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Alexandre Borges: [0:00] Ô.
Eron Falbo: [0:06] Alexandre! Conseguimos! Olá, meu querido, tudo bem? Você consegue me ver?
Alexandre Borges: [0:12] Tudo bem, e você?
Eron Falbo: [0:14] Graças a Deus, tudo certo. Mas aí, Alexandre, que bom que você tá aqui. Muito obrigado por aceitar o convite. É uma grande honra ter você aqui comigo, porque você... pra mim, foi um dos primeiros atores que eu vi crescendo, que me fez gostar do cinema brasileiro. Porque eu vi o Copo de Poder, foi o primeiro filme brasileiro que eu falei: pô, vale a pena. Porque eu cresci em escola americana, cresci em casa, etc. E tinha um pouquinho de preconceito, como a gente tinha. Então, pô, é uma honra enorme ter você aqui. Você tá onde no momento?
Alexandre Borges: [0:56] São Paulo. Aqui ó, Paulista, a torrezinha da Gazeta. Aqui ó.
Eron Falbo: [1:04] Não consigo ver muito bem, não. Ah, tô vendo.
Alexandre Borges: [1:06] Aqui ó, a torre, ó. Vamos passear, pra você, São Paulo. Tá no Rio de Janeiro, né?
Eron Falbo: [1:16] Tô no Rio de Janeiro. Então, Alexandre, eu já morei em São Paulo há muito tempo e minha família também é daí. Eu conheço bem aí e tô até com saudade. Aí tá tudo fechado, né? Tá todo mundo trancado, as ruas tão desertas, é isso ou não? Como é que tá aí a situação no momento?
Alexandre Borges: [1:34] Não, olha, eu tô saindo pouco, né? Porque eu também tô isolado, porque eu tô voltando pra Santos. Então, eu fiz o teste ontem de novo, do cotonete, depois do Sérgio Grossman. Aproveitei pra ir no SESI, numa campanha de arrecadação de alimentos pra pessoas carentes, tudo mais. E agora... oi, Raquel, feliz aniversário, querida! Aí eu acabei indo lá no SESI de Guarulhos, e agora eu tô me preocupando com o que tá passando. Então eu tô saindo pouco, mas tá tudo fechado. Ah, quase vermelho aqui. Eu gostei do seu visual aí. Essa cadeira tá bonita. Quem são essas figuras que estão aí atrás? Do lado do tarô.
Eron Falbo: [2:17] Tem Wagner, Bach, aí aqui tem Dom Pedro II, aqui atrás.
Alexandre Borges: [2:24] Que chique!
Eron Falbo: [2:25] Olha!
Alexandre Borges: [2:28] Muito bem!
Eron Falbo: [2:32] Mas me conta mais sobre essa história que, quando você estava falando, eu não estava te ouvindo muito bem. Você está cuidando da sua mãe antes da pandemia, já?
Alexandre Borges: [2:41] É, eu cheguei em Santos no Natal de 2019, para passar o Natal com ela. Fiz uma viagem para Portugal e, quando cheguei, depois de uma viagem assim, ela não estava muito legal já. Eu senti que ela não estava muito bem. Aí eu passei o Natal com ela e depois fui levá-la para o hospital para fazer exames, estudos. Foi em janeiro. Foi diagnosticado um começo de Alzheimer... Ela teve um AVC. Porque uma pessoa que, depois dos 80, 70 anos, tem um AVC ou um ataque cardíaco, ela não tem estômago. Um cara mais jovem como você vai... A presidenta nem sabe, nem sente. Ela teve um fato, tirou um AVC, criou o seu cérebro e juntou com o Alzheimer, e aí começou... A minha mamãe precisa de muito cuidado, né?
Eron Falbo: [3:41] Então, que bom que ela conseguiu, e que você foi cuidar dela. Isso é muito nobre da sua parte, ter voltado para a casa da mãe, que ela tem certeza que foi difícil, ainda mais nessas condições. Isso é uma coisa que eu acho que muitos atores não fariam.
