42:49] Tem, eles não podem olhar num espelho e você atrás. Eles têm as leis de respeito à mulher. Então eu achei muito diferente, porque você vai meio que assim, nossa, você tá indo pra um país, sei lá, mais muçulmano, mas lá tem muito católico também. Tem muito membro que nasceu lá que é católico, respeitava muito as religiões. Eles são um povo pacífico em relação à religião. Então, tanto com homens quanto com mulheres, pra mim, foi uma experiência...
Eron Falbo: [43:21] Mas a minha questão também era... Porque você falou que os peixe-merga, eles têm o domínio total lá, então é relativamente seguro no território deles, é isso que você está falando? Tipo assim, dependendo da favela que você for aqui no Brasil, você vai entrar lá e vai se sentir tenso porque não existe possibilidade de tiroteio, qualquer coisa assim. E em Israel também, se você for mais perto de Gaza, existe uma tensão maior. Lá nos lugares que você foi, sem contar a relação homem-mulher, você se sentiu, em termos bélicos, possibilidade de tensão militar mesmo. Como é que foi para você?
Thalita do Valle: [44:06] Para mim, assim, lá... Eu sabia os territórios que o medo maior, o perigo maior para mim como estrangeira, na verdade, era o estado ilâmico. Então, claro, eu não entrava em regiões que eram deles. Eles denominavam as regiões deles, tomavam essas regiões. Então, essas regiões eu não entrava, até porque eu seria o alvo maior. Porque uma estrangeira capturada por eles seria um troféu, um prêmio. Então, o pessoal até brincava, ó, pelo amor de Deus, sua mamãe acabe num macacão laranja, né? Porque era um macacão que o Estado Atlântico veste, né? Nossa Pessoa Antes da Morte, filma, faz aquelas coisas horríveis, né? Posta na internet, enfim. Arranca na cabeça da pessoa, essas coisas todas. Então, a parte mais perigosa mesmo eram as regiões que eram deles. Agora, o Iraque em si... Total, seja a Xia, que comanda uma outra parte do Iraque, eu como brasileira caminha em qualquer lugar, entendeu?
Thalita do Valle: [45:09] Eu fui pra fronteira, que era a parte só Iraque, pra Kirkuk, que é uma parte dominada só pelo Iraque, eu como brasileira eu não tive problema nenhum. Pelo contrário, eles vinham brincar assim, né? Ah, Brasil, futebol, sempre vinham assim, né? Com aquele, com aquela coisa do Maldito,.
Eron Falbo: [45:28] Neymar, Ou seja, normal, né? Tipo, ir pra uma cidadezinha. É, tipo assim, nossa, Brasil... Nordeste, sei lá.
Thalita do Valle: [45:39] Tipo, nossa, mulheres também jogam futebol lá. A nossa seleção também é muito boa, mas no Brasil a gente só não joga futebol, a gente faz também outras coisas. Óbvio que o nosso país é conhecido mundialmente por isso, mas as pessoas lá também têm outros tipos de emprego, aí eles brincavam, assim. Até a gente passou por uma tensão na fronteira, indo para Kirkuk, na fronteira do Iraque, que a Shia, que era essa milícia que tomava conta, a gente tinha que atravessar essa parte. E foi eu, general, e uma voluntária kurda holandesa. Nós estávamos atravessando e a gente foi abordado na fronteira. Então eles vêm já com fuzil, dez, quinze caras de fuzil, imagina. Odiando o nosso carro, gritando, pedindo pra gente abrir tudo, não sei o quê, né, e a gente também com armas no carro, enfim, e o general explicando, não, sou general Pechmerga, né, não sei o quê, e os dois meio que sentiam uma tensão meio discutindo, aí passaporte, passaporte, não sei o quê, né, e aí eu mostrei, quando eles viram escrito Brasil, eles já começaram, já mudaram a forma de falar com a gente.
Eron Falbo: [46:53] Isso é maravilhoso. A gente tem, apesar de qualquer coisa, uma coisa que a gente pode dizer de bom aqui do Brasil é que a gente faz muita merda politicamente, mas como povo a gente exportou uma alegria, exportou uma expressão muito positiva para o mundo. Mesmo que eles não conheçam tão bem, eles não falam uma palavra de português, conhecem através do futebol, Mas a gente já transmite uma energia do bem para as pessoas. As pessoas não falam criticando a gente. Tipo assim, se chegar um americano lá, vai ter mil coisas a dizer. Quase qualquer país lá vai ter... Mas o brasileiro em geral... Foi muito.
Thalita do Valle: [47:33] Engraçado que o general brincou até... Não te cortando, mas... O general brincou até e falou assim, nossa, fomos... Salvos pela brasileira, né? Brincou. A tia não enchia o nosso saco, senão a gente ia tomar uma canseira aqui até a noite, de repente umas coronhadas, sabe? Enfim. Mas a gente foi salvo pela brasileira, pelo futebol, aí todo mundo, né? No carro, eu, a Ulana e ele, brincamos, demos isada, e a gente passou o baile e disse, ah, deixa eles.
Eron Falbo: [48:02] Passarem, É capaz de um homem bomba desistir e começar a sambar, né? Ah, deixa pra lá.
Thalita do Valle: [48:09] Mais ou menos, mais ou menos. É que esse é um asia, né?
