Produtora cinematográfica
Renata Magalhães Almeida é produtora de cinema, envolvida com a obra de Vinícius de Moraes e a história da Rádio Fluminense.
Transcrição do áudio do episódio.
Eron Falbo: [0:00] Sejam bem-vindos, meus amigos. Aqui quem fala é o narrador de suas mais intensas emoções, Eron Falbo. Vamos sair dos nossos tempos agora. Existem sete artes. Arquitetura, escultura, pintura, literatura, música, performance e cinema. Agora vamos entrar na oitava arte. Eu não fui pra escola de cinema Eu fui pro cinema Diz Quentin Tarantino Tava deitado, dormindo, acordado Sem ter nada o que fazer Liguei o rádio no meio da noite O ritmo do som era pesado Subiu o volume e o vizinho gritou Aumenta isso aí que é rock and roll A meta é essa aí que é rock and roll Rock and roll Rock and roll Rock'n'Roll!
Eron Falbo: [1:20] Rock'n'Roll! Rock'n'Roll! Rock'n'Roll! Rock'n'Roll! Senhoras e senhoras, a criadora de mundos paralelos, Renata Almeida Magalhães! E aí, Renata, tudo bem?
Renata Magalhães Almeida: [1:45] Tudo bem, querido.
Eron Falbo: [1:47] Seja bem-vinda.
Renata Magalhães Almeida: [1:48] É um prazer estar aqui com você, ainda mais começando com essa música, que é o título do meu novo filme, que está para ser lançado quando a pandemia deixar.
Eron Falbo: [1:58] É, eu não tinha certeza se... Eu imaginei que era por causa disso o título do filme.
Renata Magalhães Almeida: [2:04] É, imagina, Celso Blues Boy é um... Uma pessoa essencial na história do rock brasileiro e da Rádio Fluminense, que é o filme que... Ficção que eu estou fazendo, baseada na rádio.
Eron Falbo: [2:20] Ah, é ficção? Essa era uma das minhas perguntas.
Renata Magalhães Almeida: [2:23] Ah, gente, ficção. Eu adoro ficção. Apesar de adorar documentário, mas a minha praia é ficção. O filme é baseado no livro do Luiz Antônio, que foi o fundador da rádio em 82, e criador, enfim. E daí eu comprei o livro dele e a gente romanciou a história dele. Então, alguns fatos são totalmente verídicos e outros não para servir a boa dramaturgia.
Eron Falbo: [2:53] Eu vi que é com Raoni Seixas. Tem alguma coisa a ver com Raoni Seixas?
Renata Magalhães Almeida: [2:58] Não, não. O filme é... O papel do Luiz Antônio, que é o protagonista, é feito pelo Jhonny Massaro. Não tem o Raoni Seixas, não? Não, o Raoni Seixas, ele é uma pessoa, enfim, que eu conheço desde os 18 anos. Ele é ator e ele também é produtor de elenco. E o Raoni faz uma ponta no filme.
Eron Falbo: [3:18] O que eu vi lá nos créditos, eu achei que, de repente, tinha algum parente do Raon Seixas.
Renata Magalhães Almeida: [3:24] Não, o Raoni, sei lá, acho que a mãe dele gostava já do cacique Raoni.
Eron Falbo: [3:30] Entendi, ele é bem...
Renata Magalhães Almeida: [3:32] É, ele é bem ali daquela época.
Eron Falbo: [3:37] Entendi. Então, é isso. Esse é o filme que você está fazendo... É o mais recente, que ainda está em pós-produção, é isso?
Renata Magalhães Almeida: [3:47] Está em pós-produção. Na realidade, o filme está pronto. A gente está negociando as músicas, que você pode imaginar que serão muitas. Mas, enfim, com toda calma, porque o filme... Ele começa em 82, que é quando a rádio é fundada, e o filme acaba no primeiro Rock in Rio, de 1985, que logo depois o Luiz Antônio saiu da rádio. Enfim, quando comprei o livro, em 2011, eu estava querendo fazer um filme sobre a minha geração. Eu vivi aquilo muito de perto. E vou te falar que o único Rock in Rio que fui foi o primeiro, porque foi tão bom.
Eron Falbo: [4:30] Em 85.
Renata Magalhães Almeida: [4:31] 85, Que eu fiquei com medo de repetir e nunca mais ser tão legal como foi aquele ano.
Eron Falbo: [4:36] Esse foi o que o Freddie Mercury foi, não?
Renata Magalhães Almeida: [4:38] Foi, exatamente. E ali de 82, 85, a gente tem que se lembrar que o Brasil estava realmente saindo da ditadura militar. 82 É o primeiro ano que tem eleições diretas para governador.
Eron Falbo: [4:53] Imagina, porque nesse momento estava muito liberalismo no Brasil.
Renata Magalhães Almeida: [4:56] Nossa, tudo ia dar certo em 82, sabe?
Eron Falbo: [5:00] Muita esperança, né?
Renata Magalhães Almeida: [5:01] O time de futebol era maravilhoso, perdeu para a Itália a podera.
Eron Falbo: [5:05] Era o tio Zico, cara.
Renata Magalhães Almeida: [5:06] Não, era tudo lindo, não tinha nem AIDS, não tinha camisinha.
Eron Falbo: [5:10] Ainda não tinha AIDS, é mesmo?
Renata Magalhães Almeida: [5:11] Não tinha, era a mensagem colorida.
Eron Falbo: [5:12] Tinha sexo lindo, sexo lindo, imagina.
Renata Magalhães Almeida: [5:14] Era sexo, droga de rock and roll.
Eron Falbo: [5:16] Eu quero me mudar para esse ano aí do rock. E você era muito do rock, não? Você era do rock'n'roll?
Renata Magalhães Almeida: [5:24] Não posso dizer que eu era tanto do rock, apesar de ser ouvinte da Rádio Fluminense, mas eu gosto de música. E a Rádio Fluminense, quando ela surgiu, era uma coisa totalmente fora da caixinha, né? Primeiro que foi a primeira rádio só de rock'n'roll, não que as outras não tivessem. Imagina, o Big Boy na rádio mundial foi também uma coisa importantíssima, mas uma rádio dedicada só ao rock and roll foi a primeira. E era tudo que vinha junto, a reverência do rock'n'roll, o lado marginal do rock'n'roll, ao lado de uma abertura política já consagrada. E o Circo Voador, e o Ozdruble. 82 É dar tudo certo na nossa vida, gente.
Eron Falbo: [6:19] Você é a primeira pessoa a me dizer isso. Eu estou achando um ponto de vista muito legal e acho que tem pouca exploração disso, de fato. No filme, você retrata essa ideia, esse conceito de que o mundo prometia no Brasil, o Brasil prometia, mas aquele mundo brasileiro daquela época era um Brasil promissor de esperança.
Renata Magalhães Almeida: [6:43] Olha, o negócio de fazer cinema tão louco demora tanto, Quando comprei o livro foi em 2011. A gente estava longe de estar num momento político parecido com o que a gente está vivendo hoje. Então, quando procurei Luiz Antônio, achei que estava fazendo um filme sobre a minha geração e que era um pouco uma mistura. Porque a rádio teve uma coisa muito bacana que eu queria, de alguma forma, passar, que era um projeto de turma. Então eu achava assim, vou fazer um filme sobre a minha geração, que é um pouco a mistura do Menino do Rio, que era um filme de turma, com o Bad Balanço, que era um filme musical. Então, achei que estava fazendo isso. Mas tudo demora tanto. A gente filmou em 2018. E já ali com a iminência do presidente eleito ser eleito.
Renata Magalhães Almeida: [7:46] Conforme ele foi eleito. E aí, enfim, a gente ficou sem dinheiro. Vários problemas na minha vida pessoal muito difíceis. Eu perdi minha filha, que fez esse filme, que eu amo que ela tenha conseguido fazer, foi o último trabalho dela como atriz. Enfim, deixei um pouco para lá, tinha medo de ir para lá. Quando fui ver o filme, foi... No começo da pandemia do ano passado.
Eron Falbo: [8:20] Sim, aí todo mundo inteiro mudou. Esse processo de pós-produção deve ter sido difícil de realizar.
Renata Magalhães Almeida: [8:27] Até que não, porque a pós-produção é uma coisa que você pode fazer virtualmente, realmente. Mas quando eu vi o filme ordenado, vamos dizer assim, não era o corte final, eu disse assim, caramba, a gente fez um filme superpolítico. Daí eu liguei para o Johnny Massaro e disse, caramba, Johnny, A gente fez um filme que é um recado para o Brasil de hoje, um recado no sentido de que a gente pode mudar o país. A gente não precisa ser refém...
Eron Falbo: [8:57] É uma coisa de esperança, né?
Renata Magalhães Almeida: [8:59] A gente não precisa ser refém de um sistema, a gente pode mudar esse sistema.
Eron Falbo: [9:04] Muito bom, muito bom.
