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#94 Uma vida guiada pela música

com Rodrigo Santos · 21 de abr de 2021

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Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Apresentação e trajetória no Rio de Janeiro (0:00)

Eron Falbo: [0:00] E aí, Rodrigo, beleza?

Rodrigo Santos: [0:03] Tudo bem, cara?

Eron Falbo: [0:05] Prazer estar com você aqui hoje. Seja muito bem-vindo ao nosso programa.

Rodrigo Santos: [0:11] Obrigado, cara. Prazer, todo mundo. Bate-papo é sempre bom. Exatamente.

Eron Falbo: [0:18] Você teve uma trajetória incrível aí, cara. Eu fiquei sabendo de algumas coisas. Deve ser só uns detalhezinhos. Rodrigo, isso é uma história certamente incrível que a gente vai conversar hoje. Você mora onde?

Rodrigo Santos: [0:36] Cara, eu moro no Rio de Janeiro. Nascido e criado no Rio de Janeiro. Minha cidade não é uma cidade que eu moro. Apesar de tudo, eu amo a minha cidade, com todos os problemas que ela tem, eu sou um apaixonado pelo Rio de Janeiro. E a gente tem a senhora em outro lugar e tal, mas aqui a gente tem uma barra bacana na parte da lagoa, é uma praia que dá pra explorar, eu sei que você quer fazer.

Esporte e o glamour do rock (1:09)

Eron Falbo: [1:11] E agora você é um homem, né? Você teve um episódio de reabilitação desde 2005, né? E você é um homem de natureza agora, de esporte, de saúde, né? Não, vai falar disso. É um dos clues que a gente ganha.

Rodrigo Santos: [1:29] Exatamente. Eu sempre gostei muito de esporte, né, cara? Eu, quando era moleque, comecei a jogar bola já cedo, fiz teste no América, aqui no Rio, na época eu era moleque e tal. Joguei squash durante anos. Eu fui campeão carioca de squash da categoria B, por equipes também, algumas vezes. Sempre gostei de surfar, jogar bola, pegar onda, isso aqui e tal. Então, assim, o hockey me levou a dar um tempo de esporte. Não sei, aquele regular, mas aquela pelada de uma vez por semana, aquele futebol e tal. Futebol dos amigos, né? Que agora é o futebol geriátrico da porrada. Mas a gente sempre manteve, a gente, assim, a galera que joga bola sempre manteve, tem quase 15, 17 anos esse futebol. E aí eu procuro sempre estar fazendo algum esporte, mas na época do rock and roll deslavado mesmo, que é, digamos, 4 anos, os 4 anos que eu toquei com o Lobão, mais uns 26 anos de Barão, obviamente não pegava onda, mas regularmente, porque a noite passou pelo dia, né? A carreira sobe, é isso mesmo.

Eron Falbo: [2:46] Você acaba entrando muito, né? Porque, cara, o rock tem essa parada, tem um glamour, né? Tem uma coisa assim que te puxa, né, pra noite, tipo assim, as groupies, aquela... tem uma certa ilusão, né, que se cria dentro do mundo do rock. Eu também estou apaixonado pelo rock, mas acho que realmente tem esse perigo. O rock tem uma camada perigosa de fantasias.

Rodrigo Santos: [3:17] Cara, é verdade. Apesar da dependência química não escolher profissão, não escolher nada, mas é claro que eu concordo que o meu estilo de vida... Eu comecei a escutar Beatles com 5, 6 anos, comecei a tocar violão com 11, e a gostar de Rolling Stones, Led Zeppelin. Então, digamos que o mundo mágico que eu criei dentro da minha cabeça, ao olhar os meus ídolos da década de 60 e 70, obviamente, meu irmão e minha irmã mais velha, que conheciam os Mutantes, minha tia conhecia os Novos Baianos, a minha irmã era amiga dos Mutantes. Então, assim, eu vi tudo, eles eram amigos de toda a galera do surf, do Rio de Janeiro e tal, e da música da década de 70. Então, cresci vendo esse universo e, realmente, glamurizei bastante. Mas, quando fui parar em uma clínica, há 15 anos atrás, parei com tudo. Mas, quando comecei na clínica, em 2 de agosto de 2005, não em internação, eu já estava exagerando, já estava num momento da vida que não tinha mais graça nenhuma usar nada nesse sentido, e já queria parar, mas não sabia como, apesar dos meus irmãos terem tido o mesmo problema. Meu irmão e minha irmã, mais velhos, também tiveram o mesmo problema. Então, assim, a dependência química, para cada um, tinha uma profissão, né, lá em casa, na casa dos meus pais, e cada um acabou envolvido de uma certa maneira nisso. Só que também eles têm, a gente também, pela história deles, também tinha um glamour dos anos 70, cada um à sua maneira, né? E a gente foi influenciado por isso. E eu, como ingrediente a mais, comecei a tocar e, de repente, estava aí em 85 já tocando com o João Teixe de Miquiza Mestrado, em 86 com o Léo Jaime, em 88 com o Lobão, entrei em 92 no Barão, fui chamado em 90, mas já estava fazendo rolê de rock com o Barão e com o Lobão, tinha feito Rock in Rio também com o Lobão. Então, assim, óbvio que a nossa geração da década de 80 pegou muito, muito, muito isso, inclusive da cocaína. No Brasil, no Rio de Janeiro, a chegada da cocaína, que não era tão forte na época... Teve algum momento que...

Início da dependência química em 2005 (4:06)

Eron Falbo: [5:24] Houve a chegada da cocaína?

Rodrigo Santos: [5:26] Cara, não é chegada, mas acho que teve uma abertura. Acho que as gerações anteriores, eu sinto que gostavam mais de fumar baseado, de beber...

Cocaína, disco music e os anos 80 (5:33)

Eron Falbo: [5:37] Eu também sinto isso. Por que será que era isso? Porque, realmente, lá para o final dos anos 70, anos 80, a coisa ficou mais estimulante, dissociativo, ficou menos psicodélico e mais estimulante, mais festa. Talvez com o advento da disco music, com essa coisa toda. O que você acha?

Rodrigo Santos: [6:02] Eu acho que é por aí. Acho que a disco music misturou álcool com cocaína na noite do Rio. Estou falando mais do Rio, que é onde eu moro, mas é claro que isso rolou em todos os lugares. E depois do rock dos anos 80, a gente vinha daquela coisa também: era censura, tinha censura nas letras, tinha disco que era arranhado pra não poder tocar duas músicas, seja do Léo Jaime, do Barão, de qualquer artista. Então a gente também cresceu meio que falando um pouco sobre isso nos discos e tal. E talvez a cena rock dos anos 80 tenha caído no exato momento em que a cocaína virou a droga da moda, digamos assim, numa certa hora, e ela combinava com o álcool, combinava com, sei lá, com ser rebelde, digamos assim, talvez. Eu sei porque eu caí um pouco nesse ponto, sacou? Quando eu vi, eu estava encalacrado. A coisa é gradativa, né?

Eron Falbo: [7:01] Cara, eu vou te perguntar uma coisa, que é o seguinte: eu não sei se você sabe, se o Maurício te falou, mas eu fui músico também da Universal Music. Eu só lancei um single, que acabou tendo uma coisa assim, que não vale a pena, tipo assim, gastar tempo falando agora. Mas eu vivi em Londres, entendeu? Assinado pela Universal, então tinha, sei lá, estagiários, eu tinha aquele glamour aí, eu ia pro Soho House, George House, essas coisas assim. Eu ia nas festinhas privadas da Amy Winehouse. Eu tinha glamour, eu não era famoso, mas eu vivia lá como artista que estava em ascensão e tudo mais. E eu sinto, cara, que qualquer artista... Me responde isso, porque, assim, como eu não cheguei no seu nível, eu não sou a melhor pessoa pra falar. Mas o que eu sinto é que a música é muito... Mesmo que você seja mundialmente conhecido, é meio cíclica, né? Você tem momentos que você não tá aparecendo. E também, no começo, tem muita rejeição. Você tem que se expor muito, né? Eu acho que talvez a cocaína ajuda a equilibrar isso, entre aspas, mas as pessoas usam para poder ter um offset, por causa da vaidade e tudo mais. Uma hora você está, sim, aqui no topo da vaidade, outra hora você está aqui mendigando, e a cocaína dá uma fantasia, dá uma... como é que chama? Dá uma simulação como se você estivesse se mantendo aqui. Mas, na verdade, você não está. Você está deprimido, está se sentindo inferior e qualquer coisa assim, e a coisa te eleva.

