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#100 Expondo o ridículo que você é!

com Márcio Libar · 9 de mai de 2021

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Quem é Márcio Libar

Palhaço, ator, diretor teatral e autor

Márcio Libar é palhaço, ator e diretor, autor de A Nobre Arte do Palhaço, e trabalha com atores, apresentadores e atletas de alto nível.

Transcrição do áudio do episódio.

Eron Falbo: [0:00] Mas seja muito bem-vindo meu amigo.

Márcio Libar: [0:02] Adorei cara, adorei a abertura do teu programa. Estou adorando o seu cenário. Acho que você está cada vez mais à vontade. Me diverti aqui com a tua entrada. Espero que seja super profissional. Você montou para mim, vou até mostrar para o teu público aqui ó. Manda cara, uma caixinha com o equipamento que eu estou usando aqui ó. O meu equipamento está todo encostado ali. Ele manda um equipamentinho de som pra garantir a qualidade de áudio desde a que ligou pro profissional. Então quero te agradecer aqui o presente que você mandou pra mim. Obrigado pelo microfone.

Eron Falbo: [0:41] Mas foi, estar com você realmente... Sabe que eu fiquei esse tempo todo, desde que a gente se conheceu, eu fiquei imaginando como é que seria a nossa entrevista, que a gente já se conhece há um tempo. Parece que são várias vidas, mas comparado com as pessoas que eu conheço do Rio, você é uma das pessoas que eu mais conheço aqui.

Márcio Libar: [1:01] A gente se conhece bem no Rio, é verdade. A gente se conhece bem.

Eron Falbo: [1:04] Eu fiquei sonhando com esse momento e, cara, foi... Tudo deu errado, eu fiquei achando que ia ser perfeito, que eu ia fazer todo o preparo mágico para a gente ter um momento lindo. E hoje eu vim de Brasília de avião, eu não dormi. Na vida a gente faz planos e a vida acontece, né? É esse esquema aí cara de fazer...

Márcio Libar: [1:31] Eu estou na sua mão aí, eu não falo, eu sou o teu alvo, você pode apontar a seta. E vamos lá fazer esse papo, um papo divertido, profundo.

Eron Falbo: [1:41] Eu estou com a expectativa de ser ridicularizado por você hoje, pô.

Márcio Libar: [1:44] Ah, eu estava comentando isso aqui com a Carol, falei assim, vou fazer de tudo para deixar isso sem graça.

Eron Falbo: [1:50] Pô, até agora você está me elogiando, estou até com medo aí do que está vindo.

Márcio Libar: [1:54] Nunca te elogio, né?

Eron Falbo: [1:58] Então o Márcio, pra quem não sabe, pelo menos na minha história, como ele mesmo diz, ele pode não ser renomado, mas ele é manjado. Então na minha vida o Márcio entrou pra me ensinar a importância de ser um idiota. Que, enquanto eu já suspeitava, eu não sabia a grandeza, a nobreza do idiota, a nobreza do cara que está se expondo, o cara que está com o coração aberto, que está com o coração na mão, exposto para todos, as feridas expostas, que esse é essa pessoa mais corajosa que tem, o palhaço.

Márcio Libar: [2:42] É muito bonito a sua fala inicial, me sinto contemplado, Eu apliquei isso sobre os meus valores, são os valores que eu tento transmitir no mundo, pra todo mundo. Porque esse foi um aprendizado às duas pernas, você sabe que esse aprendizado é duro, né? Não é fácil a gente olhar pra gente com um olhar sobre os nossos ridículos. Porque a primeira camada, antes de você rir de você, é a vergonha, né? Eu tenho muita vergonha das coisas que eu fiz no passado, assim, sabe? Alguns comportamentos e tal. Naquele momento eu estava super coerente. Eu teria até, inclusive, argumentos nobilíssimos para justificar cada atitude que eu tive. Mas hoje, com 55 anos, dá para dar uma olhada na tua vida como um todo. E algumas coisas eu me envergonho. E eu acho que a noção dessa vergonha, e a aceitação, a generosidade para aceitar esse erro, Eu acho que no que consiste o ato evolucionário.

Márcio Libar: [3:47] Porque significa que eu não quero mais cometer essa vergonha. Logo, com consciência desse erro, jamais cometerei novamente esse equívoco. Então, se eu não tiver a generosidade de aceitar isso como erro, eu jamais evoluo. Então, acho que isso é uma matemática que é uma conta que bate no final.

Eron Falbo: [4:07] No judaísmo, na Kabbalah, eu aprendi um conceito que fala sobre a importância da confissão, no processo da redenção.

Márcio Libar: [4:20] Eu vi que você está bebendo um vinho, vamos fazer um brinde.

Eron Falbo: [4:23] Vamos fazer um brinde. A rezada, a exposição.

Márcio Libar: [4:27] A Dionísio. Eu sei que você tem uma bola na sua sala.

Eron Falbo: [4:31] Eu estou brindando aqui para ele. Valeu, Dionisão. Então, tem um conceito na Kabbalah, na tradição judaica no geral, que é o Teshuvah, que é o retorno, que é uma espécie de redenção pessoal, você se redimir perante a Deus. E esse processo é para você poder completar essa redenção. O que significa essa redenção na verdade? É tipo assim, é uma retificação de um erro. Vamos dizer que você fez um... Sei lá.

Márcio Libar: [5:06] Um equívoco qualquer.

Eron Falbo: [5:08] É, um equívoco qualquer. Uma coisa simples, só para usar como exemplo. Você mentiu para alguém, né? Aí de repente você vai para essa pessoa e você quer retificar esse erro. Aí a parte da confissão é uma parte essencial nesse processo de retornar. Teshuvah em hebraico significa retorno. Então o processo é você retornar a sua pureza que você perdeu naquele naquele erro. Aí a confissão é uma parte essencial disso. Eu acho que quando você consegue errar do seu próprio erro, é uma forma de uma confissão, só que é muito mais intensa, porque não é só você falar, expor aquilo externamente, mas é você expor com tanta grandeza, com tanta transparência, que você nem se identifica mais com aquela parada. Que você está olhando de fora e está rindo de você mesmo. Acho que esse processo que eu acho que é poderoso de rir de si mesmo, é um processo de retorno à pureza.

Eron Falbo: [6:14] O mais intenso retorno à pureza que pode existir é uma confissão das mais intensas.

Márcio Libar: [6:20] Eu acho que talvez isso ajude até a entender um pouco essa ideia, você falou já da ideia do judaísmo, mas esse conceito cristão do arrependimento, Arrependimento não é culpa. Culpa é quando você não se desculpa e você fica com ela. O arrependimento exige uma certa autocompaixão e uma generosidade com você. É tipo assim, o artista é aquele cara que chama as emoções para dançar. Sejam elas confortáveis ou não. Muitas vezes não são. Muitas vezes é dor. E o artista transforma essa dor em arte. Esse mergulho que o artista dá, esse jogo da expressão das emoções que confere a dor em arte, o palhaço chamou o erro para dançar. E eu fiquei pensando sobre isso, né? Nessa ideia de dançar. Todos nós, na vida, já passamos por uma situação de dançar com alguém com quem a gente se interessava, e aquele alguém não sabia dançar, ou nós mesmos não sabíamos dançar.

