Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.
Alessa Migani: [0:00] E...
Eron Falbo: [0:09] Aí.
Alessa Migani: [0:25] Tudo bom?
Eron Falbo: [0:26] Beleza, beleza. E você?
Alessa Migani: [0:28] Eu estava olhando o seu sofá vermelho, lindo.
Eron Falbo: [0:33] Obrigado. Três marcas no show, isso aqui.
Alessa Migani: [0:39] Muito luxuoso. Adorei, adorei esse visual. Eu entrei e você não estava ainda. Eu falei: gente, será que está congelado? Será que eu ainda não cheguei? Mas está tudo certo, né? Está funcionando.
Eron Falbo: [0:51] Faz parte da expectativa do show.
Alessa Migani: [0:54] Achei muito bom. Achei ótimo.
Eron Falbo: [1:00] Obrigado. A gente, cara, passou o dia inteiro fazendo coisa de tecnologia, né? Porque a gente tá tentando sempre melhorar, fazer um negócio mais legal. E tá conseguindo, mas às vezes tem umas frustrações. Eu tô um pouco nervoso, que tava correndo, cara. Tipo, até o último minuto eu tava correndo aqui. Então, até queria ter botado uma roupa mais da moda pra você.
Alessa Migani: [1:27] Mas está ótimo. Adorei esses tons. Está super bacana. Está contrastando esse oliva com rubi no sofá. Está super bacana. Aprovadíssimo.
Eron Falbo: [1:38] Estou usando meu sapato novo. Acabou de pegar.
Alessa Migani: [1:43] Muito bom, muito bom. Vou te mostrar meu bracelete novo aqui também.
Eron Falbo: [1:49] Acabou de chegar também?
Alessa Migani: [1:50] Carioca Holic. Acabou de chegar.
Eron Falbo: [1:53] O que é Carioca Holic?
Alessa Migani: [1:55] Carioca Holic, eu brinco que sou viciada no Rio de Janeiro. Se eu não tivesse nascido aqui, eu estaria morando aqui, porque cada vez que eu viajo, eu percebo que eu sou mais carioca, de paixão, de coração, além de ter nascido aqui e apaixonada pela cidade, pela natureza, pelos cariocas, enfim. Adoro morar aqui.
Eron Falbo: [2:19] E a pulseira tem a ver com isso? Você acha que é uma...
Alessa Migani: [2:22] A pulseira, sim. É praticamente uma coroa. Ela é tipo uma tatuagem que você coloca dourada. Parece uma coroa mesmo, parece uma coroazinha. E tem o colar também, Carioca Roly, que faz parte de uma coleção... Está reluzindo, uma coleção de peças.
Eron Falbo: [2:41] Escrito Carioca Roly.
Alessa Migani: [2:43] Carioca Roly. De tamanho, é cortado manual, são peças únicas que a gente tem na loja.
Eron Falbo: [2:53] É isso aí, você mesma que produz e lança na loja?
Alessa Migani: [2:59] Isso, isso. A marca Alessa está fazendo, ano que vem, 20 anos. Passou rápido. E, assim, é um trabalho muito autoral, um trabalho que eu faço, assim, quase que como uma respiração diária, né? Que tem a ver com a felicidade, com a observação do dia a dia, com o humor, né? Tudo através dos estampos, né?
Eron Falbo: [3:22] Foi sua avó que começou a marca? Como é que a marca tem 20 anos e você é tão jovem?
Alessa Migani: [3:27] Eu comecei desde que eu nasci, entendeu? Estou com 23... eu comecei com 3 anos a fazer roupinha para as bonecas, entendeu? Então, faz sentido. É engraçado você estar falando, porque quando eu trabalhava em agência de propaganda, fazendo direção de arte para as marcas da Coca-Cola, Havaianas, e aí comecei a desenhar umas calcinhas divertidas, com texto, bem publicitário. Na calcinha estava escrito 'Obrigada, volto sempre', 'Obrigada pela preferência', em inglês 'thanks for shopping with us'. E aí faziam a calcinha de perfexo para a mulher Amélia. E aí conversava nas quentinhas. E aí começou na agência essa coisa. Disso eu comecei a pensar em criar minha própria marca dentro da agência de propaganda, trabalhando e criando. E isso vai fazer 20 anos agora, no ano que vem. E é engraçado que você perguntou, porque aí o nome da razão social... a Alessa, tem que criar uma razão social, abrir uma empresa. E aí é Alessa desde 1972. Eu sou de 72 e, assim, pronto, revelei, né, gente? Não tenho 23. Meu aniversário é dia 23 de maio, mas eu não tenho 23.
Eron Falbo: [4:47] Vamos brindar os 20 anos da casa da Alessa?
Alessa Migani: [4:51] Vamos, da casa da Alessa, da Alessa! Olha a minha borbulha como está. Encaixa aqui, assim, a sua taça. Eu faço isso, faço tim-tim... Isso! Olha, gente, ficou genial. O meu espumante é rosé, porque eu tenho mania de cor de rosa. Rosa não provoca.
Eron Falbo: [5:24] Eu só tomo em celebração, quando o pessoal vem dar um copo aí. Mas eu não conheço muitas diferenças entre eles, não. Gosto mais de vinho e tal.
Alessa Migani: [5:41] Drinks.
Eron Falbo: [5:42] Aprendi a tomar coquetéis.
Alessa Migani: [5:45] Drinks e coquetéis também eu adoro. Mas pra mim, espumante, assim, o prosecco, uma coisa da Itália, né? Uma coisa meio familiar. E também, eu gosto dela bem gelada, assim, da borbulha. Você sentia a borbulha descendo, assim? Pra mim, é uma sensação que nenhum outro drink me traz, assim. Então, eu adoro. E é um drink que me levanta rapidinho, sabe? Rapidinho, ele dá um astral. Então, eu gosto, acho bonita a taça longa, sabe? Essa coisa bonita.
Eron Falbo: [6:14] Bom, então vai terminar aí pra nossa conversa ser melhor ainda. Pra levantar.
Alessa Migani: [6:20] Tá ficando mais animado, né?
Eron Falbo: [6:22] Mas aliás, eu vi aqui no seu dossiê que o seu tataravô era alfaiate do Papa. Como é que é isso? Como é que é essa história?
