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Eron Falbo: [0:00] Boa! Muito obrigado. E aí, galera? Como vocês estão? Espero que vocês estejam bem.
Maria Gurjão de Moraes: [0:17] Tudo bem?
Eron Falbo: [0:19] Tudo bem, graças a Deus e você. Antes de mais nada, eu tenho que te pedir desculpa por não te ver antes. Eu não te liguei pra gente se conhecer um pouquinho antes, mas você parece ser uma pessoa muito aberta e tranquila, então dá pra gente entrar frio mesmo na entrevista.
Maria Gurjão de Moraes: [0:41] Olha, você parece ser recomendado por um amigo que eu gosto bastante, que é o Maurício Branco, e toda a sua equipe foi muito gentil, então é sempre um prazer conversar com alguém que é bem educado, e se a gente tem um amigo em comum que já gosta tanto de ti, Está feito.
Eron Falbo: [0:59] Igualmente, Maria. É uma maravilha estar com você aqui. Bom, acho que talvez a primeira coisa que eu queria saber de você é um pouco mais sobre você mesma. Eu li o seu dossiê que a gente fez de pesquisa sobre a sua vida e tudo mais. Eu fiquei curioso um pouco mais sobre você mesma, porque você se dedica tanto para o seu pai, para a memória dele e tudo mais, Aí eu queria saber sobre sua vida um pouco, as diferentes coisas que você gosta, o que você faz. Eu imagino que muita gente deve te perguntar sobre seu pai o tempo todo, então eu queria ser um pouquinho diferente, te perguntar um pouco sobre você, te conhecer um pouco melhor.
Maria Gurjão de Moraes: [1:41] Tá bom, acho bom a sua curiosidade sobre a minha pessoa, porque apesar de Vinícius ser uma figura adorável, amada, um gênio, uma pessoa muito importante na cultura, na diplomacia, esse Gurjão vem de uma mãe também, que era uma pessoa muito interessante. Que viveu uma época maravilhosa no Rio de Janeiro, que tem uma história de vida muito curiosa, uma jornalista que já está falecida, já tem dez anos, mas que eu cresci junto na casa da minha mãe. Então eu sou muito orgulhosa. Na escola, eu era gurjão, eu estudei no Andres, minha mãe estudou lá, meus irmãos estudaram lá, eu estudei quase a minha vida inteira lá. Então, na escola, no jornalismo, no pouco tempo do teatro que eu fiz, as pessoas realmente me chamam como Maria Gurjão até mais, o que é curioso. Eu fiz um pouco para entender um pouco aquela coisa meio mágica. Eu sempre gostei de falar, mas também de lado tímida, era adolescente, aquela idade ali das meninas com 13, 14, 15 anos. E, de alguma maneira, a família da Maria Clara Machado também se cruza com a minha, por parte de primos, por parte de pai. Eu tenho um primo direto, que ele é também da família Machado. Então, são coisas que eu tinha curiosidade, era do lado de casa, e eu achava bom me soltar um pouco. E, apesar de eu ser filha única, eu tenho... Alguns faleceram, mas eu tenho nove irmãos. Então, era muito irmão, eu sou caçula-pecorã de pai muito, de mãe também.
Eron Falbo: [3:26] O Vinícius de Moraes teve nove esposas, não foi isso?
Maria Gurjão de Moraes: [3:32] Casamento mesmo, ele teve um, mas ele viveu nove paixões, nove divisões de vida. E minha mãe também não ficou muito pra trás não, tá, Herói? Minha mãe casou cinco vezes, né? Então, quando ele vai...
Eron Falbo: [3:50] Para o Vinícius ter querido casar com ela, e ainda por ter casado cinco vezes.
Maria Gurjão de Moraes: [3:55] E eles eram amigos desde que ela era adolescente. Inclusive, quando meu avô faleceu, que era diplomata também, minha avó holandesa, minha mãe nasceu aqui, mas foi muito pequena, minha tia nasceu na Holanda, minha mãe só voltou ao Brasil já com 9 anos de idade, quando o vovô Clóvis faleceu, o Gurjão, o papai dançou a balsa de formatura com a minha mãe. Eles já eram amigos há muito tempo. Minha mãe era muito amiga do Ronaldo Bôscoli e da Lila Bôscoli, que foi a segunda mulher de papai, que é mãe de duas irmãs minhas, da Georgiana e da Luciana. É tudo assim. E ao mesmo tempo que eu tinha muitos irmãos, eu era criada sozinha em casa. Então, você tinha muita coisa, mas também... Então, era bom ali pra entender no teatro. Teatro tem essa coisa bacana de que tudo é colaborativo, entendeu? Principalmente na educação que o Tablado dá pros seus alunos, né?
Eron Falbo: [4:50] Eu li na Wikipédia que ele tinha nove casamentos mesmo. Então, tá errado lá, né? Tem que consertar lá.
Maria Gurjão de Moraes: [4:57] Para os dias de hoje, para a gente, são nove casamentos. Mas, assim, você tem que lembrar que o Vinicius nasceu em 2013. Se ele fosse vivo, ele teria quase 108 anos. Então, assim, formalmente, ele casou uma vez só com a Tati. Mas ele era um homem que vivia de paixões, o ciclo das paixões.
Eron Falbo: [5:20] Qual o nome da sua mãe?
Maria Gurjão de Moraes: [5:22] Cristina Gurgião.
Eron Falbo: [5:24] No Wikipédia também está dizendo que a Gilda Matoso foi a última mulher dele. Está certo isso?
Maria Gurjão de Moraes: [5:31] A Gilda foi a última mulher dele.
Eron Falbo: [5:35] E quando ele faleceu, você tinha 10 anos, não é? Você não chegou a passar muito tempo com ele?
Maria Gurjão de Moraes: [5:42] Não, não passei muito tempo com ele, até porque a mamãe era jornalista e ela foi correspondente do Globo. Na época da Revolução dos Cravos, em Portugal, a gente morava lá. Então, eu convivi com ele pouco tempo, com certeza, bem pouco tempo. E peguei mais ele depois. Aí o papai também, na década de 70, ele já era tipo um pop star. Então ele fazia muitos shows, ele viajava muito. Eu tenho memórias de ir ao aeroporto pra encontrar com ele, pra ele me dar um abraço, pra me dar um presente. Ele fazia o circuito universitário, já fazia muitos shows na Europa.
Eron Falbo: [6:19] Irmãos mais velhos, entendeu?
Maria Gurjão de Moraes: [6:21] Estão todos mais velhos, eu sou caçula extemporânea de pai e mãe. Eu tenho uma frase engraçada: um dia eu estava com o Caco, meu primo, e ele falou "o que eles são mesmo?" Daqui a pouco vai descobrir que eu sou avó de mim mesma, porque eu fui tia-avó com 19 anos, estou com 51, fiz agora em março.
Eron Falbo: [6:40] Ah, legal.
Maria Gurjão de Moraes: [6:42] Minha irmã mais velha tinha 80 anos a mais do que eu.
Eron Falbo: [6:44] E os outros irmãos, o que foi feito deles? Eles fizeram música, fizeram poesia? Teve alguém que... Olha, a Susana era uma ótima cineasta.
Maria Gurjão de Moraes: [6:56] Eu já perdi duas irmãs, a Susana e a Luciana. O Pedrinho é um fotógrafo incrível, maravilhoso, com acervo fantástico, muito respeitado na Europa, um figuraça. Já há muitos anos mora no Rio, na Europa e na Bahia. Ele passava à frente dos bons lugares na Bahia, quando era a época de Arraial da Ajuda e Porto Seguro, que não tinha ninguém e ele estava lá. Começou a lotar, ele foi para Maraú. Ele tá lá na Praia dos Algodões botando Beethoven para as galinhas ouvirem. Ó, uma figura maravilhosa, um homem de paixão.
Eron Falbo: [7:29] Eu quero comer esses ovos aí.
Maria Gurjão de Moraes: [7:33] Quando você for a Maraú, se você for ao Prado São Ludonho, chega lá e pergunta pelo Caboclo Pedro Moraes. Figura incrível, muita gente, muita gente boa. A Susana é uma figura maravilhosa, era cineasta. O nosso farol, nossa matriarca, que se foi há pouco tempo também. A Georgiana é psicanalista. E o Vinícius é um mimado. O Vinícius é cuidado pelas mulheres da família até mesmo lá do céu.
Eron Falbo: [8:01] E a Georgiana... Será que era por isso que ele era tão mulherengo? Que ele gostava de ser cuidado?
