Músico, compositor e escritor
Giovanni Caruso é músico e compositor do Scambau, com nove discos em doze anos de estrada, e autor do livro O Inferno dos Bêbados.
Transcrição do áudio do episódio.
Eron Falbo: [0:00] Sejam bem-vindos, meus amigos! Aqui quem fala é o narrador de suas mais intensas emoções, Eron Falbo. Venham comigo. Vamos sair dos nossos tempos agora. Vamos sair dos nossos tempos. Existem sete artes, sete disciplinas consideradas artes liberais. Gramática, lógica, retórica, aritmética, geometria, música e astronomia. Vamos agora entrar na oitava arte liberal. É uma falta de responsabilidade... Ô, Paquito.
Giovanni Caruso: [0:46] Não, não voltou.
Eron Falbo: [0:53] Cara, começa do final dessa parada aí. Foi. É uma falta de responsabilidade esperarmos Que alguém faça alguma coisa por nós John Lennon Diz que me odeia com essa cara deslavada E não quer mais me ver Depois me arranha feito gata mal criada Eu não posso entender, cê tá metida demais Cê tá metida demais.
Giovanni Caruso: [1:40] Cê.
Eron Falbo: [1:40] Tá metida demais, metida demais Senhoras.
Giovanni Caruso: [1:51] E.
Eron Falbo: [1:51] Senhoras, a pessoa unicamente responsável por me tornar músico e me inspirar a ser artista, meu antigo amigo, Giovanni Caruso!
Giovanni Caruso: [2:02] Obrigado, gente!
Eron Falbo: [2:09] E aí, Giovanni, beleza, cara? Quanto tempo.
Giovanni Caruso: [2:12] Ô, meu irmão, que coisa boa te ver, velho. Porra, há quanto tempo mesmo. Saudade do amigo.
Eron Falbo: [2:21] E aí, você tá morando aonde, cara?
Giovanni Caruso: [2:23] Eu tô em Curitiba, né?
Eron Falbo: [2:25] Ah, continua em Curitiba?
Giovanni Caruso: [2:28] É, rodei por aí, pelo mundo, mas agora, nesse momento exato, eu tô aqui. Tô indo para o Paraguai, para a Asunción del Paraguay, na próxima segunda-feira.
Eron Falbo: [2:37] Você vai lá com frequência para a família da Maria?
Giovanni Caruso: [2:43] Já morei algumas vezes lá e agora estou indo para mais uma dessas moradas de 4 ou 5 meses.
Eron Falbo: [2:51] Vocês ficam variando entre Curitiba e Paraguai?
Giovanni Caruso: [3:00] Quando a minha filha ainda era menor, depois a escola começou a exigir mais, a gente começou a ir só nas férias. A gente já morou muito tempo lá, várias vezes, umas oito vezes eu já morei lá, eu acho.
Eron Falbo: [3:14] Caraca, que fera, cara. Nem sabia dessa parada do Paraguai que você foi algumas vezes. E só pra gente recapitular que a gente não conversa faz muito tempo, cara. Você tá com filhos de quantos anos?
Giovanni Caruso: [3:24] Eu tenho uma filha de 13, a Carmela, e a Eva viu uma de 5.
Eron Falbo: [3:30] 13 E 5, caraca.
Giovanni Caruso: [3:32] É coisa boa.
Eron Falbo: [3:34] Muito tempo, né cara? Cara, a última vez que a gente conviveu mesmo, a gente se encontrou em São Paulo faz uns, sei lá, uns 10 anos, 8 anos, sei lá, mas quando a gente convivia aí em Curitiba, sei lá, uns 15 anos atrás? Quanto tempo atrás?
Giovanni Caruso: [3:49] Não sei nem, faz muitos anos, né cara, mas a saudade como a gente... Muita coisa junto né cara quando você morava aqui tu Daniel assim como a gente se via quase todos os dias nesse dia eu guardo lembranças cara só lembranças boas assim de ti quero aqui te dizer em público o carinho que eu tenho muito carinho pela tua pessoa Obrigado, querido.
Eron Falbo: [4:11] Igualmente, cara. Fez uma parte muito importante, como eu falei aí na introdução. Foi uma parte muito importante do meu crescimento pessoal e artístico, né? Eu fui, para as pessoas que não sabem, obviamente, acho que ninguém sabe isso de mim. Eu não falei nem em entrevista a mim, assim, quando... Porque eu fui músico, né? Na Inglaterra, tive carreira. E acho que eu nunca falei isso nem em entrevista mais a fundo. Que foi os Fecheclerios, a primeira banda que eu vi ao vivo, assim, que não era, sei lá, show, vamos dizer, de arena, né? Uma banda que você vê, assim, banda independente. Foi a primeira banda que eu gostei, que era acessível, assim, que eu vi na minha frente, assim, que eu conheci os caras. E pra mim isso foi um incentivo gigantesco pra poder virar músico. Porque você deve saber disso, você como músico é uma distância muito grande entre você iniciando pra você estar, sei lá, em arenas.
Eron Falbo: [5:17] E às vezes você tem que saber que isso é palpável, que é possível você ter um próximo passo, uma coisa assim pra chegar.
Giovanni Caruso: [5:28] Foi em Brasília, né, que tu viu os Feichecleres a primeira vez?
Eron Falbo: [5:31] Foi, a primeira vez. Eu tava ajudando a organizar o Festival Senhor F. Eu tinha 16 anos.
Giovanni Caruso: [5:38] Cara, tá me vindo na cabeça isso assim, a gente... Como é que era o nome daquele bar?
Eron Falbo: [5:43] O Gates.
Giovanni Caruso: [5:44] Gates Pub, cara. Nossa, faz tempo, hein?
Eron Falbo: [5:47] 20 Anos, cara. Hoje eu tenho 36, eu tinha 16. Faz 20 anos. Eu acho que o Charles tinha acabado de sair da banda. E vocês estavam fazendo, vocês três, Marcos, Tuba e você. E, cara, foi incrível, assim, tipo... Porque, você sabe, eu acho que você também gosta muito de música dos anos 60, né, como eu. Então, assim, é difícil ver uma banda que gosta, né, ao vivo, assim. Pra mim foi um grande marco.
Giovanni Caruso: [6:18] Hoje em dia eu vejo os feixecleres, eu não via assim naquela época, não foi intencional, assim. Mas hoje, olhando, assim, de fora, Suíche Eclérides, a gente, eu queria que soasse no 60 assim, e o Tuba também, mas o Marcos...
Eron Falbo: [6:34] Ele era metaleiro.
Giovanni Caruso: [6:36] Na pegada dele, o Tuba também. Ele não era uma banda assim, que soava no 60, mas tu já influenciou, mas soava diferente, né? Hoje em dia eu coloco assim, olhando assim de fora, vejo, claro, nunca soou no 60 aquilo ali, né, cara?
Eron Falbo: [6:58] É, não sei, é tipo assim, soava talvez em questão de timbre, né? Mas em questão de composições e as influências, é...
Giovanni Caruso: [7:06] Exatamente.
Eron Falbo: [7:07] É, eu lembro aquela... Como que é? Alguma coisa? Modéstia à parte?
Giovanni Caruso: [7:13] Vajulações modéstia à parte.
Eron Falbo: [7:14] Vajulações modéstia à parte, que tinha o Gaba. O Gaba era o protagonista. A composição é bem sensatista, mas o timbre, a música parece meio punk, né?
Giovanni Caruso: [7:30] E o jeito de tocar também, né? O Marcos já tinha aquela levada Brian May e Angus Young, sabe? E o Tuba batendo mais forte na bateria do que num prego, né? Então tinha uma pegada assim grotesca, né?
Eron Falbo: [7:49] Cara, e como é que... Eu fiquei sabendo ultimamente, assim, acho que uns um ano, alguma coisa atrás. Mais, né? É um pouco mais porque rolou essa pandemia aí que a gente pula esse tempo. Mas os Fecheclaros fizeram, tipo, uma reuniãozinha, né?