Alessa Migani: [6:32] É engraçado isso, né, Eron? Porque a gente vai seguindo a nossa vida, quando vê, a vida vai levando. Acho que, assim, na maioria das pessoas que trabalham com coisas que são realmente a grande paixão da vida, é a vida que vai trazendo para a gente, não é a gente que escolhe, assim, muito. Então, acho que comigo aconteceu assim, né? Sou designer, me formei na ESDI, no Rio de Janeiro, fiz mestrado na Inglaterra, na Central Saint Martins, e sempre na área de design. E aí, na agência, como eu te contei, eu comecei a criar as calcinhas divertidas e tal, que foi, de alguma forma, uma entrada pra moda, né? Uma entrada, assim, mais íntima, né? Uma entrada mais discreta, porque é uma calcinha. Mas foi assim que entrou. Eu fazia calcinha com o Santo Antônio pra casar, com o Santo Expedito pra causas urgentes, enfim. Nada a ver com Papa, é isso, né, gente? Eu estudei em escola de freira, né? O Teresano, aqui no Rio de Janeiro. Mas aí foi acontecer naturalmente. Logo que eu comecei a realmente me sentir estilista, o meu pai chegou com uns papiros de Roma. Minha família é de Roma. Meu pai nasceu na sétima colônia de São Pietro. Então, assim, é bem romana. Então, eles têm super irmãos, sabe? Assim, moravam no Vaticano. Então, é super, super romana. E aí, ele chegou com os papiros. Aí, quando eu abri esse papiro, né, que ele falou que vamos emoldurar, vamos botar a moldura. A gente, de fato, emoldurou. Foi incrível. Tava escrito, era um certificado de que o bisavô do meu pai, meu tataravô, era o alfaiate do Papa. Então, assim, nada mais na veia do que realmente eu ter me transformado em uma estilista, não uma estilista tão comum assim, porque o que eu faço é muito arte para vestir, tem muito humor, tem muito amor também, mas, assim, é incrível, não é? É o Faiá, é o Papa.
Eron Falbo: [8:29] O Faiá também tem alguma coisa a ver com isso, com a indústria têxtil, alguma coisa do tipo?
Alessa Migani: [8:35] Alguém da minha família?
Eron Falbo: [8:36] Seu pai? Filho do seu tataravô?
Alessa Migani: [8:39] Nada, era alfaiate do Papa. Na verdade, todas as famílias que moravam no Vaticano acabavam tendo uma relação forte com o Papa.
Eron Falbo: [8:52] Não era isso?
Alessa Migani: [8:53] Estava ali. Ou cozinhava para o Papa, ou era o alfaiate do Papa, ou era o cabeleireiro do Papa.
Eron Falbo: [8:59] O Vaticano é uma cidade-estado, não é todo mundo tão próximo do Papa. Talvez em outra época, sei lá.
Alessa Migani: [9:06] Mas olha, alguém da família com certeza servia o papo ali. Bom, eu não sei, né? Vai ver que a minha família também foi super, né?
Eron Falbo: [9:13] Mas morava mesmo no Vaticano, depois do seu tataravô?
Alessa Migani: [9:18] Morava. Meu pai nasceu na sétima coluna, porque ele não conseguiu chegar no hospital. Minha avó grávida desceu lá do prédio, né? Do sétimo andar, no ático, lá que eles moravam. Tinha até bichos lá dentro de casa, enfim, na época da guerra. E aí, quando ela desceu, a cidade estava subindo, estava inundada. E aí, na sétima coluna, esse que nasce é o Fredo Migani, meu pai. E também, assim, o interessante é que um tataravô era o alfaiate do papa, né? O outro era o cozinheiro do papa. E o meu irmão, depois de fazer administração, de trabalhar em empresas administrando, ele acabou trazendo a pizza al taglio para o Brasil, que é a pizza romana, cortada com tesoura em quadradinhos. Então, quando a gente olhou esses papiros, a gente falou: gente, tem que remoldurar mesmo, né? Porque realmente tem uma cena estampada nisso aí.
Eron Falbo: [10:15] Você sente que na sua história de vida isso foi significativo de alguma maneira? Teve alguma influência? Você sente alguma influência vaticanense? Sei lá como é que chama isso.
Alessa Migani: [10:29] Olha, eu vou te falar que quando eu vou pra Roma eu gosto muito de visitar o Vaticano. Nunca deixo de visitar.
Eron Falbo: [10:35] E subia... Tipo assim, sempre que você vai lá?
Alessa Migani: [10:38] Com certeza, me recebe. Todos os domingos ele me recebe lá, às oito horas da missa, né? Ultimamente ele não tem recebido, porque não tem ido também, mas enfim, todo domingo a gente se encontra lá. Eu estudei em colégio de padre, mas assim, de freira, né? Na verdade, teresiano. Mas, enfim, quando eu comecei a fazer as calcinhas, né, que eu coloquei os santos na calcinha... Eu ainda não desfilava no Fashion Rio, mas fui convidada, sem ainda ser estilista, pela L'Oréal para customizar umas calcinhas no estande durante o Fashion Rio. E aí eu levei as calcinhas dos Santos, né? E de repente a Vera Fischer entrou, que hoje em dia é uma amiga, cliente e tal, entrou no estande, pegou a calcinha do Santo Expedito. Gente, na hora eu vi aquele painel de fotógrafos estourando nela, na calcinha. E aí entrou a Ana Paula Arósio, pegou a calcinha do Santo Antônio pra cá, também aquela loucura. No dia seguinte, agora você imagina, estampado em todos os jornais da época que existiam.
Eron Falbo: [11:48] Tantos jornais... Então, assim, mesmo não tendo...
Alessa Migani: [11:55] Vamos dizer, os ativos... Claro, o Antônio sempre dá uma ajuda, não tem problema. Sempre tem um par, né? Sempre tem um par imperfeito. E o que foi mais divertido é que, no dia seguinte, todos os jornais colocaram na capa essas fotos. E todos os padres começaram a me ligar no meu ateliê, pra explicar aquele pecado que eu estava cometendo. Logo depois, os padres querendo me excomungar, eu fui parar no Jô Soares, e aí foi mais forte ainda. Quando eu fui para o Jô Soares, o telefone não parava de tocar, era no meu tempo, acabava em 24 horas, ele tinha que tirar do gancho, porque a coisa estava ficando puxada. E o Jô Soares tinha aquela coisa da Globo, né, que passava no Japão, em Portugal, na França, na Itália, nos Estados Unidos. E aí, tipo assim, era 24 horas o fuso horário, né? E aí foi assim, começou a ser tão intenso, né? A moda começou a abrir as portas pra mim de forma tão... divertida, com muito humor, com uma coisa muito autoral, divertida e verdadeira, autêntica, que eu, de designer, me tornei mais estilista.
Eron Falbo: [13:23] Você começou com a calcinha como uma coisa de marketing, você falou. Tipo, foi uma ideia mais assim que era mais uma questão de estampa do que de criação em termos de moda, né?
Alessa Migani: [13:35] Era muito criação, era muito conceito. Como tinha humor, era muito publicitário, divertido. Eu embalava em quentinhas que eu falava que era pra fazer delivery, pra chegar em casa, as calcinhas quentinhas. Depois eu comecei a fazer calcinhas com extintor de incêndio, dentro da caixinha de fósforo, calcinha escrito multiuso, dentro da caixa do...