Maria Gurjão de Moraes: [8:08] Olha, ele era muito dengoso. Ele era uma pessoa apaixonante, cativante. E, ao mesmo tempo, hoje em dia tem muito um imaginário sobre ele que eu não vejo tanto pra quem o conheceu na intimidade, né? Ele era uma pessoa muito...
Eron Falbo: [8:24] Apesar de você ter vivido pouco tempo com ele, obviamente você tem seus irmãos. A primeira pergunta, na verdade: qual a sua principal fonte de informações confiáveis sobre o seu pai? Porque você era muito nova, de fato.
Maria Gurjão de Moraes: [8:41] Sim, a família... Eu sempre botei uma visão dele de uma menina, de uma mariazinha, que era como ele me chamava. Então, a família é sempre a melhor fonte confiável. Quase todo mundo fala de meninos. Quando eu, adulta, ou por causa do trabalho, ou mesmo antes do trabalho, quero buscar informações sobre ele, eu pesquiso as entrevistas onde ele fala. Acho que quando ele fala na primeira pessoa é sempre aquilo que eu me fio mais. Mas ele é muito estudado. Quando você tem uma pessoa que é uma figura pública desse alcance, e você tem biografias e tudo mais, eu sempre gosto de dar um filtro para não ficar perdida.
Eron Falbo: [9:26] Você conversando com familiares, você não descobre um monte de pérolas que ninguém botou em nenhuma biografia? Ou que falaram errado, que entenderam errado. Você falou que tem um monte de mitos sobre ele.
Maria Gurjão de Moraes: [9:41] É isso que eu ia falar para você. Eu acho que é mais honesto, me sinto melhor assim, quando você olha para uma pessoa que está escrevendo uma biografia sobre o Vinícius, que é aquela interpretação da pessoa sobre os fatos. Ela não tem os fatos, ela tem uma interpretação das pessoas. Então, claro que, às vezes, eu tenho informações privilegiadas por ser da família. Quando você lê uma informação, você fala, bem, não é bem assim. Mas como ele é uma figura pública, que cada um faça o discernimento do uso da sua leitura e das suas informações, entendeu?
Eron Falbo: [10:15] É, e também, às vezes, tem muita interpretação. Tipo assim, tem muita politicagem, tem gente que quer vender alguma teoria porque está defendendo alguma... Tipo assim, a situação dele ser expulso da diplomacia em 1968, dois anos antes de nascer, não é isso?
Maria Gurjão de Moraes: [10:36] É a pergunta da minha mãe, inclusive. Ele ficou exilado em Portugal. Outro dia, ele ficou fazendo um projeto, que eu fui gestada num castelo em Óbidos, no quarto número um. Fiquei toda feliz. O quê?
Eron Falbo: [10:52] Óbidos.
Maria Gurjão de Moraes: [10:54] Óbidos é uma cidadezinha lindíssima em Portugal, que tem de um tempo para cá uma feira internacional literária, que é bem bacana. E a gente estava para ir a Óbidos ano passado, quando entrou a pandemia, para lançar um livro justamente sobre o período de Vinícius em Portugal, que coincidiu dele estar casado nessa época com a minha mãe, que contava mesmo do sofrimento dele, de ver os amigos perseguidos, o Chico e a Marieta estavam em Roma, e da tristeza de ter que sair de um país que ele amava muito por questões políticas, por uma luta de liberdade.
Eron Falbo: [11:31] Você acha que isso foi uma injustiça que fizeram com ele, ou você acha que teve... Com certeza! Porque tem uma citação aqui, não estou querendo causar polêmica, mas é só para perguntar do outro lado. Segundo a entrevista publicada pela Veja em 12 de janeiro de 2008, o presidente João Figueiredo explicou as reais causas da demissão do poeta do Itamaraty. Não sei se você já viu isso. A citação do João Figueiredo: ele até disse que muita gente do Itamaraty foi caçada ou por corrupção ou por pederastia. É verdade, mas no caso dele foi por vagabundagem mesmo. Eu era o chefe da agência central do serviço, e recebemos um brasileiro em Montevidéu, ganhando 6 mil dólares por mês, que não aparecia por lá havia três meses. Consultamos o Ministério das Relações Exteriores, que nos confirmou a acusação. Checamos e verificamos que ele não saía dos botequins do Rio de Janeiro, tocando violão, se apresentando por aí, com um copo de uísque do lado, nem pensando em jogar. Mandamos, brado. Eu tô trazendo isso à toa, porque algumas informações aí a gente até conhece.
Maria Gurjão de Moraes: [12:43] É um caminho, desculpa, fácil de pegar um general no final de um período de tempo, querendo chancelar um ato que, na verdade, fazia parte do AI-5. Vinícius já era uma figura muito pública. Ele nem era tão político, mas ele participou da marcha dos 100 mil, contrário àquilo que o governo estava fazendo, com censura de arte, de informação, de tudo. E aí pegou-se uma figura mítica, que é essa que eu disse para você antes, que não corresponde à realidade de quem teve intimidade com ele, e taxam, uma desculpa bem esfarrapada, que os documentos históricos, ao longo do tempo, desmentem, né? Porque o ministro trabalhava muito. Essa coisa do palestrinha, só com um instrumento na mão...
Eron Falbo: [13:29] Não confere com a realidade.
Maria Gurjão de Moraes: [13:32] Não confere com a realidade.
Eron Falbo: [13:33] Trazendo isso à tona, mas para mim, quando tem dois lados, é muito legal ver alguém que está mais íntimo, para poder jogar real. Porque tem muita política, né? Depois a nova república veio e declarou ele embaixador. Aí tem essa coisa, né? Tipo, regime militar versus nova república, aí, pô, são dois lados políticos. E eu não confio em política nenhuma, confio mais em você.
Maria Gurjão de Moraes: [13:59] A família nunca pediu, a não ser em forma legal, via judicial mesmo, essa reparação que vai chegar, porque a justiça no Brasil é muito lenta, né? Então, você que é bem informada, que tá se informando aí, com certeza a informação vai chegar a você, porque com certeza não foi justo, né? E a gente tem a justiça pra dirimir essas questões, né? O Vinícius nunca foi vagabundo, ao contrário, ele trabalhou muito bem em todos os lugares. Você, pensando o que é diplomacia... ele passou no concurso, ele fez tudo certinho. Agora, realmente, num regime onde a liberdade de expressão... Você tá falando de um cara que é um artista, que é um poeta, que tá ali na nata da intelectualidade do país. Ficar calado vai dar ruim, né? Então, chegou ao ouvido dele: acho melhor você se tirar do país, pra que não aconteça alguma coisa ruim com você. E aí ele faz, entre outras coisas, o Pátria Minha, que é das coisas mais lindas que se fala do país, né? Pátria Minha, tão pobrezinha, né?
Eron Falbo: [14:59] Ah, isso eu vi. Muito legal. Maria, eu tenho uma pergunta. Eu tenho a impressão que o Vinícius fumava cachimbo, não?
Maria Gurjão de Moraes: [15:07] Não.
Eron Falbo: [15:08] Não fumava cachimbo?
Maria Gurjão de Moraes: [15:09] Não, não fumava cachimbo.
Eron Falbo: [15:12] Nem eu, pô. Acho que eu tinha visto foto que ele até prepara um cachimbo. Mas o uísque eu preparei, você falou que bebe água, mas como a live é sobre o Vinícius, eu não vou ficar sem o uísque.
Maria Gurjão de Moraes: [15:24] Segunda-feira eu entrei numa dieta. Saravá. Ele dizia que o uísque é o melhor amigo do homem, né? Me coloca essa frase, você conhece?
Eron Falbo: [15:36] Foi querido de tantas pessoas e aos poetas no geral, que hoje em dia a gente vê cada vez menos poetas. E que eles se inspirem no seu pai, em pessoas como seu pai, que se entregaram mesmo para a vida, para o amor pela vida. É uma coisa assim que... Você sabe.
Maria Gurjão de Moraes: [15:55] Que Vinícius foi o primeiro poeta da América Latina, uma bolsa de estudos em Oxford. Então, é isso que eu falo: as pessoas têm uma imagem dele que muitas vezes na intimidade não... Ele era muito estudioso. Eu queria ser...
Eron Falbo: [16:08] Um pagador, mas não era. Você conseguia uma bolsa de estudos médicos.