Giovanni Caruso: [8:05] A gente começou a se reunir de novo, cara, a partir de 2015. Saca? Aí a gente... O Marcos, ele tá morando na Inglaterra. Mas sempre que ele vem no Brasil, a gente acaba... A gente acaba e vamos se encontrar e vamos celebrar né cara aquela coisa tão especial assim que foi muito maneiro né isso em Sheckler's cara a gente trabalhava muito tá ligado né mas a gente cara a gente tocava mas assim três quatro vezes por semana em média cara o Ricardo Moura que era ti lembra do Bozoca era o nosso empresário claro ele fez uma média cara nas agendas dele assim de mais de mil shows cara ele trabalhou com a gente assim Ali foram cinco anos. Cara, tu pensa, se tu fizer o cálculo assim, dá três a quatro shows por semana, velho.
Eron Falbo: [8:54] Caraca, eu lembro. Eu lembro disso, cara.
Giovanni Caruso: [8:56] Três a quatro por semana, né?
Eron Falbo: [8:57] Era toda quarta no Emporia, ainda tinha. A gente já fez turnê junto lá pra Camboriú, pras lugares aí em volta de Joinville.
Giovanni Caruso: [9:04] Tava lembrando disso?
Eron Falbo: [9:05] No meu carro.
Giovanni Caruso: [9:07] Tava lembrando disso?
Eron Falbo: [9:09] Cara, era muita loucura, que a gente dirigia bêbado. E era todo... Oi?
Giovanni Caruso: [9:16] Botei uma luzinha aqui, ó, tá... Tá psicodélico, gostei.
Eron Falbo: [9:20] É legal, cara. E como é que foram essas reuniões? Como é que tá o pessoal? Vocês têm feito aonde esses shows?
Giovanni Caruso: [9:34] Cara, foram shows espetaculares, velho. O primeiro de 2015 deu um sold out aqui em Curitiba, foi só um. Foi de uma casa, assim, pra 800 pessoas. E veio gente, cara, de todo o Brasil, assim. Então, foi muito. Eu falava, assim, no palco ali. A gente fez chorando, rindo. Foi legal pra caralho. Fãs antigos, fãs que nunca tinham visto. Aí, cara, eu falava do palco, assim, a galera do Rio Grande do Sul, uma galera, Santa Catarina, Rio de Janeiro. Cara, veio gente de tudo que é lugar. A gente foi tomado de assalto, assim, por aquele... Aquela impressão, assim, por aquele carinho, né? E, cara, foi demais, velho. Depois a gente acabou fazendo em Porto Alegre, uma opinião também, que foi espetacular. Fizemos também em Santa Catarina e no interior do Paraná, e mais dois aqui em Curitiba.
Eron Falbo: [10:32] Mas e o entrosamento de vocês aí, que vocês não estão tocando há muito tempo, vocês ensaiaram muito, como é que foi essa reunião de vocês em si?
Giovanni Caruso: [10:39] Eu, cara... É química, né, velho? Aquilo ali a gente tocou tanto que, velho, poucas eu conheço, eu tô trabalhando com música já faz quase 25 anos. Conheço pouquíssimos artistas que trabalharam tanto quanto Feijão Teclés, cara.
Eron Falbo: [10:55] É verdade.
Giovanni Caruso: [10:57] Tanto assim, com experiência de tantos shows assim, que a gente não tinha, velho, mal tinha namorada, mas não tinha, não trabalhava em outra coisa, não tinha faculdade. Eram três pessoas se dedicando integralmente para aquilo, assim como única verdade na vida. Então, cara, era todo dia.
Eron Falbo: [11:17] Você tinha essa pegada meio Beatles em Hamburgo também, né? Tipo, aprender na raça.
Giovanni Caruso: [11:22] É, velho. E aí pegava aquele gol mil ali. Imagina, foram 18 estados, até quando eu saí, eram 18 estados de gol mil, velho. Pensa isso. Sensacional, né, cara?
Eron Falbo: [11:38] É muito fera, cara. Cara, isso é bons tempos demais, cara. E Curitiba ainda tem uma cena forte, não? Aquela cena que tinha motorrad, cara, foi muito tempo, né? Deve ter mudado muita coisa.
Giovanni Caruso: [11:49] É, mudou tudo, mudou tudo. A cena nacional, mundial mudou, né, cara? A gente tava vivendo ali um reflexo da segunda invasão britânica, né, que aconteceu no mundo, que foram os anos 90.
Eron Falbo: [12:03] Ah, o indie rock.
Giovanni Caruso: [12:05] É. Hoje em dia ele é considerado pelos críticos a segunda invasão britânica e a gente estava vivendo aquilo no Brasil inteiro, né cara? Tu vê que aqui, não só em Curitiba, mas no Rio, em Porto Alegre, tudo que é lugar, tu vê que aqui a gente recebia toda semana shows de Alagoas, do Rio de Janeiro, toda semana, né cara? Isso meio que diminuiu, né?
Eron Falbo: [12:32] Tinha o Bananada, né? Depois as coisas foram meio que diminuindo aos poucos, né? E ultimamente tá parado, não tá não essa cena independente?
Giovanni Caruso: [12:40] O poder do rock, cara, na juventude diminuiu bastante, né? Segue firme, tem que tá... Ainda tá, cara, tem muito lugar aqui, a gente não pode reclamar, tocamos direto, mas aquela cena onde tu ia aqui na Trajano Reis, aqui, tinha, velho, quatro shows de fora, Mas as bandas da cidade, assim, tocando num bar diferente do outro, assim, que tu não sabia onde tu ia, aquilo ali já meio que desmaieceu um pouco.
Eron Falbo: [13:08] Cara, cê tá com uma bebida aí? Eu esqueci de te perguntar.
Giovanni Caruso: [13:11] Cara, eu tenho uma cachaça, mas eu falei pro teu produtor ali que essa hora eu não vou tomar cachaça, que eu tomei o meu saco até agora. Eu tenho uma... Aqui, ó.
Eron Falbo: [13:21] Essa é pra brindar, meu. Então, o brinde é os nossos tempos juntos e o futuro. Vamos fazer coisas juntos, cara. Parcerias.
Giovanni Caruso: [13:29] Não vejo a hora de te encontrar.
Eron Falbo: [13:30] Seria uma grande honra.
Giovanni Caruso: [13:33] Pra mim também.
Eron Falbo: [13:35] Cara, queria saber de você. Acho que pra gente entrar num assunto... Mais interessante para o nosso público. Eu lembro que eu não te conheci, você já era uma pessoa super na sua, tinha... Acho que a melhor palavra para isso é autenticidade, você tinha uma coisa de seus pensamentos eram muito claros para você mesmo, eu lembro que você já lia Bukowski. Tipo assim, 20 anos atrás, 15 anos atrás, sei lá quanto tempo atrás. E você sempre manteve essa parada, esse estilo de vida seu, independente de fama ou não, porque você teve altos e baixos, ou sei lá, diferentes temporadas de mais ou menos... Trabalho, vamos dizer, só que eu vejo que o seu lifestyle sempre continuou bem autêntico. Aí eu queria que você explorasse um pouco essa parada, assim, as pessoas que possam assistir aqui, a gente que pensa em arte como estilo de vida, como profissão, explorar um pouquinho isso, como é que foi esses anos todos na sua cabeça, a sua relação com você mesmo, com a sua identidade, com o que é ser artista.
Eron Falbo: [14:54] Conta essas histórias, se puder.
Giovanni Caruso: [14:58] Olha, cara, eu comecei como um grupo, né? Eu fui me encontrar como artista mesmo já perto dos... Como um artista individual, um indivíduo artista, sem atacar em grupo, sabe? Eu fui... Isso já... Numa fase já que eu tava quase saindo dos feixe-eclésios, já tava com uns vinte e poucos anos assim, onde eu comecei a querer ter a minha identidade assim, sabe? Que eu sempre compus as músicas ali dos feixe-eclésios, sempre foram em parceria, né? Embora, às vezes, fosse uma parceria de uma ideia, assim, por exemplo, como Ela Só Quer Meter, que o Charles trouxe a ideia do Trocadilho, aquilo ali, mas, enfim, que eu fiz a letra e a música toda, mas, enfim, Não deixa de ser uma parceria, até porque a parte genial ficou com ele, né? Não tô desmerecendo, não, mas minhas parcerias com o Tuba ali, enfim... Até, talvez, até por... Talvez por insegurança, provavelmente, né?