Alexandre Borges: [3:59] Não estranha nada. Por quê?
Eron Falbo: [4:03] É, bom, eu conheço muito... Eu fui artista também, cresci no mundo da arte, e infelizmente dentro do mundo da arte existe muito ego, né? Existe muita gente...
Alexandre Borges: [4:15] Não, você tá enganado. Você tá completamente enganado, bicho.
Eron Falbo: [4:19] É?
Alexandre Borges: [4:20] Claro. Pelo contrário. Pelo contrário.
Eron Falbo: [4:24] Pelo contrário.
Alexandre Borges: [4:24] Peraí, peraí, peraí. Já entendi o que você falou, agora me escuta.
Eron Falbo: [4:27] Tá.
Alexandre Borges: [4:28] É... É só você ver a tradição familiar de atores que passam para o filho, para o neto, que a família é artista. Vou ver: Fernanda Montenegro, Fernanda Torres, Júlia Lemmertz, Lídia Lemmertz, Débora Bloch, Jonas Bloch. Eu podia falar um monte aqui, mesmo no teatro. Pelo contrário, o artista tem um senso familiar, de grupo, de cuidado com as pessoas, com a alma das pessoas. Agora, gente canalha existe em qualquer profissão, bicho. Então, assim, o problema não foi o pai, o filho que não quis ficar com a mãe. Na minha opinião, o problema é que trancaram a gente de uma maneira tão rápida, que quem tinha filho, mulher, papagaio, cachorro, e a mãe estava lá no interior de São Paulo, não teve tempo de se organizar com calma para deixar a sua vida cotidiana, da sua família, núcleo familiar, filhos, para sair da sua cidade, largar tudo, atravessar, às vezes, o país, para ir aonde o seu pai, a sua mãe, o seu avô, a sua avó estavam morando. Porque muitos idosos... A minha mãe, por exemplo, é uma mulher independente, em Santos, que é a cidade dos
Eron Falbo: [5:55] Cotonetes! É, não tem mais jovem.
Alexandre Borges: [5:58] Todo mundo se vira, cara. Então assim, a galera da melhor idade é cheia de energia, bicho. Sabe por quê? Porque eles sabem que a vida daqui a pouco vai acabar. Então o cara, mesmo que tenha doença, ele quer mais é agitar. Ele não quer passar o resto da vida dele olhando pra parede. Agora, se a pessoa é doente, não anda, porque aconteceu... A minha mãe, no Alzheimer, foi decaindo, porque Alzheimer é uma doença degenerativa que vai comprometendo todas as suas funções de ligação com o mundo. Ela vai virando para o mundo da fantasia dela interior. A poesia dela agora é toda dentro dela. Eu tinha uma tia que ficou dormindo, tomando comida pela sonda, durante uns cinco anos. Eu cheguei a passar Natal com todo mundo fazendo roda. Aí, Ruy Garganta, Portugal na área! Laura Cristina, beijos, Laura! Obrigado. Serginho Góes não foi maravilhoso mesmo. Eu cheguei a fazer roda rezando no Natal com a minha tia dormindo, há uns quatro anos. O meu tio, que cuidava dela, foi embora antes. E a minha tia não morria. E eu, depois de seis, sete anos dela dormindo, eu rezava: 'Meu Deus, leva a garganta, pelo amor de Deus. Mais um Natal com ela deitada, sem falar, sem comer, em coma.' Mas alguma coisa está acontecendo na cabeça dela, a gente não sabe. É lógico que esse estado de dormência, de desligamento total, é com o mundo real. Mas alguma coisa está acontecendo lá dentro da cabeça dela, a gente não sabe o que é. Agora, eu intuo que é a infância. Ela tá na infância, porque o Alzheimer... O bonito do Alzheimer, se há alguma coisa de bonito no Alzheimer, é que o idoso ou a idosa volta a ser criança. Eles