Rodrigo Santos: [8:46] É, o problema é exatamente isso. Só que o problema é que é uma teia de aranha, que nem todo mundo cai. Essa é a verdade também. Nem todo mundo é tão compulsivo, nem todo mundo cai nessa esparrela. Mas eu acho que a gente, na geração a que eu pertenço, quis chutar a porta mesmo, tipo, vamos embora, vamos falar de tudo e tal. E, nesse momento, eu ia muito para Arraial d'Ajuda, e Arraial d'Ajuda, na época, era um lugar talvez de rotas também, de chegada de muita gente que usava e tal na época. E eu acho que experimentei lá com 19 anos. Então, assim... o lugar não foi a conta que...

Eron Falbo: [9:26] Eu estou falando, Arraial d'Ajuda?

Memórias de infância em Arraial da Ajuda (9:28)

Rodrigo Santos: [9:28] É Arraial mesmo, porque Trancoso virou uma febre depois, né? Eu ia para Arraial d'Ajuda quando eu tinha...

Eron Falbo: [9:33] Eu conheço muito. Estou perguntando mesmo para entender.

Rodrigo Santos: [9:38] Ah, tá. Não, Arraial d'Ajuda era o lugar, né? Trancoso era o lugar mais distante, mais vazio e tal, e Caraíva mais ainda, e Cumuruxatiba, qualquer lugar, mais para o sul e tal, da Bahia. Então, Arraial d'Ajuda, quando eu fui a primeira vez, era o lugar mais procurado para você conhecer depois de Porto Seguro, né? Porque Porto Seguro tinha toda aquela coisa do Monte Pascoal, Cabrália, aquela coisa toda. Então, fui com 11 anos, com a minha tia, acampar, meus primos e tal, e fiquei encantado, a gente ficou encantado, voltamos dois anos depois, a gente foi de Fusca, acampados, com barraca dentro, como todo mundo, cinco pessoas. E o Pedro Guilherme, meu primo, a Joana Ventura, que depois, pô, trabalhou com inspiração e tal, ela é minha prima e ela é novinha. Todo mundo dentro do Fusca, com a minha tia e o tio, pra lá, pra Porto Seguro acampar. Quando a gente acampou em Porto Seguro a primeira vez, a gente conheceu Arraial d'Ajuda. E aí gostamos todos e voltamos alugando uma casa já, dois anos depois, onde hoje em dia é a Broadway, que é a rua principal de Arraial d'Ajuda, que é... fica um mundo de gente, nem passa mais carro. Na época só tinha um bar com GPS, um bar do Zito, e a nossa casa a gente alugava. É inimaginável você passar hoje em dia na Broadway e falar assim, pô, você não alugou casa aqui. A gente alugava. E aí eu comecei a viajar muito depois, sozinho, pra Arraial d'Ajuda. A minha mãe, a mãe do Guilherme Fiuza, a mãe do João Estrela e tal, todas as mães amigas de colégio e tal, a gente se conheceu cedo e a gente começou a ir pra Arraial d'Ajuda e todo mundo tocar violão. Era uma turma, né? A gente tinha uma banda também, Prisma, o Marcelo Serrado fez parte da banda também. Então a gente ia pra Arraial d'Ajuda tocar, levar som, e ali começou a ser o meu porto libertário, digamos assim. O que o meu irmão e minha irmã tinham com a galera do Rio, do Sul, os filhos de 70, eu ainda não tinha, eu desenhava, não tinha começado a tocar. Quando eu comecei a tocar, eu era tímido, desenhava bem. Fui chamado por um cartunista italiano para ir para a equipe dele, para a Itália, quando eu tinha 10 anos de idade, assim, amigo do Zinho e da Ventura, dos meus pais também. E eu não fui, obviamente que eu não fui, mas eu desenhava Astérix, Tintim, livros inteiros, histórias novas, eu, caramba, pintava.

Descoberta da música e influência dos Beatles (11:30)

Eron Falbo: [11:54] Você falou Astérix?

Rodrigo Santos: [11:55] Eu desenhava um livro do Astérix com história inédita. Muito doido, muito doido. Mas era muito introspectivo isso, né? E a música me deu um outro universo. Então, assim, misturou tudo essa coisa.

Eron Falbo: [12:13] Verdade. Cara, eu tenho uma coisa bem similar. Eu comecei na música como... Eu era poeta, uma pessoa bem antissocial e introspectiva, bem pra dentro de mim mesmo. No mundo da escrita, desenhava também, eu fazia escultura com 16 anos. E eu não sabia nada de guitarra, nada, não tocava nada. Mas aí, com 16 anos, aconteceu o que aconteceu. Eu lembro que tem uma... Naquela entrevista famosa do John Lennon pra... Eu acho que é pra Time Magazine, não sei, mas tem uma... que é de áudio, que, pô, dá pra... é incrível, assim, você aprende muito sobre os vídeos. Ele fala assim: eu olhei para o Elvis e falei, eu posso fazer isso, eu poderia fazer isso. Isso aconteceu comigo, eu olhei para os Beatles, que foi a minha primeira influência. Eu vi aquele filme de Rodney Snyder e falei, caraca, que deve ser divertido pra caramba.

Rodrigo Santos: [13:16] Temos uma intersecção aí. Eu comecei a tocar por causa dos Beatles. Eu escutei Help! na rádio em 69. Quer dizer, os Beatles já estavam acabando, mas eu tinha 5 anos. E eu não sabia que os Beatles estavam acabando, nem que eram os Beatles, cara. E o primeiro disco que eu pedi, que meu pai tinha em casa... eu tenho um disco dos Beatles, aí o primeiro que ele me mostrou foi A Hard Day's Night, né? E aí, cara, eu tenho até hoje, né? Aquele disco que tinha um LP que vinha com plástico e tudo. Os Reis do Iê-Iê-Iê, em vermelho, né? Porque eles são... E a edição não era a azul, que é a tradicional. Tinha isso, a edição britânica.

Eron Falbo: [13:51] Eu achei genial esse título, Os Reis do Iê-Iê-Iê.

Rodrigo Santos: [13:54] É, porque aqui era o estilo do Iê-Iê-Iê. Os Reis do Iê-Iê-Iê, sensacional.

Eron Falbo: [14:01] A coisa mais engraçada é que ele escreveu Yeah Yeah Yeah, não Iê-Iê-Iê, mas...

Rodrigo Santos: [14:05] Assim, ó.

Eron Falbo: [14:06] Até hoje é Iê Iê.

Rodrigo Santos: [14:09] É verdade. As pessoas cantavam Iê Iê Iê e virou Iê Iê Iê.

Eron Falbo: [14:17] Mas, Rodrigo, só uma pausa aqui, breve, pra eu perguntar pro público: o pessoal tá ouvindo bem? Tá vendo bem? Pessoal da produção, vocês estão acompanhando aí no Instagram? Dá pra ver? E, por favor, se vocês estiverem acompanhando no Instagram, é fácil: tem uma moto aí, dá pra fechar a janela ali, ó, produção, acompanhando o 4G, por favor, pra não pegar a banda larga do... Mas tá funcionando bem, tá tudo certo, imagem tá boa. O Rodrigo está rindo, mas, mesmo com a imagem... Claro, claro. Voltando aos nossos assuntos aqui, a gente estava falando sobre gramática.

Rodrigo Santos: [15:00] Exatamente. O que você falou aqui, que você escreve também? Eu também fazia letra. Já quando eu comecei a tocar violão, comecei a compor, eu fui parar no programa da Globo, com 12 anos, aquele Globo Corre Especial, que a Paula Saldanha apresentava, não é da sua época, é da minha, né? Então, assim, eu fui tocar, eu e meu primo. Meu primo, hoje em dia, ele tem a Beve Rio, é cidadão da ONU, meu caramba. A gente começou a tocar violão juntos, né? E ele toca guitarra, mas eu segui na música, ele não. E ele, uma vez, foi dentro da revista Forbes, e ele fala: "Pô, eu podia ter sido do Barão Vermelho." Então, essa história é curiosa. Eu fui indo também na direção da magia que os Beatles e o Bob Dylan me proporcionaram. Onde eu comecei... Meu primo, o quê?

