Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.
Eron Araújo: [0:00] Tá conectando, tudo bem? Iam chamar alguém, gerou.
Eron Falbo: [0:06] É gostoso, tipo, tem aquela... Para a gente que tem o nome tão raro, parece que é meio... Como é que chama... A galera que conversa, esquizofrênico, que tem o mundo interno, esqueci o nome da patologia, que conversa com pessoas imaginárias. E aí?
Eron Araújo: [0:30] Tudo bem, Eron?
Eron Falbo: [0:31] Tudo sim, que legal.
Eron Araújo: [0:34] Que prazer estar aqui na tua live. Eu não te conhecia e, a partir do momento que eu comecei a seguir as lives, eu achei muito interessante os seus convidados, os assuntos que você aborda são pertinentes, inteligentes, e eu acho que é isso que o mundo precisa, dessa troca.
Eron Falbo: [0:55] Obrigado, Eron. Que bonito.
Eron Araújo: [0:58] E é muito bom quando você vê uma live com repertório, realmente com conteúdo, porque acho que o mundo está precisando disso.
Eron Falbo: [1:07] Muito obrigado, muito obrigado, e eu também fiquei muito feliz de te conhecer. A Renata acabou de chegar e, na verdade, eu vi ela, amiga em comum nossa, e eu vi exatamente como foi. Eu vi seu nome lá e eu descobri. E eu vi que você é mais popular que eu. Aí eu falei: pô, como é que tem um herói mais popular que eu? Eu escolhi esse nome para poder ser o herói mais popular do Brasil, que ia ser fácil, né?
Eron Araújo: [1:36] É, muita coincidência. Mas acho que são mundos diferentes, mas ao mesmo tempo que conectam, né? Mas assim, eu acho que são universos e pessoas diferentes. Cabeleireiro, sincero, um beijo pra você. Tem essa conexão. Acabei me tornando um cabeleireiro mais popular, uma pessoa mais pública, graças às marcas que já trabalhei, principalmente com a marca que eu trabalho hoje. É uma marca super democrática, mundialmente conhecida. Eu nunca tinha trabalhado com uma marca de varejo, e aí percebi, me convidou muitos anos atrás quando entrou no Brasil. E eu acabei fazendo uma visão mais pública. E isso me ajudou bastante.
Eron Falbo: [2:31] Isso não é normal. Cabeleireiros são poucos que sobem para esse patamar, vamos dizer. Isso é até uma coisa que a gente conversou brevemente, que é a questão de você ter vindo de um background mais humilde e você se colocou para a Jovem em São Paulo e venceu, isso é uma coisa muito bonita. Eu queria saber mais sobre isso, sobre esse processo, como é que foi, o que você viveu.
Eron Araújo: [3:01] É muito engraçado, porque eu acho que muitos brasileiros têm uma história parecida, têm vários seguimentos. Então eu acabei conhecendo pessoas que têm histórias parecidas. Eu venho realmente de uma família muito pobre, pai alagoano e mãe pernambucana. Vieram para São Paulo na década de 70, eu tinha quatro anos só. E meu pai se separou da minha mãe quando eu tinha dez. Eram sete filhos, eu e mais seis. Então eram muitos filhos, uma mãe só para cuidar de sete meninos. Minha mãe casou muito cedo, com 16 anos, então ela ainda não tinha trabalhado. Depois meu pai se separou dela e voltou para o Nordeste. Minha mãe se viu em São Paulo, uma cidade gigantesca, e criou sete filhos sozinha. Minha mãe comprou um pacotinho de café e foi vender no centro de São Paulo. Eu tenho muito orgulho da minha mãe, de tudo que ela fez para criar sete filhos. E eu sempre gostei de mexer com cabelo. Desde moleque eu brincava de ser cabeleireiro. Comecei a cortar cabelo dos meus irmãos. Então, eu sou autodidata.
Eron Falbo: [4:17] Desde pequenininho você já fazia isso? Isso é muito incrível. Como é que tem algumas profissões, algumas coisas assim, que tem essa identificação muito cedo. Estava conversando com um amigo meu, o Sérgio Matos, não sei se você conhece ele, da 40 Graus, que ele também começou gostando de moda e brincando, fazendo coisas com moda também, com, sei lá, cinco anos.
Eron Araújo: [4:47] Com sete anos eu pegava as bonecas da minha irmã mais velha e cortava. Antigamente, eu não sei se você tem 36, não sei se você vai lembrar, mas eu tenho 50. Antigamente as camas não eram baixas, eram camas altas, então tinham pés, e as crianças brincavam debaixo da cama. Então, quando eu era criança, eu cortava as bonecas e metia debaixo da cama.