Eron Falbo: [14:05] Você brincou com essa coisa sexual, né? Tipo, é muito ousado, eu tô vendo assim, muito... vamos dizer, irreverente, aquela palavra que só se usa na televisão, né? Era uma pessoa irreverente. O que eu quero dizer é que você ousou brincando com a sexualidade sem ser apologética, né? Fazendo... pô, todo mundo sabe, né? Calcinha é uma coisa que a gente só mostra... Ou a gente vai ter uma calcinha branca, que usa 200 calcinhas brancas no dia a dia, ou você vai ter uma calcinha diferenciada pra mostrar pra alguém, né? Então, toda hora é uma...
Alessa Migani: [14:48] Toda hora é uma... Então, assim, era uma ideia de usar o humor, né? Pras pessoas vestirem, né? Pra fazer da vida das pessoas mais divertida, mais leve. E acabou que a calcinha foi um veículo pra isso, né? Depois de um ano que comecei a criar as calcinhas, fiz o diário 365 calcinhas. Fotografei todas as calcinhas que tinha criado, coloquei nesse diário, que existe até hoje, foram mil exemplares e guardei alguns até hoje. Era uma agenda, uma agenda das calcinhas.
Eron Falbo: [15:24] Desculpa, desculpa.
Alessa Migani: [15:27] E assim, eu acho que foi muito bacana começar com muito humor na calcinha, que tira totalmente a vulgaridade do trabalho. Verdade.
Eron Falbo: [15:37] O humor tem esse poder, né? Quando a gente usa na medida certa, consegue transformar o sexual em aceitável, o violento em aceitável, o julgamento, né? Se você faz uma piada racista, mas fica óbvio que não é porque você é racista, e sim porque você está rindo junto, demonstrando, vamos dizer, o absurdo do racismo. Tem muito comediante de stand-up que faz isso muito bem. E tem um debate mundial, praticamente, que é assim: quais são os limites da piada, porque tem muito cancelamento, etc. E alguns comediantes, sobretudo que eu adoro, sustentam que o humor mesmo é sem limites, não tem limites, o cara pode falar de qualquer coisa, porque, se ele, obviamente, souber usar na medida certa, ele tem que ser perdoado.
Alessa Migani: [16:40] Não, acredito que o humor libera a arte. A arte contesta, a arte vai criticar, vai falar sobre o tempo que você está vivendo, sobre a sociedade, sobre a cultura, assim como o humor. Para mim, o humor é uma grande arte, sabe? E acho que hoje ele é tão respeitado, o humor, por isso que acho que ele supera essas barreiras, como você está falando, que as pessoas...
Eron Falbo: [17:11] Deveria superar, acho que... Tem muita gente hoje em dia ainda tentando fazer esforço para cancelar humoristas. Tem uma série de coisas. E assim, o humor... Tem até um estudo do Bergson, que é um filósofo contemporâneo, mas praticamente moderno, sobre a risada e a função... Acho isso genial, que é a função da risada dentro da sociedade, em termos de... Aí eu não vou entrar em detalhes, mas basicamente ele vai para a história, a história humana, e traz todos os outros teóricos, desde Aristóteles, Descartes, pessoas que falaram sobre a função da risada, etc. E ele traz todos os teóricos, faz uma síntese, e o resultado a que ele chega no final é que a risada é quase um mecanismo social para a gente expressar que entende que existe alguma coisa para melhorar. Olha que bizarro: alguém caiu no chão, sei lá, um príncipe todo arrumadinho, cai no chão, aí a gente ri disso automaticamente, porque é um mecanismo social para a sociedade se autocorrigir. Tipo assim, o príncipe não deveria ter caído, ele deveria andar melhor, entendeu? Aí ri da cara dele, para ele se sentir envergonhado, para ele poder se melhorar. Então é tipo uma... Aí leva a um extremo: falando de sociedades fascistas, totalitárias, tirânicas, tem uma coisa de proibir comediantes e coisas do tipo, porque os comediantes levam a crítica daquele regime, entendeu? Levam ao melhoramento daquele regime. E se levar ao melhoramento suficiente, vai virar democrático, vai virar liberal, entendeu?
Alessa Migani: [19:02] E fala a verdade. A verdade, muitas vezes, é polêmica. Então, o humor é verdadeiro.
Eron Falbo: [19:08] As suas calcinhas estavam... Não sei se você ainda faz isso, mas estavam trazendo isso, essa questão de tipo... Cara, tem um tabu, as pessoas estão com melindre com sexo, com qualquer coisa. A risada que se dá ao ver uma calcinha sua quebra isso e melhora a sociedade. As pessoas falam: não preciso ficar com esses tabus chatos.
Alessa Migani: [19:33] É uma questão mais polêmica também, dentro da própria sociedade. É uma coisa que você não vê, que é velada, ninguém anda de calcinha na rua. Mas hoje eu faço, na moda, as camisetas, que também têm essa questão um pouco do humor, mas de forma mais admirativa, como fazer uma metáfora artística para uma mulher usando uma camiseta da Mulher Maravilha, sem ser carnavalesco, mas sendo metafórico. Então, por exemplo, agora é o Dia das Mães, eu tenho essa personagem da Mulher Maravilha muito estampada nas mulheres que são minhas clientes. São mulheres que eu acredito que são muito mulheres de verdade, autênticas, têm muito humor, e elas usam e elas dão de presente as camisetas que eu crio. A cada coleção, eu crio uma Mulher Maravilha para estampar numa camiseta. Então, assim, é uma camiseta mensagem, é uma camiseta elogio, é uma camiseta que você olha e, de repente, você ri, dependendo da pessoa que está usando. Mas é muito lindo um filho poder dar de presente para uma mãe, ou para uma esposa o marido dar a camiseta da Mulher Maravilha, ainda mais num momento desse, né, que está todo mundo liberado.
Eron Falbo: [20:58] Eu não sei se você sabe, mas eu fui casado com a Gisele D'Arris, da Enjoy. Acho que ela fez alguma ação com isso, com a Mulher Maravilha, que ela me falou alguma coisa disso. Você lembra de alguma coisa assim?
Alessa Migani: [21:10] Sim, da Enjoy?
Eron Falbo: [21:12] É. Não, mas ela fez alguma coisa da Mulher Maravilha, ou estava pensando em fazer, mas eu lembro de ter falado que tem uma marca aqui no Rio que faz coisas da Mulher Maravilha. Estou achando coincidência que é você que fazia.