Eron Falbo: [48:15] É, eu sei. Não, eu tô dizendo que essa energia positiva contagia, né? E eu acho que a gente tem que fomentar isso. A gente tem que ver o que a gente tem de bom aqui no Brasil e... E turbinar isso, porque isso é uma coisa muito legal que a gente tem. É óbvio, sem tirar a visão do pão e circo, para a gente não se iludir e os nossos governantes não usarem a gente, mas que a gente sempre valorize essa alegria. Até a gente está vivendo esse momento aqui no Brasil que está tendo essa dualidade, Lula versus Bolsonaro, que está fazendo as pessoas ficarem muito antagônicas e está perdendo um pouquinho dessa espontaneidade, dessa alegria, dessa boa vontade que a gente tem um com o outro. As pessoas estão com o pé atrás. E eu acho que é importante a gente lembrar disso, o que faz o Brasil único. O que é ser brasileiro? Não é o Nordeste, não é o Porto Alegre, não é a Amazonas, é tudo muito diferente.
Eron Falbo: [49:17] Mas uma coisa que é sempre parecida é essa espontaneidade, essa alegria. E a gente tá jogando isso fora por causa de demagogos políticos que vão fazer a mesma merda que sempre fizeram.
Thalita do Valle: [49:28] É, eu penso igual também. Poderia ser um pouco mais, né, mais unir, mais humano um com o outro, independente da escolha de um e escolha de outro. A gente está se perdendo muito nesse caminho aí, né, referente a Lula, Bolsonaro. As pessoas estão se atacando muito, tá? Uma coisa assim, uma rivalidade muito extrema e a gente esquece que o Brasil é nosso, né, não é de políticos. Então, se for um, se for outro, é o que você falou, qualquer um que estiver lá vai fazer a mesma coisa, então a gente tem que olhar para o nosso país e nós como seres humanos, né? Entre aqui a nossa convivência e torcer para que venha alguém aí que faça alguma coisa melhor.
Eron Falbo: [50:09] Talita, acabou nosso tempo, a gente tem esse compromisso aí com uma hora de tempo, mas tem um milhão de assuntos aí que a gente já abriu, espero que a gente possa marcar outro momento de novo, a gente conversar mais, É sempre um prazer conversar com você, a gente tem sempre assunto. Antes da gente terminar, eu queria fazer uma última pergunta para você. E também te dizer, se você tiver alguma coisa, algum projeto que você esteja fazendo, alguma caridade que você queira divulgar, ou seu site, qualquer coisa que você quiser, se você quiser tomar esse tempo aí para alertar as pessoas, por favor, fique à vontade. Aí depois eu faço a pergunta.
Thalita do Valle: [50:49] Ah, obrigado. Então, agora, no dia 28 de novembro, a gente vai ter um evento em Osasco. Convidei o pessoal dos bombeiros, que eu já atuei, para levar roupa. Aquela cachorrinha que é cão-herói. E vai ter o pessoal da guarda, vai ter uma magistrada, minha amiga também, que inclusive ela é do Rio de Janeiro, que ela vai comparecer. Ela é uma ativista também da causa animal, que eu gosto bastante. A gente vai organizar um monumento em homenagem àquela cachorrinha que foi morta, a Manchinha, no Carrefour, em São Paulo. Então, a gente vai organizar esse movimento e a gente vai ter esse evento lá. E outras coisas também, óbvio, mas na próxima entrevista já vão poder falar também, né, sobre outros países aí. E é isso, aí você pode ir com essa pergunta porque aí eu vou, conforme as coisas vão surgindo, né, vão sendo efetivas mesmo, eu vou te falando.
Eron Falbo: [51:44] E você tem algum Instagram aberto, alguma conta para as pessoas poderem te seguir e se manter informadas?
Thalita do Valle: [51:52] Então, o meu Instagram atual, sempre quando eu viajo para outros países, como eu fui agora, eu sempre, eu tinha um que era grande, com milhões de pessoas, e aí eu tranco, na verdade, porque é uma questão mesmo de segurança. Aí eu estou com um Instagram pessoal só, que tem poucos seguidores, que ele é trancado, que é só família mesmo e amigos. Mas eu tenho uma conta no TikTok que eu posto um pouco a respeito, uma conta militar no TikTok, para o pessoal que quer conhecer um pouco esse meio e tudo.
Eron Falbo: [52:24] Ah, que bom.
Thalita do Valle: [52:25] É Tata do Vale, T-A-H, Tata do Vale com dois L.
Eron Falbo: [52:30] Ok, Tata do Vale, T-H-A-T-A-V-A-L-L-E, no TikTok.
Thalita do Valle: [52:36] Isso, é isso aí, está aberto, a pessoa pode ver um pouquinho sobre... Então,.
Eron Falbo: [52:40] Eu vou te fazer uma última pergunta. Alieta, se você pudesse ter uma varinha mágica ou todo o dinheiro do mundo e mudar alguma coisa no mundo hoje para melhorar, o que seria? Por quê?
Thalita do Valle: [52:54] Então, eu acho que eu mudaria, na verdade, A fome, né, que é uma coisa que é muito grave. Eu acho que o nosso país ainda tem muitos brasileiros aí em situação de rua, em situação de extrema fome. A gente passou por uma pandemia e a gente viu quantos mais brasileiros, né, estão nessa situação de fome. Então, eu mudaria... Nesse momento, eu mudaria isso, né, porque dói de ver que a gente tem muitas famílias aí na rua e passando por isso.
Eron Falbo: [53:30] Muito obrigado. Então é isso, Talita. Se você puder esperar dois minutinhos, só vou fazer um aviso para o Keal rapidinho e depois a gente se fala offline, pode ser?
Thalita do Valle: [53:40] Posso, é claro.
Eron Falbo: [53:42] Beleza, então obrigado. Obrigado pela sua participação, foi ótimo. A gente se fala.
Thalita do Valle: [53:46] Obrigada.
Eron Falbo: [53:48] Tchau, tchau. Beijão.
Thalita do Valle: [53:50] Tchau.
Episódio de No Alvo com Eron Falbo. Veja todos os episódios, Praise e Quotes.