Maria Gurjão de Moraes: [16:12] Ele era feliz. E ele era questionador. Por exemplo, hoje em dia, não sei, porque a gente está se conhecendo agora, mas, por exemplo, novos hábitos dentro de uma sociedade, o Vinícius foi uma das primeiras pessoas que deixava a casa dele de portas abertas, até vocês. Um pirralho chegando na casa dele para tomar um uísque com ele, as portas estariam abertas para você. Então ele mudou toda uma questão de costumes na sociedade. E os mais conservadores estranham quando vem alguma novidade, mas no final das contas ficava todo mundo feliz, porque isso deu ao país uma possibilidade, uma abertura de parcerias que estão aí no coração das pessoas, com Carlinhos Lira, com o Lobo, com o Manuel Bandeira, com o Walt Disney. Você sabia que Vinícius foi uma das pessoas que ajudou o Walt Disney a conhecer o país e a chegar à figura do Zé Carioca? Orson Welles, sabe? Então, você não achou...
Eron Falbo: [17:15] Os meus favoritos da história. Você era muito nova, né? Você não chegou a conhecer o Orson Welles.
Maria Gurjão de Moraes: [17:22] Não, eu não era nem nascida. Eu sou mais nova que alguns netos.
Eron Falbo: [17:29] É impressionante. E como é que caiu no seu colo essa coisa de cuidar das instituições e do patrimônio?
Maria Gurjão de Moraes: [17:36] Caiu num momento muito difícil e triste, que foi com a morte da Luciana. E a gente tem esse combinado na família porque... Além de ser um pedido dele próprio e de ser um pai muito amado, a verdade é que quando uma família... O Estado não dá conta da cultura. A cultura não é a coisa mais importante dentro do Estado brasileiro, só em outras gerações. Então, quando uma família cuida de um legado, com responsabilidade, trabalhando mesmo, você acaba fazendo o desejo do próprio autor, que é ser lido, que é ele perpassar as gerações, entendeu? Então, você, que não sei quantos anos você tem, mas acho que você é mais longo do que eu... Então, você que é o rapaz... No tempo atual, um jovem está aqui interessado e falando de Vinícius, que se fosse vivo teria 108 anos, por conta da obra dele, sobretudo. Ele é muito estudado nas escolas, a gente faz um trabalho junto com o educativo. Quando a Luciana morreu, a gente já tinha esse combinado, a gente aceitou isso. A Susana, mais velha, foi a primeira, abriu uma firma. As pessoas sempre estavam contra. Quando eu fiz 18 anos, isso em 88, dizem que essa família vai brigar, não sei o quê, não sei o quê lá. Então, nós recebemos os nossos direitos de uma empresa, que é a Veme Cultural, que existe desde 1988. Não sou muito boa em matemática, mas são 33 anos que a empresa existe. E ela já é da ministra.
Eron Falbo: [19:02] Eles cuidam e te dão uma parte dos royalties? Ou eles... Como é que é?
Maria Gurjão de Moraes: [19:08] Eles cuidam, nós cuidamos, a família cuida. Faz os contratos, tem o escritório, profissionais. Sentamos três, quatro, cinco, seis vezes por semana em reunião, isso desde 1988. Isso faz com que a obra tenha, além da sua qualidade, um alcance que só uma boa administração faz. Para você ter uma ideia, Vinícius é editado principalmente pela Companhia das Letras. A gente está falando de um contrato longevo, desde 96 para cá, com Vinícius, e a gente está falando do Poesirum. Ele já vendeu mais de 2.100.000 exemplares no Brasil. Ele é o autor nacional da Companhia das Letras que mais vende. Para você ter uma referência, um sucesso editorial no Brasil é uma tiragem de 3.000 exemplares. Esse livro lindo aqui, A Gente Trabalha, foi totalmente idealizado pela VM Cultural, em parceria com a Companhia das Letras, que é um ótimo parceiro, com pessoas maravilhosas, excelentes curadoras lá dentro. É um livro que, em sete meses, vendeu 12 mil exemplares. Então, a família está constantemente trabalhando, entendeu?
Eron Falbo: [20:24] Mas eu queria entender melhor como é que funciona essa organização, que eu acho que eu me confundi um pouco. Você cedeu os direitos para quem? Você falou isso?
Maria Gurjão de Moraes: [20:34] Cederam o direito para uma empresa, que é a real detentora...
Eron Falbo: [20:39] Vendido?
Maria Gurjão de Moraes: [20:40] Não, não vendemos, cedemos. Porque a empresa é nossa. Cedemos.
Eron Falbo: [20:46] Você deixou eles usarem, mas de graça?
Maria Gurjão de Moraes: [20:50] Não, não, amor, você não tá entendendo. Eles somos nós. Mas eu, por exemplo, Maria, cedia o meu direito de administradora para uma empresa. Isso era a ideia de Suzana, que era muito inteligente. Como manter essa família, que tem idades diferentes, de mães diferentes, em prol de um pedido de um pai que todos nós aceitamos, de cuidar da obra deles?
Eron Falbo: [21:13] A família, assim, todo mundo cedeu os direitos pessoais para os direitos de CNPJ.
Maria Gurjão de Moraes: [21:20] É, todo mundo tem o seu direito moral e patrimonial, isso é óbvio, mas os direitos da administração, por exemplo, se você quiser usar uma poesia de Vinícius, você não vai pedir para a Maria, você vai pedir para a VM Cultural. Isso foi um acerto da Suzana, porque isso fez com que pessoas que não foram criadas na mesma casa ou não tinham a mesma idade, mas se gostavam, se amavam e tinham esse pai como um catalisador, como aquela figura central, passar a trabalhar, ainda que fazendo outras coisas, tá? Todo mundo também tem outras coisas para fazer, mas todo mundo dedica o seu tempo, até que Luciana, em 90, 91, estava morando em Petrópolis e falou: não, não, eu venho para cá, então eu vou ser aquela pessoa que vou estar aqui todos os dias. E com a morte dela, ficou um vazio, e fomos Georgiana e eu para lá. Então a gente tem funcionários, advogados, reuniões financeiras, administrativas, jurídicas, digitais.
Eron Falbo: [22:21] E fora do Brasil também ele é muito amado. Imagino que no Japão ele deve ser muito...
Maria Gurjão de Moraes: [22:31] É uma das edições mais bonitas que eu acho, da peça Orfeu da Conceição. É uma edição japonesa primorosa. Eles são muito bons de trabalhar, inclusive. A pandemia deu uma balançada em tudo, mas a gente, em tese, estaria agora indo para a Broadway para assistir o Orfeu da Conceição, numa produção do Sutton Bird, que é um cara que já fez muito boas produções lá, e também o primeiro autor brasileiro a ser ensinado na Broadway.
Eron Falbo: [23:00] O que você acha que a gente pode fazer aqui no Brasil para revitalizar interesse em poesia?
Maria Gurjão de Moraes: [23:07] Na verdade, essa época de ouro do Brasil é meio difícil nos dias atuais, porque não tem um ambiente tão favorável intelectualmente, de produção, como teve principalmente na metade do século passado, nos primeiros 50 anos. O Brasil não muda. Acho que existe muita gente fazendo poesia. Acho que falta o hábito, o investimento nas escolas, que é um dos trabalhos, um dos pilares do trabalho que a gente faz na VM Cultural, é com o educativo e o interesse da própria elite ler mais.
Eron Falbo: [23:45] No Brasil não vejo muito, mas acho que devia ter... Tipo campeonatos de poesia, uma coisa assim que...
Maria Gurjão de Moraes: [23:54] Mas tem!
Eron Falbo: [23:54] Eu sei que tem, mas eu acho que uma coisa com mais esplendor, que apareça mais, que seja bem vendido, que cheguem as pessoas... Porque eu acho que é tudo um problema de marketing, porque o marketing moderno é feito de... A verdade sobre o mundo moderno é que as pessoas consomem informação com muita rapidez. Então, poesia é um pouco densa para o mundo moderno. Então, tem que ter uma forma de traduzir esse marketing, ou seja, pegar um verso e fazer, ao invés de pegar uma coisa inteira, fazer um vídeo motivacional com os versos, esse tipo de coisa que acho que está faltando no mundo da poesia no geral, dar uma traduzida para o mundo moderno.