Alessa Migani: [21:24] Sim, sim, porque nos desfiles do Rio eu sempre entrava no final, sempre entrava para agradecer, e entrava de forma muito entusiasmada. Quando você vê aquelas pessoas, são 1.500 pessoas assistindo o desfile, você sente um calor e aquela vibração de 1.500 pessoas falando 'uau' no final, quando vêm os aplausos. Eu entrei num dos desfiles de Mulher Maravilha. Então foi muito forte, né? Assim, uma estilista se autointitular a Mulher Maravilha... Nenhum estilista, no final, entra assim, ainda mais de Mulher Maravilha. Geralmente entra, dá aquele aplausinho e sai correndo, ou então nem entra, né? Eu entro, danço, agradeço, jogo o cabelo para frente, jogo para trás, e ainda usei Mulher Maravilha. Então ficou muito forte isso. E é um personagem da marca, toda coleção a Mulher Maravilha vem vestir as mulheres maravilhosas da Alessa. As minhas amigas, as minhas clientes são mulheres que eu realmente admiro, porque elas estão investindo, eu brinco, porque elas são colecionadoras, elas vestem arte. Eu me considero, mais do que estilista ou designer, uma artista, porque faço um trabalho autoral, muito artesanal, são peças únicas e são peças que realmente... Eu brinco que a minha loja, o conceito é uma galeria de arte, minhas vendedoras são marchands, e, sendo assim, minhas clientes não poderiam deixar de ser colecionadoras. Muitas vezes elas me mostram, filmam o armário, o closet, falando: Alessa, olha o meu coletão, olha o meu acervo. É muito bonito, é muito gratificante, sabe, para quem faz o que eu faço de forma tão visceral e com tanta felicidade. É muito bom estar aqui conversando com vocês sobre esse bate-papo gostoso.
Eron Falbo: [23:31] Alessa, eu vejo que você, primeiro assim, eu quero te elogiar por ser essa pessoa tão ousada, e dá para ver que você... eu não sinto medo em você, né? Eu vejo que, pô, essas coisas vão a sério, eu sinto essa energia. Não sei se é isso que eu sinto sobre você, mas a gente está vivendo numa época que é especialmente regada por medo e paranoia, né? É claro que existem perigos que geram medo por si só, mas além disso está tendo uma campanha do medo quase sobrenatural, né? Então, assim, eu acho que esse seu espírito é muito interessante para quem está nos ouvindo agora, e eu acho que você pode, de repente, elaborar um pouco sobre esse seu espírito, falar sobre como foi no início, as suas inseguranças, e como você superou essas inseguranças com essa sua energia, mulher maravilha, autoconfiante, etc., para chegar onde você chegou e onde você ainda vai chegar, se depender de você.
Alessa Migani: [24:41] Aonde eu vou chegar é uma pergunta mesmo que eu acho que eu só espero uma resposta. Eu vou chegar no momento de ser feliz fazendo o que eu faço, continuar nesse percurso, nesse caminho, que é o caminho de uma criação autoral. O que eu faço é uma arte para vestir. Eu chamo, realmente, os meus cartões, os vestidos, de nada mais do que o material em branco que eu estampo a cada coleção. É um trabalho muito artesanal e muito autoral. É uma marca que você vê na loja, a Alessa está ali, ela existe, ela anda, ela fala. Não é uma marca que você vê em cada shopping, replicada. Então eu acho que começou muito partindo da arte, da inspiração. Eu acredito, respondendo um pouco à sua pergunta, que as pessoas possam se inspirar não só com a minha marca, com a atitude que eu tenho em relação ao meu trabalho, à paixão de fazer o que gosta, mas a moda, para mim, foi um veículo para vestir as pessoas com essa felicidade, com esse estilo carioca, que eu acho que os cariocas estão no mundo inteiro. Quanto gringo a gente vê aqui que tem o Rio de Janeiro enraizado de uma maneira que nem às vezes um carioca tem. Então eu acho que é uma mensagem, a moda é o veículo que eu encontrei. Eu podia ter encontrado a arte, podia ter encontrado a propaganda, que eu encontrei também e que hoje em dia eu faço, mas não faço tanto, faço mais na área de moda. O design também pode ser um manifesto, através das capas de disco, dos cartazes, a história do design é o manifesto. Mas acredito mesmo que a história da moda possa ter um pequeno ruído com a Alessa no meio dela. Eu não venho da moda, não estudei moda, venho de outra área, e acredito que o que faço pode transformar um pouquinho a vida das pessoas. Assim como você falou: quem usou calcinha de Santo Antônio, casou.
Eron Falbo: [26:59] Também gostaria de saber da parte de business, porque muita gente que está nos ouvindo é empreendedora, está começando algum negócio, e certamente tem muitas mulheres. Hoje em dia, com o mundo do Instagram, tem muitas mulheres, o mercado já está até saturado, mas tem muitas mulheres iniciando na moda. Então o desafio é muito maior, porque a barreira de entrada diminuiu: você consegue encomendar coisas da China, você consegue divulgar isso sozinha no Instagram, etc. Então a barreira de entrada diminuiu, e isso cria uma situação imediata no mercado, e um desafio muito maior para as pessoas que querem chegar num patamar como você chegou, como outras marcas chegaram. Então, o que eu queria...
Alessa Migani: [27:59] É, eu acho assim... Não, eu adorei o elogio, o patamar assim, até porque, eu comecei na moda e a moda me abraçou. Quando eu vi, a minha marca tinha um ano, eu ainda estava trabalhando em agência e eu tinha que ir no Jô Soares. O diretor de criação, eu, diretora de arte, estávamos apresentando campanha para cliente. E o diretor da agência falou: "Alessa, olha só, a gente tem uma campanha pra apresentar e você que vai apresentar, sim. Mas agora eu fiquei sabendo que o Jô Soares te convidou pra uma entrevista. Então esquece a apresentação pro cliente", que era o cliente top da agência, "e vai lá pro Jô Soares." Então assim, eu fui empurrada de uma maneira pra fazer o que eu faço. Eu acho que as pessoas têm que, como você está falando da inspiração, das pessoas que estão assistindo, o que elas fazem, essa enxurrada de mulheres tentando entrar na moda, eu acho que a gente tem que escutar quem está em volta, escutar o coração, fazer o que gosta, porque tem muitos caminhos, sabe? É um universo de caminhos, tanto dentro da moda quanto fora dela. Eu acredito que as influenciadoras têm um rótulo, mas elas não precisam ser todas iguais. Eu acho que a diferença é que é super bonita, que é a inspiração. Então, eu senti isso assim, na minha história dentro da moda, que é design de moda, que tem conceito publicitário. Ela traz a minha bagagem, ela traz a minha história. Cada peça que você usa, ela tem ali uma pessoa que cortou. Tem muito esse financiamento social também de uma cadeia produtiva. A moda é uma indústria que gera muito recurso. Quem trabalha e sabe, quem é grande, tenta não importar da China, tenta fazer aqui com uma família que, de repente, vai cortar, costurar, passar, fazer o controle de qualidade. Então, eu estou muito ligada também nesse tipo, nesse perfil. Nunca pensei em ir para a China. Mas quando eu comecei... Deixa eu só contar uma história de quando eu comecei, que tem a ver com o que você falou. Um ano depois, eu já estava na Selfridges de Londres. Foi onde eu fiz o meu mestrado e, logo depois, dois anos depois, eu estava lá na vitrine da loja de departamento mais criativa da Inglaterra. E eles me deram uma vitrine para fazer. Eu levei vários Kens, várias Barbies, botei as calcinhas na vitrine, as calcinhas mais polêmicas. E aí o diretor da Selfridges veio falar: "Alessa, olha só, você não pode botar calcinha na vitrine." Eu falei: "Mas a vitrine é com calcinha e a Barbie e o Ken pelados. Gente, a gente tá na Inglaterra." A Inglaterra, na época, era super ousada, sabe? Tem a rainha, mas tem uma ousadia punk que é incrível.