gostam de boneca, eles gostam de ver as crianças brincando, eles gostam de ouvir músicas antigas, eles gostam de ficar olhando o cachorro. A minha mãe vai pra praia, por isso que eu fico às vezes louco, porque eu não posso ir pra praia com ela. Porque ela vai lá, senta lá, eu fico dando água de coco pra ela, e aí passa um neném pequenininho, parece que sou eu quando eu tinha aquela idade. Então aquela criança que passa, que ela não conhece, ela sai daquele estado de torpor, vê a criança, e aquilo desperta alguma coisa nela. E ela começa a seguir a criança, o que a criança tá fazendo, aí daqui a pouco ela tá preocupada se a criança vai cair, onde é que tá a mãe... Aí ela volta, entendeu? Aí acaba tudo essa movimentação toda, aí ela descansa, aí nós vamos pra casa. Lá ela tá, mas aí chega em casa eu boto o Roberto Carlos, por exemplo, que não tem erro, não tem... Toda idosa... Sua mãe morava aí mesmo, a mãe morava em Rio Claro? Eu morei em Rio Claro um ano. Galera, tem alguém de Rio Claro aí? Morei na avenida 49, 45, sei lá, os números lá. Estudei no Bahia, no Colégio Técnico. A coisa mais linda do Rio Claro é quando, no final da tarde, numa época, tem um revoar de andorinhas, e fica aquele esvoaçar de andorinhas no interior de São Paulo, é maravilhoso. Então, alguma coisa acontece. Voltando à pandemia, aquela pessoa que podia cuidar do idoso não teve tempo quase, e pra se organizar na sua própria vida. Porque às vezes a gente tem que tocar a sua vida, cara. Não dá para a gente ficar só pensando no papai e na mamãe, infelizmente.
Eron Falbo: [9:50] Não dá para a gente... Bom, vamos fazer um brindezinho. Só vou me desculpar com você, que...
Alexandre Borges: [9:54] Eu estou botando o gim na água tônica, porque eu estou um pouco nervoso.
Eron Falbo: [9:58] Aqui falando com você, eu estava só querendo te dar um giro da sua... Abandonado sua vida pra ir cuidar da sua mãe, que é uma coisa muito legal.
Alexandre Borges: [10:10] Não queria falar mal dela, mas foi bem um avanço.
Eron Falbo: [10:12] Desculpa aos atores do Brasil inteiro, e a você também. Na verdade, eu tava só me identificando, porque eu, quando era músico, até os meus 27 anos, eu era músico e aí fiquei fazendo a vida. E até eu parar de ser músico, eu era muito egoísta, eu tive muito problema em cuidar dos meus pais, eu era realmente egocêntrico. Ainda estou, mas era bem mais. Eu tinha dificuldade de olhar para outras pessoas e cuidar. Minha mãe teve câncer e, no hospital, eu tinha dificuldade de servi-la. Eu tinha dificuldade de me mostrar presente, de olhar para as necessidades dela e não para as minhas próprias, e coisa e tal.
Alexandre Borges: [10:59] Então vamos voltar, ó. Primeiro lugar, quem é músico nunca deixa de ser músico. Ah, quando eu era músico, que porra é essa? Quando eu era músico, o quê? Não é mais? Desligou? Esqueceu? Não sabe fazer o dó, ré, mi, fá, sol, lá, si... Nunca sou, porque.
Eron Falbo: [11:17] Sou músico de acordeon.
Alexandre Borges: [11:19] Oh, minha cidade é do coronel Misterioso... Bom, então, nunca vai deixar de ser músico, bicho. E também é o seguinte: quando a gente é jovem, a gente quer ganhar o mundo, cara. A gente nunca sabe do papai e da mamãe mesmo, não, mas até então, eles são jovens. Só que eu tenho 55 anos e a minha mãe tem 82.
Eron Falbo: [11:48] É diferente.