Maria Gurjão de Moraes: [24:41] É, eu acho que é uma questão de linguagem. Volto a dizer para você, Vinícius é o autor mais vendido da Companhia das Letras, que é possivelmente a maior editora que o país tem. Então, interesse tem. O que eu acho é que a realidade mudou muito. Então você, por exemplo, o Brasil é um dos finalistas, entra e sai ano, dos concursos internacionais de slam, que é tipo uma poesia da periferia e que é muito forte. Talvez para a gente, que é mais privilegiado, essa linguagem mais confortável não encontre tanto eco no mundo de hoje em dia, a linguagem mudou.
Eron Falbo: [25:17] Mas como você está falando, acho que os grandes poetas, Vinícius, Lord Byron, Shakespeare, os grandes poetas da história continuam sendo vendidos, e muito, e eles têm uma linguagem muito densa, muito culta, com domínio, maestria da língua. Então, eu não acho que é uma questão de não ter público. Eu acho que realmente é uma questão de traduzir para as pessoas poderem ter acesso. Tipo assim, eu fui músico, né? Não sei se o Maurício te falou. Eu fui músico... Bom, fui, né?
Maria Gurjão de Moraes: [25:52] Uma vez músico, eu sempre músico, como assim, ó?
Eron Falbo: [25:56] Mas eu tive uma carreirazinha, né? Eu fiz turnês internacionais, etc. Eu tive uma carreira musical.
Maria Gurjão de Moraes: [26:03] E o que que você fez? O que você cantava? Você fazia composição? O que você fazia?
Eron Falbo: [26:09] Agora que você entrou nesse assunto, eu não ia falar sobre isso. Mas, cara, eu me identifico muito com... Eu comecei como poeta. Eu comecei com 11 anos de idade publicando poesias em revistas. Eu ganhei um campeonato internacional de poesia quando tinha 16 anos. Aí eu comecei a entrar em banda e tudo mais, porque eu não via muita repercussão para a poesia. Quando eu tinha 18 anos, eu li minhas poesias num campeonato, num sarau que era meio público, para o cara que descobriu o James Joyce, que era o velhinho. Na época, era o velhinho de 90 anos. Ele ficou ouvindo a minha poesia, e o garoto do lugar falou: pô, ele nunca para para ouvir isso. Aí eu me senti surpreso.
Maria Gurjão de Moraes: [26:57] Não para não, é. Um poeta é sempre poeta.
Eron Falbo: [27:01] Não, isso você veria se eu fosse direto. Mas a minha questão é como repercutir, entendeu? Em outros... Tanto que o próprio Vinícius, na época dele, já era uma coisa um pouco démodé, a poesia. A música popular já era muito mais em voga. Então, ele entrou assim... A forma que ele achou a fama dele, por exemplo, foi através da música. Não exatamente.
Maria Gurjão de Moraes: [27:30] Desculpa, não posso fazer... O Vinícius já é muito antigo, ganhando muitos prêmios. É isso que estou falando de novo. É que o Vinícius parece uma pessoa tão próxima da gente... Eu vou falar de novo. Se ele fosse vivo, ele teria 108 anos. Então, assim, nos primeiros anos dele, ele é considerado, junto com a Clarice Lispector... A minha filha, por exemplo, está estudando letras na PUC. A Júlia estuda Vinícius, porque ele é da segunda parte do movimento modernista. O Brasil investe muito pouco em literatura. Tudo é um investimento.
Eron Falbo: [28:08] Quando você fala... Então vamos investir mais, é isso que estou falando. Porque também a gente está acostumado a falar... Oi? Acabou o áudio.
Maria Gurjão de Moraes: [28:17] Voltou? Desculpa pela ligação. Eu não sei como funciona quando a ligação cai e entra de novo. Voltou, voltou. Mas você estava falando da questão do marketing, por exemplo. Eu entendo o que você quer dizer, de tornar mais acessível, mais próximo da realidade. Mas para que isso aconteça... Tudo é resultado de boas ou más políticas públicas. Minha mãe falava uma frase que eu achava tão engraçada quando eu era pequena: Maria, escovar os dentes é um ato público. Eu falava, oi? Ela queria dizer o quê? Que é resultado de uma boa política pública, onde a sociedade entendeu que, para você ter uma saúde, uma higiene, você tem que criar esse hábito, entendeu? Eu achava aquilo muito interessante, a maneira como ela colocava.
Eron Falbo: [28:57] Mas política pública pode advir da sociedade, não precisa ser uma coisa que o governo... Porque no Brasil tem esse hábito de que o Estado tem que prover, não sei o quê. Tipo assim, se tiver uma forma de pegar, sei lá, coisinhas do Vinícius, a gente pode até conversar isso, porque eu invisto nisso. A gente pegar e fazer vídeos, já deve ter um monte, mas fazer uma revitalização, alguma.
Maria Gurjão de Moraes: [29:29] Você passou pelas redes sociais oficiais e pelo site oficial de Vinícius. Em 2000, a gente fez uma coisa que repercutiu muito, até porque isso é uma coisa bem pioneira, quase que no mundo. A gente abriu um site onde a gente colocou toda a obra poética dele, produzida por ele em vida, gratuitamente, num site acessível a todos. Se você botar viniciusdemoraes.com.br, vai fazer quase 30 anos que existe o site. E a função era justamente essa. E não impactou em nada na venda de livros, pelos números que eu te dei recentemente. A gente está finalizando agora um projeto, que é com a Casa de Rui Barbosa. A família doou, já começando na década de 80 ainda, todo o acervo, o manuscrito dele. Tem desde o original de Chega de Saudade, Modinha, Garota de Ipanema, até um bilhetinho de amor num papelzinho de pão, que a gente, obviamente, não teria condições nem know-how para cuidar daquilo. Então, a gente doou para um acervo público, que é a Casa de Rui Barbosa, que tem um dos maiores pensadores também lá, tem Drummond, tem Bandeira, enfim, um lugar muito lindo, além de tudo agradável, a casa. E agora a gente está terminando de fazer a digitalização de todo esse processo. O que acho de verdade é que falta não só do poder público, porque concordo contigo, não acho que o Estado tem que fazer tudo, acho que tem que fazer o básico, mas da própria sociedade civil se interessar.
Eron Falbo: [31:03] É isso que eu luto. Porque se a gente ficar batendo na tecla do Estado, acho que você concorda comigo, se a gente ficar insistindo, ligado, a gente vai ficar decepcionado durante os próximos 100 anos. Então, vamos bater em outra tecla, que é a nossa. Vamos organizar as paradas. Eu conheço muito pouco do seu trabalho, então não é nada, entendeu? Estou falando de poesia no geral, estou falando da sua palavra. Então, eu acho que nós... É tipo assim, você... Eu sou poeta desde que nasci, praticamente. Nasci poeta, é uma das coisas que eu mais adoro no mundo, é poesia. E eu adoraria ver mais disso, e eu adoraria ver pessoas... Porque acho que é uma cura. Acho que poesia é uma coisa que cala a boca das pessoas. Um bom poema meio que tira certas frustrações, tira certas preocupações, te deixa num estado assim de... É assim, a gente tem a Bíblia, por exemplo. A Bíblia é uma obra poética, o que levou, o que se transformou em religiões, o que hoje é responsável por várias caridades. Claro que eu não estou fazendo uma apologia à religião, mas religião civilizou o mundo em muitas maneiras, sabe, tem lados ruins e lados bons, mas a verdade é que muita gente do mundo passou a acreditar nessas coisas, a se dedicar a essas coisas, pelo valor poético. Essa é a verdade, porque se fosse uma coisa em prosa...
Maria Gurjão de Moraes: [32:45] Eu concordo, mas digo a mesma coisa que você está dizendo de uma outra maneira, até porque já me fiz muito essa pergunta, e já me fizeram milhares de vezes essa pergunta. Até agora, para a Eloísa Pinheiro, eu também respondi a mesma pergunta, num programa que foi agora ao ar, sábado. Qual é a função da poesia? Toda profissão, todo produto tem uma função. O médico, o advogado, o gari, o jurista, a professora. O meu entendimento, que parece um pouco com o que você está dizendo, é que a função da poesia é assim: as pessoas, às vezes, não querem sentir angústia. Elas não têm o tempo, ou a vocação. Então, para você dar conta da angústia, do tamanho da sensibilidade de uma alma, aí entra a arte, aí entra a música, aí entra a poesia, entendeu? Porque é isso que o poeta faz. Ele pega um sentimento que é comum a todos, sente aquilo profundamente e transforma aquele verso que o outro, ao ler, aquilo vai ajudar ele na vida dele, nos questionamentos dele, nos sentimentos dele. A única coisa da Bíblia... Eu sou bem religiosa, sou católica, tá? A única coisa da Bíblia que eu discordo de você é que a poesia tem um formato. Então, uma prosa poética não tem a formatação acadêmica de uma poesia. Então, assim, eu não vejo... Nesse sentido, a poesia...