Eron Falbo: [15:55] É o Silvio Santos? Porque seu nome é Rodrigo Santos?

Rodrigo Santos: [15:59] Não, nem Lulu, nem Silvio. E meu primo não é Santos também, é da outra parte da família, Moura Costa.

Eron Falbo: [16:07] Mas...

Rodrigo Santos: [16:12] Pô, cara, essa coisa da... Voltando ali à magia dos Beatles e tal, a magia incluía droga também, né? Na minha cabeça também. Fui indo na Raio da Ajuda, Beatles, levar som. Cara, eu era um violeiro de fogueira desses que emendam uma música na outra e tocam oito horas sem parar. Eu fazia isso em todo lugar.

Eron Falbo: [16:31] Eu também virei isso, cara. Tipo assim, eu só fico no meio do cara tocando, né? Aí fica um do lado do outro, todo mundo já tá com vergonha alheia, né? Já tá meio focado na sala.

Rodrigo Santos: [16:45] Eu acabei transformando isso numa parte da minha carreira solo, sem saber. A Festa Rock é o disco que eu lancei agora, é o segundo volume, já tem mais dois pra lançar. São medleys de músicas emendadas, assim, do rock nacional e tal, músicas que eu fiz parte, né, artista com quem eu toquei. Agora eu ampliei a Festa Rock pros anos 70, 2000, 90. Então, entre Novos Baianos e... Em Barão Vermelho existe uma estrada bacana aí, Ricos e Molhados e Paralanos. Então, assim, isso eu acabei usando, anos, milênios depois. É uma coisa que eu sempre gostei de fazer. Eu não sei se eu enchi o saco das pessoas. As pessoas gostavam de um cara que ficava tocando também horas. Você deve ter isso também, porque ninguém é uma jukebox, né? Quando você é uma jukebox natural, as pessoas têm uns que, pô, não vão querer, e tem outros que, cara, chama o cara que ele vai ficar horas aí tocando, vai ser não sei o quê.

Festa Rock e o lado entretenedor (16:46)

Eron Falbo: [17:44] Exatamente, exatamente. É pra quem tem aquela veia de musicólogo, né? Aquela veia de diversidade de música, de gostar, de entender, de conhecer. Porque quem não gosta tanto, ele gosta de ouvir uma música mais dançante, que está se intrometendo menos, menos intrusiva na mente dele.

Rodrigo Santos: [18:07] É, mas o meu lado entertainer queria... Saí do desenho, fui pra música. Meu lado... Eu queria entreter. Então, se as pessoas não estivessem cantando, não estivessem dentro da festa rock, é isso. Meu show pegou muito no formato da casa minha.

Eron Falbo: [18:22] Você fez uma coisa que eu nunca fiz, porque eu, no início da minha carreira musical, cara, eu era muito alienado. Tipo assim, eu era meio babaca. Tipo, eu tocava as músicas que eu queria, mas eu... Com a banda chamada Os Miseráveis, a gente fazia só cover de música lá do lado B do movimento mod, sabe? Tipo, a gente tocava só Out on the Street, sabe? A gente não tocava My Generation. Tipo, não tocava nada...

Rodrigo Santos: [18:53] Mas isso é maravilhoso, isso é maravilhoso. Eu vou dizer que eu tenho isso nas minhas composições, meus discos autorais e tal, mas, cara, eu tenho o lado entertainer que... Eu não consegui fugir muito disso. Na hora que eu comecei a fazer carreira solo, acabou que, cara, o meu show pegou muito no corporativo, muito em formatura, muito em casamento, e eu lançando discos autorais ao mesmo tempo, fazendo shows com cenário, com tudo. Mas esse lado da fogueira, de entreter, foi um lado que me fez ser músico também, né? Foi um lado, assim, ao mesmo tempo que eu tocava Neil Young, eu tocava Beto Guedes, né? Então, eu... A Festa Rock 2 tinha... Ah, beleza.

Eron Falbo: [19:34] Uma coisa que eu acho que todo mundo se beneficia de lembrar é que a humanidade começou em volta de uma fogueira. A diferença entre homo sapiens sapiens e homo sapiens é a fogueira. É storytelling em volta de uma fogueira. E essa onda do violão em volta da fogueira é uma coisa que não só une as pessoas, como faz as pessoas o que elas são. Exatamente. Uma coisa extremamente filosófica, se a gente parar para pensar. Esse seu programa eu não conheço, infelizmente, mas vou conhecer assim que desligar a live. Assim que eu tiver a oportunidade, eu vou ver. Mas, cara, não tem mais jeito.

Rodrigo Santos: [20:21] No Spotify tem toda essa... A Fashion Homage, na live.

Eron Falbo: [20:25] Ah, ferro.

Rodrigo Santos: [20:26] Não, mas assim, eu sou um cara que gosta de compor, né? Componho todos os dias, o dia inteiro também. Gosto muito da parte autoral. Já escrevi dois livros e tal. Mas na hora que eu tô no palco, eu me remeto um pouco também... Tive a sorte de tocar com muitos artistas, cara: Kid Abelha, Barão, Lobão, Léo Jaime, João Penca, Blitz. Hoje em dia tenho uma banda, eu, o João Barone dos Paralamas e o Andy Summers, guitarrista do The Police.

Formação da banda com Andy Summers (20:33)

Eron Falbo: [20:56] Você tá tocando nessa banda com o Andy Summers agora, né?

Rodrigo Santos: [20:59] É, a gente tá desde 2017. Turnê pela América Latina, 2017, inclusive.

Eron Falbo: [21:05] Se não me engano, eu conhecia ele em Londres, cara.

Rodrigo Santos: [21:08] Caralho! A gente começou a tocar, eu e o Andy, em 2012, 2013. Era a turnê Eu e o Andy. Eu cantando músicas do Police, mas uma parte do show era Barão Vermelho.

Eron Falbo: [21:20] Desculpa a ignorância, mas ele é um altão?

Rodrigo Santos: [21:25] Não, ele é baixo. O altão é o Chico de Copa, o baterista. Ele é o guitarrista, é um gênio. A gente teve a oportunidade de conhecê-lo mais através do meu empresário, Luiz Paulo Sussão. Como muito amigo, ele já tinha feito um DVD com o Roberto Menescal, e eu fiz depois essa parceria com ele, e fiz uma parceria com o Menescal também, que a gente lançou agora, ano passado, no início da pandemia. É um disco e DVD também... mas não é DVD, é YouTube, da Soul Livre e tal, chamado Cazuza em Bossa Nova. Cazuza em Bossa Nova faz parte do meu show, que começou eu e o Menescal e acabou vindo a Leila Pinheiro com a gente. Ela me viu cantando no Caldeirão Police em São Paulo, falou com o Menescal: pô, vi um cara cantando, tocando baixo, não sei quem era, não sei o quê. Ela não conhecia esse meu lado, só me conhecia do Barão e tal. Uma coisa que a carreira solo me deu: também fui cantar, desde 2007 pra cá, ao lado de Ney Matogrosso, do Caetano, da galera que eu nunca imaginei cantar assim. Isso foi muito legal. E a Leila me viu e falou com o Menescal: eu tô fazendo um projeto com o Rodrigo, que eu já tinha feito a Festa Rock. Foi um projeto meu, do Menescal e do Luiz, em 2015. Lancei junto com a minha biografia, que é esse livro aqui, só pra mostrar pra rapaziada e tal. Um livro grande, o depoimento de gente da Bossa Nova.

Eron Falbo: [22:42] Eu não quero mais nada, tá? Por favor.

Rodrigo Santos: [22:45] Pô, por favor, já manda aí que eu vou te mandar um ônibus. E aí, cara, assim, na hora que eu fiz esse projeto com o Andy, despertou a atenção de muita gente também, né? Porque cantar Police, tocar baixo, o Andy nunca tinha feito com ninguém no mundo. E esse era o lado meu, de tocar lá atrás, com bandas que eu tinha, e tocar Police, tocar Beatles. Eu tenho uma banda chamada...

Eron Falbo: [23:07] O que vai ser pro público é... O Andy Summers é um ex-guitarrista do The Police, né?

Rodrigo Santos: [23:16] Não, ele nem é ex, né? Ele é guitarrista do The Police.