Eron Falbo: [30:50] Porque tem a rainha, que pode ser ousada, né?
Alessa Migani: [30:53] É? Aí ele falou assim: "Não, é verdade, eu tô falando besteira. Faz o que você quiser, você é uma artista, faz o que você quiser." E a vitrine era super fotografada, sabe? E eu tô falando aqui, nem tão do Brasil.
Eron Falbo: [31:03] Convencer um inglês a mudar de ideia, isso aí é... não é fácil, não.
Alessa Migani: [31:08] Mas deu na hora. Eu falei: "Vem cá, a Barbie, as crianças gostam. Elas tiram a roupa da Barbie, do Ken também, eles são pelados." Caixinha de sabão em pó e calcinha escrito multiuso. Calcinha "thanks for shopping with us". Não tem problema, são tantas calcinhas também. Eu sempre convenci ele de alguma maneira lá, que eu nem sei como, mas funcionou. E aí, o que aconteceu? Eu comecei a fazer showroom internacional. Com um ano de marca, eu tava viajando pra Paris, pra Tóquio, pra Barcelona. Você também tem essa parte de fazer.
Eron Falbo: [31:34] Vitrine, de fazer a parada do marketing.
Alessa Migani: [31:38] A parte do design, que eu adoro fazer, que eu sempre fiz para os clientes.
Eron Falbo: [31:42] E também tem a ver com marketing, tem a ver com o processo de vendas, com o processo de sedução do cliente, esse tipo de coisa.
Alessa Migani: [31:50] E aí, o que aconteceu? A gente fazendo showroom, fazendo as vendas internacionais pelas multimarcas. Eu vendi para a Colette, em Paris, que era uma loja de multimarcas, e depois que eu vendi para ela, vendi para todo o planeta, mais de 25 países eu exportei. O que aconteceu? Uma vez eu estava no showroom. Imagina, eu, a estilista Alessa, estava lá atendendo, fazendo pedido. Quem diria que uma marca grande vai ter a estilista ali atendendo? Não existe isso. A marca é grande, a estilista está, sei lá, nas ilhas Maldivas. Ela não está ali no showroom, no inverno, andando na neve para chegar lá dentro do showroom. E aí, a gente era patrocinado pela Apex, que é do governo, né? E os meninos da Apex, todos de terno e tal, passeavam pelo churro. Eu tava sozinha, eu e minha assistente. Chegou um cliente árabe, que comprava muito. Olhou pra minha marca. Eu vendia pra mais de cinco lojas em Dubai. Olhou pra marca, olhou pra mim. Aí ele falou assim: "Alessa." Aí eu falei pra ele: "Nice to meet you." Aí ele falou assim: "You're Alessa?" Eu falei: "I'm Alessa." Aí ele falou assim: "Alessa is so big in Brazil." Eu falei: "Se fosse tão big assim, acho que eu não estaria aqui." E aí ele começou a fazer o pedido. E na hora de fechar o pedido, ele ficou um pouco na dúvida. Ele falou assim: "Gente, tô achando que é big, porque eu vejo em Dubai em cinco lojas, na Bloomingdale's, na Harvey Nichols, na Colette Dubai." Mas aí ele falou assim: "Tô na dúvida de assinar esse pedidão aqui." Na hora, chegaram os homens de terno da Apex, todos elegantes, falaram comigo, falaram dele pra mim, na hora ele fechou. Então, assim, nesse universo de ser grande, ser... tipo, super empresária, de uma super loja, na verdade, todas as marcas são feitas de pessoas, né? E essas pessoas passam por momentos, como nessa pandemia, os empreendedores, quem tem cadeia de loja, passa a mesma coisa que eu passo, que tenho uma loja, que tinha duas lojas... eu acho que esse.
Eron Falbo: [34:03] Exemplo que você deu, assim, desse momento, com esse árabe e tudo mais, existem muitos momentos desses na ascensão da vida, a gente se tornar, chegar num próximo patamar, alguma coisa assim, que às vezes não tem tanto a ver com a qualidade do nosso produto, às vezes tem a ver com o nosso jogo de cintura, a nossa humildade de conversar numa boa, estar no lugar certo, na hora certa. E acho que essas coisas têm que ser computadas também, né? Muitas vezes as pessoas focam muito em fazer um design absoluto. Eu, quando era músico, eu falava: "Não, vou compor a música mais perfeita", e isso. Aí eu falei: cara, você pode ter a melhor música do mundo se você não conhecer as pessoas certas, se você não estiver aparecendo, se você não estiver lá, né? Tipo o que o Woody Allen disse, pelo menos ele copiou essa frase de alguém, que tipo, 80% do sucesso é showing up. Tá presente, tá lá no lugar. É por isso que eu faço quatro entrevistas por semana. Se você não tiver, como é que você vai? Como é que alguém vai ver? Como é que vai crescer?
Alessa Migani: [35:18] Com certeza, a visibilidade é muito importante, mas acho que hoje a visibilidade, realmente, no plano físico, é limitada. A gente percebe que a visão do futuro é aqui onde a gente está, é ao vivo, em cores, nesse quadradinho aqui que a gente tá. Porque assim, eu vejo que isso não tem volta, né? Não tem volta mesmo. E oportunidade pra quem tá vendo a gente, que você falou, que realmente acha que tem limite: não tem limite, porque um produto bacana, com alguém que saiba falar legal, que tenha uma mensagem, vai aparecer, gente. Acredita que você vai aparecer. Alguém vai clicar no seu Instagram, e vai te mandar um direct que vai mudar sua vida. Verdade.
Eron Falbo: [36:09] E uma coisa, é só uma questão, e realmente existem pessoas que podem fazer isso, né? Eu mesmo, na música, eu tava... uma hora eu era um cara que tava tocando em open mic nights, em todos os lugares. Eu morei em Londres quatro anos, né?
Alessa Migani: [36:25] Ah, que legal.
Eron Falbo: [36:26] Inclusive, você conhece a Val Palmer, da Saint Martins? Era uma professora, muito amiga minha, do CSM.
Alessa Migani: [36:34] E a Val? Peraí, para tudo. Em que ano que você morou lá em Londres?
Eron Falbo: [36:39] Eu morei em 2008 até 2012.
Alessa Migani: [36:43] É um baby, gente. É um baby. Eu morei em 1997. Em 1997, eu tinha 20 e pouquinhos, né? E era na época...
Eron Falbo: [36:54] Eu já estava lá, então, Val.