Márcio Libar: [7:28] Mas a gente mantém uma generosidade naquela dança, que a outra pessoa está desencontrada, que está pisando no teu pé, você mantém uma generosidade, porque você tem um interesse profundo. Então, a generosidade que você coloca aí, ela suplanta a autocrítica, ela suplanta a autoexigência, ela suplanta o perfeccionismo. Então, quando eu falo que isso é uma dança para dançar, o erro para dançar, eu acho que é uma dança, que eu chamo de dança do arrependimento. Que você está se adaptando ali às suas dificuldades, às suas limitações, à sua incapacidade de se colocar no lugar do outro, à sua incapacidade de vir. Uma série de limitações que a gente tem, esse é o arrependimento. E ele existe em generosidade. Eu acho que essa é a grande diferença. Porque o perfeccionista, teoricamente, ele também admite o erro. Mas ele se cune. Ele se chicoteia. Eu errei. Eu sou merda. E a proposta aqui é outra.

Márcio Libar: [8:30] É você olhar com generosidade. Porque ao perceber cada admitação dessa, é um passo que você dá em direção ao seu aperfeiçoamento. Por isso eu acho que o próximo passo é o perdão. Porque quando você reconhece, então, agora, eu sei o que me fez agir mal com você, eu tenho que te comunicar, porque agora eu sei que o motivo não foi você, foi eu. Eu vacilei com você porque eu não soube me colocar no seu lugar, ou porque eu tive um julgamento precipitado, ou porque eu não soube lidar com as emoções da tua liberdade, enfim. E eu preciso comunicar isso a você. Quem já experimentou pedir um tipo de perdão nesse nível, aí está uma palavra que você deve gostar. Experimenta algo que se chama metanoía, que significa metamorfose espiritual. Por isso que Cristo admite o arrependimento do perdão como a transcendência na Terra.

Márcio Libar: [9:33] A transcendência sem precisar morrer. Eu acho que essa é uma experiência... Eu acho que todo mundo nesse momento agora podia olhar, pensar na sua vida em volta, se tem alguma coisa que você deixou, vacilou, e que você poderia chegar e mandar um áudio pedindo um perdão que faria maior diferença na tua vida.

Eron Falbo: [9:53] Total, cara, você me falou pra fazer isso quando a gente tava estudando juntos e foi muito intenso esse momento aí que eu... Você pediu pra quem? Eu pedi pra minha ex-mulher, porque eu tava... Sabe, quando a gente se divorcia, a gente faz um grande esforço pra fingir que a pessoa não existe e nunca foi importante pra gente, né? Então eu tava nesse momento... Momento vingancinha. É, exatamente. É porque a gente tem que sobreviver emocionalmente, né?

Márcio Libar: [10:24] É isso mesmo, é isso mesmo.

Eron Falbo: [10:26] Mas a gente acaba sendo injusto, né? Na vontade de... De sair ileso, de sair bonitinho, sair com cara de príncipe da situação, a gente acaba pisando, às vezes, em algumas emoções.

Márcio Libar: [10:45] Valores!

Eron Falbo: [10:47] Exatamente, nos nossos próprios valores, nossos próprios princípios. Então, isso foi intenso para mim.

Márcio Libar: [10:56] E foi bom quando você fez? Qual foi a sua sensação? Quando você fez isso, como é que você se sentiu depois?

Eron Falbo: [11:03] Cara, você falou, claro que assim, acho que as pessoas talvez não entendam, vou falar um pouquinho, um preâmbulo aí para a sua pergunta. O Márcio faz um processo com atores, apresentadores, com todo tipo de gente, na verdade, mas...

Márcio Libar: [11:23] Empreendedores, empresários...

Eron Falbo: [11:27] Investidores muito, muito ricos. E o processo é de a gente se encontrar através de rir de si mesmo, através da arte milenar da palhaçaria. Depois que a gente passar desse trecho, eu vou falar um pouquinho sobre isso. Mas nesse processo de autolibertação que o Márcio fez comigo, tem uns momentos de cura. De cura de certas coisas na nossa própria vida. E isso que ele está falando agora, pense numa pessoa que a gente possa pedir esse perdão. E aí foi que eu pensei na minha ex-mulher. E esse processo na verdade não tem nada a ver com a pessoa, tem a ver com a gente.

Márcio Libar: [12:21] Então para mim... Você não vai para o outro, você vai por você, né?

Eron Falbo: [12:26] É, que é muito intenso, é muito mais intenso do que pelo outro, né? É, tipo...

Márcio Libar: [12:32] Eu tenho uma frase, eu tenho um poema, que é assim, chama Egoísmo Sustentável. Mas em épocas aí de noção do meio ambiente, pode termos que chamar também de Egoísmo Responsável. Que é assim, eu não estou fazendo isso por você. Estou fazendo isso por mim. Porque eu não estou preocupado com você. Eu estou preocupado comigo. Mas como que eu quero nessa vida ser feliz? Estar bem? Isso te inclui.

Eron Falbo: [13:16] Total, total. E isso me lembra daquela sua frase.

Márcio Libar: [13:20] Você não pode estar bem se você sabe que a mãe do teu filho está mal. Você é um dos grandes responsáveis por esse maltrato emocional com ela. Você não pode estar feliz. Seria mentira. Então, como você está preocupado com a sua felicidade, a sua felicidade tem muito a ver com quem está em volta de você e quem você ama estar em harmonia e estar bem. E se você puder ajudar para que isso aconteça, não dou esforços para isso.

Eron Falbo: [13:46] Exatamente. Eu acho que isso é um conceito filosófico que é pouco revisitado. Isso aí é um conceito antigo filosófico, que é da importância do egoísmo. Acho que no mundo, nas religiões, na ética, a gente pensa muito em altruísmo. Se a gente pensasse mais em expandir o nosso ego, para incluir outras pessoas, a gente começaria a prestar atenção nas outras pessoas muito mais, e prestar atenção nas outras pessoas pelas razões certas. A gente tá tentando ser altruísta e nisso não tá... Nessa tentativa a gente tá olhando pra nós mesmos, entendeu? A gente tá olhando, pô, aquela coisa da dança que você falou. Ao invés de olhar pra ver se você tá pisando no pé da pessoa, você tá vendo se você tá mexendo o seu pé bem, entendeu? Aí você tá vendo, pô, será que eu tô mostrando pros outros altruísmo? Eu não tô mostrando pros outros uma coisa legal?

Márcio Libar: [14:46] Eu tô mostrando... Será que eu tô aparentando pras pessoas altruísmo?

Eron Falbo: [14:50] Exatamente.