Eron Falbo: [23:20] O The Police ainda tá tocando, desculpa.

Rodrigo Santos: [23:22] Ah, não. Ele não tá, mas também não acabou. É, eles talvez não voltem a tocar, mas o show que eles fizeram no Maracanã, em 2008, na turnê mundial deles, o meu empresário já conhecia o Andy, já tinha feito projetos com o Andy.

Eron Falbo: [23:40] E o Steve participou? O Steve tava junto disso?

Rodrigo Santos: [23:44] Não, não tava junto. Ele tinha feito o DVD do Andy também. Ah, cara, ele tá com a bola.

Eron Falbo: [23:48] Da Polícia, da Polícia.

Rodrigo Santos: [23:49] É, exatamente. Só que o Andy não tocava a Polícia num formato igual à Polícia com ninguém no mundo, isso ele fala. Tem entrevistas dele na rádio BBC, não sei o quê, e tal, em Londres. Cara, eu tenho isso em vídeos, porque a gente ficou muito amigo. Quando a gente ia para os outros países, pô, tinha coletiva de imprensa e tal, o Andy falava: 'Você que vai falar, senta aí no meio.' Eu falei: 'Não, você que é o porra do Andy.' Aí ele falou: 'Não, você é o vocalista, vai lá.' Então assim, a gente virou uma banda bem espontânea, coisa que ele fala que ele já não tinha mais com a Polícia, pelo relacionamento deles, né, ao longo da estrada, e tal, por isso que acabou. E com a gente, comigo, com o Baroni, por a gente ser fã também da Polícia, ser fã do Andy, além de amigo, a gente é fã. Então, a combinação: o Baroni era o Stuart Copeland brasileiro, o batera, que começou com a cópia de Polícia. O cara usava a mesma roupa do Stuart Copeland, a mesma bandana, a mesma meia, a mesma posição de batera. O cara, o Baroni é um fenômeno da bateria.

Eron Falbo: [24:48] Não era o Stuart Copeland que era o empresário no início, que fez a Polícia?

Rodrigo Santos: [24:54] É o irmão dele, né, o Miles?

Eron Falbo: [24:56] É o irmão dele, exatamente, o irmão do Stuart, é.

Rodrigo Santos: [24:59] É, que depois foi até empresário do Sting, na carreira solo do Sting, e tal. Mas, cara, o Andy não fazia. Ou ele tocava bossa nova, ou fazia uma parte de paixão, ele não tocava tudo isso. O formato da Polícia e a nossa solução.

Eron Falbo: [25:14] Esse Call da Polícia... Primeiro, o nome deve ser porque não pode ser a mesma coisa que The Police, o The Police ainda está rolando. Mas é um integrante, só para o pessoal entender a diferença: existe um The Police que, eventualmente, pode fazer uma reunião e o Andy Summers participaria disso. Agora, o que a gente tá testando faz parte de uma banda chamada Call da Polícia, que é com o Andy Summers, integrante original do The Police, e toca músicas do The Police, né?

Rodrigo Santos: [25:49] Exato, isso foi acontecendo aos poucos: metade do show Barão, metade Polícia. Aí, com o tempo, depois de duas turnês, eu e o Andy, no aeroporto, a gente falou: 'Pô, podia fazer só Polícia.' Eu mesmo, eu e o Luiz Paulo, a gente não queria ficar tocando Barão, porque ele só queria fazer cinco, seis músicas, então não dá pra fazer o show inteiro de cinco músicas, senão a gente era apedrejado. Então, um dia eu falei pra ele: 'Pô, vamos fazer só...' Aí ele topou, cara, porque ele já tinha pego confiança. Ele falava nos aeroportos pra mim: 'Pô, cara, você é o cara mais próximo possível que eu já vi tocando baixo e cantando.' Cara, escutar isso de um ídolo meu, que eu ficava aí em 79 escutando Walkman, assim, Polícia, cantando em bandas que eu tinha, e tal...

Eron Falbo: [26:27] Isso é incrível, né, cara? Eles eram meio mod revival no início, né? Meio dos caras, né?

Rodrigo Santos: [26:35] Ska Punk, né? É, Ska Reggae Punk, assim.

Eron Falbo: [26:39] Bem no início, se não me engano, o Sting era... Talvez o Sting se identificava como mod revival. Assim como o The Jam, né? Essas bandas. Aí depois tomou uma coisa própria, e eu acho genial musicalmente, porque eles... É uma das minhas limitações como músico, foi que eu sempre fui meio seguidor do John Lennon, que era meio charlatão, assim. Não tocava direito, entendeu? Não cantava direito.

Rodrigo Santos: [27:09] Eu lembro, era o guitarrista que a gente... Era o guitarra-base, né? Como vinha... Era só no guitarra-base.

Eron Falbo: [27:19] Eu adorava Jorge Ben, adorava Novos Baianos, adorava Frank Sinatra, e eu não tocava nada disso, entrei mais no rockabilly, porque é muito mais fácil de tocar. Isso tem uma similaridade entre música brasileira e The Police, que não é fácil de tocar. Eles têm uma sofisticação, né? Música brasileira, música popular brasileira, tem uma sofisticação 10 vezes maior do que a música inglesa e americana.

Rodrigo Santos: [27:52] Com certeza, mas aí, assim, eu comecei a tocar violão. Quando eu comecei a aprender violão, logo eu tava aprendendo Gil, Caetano, João Bosco e tal. Isso é muito importante, você não saber tocar pra caramba, mas você entender qual é a riqueza da música brasileira. Tá ao lado do Menescal e da Leila Pinheiro, eu tava tocando com eles. Eu dei o pedigree do Cazuza em bossa por ser do Barão, por ter sido, né, 26 anos do Barão, por ter ao lado o timbre do Cazuza e tal, mas a gente criou o projeto junto. Expressão harmônica de todos eles, ou quase todos, eu criei um exagero ali, eu fiz um arranjo meio James Taylor, criei um negócio do 'Tempo Não Para' e tal, mas você olha o Menescal e a Leila, cara, é uma coisa de outro mundo, sacou? E o Andy é muito fã do Menescal. Então, assim, o mesmo fanatismo que ele tem pelo Menescal, eu tenho por ele. Então, essa trinca se encontrou de uma maneira bacana. O Menescal me admira, é uma coisa que eu tenho que eles não têm. E eu tenho, pô, a admiração pelos dois, que é fantástica.

Eron Falbo: [28:53] Eu vou te contar um pouco do que eu vivi em relação a isso. Eu gravei, eu fui o artista que teve o disco gravado, o último disco da carreira do Bob Johnston, não sei se você lembra dele, que é o único que gravou Bob Dylan, Simon & Garfunkel, Johnny Cash e Leonard Cohen, do final dos anos 60. O último, o meu disco, que é o único disco que eu tenho, foi o último disco da carreira dele. Então, assim, é isso que você tá falando, que você tá me vendo, eu vivi, sabe, tipo, indo lá, eu fumei maconha com o Willie Nelson e com o Bob Johnston.

Rodrigo Santos: [29:32] Caraca! Aí, ó, aí cê ganhou, aí cê levou todos os prêmios de magia da história, né, pô?

Eron Falbo: [29:43] Eu entendo o que você está falando, essa é uma parada mágica mesmo, você entra em uma coisa que você está vivendo, ao mesmo tempo um sonho que você teve lá com 15 anos, e ao mesmo tempo você tem uma dissonância cognitiva porque você está lá tendo que responder perguntas e agir como se fosse igual. Não, exatamente.