Alessa Migani: [36:57] Já? Já? Era na época da Ministry of Sound. Não sei se você, quando morou em Londres, entendia. Mas, assim, tinha a Festa Puska, que era uma festa super exclusiva. Todas as casas... A Stella McCartney também.
Eron Falbo: [37:11] Era segunda-feira, não? Eu lembro que tinha uma festa segunda-feira.
Alessa Migani: [37:15] Era, não, era assim, tinha uma sala dentro da Ministry of Sound que rolava a Festa Puska, e assim, eu não sabia que existia essa festa, mas a gente, eu e uma amiga minha, a gente se vestiu e falou, vamos para a Ministry of Sound. Então, a fila começava às duas da manhã, e a gente na fila, chegou um cara de capa e pegou a gente na fila e colocou dentro da sala da Puska, né? E assim, todas... Isabella Blow, que fazia os chapéus Millinery, Alexander McQueen, Stella McCartney, todos lá. Estudavam na Central Saint Martins também. Então, eu comecei a reconhecer essas figurinhas inglesas que estavam na minha faculdade, lá na Puska e tal. Então, assim... Tipo, eu saía à noite, indo pra uma boate mais caretinha, eu encontrava, assim, Pierce Brosnan, sabe? Falando, I'll be back, tipo, 007, sabe? Alguém vinha e falava, me dá um autógrafo, deixa eu só falar com você, I'll be back. Então, assim, eu dançava na pista com o Leonardo DiCaprio, sabe? Na Inglaterra. A Madonna morava lá, cara. Ela tomava café lá.
Eron Falbo: [38:15] O Leonardo DiCaprio, ainda achavam que ele era só bonitinho nessa época, né? Porque depois ele ficou bom ator, ganhou vários prêmios.
Alessa Migani: [38:22] Mas ele ficou bonitinho mesmo, assim. Era só bonitinho e arrasava na pista mesmo. Então, era muito legal. Aniversário de amigos, que eu sabia que ia numa boate, sabe, num lugarzinho ali, que tava a Madonna com três amigos dançando com ele, sabe? Então, assim, era muito mágico, sabe? Era muito bacana. E hoje deve ser mais ainda também, não sei, né?
Eron Falbo: [38:46] Depois eu vou ligar o WhatsApp pro Paulo Palmer pra falar que eu fiz uma live com ela, tô mandando um beijo. Sending you a kiss from Brazil, Val. Miss you very much. Faz anos que eu não falo espanhol.
Alessa Migani: [39:00] This feeling of remembering London. Gente, assim, é demais, moral. Fez o que lá? Vamos fazer só uma entrevista rápida, fala aí.
Eron Falbo: [39:11] Oi?
Alessa Migani: [39:12] O que você fez na Inglaterra? O que você ficou quatro anos morando, e foi estudar?
Eron Falbo: [39:17] Eu fui lá principalmente para ser charlatão, para poder desenvolver técnicas de não fazer nada muito bem, mas impressionar muito as pessoas com os meus talentos subdesenvolvidos. E eu organizei um festival de música. Eu fui, inclusive, nesses festivais de música que eu conhecia a Alessa, coincidentemente, porque ela era de um movimento chamado mod, modernista dos anos 60. Que era a galera que andava de lambreta, tanto que ela tinha o cabelinho pequenininho, não sei se você lembra, que isso é uma questão de moda, né. E eu, fazendo parte dessa parada, organizava os festivais da New Untouchables, que era essa galera que organizava festivais na Alemanha, na Espanha, na Inglaterra.
Alessa Migani: [40:09] Sucesso total. Então, olha só, nessa área também, os meus amigos da faculdade que moravam ali no norte, acima de Camden, eles moravam junto com o Jamiroquai. Então, volta e meia ele estava tocando na casa de algum amigo, e o Motiba estava começando. Então, a gente ia para a Corão e assistia ao Motiba. Então, era muito legal ver as coisas acontecendo ali. Você não quer ir na esquina do Rio de Janeiro? Sabe que a gente vai encontrar pessoas que estão ali.
Eron Falbo: [40:46] Londres realmente é uma cidade viva. Todo mundo fala de Nova York, fala de Paris, qualquer coisa assim. Mas Nova York também tem seus momentos, tem suas cenas. Mas eu morei em Paris também. Paris é uma cidade-museu, é temporadas, as coisas estão fechadas, as pessoas são velhas. Sei lá, o Lambie Tennis Club é onde eu jogo tênis, não tenho mais de 80 anos. E isso é Paris, né? Só que Londres, cara, a coisa tá borbulhando lá, né? Tá emanando... Eu morei em Dalston, né? Na sua época não existia Dalston, era Shoreditch ainda. Na sua época, Shoreditch tava começando, que era o bairro dos jovens artistas. Hipster, né, que na minha época era Big Sneaker, só dos anos 60.
Alessa Migani: [41:43] Mas eu morei em Boston, que é...
Eron Falbo: [41:45] Um povo assim, short. Aí a Vogue Italiana chamou Dawson de The Coolest Place on Earth. Aí eu morava lá em Boston, e tinha o Jimmy Choo, tinha a... Como é que chama? A Amy Winehouse morava em Camden, mas a gente ia direto nos festinhos, a Amy Winehouse com o Pete Doherty, entendeu? Porque na sua época era, sei lá, Ministry of Sound. Na minha época era... É igual, Rafa. Logo antes dela morrer, eu ia em festinha, ela era DJ, sabe?
Alessa Migani: [42:16] É, era que nem...
Eron Falbo: [42:18] É.
Alessa Migani: [42:21] Não, gente, é muito impressionante, né? A gente fica, assim, achando tudo normal, né? Ah, meu amigo, quem é que canta? Ah, quando você vê, ele tá lá, né? Daqui a pouco, com aquele cedrezão estampado.
Eron Falbo: [42:37] Eu fiz faculdade de Music Business na Middlesex University. E eu andava nessa cena musical, tudo mais. Eu também era artista, né? Eu já fui artista em algum momento. E eu, sei lá, ia nas festinhas e tal. Aí eu fiquei amigo de uma galera que era de uma banda, e eu crente que a galera era de mais uma banda. Tinha um milhão de bandas independentes, né? Que eram maravilhosas. E, pô, eram superfãs. Aí virei super amigo de um garoto de uma banda e tal. E me pedia, pô, às vezes... Porque eu tinha emprego como organizador de festival, eu trabalhei como assessor de imprensa, outras coisas. Aí, volta e meia, eu pagava uma cerveja pros caras, tal. Aí eu fui olhar, os caras estavam em segundo lugar do Billboard. Estavam em segundo lugar das paradas, sacou? Tinha Lady Gaga em primeiro lugar, eles estavam em segundo lugar, melhores álbuns. Aí eu, pô, tava me pedindo pra pegar cerveja, que papaga.