Márcio Libar: [14:52] A gente tá ficando muito bom em aparentar, Eron. Uma das novas especialidades da nossa educação é nos transformar em grandes faxas, grandes mentirosos do que nós somos, né? Nós crescemos numa geração em que a publicidade dizia que a Barbie mostrava a Barbie se movimentando, o Falcon se movimentando, o Playmobil se movimentando. Aí quando a gente comprava lá, o Playmobil não se mexia, a Barbie não se mexia. Então a gente cresceu com essas mentiras todas, né? Então, assim, a gente já começou a achar normal vender para as pessoas aquilo que não é verdade, porque não haveria punição para isso.

Eron Falbo: [15:30] Pelo contrário, haveria recompensas.

Márcio Libar: [15:32] Pelo contrário, haveria recompensas. Então, outro dia eu estava tentando formular uma frase, não está pronta, mas eu gosto de frases. Como diz o Felíssimo, frases. Eu sempre ando com umas no bolso. E eu estava pensando como é que é... Bom, enfim, a frase me escapou agora, vamos continuar.

Eron Falbo: [15:54] Bom, mas esse conceito filosófico de egoísmo, de expandir, tipo assim, cara, eu sou tão sinistro, mas tão sinistro, que eu tenho, porra, meus pais no meu ego...

Márcio Libar: [16:06] Ah, lembrei da frase, lembrei da frase. O preço da aparência, o preço da aparência é a própria autenticidade.

Eron Falbo: [16:19] Total.

Márcio Libar: [16:20] Sacou? O que é que você paga a tua aparência? Aparentar que você é mais rico do que é, ou que é mais inteligente do que é, ou que é mais especial do que é. É que você deixa de ser você. Tentando ser o cara, você deixa de ser você. E aí, eu acho a grande sacação das pessoas autênticas das pessoas. Eu achei que foi muito autêntica a sua entrada. Acho que o que você está fazendo é uma coisa muito autêntica. Não é porque talk show é autêntico. Não é porque live é autêntico. Não é porque ter um equipamentinho legal é autêntico. É porque você está aproveitando cada dia do teu programa para expor o ridículo que você é. Ou seja, isso é fantástico. Eu me divirto muito. Eu acho que esse lugar é um lugar sagrado. Então, eu fico muito feliz de ser convidado no teu programa para falar desse estado. Quando o Eron então, aquele sério que trabalha no mercado financeiro, ou aquele cara que tenta aparentar, quando ele chega aí, é um ato de desconstrução extremamente generoso.

Eron Falbo: [17:28] Total. Vamos falar sobre isso. Vamos me expor aqui um pouquinho, você que me conhece um pouquinho.

Márcio Libar: [17:33] Eu estou te expondo.

Eron Falbo: [17:34] Vamos me expor porque eu acho que é um exercício legal, porque a gente está aqui com alguém que tem essa expertise, que é você que tem a capacidade de expor as pessoas de uma maneira generosa, de uma maneira carinhosa, porque você não é um sargento... Porque você pode também ajudar pessoas dessa forma, por acidente, mas você é uma pessoa cautelosa, com o processo iniciático da pessoa, o processo do desenrolar, do desabrochar do palhaço interior da pessoa. Eu acho que como esse é meu programa, tem meu nome tudo egocentricamente, Acho que a gente pode usar o meu processo para mostrar para as pessoas isso que você faz. Então assim, de repente você falar um pouco sobre como eu cheguei para você e o que você viu.

Márcio Libar: [18:30] Não, a melhor de tudo, eu só trabalhei com você, Eron. Eu só aceitei trabalhar com você porque a gente teve um primeiro papo, que não estava valendo nada, tipo um encontro, e aí eu falei, Qual é o teu problema? Qual é a tua parada? Alguma coisa, se eu te perguntei, eu ia falar assim, muito sinceramente, muito bonitinho. Eu já tentei de fazer de tudo pra fazer sucesso, mas nunca consegui. Quando você falou isso, você me ganhou, cara. Você me enganou, porque eu falei assim, o programa tem que começar daí, você tem que confessar isso para o teu público. Falei, galera, pô, dá um like para mim aí, porque, pô, tô tentando fazer um sucesso, sabe? Então, eu achei isso muito generoso, assim, a primeira coisa que eu achei muito legal. E acho que você, não vou te expor aqui, logicamente, mas eu acho que o que você traz...

Márcio Libar: [19:31] Não, não vou pessoalizar, porque eu acho que você traz...

Eron Falbo: [19:33] Eu acho que o que você traz.

Márcio Libar: [19:36] É quase que um... Não vou dizer que é um padrão, porque eu serei revolucionista demais, mas é possível ver em uma grande quantidade de pessoas que é mais ou menos o seguinte padrão. A gente é de uma geração, por exemplo, você é dos anos 70, né?

Eron Falbo: [19:55] Não, eu nasci em 85.

Márcio Libar: [19:57] Você é dos anos 80, né?

Eron Falbo: [19:58] Eu tenho cara de 60 anos, mas eu sou mais novo.

Márcio Libar: [20:01] Não, mas você tinha uma cifarinha, um garotão. Eu sou de uma geração, por exemplo, nos anos 60, eu nasci em 66, nos anos 60 foi a explosão do divórcio, no mundo, então chegar na escola e ter uma família separada, você ter os pais separados, era meio motivo de vergonha, era motivo de vergonha, Por exemplo, eu perdi o pai com 6 anos, minha mãe era viúva, isso não era tão vergonhoso. Pelo contrário, ser viúva talvez inspirasse até uma solidariedade maior na comunidade, um olhar solidário maior. Tadinha, ficou sozinha com 3 filhos. A separada já... Então, as gerações subsequentes, as décadas subsequentes, esse crescimento do divórcio, quando chegou acho que nos anos 80, já é quase que natural você ter numa sala de aula, pelo menos a metade da turma de pais que não viviam junto.

Márcio Libar: [21:07] Então, a gente sabe o que essa cisão provoca numa família. Mesmo que os pais estejam ausentes, e às vezes os pais estão ausentes mesmo quando juntos, Então, muito mais da ausência do que da separação. O mundo do trabalho deixa espaço. Então, isso é como se você, para supercompensar, tipo, para supercompensar esse vazio, a gente bota um foco muito grande na performance, nos nossos resultados. Porque quando você vê os resultados bons, você chama tanto a atenção do teu pai como da tua mãe, como alguém que está no caminho certo. Sabe como tem elogio deles? Eles dizem, é isso aí, meu filho, mais na performance ainda você investe. E performance, muitas vezes, hoje em dia, significa aquilo que te dá dinheiro. Nesse caminho, muita gente abandona o sonho. Então é muito comum gente que trabalha comigo, tirando quando eu trabalho com a galera de excelência, que são os atletas de alto nível, os atores de alto nível, os empresários de alto nível, que nunca tiveram dúvida do que queriam ser, tem uma camada média que tá numa puta crise, que às vezes ele é um engenheiro já bem-sucedido, um advogado já bem-sucedido, com 37, 38 anos, e o cara não tá exatamente feliz.