Turnês pela América Latina e desafios vocais (30:03)

Rodrigo Santos: [30:03] É muito louco isso, cara. É muito louco porque, assim, quando chega na ponte, abriu a turnê de 2018, em Buenos Aires, lotado, coliseu e tal, e fechamos no Chile, no Teatro Caupolicán. E no meio, o Brasil: Vivo Rio, Credicard Hall, Brasil, sei lá onde fosse, né? Porto Alegre, nós fizemos o Araújo Vianna, Curitiba, Teatro Positivo e tal. Então, isso, isso são teatros com mega eventos, tipo o Autódromo de Interlagos, que a gente fez em 2019, em São Paulo. Então, é meio assim, né? Só que toda vez que eu vou cantar, cara, eu me exijo muito. Então, assim, eu sou o cara que tem que conduzir a plateia e o Andy, ele não canta, né? E o Barone também não canta, faz os vocaizinhos de vez em quando. Então, cara, eu sou responsável por cantar aquele show agudo, o máximo do agudo possível, né, durante uma hora e meia, entretendo uma plateia, sei lá, de, às vezes, 10 mil pessoas, sei o quê, e só um, e tendo que ter a moral dentro da minha cabeça, porque o Andy já me passou a moral. Outra coisa é eu me sentir confortável de chegar na Argentina, cheio de gente com LP, na primeira fila, todos os LPs do The Police. Tipo assim, na minha cabeça, o cara tá sentado... Quando era no teatro, então, no Uruguai, foi todo mundo em pé, já cantando a primeira música, e o Javão, bora, pá! Mas no teatro você fica assim: esse cara deve estar pensando, quem é esse cara aí que vai cantar The Police?

Eron Falbo: [31:23] Por isso que você não chega com cocaína, né? Pra poder anestesiar. Mas você chega de cara e enfrenta, né? Isso é um trip, né? Tipo assim, você enfrentar a emoção, né? Você absorver aquela parada de verdade, sem estar anestesiado, né? E, pô, isso te dá um poder pessoal enorme, né?

Rodrigo Santos: [31:46] Exatamente. E a anestesia, ela vem de outra maneira, ela é natural, né? Eu choro cantando 'The Birthday Cake', às vezes, ou algum momento, cara, sei lá, que a gente tá tocando sozinho, aquele lugar lotado cantando sozinho, com músicas que... Aí o tal Andy, do meu lado, já com intimidade, assim, ele quer parar de solar, eu, não, não, sola mais aí e tal, tipo assim, até a boca e a poupa da minha voz vai solando. Aí, cara, então assim, a gente tem essa cumplicidade, quando entrou o Barone em 2017, eu tinha feito já duas turnês. E, cara, é muito doido porque eu tenho um lado que é o foco, né? Quando eu entro no palco, cara, eu sou muito concentrado em cantar, em acertar a letra, todas as coisas que vêm. Pelo caminho, se acontecer alguma coisa e a gente errar um arranjo, um dos três, sair para o outro lado, a gente já sabe improvisar todo mundo, que é como o The Police funcionava, né? Então eles tinham esse lado meio jazístico também de...

Eron Falbo: [32:40] Não, por isso que no nível do The Police tem que ser assim, tipo, é que nem eu falei, eu com a minha coisa John Lennon, aquela coisa do, tipo assim, não tá funcionando, aí faz o macacado assim, a galera, o legal!

Rodrigo Santos: [32:57] Mas já tive que fazer isso também, lá no Chile, na segunda vez que a gente foi, a gente já foi pra Peru, Chile, Uruguai, Argentina, Paraguai e muitos shows no Brasil já. Mas no Chile, na segunda vez, a gente inverteu o Roxanne, trocou o ritmo, deu aquela invertida e aí, cara, não voltava.

Eron Falbo: [33:15] Ó o Roxanne, que é o que todo mundo conhece.

Rodrigo Santos: [33:18] Exatamente. Ela é a penúltima música do show, onde a minha voz já... Cara, tem que esperar o Barone ter vaga na turnê dos Paralamas. Então, quando a gente pega 15 dias, o Andy vem pro Brasil. A gente tem que pegar três dias de ensaio e fazer dez shows seguidos. Então, sem a minha voz, ela não descansa nesses dez dias, hora nenhuma. Passa o som. Vai nessa aí, pô. Aí cê foi no poema. Gostei, gostei.

Eron Falbo: [33:51] Eu não tô fazendo de verdade, não. Eu tô só... Você tá vendo que eu tenho uma voz barítona, né? Mais sagrada, assim.

Rodrigo Santos: [34:00] A minha, tenor, né?

Eron Falbo: [34:02] Uma coisa mais doce. Agora, na minha banda, eu cantava Little Richard, sacou? Sabe, aquela coisa altíssima. E a versão do Paul McCartney em sol, sabe?

Rodrigo Santos: [34:19] Pois é, eu tinha uma banda, eu tenho uma banda ainda, chamada Os Britos, que sou eu, o Jorge Rael, do Kid, né? O Guto, do Barão, o Bartero e o Nani Dias. Já fui pra Inglaterra duas vezes, o Fantástico, que eu cobri na nossa viagem, no segundo. Fizemos quatro shows no Cavern Club e um DVD em todas as ruas de Londres, que tem músicas autorais nossas. Mas, assim, nos Beatles, cara, eu canto as músicas mais gritadas, assim, tanto as do João quanto as do Paul. Então, assim, Long Tall Sally, no vocal.

Eron Falbo: [34:48] Tudo, quero ouvir, quero ouvir.

Rodrigo Santos: [34:49] Você sabe como é que é, João?

Eron Falbo: [34:52] Eu adoraria voltar a gritar o Beatles.

Rodrigo Santos: [34:54] Com certeza. Eu queria gritar Beatles. E você vai me ajudar, que aí eu posso poupar a minha voz nessa hora, e você entra e fala: vai lá, vai que é sua.

Eron Falbo: [35:04] Eu não estou escrito chato, que é mais baixinho.

Rodrigo Santos: [35:06] Não precisa ser chato. Super low profile, triste e chave. Cara, mas low profile acho que é pior, cara.

Eron Falbo: [35:15] É, cara, low profile é realmente... O único jeito é gritado. E o Paul, assim, cara, ele tem um controle sobre... É bizarro, cara. E ele fez de propósito, com certeza, que na época, não sei se você sabe dessa história, mas o Little Richard espalhou uma história de que ele ensinou tudo pros Beatles. Porque eles se encontraram em Hamburgo antes dos Beatles serem famosos. Aposto, porque o Little Richard era uma diva, né? Então, assim, aposto que o Little Richard desnobou eles na época. Nem conversava porra nenhuma.

Rodrigo Santos: [35:48] Eu também acho.

Eron Falbo: [35:49] E pós-fato, o Little Richard inventou essa história.

Rodrigo Santos: [35:52] Depois que estourou, então.

Eron Falbo: [35:54] Aí eu acho que o Tom McCartney, quando foi gravar lá o Tom Selley, aumentou o tom pra humilhar o Little Richard.

Rodrigo Santos: [36:02] Exatamente.

Eron Falbo: [36:03] O Leroy nem tinha Fá. E o Leroy tinha Fá, né? Nem o Palma Cássio cantava. Aí o Palma Cássio mandou em sol, essa porra.

Rodrigo Santos: [36:11] Exatamente. Eu canto em Fá. Eu canto minimamente. Eu não vou olhar. É mesmo? Não dá, né, cara? Porra, todos os bandos paralelos que eu...

Eron Falbo: [36:20] Conheço... Nem Fá consigo.

Rodrigo Santos: [36:23] É, a cara é muito alta. É muito alta porque é o seguinte, você sabe: por exemplo, no Pau de Polícia, cara, são 10 shows importantes, né, assim, lugares lotados, lugares importantes, e assim, estou falando, você tem que estar com moral pra chegar. Primeiro show da turnê, em Buenos Aires, pessoas na plateia não tinha... Mas aí, eu tenho os vídeos, os pedidos de Biggs, tudo. A gente conseguiu. O Andy e o Baroni falam, porra, que o cara tá voando e tal, mas eu não sei, a minha preocupação e o que eu sinto e como é que eu... Cara, enquanto a gente sai pra jantar, às vezes, o meu empresário e tal, eu fico no hotel cuidando da voz, comendo maçã, bebendo água...

Eron Falbo: [37:00] Eu, porra, eu até vou beber, assim, então... Eu não sou aquele que se cuida. Bom, tudo bem, eu não sou tão mau assim.

Rodrigo Santos: [37:12] Eu não sou tão mau assim.

Eron Falbo: [37:14] Eu vou encerrar esse assunto um pouco, porque se a gente ficar falando de música, a gente vai atropelar nossa live só com isso que a gente der.

Rodrigo Santos: [37:22] É verdade.

Eron Falbo: [37:22] Dá pra ver que a gente é do mesmo planeta.