Alexandre Borges: [11:50] Eu também tive momentos na minha vida que eu falava: não, não é possível, eu não aguento mais, eu não vou, não dá. Não dá pra ir pra Santos cuidar dela. Pelo amor de Deus, me ajuda aí. Me dava desespero. Filho único é fogo. Porque eu tinha o meu filho recém-nascido, é o neto dela. Assim como ela é a mãe, eu sou o filho, tenho um neto, tenho meu pai também. O amor que estou tendo para a minha mãe é um amor natural de mãe e filho que sempre se deram bem. Nunca briguei com a minha mãe, nunca fui uma pessoa que tive problemas com a minha mãe. Sempre fiz o que quis e ela teve que aceitar. A partir dos 16, 17 anos, falei: mãe, não vou trabalhar no banco, vou ser ator. Não vou trabalhar na Petrobras, vou ser ator. Não se preocupa, se eu passar fome, eu vou estar feliz, porque é isso que eu quero fazer. Então, deixa eu escolher, confia em mim, e tchau e bênção. Então, eu vou para São Paulo amanhã. Sabe que dia era? Dia das mães. E ela me deu uma liberdade, falou: vai mesmo. Eu tinha 17, quase 18 anos. Eu já namorava com ela desde os 16 quase. Então, o que eu tenho, o que eu estou fazendo hoje por ela, é isso que eu estou querendo te explicar. Eu tive a sorte de já estar com ela quando entrou a pandemia. Se eu estivesse no Rio de Janeiro gravando uma novela, provavelmente, talvez, eu não teria tido tempo de vir para Santos cuidar dela.
Eron Falbo: [13:19] Entendeu?
Alexandre Borges: [13:21] Então, Deus me ajudou e falou: olha, acabou a novela, você pode ficar um período de folga, vai lá ver tua mãe, ficar com ela no Natal, no Réveillon, vai pra casa.
Eron Falbo: [13:30] Eu gosto de você, Alexandre. Uma bondade muito grande. Talvez é isso que eu tô tentando expressar, é que eu sinto de você um carinho, uma bondade, um humanismo muito grande. E assim, é isso que eu tô expressando, dá pra ver que você tem isso, cara. E isso é muito legal, você tá falando, pô, você tá agradecendo a Deus por já estar em casa, pra você poder cuidar da sua mãe, também.
Alexandre Borges: [13:53] Isso é uma... Eu tô ficando velho, cara. Se eu não aprender com a vida, o que que valeu essa vida pra mim? Você acha que eu sempre fui assim? Não. Eu já fui que nem você também. Já tomei meu gim, já quis ser isso e aquilo. Já falei: não, eu não quero ficar cuidando de pai e mãe agora, eu tenho a minha vida pra cuidar. Você tá certíssimo. Então, quando você chegar com 55, na minha idade, e vai chegar, vai longe, a tua mãe já vai ter 30, 20 anos a mais. Meu, se você não é filho único, você pode ter a sorte de ter umas irmãs, porque sempre só vai pelas irmãs, né? As mulher que vai cuidar de tudo, ainda mais se é do pai, né? Mulher assim, filha mulher de pai, é uma paixão enorme, né? Tá do pai. E também é o filho pela mãe, né? Eu acho que tem esse, não é uma regra, mas tem esse clássico. A menina tem o pai como o herói da vida dela, hein? Quem é mãe? Quem é filha aí? Andresa, eita, velho gato. Eu sou o galo da terceira idade, é isso que eu sou. Quando eu chego na rua, vejo mó gatinha, a gatinha está me olhando, eu olho para ela, penso: será que ela está me olhando? Por quê? Aí eu vou lá, ela chega. Oi, Alexandre, tudo bem? Tudo bem, e você? Tudo ótimo. Olha, a minha avó é sua fã, você tira uma foto para ela?