Renata Magalhães Almeida: [9:05] E o Johnny me respondeu assim, mas Renata, a gente tinha consciência disso quando a gente estava rodando. Mas pensa que quando eu comprei em 2011, Eu jamais pensei que estava fazendo um filme político. E o filme, só para a gente acabar um pouco esse bloco, o filme acaba no Rock in Rio de 1985, como eu te falei, com um show do Barão Vermelho, com o Cazuza cantando Para o Dia Nascer Feliz, porque naquele dia o Tancredo Neff tinha sido eleito pelo Colégio Eleitoral e seria nosso primeiro presidente civil depois de mais de 20 anos de ditadura militar. Enfim, agora eu estou segurando o filme porque eu preciso ver esse filme nas salas de cinema, não quero lançar ele no streaming, sabe? Não só porque eu acho que ele tem um potencial comercial grande, como eu acho que eu não posso ser privada depois de tantos anos nesse projeto.
Renata Magalhães Almeida: [10:11] De ver as pessoas saindo da sala de cinema, cantando um dia nascer feliz...
Eron Falbo: [10:20] E vai rolar mesmo, porque é um pão, todo mundo adora essa música.
Renata Magalhães Almeida: [10:23] E a gente pode mudar o mundo, se a gente tiver fim. A gente não precisa ser refém do sistema.
Eron Falbo: [10:31] Vamos acabar a entrevista, que é um final perfeito. Eu imaginei isso muito bem. Mas é uma coisa que... Agora eu esqueci o que eu ia te perguntar. Ah, não, eu ia te falar na verdade. Antes da gente começar isso, eu queria brindar. Você tá com um vinho aí ou não?
Renata Magalhães Almeida: [10:50] Ai, mas é claro. Imagina. Brindando sempre. Cheers!
Eron Falbo: [10:54] Deixa eu botar o meu aqui só um segundinho. Um brinde ao... Aumenta que isso... Aumenta que é Rock and Roll? Como é o nome?
Renata Magalhães Almeida: [11:08] Aumenta que é Rock and Roll.
Eron Falbo: [11:10] Aumenta que é Rock and Roll e o sucesso nos cinemas.
Renata Magalhães Almeida: [11:13] Obrigada. O apelido dele é Aumenta. Viva o Aumenta.
Eron Falbo: [11:18] Working Title, aquela coisa no cinema. Tem que ficar falando o tempo todo.
Renata Magalhães Almeida: [11:22] Então é isso. A gente está programando te lançar no verão de 2021. É... Tomara que a gente esteja vacinado e que a gente consiga ver as pessoas de volta às salas e aos teatros e aos shows.
Eron Falbo: [11:43] Tomara que a gente, como eu postei no Instagram recentemente, a gente viva num mundo sem Covid, sem Lula e sem Bolsonaro.
Renata Magalhães Almeida: [11:53] É, eu quero que a gente viva num mundo mais solidário.
Eron Falbo: [11:58] É, eu também acho. Independente se você é a favor de Lula ou se é a favor de Bolsonaro, eu acho que essa dualidade de um, sabe, essa coisa de polarização no Brasil, já ninguém aguenta mais. Até as próprias pessoas que são a favor de um do outro já estão falando, pô, qual a alternativa, assim, porque, pô, vamos...
Renata Magalhães Almeida: [12:16] É, vamos atrás da terceira vez.
Eron Falbo: [12:17] Muito preto e branco, né?
Renata Magalhães Almeida: [12:18] Quer dizer, sei lá, eu, pessoalmente, no meu pequeno papel, Eu quero muito que a gente não tenha um segundo turno tão radicalizado. E o sonho da minha vida é que o Bolsonaro se imploda em frente a nós, ao vivo. Não precisa nem de impeachment, ele não chega ao segundo turno pra gente não ter que ser obrigada a escolher entre dois polos tão radicais.
Eron Falbo: [12:47] Que os alienígenas que trouxeram ele pra Terra venham buscar ele do nada, né?
Renata Magalhães Almeida: [12:51] É, porque olha só, o mundo não é assim, o mundo não é radical. Sempre que o planeta foi melhor, é no caminho da conciliação, da terceira via, do diálogo, enfim. E do respeito que a gente tem que ter pela liberdade do outro.
Eron Falbo: [13:14] Absolutamente. E o seu filme vai ajudar a catalisar esse momento novo no Brasil, seja ele qual for. Eu queria te dizer que eu andei olhando sua filmografia, não sei se fala assim, e cara, eu sou uma daquelas pessoas meio alienadas, meio mimadas, que cresceram em escola americana, com uma cultura meio fora do Brasil e eu assisti pouquíssimos filmes brasileiros, apesar de adorar cinema, sou cinéfilo pra caramba. E dos filmes que eu mais gostei, talvez 80% você produziu.
Renata Magalhães Almeida: [13:48] Olha que bom!
Eron Falbo: [13:50] Isso eu achei uma coisa engraçada. Outra coisa que eu adoro também é mitologia, especialmente mitologia grega. E o Orfeu, aquele lá com o.
Renata Magalhães Almeida: [14:01] Qual é o nome? Tony Garrido. Tony Garrido, exatamente. Eterno Orfeu.
Eron Falbo: [14:06] Esse aí me impactou bastante, porque eu era músico, eu era amante de mitologia, amante de cinema, isso aí foi uma coisa que me captou bastante. Então, eu queria entender um pouquinho, se você puder me elucidar, sobre a criação dessa ideia, da produção que vocês fizeram dessa ideia e tudo mais.
Renata Magalhães Almeida: [14:34] Olha, o Orfeu é um daqueles filmes que têm história, não é? E é uma história muito particular do Cacá. Primeira vez que ele saiu com o pai dele, com 16 anos, ele foi ver o Orfeu no Teatro Municipal. A montagem teatral, com cenários do Oscar Niemeyer e músicas de Tom e Vinícius, que inaugurou essa parceria que faz do Brasil um país especial. Só ter essa parceria, nascida aqui nesse país tropical, já faz a gente pensar que a gente tem um lado muito bacana. Enfim, o Cacá tinha essa coisa afetiva com essa peça. E quando o filme do Camiso Orfeu Negro foi lançado, em 59, foi a primeira vez que o Rio foi filmado em cores.
Eron Falbo: [15:26] Mas se a gente pudesse só voltar um pouquinho para a peça em si, vocês descobriram ela como? Vocês chegaram nela... Ou também se você souber um pouquinho, de repente não é a sua área, mas você sabe um pouco de como foi a concepção dessa peça?
Renata Magalhães Almeida: [15:47] O Vinícius quis fazer uma adaptação do mito de Orfeu, que é o músico, o semideus da música, lendário e tal, para o Morro Carioca. Escreveu essa peça, Orfeu da Conceição, porque a peça se chamava Orfeu da Conceição. Foi posto em contato com o Tom para musicar, Era um musical... A peça é só do Vinícius. A peça... Não, entendi.
Eron Falbo: [16:24] A peça é do Vinícius, mas eles se conheceram através dessa peça?
Renata Magalhães Almeida: [16:27] Eles se conheceram através dessa peça.
Eron Falbo: [16:29] É mesmo. E aí, Ita, é isso que eu queria chegar a ti.
Renata Magalhães Almeida: [16:31] É, isso foi em 56. E a peça foi um escândalo, imagina. Um elenco negro, com cenários de Oscar Neymar, Fritsch, Moraes, Tom Jobim no Teatro Municipal. Foi um escândalo, imagina!
Eron Falbo: [16:47] O cenário de Oscar Niemeyer eu não sabia da sua não, quero.
Renata Magalhães Almeida: [16:49] É, não.
Eron Falbo: [16:49] É poderoso. Sabia que eu fiz a pergunta certa para a pessoa certa.
Renata Magalhães Almeida: [16:53] E o Cacá tinha essa memória afetiva, porque ele foi ao Teatro Municipal com o pai dele nesse dia, a primeira vez. Então, isso ficou aí fora o quê? O encanto de ver uma coisa que você nunca tinha visto, naquele palco nobre, cheio de cortina vermelha, uma música que você nunca tinha ouvido, com uma adaptação de um mito grego para a favela carioca. Realmente, a matéria de originalidade estava incrível. Enfim, e o Cacá. Talvez até o Cacá tenha que fazer cinema por causa disso, até porque o tema negro na filmografia do Cacá é muito presente desde o primeiro filme, que foi Ganga Zumba. Enfim, daí, em 1959, Camille, cineasta francês, Vinícius vende os direitos da peça para o Sacha Gordini, que era na época um grande produtor francês, que produz o Orfeu Negro, um filme com uma atriz americana, o Orfeu era o jogador de futebol do Fluminense, meu time, inclusive, com músicas de Vinícius e Tom, outras que não estavam na peça, por exemplo, a de Carnaval, que é do Luiz Bonfá, não estava na peça, só estava no filme.