Giovanni Caruso: [15:59] Mas eu fui me encontrar como artista já depois dos 25 anos, cara, como indivíduo, assim, sabe? Começar a ter mais... Claridade sobre o meu ego artístico. E acredito que isso começou a se desenvolver em mim a partir dali, principalmente, de eu me encontrar e me buscar também como ser sozinho, como artista. E aí, cara, acabei gerando ali, na sequência, o escambau, que é, musicalmente, muito mais livre, A gente brinca muito com, por exemplo, músicas paraguaias, gaúchas, se quiser tocar uma influência de reggae ou uma bossa, e tudo aí eu me dou essa liberdade, porque eu sempre fui um cara que ouvi de tudo. Principalmente rock, claro, mas eu sempre continuo assim, ouvindo de tudo, me interessa todo tipo de música, em todo tipo de idioma, todo tipo de instrumento.
Eron Falbo: [17:07] E fala mais sobre esse momento de descobrir esse ego, esse eu, talvez mais a ver com uma coisa... Eu também tenho passado por isso ultimamente, que eu acho que... Você mencionou isso, uma insegurança, talvez de... Procurar parcerias ou até escrever um tipo de letra, né? Porque acho que em algum momento a gente se sente mais assim, não, de repente eu posso escrever coisas mais... Explorar mais o meu ser, explorar as coisas que eu acredito de fato. As minhas inquietações. Você se identifica com isso que eu tô falando? E se sim, qual que fala mais sobre esse momento, essa transição de conseguir uma confiança pra projetar uma arte mais criativa, mais intelectual, talvez, mais profunda?
Giovanni Caruso: [18:11] Não, me identifico sim, cara. Eu trabalho já faz muito tempo, né? Na real, acho que desde sempre eu faço música pra mim. Eu faço a minha arte completamente pra mim, pra me sentir satisfeito, pra me sentir... Pra me sentir... Me sentir bem. Eu gosto de estar me sentar com meus amigos e ouvir a respeito, falar a respeito da arte deles e ouvir sobre a minha também, mas cara... Eu não... Até... Acho que jamais eu fiz um trabalho pensando mesmo nos feixecleres, que eram... Eu já era mais adolescente, mas a gente nunca fez um trabalho pensando em agradar o crítico ou a gravadora ou o público. Sempre foi um bagulho muito sincero e até por isso tem as suas marcas, pelo bem e pelo mal, tudo a minha arte.
Giovanni Caruso: [19:12] Eu levo assim a minha arte até hoje. O que eu estou fazendo agora na minha vida, é o que eu estou sentindo, é o que eu estou vendo. E é o que eu tô expressando.
Eron Falbo: [19:22] E como você descreve o que você tá fazendo agora? O que você tem feito? Desculpa, mas eu não conheço o trabalho atual. Eu achei que seria melhor conversar com você nessa confusão de não ter se visto há muito tempo e a gente fazer essa atualização ao vivo aqui.
Giovanni Caruso: [19:42] Cara, o atual mesmo, eu gravei um disco na pandemia aqui, nesse isolamento todo. Gravei tudo no teclado. Vou lançar junto com a minha mulher, que é a Maria Paraguai, a gente vai, enfim, vamos lançar aí um single, acho que até o final do ano. E pro ano que vem vai sair um disco novo, mas que é todo gravado, todo gravado num teclado aqui dentro de casa, no meio dessa prisão. Ano passado eu lancei um disco solo, que também é todo gravado em violão também. Violão, voz e violões, né? E alguma percussão ou outra assim, tudo que se chama pangeu. Esses são os últimos trabalhos que eu lancei. O Escambau segue firme ali, cara. O Escambau é onde eu me... É uma banda que eu montei depois dos Feixecleres, que me dá um puta orgulho, assim, porque a gente... A gente fala muito, assim, do social, né, cara? Da nossa realidade aí, sócio-política, nacional, principalmente.
Giovanni Caruso: [20:42] Então, cara, você tem uma banda que tem argumento, assim, nesse momento aí que a gente tá, nesses últimos cinco anos, vamos dizer, de caos sociopolítico, você tem uma banda que tem argumento e repertório, assim, pra cara, que não cansa, assim, de ter música pra falar sobre isso, é o escambau, velho.
Eron Falbo: [21:00] Pô, fera, cara. E quais, só pra o nosso público saber onde ir, quais são, sei lá, as três ou algumas músicas que você mais se orgulha, talvez, do Scambau, pra gente poder procurar?
Giovanni Caruso: [21:15] O Scambau, ele tem... O disco mais premiado, assim, do Scambau é o Novo Tentamento, de 2014, que teve sete indicações nacionais de melhor disco do ano, em blogs e tal, assim, mas foram sete ali que... Indicações... Ele foi o disco mais... É o disco mais cultuado, assim, do Scambau, se chama O Novo Tentamento, de 2014, junto com o primeiro, que é de 2009, que acontece nas Melhores Famílias, que é muito Nelson Rodrigues e Bucovici e Thiago Garcetti, assim, que já é uma... É a minha primeira, que foi quando eu saí dos Feichei Clares, então ainda carregava muito dessa... Desse ego notívago, assim, e alcoólico e decadente e, enfim... Meio nilícito, talvez? É, e cara, antes de ser pai, né? Então ali ainda era um...
Eron Falbo: [22:11] Não tem nada a perder, né?
Giovanni Caruso: [22:14] Tava pegue pra madrugada como os melhores e os piores vagabundos.
Eron Falbo: [22:21] A gente bebia muito, cara, nos bons tempos. Eu lembro que o Bozo tinha o Inferno dos Bêbados, que lambia cerveja do chão.
Giovanni Caruso: [22:32] É, o Inferno dos Bêbados é um conto meu, inclusive. Um livro que eu lancei virtualmente e depois tirei do ar porque eu na vola quero lançar ele pro ano que vem aí de verdade, físico. Se chama O Inferno dos Bêbados, inclusive.
Eron Falbo: [22:48] E qual que é a ideia dessa história aí? Fiquei curioso.
Giovanni Caruso: [22:53] O Inferno dos Bêbados é uma coletânea de contos altamente influenciados pelo Nelson Rodrigues. E também pelo Bukowski, pelos poetas Beats, assim, tudo. Mas só tem podreira, né, cara? Só tem o centro de São Paulo a partir das duas da manhã, sabe? O centro sujo.
Eron Falbo: [23:17] A Rua Augusta, né? Aquela época que tinha, sei lá, três, quatro bares de rock, era muito bom.
Giovanni Caruso: [23:25] E nessa pandemia eu também escrevi um outro livro que se chama Bob Dylan, Contém Multidões, que está pronto. Eu vou colocar ele no Catarse para ver se eu consigo publicar ele físico nas próximas semanas. Tem bastante coisa aí, Eron, para te mostrar.
Eron Falbo: [23:40] Muito chegado, cara. Quero dar uma olhada. Também para o público que está nos acompanhando, dá uma olhada onde a gente encontra essas coisas.
Giovanni Caruso: [23:50] O Escambau tem tudo nas plataformas virtuais. Botar Escambau, Escambau Oficial, vocês vão acabar achando aí, é uma pá de disco né cara, tem nove discos já, então para quem vai chegar desavisado cara, nossa tem muita coisa para nove discos, sendo que um é duplo né, então tem muita coisa aí para... Pô, você trabalhou.
Eron Falbo: [24:14] Pra caramba, você foi quantos anos para nove discos?
Giovanni Caruso: [24:17] Escambau foram 12 anos, não 11 né, porque esse último a gente não lançou nada, que não contou, a gente não se viu Então nove anos em onze... Nove discos em onze anos.
Eron Falbo: [24:29] E vocês continuam com o Escambau, não?
Giovanni Caruso: [24:32] Claro, continuamos, sim. Felizes da vida.
Eron Falbo: [24:35] E você tá com esse projeto agora, só você, esse Pangeu, né?