Eron Falbo: [15:17] E como é que é isso para você, esse público? Como é que é essa evolução de... O que é exatamente isso que você está falando? De maturidade, de um artista que foi.
Alexandre Borges: [15:30] Tão renomado como você...
Eron Falbo: [15:33] Você, de lidar com essas diferentes fases de ego e tudo isso. Como é que foi isso?
Alexandre Borges: [15:43] É bacana, porque o ator está sempre em pesquisa. O ator está sempre buscando o que é um humano, o que é a cabeça humana, o artista. O que é a anteninha que tá rolando, o que tem aí de novo que ninguém tá percebendo ainda, mas eu tô sentindo que tem alguma coisa aí, que essa música, essa peça, esse filme vai contracenar, vai falar pra coisas muito importantes de hoje. Então, assim, a vida pro ator é uma vida normal de qualquer ser humano que trabalha em qualquer lugar. Ele tem a cabeça dele, então ele tem o horário, ele tem que bater o ponto lá, o horário, aí ele tem o dentista, aí ele tem que fazer o exame da próstata. Você já faz exame da próstata?
Eron Falbo: [16:23] Acho que eu já fiz, não sei nem o quê. Eu fiz porque eu tinha que tomar anestesia, não lembro qual que era, porque eu tava dormindo.
Alexandre Borges: [16:31] Relaxa, relaxa. É melhor ficar dormindo, né? Nem sempre. Então as coisas vão acontecendo. Viva a arte, é isso aí. Boa noite, Letícia de Souza, e aí, neném. Olha, neném, tá vendo isso? Tá vendo? São fases, são fases. Como qualquer ser humano evolui, a gente tá aqui pra evoluir, a gente é tudo assim. Agora, tem uma coisa que eu acredito muito. Eu comecei a ler, e vou dividir isso com vocês, tá? Então, assim, na religião, a gente tem muito essa coisa do destino, do que foi programado pra gente, o que Deus quer da gente. Acho que isso tudo também é correto, é um pensamento bonito isso, é um pensamento que te eleva para coisas maiores. Mas tem um outro pensamento, que é o pensamento assim: cara, você nasceu, você é uma tela em branco, agora é com você. Como é que você vai pintar esse quadro aí? É contigo. Aí depende de cada um fazer a sua parte pela sua vida, não o que os outros pensam, o que o pai quer, ou se é genética, ou se é assim mesmo. Aí, aquela velha história: 'Ih, o Alexandre?' 'Ah, o Alexandre sempre foi assim, ele não vai mudar, ele nasceu assim, vai morrer assim.' E olha, é difícil mesmo, hein? É difícil. Olha, é esse o papo que a gente escuta das pessoas, que a gente foi assim, será sempre assim, e não pode mudar, né? Então, a gente começa a ter uma coisa de viver pelos outros, de viver pra agradar os outros. Aí pode entrar sim também: agradar uma religião, agradar uma crença, agradar um político, agradar um time de futebol, agradar a namorada, agradar a mãe, agradar o pai, o vizinho, a vizinha, o papagaio, o cachorro. E a nossa vida vai pro saco, velho. Passam-se os anos, quando a gente vê, passou todo mundo e ficou todo mundo numa boa, e quem se ferrou foi você. Você tentou agradar todo mundo, e tá todo mundo bonitinho agora, e você tá na merda.
Eron Falbo: [18:37] Como eu te disse, eu não...
Alexandre Borges: [18:40] Estava agradando a minha mãe, isso era...
Eron Falbo: [18:42] De uma maneira negativa, né? Porque eu acho que...
Alexandre Borges: [18:48] O cara que não trata bem a mãe é um canalha, tá? É, mas não é exatamente isso.
Eron Falbo: [18:55] Eu não tinha ferramentas mentais, entendeu? Eu não tinha maturidade, né?
Alexandre Borges: [19:01] Ela te amamentou, cara. Você saiu dela, é a tua vida. Você tá aí sentado nesse microfone, nessa cadeira vinho, porque a tua mãe te pôs no mundo, cara. Então, assim, seja o que ela fizer depois, não interessa. Você só tá aqui falando comigo por...