Eron Falbo: [5:13] E ficava lá cortando, debaixo da cama que era um pouco mais alta.
Eron Araújo: [5:23] Então, desde moleque. Lembro que, com 10 anos, minha mãe era uma mulher que pintava sozinho o cabelo. Eu pedia para passar a tinta dela, depois eu comecei a escovar, depois eu comecei a cortar, isso com meus irmãos, e assim foi. Então, foi muito intuitivo. Eu nunca fiz curso para cortar cabelo. Quando eu fiz 18 anos, um amiguinho me contou que tinha uma tia, uma colega da escola, que abriu um salãozinho aqui do bairro. Era na Zona Leste, em São Paulo. Um salão muito simples, pequenininho, só cabia duas cadeiras. E eu fui lá, porque eu sei pintar cabelo, ela falou assim, sabe? E ela me deu a oportunidade. E eu nunca tinha trabalhado com cabelo, nunca tinha atendido. Era o pessoal da rua. E foi a primeira pessoa que acreditou em mim naquele momento. Eu comecei a trabalhar em 2009 e fiquei dois anos e pouco nesse salão.
Eron Falbo: [6:28] Descobriram que está cortando um pouco o som. Não sei se... mas fala quando parece um erro técnico. É.
Eron Araújo: [6:42] E foi?
Eron Falbo: [6:43] De repente... Só um segundinho. Por que você acha que não é bom... Ah, dá pra ouvir? Ah, não, porque eu não tô conseguindo ouvir. Eu preciso ouvir. Então, de repente, só foi temporário, porque teve um momento que eu parei de te ouvir direito.
Eron Araújo: [7:03] Melhorou.
Eron Falbo: [7:03] Mas eu estava falando do primeiro lugar que você conseguiu emprego. Ah, by the way, eu fiz esse design aqui com o meu cabelo. O que você achou? Eu senti o que eu estava falando. Eu vou encontrar com o cabeleireiro famoso. Eu preciso fazer alguma coisa com o cabelo.
Eron Araújo: [7:23] Eu fiquei um tempo nesse salão e fui atrás de novos ares. Eu tive a oportunidade de conhecer o Celso Kamura nos anos 90. Em 94, eu já estava trabalhando em outro salão, na Vila Mariana, e o Celso me convidou para trabalhar com ele. No final de 94, eu fui trabalhar em 95. E o Celso Kamura já era um cabeleireiro muito conhecido. E foi a primeira vez que acreditou.
Eron Falbo: [7:51] Em verdade, porque ele é famosíssimo também, né? Então, eu não sabia disso, que você tinha...
Eron Araújo: [7:59] Treinado com ele. E aí, era um momento que o mercado editorial tava muito forte no mercado, né? Você fazia muita revista para ir para a banca. E aí, comecei a trabalhar muito dentro da Editora Abril, e isso me ajudou bastante. O que aconteceu depois: a internet era muito fraca no Brasil naquele momento. Não tinha tantas revistas, aliás, nenhuma. Então, o mercado editorial foi uma ferramenta que me ajudou bastante. Eu fazia muita capa de revista. A gente começou a fazer o que foi a Phytoervas Fashion, depois virou Morumbi Fashion, até virar São Paulo Fashion. Tá ruim o áudio?
Eron Falbo: [8:46] É, cortou um pouquinho, sim. Mas dá pra entender.
Eron Araújo: [8:52] E aí, eu comecei a fazer muito moda. Foi muito bom, porque foi um grande laboratório. E aí, chegou um dado momento que eu falei: eu preciso me tornar um cabeleireiro mais comercial. Estava me incomodando ser um cabeleireiro muito fechado e já estava restrito no mercado.
Eron Falbo: [9:13] Deixa eu só entender o que você quer dizer com isso. Você quer dizer que talvez você estava muito na coisa do glamour, da mídia, do mercado editorial, e não tanto do business, de fazer mais de uma loja, de...
Eron Araújo: [9:33] Eu acho que tem todo tipo de profissional. Eu adoro os profissionais fashionistas, mas não era o que eu queria para a minha vida. Eu já tinha um quê de empreendedor na minha veia. Eu não queria ficar só naquilo. Eu queria muito mais. E eu entendia que o mercado mais comercial para mim era onde eu me encaixava mais. Eu acredito, Eron, que a beleza é democrática. Ela não pode ser engessada. Eu não acredito em uma beleza imposta. E a moda tem muito disso, de uma imposição.
Eron Falbo: [10:10] O elitismo, né?
Eron Araújo: [10:12] Eu não acreditava muito nisso.