Renata Magalhães Almeida: [18:12] E esse filme foi não só a primeira vez que se mostrou o Rio em cores para o mundo, como foi um filme que ganhou a Palma de Ouro e o Oscar de filme estrangeiro. Foi um marco, evidentemente, do conhecimento do Brasil ali, do Rio, no final dos anos 1950, para o mundo, ainda mais à cores.
Eron Falbo: [18:34] Eu, na verdade, nem sabia que tinha filme, desculpa a ignorância.
Renata Magalhães Almeida: [18:38] Ah, não, esse filme foi importantíssimo, foi importantíssimo mesmo. E o Vinícius, quando vendeu os direitos da França, vendeu pro ré da vida, não queria mais nem saber, enfim, duro, deve ter botado o dinheiro no bolso e tchau, benção. E ele odiava o filme. Essa é uma boa fofoca. O Vinícius não gostava do filme. Achava caricato, clichê etc. E, assim como Vinícius, vários, incluindo o Cacá, que era um fã da peça, achou aquilo ali uma traição a tudo que a peça significava.
Eron Falbo: [19:13] Ah, então o Cacá era mais fã da peça e também achava que o filme era mais ou menos...
Renata Magalhães Almeida: [19:18] Não gostava do filme. Então isso deve ter ficado ali na cabecinha dele, foi-se bilhares de anos. Quando ele apresentou o Bye Bye Brasil em Cannes, e o Bye Bye Brasil é sem dúvida nenhuma o maior sucesso do Cacá fora do Brasil, a Gomont que é uma produtora, exibidora e distribuidora francesa a maior de todas naquela época sem dúvida.
Eron Falbo: [19:44] Não acredito que está falando isso. Eu morei em Londres quatro anos no prédio chamado Goumon e eu nunca procurei essa produtora. Tipo assim, informações sobre o seu produtor eu não enchei em lugar nenhum na internet. Aí você tá me falando esse nome agora, é inacreditável.
Renata Magalhães Almeida: [20:02] Não, a Gaumont é... Acho que até hoje é a maior rede de exibição na França, é uma distribuidora importante, enfim...
Eron Falbo: [20:10] Ah, então porque era na França... Não, porque eu tava na Inglaterra...
Renata Magalhães Almeida: [20:12] É, não, ela é francesa. A Gaumont é francesa e é uma potência do cinema francês. Quando acabou o festival, O presidente da Gomorra, na época, procurou o Cacá e falou assim, qual o filme que você quer fazer? Qualquer um. Ele disse que queria refazer o Orfeu, porque aquele filme ali não tem nada a ver com o Orfeu que eu vi, com o Orfeu que o Vinícius escreveu. Só que o Vinícius ainda era vivo. Isso foi em 1980, foi em maio de 1980, porque Cânia é sempre maio. O Vinícius morreu em julho de 1980. Então, o Cacá ligou para o Vinícius, o Vinícius falou, ok, que maravilha, vamos fazer, sei lá o quê, o Cacá ali naquela coisa, lançando filme. Para as pessoas mais jovens, talvez seja esquisito, mas quando você estava fora do Brasil, as notícias não chegavam. As ligações telefônicas eram uma fortuna, não tinha internet, evidentemente, e os jornais chegavam.
Eron Falbo: [21:09] Até hoje é assim, by the way, mas depois a gente fala sobre isso.
Renata Magalhães Almeida: [21:12] Dois, três dias depois. Então, quando você voltava no avião da Varig, você sentava lá e tinha um jornal de três dias atrás que você se agarrava, como se aquilo fosse realmente a sua volta à casa. Então, o Cacá ligou para o Vinícius, ok, vamos refazer, foi lá viajar, o que tinha que fazer. Na volta, pegou o avião da Varig, o jornal... Puxa, o Vinícius morreu. E aí ele ligou pro Tom e disse, porra, Tom, cacete, eu tava ali, o Agomom me ofereceu o filme que eu quisesse, eu queria fazer o Orfeu, já tava tudo certo com o Vinícius, aí eu pego o avião e vejo que o Vinícius morreu. Daí o Tom fala assim pro Cacá, esse poeza é a Cacá, o Vinícius não é de confiança, a gente dá uma voltinha, ele vai, pum, morre.
Eron Falbo: [22:01] Não é a primeira vez.
Renata Magalhães Almeida: [22:04] E aí o Orfeu voltou pra caixinha. Voltou para a caixinha, porque daí eram direitos. Enfim, daí tinha esse contrato com os franceses complicadíssimo. Então daí ele fez o Quilombo com a Gomont. Eu adoro o Quilombo, mas para mim o Quilombo é o musical comunista da meia-truta ou piniquim. Mas eu amo, e acho que tem uma das mais belas trilhas sonoras do samba brasileiro, composta pelo nosso mestre Mór Gilberto Gil. É incrível aquela trilha. Ah, procura, porque é foda de boa. Tem no Spotify, é Gilberto Gil com Alice Salomão.
Eron Falbo: [22:44] Não, eu falo o filme.
Renata Magalhães Almeida: [22:45] O filme é mais atriz. Tem um disco, o disco é incrível, é tudo música de Gil e letra de Alice Salomão. É uma obra-prima do cancioneiro brasileiro, acho. Bom, daí voltou o Orfeu para a caixinha, milhares de filmes vieram, etc. Quando a família do Vinícius disse que eles tinham recuperado os direitos.
Eron Falbo: [23:13] E aí... By the way, só um parêntese rápido, eu entrevistei a neta do Vinícius, que é...
Renata Magalhães Almeida: [23:19] A Maria? Não, a Maria é filha.
Eron Falbo: [23:23] Não, a Maria é neta, não?
Renata Magalhães Almeida: [23:25] Tem Maria filha e tem Maria neta. Tem Maria filha.
Eron Falbo: [23:28] Porque ela é a última filha, né?
Renata Magalhães Almeida: [23:31] É a caçula, é.
Eron Falbo: [23:32] Porque ela é nova para ser filha do Vinícius.
Renata Magalhães Almeida: [23:36] Imagina.
Eron Falbo: [23:37] Vinícius.
Renata Magalhães Almeida: [23:39] É porque o Vinícius também, né? O Vinícius morreu relativamente jovem, acho que ele morreu com 67 anos.
Eron Falbo: [23:47] É, mas a filha, a Maria.
Renata Magalhães Almeida: [23:49] É a Maria. É a Maria que hoje toma conta das coisas do Vinícius.
Eron Falbo: [23:54] Eu tive várias conversas sobre o Vinícius e detalhes.
Renata Magalhães Almeida: [23:58] É, e daí, enfim, quando essa confusão acabou, que a família recuperou os direitos dos franceses, porque na França, a legislação dos direitos autorais na França proíbe, aliás, como a brasileira, que é muito baseada na legislação francesa de direitos autorais, proíbe a cessão dos seus direitos autorais ad aeternum, para sempre.
Eron Falbo: [24:25] Só um outro parêntese rápido. Você também é especialista em incentivo fiscal.
Renata Magalhães Almeida: [24:33] Eu tenho o lado da advogada.
Eron Falbo: [24:35] Então, legal. Só para o público entender o porquê que ela fez essa questão tão técnica, né? Tipo, intervenção técnica.
Renata Magalhães Almeida: [24:44] É, não, é porque... Não, ainda mais hoje que é o mundo do YouTube, enfim. Dos direitos autorais tão expostos. É sempre bom a gente lembrar que são entendimentos diferentes. Por exemplo, a indústria americana tem outro entendimento da sua criação autoral, apesar de o direito autoral ser uma coisa inalienável. Nem nos Estados Unidos você pode alienar o direito, por exemplo, que você tem de assinar a obra que você fez. Enfim, mas hoje é um assunto até que se a gente quiser, mas eu acho que não é o ideal.
Eron Falbo: [25:25] Eu quero, só não quero te atrapalhar. Mas esse assunto eu acho muito interessante.
Renata Magalhães Almeida: [25:30] Porque é um assunto que está batendo na porta, por exemplo, de streamings. Porque você vai lá, entrega o seu projeto, que é seu, que você criou e quem é dono é o canal, não é você. E não tem hoje no Brasil nada que proteja, nem o autor, nem o produtor, ninguém de proteger o seu maior ativo, que é a sua criação artística.
Eron Falbo: [25:56] Agora que a gente entrou nisso, foda-se, vamos entrar nessa tangente. O jeito que eu vejo o mundo é o seguinte, que é uma selva, é uma guerra constante entre vários fatores. Eu sou formado em music business na Inglaterra, sou formado em business voltado para a indústria fonográfica especificamente, então eu também tenho um pouquinho de conhecimento. Sobre essa parte de direitos autorais, que é licenciamento em termos de música e eu esqueci o nome do compositor, mas tinha um compositor judeu na Itália que foi o primeiro caso de direitos autorais da história que ele pegou um rabino que escreveu uma maldição na partitura da música, ele escreveu uma maldição para quem copiasse aquela pessoa, seria muito ruim, em termos eternos, para quem copiasse aquela partitura.