Rodrigo Santos: [37:25] Eu só vou resumir, pra dizer que se eu não tivesse parado com tudo em dois de agosto de 2005... Nos britos eu já ficava rouco, né? Bebia whisky, saía cantando, cara, terceira música... Pô, no DVD dos vídeos eu tô afônico falando numa entrevista. Na hora do show vem, né? Não sei como vem, mas assim... Obviamente, quando eu parei com tudo, cara, a minha voz... Eu não ia conseguir fazer 20 shows por mês da carreira solo, três shows na mesma noite cantando, e tendo a voz pra cantar no dia seguinte mais três shows e tal, que era o que eu fazia até entrar a pandemia. Agora é live pra caramba. Mas assim, ali, cara, o Pau de Polícia... Eu tinha que estar quase como se eu estivesse bebendo um pouco. Não ia dar pra fazer essa turnê, não tinha como. Então a abstinência me deu esse presente.

Eron Falbo: [38:10] Às vezes eu faço com uns coquetéis aqui em casa, e aí a galera entra no piano, eu canto umas músicas e tal, depois da terceira música eu já não consigo cantar.

Rodrigo Santos: [38:20] É difícil, mas sem microfone? Sem microfone, né?

Eron Falbo: [38:23] Sem microfone, sem microfone.

Recuperação na clínica Centro Vida (38:25)

Rodrigo Santos: [38:27] Uma coisa que a gente aprende: que não dá mais.

Eron Falbo: [38:29] Eu queria te perguntar sobre essa sua coisa da sobriedade, sem entrar, porque você já deve ter dado entrevista sobre isso. Eu queria te perguntar o que você acha do assunto da legalização das drogas, dentro da sua perspectiva de rehab. Eu sei que você já foi uma das pessoas que ajudaram na sua clínica. Mas eu queria essa perspectiva de alguém que viveu isso e ainda do rock. O que você acha dessa ideia, turma?

Rodrigo Santos: [39:07] Pois é, sem me tornar um roqueiro conservador ou careta, porque eu acho que o problema da dependência é meu, não é dos outros. Então, assim, eu tenho duas visões sobre o assunto: a minha, libertário, roqueiro, anarquista, ou seja, o que for, que gosta de me divertir, gosta da festa. E o outro é o compulsivo, o cara que não ia fazer nada, que poderia estar morto hoje em dia. Eu coordenei três anos na Clínica Santo Vida. Nunca fui internado, era uma hospitalidade. Assisti a três reuniões ao mesmo tempo que gravei o DVD do Barão, com 18 dias de abstinência. Fui com os Britos pra Inglaterra, nunca tinha ido pra Inglaterra. Foi a Disneylândia, pra mim, do rock'n'roll, com dois meses de abstinência, cara. E assim, ligava pra minha terapeuta, falava: ó, tá tudo bem aqui, de tarde, na cabine vermelha, telefone aqui, depois de gravar um clipe, assim.

Eron Falbo: [39:57] Todo mundo tá usando drogas e tem um clima sério de glamour. Exatamente, porque tá lá os maiores roqueiros do planeta.

Rodrigo Santos: [40:11] O difícil foi desmontar o glamour, né? Não dessa viagem, porque essa viagem eu fui gravar um DVD. Então eu fui acordar 8 da manhã, fui com a minha mulher também. E a gente, pô, engravidou ela lá do nosso segundo filho. Então, vários ganhos. A abstinência também foi dando, né? Com nove meses de abstinência, cara, com um ano nasceu meu filho, meu segundo filho. Então, assim, não perdi casamento, não perdi trabalho. Continuei fazendo shows com o Barão, até o Barão parar pra expressar as coisas. Eu tava fazendo show com o Barão ao mesmo tempo que eu frequentava a clínica. Eu chegava no camarim, cara, o Circo Voador, o DVD do Barão, o único DVD do Barão, em 2006. Eu tinha 18 dias, cara, indo na clínica, só na primeira reunião. Eram três, que depois eu comecei a ir. Mas eu só podia ir na primeira porque tinha ensaio depois. Então, eu pedi pra poder entrar na clínica, pra poder assistir as reuniões. Não podia, mas eu consegui dar meu jeito e falar: cara, deixa eu assistir a primeira. Então, eu mostrei foco, envolvimento e perseverança, e vontade do que eu queria fazer, apesar de um lado enorme não querer: o meu lado roqueiro. Eu vou falar rapidinho sobre isso, aonde eu quero chegar, da pergunta que você fez. O meu lado... Quando você chega numa clínica, ou qualquer lugar que você vá para parar, você está muito mais perto de usar do que de parar. Eu fiz uma faculdade de como usar droga, eu tinha que fazer uma faculdade de como não usar. Porque eu não me lembrava, na época em que eu não tinha bebido uma cerveja para tocar violão numa fogueira, desde os 14 anos. Então, como é que eu fazia um show com o Barão sem beber cerveja? Isso, sei lá. Isso, para mim... Era o seu lugar de conforto, né?

Eron Falbo: [41:48] O seu lugar de conforto era isso.

Rodrigo Santos: [41:50] Era festa, cara. A festa tava toda dentro da minha cabeça, assim, tipo, em altíssimo grau. E eu adorava, e não errava. É o que o Fred já fala no comentário do Barão que tava na Netflix, ele fala: cara, diferente do Cazuza, o Rodrigo não errava. Então a gente não tinha nem como falar pra ele, assim, pô, até a hora que eles deram... Fizeram uma reunião, pô, quase morri no avião, desmaiei dentro do avião, assim, tipo, vomitei pra caramba e tal. E aí eles ficaram com medo de eu morrer na estrada, de eu perder um amigo, não sei o quê. E aí fizeram uma reunião: ó, cara, ou para, ou procura. Como meus irmãos e minhas irmãs já tinham parado, já tinham feito essa procura lá nessa clínica Santa Tereza e tal, que nenhum condenado... É, eu já sabia quem procurar. O Dr. Jader Socarro, um filho que até morreu quando eu tinha cinco meses de abstinência. Ele faleceu fazendo esteira, 51 anos de idade. O cara nem me viu coordenar na clínica, por exemplo. O cara que salvou minha vida, basicamente. Mas tinham cinco terapeutas que coordenavam a reunião, e eu fui indicado pelo meu foco, por tudo isso que eu faço: continuar na música, não parar de trabalhar, mas sempre colocar em reunião gente. Sexta-feira, vou ter que fazer uma entrevista, vou sair na segunda reunião, volto. Quero nunca chegar atrasado, nunca sair de reunião. Então, eu absorvi milhões, milhares de falas de pessoas, e depois se absorviam das minhas falas, e essa coisa do conjunto dentro da reunião... É claro, depois já acompanhei a terapia individual, uma vez por semana virou minha terapia. Só na pandemia agora estou um ano sem terapia, mas eu sei. Eu falo com ela no WhatsApp, mas não fui presencial, que eu gosto de fazer a terapia mesmo. Mas esse tempo todo, cara, eu acabei entendendo o processo. Então, sobre a questão da legalização, eu sou a favor. Eu sou a favor porque eu acho que a guerra, o tráfico, nunca deu certo no Brasil. Eu acho que a gente tem que assumir que ninguém conseguiu solução para esse assunto. É óbvio que tem o lado meu que analisa: por mais que eu tenha parado com tudo, não fumo, não bebo, não cheiro e tal, não tomo ácido, mas assim, existe esse fenômeno.

Debate sobre legalização das drogas (43:09)

Eron Falbo: [44:01] Eu ia te perguntar até isso, você não toma nem uma ayahuasquinha?

Rodrigo Santos: [44:05] Não, nem cerveja, nada, zero.

Eron Falbo: [44:08] Não, cerveja também tem alcoolismo, mas eu acho que, sei lá, entendeu? Você tem que ir para o mato, mas é mais difícil de ser compulsivo.

Rodrigo Santos: [44:18] Sim, claro, até porque se bater, bate uma vez e pode bater mal também, depois, pô, opa, vou parar aqui um tempinho e tal. Mas assim, não era minha droga de escolha também, acho isso.

Eron Falbo: [44:29] Mas eu entendo. Às vezes você pegando uma que não tem nada a ver, te entra num encadeamento de outras coisas.

Rodrigo Santos: [44:38] Apertou o portal da magia, meu amigo, da mágica. É igual quando a gente lia Beatles e queria estar no Palácio da Rainha da Inglaterra, fumando vajada, e dentro do... É igual estar no ônibus do Magical Mystery Tour. Pô, você aperta ali o portal do Wall, pum, abre o seu... Ai, Deus.