Eron Falbo: [10:14] Eu esqueci, que é uma coisa louca ter esquecido isso, porque praticamente só funciona com vinho. É como se fosse combustível, então. Aos heróis desse mundo e ao nosso sucesso!
Eron Araújo: [10:29] Amém. E está melhor agora, a galera?
Eron Falbo: [10:38] Parece que está.
Eron Araújo: [10:39] E aí eu não estava me encaixando nesse perfil muito fashionista, e naquele momento, final de 99, Vanderlei Nunes me convidou para trabalhar com ele. E aí eu comecei a trabalhar no Estúdio W em 2000. E foi muito bom, porque ali eu já estava entendendo um outro perfil de negócio, já me identifiquei muito com o projeto. E aí eu fiquei no Estúdio W, no Shopping Iguatemi, de 2000 a 2011. Fiquei 11 anos. E aí, em 2011, eu estava com um desejo enorme de abrir meu próprio negócio. E aí, parti pra esse lado de empreendedor e tô como empresário há 10 anos.
Eron Falbo: [11:28] Que maravilha, que bonito. Adoro ouvir isso, não só o Eron, mas alguém que veio de raízes humildes conseguir chegar nessa realização. Eu te falo de experiência pessoal: eu fui músico na Universal Music e não ganhava um centavo. Antes que todo mundo ache que tinha glamour, né? Tinha estagiários, tinha pessoas assim ao meu redor, tinha como se fosse um entourage, né? Eu ia para os clubes privados de artistas de Londres, né, que moravam lá. E tinha todo um glamour, mas eu não ganhava um centavo pra começar. E eu sei como é difícil, você falou que você já era tipo, já aparecia na mídia, né? Já trabalhava com coisas grandes na mídia. E eu sei que não é exatamente fácil você fazer essa transição de falar: "pô, agora vou ser sério, vou ganhar dinheiro" e vou dizer um pouco "não" pro glamour. Você viveu um pouco disso?
Eron Araújo: [12:35] Muito. E eu acho que, na minha profissão principalmente, o ego, a vaidade podem atrapalhar muito o profissional, o cabeleireiro. Porque você, enquanto cabeleireiro, precisa controlar muito bem isso, porque você pode escorregar em algum momento. Então, tanto a questão financeira, que você começa a ganhar dinheiro, a se relacionar com pessoas públicas bacanas, gente famosa... Então, você tem que tomar muito cuidado, porque isso pode atrapalhar a sua carreira. Sempre fui muito pé no chão. Eu costumo dizer que deixo o ego, a vaidade, para o meu cliente. Então eu...
Eron Falbo: [13:16] Isso é uma ótima frase. Espero que vocês anotem as frases, depois a gente vai colocar um meme para você. O que eu percebo é que as pessoas têm um vazio muito grande. Todas as pessoas, eu e você provavelmente. Mas o que eu quero dizer é que as pessoas têm um vazio muito grande dentro do coração, e isso muitas vezes é preenchido pelo glamour, de uma maneira talvez viciosa, talvez o que as pessoas não gostariam que fosse. Então, os jovens procuram muito se comparar, né? As meninas jovens colocam muito silicone ou fazem cirurgia plástica. Entra nessa obsessão por aparecer pra não ser rejeitado, pra não ser não aceito, né, pra poder entrar em clique, grupos e coisas do tipo. A razão que eu acredito que isso atrapalha muito em negócios é porque você já é pago, né? Você já é pago pelo glamour. Tipo assim, quando você é maldito, você já recebeu um pagamento. E você até se sente mal por receber o glamour. E muitas vezes você entra dentro de uma satisfação: o que eu preciso é o aplauso, o que eu preciso é o glamour, o que eu preciso é ser aceito. E você para de buscar o feijão com arroz, o dinheiro de fato. Então, tem muita gente que vive nesse mundo do glamour e nunca saiu.
Eron Araújo: [15:05] Exatamente. Quando eu comecei a ganhar dinheiro, eu quase me perdi um pouco, porque, querendo ou não, você se deslumbra, e eu não posso ser hipócrita. Então, quando comecei a ganhar dinheiro, eu quis ter um carrão, relógios bons, apartamento bacana, viajar de executiva. Fui preenchendo alguns desejos, mas depois você vai amadurecendo e aí você vê que não precisa provar nada para ninguém. Então, hoje, eu estou em busca da vida pessoal, eu vou em busca daquilo que faz bem. Mas aí a maturidade tem que servir para alguma coisa. É natural que a gente foque durante a vida, é natural que a gente erre, dê uns tropeções, mas eu sou um cara muito pé no chão. Vou fazer meio século em Florianópolis, e acho que tudo serviu para alguma coisa. Mas vejo uma geração nova que trabalha comigo, tenho uma equipe grande, e vejo que essa geração, uma geração de imediatismo, quer fama, dinheiro, sucesso. Então, eu vejo que a gente tem que começar a trabalhar. Não sei como entra esse computador. É uma construção.