Renata Magalhães Almeida: [26:59] Ia ganhar uma...
Eron Falbo: [27:01] Eu não lembro... Uma praga eterna. Eu ia ganhar alguma coisa de acontecer de noite com a pessoa.
Renata Magalhães Almeida: [27:08] Mas essa discussão está tão em pauta que... O Paul McCartney hoje está liderando um movimento internacional enorme para arrecadação dos direitos autorais nas redes.
Eron Falbo: [27:26] Mas ele tem aquela dúvida, porque se você é o consumidor daquela arte, você pensa, eu como consumidor quero que seja o mais livre possível, porque também está tendo um monte de problema, por exemplo, eu queria assistir um documentário antes de ontem, Eu não vou lembrar o nome, é daquela ginasta russa, que eu não sei se você chegou a ver, é um documentário que ganhou vários prêmios.
Renata Magalhães Almeida: [27:48] É, eu fui falar no final.
Eron Falbo: [27:49] E no Brasil não existe, não tem como, não tem lugar nenhum. Todo lugar que você for procurar na sua região está proibido, entendeu? Aí, cara, não existe, não tem. Aí, tipo, o que eu fiz? Eu fui lá no Torrent e baixei o documentário.
Renata Magalhães Almeida: [28:06] Foi uma pirateada básica.
Eron Falbo: [28:08] É, eu tô feliz em pagar. Entendeu? Mas o lance que às vezes não estão sofisticados o suficiente para...
Renata Magalhães Almeida: [28:16] Eu acho que no Brasil há uma coisa aqui que é uma falta de regra em relação a isso, porque por exemplo, hoje já existe, algumas empresas fazem, aquilo chama de fingerprint, que é você, enfim, você põe ali a sua digital naquele produto E se ele é pirateado...
Eron Falbo: [28:37] É só o pessoal entender, é tecnologia para poder identificar aonde aquela coisa está sendo reproduzida, seja música ou vídeo, com semelhança. Se tocou aquelas frequências sonoras naquela ordem, ou se separeceu aquelas pixels naquela ordem, a tecnologia... Dá um red flag e cobra aquela pessoa. É assim que no YouTube eles falam, você não pode postar esse vídeo porque é casa blanca, porra.
Renata Magalhães Almeida: [29:09] Mas é exatamente isso, quer dizer, na realidade você tem essas grandes empresas que põe essa marca digital, vamos dizer assim, e você tem duas opções, ou você tira aquilo do ar ou você monetiza o produtor e não o pirata. Porque o único problema do pirata é que alguém está ganhando dinheiro que não é o cara que fez aquilo ali.
Eron Falbo: [29:29] Exatamente, é isso que eu queria enxergar. Direitos autorais é uma briga de influência. Eu acho que muita gente vê como... Não, é um direito divino. Mas eu acho que é importante ver que não é nem 80 em 80, inclusive eu tenho uma conversa muito boa com o Fábio Pimentel, que é advogado de vários artistas, artistas gigantescos, que eu não posso falar porque ele me falou em off, mas eu não posso dizer quem é, mas artistas gigantescos e ele é especialista em direitos autorais. E ele até foi a primeira pessoa a me convencer de que até existia uma razão para existir Direitos Autorais. Porque eu normalmente sou meio pirata, meio assim, porra. Cara, o importante é a galera ter cultura e desenvolver. E sinceramente, para mim, a razão primordial que é importante é servindo de motivação de criação de novas obras para os artistas. Porque, no final das contas, se você tirar isso, os artistas têm que estar sempre performando e eles não têm motivação de criar obras eternas.
Eron Falbo: [30:35] Eles só têm motivação de criar funk carioca, sacou? Porque eles que vão lotar o show...
Renata Magalhães Almeida: [30:41] É, eu acho que tem várias questões embutidas aí, né?
Eron Falbo: [30:44] Ok, vamos lá.
Renata Magalhães Almeida: [30:45] É muito... É muito... É claro que todo mundo quer ver o que você faz, né? Quanto mais gente ver, é melhor. Evidentemente, mas quando você também acha que o que você faz não tem um valor tangível, também é muito complicado, né?
Eron Falbo: [31:10] Não te motiva, né? Porque é muito trabalhoso, ser artista é muito, muito trabalhoso.
Renata Magalhães Almeida: [31:16] E é da onde a gente vive, senão qual é... Enfim, se o filme fizer dinheiro ou não fizer dinheiro, qual é a diferença para mim, se dá no mesmo, entende? É claro que você não é obrigada a fazer filmes de sucesso sempre, é sempre um grande mistério. A Paula Lavigne, com quem eu produzi O Orfeu falou assim, antigamente os filmes entravam na sexta-feira. O... Eu acho que quinta-feira deve ter vários fantasmas que entram nos sonhos das pessoas e mandam as pessoas irem ver determinados filmes e outros não, porque é muito misterioso. Hoje você tem o mercado com o seu primeiro fim de semana, ou você vai ou não vai, enfim. E é um mistério, nem sempre você consegue identificar. Sei lá, eu fiz um filme que eu achava que era super comercial, dirigido pelo Wilker. Que era o Giovanni Prota, que não foi comercial. Em compensação, Deus é Brasileiro, que teve até aposta.
Eron Falbo: [32:14] Isso é a pior coisa, né? Tipo assim, você faz, pô, eu fiz tudo direitinho, by the book.
Renata Magalhães Almeida: [32:18] Pô, achei ali, puxa, foi na fórmula, não deu. O Deus é Brasileiro, que era um filme que ninguém acreditava muito, ninguém entendia direito, só que era um filme que me rende até hoje.
Eron Falbo: [32:29] Foi por causa do piercing. Como é que fala? O cara tem o piercing. Eu lembro até hoje isso, cara. Eu só vi uma vez, eu vi no cinema. Eu vi quando lançou no cinema e eu lembro até hoje dessa piada.
Renata Magalhães Almeida: [32:45] Você sabe que eu tenho uma história ótima desse filme.
Eron Falbo: [32:48] Manda, manda. Outra tangente. Vamos na tangente.
Renata Magalhães Almeida: [32:51] Que vai bom. Foi o primeiro filme do Wagner enquanto protagonista, que já fez uma... Uma ponta no filme do Valtinho Salles abriu despedaçado. Mas, enfim, era o primeiro papel de protagonista. A gente tinha visto ele na máquina, Wagner, Gene e tal, mas Wagner tinha uma pinta no queixo. E eu falei assim, Wagner, está tudo ótimo, mas a gente vai ter que tirar essa pinta. Como assim, minha pinta? Ele disse, não, não, olha só, uma pinta, que é o rosto, você é um... Pode ter uma pinta no rosto, um ator não pode ter uma marca dessa no rosto. Enfim, não pode. Daí ele começou a sofrer. Eu vou pagar para você tirar a pinta. Eu vou lá no Carlos Fernando Gomes de Almeida, que é um supercirurgião plástico, que eu acho que todo mundo conhece, e ele vai tirar essa pinta e você vai ficar sem pinta. Você não pode ter essa marca no rosto, você não pode. Só deixa eu pensar.
Renata Magalhães Almeida: [33:52] Ele sofre. Ele ficou sofrendo uma semana e eu tirei a pinta de vagabundo. Uma semana atrasada, ele ficou com uma marquinha aqui, porque se ele tivesse feito quando eu falei...
Eron Falbo: [34:04] Eu não sabia, eu não sabia que.
Renata Magalhães Almeida: [34:06] Ele tinha uma... Porque logo depois a gente...
Eron Falbo: [34:08] Mas ele não tinha feito filme nenhum antes, né?
Renata Magalhães Almeida: [34:11] Ele tinha feito esse filme do Walter Salles, aquele despedaçado.
Eron Falbo: [34:14] Não entendi a ordem, desculpa.
Renata Magalhães Almeida: [34:16] Que ele fez, mas ele faz uma ponta onde ele ainda tem a pinta. A partir do Deus ele não tem mais pinta e era uma coisa sensacional porque como a gente filmou em muitos estados, a gente tinha muitas pré-estréias, até contratualmente.
Eron Falbo: [34:34] Você tem noção que eu nem lembrava que Deus é Brasileiro era com Wagner Moura?
Renata Magalhães Almeida: [34:38] Wagner Moura, Antônio Fagundes e Pauluno Duarte.
Eron Falbo: [34:40] Eu lembro que o Antônio Fagundes era famoso na época.
Renata Magalhães Almeida: [34:44] O Wagner ninguém sabia, gente. Olha só, o Wagner chegava nas pré-estrelas, e foram muitas, porque, como a gente filmou em vários estados, tinha compromisso de pré-estrelas nesses estados que a gente filmou, desde Tocantins a Pernambuco, Alagoas, enfim. E o Wagner, ele até... Ninguém vai, assim, não, Wagner, põe a camisa bonita. Não, ninguém me conhece, ninguém vai tirar foto, assim, não, Wagner, imagina. E ele entrava sempre ali meio cabisbaixo no começo da sessão, no final da sessão era um mundo em cima dele. E enfim, foi uma... Foi muito legal acompanhar.