Eron Falbo: [19:17] Causa da tua mãe, e depois, assim, eu cresci muito com essa entrega. Depois de um tempo, eu passei... Na faculdade, minha mãe, eu passei um ano e meio morando no hospital, e isso me dificultou muito. Você tá falando: graças a Deus, os escravos santos pra cuidar da minha mãe. Eu acho que isso é um grande privilégio, você poder cuidar de alguém, você tá presente pra cuidar de alguém, você ter as ferramentas mentais pra saber lidar com isso. Então, assim, esse elogio que eu tô te dando é verdadeiro. Também é uma mensagem, porque a gente tem pessoas agora, e vai ter milhares depois, do Spotify, que a gente faça essas mensagens para as pessoas, porque existem dúvidas na vida se a gente deve fazer isso, deve fazer aquilo. E essa mensagem é: devemos cuidar da mãe. Pra mim, é uma coisa bem básica, e vale a pena sempre falar.
Alexandre Borges: [20:27] Agora, ainda se acrescentou mais uma coisa que ninguém esperava: eu posso pegar essa merda de Covid hoje e morrer daqui a uma semana, cara. Antigamente, tu descia aqui e ia comprar pão, a vida é assim. Caiu num buraco, num bueiro, o cara jogou uma pedra não sei das quantas, o carro invadiu a calçada, caiu um raio, a árvore despencou na minha cabeça. Quantas mortes, vamos dizer, toscas, que a gente vê, assim, caraca, como que o cara foi morrer? Um exemplo: Gugu Liberato. A gente estava no começo da pandemia. O cara estava com a família, foi arrumar o ar-condicionado da casa dele, numa boa, devia estar curtindo, tinha acabado de chegar, trabalhou a vida inteira, devia estar vindo de um trabalho também. O cara foi tentar ser um cara que... Um dono de casa, um homem, um chefe de família. E foi lá limpar o ar-condicionado para a mulher e para os filhos. Olha o que aconteceu, olha que absurdo. Tem sentido? Tem sentido isso? Não tem sentido. Então, assim, hoje em dia a gente ainda tem a pandemia. Então, o quê? Vai ficar vivendo pelos outros? Olha, eu vou ler para vocês, eu estou buscando isso na minha vida, eu só estou querendo compartilhar isso. Porque assim, a minha vida está indo para um lugar agora, da minha idade, da minha geração, que é mais 10 anos de vida independente mesmo. Depois, bicho, vai começar um monte de problema, vai acontecer um monte de coisa já. E aí, é só os privilegiados de Copacabana que ficam lá, os velhinhos jogando frescobol e jogando xadrez e dama, os caras com 150 anos jogando frescobol. Eu não acredito. Eu vejo aqueles caras e falo: caraca, velho.
Eron Falbo: [22:15] Quem dera se fosse xadrez. É mais para o Escovão, no máximo.
Alexandre Borges: [22:21] Porra, peteca, qualquer coisa, hein, galera? Hein, Isabel? Olha, dois gatos, eu adoro, elogiando a gente, hein?
Eron Falbo: [22:27] Eu fico com a Bovó. Você é um galã renomado internacionalmente, como galã.
Alexandre Borges: [22:34] Olha, eu vou respondendo às mensagens da Bovó e você vai respondendo às gatinhas, tá bom?
Eron Falbo: [22:40] Ó.