Giovanni Caruso: [24:40] O Pangeu, Eron, é o seguinte, ele é um... Eu entrei numa paranoia, assim, que eu tenho... Eu componho muito, cara. O meu trabalho, realmente, assim, que eu me considero um compositor. Gosto muito de cantar, de tocar baixo, tocar violão, trabalho com isso, isso que sustenta minhas filhas, isso que sustenta minha família, né? Mas eu adoro, componho, cara, assim, posso compor todo dia. Sou um cara que gosta de fazer isso, sinto uma... Sinto facilidade, sinto prazer de compor. Tenho... Agora, se tu tivesse que gravar um disco agora, eu devo ter umas 80 músicas aí guardadas, arranjadas, né, velho? Sabe?
Eron Falbo: [25:21] Pô, fiara.
Giovanni Caruso: [25:22] É o que eu gosto de fazer. E o Pangeu era o seguinte, eram umas músicas que estavam ficando para trás e eu entrei numa paranoia de, puta cara, tanta música assim, naquela época tinha aqui quase 60 músicas, assim, meu Deus, preciso gravar isso, umas músicas antigas, inclusive, da época do Ben Checleres, assim, que eu gostava, umas quatro, assim, que eu disse, cara, preciso gravar isso um dia. Aí eu liguei para um amigo meu que tem um estúdio e disse, cara, liga o microfone aí para mim. E eu fui lá e gravei ao vivo, assim, várias delas, assim, Violão e voz e fui colocando uns arranjos por cima. É um disco muito simples. Mas a galera gostou, cara. Bastante, assim. Até por isso. Por ser um disco que é um violão de nylon e um vocal.
Eron Falbo: [26:05] É, me lembra... Não sei se você já ouviu falar, aquele artista Bert Jansk. Que é... Cara, se você não ouviu falar, é muito bom, cara. Você vai, tipo, gostar muito. É uma espécie de Bob Dylan escoceês. É um cara que tem um dedilhado e ele tem um disco Só que... Também é parecido com o Jackson C. Frank, só tem um disco. Que é uma galera do folk que era muito autêntico pra indústria, sacou? E ele foi gravar... Ele não tinha nem violão. Um amigo dele emprestou um violão pra ele e uma gravadora de fita. E foram numa noite, gravaram o disco inteiro, mandaram pra Columbia Records e lançaram o disco desse jeito, sacou? E é um disco genial, assim. Vale muito, muito a pena ouvir. Acho que chama...
Eron Falbo: [27:06] Acho que chama Burt Yanks, Burt Yanks. Procura aí, é difícil de escrever. É B-E-R-T-J-A-N-S-C-H. Pra falar pro pessoal aqui o nome certo mas essa onda de gravar ao vivo demonstra a mesma coisa do Please Please Me dos Beatles que foi gravado praticamente uma depois da outra porque eles já estavam tocando tanto aquelas músicas que já não precisava de outros takes isso demonstra um profissionalismo, um domínio.
Giovanni Caruso: [27:41] Do que você tá fazendo Aí é diferente, cara. Eu vou te dizer que tem algumas músicas no Pangeu ali que eu toquei assim, passando o som. Tem que uma, assim, que me emociona de eu ter... Até que quem falou, inclusive, isso eu boto para o meu amigo lá, que é o produtor, Renato Schmuck, ele disse... Quando eu estava passando o som, assim, ele me disse, cara, vem ouvir, está pronto. E eu digo, não, tu está louco, de maneira nenhuma. Quero me botar com o metrô no meu garfazete. E ele, cara, vem ouvir. Aí eu ouvi e inseguro ainda, né? Ah, tem umas variações de tempo, assim... Aí ele, cara, eu não faria de novo, aí eu acabei deixando, cara. E tem um ponto de orgulho, assim, que é a pior coisa que eu fiz.
Eron Falbo: [28:30] E é muito mais, assim, hoje em dia praticamente todos os discos são gravados com vários takes, assim, é um Frankenstein, né, de takes. Que a gente copia e cola e vai montando E nos anos 60 não era assim, né? Começou a meio que ser assim, né? Depois do Sgt. Pepper e coisas do tipo Mas a norma mesmo era achar um take bom, né? No máximo pegar uma outra track, assim, de outra...
Giovanni Caruso: [28:55] Não, velho, pra começar a maioria desses discos que a gente ama, né? Dos anos 60 pra trás A maioria deles não eram gravados com metrônomo, né?
Eron Falbo: [29:05] Pra começar... Cara, eu nunca na minha vida gravei instrumento com metrônomo. Até hoje eu sou muito inseguro com isso. Porque sempre que eu gravei, né? Eu gravei lá no Kong Studios dos The Kings. Apareceu... Acho que era o Ray Davis, não sei se era o Ray Davis. Mas apareceu na porta assim, abriu e aí tudo bem. E a gente me deu a gravação Acho que é o Rave, tenho quase certeza que era o Rave Mas, pô, genial demais! Mas, cara, eu sempre deixei os instrumentos pra outras pessoas gravarem porque essa parada de metrônomo, pra mim, eu fico muito autoconsciente, assim, tipo, pô, não toco, assim, à vontade Então eu deixava outras pessoas que tinham mais experiência Ah, cara!
Giovanni Caruso: [29:54] O Rolling Stones, por exemplo, jamais gravaram uma música do metrônomo, o metrônomo deles era o Batera E tudo ao vivo, como diz o Keith Richards, se a banda não for, nem me liga Nem me liga que eu não vou, se não for a banda eu nem vou, nem mexo, nem saio de casa Mas é os Stones aí, né?
Eron Falbo: [30:14] Tinha que voltar esse espírito, porque eu acho que assim, isso é outra coisa filosófica pra gente discutir, mas eu acho que a gente meio que esgotou, especialmente na pandemia, esgotou essa áurea de produção, de enganar a sensibilidade humana com produção exacerbada, com lapidações, de produção e eu acho que o público está começando a aclamar por coisas mais reais. Por isso que podcasts estão fazendo tanto sucesso em contrapartida à mídia mainstream. A gente vê vídeos de YouTube sendo muito assistidos, às vezes mais do que filmes de Hollywood, que são feitos... Tipo assim, um cara que eu acompanho bastante, o Joe Rogan, É um podcasteiro, assim, dos Estados Unidos. Ele tem 300 milhões de downloads por mês.
Eron Falbo: [31:15] E, assim, o artista musical mais popular do mundo hoje, que é o Post Malone, tem 50... 50 Milhões de downloads por mês. E o cara fala durante 3 horas, sacou? No podcast dele. Então, tipo assim... O que a gente cresceu, na nossa época tinha Britney Spears, que tinha uma legião vasta de seguidores e a gente nunca imaginava uma coisa independente, uma coisa mal produzida ter mais visualizações e hoje em dia tem muito mais. Então eu vejo que pessoas como você, que são artistas autênticos, que aprenderam na experiência mesmo, na prática, que é tipo assim, são horas e horas de composição, horas e horas de takes, de execuções de canções, de ensaios, e você é essa pessoa lapidada hoje que consegue gravar discos em um take, eu acho que tem muito mercado pra isso, a gente tem que explorar isso.
Giovanni Caruso: [32:20] Legal, cara, eu fiquei não chocado, vou dizer, eu não tô achando a palavra, mas eu fiquei assim, Levemente chocado com a receptividade do Pangeu, porque eu gravei pra mim, cara. Então tu pega a simplicidade dele, assim, é... Cara, é um disco... Cara, eu não gastei um centavo, fui lá quatro vezes no estúdio ali, três, quatro vezes, e gravei tudo, cara. Sabe? Então, sozinho... E, cara, o povo tem pessoas, claro, né? Público super ultra limitado, né? Mas as pessoas tem as pessoas que gostam desse trabalho assim tem um amor por ele assim cara que me deixa sensibilizado cara justamente talvez por ser eu fico pensando porque né um que é um disco de amor dois porque ele é um cara tocando violão quase né.
Eron Falbo: [33:17] Então, muito por causa disso. Essa é a minha opinião, assim, porque eu acho que as pessoas estão clamando por isso. Mesmo que... Acho que as pessoas ainda não estão, dentro do mundo da música, ainda não estão conscientes sobre isso. Mas eu acho que, cara, tipo assim, um disco tipo... Qual que é o nome da... O Highway 61 Revisited, não, o segundo do Bob Dylan, qual é o do segundo do Bob Dylan? Caraca, eu não acredito que eu esqueci isso. The Times They Never Change é o terceiro, o segundo é aquele... Bom, sei lá, mas The Times They Are Changing é um exemplo, pode ser. O The Times They Are Changing, cara, é um disco que poderia muito bem ser ouvido, que é um cara só com violão e gaita. É uma parada bem... É bem pessoa pra pessoa, você entende? É tipo, não é... Você não sente os intermediários. Você sente um poeta, um filósofo, uma alma artística, né?