Márcio Libar: [22:19] E aí você vai ver porque ele não tá exatamente feliz, foi porque ele deixou de ser aquilo que ele queria para ser aquilo que quisessem que ele fosse. E esse cara, em geral, traz muitas coisas que você trouxe pra mim. Perfeccionista, um nível de rigor muito grande com o erro, Não admitir muito as falhas.

Eron Falbo: [22:40] Eu vou dizer uma coisa pessoal sobre mim, que eu cheguei para você com essa frase, que estou tentando fazer sucesso há muito tempo e não consigo. Realmente, hoje eu identifico que veio desse lugar do perfeccionismo, veio do lugar do Eu estou lendo um livro agora, acho que pela segunda vez, pelo menos do que eu me lembro, porque às vezes a gente confunde um livro com o outro, mas tem um livro chamado Mindset, acho que é da Carol Dweck, esqueci o nome da autora, que nesse livro ela fala sobre dois tipos de mentalidades que a gente pode ter, dois tipos de perspectiva na vida, perante a vida. Especialmente do sucesso, que a gente pode ter a perspectiva de que a gente nasceu de uma maneira ou que a gente se desenvolve no decorrer da vida, e normalmente isso é dado pela nossa educação. Os pais ou passam para o filho que ou ele é talentoso ou não é, ou ele é feio ou ele é bonito, Ele nasceu de peixes ou de ares e é isso.

Eron Falbo: [23:45] E aí ele vai ser assim para sempre? Ele vai ser assim para sempre e ele não tem responsabilidade nem pelos acertos nem pelos erros. Ou a pessoa é educada com um incentivo para melhoria, como é que chama? Ele é recompensado com esforço, pelo esforço, e não pelo resultado que é exercido. Isso é mais raro, obviamente. Isso é a educação mais rara no mundo inteiro, em todas as culturas, etc. Mas foi feito estudos com vários gênios e vários high achievers, pessoas que conquistaram grandes coisas na vida. E foi identificado que essas pessoas que conquistaram grandes coisas na vida eram pessoas que tinham sido educadas para se esforçar. Tipo Michael Jordan, por exemplo. Estou assistindo aquele documentário Last Dance do Michael Jordan. Ele, mesmo depois de ter sido consagrado o melhor jogador do mundo, antes dele começar na NBA, porque ele ganhou as Olimpíadas de basquete, sacou?

Eron Falbo: [24:54] E foi o melhor jogador nas Olimpíadas. Ele, na NBA, era o primeiro a chegar no treino. E passava mais tempo treinando do que todo mundo. E depois de ter ganhado seis títulos na NBA, ele continuava sendo o que mais treinava, o que mais se esforçava. Então, claramente, ele não era uma pessoa...

Márcio Libar: [25:17] Mas eu acho que aí vai um detalhe que vale acrescentar, que é um valor de um país.

Eron Falbo: [25:23] Também, também.

Márcio Libar: [25:24] Não são os números. Se você pegar as gerações que vieram depois do Michael Jordan, é possível que um ou outro tenha tido quase que o mesmo eixo ou mais números. Mas eu gosto que dentro dele existe uma coisa na cultura norte-americana, nessa visão anglo-saxônica, que ser o número um, ser o the best, não é problema. Então, pelo contrário, é uma cultura pra encontrar o número um. É uma cultura que é assim, ela tá dizendo pra você, tu é bom em quê? Tu é bom em futebol americano? Tu é bom em química? Tu é bom em teatro? Pode ser.

Eron Falbo: [26:02] Seja o número um.

Márcio Libar: [26:03] E aí tem o clubinho de ciências, o clubinho de química. Aí o cara tá na rádio School Live, já tá fazendo o melhor dele, já tá no time oficial.

Eron Falbo: [26:11] Ou seja, bom, te dá esse solo fértil.

Márcio Libar: [26:15] E não tem problema que você seja nota zero em todas as matérias e nota até nenhuma. A gente é um país de média seis. A gente é um país que se educa para ter média 6. A gente é educado para ser medíocre. Se você tirar média em matemática, média em português, média em história, você passa no Enem. A gente se prepara 12 anos para.

Eron Falbo: [26:40] Fazer uma prova Sem querer ser egocêntrico, vamos sair um pouco do Brasil e falar mais sobre mim.

Márcio Libar: [26:49] Eu acho que faz sentido isso, porque pelo seguinte, por conta disso, nós temos esse dado educacional, esse chip no nosso cérebro é deficiente, é uma musculatura que em nós é mais flácida. E tem a ver com um pouco de autoconfiança, um pouco de marra, um pouco de autoconfiança. Aí você pode ver, percebe uma coisa, quando o cara está em posição de desvantagem, tipo moleque que vem da periferia, como eu, você não tem plano B. Você tem o teu talento, ou você desenrola naquilo ali, ou você vai ser vai trabalhar no comércio, vai trabalhar no... Não tem outro jeito. Se esse cara, esse cara, e não estou falando que é só uma questão de periferia não, estou falando daqueles caras que tem vocação para ser perdedor. Todos os campeões de surf tinham vocações para serem perdedores se eles fossem qualquer outra coisa.

Márcio Libar: [27:53] Eles só são incríveis porque eles fazem aquilo ali e eles não fariam nenhuma outra coisa tão bem quanto aquilo. Qualquer outra coisa que eles fizeram, que eles fizessem, eles seriam medíocres. Então, assim, eu acho que tem uma coisa na índole, que eu acho que você também é mordido por esse bicho, porque apesar de todas as coisas que aconteceram contigo, de todos os padrões que te cercaram, você sempre teve essa coisa de não aceitar uma condição imposta. Do que desenharam para você. É claro que você fez um caminho mais fortuoso, porque você foi se realizar primeiro, você foi atender a necessidade da sociedade, você prestou conta e você falou, espera aí, agora eu vou brincar no meu barrinho. Então, eu vejo esse programa teu, esse ato de empreendedorismo criativo, como algo também de uma cura. De uma cura espiritual, de uma cura psíquica, que na verdade é você se dando a chance de brincar da brincadeira que você gosta de brincar.

Eron Falbo: [28:52] É, então é isso no meu processo.

Márcio Libar: [28:55] Eu quero dizer que você é um cara especial, entendeu, Menor?