Alexandre Borges: [22:42] Eu vou ler aqui, para a gente encerrar, dois livros. Primeiro eu vou ler O Sarco, que é uma filosofia que eu gosto muito, que é o existencialismo, que ele diz mais ou menos que a existência precede a essência, ou seja, primeiro você existe, e a tua essência você vai buscar por você mesmo, não os outros que vão... Oiê, Maia, Zuron, Ana Zuron, Alice, obrigado, galera, estou adorando essa live. Aqui com o gatão da live aqui, o Eron, o gatão do Instagram, mandem biscoitinhos para ele. Olha o olhar 43 do cara, velho. Olha só o filtro que está dando. Então, Milena... Então, assim, eu vou ler só rapidamente, porque depois eu quero ler mais uma coisa. Saborear a alegria da autenticidade. Ao evitarmos o determinismo, determinado a fazer alguma coisa, estamos agora conscientes que somos feitos para o movimento, para a transformação, tornarmo-nos atores da nossa vida e, assim, estaremos em condições de repensá-la dos pés à cabeça ou de modificar alguns de seus aspectos. Mesmo que a liberdade de fato revele a grande disparidade existente entre os indivíduos, nossa liberdade de escolher permanece sempre intacta, inclusive nas condições mais difíceis. Apesar da pressão dos outros e da sociedade, a escolha está sempre lá, e temos que assumi-la de acordo com a nossa vontade. O objetivo não é que todos nos tornemos heróis. O existencialismo não defende que existir significa ser aventureiro, não. O essencial, para Sartre, é que estejamos de acordo conosco mesmos e felizes. Desse modo, se nossa má-fé geralmente se recobre de amargura, nossa autenticidade na afirmação de nós mesmos é justamente fonte de autossatisfação. Esse é o Sartre. Agora, para a gente... Eu vou ler rapidinho um cara também que eu amo, que é o Leminski. Alô, Curitiba! Quero ir pra aí, hein? Já tenho minhas amigas, pessoas queridas que estão aí. Aí, Claudete, quem que tá de Curitiba aí, galera? Aparece aí, Curitiba. Então, Júlia. E aí, Bianca, Paula. Ó. E esse cara também, olha: mestre de judô, faixa preta, Leminski, pedreira, Curitiba. E ele, aliás, parceiro musical também do Guilherme Arantes. Cinema versus religião. O divertimento e a distração representam um enorme papel nos ritos da igreja. A igreja age por métodos teatrais sobre a vista, o ouvido, o olfato, o incenso, e, através dele, age sobre a imaginação. No homem, a necessidade de espetáculo, de ver e ouvir qualquer coisa de não habitual, e de colorido, qualquer coisa para além do acinzentado cotidiano, é muito grande, é irremovível e persegue desde a infância até a velhice. Para libertar as largas massas desse ritual, dessa religiosidade rotineira, a propaganda anti-religiosa não basta. Embora também seja necessária, às vezes, a sua influência limita-se apenas a uma minoria ideologicamente mais informada. E aqui o pensamento volta-se de novo, naturalmente, para o instrumento mais poderoso, para o ser mais democrático: o cinema. O cinema não carece de uma hierarquia desfestificada, de brocados ostentosos, não. Basta um pano branco para fazer nascer uma espetacularidade muito mais penetrante do que a da igreja. Lemens, quem? Da mesquita ou da sinagoga, mais rica ou mais habituada, e mais habituada às experiências teatrais seculares. Na igreja, apenas se realiza um ato, aliás sempre igual, ao passo que no cinema mostrará... É isso aí. Cinema e religião, cinema e espetáculo, espetáculo e cinema. Agora, pra terminar, tá, Eron? Depois que você termina a sua live, só vou terminar a minha participação, eu vou ler um Camões.
Eron Falbo: [27:27] Peraí, só pra entender: você tá com pressa pra ir embora? Você tá com outro compromisso? Não entendi.