Eron Falbo: [16:27] Eu posso te incomodar de novo, porque começou a falhar de novo. Você pode rapidamente sair e voltar de novo? Porque funcionou bem.
Eron Araújo: [16:38] É bom que a nossa lágrima não vai tombar. Ou não, né?
Eron Falbo: [16:43] Não necessariamente, mas pode ficar um pouco. Ele botar um fone... Não, é tão... Cabeleireiro sincero, de novo, agradeço a sua sinceridade. A gente já tentou de tudo aqui, o Instagram tá louco, e botar o microfone não ajuda em nada, até atrapalha.
Eron Araújo: [17:05] Melhorou?
Eron Falbo: [17:06] Você fez um discurso bonito e eu estava gostando. Se a gente pudesse retomar: você estava falando sobre o glamour e as pessoas acabaram ficando mesmo.
Eron Araújo: [17:17] Vê se está chiando a minha voz. Está bom? Está bom. Então eu acho que a galera nova, ela é muito imediatista, quer sucesso, fama, dinheiro muito rápido. A internet ela trouxe muitos benefícios para as pessoas, mas eu sinto que essa geração, eles estão muito ansiosos e saem atropelados de tudo. E eu, que sou um cara que passou por uma construção... Está voltando ruim para mim. Está ruim, né?
Eron Falbo: [17:59] O meu som está voltando ruim?
Eron Araújo: [18:03] Ah, mas você tá ouvindo... Ai, gente, eu peço desculpa. Deixa eu mudar de lugar aqui pra ver se tá melhor.
Eron Falbo: [18:10] Relaxa, relaxa. É uma conversa super casual. Mas você falou que o seu som tá voltando ruim pra você?
Eron Araújo: [18:21] É, agora eu não sei se melhorou.
Eron Falbo: [18:24] Não, mas você não deveria estar ouvindo o seu som. Você tá ouvindo com algum som externo?
Eron Araújo: [18:28] É, um chiado. Mas eu acho que melhorou agora.
Eron Falbo: [18:31] Ah, tá bom. Se você quiser, experimenta colocar um fone, pode, mas eu acho que, se melhorou, já tá ótimo.
Eron Araújo: [18:37] É, eu acho que melhorou. Melhorou aí, galera?
Eron Falbo: [18:40] É, pra mim tá bom. Pra gente aqui tá bom.
Eron Araújo: [18:43] Ah, que bom.
Eron Falbo: [18:47] Então, se melhorou, ótimo.
Eron Araújo: [18:51] Eu tô procurando um fone, amor. Fone de ouvido é uma coisa que eu não uso.
Eron Falbo: [18:59] Enquanto isso, eu vou fazer um discurso. Eu vou dar a minha opinião, pessoal, sobre por que as pessoas estão mais imediatistas. Eu vou concordar com esse pensamento: eu vejo que, talvez por causa da informação demais, da era da informação, as pessoas passaram a se comparar mais. A gente tem mídia social, tem uma série de coisas aí que faz a gente ter muito mais acesso à informação dos outros e a gente se comparar com os outros. Eu acho que por isso as pessoas estão com a autoestima baixa, né? Porque tem um grande standard pra se comparar, né? Tá vendo as melhores pessoas, né? E também tá vendo o melhor de cada pessoa. E a autoestima de todo mundo tá baixando. Por causa disso, as pessoas viraram um pouco mais superficiais e estão buscando coisas mais imediatas, não só porque elas viraram mais superficiais, como porque elas precisam preencher imediatamente um vazio, que é esse vazio da baixa autoestima, que foi gerado por se comparar com tantas outras pessoas. Então, acho que, na nossa geração, a gente precisa se olhar no espelho e não no Instagram, e ser muito sincero, que nem o cabeleireiro sincero, consigo próprio, com nós mesmos, e enfrentar isso, né? Tipo, dizer não a essa parada de se comparar com outras pessoas, entender de uma vez por todas que é tudo superficial, que é tudo tipo... São palcos, né? As pessoas estão em palcos. E o grande problema das pessoas é comparar os bastidores, o meu bastidor, com o palco do outro. Tipo assim, a gente se conhece no íntimo, se conhece de pijama, sem maquiagem, com cabelo que precisava ter cortado dois meses atrás. E as fotos no Instagram estão ótimas. Então a gente tá comparando os nossos bastidores, todo fodido, com o palco de outra pessoa, que é a foto do Instagram.