Eron Falbo: [35:22] Cara, eu adoro ele. Cara, eu adoro ele. Ele é tão carismático.
Renata Magalhães Almeida: [35:25] Essa trajetória, assim, do Wagner.
Eron Falbo: [35:28] Ele brilha, assim, pra mim ele é uma espécie de Leonardo DiCaprio brasileiro, assim. Que ele, quando entra em cena, o carisma é automático. É uma coisa, assim, cativante, é uma coisa que ele te conquista, sabe? Ele é realmente uma super estrela e vocês, assim, por ter identificado isso e colocado ele numa posição de personagem principal, sendo que ele não tinha feito isso antes, é um gigante achado.
Renata Magalhães Almeida: [35:57] Mas acho que o cinema tem essa liberdade. Acho muito bom quando o cinema brasileiro põe na tela caras que a gente ainda não conhecia. A própria Sônia Braga é uma pessoa que veio do cinema. Adoro isso. Adoro quando a gente acha essas novidades. A Fernanda Torres foi descoberta, sei lá, aos 16 anos, pelo Walter Lima Júnior, num belo e lindíssimo filme Inocência.
Eron Falbo: [36:32] Que ela ficou pelada, não?
Renata Magalhães Almeida: [36:33] Não, não ficou pelada nada. Ela ficava com uma camisola branca, era uma coisa linda. Ela e Edson Celulari, com borboletas, tudo aqui filmado na Floresta de Chuca, uma beleza.
Eron Falbo: [36:44] Eu lembro, eu vi esse filme também.
Renata Magalhães Almeida: [36:48] Esse eu não produzi não, foi barreto.
Eron Falbo: [36:50] Você produziu uns 20% que você não produziu. Voltando para a questão do Orfeu, como é que foi? Eu queria saber em termos técnicos mesmo de produção, vocês criarem aquele climão mitológico, aquela parada onírico, aquela coisa de você entrar num mundo paralelo. É isso que eu senti, se é isso que vocês querem.
Renata Magalhães Almeida: [37:22] Totalmente, a gente está aqui para fazer mundos paralelos, né? E o Orfeu é um prato cheio para fazer mundos paralelos. No Orfeu, acho que teve ali uma soma... Somas que são sempre meio por acaso, porque se não programa essas coisas, essas coisas meio que acontecem, como o próprio Orfeu, que demorou tantos anos para ser feito na vida do Cacá, na vida do desejo fílmico dele, vamos dizer assim. E ali, quando o projeto começou, várias coisas estavam acontecendo. A Viradora apareceu com uma batida funk, O Joãozinho, 30, tinha reaparecido na Viradouro. Eu e Paula, a gente tinha feito uma parceria incrível no Tieta, que eu não produzi, mas que a gente acabou, eu e ela, ajudando, porque o maior patrocinador do Tieta era o Banco Econômico, que quebrou na segunda semana de filmagem, o filme ia parar e daí eu e Paula entramos no campo para o filme acabar e isso deu no Orfeu.
Renata Magalhães Almeida: [38:38] A gente tinha ali o Paulo e eu, o Cacá, Caetano, aquele mundo do Vinícius. O Caetano, por uma certa razão, dizendo que não precisava de outra trilha, porque a trilha do Orfeu é uma das coisas mais lindas já produzidas na música mundial. E o Vinícius dizia na introdução da peça que, cada vez que fosse ser montada essa peça, que a gente devia adaptar as condições dela para o Brasil atual. Então o Brasil atual tem funk, o Brasil atual tem traficante, o Brasil atual é outro. Mas já tinha funk?
Eron Falbo: [39:23] Aquilo é considerado funk mesmo?
Renata Magalhães Almeida: [39:26] Não, é porque tem o próprio samba do Orfeu, que é um pouco do...
Eron Falbo: [39:30] É um meio remix hoje em dia.
Renata Magalhães Almeida: [39:32] É, entram mesmo. Mas ali naquela época não era. O samba do filme, que foi feito pelo Caetano e pelo Gabriel Pensador, não era o samba da Viradouro com quem ela... Que eles desfilaram, apesar de a gente ter sugerido e ter sido aceito pela Viradouro que o enredo deles fosse Orfeu. Então, ali aconteceu uma mistura entre o Joãozinho Trinta, Cacá, Caetano, Paula, eu e a escola de samba. E o diretor de arte, que era o Clóvis Bueno, que morreu há pouco tempo, que foi incrível. A gente foi para a Avenida e, a gente está falando, a gente ainda estava filmando em negativo. A gente não estava no mundo digital, tinha que trocar chassi, chassi é aquele rolo de negativo. Que o menor demora três minutos, que é desse tamanho, pesa, e o maior, que é chamada pizza, que é uma coisa desse tamanho, demora oito minutos.
Renata Magalhães Almeida: [40:38] Então, a gente tinha nove câmeras na avenida, que tinha que trocar chassi, que a gente não podia atravessar, atrapalhar o desfile, ao mesmo tempo a gente tinha.
Eron Falbo: [40:48] Oito... E era bem mais precioso, né? Tipo assim, pô, tomada...
Renata Magalhães Almeida: [40:52] Não, não dá pra você botar o dedo e sair filmando, entendeu? Não era isso mesmo.
Eron Falbo: [40:57] Se botar a tomada era uma coisa.
Renata Magalhães Almeida: [40:58] Assim, E, ao mesmo tempo... E, ao mesmo tempo, a gente com oito atores dentro da escola, nos seus personagens, com ação dramática acontecendo, porque tem no filme, para quem não viu, tem uma tentativa de assassinato do Orfeu, do personagem, do Tony durante o desfile. Então tem um cara que quer matar ele. Então tinha uma ação dramática que aconteceu durante o desfile, com uma câmera num prédio, que tinha sido invadido, que a gente não podia entrar. E nesse dia do desfile da Viradouro, foi o dia que o Palace 2 caiu.
Eron Falbo: [41:37] Do Serginhaia.
Renata Magalhães Almeida: [41:39] Exatamente.
Eron Falbo: [41:40] Caraca!
Renata Magalhães Almeida: [41:41] Enfim, a gente tinha ali, a gente já tinha o filme pronto, o elenco escolhido, mas evidentemente a gente tinha que filmar o carnaval e o acordo nosso com a escola de samba era filmar o carnaval e torcer para que fosse para as campeãs para a gente fazer o que a gente não podia ter feito para não atrapalhar o desfile e depois a gente faria os planos mais próximos no próprio sambódromo trazendo as alas que a gente precisava para acabar as ações dramáticas que aconteciam durante o desfile. A gente filmava o desfile e, depois de uma semana, a gente tinha uma ala por noite na Sapcaí para fazer os planos próximos. Acordei nesse dia e tinha todo um dinheiro ali, sendo um gasto nesse carnaval, para a gente tomar o fôlego e retomar o filme no segundo semestre, que foi o que a gente fez. Mas era uma grana, né? Você pode imaginar que eu tava filmando uma missão de quadro.
Eron Falbo: [42:42] Eu acho que isso é legal da gente falar assim, porque as pessoas hoje em dia, na era de tirar o celular e filmar tudo, e não só tirar o celular e filmar tudo, como eu percebi um fenômeno, a gente tem das cem coisas que a gente tem no celular, a gente usa de fato duas, né? Tipo, a gente filma cem coisas que a gente usa, mesmo da maneira mais banal do mundo, mandar pra vó, Tipo, a gente usa duas dessas coisas, então a gente gasta um tempo. Então a galera não tem a dimensão do que é você comprar primeiro uma câmera, que hoje em dia o equivalente seria 100 mil dólares uma câmera. Era um patrimônio assim que era fora de cogitação.
Renata Magalhães Almeida: [43:27] Olha, a gente tinha, quer dizer, uma das coisas que a gente mais tinha que economizar no filme era o filme Virgem. Que custava uma fortuna, os filmes da Kodak.
Eron Falbo: [43:39] É, o filme em si, a revelação aí, porra. Não dá pra fazer duas vezes a cena, foi mal. Tipo assim, é um filme brasileiro, galera. Não dá pra fazer duas vezes.
Renata Magalhães Almeida: [43:48] Não, e olha só, isso em qualquer lugar. Enfim, me lembro quando eu comecei a fazer cinema, que a produtora reclamava que a claquete estava demorando muito e estava comendo, sei lá. 10 Fotogramas.
Eron Falbo: [44:01] Sem contar a diária da galera. Tinha 200 pessoas que estavam pagando diária. Vamos fechar essa cena hoje, porque senão hoje vai ser mais uma diária para 200 pessoas.