Eron Falbo: [34:23] Conversando... Você lembra disso nos primeiros três, quatro discos do Bob Dylan? É isso, né?
Giovanni Caruso: [34:28] As sonheiras do Dorival Caymmi, cara, parece que o cara tá cantando no teu ouvido e tem essas variações de tempo e de aí cordas, assim, que de repente bate uma cordinha ou outra, mas é isso realmente, cara, é um prazer ouvindo esses trabalhos que são gravados ao vivo é outra coisa mesmo.
Eron Falbo: [34:50] Cara, eu acho que você deveria, e eu tô até pensando que... Eu fico pensando em voltar a compor, e às vezes volta e meia eu componho E cara, hoje em dia eu sinto, pelo menos, que eu tô muito melhor compositor do que eu tava Só que eu não sinto tanto ímpeto, né? Tipo assim, antes eu ficava assim, caraca, eu preciso compor, preciso tirar, e agora assim... Vêm ideias assim, eu falo, foda-se, eu não vou escrever essa porra Então é bom falar com você, com amigos antigos, que dá uma inspirada de novo Só pra falar do Freewheeling Bob Dylan que eu tava tentando lembrar É um dos melhores, cara!
Giovanni Caruso: [35:32] Cinco melhores discos do Bob Dylan! Não é fácil fazer cinco discos dele, hein? Eu vi a mensagem no blog, no Instagram e tava de fora o Desire, eu fiquei furioso, cara! Fui lá e comecei a comer! 5 Discos e o Megadesire tá fora? É possível?
Eron Falbo: [35:51] É porque o Desire é depois da melhor fase, né? Ele meio que voltou e teve uma iluminação de novo.
Giovanni Caruso: [35:59] Tá louco, o Desire é demais, velho. Eu sou apaixonado por aquele disco.
Eron Falbo: [36:03] É, mas eu tô dizendo que ele teve uma fase áurea e depois ele meio que viajou um pouco, virou cristão e voltou. Mudando aqui o... Teve o Self-Portrait também, que é pouco apreciado.
Giovanni Caruso: [36:18] Todos são bons, né? Um dos discos que eu mais gosto dele é o Time Out of Our.
Eron Falbo: [36:26] Minds Ah, muito bom, que é recente pra caramba!
Giovanni Caruso: [36:29] É, mais ou menos, acho que é.
Eron Falbo: [36:30] 97, 98 Recente pro Bob Dylan, tô falando!
Giovanni Caruso: [36:35] Mas é verdade, eu sou apaixonado pela textura daquele disco, as músicas e que.
Eron Falbo: [36:39] Ele é pouco falado Você lembra que eu e o Daniel tínhamos uma banda cover de Bob Dylan, sabe? O Garfunkel.
Giovanni Caruso: [36:49] O cara tava me lembrando, tava falando das suas composições e tava me lembrando um show de vocês no Corova.
Eron Falbo: [36:56] Caraca, Corova, bicho!
Giovanni Caruso: [37:01] Botequim de madeira, assim, escuro, bem legal o show foi. Vamos ter excelentes tempos, cara. A última geração se divertiu sem ser filmada.
Eron Falbo: [37:14] Total, cara. E eu acho que eu sinto isso, pelo menos assim. Não sei se é wishful thinking, que eu gostaria que fosse assim. Mas eu tô sentindo uma vibe que não é que não vai ser filmada, mas é filmada e foda-se. A gente tá no começo dos celulares, era um filmado e ai caramba, tão me olhando. Agora você vê que você tira o celular pra filmar alguma coisa que tá acontecendo, as pessoas nem prestam atenção quem tá filmando ou não. Eu acho que a gente tá começando a ficar anestesiado pra registros. Aí eu acho que vai gerar uma nova consciência na humanidade de começar a tocar o foda-se pro que tá fazendo ou não, sacou? Porque tudo vai ser jogado no Instagram, mas foda-se, amanhã não vai mais estar. Amanhã não vai mais ser relevante. Aí eu espero que isso gere uma geração como a nossa, né? Que a gente se divertiu pra cara debaixo dos panos.
Giovanni Caruso: [38:15] Desculpa, mas eu não boto muita fé nas minhas filhas, amigas delas.
Eron Falbo: [38:20] Você também era melhor que eu.
Giovanni Caruso: [38:23] 13 Anos, é uma geração... Eu fico ligado nisso também, mas elas já têm uma insegurança com as próprias fotos. Um cuidado... Não insegurança, mas um cuidado com as fotos que vão postar dela, que elas mesmas postam entre elas. Já ficam putos se tu posta uma foto que tá... Abrindo mais da privacidade que elas se dão para si próprias.
Eron Falbo: [38:49] Eu estava falando assim, em umas próximas gerações, eu estou sentindo que é possível, eu não estou sentindo já essa parada, eu estou sentindo uma possibilidade disso. Mas por um lado, essa parada que sua filha está, para a gente não ficar meio deprimido com isso, eu acho que tem um lado legal, que assim, no mundo, no nosso mundo, eu e você, a gente era marginal. Gente literalmente marginal. Tinha o Rio e a gente ficava nas margens, olhando a galera fazendo as paradas. Eu acho que tem um lado bom disso. Mesmo que seja superficial no início, tipo, tô tirando uma foto, mas pelo menos você tem uma sensibilidade estética de que você tá planejando, tendo uma certa criatividade. Qualquer pessoa tá tendo que ter esse lado. E acho que com o tempo, espero eu, tô tentando ver o lado bom, entendeu? Espero que isso gere uma geração de estétas, de artistas, de...
Eron Falbo: [39:51] Ah, vai gerar, cara, com certeza. Você sente isso com os amiguinhos da sua filha, alguma coisa do tipo?
Giovanni Caruso: [39:59] Mudou, cara, mudou tudo, né, mesmo. Mudou tudo esse resumo. Já tinha mudado antes da pandemia, né, cara? Eu já sinto que a nossa geração ali, da minha idade, assim, da tua idade, que foi a geração que foi ultrapassada mais com maior contundência e velocidade na história da humanidade, né, cara, por causa da internet, sabe? A gente foi ultrapassado numa velocidade muito rápida e de uma maneira muito contundente, assim, sabe? É foda, velho, porque o mundo, ele mudou ao mesmo tempo, todo mundo junto, assim, sabe? Saca? É foda, cara. Aí até... Até me perdi nas minhas ideias aqui, mas é mais ou menos isso.
Eron Falbo: [40:41] É, mas cara, é o manual do obsoleto, né? Tipo assim, cara, você passou... E com.
Giovanni Caruso: [40:46] A pandemia, no meu ponto de vista, rolou um reset geral, velho.
Eron Falbo: [40:50] Verdade.
Giovanni Caruso: [40:51] Apertou um botão, assim, puf.
Eron Falbo: [40:53] O que era relevante não é mais, né? A maior galera foi cancelada e a.
Giovanni Caruso: [40:58] Gente... Até essa onda de conservadorismo que tá rolando, eu boto fé que é isso, cara. Sabe? Que é uma galera querendo se abraçar a uma natureza que é imparável, entendesse? O cara pensando, querendo, o cara quer ter orelhão de novo, sabe? Esses loucos, sabe? Esses antivacina, esses... Os loucos, esse bolsonarismo... Cara, eu sinceramente.
Eron Falbo: [41:23] Sou bem crítico dos dois lados. Eu acho que está tendo um... Porque mesmo o jeito que tem do lado da direita certas coisas irracionais, irracionárias, a esquerda está completamente conservadora também no sentido dessa parada de antiliverexpressão, cancelamento, anti-experimentalismo.
Giovanni Caruso: [41:46] Sem dúvida, mas isso de tu estar abraçado ao passado, como eu era feliz na ditadura, como eu era bom morelhão.