Eron Araújo: [21:18] Olha só, interessante você falar isso. Galera, vê se melhorou com o fone, tá? Acabei de colocar, olha aqui, estou equipado. É interessante você falar isso porque eu, que trabalho com beleza, costumo dizer nas redes sociais que não acredito numa beleza editada. Então, com tantos filtros, com tanta correção, você vê cabelos perfeitos. Você fala: "meu, isso não existe". Essa mulher, esse cara não vai acordar com esse cabelo, entendeu? A gente precisa vender uma beleza real. Então, tudo que eu posto nas minhas redes não é editado. São belezas que eu fotografei e que eu acredito, sem filtro. Porque eu vejo que muitos cabeleireiros ficam tentando copiar e aí esquecem de ter uma marca registrada, de ter o seu estilo próprio, porque querem copiar o cabeleireiro famoso. E eu acho que aí está um grande erro, porque o cliente vai se identificar com o teu trabalho. Então, tem que tomar muito cuidado, porque do mesmo jeito que a rede social trouxe benefícios, ela pode prejudicar os profissionais. A cliente pode ver um cabelo perfeito no seu perfil, mas você vai conseguir reproduzir esse cabelo na sua cadeira, no seu salão? Então, eu procuro tomar muito cuidado com as expectativas das pessoas. Eu tenho muito respeito pelo que a pessoa deseja e pelo que eu procuro entregar. Então, tudo tem limite, né? Isso que você falou é pura verdade. Você vê perfeições, você vê corpos perfeitos, pessoas felizes, ninguém está triste nas redes sociais, todo mundo está feliz, todo mundo está ostentando. Mas e aí, como é o dia a dia? Eu costumo dizer: como é o teu cabelo na hora que você acorda? Como é o teu cabelo na hora que você sai da piscina? Isso, para mim, é real.
Eron Falbo: [23:15] E isso me fez lembrar de um feedback de cliente de cabeleireiro. Não sei, só pra disclaimer, eu nunca fui cliente do Herói ainda, mas assim que eu for pra São Paulo, que eu nunca mais pretendo na minha vida, porque eu já cansei de São Paulo, mas claro, mentira, eu sempre vou pra São Paulo. Quando eu for pra São Paulo de novo, vou fazer questão de te visitar pra gente tomar um café, pelo menos, ou um vinho, sair pra night aí, depois do apocalipse. É isso aí. Mas o feedback de cliente, eu acho que você tá falando de cabeleireiro no geral e de acordar com o cabelo, né? Mas uma outra coisa é que muito cabeleireiro te arruma todo na hora de cortar o cabelo, aí põe lá o Gumex, né? E te deixa prontinho. Aí você sai, pô, sentindo como uma nota de um milhão de dólares, né? Mas depois você chega em casa, você não consegue reproduzir em casa a mesma coisa que o cabeleireiro fez lá. Não consegue arrumar do mesmo jeito, você não usa o secador às vezes, entendeu? E você fica um pouco decepcionado com isso. Eu acho que é importante para o cabeleireiro, isso é uma coisa que me ocorreu quando você estava falando, que nem você sugeriu, de dar aquela possibilidade da pessoa de ter um cabelo bom o suficiente para usar em todos os momentos, sem ter aquela queda.
Eron Araújo: [24:40] Interessante você falar sobre isso, porque eu mesmo falo para os meus clientes: do salão todo mundo sai lindo. Eu quero entender o meu cliente no dia a dia, como ele vai administrar aquilo que eu fiz, aquele corte, aquela cor. Então, o cabeleireiro, primeira coisa, ele precisa executar o trabalho, mas ele também precisa ser um consultor, então ele precisa pensar no pós-atendimento, ele precisa ver quais são as ferramentas que eu preciso dar e as orientações para o meu cliente administrar aquilo que eu fiz. Então, vão precisar indicar um produto certo, vão precisar dar umas dicas do secador ou um jeito de arrumar. Essa consultoria ajuda você não só a construir uma relação com o teu cliente, mas a orientar ele a fazer o teu trabalho ficar melhor. Isso é bom para os dois lados. Então, eu acho que o cabeleireiro não é só aquele cara que executa o trabalho, mas é aquele cara que dá consultoria pós-atendimento também.
Eron Falbo: [25:41] Exatamente, porque se você está construindo uma carreira a longo prazo, isso volta àquela coisa do imediatismo. Todo cabeleireiro, se você está querendo a fidelidade do cliente, acho que as pessoas deveriam procurar isso, a pessoa tem que estar satisfeita a longo prazo. Então ela vai, claro que vai lembrar. Talvez quando ela sair do cabeleireiro, ela vai ficar menos impressionada do que quando se arruma toda. Mas, a longo prazo, no dia a dia, ela fala: "esse corte aqui é um dos melhores que eu já tive", né? E você lembra, porque na maioria dos momentos da vida você tá correndo, não teve tempo de se arrumar o suficiente, e é isso que ocorre muitas vezes. Você quer comentar alguém que apareceu?