Alexandre Borges: [27:34] Não, é que já são quase oito horas, mas a gente continua depois. Mas ó, Camões, tá? Pra você, pro seu público, pra quem tá assistindo, pras nossas amigas, Júlia. Ai, meu Deus, eu sou tão cerro... Ui, garganta de novo. Estou a Lisboa. Nossa, Lisboa! Eita, não. É Júlia, Credido, Bianca. Oi, Bianca. Vamos lá de Camões, hein? Tá? Na nossa língua portuguesa. Então, vou ler rapidamente. Luís de Camões. A biografia de Luís Vaz de Camões ainda é cheia de lacunas. Sabe-se que ele teria nascido por volta de 1525, mas não há documentos que comprovem a data e o local. Lisboa, Coimbra... Ele estudou em Coimbra, onde deve ter lido os clássicos da antiguidade e os humanistas italianos. Em 1547, embarcou para a África, onde, nas lutas pela conquista de Ceuta, veio a perder o olho direito. Camões tem aquela coisa do olho. Após o regresso, passou a frequentar os salões aristocráticos. Em 1552... Olha, o Brasil em 1500 foi descoberto, ou achado, ou sei lá o quê. Em 1552, numa briga, feriu um funcionário do Paço e foi preso. Sob promessa de juntar-se aos que lutavam no Oriente, é solto e parte para as Índias, em 1553. Sabe, voltou a Lisboa sem dinheiro, mas com o precioso manuscrito de Os Lusíadas, que conseguiu publicar em 1572, dedicado a Dom Sebastião. Luís de Camões. Amor é fogo que arde sem se ver. É ferida que dói e não se sente. É um contentamento descontente. É dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer. É um andar solitário entre a gente. É nunca contentar-se de contente. É um cuidar que ganha em se perder. É querer estar preso por vontade. É servir a quem vence, o vencedor. É ter, com quem nos mata, lealdade. Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade, se tão contrário a si é o mesmo amor? E do amor, para o amor, amar. Para vocês, garotas, para amar. Amar perdidamente, amar só por amar. E além, mas este, aquele, o outro, e toda gente, toda gente, amar, amar, e não amar ninguém. Acordar? Esquecer? Indiferente. Prender ou desprender? É mal? É bem? Quem disse, quem disse que se pode amar alguém durante a vida inteira é porque mente. Há uma primavera em cada vida. É preciso cantá-la assim, florida. Pois se Deus não deu a voz, foi pra cantar. Um dia hei de ser pó, cinza, nada. Que seja a minha noite uma alvorada. Que me saiba perder para me encontrar. Para vocês, meninas!
Eron Falbo: [31:20] Você tinha preparado essas coisas antes para ler? Era o plano? Não entendi por quê...
Alexandre Borges: [31:26] Não, é porque antes da live eu estava lendo aqui, aí eu achei esses livros e aí... Como eu nunca estive...
Eron Falbo: [31:31] No Camões... Já estava nas partes certas, estava muito bonito, muito legal.
Alexandre Borges: [31:36] Assim, né? A gente dá uma organizadinha, né? Não precisa ser tudo no improviso.
Eron Falbo: [31:41] O meu é praticamente tudo no improviso. Não, eu também não. A gente aqui nesse programa faz conversas espontâneas, né? E é o que acontece. Mas essa parte também é espontânea. Você ter preparado esses textos aí...
Alexandre Borges: [31:58] Não, porque... Eu sou ator, né? Então, eu não gosto muito de falar, eu gosto de atuar. E gosto de texto.
Eron Falbo: [32:09] Mas te deixa desconfortável falar uma coisa assim que...
Alexandre Borges: [32:12] Não, mas eu faço o melhor interpretando do que outra coisa. Vamos lá, vamos encerrar então? Tá bom, né?
Eron Falbo: [32:25] Eu não tô entendendo por que você tá falando isso. Eu te ofendi? Eu te ofendi de alguma forma, Alexandre? Mas por que você está querendo encerrar? Se quiser, a gente pode encerrar agora sim.
Alexandre Borges: [32:40] Estou com fome. Daqui a pouco eu quero jantar, só isso.
Eron Falbo: [32:43] Tá bom, então vamos encerrar. Muito obrigado por aceitar o convite, obrigado pela sua presença. Foi muito bom te ter aqui.
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