Eron Falbo: [41:55] Isso aí é um fetiche.
Giovanni Caruso: [41:57] Isso aí não tem como, é um desespero, é o último suspiro da morte, sabe? É tu querer te abraçar a um passado que passou.
Eron Falbo: [42:07] Como Hitler era, ele via o industrialismo e o capitalismo chegando, abrindo as fronteiras do mundo, a Liga das Nações, criando um internacionalismo que ele falou, pera lá, agora as coisas têm soberania nacional, e fez o último suspiro daquela geração, pelo menos, que se tornou fascista.
Giovanni Caruso: [42:33] Tudo anda pra frente, os Beatles foram massa, O Chico Buarque, velho, sabe? Mas, cara...
Eron Falbo: [42:40] É, mas vamos pra frente. Eu também tô nessa onda. A gente era um pouco saudosista, né? Na nossa juventude. Com os anos 60 e tudo mais.
Giovanni Caruso: [42:49] Como se tu é roqueiro, não há como tu não ser saudosista, cara. Porque o ápice do rock foram nos anos 50, 60, 70, né? Que é assim, o rock onde o suco foi gerado e sugado, né?
Eron Falbo: [43:04] Cara, falando nisso, eu tava conversando com o Guti, o Carlos Wurttmann, batera do Pleb Hood, não sei se você lembra. Ele me falou uma parada que eu achei muito legal, que a gente tem que lembrar hoje em dia. Que ele, nos anos 80, com aquela galera do punk rock brasileiro, eles eram críticos da política sem escolher lados. Eles não tinham essa parada de entrar numa ideologia de grupo e abraçar causas. Era uma coisa mais de prezar pela liberdade individual, pela vontade honesta do ser humano de viver, sabe? Eu sinto um pouco falta disso. O que você acha disso na cena hoje em dia? Porque eu realmente não vejo muita gente sendo um porta-voz, né? E como o Bob Dylan era, o Bob Dylan cara, no início, é um ótimo exemplo, eu sei que você gosta do Bob Dylan, tava até vendo você tocando It Ain't Me Baby, eu tava cantando aqui, mas não sei se você lembra a Joan Baez tentando levar o Bob Dylan pra essa parada de de direitos humanos e sei lá o que estava rolando lá no civil rights, direitos civis, os movimentos dos anos 60.
Eron Falbo: [44:31] E o Bob Dylan tocou foda-se total para isso. Eu acho que... O que você sente disso? O que é a sua postura nessa esquadra?
Giovanni Caruso: [44:43] Cara, eu me posiciono. Eu me posiciono, se tu pegar a minha obra com escambau, faz muito tempo, mas eu sempre me posicionei, eu vou sempre me posicionar contra quem está, não sei agora, depois desse governo escroto que a gente está passando, que é incrível, não pode ser pior, mas eu nunca tive, nunca me considerei um louco, um louco de, o cara é de esquerda, o cara... Velho, eu sempre estive contra o governo, sempre achei... Uma posição. Agora, essa gestão, incrível, né, que a gente tá passando agora, né, velho, que nada, tá tudo pior, né, saca? Aí não tem como não se posicionar, cara, sendo artista. A gente tá observando, né, o país decair em tudo de uma maneira violentamente rápida. E aí só aumenta o salariozinho dele, dos bunda mole aí, dos filhinho dele e dos militares, né? E tá todo mundo se fudendo, cara. Pra mim, o artista agora tem que se posicionar porque é incrível o que tá acontecendo, cara.
Eron Falbo: [45:46] Mas se posicionar, mas isso não é, não continua a mesma coisa, você se posicionar na oposição? Se posicionar como, o que você está dizendo?
Giovanni Caruso: [45:52] Cara, eu acho que, cara, tu tem que deixar, no momento, Eron, eu entendo de tu não querer te colocar a favor nem contra um, tu como artista, um político, entendesse? Eu acho que é o teu direito. Mas só que agora, o momento que a gente está vivendo agora, é foda.
Eron Falbo: [46:11] Eu pessoalmente me coloco contra o sistema brasileiro inteiro, que foi trazendo coisas uma depois da outra. Porque do mesmo jeito que tem críticas pro governo atual e que tirou o sustento dos artistas, etc, em governos anteriores às vezes dava sustento de uma maneira totalmente corrupta pra certos artistas. Então eu não acho que é uma escolha entre um e o outro. Pra mim é cagar em todos, entendeu?
Giovanni Caruso: [46:39] Mesmo com o Collor, com o SHC, com o Lula, a gente conseguia se equilibrar de alguma maneira, cara. Mas isso que tá acontecendo agora, velho, é incrível.
Eron Falbo: [46:49] Mas eu não troco o inaceitável pelo muito ruim, sacou? É por isso que eu não escolho nada. Eu troco o inaceitável por esperança de algo melhor no futuro, entendeu? É por isso que eu não gosto do sistema em si.
Giovanni Caruso: [47:05] A gente sabia o que era um governo ruim, mas um governo muito ruim, terrível, a gente não sabia. É a primeira vez que a gente está vivendo isso. A minha geração, um governo terrível. É a primeira vez que a gente está vivendo isso.
Eron Falbo: [47:21] E na prática, o que vocês chamam de terrível? Só por curiosidade, eu sei o que todo mundo meio que fala, mas eu gostaria de saber a sua perspectiva. Eu te conheço, conheço mais ou menos os seus pensamentos e acho que seria legal Sem a gente estar do mesmo lado no sentido de que...
Giovanni Caruso: [47:38] Eu queria poder te citar alguma coisa boa aqui, velho. Pelo menos isso o cara fez. Mas nem isso eu posso. É a primeira vez que eu... Cara, de repente... Eu nunca tive partido, né, cara? Eu nunca nem votei na minha vida direito até aí.
Eron Falbo: [47:52] Mas agora você acha que tem que votar no PT para tirar o Bolsonaro?
Giovanni Caruso: [47:57] Eu acho que qualquer coisa versus Bolsonaro a gente já não estaria tão mal. Eu acho que qualquer coisa, qualquer um. Independente de quem seja, esse louco que botaram aí é a pior opção.
Eron Falbo: [48:11] Eu acho que pode ser. O problema é que o PT meio que desmoronou. Mas assim, não vamos entrar nesse... Acho que o que a gente tem de que a gente concorda, claro, porque senão entra em detalhes que não é nosso assunto, né? Tipo, fucking falar de detalhes políticos. Mas assim, o que eu acho que a gente concorda, e vamos voltar para esse ponto, é que tanto o anterior quanto esse é ruim, Fanático religioso, é.
Giovanni Caruso: [48:40] A primeira vez que a gente está com um grupo governamental de fanáticos religiosos. Isso não tem nada a ver.
Eron Falbo: [48:46] Pode ser, pode ser. Mas assim, voltando para o que o Guti falou no jantar aí que eu tive.
Giovanni Caruso: [48:53] Seja esquerda, é impossível a gente estar num país mais plural do planeta Terra, do Brasil é o país mais plural do planeta Terra, mais que os Estados Unidos. É impossível a gente estar com fanáticos religiosos no poder, por exemplo, nesse momento. E eles são fanáticos religiosos, essa turma aí, saca? São uns incoerentes, não tem como, cara, existir fanatismos no governo.
Eron Falbo: [49:18] Então, vamos tocar nesse ponto, vamos mais além desse ponto, que é o ponto de falar sobre as coisas que são inaceitáveis, as coisas que são exageros, que são...
Giovanni Caruso: [49:32] Fanático. Quando você tem um cargo público, você não pode ser fanático.
Eron Falbo: [49:37] Eu concordo. Eu sou extremamente politicamente moderado. Acho que as pessoas têm que tomar muito cuidado com o que falam quando são políticos. Tem uma obrigação de representar o povo como um todo, representar os ideais da cultura se estão indo em uma direção mais liberal.