Eron Araújo: [26:39] Não, eu só estou lendo comentários maravilhosos dessas pessoas que eu amo, pessoas carinhosas, pessoas incríveis.
Eron Falbo: [26:45] Eu te amo.
Eron Araújo: [26:50] Eu acho que o cabeleireiro não pode ficar preso só... Eu costumo dizer, Eron, que eu não sou um cara que só diminui o tamanho do cabelo ou muda a cor do cabelo. Eu preciso ser muito mais do que isso para o meu cliente. Eu preciso criar uma relação, eu preciso orientar. E você falou alguma coisa interessante sobre lembrar daquele cabeleireiro. Então, eu tenho as minhas estratégias. Quando eu indico um shampoo para a minha cliente, eu vou indicar o shampoo certo, eu vou dizer para ela como ela vai aplicar, como ela lava corretamente. Então, você está ali no box, lavando o seu cabelo, e está lembrando das orientações que eu te dei. Tudo isso é uma estratégia, mas funciona, porque você cria uma relação de dependência. O meu cliente fica inseguro de ir lá na prateleira e escolher o shampoo sozinho. Ele fala: "pera aí, mas eu acho que eu preciso de uma..."
Eron Falbo: [27:44] Eu preciso de você, você é o guru do cabelo.
Eron Araújo: [27:49] Eu acho que quando você se torna um consultor do seu cliente, você cria essa dependência, mas é uma dependência boa. Eu criei uma hashtag chamada Dica do Eron, porque eu sou aquele cara didático, que gosta de cuidar do cliente como um todo.
Eron Falbo: [28:07] Eron, eu tô muito impressionado, eu fui no escuro, sem te conhecer muito. Claro que eu dei uma espionada no seu Instagram, mas eu tô muito surpreso com o seu conteúdo, com a sua integridade, porque, gente, mexendo com moda e com cabelo, você sabe que não é todo mundo que tem... O assunto da nossa conversa aqui agora é essa questão de realmente se perder, de entrar muito no imediatismo, de entrar muito na especialidade, e a Renata Vásquez acabou de te chamar de Herói 1 aqui, não sei se você percebeu.
Eron Araújo: [28:49] A Renata é uma cliente que mora no Rio, mas ela vem para São Paulo para fazer o cabelo.
Eron Falbo: [28:55] Eu confio muito no Eron. Estou presumindo que ela quer dizer você, porque tenho certeza que ela não confia muito.
Eron Araújo: [29:01] A Renata é uma cliente maravilhosa. O irmão dela e ela vêm para São Paulo só para fazer o cabelo. Isso é maravilhoso. Mas eu tenho clientes do Brasil inteiro. É maravilhoso isso. Eu amo todas.
Eron Falbo: [29:15] É bom saber que os livros da Renata estão vendendo tanto a ponto de ir para São Paulo. Maravilhosa. Leiam os livros de Natha Báscoa, gente. Ela vai ser convidada também mais pra frente. E ela ficou super com ciúmes que você veio antes dela.
Eron Araújo: [29:34] Respondo, ela...
Eron Falbo: [29:38] Publicamente. Ela vai me assassinar pelos mundos ocultos, pelo hétero. Ela vai fazer um esconderijo. Se você puder elucidar um pouco mais o começo da sua carreira, você contou de leve, em breve eu queria entender um pouco sobre os sentimentos de superação, a coisa de você mudar, porque eu tive isso, como você sabe, a gente conversou um pouco sobre isso, minha família também vem de origens humildes. Apesar de eu não querer ser falso modéstia, eu nasci quando a minha família já estava bem, vamos dizer, apesar de eu ter passado um monte de perrengue. Mas o que eu queria, vindo das famílias, eu entendo o que é a mudança, né? O que eu quero dizer é o seguinte: quando você está num patamar, vamos dizer, nível 1, sem comparar o que é o quê, mas você tem sonhos, você tem certos sonhos. Sonhos só vão até o máximo nível 3, porque você não consegue vislumbrar o que é nível 4 ou 5, por exemplo. E quando você alcança o nível 3, você percebe que existe um nível 4 ou 5 e você começa a sonhar com o nível 6. Aí eu queria saber de você, da sua trajetória, que você veio de origens muito humildes, como foi esse processo de mudar de sonho? Você entende? De ter um sonho, depois amadurecer e ter um sonho maior ainda, mais nobre, mais ambicioso.