Eron Falbo: [34:07] Eu acho que a Bíblia...
Maria Gurjão de Moraes: [34:08] Ela dá muitos equipamentos, né? Ela também ajuda as pessoas a lidarem com...
Eron Falbo: [34:14] A Bíblia é original em hebraico? Se você pegar, sei lá, a Bélata...
Maria Gurjão de Moraes: [34:18] Eu nunca li, não. Em hebraico, eu nunca li.
Eron Falbo: [34:23] Eu estudo hebraico e eu leio no original em hebraico. E é poesia, entendeu? Tipo, a coisa tem métrica, tem guematria. Guematria é correspondência numérica. Tipo assim, é uma poesia até de um nível assim que a gente nem existe mais. E as coisas são tão perfeitas que os números batem, né, de um verso com o outro, tipo, os números da correspondência da letra. É porque no cristianismo isso não é tão conhecido. Porque o cristianismo já adotou a Bíblia através do grego, e no grego já não tinha mais esses artifícios. Não sei se vocês sabem, mas a Bíblia, só esse Papa agora, o Papa Francisco, que foi o primeiro a declarar papalmente, na doutrina papal, que o original da Bíblia é em hebraico. Até então, pela doutrina da Igreja Católica, a Septuaginta era a fonte original da Bíblia, que é em grego, em grego coiné, em grego antigo.
Maria Gurjão de Moraes: [35:30] Falando do Papa Francisco, que eu gosto demais dele, gosto imenso dele, como dizem os portugueses, ele citou Vinícius na encíclica, né? Ele citou Vinícius numa encíclica ano passado. Esse papo é de muita gente boa, né? Mas não, eu nunca li. Eu li, olha o meu pensamento. Eu li ainda muito jovem. E olha o meu raciocínio de criança, muito jovenzinha ainda. Falei, eu vou ler o Antigo Testamento justamente pra chegar mais perto daquilo que pode ser religioso. Porque como todo livro é editado, né? Eu acho que isso fala um pouco do que você tá dizendo. As edições se perdem. Eu nunca tive esse olhar poético sobre a Bíblia porque eu nunca li ela em hebraico.
Eron Falbo: [36:10] É extremamente poético. E é lindíssimo, assim, fazer esse estudo poético da Bíblia. Na verdade, você olha pra Bíblia como... Eu acho que nós, hoje em dia, olhamos para a Bíblia muito como se fosse até um texto histórico. É até estranho, porque quando você estuda em hebraico, é óbvio que é mitologia, é alegórico, é analógico. São analogias universais.
Maria Gurjão de Moraes: [36:42] São ensinamentos, né? São ensinamentos. Eu tenho alguns grandes amigos que são judeus, e eu me lembro também da primeira vez que fui numa religião, num rito judaico. Mas eles são os avós dos católicos, até porque os salmos são parecidos. Só que, realmente, de uma maneira mais antiga. Eu me lembro do meu espanto e da alegria, ao mesmo tempo, porque, de pensar assim, eu falei, nossa, mas esse Salmo 91, que eu gosto tanto, é muito igual ao que eles estão dizendo. Tem um rito, assim, que eu acho mais bonito, sabe? Eu acho que acaba que aproxima mais o fiel, digamos assim, da própria autoridade, digamos, dentro de uma igreja, né? Eu acho que... cuida melhor do seu rebanho, se é que eu posso falar assim sinceramente.
Eron Falbo: [37:38] Tanto conteúdo, acho que você se obscurece demais. Porque você não fala de você. A gente fez o dossiê de você, mas você tem tanta coisa legal. Eu sei, seu pai é incrível. Na verdade, vamos pegar esse gancho e ir pra uma coisa que acho que você pode responder. Poucas pessoas podem responder isso. Você é uma das pessoas desse mundo que pode responder. Quero! Como que é essa coisa de você ter um... Porque assim, tem gente que é famosa, tipo... Sei lá, Britney Spears. Mas tem gente que é lendária, que é um mito. E o Vinícius de Moraes, no Brasil, é um mito. Mesmo durante a vida dele, já era um mito. Então, você ser filha de alguém assim, como é que é essa pressão? Pra você... Como é que você sai da sombra, você pensa sobre isso? Como é que foi sua vida crescendo? Ter as suas próprias conquistas, esse tipo de coisa.
Maria Gurjão de Moraes: [38:38] Ah, tem minhas próprias conquistas, a gente foi criado... Assim, na verdade, é isso que marca a diferença de década a década, na passagem do tempo. Então, eu posso falar dos últimos 50 anos, né? A gente não foi criado nem por pai, nem por mãe. Olha que eu cresci no meio das pessoas mais interessantes que esse país já tem. De qualquer área que você me diga, eu vou estar lá. Da política, à cultura, entendeu? Ao samba. Enfim, eu realmente, nesse sentido, fui uma pessoa muito privilegiada. Mas a gente não foi criado pra se sentir melhor do que ninguém. E nem que ele era uma pessoa melhor do que os outros, ele mesmo era uma pessoa muito respeitosa em relação ao que cada um podia oferecer. Uma das coisas mais lindas que eu acho do meu pai até hoje é isso, ele tinha um respeito pelo ser humano. Que já era rara quando eu era pequena, hoje em dia está cada vez mais rara. Então, se ele conhecesse você, ou se ele conhecesse uma pessoa muito simplória, ele sempre tinha uma maneira muito respeitosa e de consideração para com o outro, onde todo mundo pode oferecer alguma coisa a ele, porque era uma pessoa muito observadora. Então, a gente não teve essa criação. Minha mãe era uma holandesa muito rígida na criação, entendeu? Ela nasceu aqui, mas, tadinha, ela nasceu porque o vovô era diplomata e conheceu a vovó em Haia, quando ele servia lá. E nasceu. Tinha a Silvinha, que era mais velha que a mamãe, e ficou grávida. Cismou que era um menino. Cismou que o filho tinha que nascer no Brasil. Então, tadinha, a bichinha veio e nasceu. Com 15 dias, foi para a Holanda, que estava no meio de uma guerra. Porque a cidade da gente, que é Rotterdam, teve um dos maiores bombardeios na Segunda Grande Guerra. Minha mãe estava lá.
Eron Falbo: [40:21] Minha família também é da Holanda, por exemplo. Meu bisavô é da Holanda, de Amsterdã.
Maria Gurjão de Moraes: [40:27] Não, nós somos de Rotterdam, Glasdorf-Hampen. Entendeu? Então, assim, a gente não foi criada para se achar especial. O que é uma adulta mais madura... Quando você é criança, não pensa nessas coisas, né? O que eu entendi no tamanho do privilégio, da amorosidade, da afetividade, do grau da intelectualidade, de uma educação primorosa, tanto.
Eron Falbo: [40:50] No trato do outro... Você foi jornalista há um tempo, não?
Maria Gurjão de Moraes: [40:56] Trabalhei no Jornal do Brasil um pouco.
Eron Falbo: [40:58] Mas você não sentiu uma pressão, assim, de... Ah, sim! Ah, eu sou filha do Ministro Moraes, eu sou filha do Ministro dos Lábios, esperando ter uma expectativa de generalidade.
Maria Gurjão de Moraes: [41:11] É, as pessoas ou te superestimam ou te subestimam. Se você promete uma errar, mas a filha do Ministro Moraes falou isso, escreveu isso, se você acerta, as pessoas têm uma tendência: ah, mas olha que facilidade, ela ia ser dentro do início de Moraes. Mas a minha mãe, nesse sentido, foi muito boa. Minha mãe era uma leonina poderosa, entendeu? E que cultivou na gente uma boa estima. Essa que é a verdade. Então, assim, de você procurar muita verdade. Quando você tiver abaixo, que você não alcançou alguma coisa, que você receba crítica. E quando você fez alguma coisa que for bem feita, que você se sinta seguro para dizer dos seus méritos também, entendeu? Eu nunca tive essa sensação de querer ser imensa. O que eu acho lindo, por exemplo, a Maria Luísa Jobim, que é a filha e a caça do Tom, por exemplo, ela é música. Eu acho muito corajoso. Você pega o Bena Lobo, que é filho do Edu Lobo, que é um maestro também, como foi o Tom, e vai...