Renata Magalhães Almeida: [44:14] O lance é que você economizava no negativo, que é mais ou menos como se pedir para o escritor economizar no papel ou em branco. Então, eu acho que nesse sentido, eu acho que o digital é uma liberdade enorme, né? Ao mesmo tempo, quadriplicou o trabalho dos pobres, dos editores, que agora tem que ficar vendo milhares de horas de material.
Eron Falbo: [44:39] Tem que ver aquele 100 lá, tem que ver a merda dos 100. Ah, vamos fazer a cena... Ah, foda-se, vamos fazer a cena de novo.
Renata Magalhães Almeida: [44:48] Mas, enfim, então era tudo muito complicado. E nesse dia que eu acordei... Imagina, uma produção dessa, já tinha gente no sambódromo, daí sei lá que horas da manhã, quando eu acordei, deu créu na lombar. Puts! Cadê? Liga remédios, voltarem, sei lá o quê, cinta, 200 mil anti-inflamatórios, sei lá o quê. Daí falam-se dois na televisão, tempo horrível, ameaça de chuva. Eu falei assim, Renata, você é uma louca.
Eron Falbo: [45:24] O Brasil já não era mais esperançoso nessa época.
Renata Magalhães Almeida: [45:27] Eu me achei uma louca. Estou botando um dinheiro, uma escola de samba. E se chover? E se ficar um horror? E se não for para as campeãs? Como é que eu vou filmar? E se for para as campeãs e chover, eu vou ter que fazer chuva artificial, porque eu vou ter que continuar. Bom, enfim.
Eron Falbo: [45:47] Cara, eu tô adorando isso porque isso é uma visão pro público que tá assistindo a gente do que é produzir, né? O trabalho do produtor... Na verdade, põe nas suas palavras, sei lá, em uma sentença, qual que é o trabalho de um produtor de cinema?
Renata Magalhães Almeida: [46:03] Andar na corda bamba.
Eron Falbo: [46:05] Você já tinha memorizado isso.
Renata Magalhães Almeida: [46:08] Gente, você não gosta de exposta de caixa, não precisa. Tenho adrenalina o suficiente no meu serviço.
Eron Falbo: [46:18] É tipo na máfia o fixer, o cara que precisa matar alguém, vai lá mata, precisa arrumar um elefante.
Renata Magalhães Almeida: [46:27] Não, elefante a gente nem fala porque eu fui para Portugal por conta dos elefantes fazerem o cerco místico, então elefante é um assunto que nem é bom falar.
Eron Falbo: [46:34] Que isso, é um assunto traumático. Como é que foi a história do elefante?
Renata Magalhães Almeida: [46:39] O Elefante, gente, essa história chegou até no TCU e virou exemplo de como eles têm que entender a atividade cinematográfica, não como um convênio. Aliás, isso é uma coisa muito importante para as pessoas entenderem. De onde vem o dinheiro que a gente faz filmes no Brasil? Não é do dinheiro da escola, não é do dinheiro da saúde, não é do dinheiro de nada, é do dinheiro da gente. Existe no Brasil uma contribuição que se chama Condecine, que é a contribuição para a indústria do audiovisual, que é cobrada por cada título que é exibido em território brasileiro, seja capítulo de novela, série. Essa lei é sensacional e existe em todos os lugares do mundo. Por exemplo, na Alemanha, por exemplo, como é que é financiado o cinema alemão? Cada aparelho de TV, ou de DVD, ou Apple TV, qualquer coisa que reproduza filme, por exemplo, você tem ali uma sobretaxa que vai para a indústria.
Renata Magalhães Almeida: [47:50] Então, aqui, a nossa contribuição, e como contribuição ela tem que ir para a atividade fim, ela é paga por nós que produzimos. Eu que produzo um título brasileiro, eu pago uma Codecine para passar no cinema.
Eron Falbo: [48:04] Qual a diferença entre Ancine e Codecine?
Renata Magalhães Almeida: [48:07] Não, Ancine é agência, Codecine é o que você paga, é um DARF.
Eron Falbo: [48:12] É um imposto.
Renata Magalhães Almeida: [48:13] É uma contribuição que qualquer um que produza conteúdo e exiba conteúdo no Brasil tem que pagar. Ela incide sobre a longa metragem.
Eron Falbo: [48:23] Contribuição normalmente não é imposto. Eu sei que você está na indústria... Não, não, não.
Renata Magalhães Almeida: [48:27] É porque o imposto, ele vai para um caixa único, né? E as contribuições e taxas, elas vão para uma atividade...
Eron Falbo: [48:34] Mas é uma espécie de taxa.
Renata Magalhães Almeida: [48:35] É uma taxa, mas não é uma taxa paga pela população brasileira. É uma taxa paga pelos produtores de audiovisual. Ele é pago pelo produtor do comercial que você vê.
Eron Falbo: [48:48] É pelo velho barrigudo, não é pelo...
Renata Magalhães Almeida: [48:53] Ele não está em outro lugar. Exatamente. Ele vai... Enfim, é isso. Claro que você tem milhares de tabelas de Codecine, uma novela que tem 100 capítulos.
Eron Falbo: [49:04] Cara, isso é muito bom de entender. Galera, vocês estão escutando, gente? Vocês estão escutando como é que funciona o cinema no Brasil?
Renata Magalhães Almeida: [49:10] É uma aulinha, tá, gente?
Eron Falbo: [49:11] Acorda, ô! Você que está lavando louça.
Renata Magalhães Almeida: [49:14] Para o Mário Frios não dizer que a gente tira dinheiro das criancinhas, tá? E da vacina, que eles não querem. Enfim. Mas a gente não tira, porque o dinheiro é nosso. Quem paga sou eu, o Barreto, a TV Globo.
Eron Falbo: [49:33] Ah, então você disse, nosso é tipo vocês da indústria, você está falando?
Renata Magalhães Almeida: [49:37] É só a indústria que paga. O DARF é gerado para a indústria. Então, por exemplo, novela, evidentemente que o preço por capítulo é diferente do preço de um filme.
Eron Falbo: [49:49] Então, o que justifica a existência da Ancine? Porque tem isso, a Codecine.
Renata Magalhães Almeida: [49:56] Contribuição para o desenvolvimento da...
Eron Falbo: [49:59] Parece um remédio, Codecine.
Renata Magalhães Almeida: [50:00] Condecine.
Eron Falbo: [50:03] E a Ancine, como é que você justifica, de uma maneira não comunista, a existência da Cine?
Renata Magalhães Almeida: [50:10] Mas eu sou zero comunista, tá, gente? Eu sou zero comunista.
Eron Falbo: [50:14] Ué, não estou te chamando de comunista, estou chamando a Ancine de comunista.
Renata Magalhães Almeida: [50:16] Nem, mas a Ancine também não é comunista.
Eron Falbo: [50:18] Então, explica.
Renata Magalhães Almeida: [50:20] A Ancine é uma agência de, enfim, para a regulamentação e o desenvolvimento da indústria audiovisual independente brasileira. Isso é uma coisa que eu também gosto de deixar. Às vezes as pessoas não entendem o tipo de concorrência que nós, produtores independentes de áudiovisual no Brasil, enfrentamos, porque a gente não concorre com o outro produtor brasileiro.
Eron Falbo: [50:52] Sim, você concorre com Hollywood.
Renata Magalhães Almeida: [50:53] Não, meu amor, eu concorro com Spielberg.
Eron Falbo: [50:58] No álbum com o Eron Falbo, pô.
Renata Magalhães Almeida: [51:00] Com o Eron Falbo, welcome! Eu estou brigando pela mesma sala do que os lideradores, entendeu?
Eron Falbo: [51:12] Mas aí que entra o comunismo, entendeu?
Renata Magalhães Almeida: [51:15] Não, não entra o comunismo, aí entra uma coisa...
Eron Falbo: [51:17] Eu vou te explicar por que eu estou chamando de... Eu estou brincando, essa coisa de comunismo não é comunismo.
Renata Magalhães Almeida: [51:23] É bem liberal, é só você tentar fazer com que o mercado que para o produto independente brasileiro é totalmente leonino, porque esses filmes chegam aqui pagos, chegou aqui quieteado.
Eron Falbo: [51:39] Isso é um problema. Bom, mas deixa eu dar a minha visão do porquê.
Renata Magalhães Almeida: [51:44] Como é que você ajuda nós, independentes,.
Eron Falbo: [51:47] A ter o mínimo de condição de competir? Nisso eu estou com você. Dado o quadro atual, eu estou com você. Tipo assim, a gente está na merda, aí é melhor que tenha alguma garantia para a gente poder ter alguma cultura brasileira sendo representada nos cinemas. Isso eu concordo. Agora, por exemplo, eu morei na França. Na França não existe, pelo menos quando eu morei lá, aos moradores atuais de Paris, eu queria dizer que eu não tenho a mínima ideia do que está acontecendo.
Renata Magalhães Almeida: [52:18] O que você vai falar da França? Que a França é o lugar que mais defende o produto.