Eron Falbo: [28:57] Valeu, valeu. Estou com medo dos últimos momentos ainda. Mas eu comecei com essa coisa de, pô, eu fiquei tentando ter sucesso e não tive. E depois eu fui com o processo de me ridicularizar e abrir esse ridículo. E isso, eu já estava com o meu programa rolando e eu usei muito o programa. Usei muito vocês, meus irmãos, telespectadores, meus compatriotas brasileiros. Vocês foram meus ajudantes no processo do desenrolar da alma, que Márcio Libar me guiou. E hoje eu vejo, sinceramente, o sucesso como... Cara, eu estava falando isso com o nosso amigo Eduardo Brito, que te mandou um grande beijo. Hoje mesmo eu estava conversando com ele. Eu estava falando, cara, eu preciso ser grato porque às vezes a gente para para olhar para o que está acontecendo assim, pô, olha o que está acontecendo na minha vida e você vê, cara, que eu já vi esse filme antes e não é um déjà vu que é aquela coisa, pô, é uma parada assim, eu vi muitos aspectos dessa parada, eu vi esse filme várias vezes antes, eu sonhei com esse momento que eu estou vivendo agora.

Eron Falbo: [30:16] Eu sonhei com esse sucesso que eu estou tendo agora e eu sonhei com o sucesso que eu já tive na minha vida. E quem sou eu para cuspir na cara de Deus e dizer que eu nunca tive sucesso?

Márcio Libar: [30:28] Sim. Mas eu entendo com generosidade, eu acho que quando você fala aquilo, você não está falando de resultados numéricos.

Eron Falbo: [30:38] Não, mas não é isso que eu estou dizendo também não, eu estou dizendo que depois que eu comecei a ver o vídeo...

Márcio Libar: [30:42] O sucesso hoje é outra, a sua noção de sucesso hoje é outra.

Eron Falbo: [30:45] Eu olhava para os sucessos que eu estava falando, eram advindos desse perfeccionismo, dessa coisa tipo... E hoje eu vejo, caraca, vis-à-vis o que eu era, vis-à-vis o que eu esperava da vida, o que eu esperava que fosse possível, isso que eu estou vivendo já é um sonho de um sonho.

Márcio Libar: [31:06] É isso aí, cara.

Eron Falbo: [31:07] O pensamento é esse.

Márcio Libar: [31:09] O pensamento é esse. É uma vida mais fácil. Mas eu acho que o sucesso tem a ver com sucessivamente. Eu acho que você faz pro programa, todos os dias, sucessivamente, todos os dias, você está fazendo aquilo que você está com muita vontade de fazer. E como é você, da tua vontade mais genuína, a tua percepção de sucesso é óbvia. Por que você não tinha essa percepção de sucesso, por mais sucesso que você fosse no mercado financeiro? Porque você sabia que aquele ali não era exatamente você. E aí, quem estava fazendo algo sucessivamente, todos os dias, há muitos anos, era uma energia e uma força que tinha que ter muito empenho para realizar, porque era algo que não era você. Então, acho que a diferença agora é que você sucessivamente, todos os dias, faz aquilo que está diretamente ligado aos seus valores, a sua percepção de felicidade, a sua percepção de prazer e você...

Márcio Libar: [32:22] Aqui o que acontece? Por isso que o empreendedor é meio sonhador, ele é meio artista.

Eron Falbo: [32:26] Márcio, parênteses só que eu queria dizer uma coisa pra você, eu tô indo tão bem hoje em dia que eu queria te dizer que você jamais será tão bom quanto eu.

Márcio Libar: [32:37] É isso aí, se eu quiser ser quem você é, eu vou ser quem você é. Ainda mais será de quem tu não é. Eu nunca vou ser tão bom quanto você e você nunca vai ser tão bom quanto eu. Se você quiser ser quem eu sou. Eu acho que essa é a parada. Eu acho que isso vai... Isso tá só no início, né Eron? Tá só no início. Eu acho que você tá a cada dia melhorando, a cada dia a gente não sabe. Você é o início, daqui a três anos a gente não sabe. Quais são as mídias que vão ter, de repente a gente vai estar se acessando em óculos virtual, de repente a gente vai estar de realidade aumentada dentro de uma mesma sala. A gente não sabe, mas de alguma maneira você encontrou, eu acho que um bastião, um estandarte, algo para levar. Eu acho que você ainda não tinha encontrado esse bastião.

Eron Falbo: [33:22] Esse foi minha falta de sucesso, foi me encontrar eu mesmo.

Márcio Libar: [33:27] Foi a falta de percepção do sucesso. Você não percebia enquanto sucesso o que já era sucesso. Você só não tinha percepção.

Eron Falbo: [33:35] Por um certo lado também é um fracasso você não se perceber, você não ser autêntico o suficiente para fazer o que você nasceu para fazer.

Márcio Libar: [33:42] Eu acho que você chegou num ponto que mesmo que você percebesse, Você ia falar, não, mas tudo bem, eu percebo, eu sou grato.

Eron Falbo: [33:51] É, mas Márcio, os deuses são engraçados assim, eles brincam com a gente, as duas coisas acontecem ao mesmo tempo, tipo assim, aquele não perceber é ao mesmo tempo uma coisa que é ou não sucesso, então tipo assim, é engraçadamente a mesma coisa ao mesmo tempo. Você não perceber o sucesso é um fracasso, porra. Que tipo de idiota é você?

Márcio Libar: [34:16] Aí depende, depende do que você erga. Porque, por exemplo, eu acho, como você está falando, estou falando uma coisa que eu acho que é a base de tudo. É a base de tudo. Que é, sem o palhaço, a gente... Sem ela, o palhaço não vive. Que é a graça. E a graça, ouçamos essa palavra no seu lato senso. A graça é a graça do palhaço, é a graça divina. Quando a gente não paga, é de graça. Essa gratidão que às vezes nos falta. Porque a gente fica tentando ser grato a algo que a gente tenha conquistado. Ou a nossa saúde. Sabe aonde que nasce a gratidão? Olha só, vou te fazer uma pegadinha legal agora, junto com o teu público. Por que o cara que faz música é músico? Que faz poesia, poeta, que faz cinema, cineasta, que faz circo, é circense, que escreve, é escritor, que pinta, é pintor, que faz balé, é bailarino, e o cara que faz teatro, é ator.

Márcio Libar: [35:27] Por que ele não é teatrista? Por que ele não é teatrilha? Porque o ator é o artista do ato. Aí, como eu sou pesquisador, teimoso, Eu falei, como é que eu sintetizo o ato? O que é ato? E aí, se eu tivesse que sintetizar o ato mais ínfimo humano, eu diria que o ato mais ínfimo é um simples e belo suspiro. Então, eu lhe convido, meu caro amigo, e a quem está me assistindo agora, para darmos juntos um único suspiro. Vamos lá. Veja bem. O primeiro gesto quando a gente nasce. O último antes de morrer. No meio disso, a existência. Convido agora vocês a suspirarem para perceber o que existe no meio entre uma coisa e outra e ver se vocês vão perceber a existência. Vamos lá. Não chega a dar uma ondinha.

Márcio Libar: [36:28] Não chega a dar um risinho. Esse risinho que você deu, é que é a graça. Da onde ela emerge?

Eron Falbo: [36:35] Tudo bem que eu tomei chá de cogumelo antes, mas... Da onde ela emerge?