Eron Falbo: [42:10] Os filhos do Tom, do Vinícius e, sei lá, do Toquinho... Vocês se falam? Tem uma comunidadezinha? Tem um grupo de WhatsApp?
Maria Gurjão de Moraes: [42:21] Uma das histórias mais engraçadas da minha vida, que quando eu vou para as escolas, eu adoro, porque eu ficava só visitando estudantes, porque eu acho que a educação é a saída para tudo na vida, entendeu? Então, acho que o grande investimento que a gente tem que fazer na vida é na educação. Eu, com essa história de ter muitos filhos, e morei fora, e o papai viajava, então, quando eu chegava à casa dele, que era ali na Frederico Weyer, na Gávea, ele falava: Suzana, minha filha. Tedrinho, meu filho. E Toquinho estava sempre lá: Toquinho, meu filho, Toquinho. Aí eu fui morar em Portugal, voltei e fiz uma redaçãozinha para entrar na escola, que a escola entregava no final do ano letivo, com seus trabalhos, seus desenhos. Eu tinha quase...
Eron Falbo: [43:03] A gente tem uma redação da filha do Vinícius de Moraes, quero ler isso aí.
Maria Gurjão de Moraes: [43:06] É, era coisa simples, imagina... Tinha seis pra sete anos. Aí, daqui a pouco, tá mamãe às gargalhadas na sala: Mari... E eu sou super distraída, os Moraes são muito distraídos, né? Maria, vem aqui, minha filha. Pra onde que você tirou que Toquinho é seu irmão? O Toquinho não é seu irmão. Eu falei: como não? Se eu chego na casa do papai e ele fala Toquinho, meu filho, Pedrinho, meu filho... Ou seja, na hora de escrever aquele tanto de irmãos, que eram nove irmãos que eu tinha, eu incluí. Então, até os sete anos de idade, eu achava que o Toquinho era meu irmão. De verdade! A gente, assim, eu conheço menos, mas toda essa turma da Bossa Nova se dá muito bem. Eu fiquei amiga do Carlinhos Lyra, eu gosto muito da mulher dele, ele vem aqui, a gente janta, a gente ri, a gente canta.
Eron Falbo: [43:55] Eu adoraria entrevistar o Carlinhos, eu adoro a música dele.
Maria Gurjão de Moraes: [44:00] Eu posso passar o contato da Magda. Ele é uma figura adorável, ótimo de palco, né?
Eron Falbo: [44:04] Agradeço muito.
Maria Gurjão de Moraes: [44:06] O compositor também.
Eron Falbo: [44:07] Pode fazer uma pergunta um pouco mais polêmica?
Maria Gurjão de Moraes: [44:10] Pode.
Eron Falbo: [44:12] É porque a gente vive num mundo um pouco diferente do mundo do Vinícius Moraes, que é esse mundo do cancelamento e tudo mais. Você acha que o seu pai seria um pouco cancelado no mundo hoje por causa da liberdade que ele tomava com as palavras? Porque ele já foi considerado em alguns lugares como machista, né?
Maria Gurjão de Moraes: [44:35] Olha, eu sou muito amiga de Tereza Cristina, que foi a primeira vez que eu vi isso num jornal. Eu não vou dizer que é super confortável, porque, por exemplo, eu acho que o que falta hoje em dia muito é realmente a informação, a educação e a cultura mesmo. As pessoas falam muito sem se aprofundar. Então, eu acho que botar uma pessoa que nasceu em 1913 fora do contexto da época dele... Agora, a gente tem uma posição, que é minha, dos meus sobrinhos, dos meus irmãos, que a gente chegou num ponto onde, quando o outro grita, é porque ele tá muito oprimido. Então não cabe a gente agora um lugar de fala, cabe um lugar de escuta. Então, quando ela diz que ele era machista, ele era machista, somos uma sociedade ainda machista, onde a cada três minutos uma mulher é assassinada no país. Então, eu acho a cultura do cancelamento um exagero necessário. Eu espero que isso, depois, ele se assente melhor e que as pessoas comecem...
Eron Falbo: [45:37] A colocar... de vista, eu achei muito bonito.
Maria Gurjão de Moraes: [45:40] Dentro do contexto, entendeu? Você falar... O que, na verdade, eu fiquei mais mexida é que no Centenário de Papai, que foi em 2013, o Rael, que é um rapper que eu amo de paixão, que é um bom poeta, aliás, paulista...
Eron Falbo: [45:55] Eu sou uma pessoa tão aberta, tão culta.
Maria Gurjão de Moraes: [45:59] O Rael vem de uma periferia muito barra pesada de São Paulo. E, claro, ele foi fazer música, a mãe ficava preocupada. A mãe dele, quando saía, tinha que deixar os meninos. Ele é irmão do Fióti... Não, o Fióti é irmão do Emicida. Eles não podiam sair de casa, entendeu? Então era um irmão de oito anos que morreu, de uns quatro anos, por conta da violência. E ele diz que Vinícius ajudou muito ele a se transformar na pessoa que ele é e encarar a música. E quando a gente foi fazer o centenário, que ele tava fazendo um show só cantando músicas de Vinícius... Achei muito bom o olhar de uma pegada mais de reggae, bem diferentes os arranjos, sabe? E a gente foi lá na redação do Globo para fazer uma matéria. Tem uma frase do Vinícius, que é muito conhecida, que ele diz no Samba da Bênção: eu sou o branco mais preto do país. Papai dizia que abaixo de Deus tinha Pixinguinha. Então ele era um cara, sim, branco, da Zona Sul, que ia na Casa da Tia Ciata, que foi a segunda pessoa a colocar um elenco de negros no teatro municipal. Então, quando ele diz que abaixo de Deus é Pixinguinha, porque ele achava aquilo o melhor que tinha na vida. Tentar achar ele, por exemplo, de racista, porque não podia falar mais a frase. A moça lá, minha curadora, Jonés Clondal, não diz que ele é o branco mais preto do país. Falei: mas que mal há nisso?
Eron Falbo: [47:20] Todo mundo acha que estou tentando me vestir como o Prince, mas, na verdade, estou tentando me vestir como os negros dos anos 70, vestir de terno completo.
Maria Gurjão de Moraes: [47:29] Quando meu pai era aquele vagabundo que trabalhava no Itamaraty, que foi trabalhar em Los Angeles, tem um livro muito interessante que você ia amar ler. Se eu conseguir na venda, mando para você, que não sei se ainda tem lá, que é o Jazz Co, um livro feito pelo Canal Ferraz, que é um dos grandes curadores da obra de Vinícius, um dos grandes conhecedores da obra de Vinícius. E ele diz que Vinícius era o único cara que entrava para assistir os shows de jazz e blues nos Estados Unidos, isso a gente está falando de 45, mais ou menos 46, Suzana pequena, ele branco, entrando com uma coberta, com uma criança de 5, 6 anos, que não tinha por que deixar o filho, e amado por todos os jazzistas, entendeu? Então, é claro que tem questões, mas acho que a principal questão no presente, no hoje, é você ouvir o grito do outro, por anos reprimido, oprimido.
Eron Falbo: [48:27] Eu sou, no geral, contra a cultura do cancelamento, mas não é porque eu sou contra, agora eu estou mudando por causa do que você disse, estou aprendendo com você. Eu sou a favor da livre expressão. Eu acho que a livre expressão é essencial para o mundo. Até eu, como judeu, não acho que deveria reprimir as pessoas que falam bem do nazismo, porque, cara, isso é uma coisa que...
Maria Gurjão de Moraes: [48:56] Minha família não tinha sangue judeu. Olha que absurdo. Tem uma prima minha que foi casar com um oficial do OSS. Eles fizeram uma investigação só pra garantir que não tinha uma gota de sangue judeu. E mesmo assim...
Eron Falbo: [49:10] O que eu tô falando é o seguinte: no momento que você reprime uma fala de alguém, essa repressão vai pra debaixo do tapete e vira um monstro. Eu acredito muito nisso, acho que as coisas têm que ser faladas, as coisas têm que ser trazidas às claras para poderem ser discutidas, amenizadas e desenvolvidas.
Maria Gurjão de Moraes: [49:35] As coisas não podem ser esquecidas. Acho que o que confunde um pouco a cabeça das pessoas hoje em dia é que, ao cancelar, você tem que tirar o passado. O passado não se apaga, gente. Ele está aí para a gente aprender. Acho que os novos estudiosos têm que observar e contextualizar as coisas. Uma pessoa que faz uma apologia ao nazismo tem que saber que está incorrendo em um crime. Ela tem que entender por que isso é crime. Você não vai tirar o nazismo da história. Não tem como fazer, você não apaga a nossa história.