Eron Falbo: [52:22] Tá bom, é isso que eu estou falando, isso que eu estou explicando. Agora, eu como consumidor, Eu sou Oscar Wilde, eu fui morar em Paris, eu queria ver filmes, eu sei que o Oscar Wilde não tinha, mas eu mesmo fui morar em Paris com 18 anos e eu era cinéfilo, sacou? Eu via filme como possível nesse tempo todo.
Renata Magalhães Almeida: [52:39] O melhor lugar do mundo pra ver filme é Paris.
Eron Falbo: [52:43] Não, talvez hoje. Quando eu morei lá, não existia nem pra alugar filme legendado. Não existia nem para lugar, não existia.
Renata Magalhães Almeida: [52:51] Vou te falar, sou uma pessoa que começou muito... Sou bem analógica. Comecei a fazer cinema, nem sei, tive aula de cinema quando tinha 10 anos no meu colégio. Daí fui para o movimento cineclobista, nos anos 70, que é como você viu os filmes, porque não tinha filme. Tinha uma coisa incrível.
Eron Falbo: [53:15] Se vira, não é?
Renata Magalhães Almeida: [53:16] Não, olha só, quando você ia viajar para a Europa, para os Estados Unidos, uma das coisas que você tirava onda é que você via os filmes que ninguém aqui tinha visto ainda, que você ia ver dois anos depois.
Eron Falbo: [53:27] Só que não dublado em francês, não filme...
Renata Magalhães Almeida: [53:30] Não, mas aí tem uma coisa assim, tanto a Itália, quanto a França, quanto a Espanha, eles têm essa cultura da dublagem.
Eron Falbo: [53:38] Ah, que saiu agora pela tangê...
Renata Magalhães Almeida: [53:42] Não, eles têm, porque eu estava no V.O.
Eron Falbo: [53:44] Isso é uma forçação de patriotismo. Eles estão tentando manter uma certa... Porque eles não querem ter uma angloficação do...
Renata Magalhães Almeida: [53:54] Não, olha, eu estava no Festival de Cannes de 1985, quando se discutiu qual era a língua que ia se falar no mundo audiovisual que já se... Apresentava como totalmente internacional, global. E todo mundo ali já estava no inglês, isso não existe. Os festivais de Cannes, você não precisa nem mandar o filme legendado em francês.
Eron Falbo: [54:22] Eu não estou falando do festival. Eu estou falando dos estados que estão tentando ser totalitários, porra.
Renata Magalhães Almeida: [54:28] Não, mas não estão. Olha só, a Espanha é um lugar também que neguinho vê filme dublado. A Itália também, é uma coisa esquisita. A Itália é tão louca que os.
Eron Falbo: [54:38] Próprios filmes italianos... Portugal, por exemplo, todo mundo fala inglês perfeito. Você vai na Espanha, cara, Ninguém fala inglês na Espanha. Na França, ninguém fala inglês. Na Itália, mais. Na Itália, falam mais. Na França, ninguém fala.
Renata Magalhães Almeida: [54:51] Na França, hoje, falam. Não é mais anos 70. Anos 70, ninguém falava. Quando você falava inglês, cuspiu na sua cara.
Eron Falbo: [54:56] Talvez o seu ninguém é um pouco mais rígido que o meu.
Renata Magalhães Almeida: [54:59] Não, não, não.
Eron Falbo: [55:00] É porque, por exemplo, na Itália, é tão louco.
Renata Magalhães Almeida: [55:04] E isso na Espanha também, assim. Não, mas esquece esses outros.
Eron Falbo: [55:10] Vamos pegar a Península Ibérica. Na Espanha, ninguém fala inglês. Ou poucas pessoas falam inglês. Em Portugal, todo mundo fala inglês perfeitamente. É impressionante. Todo mundo. Você chega em qualquer lugar em Portugal e fala inglês. Porque a merda dos filmes são legendados. Agora, qual que é o fenômeno que fez acontecer na Espanha e não acontecer no... Eu te digo, Franco, o ditador...
Renata Magalhães Almeida: [55:33] Não, eu vou discordar um pouquinho de você porque não acho que seja uma tentativa de, vamos dizer assim, de reserva cultural da língua, entendeu? Por exemplo, em Portugal todo mundo fala francês divinamente, porque Portugal tem, sei lá, Lisboa é do tamanho da Zona Sul do Rio de Janeiro. Lisboa e Grande Lisboa tem 800 mil pessoas.
Eron Falbo: [56:00] Não, mas vamos comparar com a Espanha.
Renata Magalhães Almeida: [56:01] Não, eu só estou te falando. O português de Portugal, tadinho, é o único país que fala aquela língua ali.
Eron Falbo: [56:10] É mais fácil porque pouca gente.
Renata Magalhães Almeida: [56:12] Cercado de línguas que não são portugueses, né? A gente mesmo na próxima... Você pega.
Eron Falbo: [56:16] É, a mas aí Croácia também, que é pequena pra caramba, e só fala russo. Ou croata, na verdade. Croata e russo. Por quê? Por que que não fala inglês? Porque eram comunistas totalitários que queriam proteger a cultura.
Renata Magalhães Almeida: [56:28] Sim, mas aí é uma questão que não entrava. A primeira vez que eu fui a Berlim, depois do Muro, E até hoje é um pouco. Quem é da Alemanha Oriental e mais velho não fala inglês. Todo mundo que já é mais novo fala inglês, evidente. Tinha ali uma questão política colocada que não faz mais parte hoje. Não acho que a questão da dublar... Por exemplo, a Itália, deixe-me só voltar à Itália, onde nasceu o neorrealismo... Que.
Eron Falbo: [56:53] A Itália é mais ou menos.
Renata Magalhães Almeida: [56:55] Não, porque o movimento neorrealismo do cinema italiano, na realidade, muda a história do cinema contemporâneo como a gente conhece hoje. A partir dos Rossellini, Fellini, enfim, isso muda a história do cinema, que vai dar na nouvelle vague, que vai dar no cinema novo, que vai dar no cinema moderno americano, enfim.
Eron Falbo: [57:14] A Itália é fantástico, o cinema italiano é muito vasto.
Renata Magalhães Almeida: [57:16] Agora, a Itália tinha tanta questão da dublagem que os próprios filmes italianos, não sei se estão até hoje, mas eram dublados para ficar um pouco fora de cinque. Porque era uma coisa que era um pouco um costume, entende? Por exemplo, agora a gente está aqui...
Eron Falbo: [57:36] Para a gente se conciliar e ficar amigo de novo, vamos dizer o seguinte, tem vários fatores que contribuem para o quadro, mas você viu aquele My Voice to Italy, do Scorsese, que mudou a minha concepção de filme? Porque eu cresci assim meio Hollywood, assim meio tipo... Eu era cinéfilo e eu gostava até dos lados Bs, né? Só que eu... Godard era demais pra mim, entendeu? Era tipo, peraí... Essa parada aí tá meio... Cadê o.
Renata Magalhães Almeida: [58:14] Press Book pra eu entender essa porra aqui?
Eron Falbo: [58:17] Tipo assim, cadê o Joseph Campbell, né? Cadê a jornada do herói nessa porra? Cadê o plot, como é que fala em português?
Renata Magalhães Almeida: [58:28] A trama?
Eron Falbo: [58:29] A trama. Cadê a trama dessa merda? Aí eu ficava puto, né? Porque eu gostava de Homero, né? As paradas assim. Hoje em dia eu entendo Godard.
Renata Magalhães Almeida: [58:39] Ó, você tem que fazer o curso do Abilton Faz Pereira, dos gregos, Homero e Ulisses.
Eron Falbo: [58:45] É mesmo?
Renata Magalhães Almeida: [58:46] Ah, por favor.
Eron Falbo: [58:48] Gente, anota isso aí.
Renata Magalhães Almeida: [58:48] Põe aí na agenda que ele tá dando, acho que na Casa do Saber, é tudo, evidentemente, virtual.
Eron Falbo: [58:53] Quero muito, quero muito.
Renata Magalhães Almeida: [58:54] Você não sabe o que é ouvir a história da Grécia contada pelo Hamilton, Asdrú, Bonaveia. Gente, é uma coisa. Os neurônios ficam felizes.
Eron Falbo: [59:05] Ó, sem querer tirar onda, já tirando onda, eu sou formado em grego antigo, tá? Eu fiz três anos de grego antigo.
Renata Magalhães Almeida: [59:11] Pra poder... Então acho que você vai gostar, porque daí ele vai botar todo esse deus antigo numa linguagem ali astrúbal e vira uma coisa espetacular.
Eron Falbo: [59:20] Mas cara, mudou minha vida assistir o... Eu tenho um documentário do Martin Scorsese, inclusive Eu recomendo a todos vocês, senhoras que estão em casa, agora na pandemia, sem fazer a sua atuação no teatro, porque o teatro não está sendo frequentado. Por favor, assistam My Voyage to Italy, do Martin Scorsese. Porra, ele faz um tour.