Eron Araújo: [31:28] Eron, quando comecei a cortar cabelo na Zona Leste de São Paulo, num bairro simples chamado Parque São Lucas, eu, honestamente, não sabia que existia esse mundo que vivo hoje. Eu vivi ali na periferia de São Paulo, numa humildade muito grande, uma simplicidade enorme, e eu não conhecia o mercado de luxo, não sabia que existia essa diferença. Foi um processo gradativo. As coisas foram acontecendo naturalmente na minha vida, fui conhecendo as coisas aos poucos. E aí você vê que o sonho é tão relativo, porque naquele momento o meu sonho era ter uma casa própria, era ter um carro, era poder comprar as roupas que eu queria, poder viajar, esses eram meus sonhos. Mas eu sou um cara muito pé no chão e eu não me deslumbro com... Eu não sou um cara de ostentar. Óbvio que eu gosto de coisas boas. Eu gosto de tomar um bom vinho, gosto de frequentar os melhores restaurantes de São Paulo, gosto de comer bem, mas assim, eu nunca fui um cara que...
Eron Falbo: [32:40] É tudo igual, assim. Pra mim, tipo, o Eron é tudo igual.
Eron Araújo: [32:44] Eu nunca sonhei em ter um helicóptero, um avião. Mas, para mim, o mais importante era o repertório que eu ia ter para a minha vida, a história que eu ia ter para mim, não para os outros. O que aquilo vai agregar para a minha vida de valores? Então, fui abastecendo a minha vida com um repertório que refletisse bem na minha carreira, mas me agradasse na vida pessoal. Então, é sempre uma conexão. Essas pessoas que falam que separam a vida profissional da vida pessoal, eu não acredito muito bem nisso, porque, para mim, elas se conectam. Eu preciso colocar meu coração naquilo que estou fazendo. Eu preciso conectar as duas coisas, porque os meus desejos, eu coloco a minha ambição no meu dia a dia, coloco o meu amor, e existe essa conexão muito forte. Então, para mim, hoje, o sonho é muito relativo. Se eu morresse hoje, eu morreria 100% feliz, realizado, porque eu consigo ajudar a minha mãe, eu consigo ajudar a minha família, eu consigo fazer tudo aquilo que eu tenho vontade de fazer e me sinto um cara realizado. Então, hoje, eu procuro fazer manutenção no meu bem-estar, eu procuro fazer manutenção daquilo que eu conquistei. O meu maior patrimônio hoje são os meus clientes. Isso pra mim não tem preço.
Eron Falbo: [34:11] A lealdade deles.
Eron Araújo: [34:13] Exatamente.
Eron Falbo: [34:15] Eu vejo isso também como um grande valor. Hoje em dia, eu venho do mercado financeiro antes de fazer esse programa. Uma das razões que eu comecei a me dedicar mais para esse programa foi porque eu comecei a valorizar mais pessoas do que dinheiro. Ou seja, você aprender com pessoas, você ter a lealdade de pessoas, ter a confiança de pessoas. E isso não só te dá dinheiro, né? Isso ainda te dá dinheiro, você faz parcerias, você faz equipes, você expande tudo que você tá fazendo. E acho isso muito importante, né? É muito importante ser dito. Porque as pessoas são um pouco obcecadas com dinheiro como se dinheiro fosse alguma coisa por si só. Dinheiro é sempre um meio. Tem que ver o que você quer. Porque nem você falou nunca que quis ter um helicóptero. Você quer dinheiro pra quê? Pra ter um helicóptero? Você quer ter um helicóptero pra quê? Exatamente.
Eron Araújo: [35:17] Hoje eu acredito numa vida rica é aquela vida confortável, aquela vida que você tem segurança, que num país como o nosso precisa ter um bom plano de saúde, precisa ter um bom dentista, precisa ter uma boa moradia, precisa ter segurança nesse país. Então isso pra mim é conforto no país que a gente vive. Então poder comer aquilo que tiver vontade, num momento tão difícil que a gente está vivendo, sabendo que tem tantas pessoas passando necessidade, eu me sinto um cara privilegiado. Então, privilegiado e realizado. Eu espero poder cada vez mais contribuir, porque hoje eu sou um cara que gera emprego, e isso me deixa muito feliz, porque são muitas famílias que dependem do meu negócio, e eu acho que isso é uma grande responsabilidade. E isso foi o que eu busquei. Então esse, para mim, é uma parte do meu sonho, de você poder colaborar com uma sociedade... Porque ser empreendedor no Brasil é muito difícil, é um país muito complexo com a questão fiscal, trabalhista. Você precisa ter muita coragem para empreender no Brasil.