Márcio Libar: [36:41] Do... Aqui e agora. Do presente. Olha só, o nome dessa sensação, dessa graça que você sentiu, é presente. Qual é o maior presente da existência? Estar vivo. E como é que você sabe que está vivo? Quando você dá um simples suspiro. Então, eu acho que a primeira dimensão é a gratidão à própria vida. Nesse momento de pandemia, em que morrem milhares de pessoas por dia, A gente não pode deixar de agradecer nenhum dia.

Eron Falbo: [37:19] Total. Isso é muito importante. A gente conversou sobre isso.

Márcio Libar: [37:23] Isso já é ter muito. E depois não ter quebrado. Tem pessoas que tinham filhos na escola. Tinha uma vida... O restaurante do cara que fechou. E aí o cara não tem... Ninguém vai mais no restaurante do cara. Aí o cara não consegue mais pagar a escola do filho. Aí não consegue mais pagar o aluguel. E acabou que esse cara tá na pobreza. E ele não teve culpa. Ele não foi mau gestor. Como é que ele lida com isso? Então, eu acho que todos nós, de alguma maneira, temos muito medo dessas coisas acontecerem com a gente. E aí, nesse momento, não tem muita saída, sabe, Eron? Nesse momento, é igual quando o surfista de onda gigante cai na onda. Ele vai ser amassado pela onda. Como Anderson Silva é colocado lá no canto do córner, lá na gaiola, e toma 50 socos na cabeça, ele fica aguentando a porrada. Então tem um lado nosso também que é dessa resiliência, dessa vontade de continuar em pé e saber que a vida não te finalizou, que tem um grau de gratidão e generosidade de se manter em pé. Porque se a gente não trabalha com essa lógica, aí tu entrega os pontos, velho.

Eron Falbo: [38:27] O Eduardo está falando isso para mim hoje, que gratidão é um exercício, às vezes também ajuda a gente pensar friamente, tipo assim, Se você for grato, isso você está falando para a sua mente que você tem coisas boas, que você tem coisas boas. Você está informando para a sua mente que existem coisas boas acontecendo com você. Eu sou grato por x, y, z. Aí quando acontece uma merda, você fala, Não, eu tenho coisas boas. Aí você lida melhor com aquilo. Agora, se você não for grátis, acontece merda, você fala, pô, tem coisas ruins, tem coisas... Acontece uma merda, você nem vai reconhecer como ruim, porque é o normal para você. Agora, se você ficou sendo grátis... Então,.

Márcio Libar: [39:12] Mas eu acho que a felicidade é você olhar... Se você parte da gratidão, você dá um grande passo para a percepção de felicidade. Às vezes as coisas não vão bem. E aí você se pega nas coisas que estão bem. Saúde, família, afeto, tá tudo bem, vambora, vamos em frente, a gente tem força. O bicho tá pegando. Mas às vezes, e você sabe disso, você deve conhecer várias pessoas assim, que as pessoas estão bem, as pessoas não estão com problema financeiro, as pessoas não estão com problema nenhum, as pessoas estavam com dinheiro na conta, conseguiram passar a pandemia, mas elas não têm ainda assim a percepção de felicidade. Então essa incompletude é que passou a ser um grande segredo, acho um grande santo graal, que as pessoas hoje em dia pelo menos se perguntam, por que eu não tô me sentindo feliz? E acho, Eron, e aqui vai um pouco de exagero da minha parte, mas também uma licença poética que eu me dou, que eu acho que daqui a pouco vai acabar essas gerações de mentirosos, como a minha, a que é um pouco mais velha do que eu, as que mentem que são fortes demais, as que mentem que o homem é mais forte que a mulher, as que mentem que existe uma classe superior, as que mentem sobre si, as que mentem que quando querem parar elas vão conseguir, as que mentem para as esposas, as que mentem...

Márcio Libar: [40:34] Porque... E aí eu levo muita fé na molecadinha que tá chegando, que a galera fala, a geração mimimi. Tá, talvez até tenha uma geração mimimi, mas essa geração tá com 30 anos, cara. A geração que tá chegando com 20, eles simplesmente não nos entendem.

Eron Falbo: [40:50] Total.

Márcio Libar: [40:51] Eles não entendem porque a gente faz churrasco. Eles não entendem porque a gente faz churrasco e enche os cornos. Eles não entendem porque a gente faz churrasco, enche os cornos e trai nossas mulheres. Eles não entendem. Eles acham a gente animal. Então, acho que vai ter... Por isso que eu digo, a gente está vivendo o renascimento. A gente tá vivendo aquela passagem da idade média mais selvagem, daquela idade média mais dionisíaca, que cortava a cabeça, valia sacrifício de animal, de muita bala, de muita espada, de muita lança, de muita orgia, de muito vinho, pra uma onda assim de opa, mais compaixão... Bom, mas.

Eron Falbo: [41:30] Eu não vou parar com minhas orgias e vinhos não, tá? Não importa, eu posso ter 70 anos... Vinho e orgia eu não vou parar não.

Márcio Libar: [41:38] Mas você tá garantindo a existência até sábado.

Eron Falbo: [41:42] Eu tô na geração anterior. Eu tô garantido. Eu não preciso parar com nada. Eu vou ser um daqueles velhinhos, entendeu? Que a galera vai falar, pô, não te entendo, mas eu... Sabe aquela galera da geração passada que é racista e todo mundo não tem problema com ele porque ele tem 90 anos? Porra, o cara é de outra geração.

Márcio Libar: [42:01] Não, não faz sentido. Não faz sentido. Eu acho que a gente tá aí pra... Mas, por exemplo, a gente, você tá numa idade limítrofe, eu tenho uma filha de 25 anos, então a gente consegue, de uma maneira ou de outra, tá dialogando com os milênios. Tem piadas que eu não posso fazer mais.

Eron Falbo: [42:17] Fale por você, cara.

Márcio Libar: [42:18] Eu não vou fazer mais, eu não me sinto à vontade de fazer.

Eron Falbo: [42:23] É, isso aí, não se sentir à vontade é uma coisa, mas também essa coisa de ser cancelado por outra pessoa, eu não...

Márcio Libar: [42:31] Eu estou cagando, meu irmão, eu estou cagando, nas coisas que eu creio, cabe a todo mundo, nas coisas que eu creio, se você tiver grandes objeções, você tem uma porrada de gente para seguir, entendeu?

Eron Falbo: [42:43] Mas Márcio, antes que eu esqueça, eu tive um insight voltando ao... Ao clima filosófico transcendental.

Márcio Libar: [42:50] Mas eu estou falando de filosófico. Filosofia é de Butikin. Mas é a filosofia.

Eron Falbo: [42:55] É, total. Então, você me lembrou, cara, porque você sabe que eu gosto muito de etimologia, né? Quando você estava falando de graça, eu nunca tinha parado para pensar que a palavra graça vem de grátis, né? Em latim, que é tipo agradecimento, né?