Eron Falbo: [50:06] A gente está acabando o nosso horário, infelizmente, Maria. A gente tem um papo muito gostoso, tem um milhão de coisas aqui que a gente ainda não desenvolveu. Um dia eu vou te convidar de novo, eu quero saber sobre a participação do seu pai no movimento integralista, que para mim é super curioso, porque depois ele virou um boêmio totalmente contrário.
Maria Gurjão de Moraes: [50:30] Rapidinho: ele, como todo jovenzinho, também com suas ideologias, um pouco burguês, muito jovem, ele tinha... não sei explicar muito mais do que isso, mas ele tem um grande intelectual, que acho que é francês, que leva ele para uma viagem para o Nordeste e ele vê a miséria. Quando ele vê a miséria das pessoas, ele rapidamente deixa de ser integralista.
Eron Falbo: [50:52] Que bom, que legal. Eu também já fui integralista durante alguns meses. Então, entendo. Então, outras coisas que eu queria saber sobre as parcerias musicais, sobre uma esposa fase mística dele, que ele teve, sobre a época como diplomata, de fato, que poucas pessoas falam. E... Oi?
Maria Gurjão de Moraes: [51:16] Esse livro, se eu conseguir um exemplar, eu vou pegar com a sua produção, vou te mandar, porque acho que você vai gostar muito, do Jazz Go. Bem que se sabe que você era bom de papo. E realmente, uma hora, para quem está se conhecendo agora, concordando ou discordando, o importante é que a gente está dialogando. E isso é uma coisa muito bacana, que eu acho que a internet e o meio digital abrem para vários outros pensamentos. Eu acho que tudo pode, desde que seja feito de uma maneira educada e respeitosa.
Eron Falbo: [51:44] Maria, eu aprendi muito com você, sinceramente, coração. Você é uma pessoa assim... Porque, às vezes, as pessoas não conhecem, vamos dizer, o fruto da árvore, que você é o fruto da árvore do Vinícius. Muitas pessoas querem conhecer pelos mesmos métodos, ou seja, querem ler uma poesia sua e comparar com o Vinícius de Moraes. Só que eu estou reconhecendo o Vinícius de Moraes em você pela sua grandeza pessoal, pelo seu coração, pela sua entrega à humanidade. Dá pra realmente sentir isso de você. E isso é uma coisa muito bonita. Dá pra sentir que você é uma pessoa de grandeza. Eu acho que é uma coisa que deveria ser explorada mais. Então, assim, vamos continuar nos conversando, se Deus quiser. A gente... Claro.
Maria Gurjão de Moraes: [52:37] Não para de escrever, não. Continue escrevendo suas poesias.
Eron Falbo: [52:43] Obrigado.
Maria Gurjão de Moraes: [52:44] O mundo precisa de sensibilidade. O mundo precisa ser sensível. Muito obrigado.
Eron Falbo: [52:48] Vou ficar nesse tom aí do suposto machismo, que eu não concordo com isso, porque eu também sou acusado de machismo.
Maria Gurjão de Moraes: [52:56] Tem pouco, tem sim, como não?
Eron Falbo: [52:58] Mas é um machismo dele. Eu acho que a acusação é muito maior do que... Tipo, a realidade é muito mais sutil e muito mais bela do que, às vezes, o que parece. Desculpe minhas feias, mas a beleza é essencial. Eu não acho que ele quis dizer que o Vinícius falou, desculpe minhas feias, mas a beleza é essencial. Eu acho que ele quis dizer uma coisa especial, que é importante as mulheres serem gostosas. Eu acho que ele tá falando a beleza, como ele fez um trocadilho, tipo Oscar Wilde, toda hora.
Maria Gurjão de Moraes: [53:33] Libriano, poeta. E a poesia, ela vem muito, como você disse, também dos gregos, da questão da estética.
Eron Falbo: [53:41] Porque a beleza é a coisa grega, né? A beleza não é a beleza da bunda.
Maria Gurjão de Moraes: [53:47] Hoje em dia, a gente também não pode dizer, já que a vida dele foi meio que interrompida, o que ele estaria dizendo para essas mulheres de hoje em dia, que estão batalhando para se sentirem belas, se estiverem cheias, se tiverem vitiligo, se o cabelo for curto, se o cabelo for longo. Ele, com certeza, se tivesse acompanhado a passagem do tempo, ele estaria com essas mulheres em volta dele. Porque as pessoas que gravam Vinícius, Mariana...
Eron Falbo: [54:14] Ele abraçava, ele era sensível ao sofrimento.
Maria Gurjão de Moraes: [54:20] Ele abriu muitas portas para as mulheres na época dele, entendeu? Então, acho que é isso que eu...
Eron Falbo: [54:30] Digo, é machista entre aspas. É machista no sentido de que a geração era machista, e com uma pessoa sedutora, uma pessoa mulherenga, fala de uma maneira que parece machista. Mas machista mesmo é alguém que acredita em subjugar as mulheres, acredita em tirar liberdade das mulheres, em maltratar as mulheres. Isso eu vejo, querido.
Maria Gurjão de Moraes: [54:55] Mas é muito difícil, é isso que eu falei pra você. Infelizmente, em 2021, a gente ainda tem muitos casos. Se você pensar que a mulher só teve direito ao voto, em que ano? A se divorciar em 1977. Como as questões salariais ainda não são equiparadas. O que eu acho é que isso é bom, porque é uma discussão fundamental pra que a gente possa seguir melhor como sociedade. Não dá mais para, como você falou, varrer as questões que são desconfortáveis para debaixo do tapete. Então, o momento de colocar as coisas às claras é agora. E aí é tudo muito efervescente, muito potente, o grito é muito alto. Então, vamos ouvir o que a galera está gritando, para que a gente possa, no futuro, ter um...
Eron Falbo: [55:39] Eu vou aprender com isso e, por causa de você, eu vou ser mais sensível a essa agenda, a essa preocupação. E para terminar, depois eu te agradeço e tudo mais. Eu queria ler o Soneto de Fidelidade, que é uma coisa que eu me identifico. Eu me identifico com vocês, vou te dar os meus comentários. É uma declamação: 'De tudo, ao meu amor serei atento, antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto, que mesmo em face do maior encanto, dele se encante mais meu pensamento. Quero vivê-lo em cada vão momento, em seu louvor hei de espalhar meu canto, e rir meu riso, e derramar meu pranto, ao seu pesar ou seu contentamento. E assim, quando mais tarde me procure quem sabe a morte, angústia de quem vive, quem sabe a solidão, fim de quem ama, eu possa me dizer do amor que tive, que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.' Aí o meu comentário sobre isso é que não sei por que isso é conhecido como um grande poema de amor, porque pra mim...
Maria Gurjão de Moraes: [56:58] É o poema mais popular, quase o último, com certeza, sabia? Se você der uma busca no Google, vai aparecer nos cinco primeiros, vai aparecer o Soneto de Fidelidade. Ele era um grande sonetista, ele estudou muito pra escrever soneto. Nessa época em que ele ficou em Oxford, ele teve que voltar porque estourou a guerra, né?
Eron Falbo: [57:16] A minha interpretação é que ele está sendo irônico dando o nome de Soneto de Fidelidade, porque aquilo dá uns indícios de que, na verdade, ele está falando sobre o amor espontâneo da paixão, e durante aquele momento, que não seja imortal, posto que é chama, uma paixão.
Maria Gurjão de Moraes: [57:44] Que.
Eron Falbo: [57:44] A gente seja totalmente entregue àquele amor.
Maria Gurjão de Moraes: [57:47] É verdadeiro. O Vinícius era uma pessoa de muita verdade. Por isso que ele é considerado poeta da paixão. Diz a ciência que a paixão tem um tempo químico, neuroquímico, e que depois disso você vai para um amor que já é de outro tipo. Então ele era um poeta da paixão. Quando ele diz fiel, é ao seu próprio instante, aquele momento em que realmente você está fiel à paixão, e não a uma convenção social. Eu vejo um pouco isso por aí.