Eron Falbo: [44:55] Te fala, relaxa, você pode qualquer coisa.

Rodrigo Santos: [44:58] Exatamente, aí vem essa história. Como ela era muito conhecida, essa história minha, eu sei do que eu sou capaz, eu sei que eu gosto. Então eu sei que, quando eu conseguir parar, eu não tenho a menor vontade, nenhuma vontade de usar nada, zero. E isso me move a falar assim: cara, se eu tivesse qualquer problema agora, que, porra, sei lá, alguém morresse muito próximo e tal, como eu perdi o Rodrigo Rodrigues, amigão meu e tal, pô, imagina se eu fosse beber. É uma frase que aprendi cedo no Centro Vida: se você tem um problema com a tristeza de perder um ente querido, quando você bebe e recai, você passa a ter dois problemas. O teu também. Então, assim, quem tem esse problema tem que analisar que tem. Tem milhões de coisas que abriram na minha vida, como tocar com o Ed Summers, com o Menescal, carreira solo, mais de dois mil shows.

Eron Falbo: [45:45] Cara, eu já tive também, quando minha mãe e meu pai ficaram com câncer ao mesmo tempo. Nessa época, foi a época que eu lancei meu único single lançado pela Universal, porque eu tinha um deal com ele de um single e três álbuns. Depois, minha mãe foi diagnosticada com câncer, e logo depois, um mês depois, meu pai foi diagnosticado com leucemia. Ele tinha 14% de chance de sobreviver. Nessa época, eu comecei uma compulsão muito grande com drogas, e aí que eu comecei a me preocupar bastante. E realmente é o que você tá falando: a gente cria dois problemas, a gente tem um ente querido ali que está precisando da nossa ajuda e nós mesmos somos problemáticos. Aí que eu senti uma enorme vergonha quando eu fui para o Hospital Sírio-Libanês. Minha mãe estava lá perdendo o cabelo e eu não sabia o que fazer, eu não tinha uma visão. Eu era muito egocêntrico, minha carreira musical era muito focada nisso. E por que eu tinha que ser, né? Você sabe muito bem que músico, no início, pra poder make it, né, pra poder quebrar certas barreiras, cara, tem que ter um foco, tem que esquecer de tudo. Infelizmente, assim, cara, é só 1% das pessoas que passam de uma certa barreira. E assim, esse é o jogo, né? Então eu tava nessa. E, cara, eu não sabia pegar um copo d'água pra minha mãe, assim, não tinha essa capacidade moral, entendeu? Essa maturidade era tipo assim: pô, o que eu tenho que pegar? E isso me causou uma vergonha enorme. E essa foi a principal razão que eu acabei com a minha carreira musical. Eu nunca lancei esse disco com o Bob Johnson, nunca foi lançado oficialmente, ele ainda tá na prateleira. E eu acabei porque isso me preocupou muito. Eu pensei assim: não quero ser esse cara, não quero ser esse cara que não consegue ajudar a mãe. E eu, durante meses, parei com o uso de álcool e de drogas. E depois de muito tempo eu voltei aos poucos, com muito mais maturidade, muito mais consciência, etc.

Rodrigo Santos: [47:51] Conhecendo melhor também, né? Se conhecendo melhor.

Eron Falbo: [47:54] Depende, eu não tinha carreira musical, eu não tinha aquela necessidade de equilibrar, né? Então eu te entendo perfeitamente, mas ao mesmo tempo eu sou super a favor da legalização das drogas, pela mesma razão que as drogas supostamente foram tornadas ilegais, o que eu acho que nunca deveria ter acontecido, porque o Estado não deveria se intrometer no uso pessoal das pessoas.

Rodrigo Santos: [48:24] Crime é crime.

Eron Falbo: [48:25] Se você usou drogas e cometeu crime, você deveria ser punido pelo crime. E as pessoas que talvez sejam levadas a mais crimes... porque, by the way, álcool causa mais crimes do que qualquer coisa. Isso aí é estatístico, né? Mas não precisa entrar nesses méritos.

Rodrigo Santos: [48:46] Não, mas acho que, cara, isso aí vem do que eu tava falando: eu acho que o álcool tem um significado... Tem muita gente que se ferra e acaba com a vida quando é só fumando baseado, né, porque vai pra um outro planeta, entre aspas, não foca, não consegue se concentrar e perde o timing da vida, às vezes. A explosão e a mistura da cocaína com álcool é violenta. Ela é violenta pra dentro de você mesmo, né? Ela te torna... tanto a euforia que você... tem mais perigosa.

Eron Falbo: [49:15] Tem mais perigosa.

Rodrigo Santos: [49:15] Você acaba não sabendo andar numa linha normal, uma linha tênue... não, uma linha...

Eron Falbo: [49:21] Isso é um outro problema das drogas serem ilegais, da proibição das drogas. É porque, assim, o álcool, por exemplo, bem ou mal, claro que tem muito mal, eu sei dos males do álcool, tiveram alcoólatras na minha família, eu mesmo já tive problemas em determinados momentos da minha vida por querer calibrar com o álcool, essa porra toda. Mas, bem ou mal, dentro da nossa cultura existe um ensinamento, um direcionamento, os pais com os filhos, tipo assim: 'ah, bebe um pouquinho...' Não, não, existe o galão, mas eu tô falando do lado bom, que é tipo assim, as famílias dentro da mesa de jantar, na festa de Natal, falam 'ah, você bebeu demais', você aprende um pouquinho a calibrar, dentro da cultura existe um pouquinho de ensinamento. Agora, cocaína, por exemplo, já que é proibido, é tabu e tudo mais, ninguém nunca aprendeu a usar, e só usa dentro de ambientes onde tem... como se fosse a sombra, onde está escondido do mundo. Ou seja...

Rodrigo Santos: [50:36] É, exatamente.

Eron Falbo: [50:38] E isso... quem está cheirando? É a sua sombra, né? Não é você, não é você um ser humano consciente. Não é você com luz.

Rodrigo Santos: [50:50] É o vício. É o vício no mais alto grau. É o olhar sem brilho, o olhar fundo, vazio. É o olhar sem nada. É aquele olhar que você fala: pode trocar os cinco personagens que estão com você na rodinha, em volta do prato, que você não vai estar nem aí. É o prato que interessa. É aquela carreira. Então, isso é uma coisa cruel. Isso é uma coisa... é uma humilhação. A droga mata humilhando, tem essa frase também. Acho que metade das pessoas do Centro Vida, que é essa clínica que fui, metade eram alcoólatras, não cerâmicos. Eu considero o alcoolismo também, o alcoolismo mesmo, ele é voraz também. As pessoas fazem coisas assim...

Eron Falbo: [51:35] Eu acho que o álcool também. Eu acho que o álcool, junto com a cocaína, causa uma coisa... Se eu pegar e comparar só os dois sozinhos, o álcool pra mim é muito pior do que a cocaína sozinha.

Rodrigo Santos: [51:47] É, eu acho que a cocaína deixa o cara parado, fica paralisado e não faz nada. O álcool não, deixa o cara... Se você quer somar realmente as duas coisas, aí a combustão, bum! Mas assim, o álcool... E talvez por isso que eu tenha gostado da cocaína, que o álcool dava aquela... Você ficava bêbado e a cocaína consertava, era meio que isso, a ajuda.

Eron Falbo: [52:10] É o fogo, você bebeu, drogue, uma hora assim, você bebeu demais, você ligou, aí a cocaína tá fumando, vamos lá.

Rodrigo Santos: [52:21] Aí uma coisa acelera e a outra freia, acelera, freia, acelera, freia, porra, você não sabe... Aí você fica carregando o...

Eron Falbo: [52:27] Tempo todo, então você tem que beber mais.

Rodrigo Santos: [52:30] Aí são quatro noites viradas, o organismo vai... Aí a cabeça vai ficando uma merda, né?

Eron Falbo: [52:37] Então, assim... E o foda é que lá em Londres, cara... Porque, assim, acho que o brasileiro não entende isso. Talvez você entenda... Não, porque você foi e subiu pra Londres. Mas, cara, Londres, cara, é tipo... É um buraco negro, cara. Porque o nível de poder de Londres, em termos de cultura, não se compara com Nova York, não se compara com nenhum lugar... Cara, as pessoas têm cultura, têm classe, é uma guerra, uma competição uma com as outras de quem é mais bonito. E não é o mais bonito Los Angeles, que é especial.