Alessa Migani: [43:38] É muito bom. Não, assim, você imagina, a Stella McCartney estudando moda, né, em Saint Martins, quando eu estava fazendo o meu mestrado em design. Pô, Stella McCartney, né, gente? E aí, estava ali do lado, na mesinha do lado, estudando, fazendo BA. É muito engraçado, né, como é que a gente convive assim. Como aqui no Rio, porque essas esquinas de Londres têm essa coisa de que foram crescendo e foram se juntando. Então, cada bairro tem essa preciosidade da esquininha, né? Você vai em Hampstead, é todo inteirinho, tem o parquezinho, tem a pracinha, tem o centrinho. Aí ele cola depois em Angel, que também tem tudo isso ali juntinho. E aí você vai se encantando pelas regiões e pela noite, restaurante de cada lugar. Gente, o que é a gastronomia na Inglaterra, né? As pessoas falam que a comida inglesa é horrível, mas eles sabem fazer as comidas do mundo inteiro como ninguém sabe. Se bobear, tem alguém fazendo feijoada lá melhor do que aqui. É impressionante como é uma mistura de cultura e como se faz tudo muito bem feito lá, né? Eu sou muito fã, eu adoro.
Eron Falbo: [44:53] Aliás, estou te perguntando como você cria suas coleções, a Val e a Ipanema.
Alessa Migani: [45:00] Então, olha só. Como eu faço um trabalho muito autoral, ele não vem de inspirações, de tendência. Eu não fico vendo revista. Talvez muitas coleções tenham saído de viagens, eu gosto muito de viajar. Então, assim, eu fui para a Sardenha há uns quatro anos atrás. Com certeza, a Sardenha virou coleção, com as praias douradas, com as praias azuis, com as praias verdes, com aquele mar, que é uma cartela de cores, com as grutas e com todas as riquezas visuais, estéticas. As coleções, às vezes, acompanham um estado de espírito, como o que a música faz para a gente. Então, eu fiz uma coleção chamada Play, uma pirada de instrumentos. Então, assim, tinha um vestido que era a foto de um microfone. Então, se você estivesse pronto pra cantar, e você canta e encanta. Então, assim, tinha um vestido que era um violão, um corpo de violão, que foi o vestido que eu entrei no final, fazendo corpo de violão. Toda mulher quer ter um corpo de violão. Então, na Alessa, era só vestir um tubinho preto com violão. Tinha o da guitarra, tinha um saxofone, corpo saxofônico, super sensual. As coleções, elas vêm de inspiração. Agora, com uma amiga carioca que eu adoro, Yária Figueiredo, ela é cantora, ela é designer de joias e ela pinta. Então, eu peguei as pinturas dela, a arte dela, desconstruí e fiz as estampas. Então, assim, como essa estampa que eu estou usando aqui, sabe? Porque é um trabalho de arte, você olha e você vê meio que um quadro, a tinta, o volume, o dia da observação, do humor da vida e do amor. Eu acho que é um trabalho como um trabalho de arte. Muitas vezes ele questiona, como a história das calcinhas. Eu fiz uma coleção também que se chama Flora, que agora, para o Dia das Mães, você entrega flores para sua mãe, você veste a sua mãe de flores. Então, é uma coleção com hortênsias, com rosa. Tem uma blusa que é uma rosa única. Então, é como se você estivesse entregando uma rosa e chamando a pessoa que você está presenteando de uma metáfora para uma flor, que é delicada, mas que tem espinhos, enfim. Tem toda uma interatividade que busco quando crio as coleções. Agora, a inspiração pode vir...
Eron Falbo: [47:38] Parece que você tem uma preocupação grande em unir o estético com o metafórico, com o significado, o significado mesmo, que aquela coisa não seja só uma decoração, que seja uma experiência, que seja um efeito. Isso é muito interessante. Eu mesmo vejo a arte muito dessa forma, dessa coisa de... Esse movimento, por isso que eu tenho um pouco de dificuldade com arte moderna, apesar de eu aprender com o tempo, com a maturidade, aprender a absorver um pouquinho, mesmo dentro da arte moderna, do impacto, do efeito, etc. Mas eu tenho um pouquinho de problema que, para mim, a arte é muito aquela coisa lá... Acho que é Aristóteles que diz que a diferença entre poesia e história é que história está falando sobre o particular, sobre o específico, e poesia está falando sobre o universal. Então, quando a gente fala poesia e história, eu diria arte e decoração. A decoração tá aquilo, naquele lugar, lá, e não tá emanando alguma coisa universal de maneira nenhuma. E uma arte que, pra mim, tem valor, de fato. E eu não ponho na minha casa quase nada decorativo. Se você vier aqui algum dia em casa, você vai ver que todas as decorações têm um significado profundo. Tanto que, assim, você fica até sobrecarregado, assim, de... Tipo, vou nem perguntar, porque senão vai rolar um discurso. Porque, assim, realmente tudo que você lê tem alguma coisinha com significado. Então, achei impressionante isso, que eu nunca vi alguém na moda que tenha essa preocupação tão grande com significado.
Alessa Migani: [49:28] É, assim, as pessoas falam muito pra mim assim... Alessa, você sabe que o que você cria, que a sua moda é muito diferente, aí falam como elas, sabe? Aí eu entendo do olhar que as pessoas têm por mim, eu entendo quem eu sou e o que eu faço, sabe? Eu acho que não... Eu não fiz faculdade de moda, sabe? Eu acho que veio muito de outras referências, né? Da fotografia, do design, é um híbrido, né? E é muito emocional, realmente, é parte muito da minha espiritualidade. E eu acho que estou buscando sempre das pessoas. Eu estou me importando com o que eles estão pensando, com o que eles estão percebendo, como eles estão olhando e como eles estão usando o que eu faço. Foi um veículo que eu achei. Poderia ter encontrado ela em branco, mas o que eu encontrei foi um tecido para vestir. É arte para vestir mesmo.
Eron Falbo: [50:42] Tem uma citação da Donatella Versace que é: a moda é fazer você mesmo sonhar e fazer outras pessoas sonharem. Tipo, a moda é sonhar e fazer outras pessoas sonharem, que eu acho bonito isso. Se for, assim, se for uma questão de você se sobressair... Porque também a moda pode ser coisas muito mais... Pode ser usada, tipo, pelo mal, né, vamos dizer, pra poder fazer outras pessoas invejosas, pra poder humilhar, pra poder mostrar seu corpo, pra ter uma lista enorme. Mas, nesse ponto de vista, se for assim, pô, a vida é preto e branco, só que aqui eu tô vestindo, sabe, a vida, o dia a dia, aquela rotina e tal. Eu uso isso muito no meu show, assim, na minha vida, eu não me levo a sério, entendeu? Eu uso a moda como uma brincadeira. Então, eu, pelo menos, eu tento não me levar a sério. Mas eu acho que muita gente acha que eu levo a sério. Mas a ideia é que eu brinco, e também o humor britânico tem muito isso. Tipo assim, você fica sério e tá rindo por dentro, né? E enquanto isso, todo mundo também não está rindo, mas é engraçado e está ótimo.