Renata Magalhães Almeida: [59:47] Em qual streaming, baby?
Eron Falbo: [59:48] Oi?
Renata Magalhães Almeida: [59:49] Em qual streaming?
Eron Falbo: [59:50] Em qual streaming, porra? Alguém me fala aí qual streaming que é. Eu posso que não existe no Brasil,.
Renata Magalhães Almeida: [59:57] Tipo... Ah é, vai piratear!
Eron Falbo: [59:59] No torrent. Inclusive, acha simbólica. Eu consigo.
Renata Magalhães Almeida: [60:06] Vamos tirar essa monetização e vamos mandar para o Eron.
Eron Falbo: [60:12] Mas My Voice to Italy, cara, sério, mudou minha vida de cinema, porque eu assisti isso. E o Scorsese é o Scorsese, né? Ele faz cassino, ele faz taxi driver, e ele fez um documentário, um tour do cinema italiano, sacou? E ele fez com o prazer de assistir um filme com narrativa, e é genial, pra quem quer aprender cinema, pra quem quer parar de ser burro, que nem eu. E hoje em dia, by the way, eu também não assisto mais Godard. Era uma fase, né, que eu assistia bastante, mas eu não tenho mais paciência, não. Tudo bem.
Renata Magalhães Almeida: [60:50] Tadinho, ele já tá com quase 90 anos, nem mal tá filmando.
Eron Falbo: [60:53] Renata, infelizmente, é uma maravilha, sério. É um prazer enorme tomar vinho com você. E falar merda, e falar coisas inspiradoras, e falar da história, e aprender com você, sinceramente, um monte de insights geniais, só que acabou nosso tempo designado pelos meus patrões aqui, que sou eu mesmo.
Renata Magalhães Almeida: [61:16] É, eu tô achando que você tá achando que eu sou comunista, que você quer desligar essa conversa.
Eron Falbo: [61:20] Cara, nunca te acusei de nada, nunca te acusei não. Eu falei... Olha só, artista brasileiro elevado,.
Renata Magalhães Almeida: [61:27] Dependendo de quem olha pra mim, eles acham que eu sou comunista, eu sou de extrema direita, então não sei.
Eron Falbo: [61:33] Depende de quem olha. Eu tô igual a você. É porque você tem que me ver com um entrevisto político. Se eu entrevisto um cara da direita, é uma galera falando, é, seu comunista de merda, você não tá entendendo a complexidade da direita. Aí se eu entrevisto alguém que é mais pra esquerda, Bolsonaroista, o seu louco, genocida.
Renata Magalhães Almeida: [61:57] É, gente. Tudo depende de onde se põe a câmara. Eu, por exemplo, estou querendo entender até agora se o consenso atual é se a Globo é de direita ou de esquerda, porque, dependendo do momento, também uma coisa ou outra. Enfim, gente, o mundo é bem mais complexo.
Eron Falbo: [62:16] Eu não dou muita trela para quem fala que eu sou direito ou de esquerda.
Renata Magalhães Almeida: [62:20] Olha, sei lá, eu li um livro do Norberto Bobbio, que é um gênio do século XX, que ele escreveu depois da queda do muro do Berlim, depois da queda do comunismo, que foi ressuscitado pelo neofascismo, porque o comunismo já tinha acabado nos anos 90, e que é um livro desse tamaninho, deixa eu só acabar, que eu recomendo mesmo, chama Esquerda e Direita. Do Norberto Bobbio, um livro muito pequenininho, onde ele diz que esse conceito não existe mais e que a coisa... Norberto Bobbio. Norberto Bobbio. Puta filósofo, antropólogo, italiano.
Eron Falbo: [62:57] E vamos repetir isso aí, esquerda ou direita, Norberto Bobbio. Porque o Brasil, além do seu filme que vai lançar daqui a pouco, precisa aprender que essa porra desses termos são obsoletos, porra. Na verdade, o mundo inteiro precisa, mas foda-se o mundo, o Brasil precisa entender isso.
Renata Magalhães Almeida: [63:14] Nossa, gente, por aí, porque, olha só, essa discussão...
Eron Falbo: [63:17] A gente é melhor que isso, sacou? A gente tá falando, tipo, vidas negras importam, sacou? Por que a gente não tem nosso próprio movimento negro? Que vidas negras? Por que a gente traduziu o movimento americano, sacou? Com todo o respeito a negros que sofreram, qualquer coisa, com todo o respeito ao sofrimento de todos, Até nos Estados Unidos eu acho que isso é... Evidente,.
Renata Magalhães Almeida: [63:40] Mas são histórias que...
Eron Falbo: [63:40] Outro dia alguém me veio me falar que negro não é uma cor, você tem que falar preto. Como assim, cara? Negro é justo a cor. Em latim... Você tá confundindo com o inglês, sacou? Que nigger, a palavra que não se fala nos Estados Unidos, que no Brasil não tem problema, é uma parada cultural dos escravos americanos. E nigger não é uma cor. Em inglês, black é uma cor. Só que em português, negro é uma cor, sacou? Então é só pra...
Renata Magalhães Almeida: [64:09] É, não, você tem toda a razão. E nesse livro, o Bob, enfim, nessa discussão que realmente a esquerda e a direita foram uma coisa do século XX e foi ressuscitada no começo do século XXI, mas ele fala uma coisa muito bonita. Ele diz que não existe mais o conceito de direita e esquerda, uma vez que não existe mais o comunismo, que o muro caiu etc. E que ele fala que a coisa mais próxima que ele pode falar é que talvez as pessoas que se acham de esquerda são pessoas que olham mais para o outro e as pessoas de direita são as que acham que podem ser felizes sozinhas.
Eron Falbo: [64:53] Ou seja, ele é de esquerda. Eu acho um pouquinho enviesado, mas tudo bem. Renata, pra gente não continuar pra sempre... A gente tem talento pra ficar conversando pra sempre, você já viu, né? A gente vai encontrar tangentes aqui até pra sempre. Mas eu vou te fazer a última pergunta que eu faço pra todas as pessoas que eu amo. Pra todas as pessoas que são meus queridos convidados. É o seguinte, Renata, minha querida, que agora é amiga, inclusive antes da gente terminar, vamos fazer um pacto de beber um vinho pessoalmente, falar merda, mas ainda... Renata, por favor, não, agora é sério, agora é todo mundo. Por favor, gente, para de rir. Público, por favor. Pra você hoje, Renata, o que mais importa pra você, repetindo você, nesse mundo? O que mais importa pra você nesse mundo?
Renata Magalhães Almeida: [65:53] Pegar leve na barra pesada.
Eron Falbo: [65:59] Tamo junto, tamo junto total. Renata, prazerzão estar com você, você é maravilhosa, talentosa, técnica, você é de esquerda e direita ao mesmo tempo, linda, puta que pariu. Muito obrigado, seja muito bem-vinda sempre aqui.
Renata Magalhães Almeida: [66:15] Um beijo, querido, foi um prazer e toa vou cobrar o vinho, hein?
Eron Falbo: [66:19] Tamo junto, vamos organizar urgentemente. Beijão. Ah, rapidão, antes de você ir embora, você pode esperar um minutinho só para eu fazer um aviso e depois a gente conversar fora da câmera um segundinho, fora do ao vivo pelo menos?
Renata Magalhães Almeida: [66:33] Claro. Obrigado. Até lá. Beijo.
Eron Falbo: [66:35] Já, já. Valeu. Beijo. Tchau, tchau. Pessoal, eu criei essa pílula de conhecimento. Todo conhecimento adquirido em uma hora está sendo condensado em um minuto. Mas antes disso, eu vou revelar o prêmio de um milhão de dólares para todas as pessoas que nesse momento agora seguirem o meu instagram e fizerem todas as coisas que está todo mundo muito Cansado de ouvir? Seguir, acompanhar, não sei o que, dar o like. Todas essas paradas, por favor. A gente não ganha dinheiro nenhum com isso que vocês estão vendo agora, mas a gente espalha sabedoria, conhecimento e informação muito boa. Então, se vocês quiserem que a gente continue fazendo isso, porque a gente já tá cansado, tá todo mundo cansado aqui. Não é não, gente? Tá todo mundo cansado de fazer isso? A gente tá fazendo porque é um vício.
Eron Falbo: [67:36] Então a gente tá... Todos os dias a gente tá fazendo isso. Virou um vício e já era. Não já era não, porque, pô, a gente pode fazer outras coisas da vida. Lembrem-se, assistam ao vivo todos os dias, 19 horas, exceto hoje que foi 17 horas, depois eu explico porquê. Mas é isso, gente. Beijão, amo vocês. E nunca se esqueçam, nem tudo que reluz é ouro. Obrigado.
Episódio de No Alvo com Eron Falbo. Veja todos os episódios, Praise e Quotes.