Márcio Libar: [43:08] É, é o mesmo radical.

Eron Falbo: [43:11] É, e livre, na verdade, grátis é livre.

Márcio Libar: [43:16] Ah, é?

Eron Falbo: [43:17] É. Tô tentando lembrar exatamente qual que é a raiz. Mas o que me veio é o seguinte, que graça, assim, quando a gente fala graça divina, é a gente agir de certa forma que a gente reconhece que as coisas são divinas. Ou seja, tipo o balé, por exemplo. Quando a gente vê uma bailarina dançando, um bailarino dançando, a gente vê, pô, aquele bailarino tem muita graça nos movimentos, graça nos movimentos. O que significa isso? É que você não está agindo como um animal, no mau sentido, com todo o respeito aos animais que estão assistindo. Eu quero dizer assim... A gente está agindo de uma forma a agradecer que a gente é seres divinos, ou seja, reconhecendo que a gente é seres divinos e, portanto, agindo com graça, entendeu? Ou seja, gratidão à divindade e, por isso, graça divina.

Eron Falbo: [44:19] Essa é a minha opinião.

Márcio Libar: [44:21] Quando você cita o dom, quando a gente vê o dom, Quando a gente manifesta o dom e quando a gente percebe o dom do outro. Aí, isso é divino. Porque o dom é o que há de divino em nós. O dom é o toque de Deus. O dom é o dedo de Deus. Nós não seríamos nada se a gente estivesse prontinho para nascer. Aí vem o cara ali e toca o dedo em você. Pããã, aí você tem o dom. Esse dom, quando eu falo de propósito, essas coisas assim... Eu acho que a noção de inferno que eu penso é... É... Todo mundo vem com um dom. Muitos ignoram o seu dom. Muitos não têm acesso sequer a entrar em contato com o seu dom. Outros entram em contato com o seu dom, mas não fazem questão ou não conseguem exercer. Outros encontram o seu dom, dão escuta ao seu dom, e realizam o seu dom em vida.

Márcio Libar: [45:24] Ou seja, não importa. O que importa é que lá na frente, você vai encontrar uma espécie de Exu na tua frente, que vai falar assim, vem cá, o que é que tu fez com o dom que tu recebeu? Se nesse momento você olhar pra você e ver que você não fez nada, aí começa o inferno. Então, essa ideia da graça, do dom, da graça, da felicidade, está muito ligado mesmo ao teu sentimento mais profundo, sentimento mais profundo de desejo, de realização pessoal. E a gente vive num modelo de sociedade, seja no Ocidente ou no Oriente, que pouco espaço há para a descoberta e o exercício do dom. E a gente sempre olha o dom, o esporte, a arte, mas sem o dom de servir.

Eron Falbo: [46:23] Márcio, eu sempre quis te perguntar isso, acho que me veio essa vontade agora de fazer essa pergunta, você é um cara esclarecido, com muitos projetos, que chegou em lugares que te trouxe grande satisfação pessoal e obviamente reconhecimento pelo seu valor. Eu queria te perguntar, o que dentro da sua vida, se você não fizer, Dentro dessa vida hoje, se você não conseguir fazer, você se arrependeria? Você viveria esse inferno que você está falando? O que que você ainda, se você não fizesse?

Márcio Libar: [47:00] Cara, acho que se eu tivesse uma vida que eu tinha 5 anos atrás, eu seria infeliz.

Eron Falbo: [47:05] Não, mas estou falando no futuro, hoje. Tipo assim, eu hoje, Marcelo Ibarra, se eu não fizer tal coisa ainda nessa vida, eu acho que eu vou me arrepender.

Márcio Libar: [47:11] Ah, me falta fazer?

Eron Falbo: [47:12] É, é.

Márcio Libar: [47:15] Eu não, assim, hoje, o que minha consciência me traz hoje, é... Do que depender o que eu escolher ou fazer, eu não tenho mais nada para fazer que não seja ajudar outras pessoas. De verdade, eu não tô falando isso como nenhuma retórica.

Eron Falbo: [47:39] Então qual seria o cenário que você se arrependeria? Tipo, eu não fiz tal coisa, não.

Márcio Libar: [47:43] Ajudei... Ah tá, eu me arrependeria se eu perdesse meus valores. Valores que eu demorei tanto a conquistar.

Eron Falbo: [47:49] Se você passasse uns anos perdido, sem ajudar as pessoas.

Márcio Libar: [47:51] É lógico, porque assim, cara, eu não sei, você é o cara mais estudioso do que eu nesse sentido, nessa temática, inclusive do judaísmo, das religiões mais antigas.

Eron Falbo: [48:00] Mas eu não sei...

Márcio Libar: [48:02] Não, mas as religiões mais antigas, você gosta desse tipo de literatura. Eu não sei qual mandamento é, ou qual lei é, ou a quem ela obedece, essa de que a gente deve amar a si, amar a ti mesmo, amar-te a ti mesmo. Eu não sei da onde é essa citação, ou não sei se é amar a ti, sobre todas essas coisas. De qualquer forma, o meu entendimento de Deus é o entendimento de que é o eu, que está no centro da palavra Deus, em contato com o teu eu. É quando o meu eu encontra no teu eu, é o encontro de Deus. Então, considerando que o Criador sou eu, o amar a ti, eu acho que deve ser um dos mandamentos mais difíceis. Porque enquanto a gente não consegue esse, você não consegue sequer honrar pai e mãe. E eu acho que quando você consegue amar a ti, que é cuidar de você, dar o momento de honrar as tuas manhãs, tua saúde, teu alimento, a pessoa que vive com você, o teu meio, a tua contribuição contigo, com outro e com o todo, diariamente, sucessivamente, forever.

Márcio Libar: [49:15] Isso é a fórmula da felicidade. E eu, por sorte ou por insistência, escrevi exatamente a história que eu queria escrever. Eu preciso hoje trabalhar muito poucas horas pra garantir o sustento que eu preciso pra bancar a minha vida. E eu fiquei muito bom em não fazer porra nenhuma. Então eu sou muito bom em não fazer porra nenhuma, Irão. Eu gosto de não fazer porra nenhuma. Eu vou ficar triste se um dia eu tiver que trabalhar.

Eron Falbo: [49:52] Você vai se arrepender. Cara, ótimo fim para a nossa conversa de hoje. Eu queria te agradecer ao Márcio pela sua presença no meu programa. Você acabou de honrar a minha experiência aqui nessa terra com esse programa. Você acabou de fazer esse programa valer a pena. Se a gente todo mundo for embora amanhã e acabar com essa Porra, aqui, porque isso aqui você sabe que é um navio pirata e em qualquer momento eu posso desistir. Eu falo aqui...

Márcio Libar: [50:16] Não, eu tenho certeza que a pirataria é isso, é atrapalhar no desaparecimento. Você desaparece aqui, mas daqui a pouco você aparece em outro lugar, em edição extraordinária.