Alessa Migani: [51:51] Isso é incrível, o humor inglês é um humor muito delicado, muito inteligente, sabe? Acho que isso foi fundamental para eu voltar para o Brasil e ter me transformado, transformou a minha profissão, o meu design em direção de arte, e depois na moda, eu acho que foi fundamental. A propaganda, o olhar inglês, perspicaz, aquela coisa fiada, venenosa do inglês. Tem um olhar super crítico.
Eron Falbo: [52:24] Eu acho que isso que você está fazendo, eu acho que também deveria ser mais enfatizado, porque realmente a gente está vivendo num perigo hoje em dia, que por causa dessas Instagirls e tudo mais, e essa coisa de aparecer e se comparar e tudo mais, a gente sempre sofreu isso, desde 2014 tinha essa coisa de talvez ser superficial demais, mas hoje o perigo é muito maior, porque as pessoas estão se comparando mesmo. Então acho que tem que ter uma resistência, tem que ter mais pessoas como você falando assim, galera, vamos sonhar, vamos inspirar com a moda, vamos crescer, usar aquilo para refletir o sol que a gente tem, tanto em cima da gente quanto dentro da gente, e fazer as pessoas olharem para isso e melhorarem a vida delas e não terem essa outra coisa que está tendo muito no mundo, infelizmente.
Alessa Migani: [53:19] Na Inglaterra eu vi muito o que vi também em Tóquio, no bairro de Shibuya. Aquelas meninas que sabem misturar muito bem as peças, as cores e as modelagens no corpo, e que fazem da moda looks únicos nelas. Você não pode comprar aquilo em lugar nenhum. Ela pegou um blazer no brechó, uma meia da avó, um sapato da Vivian Westwood maravilhoso, e uma florzinha Chanel, digamos, uma camélia. Ela vai misturar e aquilo vai ser tão autêntico que não vai existir mais ninguém igual. Por mais que você vá em uma vitrine e compre, não sei, compre uma peça, você traz a sua identidade para aquela mistura. Em Londres isso acontece muito, é muito rico viver E acho que isso acontece na música, lá em Londres, essa mistura, essa verdade de cada pessoa ali. Você vê a Amy Winehouse. É a verdade dela, cara. O trabalho dela é a verdade dela. Assim como a Vivian Westwood, maravilhosa. O Philip Tracy, que fazia os chapéus, a Isabella Blow, todos os artistas ingleses, eu sempre admirei muito. E na Inglaterra e em Tóquio também, que você anda e se baba com as pessoas vestidas e a delicadeza das japonesas, que já usavam máscara há 10 anos atrás. Mascaradinha já, modernas.
Eron Falbo: [54:57] É incrível.
Alessa Migani: [55:00] Alessa... Pra caramba!
Eron Falbo: [55:01] Não, o que é isso? Eu fico feliz quando falam, pelo menos tanto quanto eu falo, porque eu não pareço tão egocêntrico quanto normalmente eu pareço. Parece uma entrevista mais normal, assim. Quando a pessoa tem essas energias. Você tem uma energia muito vital, muito contagiante. Eu fiquei muito feliz de ter o nosso programa aqui. Está sempre bem-vinda. Eu gostaria de conhecer a casa da Alessa. Espero que você esteja lá, na vitrine.
Alessa Migani: [55:38] Com certeza que vou estar aqui. Olha, eu estou com uma novidade. Em breve, em breve, a gente vai ter uma transformação, uma novidade. Eu comecei um conceito novo. No comecinho da pandemia, a gente teve que parar um pouco, mas eu convido as clientes e as mulheres a vestirem as peças transforma modelos por um dia, mas modelos de verdade. Mulheres que não importa a idade, não importa o corpo, não importa a vontade. São mulheres de verdade, felizes, que a gente vai estar retratando no novo conceito de loja que eu estou fazendo, que é um estúdio. Então você veste e você é retratada. Vai ter sempre um retratista ali para fazer o seu portré. Vai sair com portré. Mais arte impossível, não é, Eron? Então, assim, é uma novidade até que estou contando aí que vai ser uma transformação de galeria de arte, além de arte para vestir, a gente vai fazer das mulheres que usam um quadro, um retrato.
Eron Falbo: [56:41] Pessoas conseguem mais informação sobre isso, em termos de data, horário.
Alessa Migani: [56:46] A gente tá no... Todo dia eu tô começando a fazer vídeos, enfim. Não tá assim esse luxo, que é a sua live, essa produção linda, sua equipe maravilhosa, que manda, faz um design incrível. Mas, enfim, eu tenho a minha live também toda sexta-feira. É o Happy Hour com a Alessa, que eu quero te entrevistar também. Toda sexta e sete. E a gente posta, a gente vai postar as novidades, a gente vai estar convidando através de vídeo. Eu faço vídeo, assim, tipo selfie, conversando. E, assim, é fácil me encontrar, né? Eu estou sempre por aqui pelas ruas, mascarada, mas dá pra ver que sou eu, porque é sempre coloridinha. Às vezes estou de Havaianas aqui e ali, no calçadão, dando um mergulhinho, fazendo uma foto na praia com super cacos, bastante. Não é difícil de me encontrar por aqui? A gente tem a loja... A gente tem... Mais no Leblon e Ipanema, né? Mas assim, onde você pode me encontrar mais facilmente agora é no meu e-commerce, que é o alessa.com.br ou casa.alessa.com.br. É um site, que é a nossa loja online, que tem peças únicas. Isso não existe, né? No mundo online, você tem 100 camisetas. Você posta uma foto e tem 100 camisetas para vender ali. No nosso e-commerce, é uma peça exclusiva. Então, quando você usa, você sabe que é uma peça única que foi feita ali. Então, lá que é mais fácil me encontrar e aqui no Instagram também. Com certeza, o lugar que a gente está mais próximo das clientes hoje em dia, nesse momento aí. Recluso, sem abraço.
Eron Falbo: [58:26] Amor, todos juntos. Todos juntos. Arata, muito obrigado mais uma vez pela sua presença.
Alessa Migani: [58:30] Obrigada, Deron.
Eron Falbo: [58:31] Obrigado por contribuir para a moda de uma maneira positiva, significativa. Foi um prazer te ter aqui.
Alessa Migani: [58:38] Prazer, adorei. Vamos fazer um outro brindezinho? Maravilha. Agradeço o convite. Adorei esse happy hour. Nossa, minha tacinha já tá vazia. Vou fazer um refil aqui, ó. Bom, saúde a todos.
Eron Falbo: [58:54] Fiquem bem. Tudo de bom a todos. Muito obrigado.
Alessa Migani: [58:57] É isso aí, gente. Se cuidem. Um beijo. Boa noite.
Eron Falbo: [59:02] Beijo. Tchau, tchau. Boa noite.
Alessa Migani: [59:03] Tchau, tchau.
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