Eron Falbo: [58:18] Eu acho que muita gente hoje em dia é mais apaixonada, ou é mais dedicada, mais obcecada com as próprias fantasias, com a convenção de monogamia, convenção de casa no subúrbio, no subúrbio americano, no subúrbio brasileiro. Não funciona essa coisa, essa fantasia de filme de Hollywood, do que é aquele momento, do que é a entrega, do que se doar de fato, né? Então a paixão é realmente viver aquele momento como se fosse infinito. Mas ele fala, no primeiro verso, uma coisa que eu gostei muito, que é uma coisa que eu vivo assim: 'De tudo, ao meu amor serei atento, antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto, que mesmo em face do maior encanto, dele se encante mais meu pensamento.'
Maria Gurjão de Moraes: [59:04] Essa é a fidelidade.
Eron Falbo: [59:06] E que, independentemente do que aconteça, se perder o amor, se acontecer, se não acontecer, que eu esteja sempre aprendendo, pensando sobre aquilo, melhorando, que dele se encante mais o meu pensamento. Então, que eu esteja presente... Oi?
Maria Gurjão de Moraes: [59:23] O projeto em evolução. Eu acredito muito que a gente nasce e tem uma oportunidade, a escolha, né, ou livre-arbítrio, de evoluir. E você só faz isso através de reflexões, né? A reflexão das coisas através do seu olhar, e levando em consideração o olhar do outro, porque é o outro que está com o olho em cima da gente o tempo todo, que nos dá a possibilidade de evoluirmos, de sermos pessoas melhores, entendeu?
Eron Falbo: [59:50] A razão que eu fiquei surpreso, que é conhecido como um grande poema de amor, soneto de amor, é que eu acho que o mundo moderno vê isso que o Vinícius vê como amor. Mudaram, reformaram-se as convenções e... Olha, eu acho...
Maria Gurjão de Moraes: [1:00:09] Assim... Até melhorou, né? É isso que eu estava falando. Se você pensar que até 1977 uma mulher não podia se divorciar... Olha, eu tenho uma tendência a ver o copo um pouco mais cheio. Então, eu acho que tem muitas coisas que melhoraram, sim, entendeu? Tem coisas que ficaram melhores em termos de liberdade, de você poder viver com sinceridade, de você não viver em tantos dogmas ou gaiolas sociais. Então, hoje em dia, o mundo tem coisas que não tinha antigamente.
Eron Falbo: [1:00:41] Estava comparando a mente do Vinícius, não o passado.
Maria Gurjão de Moraes: [1:00:45] É, mas o Vinícius... A outra dele é muito...
Eron Falbo: [1:00:48] Ele transcende essas convenções e expectativas, até de uma... Porque esse é o trabalho do poeta. O poeta tem que... Em inglês, se chama probe. Como é que fala em português? Ele tem que pesquisar, entrar dentro e explorar a alma humana. Em lugares, às vezes, que o humano comum prefere, por sua própria comodidade, se distanciar.
Maria Gurjão de Moraes: [1:01:17] Ou porque, isso que eu falei, da questão de qual é a função da poesia dentro de uma sociedade. Um poeta dificilmente vai ser médico ou engenheiro, mas todos são importantes. Cada um tem a sua função dentro desse organismo que é a sociedade. Então, acho que o poeta traz isso. Às vezes a pessoa é pequena, mas não tem recursos para fazer isso, nem que ela queira, entendeu? Não tem como, tem que ter coragem. Uma hora eu quero ser poeta e vou escrever, tem estudo.
Eron Falbo: [1:01:47] Poesia, mais uma questão, do que eu conheço de poetas e eu mesmo, da minha própria inautenticidade. Muita da minha poesia não foi tão poderosa quanto poderia ser por falta de autenticidade, por falta de ter coragem de ser autêntico, coragem de... Você joga.
Maria Gurjão de Moraes: [1:02:09] Você acha que está nessa autorreflexão? Você tem um desejo, dá vazão ao seu desejo, acredito.
Eron Falbo: [1:02:20] Mas eu tenho altos padrões em relação a mim mesmo, então não... Que figura! Mas, Maria, infelizmente acabou o nosso tempo, e até demais, mas você foi uma pessoa fantástica, eu fiquei encantado por você, dá para sentir o Vinícius em você, isso é bonito pra caramba. Tá vivendo esse momento, tá tendo essa conversa com você... Eu sinto que, em certos níveis da vida, eu graduei só de estar aqui com você hoje.
Maria Gurjão de Moraes: [1:02:52] Obrigada pelas palavras gentis. Obrigada pelo convite também. E que tudo isso que a gente pensou aqui junto, com as pessoas que te acompanham, venha como uma coisa positiva para até ressoar sobre a importância da poesia no cotidiano de todo mundo.
Eron Falbo: [1:03:10] Eu nunca tinha visto esse número antes, mas é porque agora estou usando outro programa: a gente teve mais de 10 mil likes aqui, no coração.
Maria Gurjão de Moraes: [1:03:19] E para falar mais do Vinícius, a minha poesia favorita dele é 'Poética', que termina dizendo: ao eixo, a morte, contra quem vivo; do sul, o cativo; o eixo é o meu norte. Outros que contem passo a passo: eu morro ontem, nasço amanhã, ando aonde há espaço, meu tempo é quando.
Eron Falbo: [1:03:43] Agora essa. 'Meu tempo é quando' é muito bom. Para mim isso é... Eu sou do mesmo planeta que ele, mesmo que seja de uma ilha muito menor.
Maria Gurjão de Moraes: [1:03:57] Não, só mostrando que a realidade mesmo faria essa diferença contigo. Vinícius é uma figura muito única nesse sentido mesmo. Aquilo que eu falei para você, da consideração e respeito ao outro, sabe? Desde que a pessoa fosse educada, basicamente, ele era muitíssimo bem educado. De gentileza incrível mesmo. Mas eu acho que quando a gente começa a olhar para o outro com carinho, vendo a possibilidade daquilo que o outro tem para nos oferecer, se for pequenininho, se for muito grande, se for muito importante, se for rico, se for pobre, não interessa. É um encontro das almas que traz alguma luz sobre as nossas sombras, entendeu? E isso dele era muito bacana. Eu acho que essa é a mensagem mais importante, ainda mais nos dias tão difíceis que a gente está vivendo. Eu gostaria que as pessoas que te seguem acompanhassem e pudessem replicar esse sentimento.
Eron Falbo: [1:04:49] Vamos terminar com isso. Me fala as coordenadas de tudo, dos melhores, mais organizados e mais bem curados, do Vinícius, do seu trabalho, das instituições. Como é que a gente acha? Pelo site?
Maria Gurjão de Moraes: [1:05:05] O site é viniciusdemoraes.com.br, e tem as redes sociais, porque a gente tenta acompanhar a evolução dos tempos, são as redes sociais oficiais. No Instagram é Vinícius de Moraes, no Facebook é Vinícius de Moraes, tem sempre aquele azulzinho ticado. A gente tem parcerias com a Universal Music, com a Nova Fronteira, principalmente com a Companhia das Letras, e mais um pouco vai ser anunciado na imprensa esse projeto que é muito importante, que é a digitalização desses 13 mil documentos, são 13 mil folhas escaneadas uma a uma, e vão estar também disponíveis ao acesso de qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, desde professores ou acadêmicos. Você vai entrar lá e vai poder ver os manuscritos, vai ter aquilo catalogado, vai ter um contexto, para quem não é tão estudioso, uma linguagem acessível. Acho que a gente trabalha muito para tornar a obra dele acessível, com uma curadoria boa, para que não se perca o contexto das coisas, para todo mundo. Eu acho que essa é a grande missão que a gente tem, a grande responsabilidade desse legado que ele deixou nas mãos da família. A gente tenta, pelo menos.
Eron Falbo: [1:06:21] Vocês estão tão organizados, isso é uma maravilha, porque tem tanta gente perdendo muita coisa. Maria, muito obrigado por aceitar esse convite, obrigado por essa conversa e por todo o trabalho que você tem feito. Eu falo em nome de todos os brasileiros e de todas as pessoas pelo mundo inteiro que são fãs das palavras, da arte, da história do seu pai. Muito obrigado por esse trabalho sincero e árduo.
Maria Gurjão de Moraes: [1:06:48] Imagina, obrigada pelo convite. Foi um prazer. Se cuida, tá? Se cuidem todos.
Eron Falbo: [1:06:53] Valeu, valeu. Beijo para todos. Tchau, tchau.
Maria Gurjão de Moraes: [1:06:55] Tchau.
No Alvo com Eron Falbo · episódio #88 · todos os episódios