Eron Falbo: [50:25] Com outro nome, com outra barba.

Márcio Libar: [50:28] Com outro nome, em forma de disco, em forma de livro, em forma de filme. É!

Eron Falbo: [50:33] Total, total.

Márcio Libar: [50:34] É isso?

Eron Falbo: [50:35] É isso.

Márcio Libar: [50:35] Mas, sabemos de falar uma coisinha ainda, não?

Eron Falbo: [50:38] Claro, porra, meu tempo é seu. Agora, você sabe o quê? A gente vai crescendo tanto assim que daqui a pouco a gente não manda em porra nenhuma, né? Que a galera vai falar, não, corta aí.

Márcio Libar: [50:48] A gente tem uma imagem que eu acho que se aplica bem a você, a tua história, que eu sempre brinco nas minhas conversas, nas minhas palestras e tal, que eu falo assim, Na empresa que o palhaço trabalha, os funcionários são cuspidos de bala de canhão. A empresa que o palhaço trabalha desafia a lei da gravidade. Desafia a morte. Na empresa que o palhaço trabalha, o salto é mortal. O globo é da morte. As pessoas se equilibram a 20 metros de altura numa bicicleta. As pessoas voam, equilibram várias coisas no ar e nada cai. Por que será que o símbolo desse espetáculo grandioso é justamente aquele que entra careca, barrigudo, tropeçando, que é cuspido pra fora da cama elástica, que perde as calças no trapézio e leva tortada na cara?

Márcio Libar: [51:58] Porque quando nós ali aplaudindo, humilhados, aqueles seres humanos perfeitos, com uma qualidade que nós nunca atingiremos, quando essa figura entra no picadeiro, o nosso inconsciente coletivo faz... Pelo menos eu me identifico com alguém aqui nesta merda. Então, eu acho que isso fica como uma imagem para todo mundo levar, que a empresa que vende o maior perfeccionista Então isso indica essa imagem aí também como uma coisa para o teu programa.

Eron Falbo: [52:39] Ótimo, perfeito, Márcio. Muito obrigado. Eu vou seguir sempre esse espírito. Sempre que eu não seguir, por favor, puxe minha orelha, por favor, jogue uma torta na minha cara.

Márcio Libar: [52:50] Eu acho que você é uma corbola, cara. Tudo que eu falei para você fazer, você fez. E melhor do que tudo, não as coisas exatamente que eu falei, mas os valores aos quais se apegar. A forma que você encontrou, a forma que você está encontrando. Pode ser que eu tenha dito uma coisinha aqui, outra ali, mas o mais importante é que eu acho que você refletiu os valores que eu creio. Isso me contempla muito, eu me sinto muito representado pelo seu programa. Eu estou aqui, digamos assim, abençoando o seu programa.

Eron Falbo: [53:24] Que benção, que benção. Mas se você puder esperar só um minutinho pra gente falar só um segundinho depois que terminar, ficar em linha.

Márcio Libar: [53:33] Você edita depois?

Eron Falbo: [53:35] Editamos, a gente tá cada vez menos editando, porque tá ficando cada vez mais um esquema ao vivo. Mas sim, a gente edita ainda um pouco, algumas Alguns gafes!

Márcio Libar: [53:48] Aí vai voando pro ar!

Eron Falbo: [53:50] Vai amanhã, provavelmente, se o PB não vacilar muito, que é o nosso amigo aqui que edita. Valeu, Márcio, a gente se fala daqui a pouco. Vou fazer uns avisos para o Kiai, aí a gente se fala daqui a pouco.

Márcio Libar: [54:03] Abração!

Eron Falbo: [54:04] Tchau! Então agora eu vou falar o que eu aprendi com o Marci. Bom, eu aprendi muitas coisas e até já falei algumas coisas que eu aprendi com ele. Eu vou falar uma coisa que a gente não falou e acho que também ele nem sabe porque acabou de me vir na cabeça. Mas antes disso eu vou dizer para vocês que a gente não ganha um centavo com esse programa. É totalmente altruísta. A gente faz isso em nome do público. Eu faço isso porque eu depois que cheguei em Nirvana, depois que eu cheguei ainda além em Pearl Jam, Eu comecei a agir de uma forma totalmente altruísta. E é por isso que eu faço esse programa. E queria que vocês seguissem, dessem o like, mandassem para os seus gurus, mandassem para os seus avós, que eles vão gostar mais que vocês, porque eles são mais sábios. E mande para todo mundo que você conheça. E assim a gente vai ganhar alguma coisa com essa merda, finalmente. E a gente vai poder continuar. A fazer isso que a gente tá fazendo.

Eron Falbo: [55:06] Agora eu vou falar o que eu aprendi com o Márcio Libar. O que eu aprendi hoje nesse programa, na verdade, é que eu fiquei assim, porque o Márcio eu considero ele muito, né, uma espécie de mentor pra mim, que me ensinou muito e me fez crescer, né, até na... Nesse programa que vocês estão vendo agora. Rebobinam alguns episódios, alguns dezenas de episódios para trás, vocês vão ver que eu era uma pessoa, eu era um fracasso. Eu era um merda, eu era um idiota. Hoje eu sou uma diva praticamente. Ele tá rindo aqui, que eu tô vendo. E isso é um bom sinal. O que eu aprendi com ele foi o seguinte, hoje antes de entrar no programa, porque ele ia ser o meu convidado, eu fiz um exercício, ao invés de treinar a música, que eu ia colocar uma música, que ia ser ridícula, para poder ser mais ridícula, para o Márcio Ilibar poder rir da minha cara e eu poder provar para ele que eu era um bom aluno.

Eron Falbo: [56:11] No meio do nada, eu decidi não fazer a música e entrei no programa. Por quê? Porque eu falei, pô, não vou fazer uma parada só pra impressionar o Ashley Barr. Não foi isso que ele me ensinou. Ele me ensinou pra ficar confortável, abrir meu coração e ser eu mesmo. E foi isso que eu fiz. Eu falei, cara, não tô a fim de fazer essa música, não vou fazer. Fui direto pra entrada. E o que eu aprendi hoje foi que, por exemplo, agora que o talk show tá ficando mais talk show e menos podcast, né, mais elaborado, eu tô treinando mais, tô fazendo musiquinha, etc. E eu tenho que sempre lembrar que o que mais vai fazer essa parada funcionar e ser bem sucedida é eu ficar confortável e fazer uma parada que vai fluir, que vai ser do coração de verdade. E é isso a coisa mais valiosa que o Márcio Libar me ensinou. E lembrem-se todos os dias, segunda a quinta, que não é exatamente todos os dias, mas quase todos os dias, 19 horas, nos assistam ao vivo em todos os canais possível, menos os que não importam, tipo Globo e CNN.

Eron Falbo: [57:13] E não se esqueçam, antes só do que mal acompanhado valeu gente boa noite.

Episódio de No Alvo com Eron Falbo. Veja todos os episódios, Praise e Quotes.