Rodrigo Santos: [53:15] Não, não é o mais bonito Instagram, é o mais bonito intelectualmente.

Eron Falbo: [53:19] De ser fera, de ser... É elegante. Então, rola essa cena, assim, e todo mundo usa, tipo assim, cara, drogas, em Londres, é 100 vezes mais liberal. Eu lembro que eu cresci em Brasília, né? E eu era da galera do rock underground, todo mundo era ali, era beatnik, sacou? Tipo, experimentar drogas era tipo fechar um apartamento, exagerar, se fechar, ok, todo mundo junto, entendeu? Era aquela coisa. E eu morri de medo, morri de medo de mim mesmo, morri de medo de Londres. Porque Londres é... Neguinho usa e vai, tipo assim, trabalha numa empresa de marketing, cheira cocaína de dia, trabalhando, sacou?

Rodrigo Santos: [54:07] Bolsa de Valores também é assim, né?

Eron Falbo: [54:09] É, aí de noite vai numa festa, fica até três da manhã, vai trabalhar às oito horas da manhã e trabalha mesmo. Trabalha bem, produtivo.

Rodrigo Santos: [54:16] Mas acho que não sustenta tanto o tempo da vida esse risco, porque a cabeça...

Eron Falbo: [54:22] É, eu não tô fazendo por dias, eu tô dizendo que culturas diferentes também criam uma psicologia diferente. E aí entra a coisa da legalização. Porque, assim, muito da dependência química não é tanto o químico e sim o contexto, o jeito que você usa, a pressão que você sente.

Rodrigo Santos: [54:42] Cabeça.

Eron Falbo: [54:43] Cracolândia. Se você tirar o cara do bairro da Cracolândia, as chances dele de sobreviver, mesmo se você nem olhar para o crack em si, ele tem outras coisas para fazer. Cria uma oportunidade da luz entrar em algum lugar. Exatamente. Exatamente.

Rodrigo Santos: [55:07] Eu acho que é por aí. O que eu vejo, sei lá, eu já fiz mais de 300 palestras, fiz o pé de Rio, fiz escola, faculdade, eu faço palestra com pocket show no final, descontraio, tenho o meu jeito de falar que é super também verdadeiro, sacou? Acho que tem que jogar com a verdade. Então, assim, eu sei quem se ferrou, eu sei qual é o poder autodestrutivo que eu tenho, e acho que tem que saber muito bem isso. Eu nunca irei na esparrela de novo, no rock'n'roll e tal, mas eu era o único músico na clínica, das 70, 80 pessoas que frequentavam. Então, aí que eu falo, tinha gerente de banco, tinha presidente de banco, tinha médicos, advogados, muitos médicos, inclusive anestesistas... Eu imagino, porque, primeiramente, tinha muito labor.

Eron Falbo: [55:57] Também, muita pressão, né?

Rodrigo Santos: [55:59] É, eu acho que a pressão, a compulsão, cara, é de cada um, né? A compulsão é de cada um. Chega uma hora que você pode ser compulsivo por uma coisa melhor, que não te destrua tanto. Mas eu acho que também, ao mesmo tempo, não pode ser hipócrita e dizer que foi ruim. Foi ruim uma certa hora pra mim, porque a linha Atena, ela foi indo boa. Depois do meio caminho, ficou maldupa. No final, ficou o contrário. Mas assim, durante um certo tempo, talvez eu tivesse menos coisas na cabeça, não é? Exatamente.

Eron Falbo: [56:27] A questão de contexto, e realmente acho que isso é a escolha do indivíduo. O indivíduo tem ele e Deus, ele e a alma dele, o que quer que seja, ou ele e a consciência dele. Por isso que eu não gosto da proibição, porque se o Estado entra no meio do diálogo, eu e minha consciência. Porque a compulsão pode ser no amor, compulsão pode ser no cigarro, no álcool, pode ser no esporte, halterofilismo, aqueles caras que ficam feios e sem saúde mesmo, morrem de ataque cardíaco. Aí o Estado vai fazer o quê? Vai proibir o halterofilismo?

Rodrigo Santos: [57:16] É, quem é o Estado? Quem é o Estado pra dizer o que eu devo fazer ou não? E aí veio o lado libertário, o lado até da resistência, de parar, que era assim, pô, cara, como é que eu vou viver sem beber uma cerveja? Eu pensava isso. Como é que eu vou conseguir fazer um show? Isso tudo eu tava contando pra mim mesmo, na verdade. Pelo contrário, só veio coisa boa na minha vida, mas também porque eu fui um cara que foi muito fundo, assim, você mantém uma média, de repente...

Eron Falbo: [57:42] Errado é melhor que bom. De você saber quem você é, o que você quer, e você não ser escravo de nada, né? Não ser escravo. E é isso que hoje em dia eu tenho... A única razão que eu me permito, assim, ouba-ouba e qualquer coisa, porque eu faço examinação diária, entendeu? Eu deito na minha cama e choro, entendeu? Deito na minha cama e falo, pô, o que eu tô fazendo? Quem que eu humilhei hoje, sem precisar humilhar? Quem que eu vou ser alto demais? E, cara, se você não tem isso, você tá, verdade, a sombra tá comandando, a sombra tá dominando, e você tem compulsão em alguma coisa, nem que seja... Você acha que muita gente acha.

Rodrigo Santos: [58:22] É porque, no final das contas, a cabeça é a nossa, né, cara? Então, assim, não adianta. Você pode pegar um avião e ir pra Salvador fazer um show, mas, pô, a cabeça que você sai daqui é a mesma que chega lá, né? Então, assim, tá tudo aqui, cara. Tá tudo dentro da pessoa. Então, ou você resolve as questões internas, ou então não anda pra frente. No meu caso, pra resolver qualquer questão, eu tinha que tirar de vez qualquer intermediário entre essa relação interna, sacou? Era uma substância que interligava, eu não sabia até que ponto era um problema meu, o que eu tinha para resolver comigo mesmo, o que era da droga, o que não era, eu busquei... Fui a um centro espírita uma época, fazer passe, chácara, não sei o quê. Depois de uma terapia, eu tenho que me falar, pô, cara, todos os problemas que eu tô vendo interligados, não todos, obviamente, depois você descobre outros quando vai fundo na terapia mesmo. Coisas da infância, da adolescência, que, pô, realmente, cara, isso é coisa da minha cabeça.

Eron Falbo: [59:22] Esse autoconhecimento também é crucial. Mas, Rodrigo, eu deixei... Como a gente começou um pouco atrasado, estiquei um pouquinho mais só pra gente ter essa hora aí. E também porque, pô, nosso papo flui pra caramba. A gente realmente vem do mesmo planeta, cara. Apesar de ter gerações diferentes, caminhos diferentes, eu queria te convidar um dia pra tomar um suco aqui em casa.

Rodrigo Santos: [59:47] Vamos, café!

Eron Falbo: [59:48] Pra gente conversar, continuar o papo e tudo mais. E outro dia também fazer outra live, que eu acho que tem muito assunto aí. Pô, tem muita coisa legal pra... Muito obrigado pela participação.

Rodrigo Santos: [1:00:00] Obrigado, cara. Eu que agradeço. Obrigadão. Foi um papo maneiríssimo. Obrigado.

Eron Falbo: [1:00:06] Valeu, cara. Obrigado a todos aí. Boa noite a todos. E fiquem com a gente no YouTube, no Spotify, no Facebook. Agora, pela primeira vez na história do nosso programa, a gente tá... Como é que chama? Streamando. Como é que fala?

Rodrigo Santos: [1:00:25] Streaming?

Eron Falbo: [1:00:25] Vou ver. Streamando.

Rodrigo Santos: [1:00:27] Quase.

Eron Falbo: [1:00:29] Streamando para todas as plataformas ao mesmo tempo. Não sei nem quem foi o louco que conseguiu fazer isso. São os nossos gnomos aqui que trabalham aqui no backstage. Então, galera, acompanha a gente. Beijão a todos e tudo de bom. Boa noite. Valeu, Rodrigo.

Rodrigo Santos: [1:00:47] Obrigado. Valeu.

No Alvo com Eron Falbo · episódio #94 · todos os episódios