Giovanni Caruso: [49:56] Com toda corrupção, com toda canalhada, desde que o Tancredo Neves ganhou até esse filho da puta aí. Sempre rolou, cara, por mais que fosse de partidos, que fossem ladrões, que fossem... Cara, mas nunca rolou um fanatismo religioso, fanatismo desse tipo, cara, que a gente tá vivendo. Isso pra o Brasil, cara, que é um país gigantesco e plural, de... Não funciona. Pro Uruguai, pro Paraguai, pra um país, pra Portugal, entendesse? Que é uma gaiola menor, vamos dizer, sabe? Cara, é uma coisa, mas pra essa pátria colorida, plural, não tem como. Aqui, velho, aqui tu tem que jogar.
Eron Falbo: [50:42] Só que aí tem um lado, cara, que por alguma razão Bolsonaro ganhou as eleições e continua indo bem, vamos dizer, nas pesquisas. É, mas depende da pesquisa. Cara, ele tem muitas chances de ganhar só pelo jeito que você vê as pessoas falando. Mas o ponto é o seguinte, cara. Existe uma grande parcela da população brasileira que se sente representada pelo discurso conservador. Agora, como a gente, apesar de aprezar valores familiares, qualquer coisa que não seja específico de um grupo ideológico, como artistas, como o punk rock nos anos 80 fazia, como que a gente questiona e toca o coração das pessoas para atingir para não entrar nessa dualidade, entendeu?
Eron Falbo: [51:44] Porque, hoje em dia, você tem dois acampamentos e, por um lado, os artistas estão escolhendo mais o lado da esquerda e, às vezes, não estão tocando o coração do lado de pessoas que são, às vezes, simplesmente cidadãos comuns, que se sentem representados por coisas que não estão sendo endereçadas. O que você acha disso? O que a gente pode fazer para sair um pouco da ideologia dual e ficar mais humano, mais brasileiro?
Giovanni Caruso: [52:15] Ah, eu é que não sei. Eu acho que isso vai ocorrer naturalmente porque a gente é um povo, eu acho que o nosso povo, com todos os defeitos que tem, eu acho que a gente é um povo um povo, um povo foda assim, saca? Eu acho que o brasileiro é um povo querido, é um povo que aceita, historicamente, assim, talvez eu esteja enganado, né? Mas a gente é um povo que aceita mais, cara, a diversidade, assim, do que, sei lá, em outros lugares aqui da América Latina, assim, por exemplo, Essas coisas são mais fechadas, cara, do que... Cara, com certeza.
Eron Falbo: [52:57] A gente é um povo... A gente é o único nesse sentido. Não sei se você sabe disso, mas o Dom João VI, que trouxe a corte para o Rio de Janeiro, para o Brasil, no começo, ele tinha, no começo do século XIX, uma noção de fazer miscigenação de raça, que era uma coisa que todas as outras nações tinham o protocolo oposto, que era de segmentar, né? O que eles chamam na antropologia de mosaicos culturais, ao invés de caldeirão de mistura. A gente tinha uma mistura aqui no Brasil e um protocolo do governo para misturar os povos índios com brancos. Tem até um retrato de Dom João VI sendo coroado por um índio, por um negro e por um europeu. Para dizer que a gente ia criar uma raça superior aqui no Brasil. Então, isso é uma coisa muito única. Quando eu digo raça superior, eu estou falando dessa mistura cultural. Isso é muito, muito único e a gente realmente explora isso, especialmente hoje em dia, nessa coisa meio retrógrada que a gente está vivendo, do poder disso, do poder desse nosso país, dessa pluralidade que a gente tem.
Giovanni Caruso: [54:09] Vai passar, cara, vai passar naturalmente. O Brasil, eles têm essa ilusão. Todo mundo tem as suas ilusões. Isso é da gente, é da nossa natureza, a gente ter as nossas ilusões. E quando a gente está em grupo, especialmente o sexo masculino, a gente vira muito burro, a gente vira muito idiota. A gente vira muito primitivo, né? Mas eles têm a ilusão, cara, que eles vão conseguir engaiolar isso aqui. Isso aqui é engaiolável, cara.
Eron Falbo: [54:44] Olha, mas sinceramente eu acho que tanto o PT quanto o Bolsonaro fazem esse mesmo erro. Por isso que eu sou veementemente contra esse tipo de coisa. Eu concordo com você plenamente que esse é o problema. O problema é achar que o Brasil consegue entrar numa ideologia reacionária.
Giovanni Caruso: [55:01] Jamais, jamais.
Eron Falbo: [55:03] Eu concordo. O Brasil tem que ser liberal, moderno, pra frente. Esse é o cara do brasileiro verdadeiro.
Giovanni Caruso: [55:11] Brasil tem muitas caras, né, cara? E aqui tá, é muito... Eu sou...
Eron Falbo: [55:15] Não, mas aí... Desculpa.
Giovanni Caruso: [55:17] Paúcho do extremo sul, lá da cidade do Rio Grande, lá fronteira com o Uruguai. A gente, lá na minha turma, quando a gente... Adolescentes repletos de preconceito ainda, né, cara? Ali a gente, cara, o cara era de Porto Alegre, mas a gente já ficava meio do avesso, entendeu? Da cidade vizinha tu já ficava. E depois tu vai perceber com o tempo, tu começa a analisar as coisas contra a cabeça, contra a maturidade, assim, tu percebe que realmente é muito diferente, assim, vamos dizer, lá da minha zona, até Porto Alegre já não tem nada a ver, cara. Sabe? Aí tu pega ali, Porto Alegre ali pra Curitiba, assim, nossa, absolutamente nada a ver, esse país é... Quando eu fui com os Feichecleres pra Nordeste, eu sempre gostei de ir nos botecos. Sempre gostei até hoje. Eu gosto de ir no boteco mais vagabundo que tem. Eu gosto de ir ali.
Eron Falbo: [56:10] Na lancheria lá, né?
Giovanni Caruso: [56:12] E, cara, é isso que eu fiz nessas turnês pra lá, nas cidades pequenininhas. Os caras falavam outro idioma, cara. Quando a gente falava, eu e o Tuba, nos botecos, os caras pediam pra gente falar pra rir da nossa cara. O cara na agenda não se entendia, cara. Esse país é muito louco, velho. Isso aqui é uma...
Eron Falbo: [56:34] Mas era porque o Tuba era muito engraçado. Falando nisso, como é que tá o Tuba, cara? Ele continuando Santo Daime, assim, aquela parada espiritual?
Giovanni Caruso: [56:44] Ele tá estudando xamanismo, assim, já fazem, assim, cara, décadas, né? Mais de uma década já que ele tá estudando na... Vai estudar na Amazônia.
Eron Falbo: [56:55] E... Cara, depois você me passa o telefone dele que eu gostaria de convidar ele para ser entrevistado também aqui. Seria uma conversa maravilhosa.
Giovanni Caruso: [57:03] Para mim o Tuba é o maior rockeiro do Brasil, da minha geração, o Tuba. Eu tenho medo de falar isso, do que eu conheci...
Eron Falbo: [57:11] Eu posso assinar embaixo disso, porque só do que eu vi, o que você deve ter visto...
Giovanni Caruso: [57:17] Eu digo isso, cara, porque o Tuba não tinha nem microfone, era duas baquetas na mão e podia ser... 5 Pessoas ou 5 mil, ele transformava o ambiente sim ou sim.
Eron Falbo: [57:28] Cara, é um carisma assim, é tipo... É tipo um cometa, né? O Tuba. Eu até fico impressionado que ele não morreu, né? Porque gente como ele, normalmente... Mas ele tomou outro lado, né? Ele virou meio xamã, assim, pra poder se salvar dele mesmo, né?
Giovanni Caruso: [57:46] Mas o Tuba é demais.
Eron Falbo: [57:48] Eu adoro o Tuba. Cara, o Tuba é uma energia, assim, que ele passa pela sua vida e você nunca mais esquece.
Giovanni Caruso: [57:54] E eu só adorava falar com ele. Ele acabou de...
Eron Falbo: [57:59] Acabou de o quê?
Giovanni Caruso: [58:00] Acabou de ter um nenê, o Horus.
Eron Falbo: [58:02] Ah, que fera, muito fera. Horus, que genial. Chegamos ao nosso horário aqui, nosso fim. Cara, conversa é isso mesmo, a gente tocou em pontos diversos, assim, nosso programa serve... Eu criei esse programa justo por causa dessas coisas que a gente tá conversando, cara. Que é pra abraçar a pluralidade, assim, a não-identificação, sabe? Tipo assim, conversar com Giovanni Caruso, de política, e ao mesmo tempo, pô, falar de coisas pessoais, porque as pessoas que... Eu acredito que as pessoas querem isso, sabe? Querem essa espontaneidade, e a verdade tá nas entrelinhas, né? A verdade não tá na doutrina. Não tá na tábua de esmeralda, né? Tá nas entrelinhas das ideias que a gente troca. Então, cara, foi um prazer enorme. A gente pode fazer isso mais vezes, se você concordar, porque a gente acha que pode ter muitos assuntos. Eu te convido pra vir aqui pro Rio, cara, pra gente...
Giovanni Caruso: [59:05] É um prazer, Heron, de me sentar contigo. E mesmo que seja assim, dessa maneira, assim, claro, queriam me sentar numa mesa de bar e... Tocar um violão, bater um papo assim... Eu até achei, cara, que esse nosso encontro ia ser mais nostálgico. Até gostei que ele foi pro lado da política ali também um pouco, porque trouxe...
Eron Falbo: [59:23] É que eu tô meio policiando, né?
Giovanni Caruso: [59:25] Trouxe pros dias atuais também, mas eu achei que a gente ia ficar até mais nostálgico assim do que já foi. Tenho saudade tua, cara. Gosto muito da tua pessoa. Te devo coisas, assim, intelectuais. A gente trocou muita figurinha na vida de arte, de música.
Eron Falbo: [59:41] Obrigado, querido.
Giovanni Caruso: [59:42] Cara, e foi muito legal. Sabe que eu guardei, guardo essas lembranças com carinho enorme, cara.
Eron Falbo: [59:47] Eu também, cara. Você é um irmão, assim, porque a gente vê que a gente cria esses irmãos que a gente não escolhe, né? Tipo, que podia ter sido qualquer pessoa, mas foi a gente que tava junto naqueles momentos. E é isso, né? Irmão de história, de história juntos. Então, cara, eu convido você e a Maria, as suas filhas, se tem lugar pra ficar aqui em casa, vocês são super convidados pra vir aqui pro Rio, a gente curte uma noite, não sei se ainda tem um lado boêmio, mas eu ainda tenho.
Giovanni Caruso: [60:20] É só o que resta em mim. Cara, se eu sair aí no Rio, não é uma dor, eu saí pra amanhecer, né, velho, curar o chumbo na praia é beleza. O Rio é um lugar maravilhoso, cara. O céu e o inferno ao mesmo tempo, com toda a força. Eu sou apaixonado pelo Rio de Janeiro. E como não ser, né?
Eron Falbo: [60:45] Genial, cara. Vamos marcar isso. Depois a gente se fala melhor. Eu vou pedir pra vocês esperarem. Eu vou fazer tipo um aviso paroquial daqui a pouco. Antes da gente terminar, só pra você dar uma lembrada onde a gente encontra suas músicas, seu trabalho, pro pessoal poder assistir. Aí depois eu vou te fazer uma última pergunta.
Giovanni Caruso: [61:06] Agora tu quer que eu responda isso?
Eron Falbo: [61:08] É só onde encontrar, site, Instagram?
Giovanni Caruso: [61:12] É isso aí, gurizada. Quem quiser conhecer sobre o Scambau, que é Scambau oficial, vocês vão encontrar aí em todas as plataformas de streaming, no Facebook, Instagram, essas coisas, a gente fica tentando se adaptar, apesar de já estar 40 anos, ter 40 anos, já a gente vai tentando se adaptar a essas realidades. Virtuais e... Giovanni Caruso também aí nas plataformas vocês vão ter meu disco solo quem quiser falar comigo é só me chamar ali em box e a gente.
Eron Falbo: [61:46] Vai se falando Fera, então última pergunta pra você cara, se você tivesse uma varinha mágica pudesse instantaneamente mudar alguma coisa sobre o mundo atual se pudesse fazer ele melhor de alguma forma o que seria importante pra você e como é que você mudaria e por quê?
Giovanni Caruso: [62:05] Ah cara, eu mudava o presidente do Brasil e botaria o primeiro mendigo que eu encontrasse aqui na rua e tenho certeza que a gente já tá muito melhor.
Eron Falbo: [62:13] Bota fé, bota fé Giovanni. Então valeu cara, muito obrigado mais uma vez, a gente se fala. Fica só três minutinhos aí, a gente já se fala offline. Beleza? Beijão cara, muito obrigado.
Giovanni Caruso: [62:28] Tudo de bom aí, meu irmão.
Eron Falbo: [62:29] Ah, desculpa. Manda um beijão pra Maria, pro Glauco, pro Marcos, pro Tuba, pra todo mundo que a gente conhece.
Giovanni Caruso: [62:37] Manda sim, meu irmão. Manda sim. Obrigado aí pelo carinho. Obrigado por isso. Adorei falar contigo, cara. E é isso aí. Não vejo a hora da gente se encontrar, se dar um abraço e tomar umas aí.
Eron Falbo: [62:48] Valeu, meu querido. Tudo de bom.
Giovanni Caruso: [62:50] Valeu, irmão.
Eron Falbo: [62:51] Boa noite. Estamos offline? Já posso? Então pessoal, como sempre eu vou fazer esse resumo do que eu aprendi. Com o nosso convidado de hoje, Giovanni Caruso. Eu aprendo com ele desde os 16 anos. Acho que eu vou dar uma trajetória completa, incluindo a conversa de hoje. Antes disso, eu queria lembrar vocês para seguirem os nossos canais. Acompanharem o nosso Instagram, que está sempre tendo novidades, esse modo de pensar liberalista, só que não de uma forma, vamos dizer, de um acampamento só, mas o modo de pensar da liberdade individual, do poder pessoal, do ser humano, acima das castas, acima das religiões, acima das doutrinas.
Eron Falbo: [64:01] Então não siga aí, vocês sabem o que fazer, se inscrever, seguir essa parada toda, que a gente não ganha nada com isso. O Giovanni, cara, ele desde o início sempre, como eu falei, sempre foi muito autêntico. Eu não posso dizer que ele nunca... Que ele era... Ele fazia primeiro, ele sempre fez primeiro porque ele sempre teve boas intenções. Então eu sempre senti isso dele, não sei nem porque eu falei isso exatamente agora, mas eu lembro de ver ele no palco e se dando, se entregando completamente para o que ele estava fazendo. E era acima de saber cantar bem, que ele sempre soube cantar muito bem, desde muito... E sempre foi um ótimo contrabaixista, um excelente profissional, mas eu acho que ele segurava as bandas nas costas, as diferentes bandas que ele participou nas costas, por estar totalmente imerso naquilo.
Eron Falbo: [65:04] Ele nunca teve uma segunda opção na vida, até onde eu sei. Não porque faltavam oportunidades, mas porque era aquilo que ele sempre quis fazer e ele Ele literalmente queimou as pontes nesse sentido artístico. Ele nunca duvidou do lado artístico dele e isso foi uma parada que é impossível não inspirar um ser humano, independente de ser artista ou não. E eu acabei sendo muito mais artista do que talvez eu seria. Dentro do meu contexto familiar e tudo, se eu não tivesse tido esse ser humano Giovanni Caruso tão próximo na vida. E nessa conversa de hoje ele demonstrou isso, que ele continua essa pessoa depois de tantos anos que a gente não se fala, depois se fala, depois se reencontra de novo. E continua autêntico, continua perseverando, continua acreditando indubitavelmente, totalmente entregue pra esse estilo de vida.
Eron Falbo: [66:13] E tá aí com duas filhas, eu acho, que ele falou. E ao mesmo tempo com uma vida familiar, continuando na mesma coisa. Na mesma dedicação à arte. Isso realmente é incrível. Acho que vale para todos os artistas que estão aí conhecer um trabalho de um verdadeiro artista. Acho que o mundo está precisando disso. A maioria dos artistas hoje em dia duram algumas gravações, depois que começa a ficar difícil, param de se dedicar. Então, é isso. Foi uma ótima conversa. Lembre-se, a gente tá ao vivo das nove horas da noite, segunda à sexta. E nunca esqueçam, águas passadas não movem moinho. Muito obrigado, boa noite.
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