Eron Falbo: [36:37] Muitos tributos, né?
Eron Araújo: [36:38] Sim.
Eron Falbo: [36:39] Mudando de assunto, um assunto menos inspirador: como é que é o business de salão de beleza? Tem tributação especialmente alta? Como é que é essa parte?
Eron Araújo: [36:55] Faz quatro anos que a gente conseguiu uma lei chamada Lei Salão Parceiro, onde permite que você tenha PJs dentro da empresa. Então hoje eu tenho um mix, eu tenho CLTs, eu tenho PJ. E aí, como eu tenho alguns prestadores de serviço que são PJ, isso ajuda na diminuição de pagamento de imposto. Mas há pouco tempo a gente conquistou isso. E agora a gente está numa situação um pouquinho melhor, mas ainda é muito caro, porque eu tenho uma parte que é CLT e essa parte acaba tendo um custo muito alto. E os impostos também. Mas, cara, assim, a gente tem que se adequar ao que a gente tem aqui. Eu não sou um cara de ficar criticando.
Eron Falbo: [37:43] Eu procuro agradecer as coisas que a gente tem de bom. Mas realmente o Brasil ainda tem muito que evoluir em termos, especialmente, de governo e de estado. Hoje, que nem eu estava falando, a gente tem que ser rico, tem que ser relativamente bem-sucedido para ter uma dignidade mínima no Brasil. E pessoas que vivem com salário mínimo, eu não consigo nem entender como é que fecha a conta. Eu falo isso de uma pessoa alienada mesmo, mas, sinceramente, quando um ônibus custa quatro e pouco aqui no Rio de Janeiro, pelo menos, isso significa... sei lá, o auxílio emergencial era 300 reais, alguma coisa assim, 600 reais. E 100 passagens de ônibus é 420 reais. 100 vezes você vai e volta num mês, se você trabalhar todos os dias. Óbvio que você não trabalha, mas você precisa de pelo menos... Você só iria e voltaria 50 vezes de ônibus. Então é mal pago o transporte.
Eron Araújo: [38:55] A conta não fecha. A gente passou recentemente, na era Temer, por uma reforma trabalhista que existia desde a década de 40. Era muito antiga. Mas, mesmo assim, a gente está precisando de uma nova reforma trabalhista, porque parece que gerar emprego está gerando um crime. Parece que você, como empresário, é um criminoso. Então, já melhorou muito com essa pequena reforma, mas precisa de mais uma reforma trabalhista para gerar conforto para ambas as partes, tanto para o empresário quanto para os funcionários.
Eron Falbo: [39:27] Essas leis trabalhistas que foram feitas para supostamente defender o funcionário, no final só beneficia o Estado, e tanto o funcionário quanto o empregador fica na mão, porque o funcionário, naquelas coisas, ele tem que pagar um imposto enorme. Às vezes, ele não consegue emprego. Então, tem muito desemprego por causa do problema da CLT. E todo mundo fica na mão, menos o Estado. Então, formou os problemas da demagogia política. Exatamente. Os discursos muito bonitos que as pessoas compram, achando que é o humanista que vai salvar as pessoas, que vai alimentar todo mundo. Aí, tipo, sei lá, a Dilma, que quebrou o Brasil, mas deu um monte de Bolsa Família, não sei o quê, e deu orçamento pra educação. Mas, pô, quebrou o Brasil. Então, tipo, não funcionou. Então, todo mundo perdeu. O que acontece? A economia quebra, os empregadores quebram, aqueles que ganharam a Bolsa Família, que estavam junto com a Bolsa Família, declararam.
Eron Araújo: [40:39] Eu acho que essa reforma trabalhista precisa ter mais uma reforma. A gente precisa de uma reforma urgente administrativa e outra reforma tributária. Isso, para mim, é fundamental. A gente está muito atrasado.
Eron Falbo: [40:55] A gente precisa de reforma para tudo, basicamente. O que eu costumo dizer é que a gente tem que parar de olhar para os detalhes e mudar a Constituição do Brasil. A Constituição do Brasil é ruim, foi mal feita, foi uma máfia.
Eron Araújo: [41:08] Concordo com você. A gente está muito atrás, super concordo. Fora todos os impostos que os brasileiros pagam, você tem que terceirizar tudo. Você quer ter uma boa educação? Você tem que terceirizar a escola do seu filho. Você quer ter segurança? Você tem que blindar o seu carro e encher sua casa de câmeras. Você quer uma saúde decente, você tem que ter um puta plano de saúde. Então você paga um absurdo de imposto e tem que terceirizar tudo. Se pelo menos as pessoas mais pobres tivessem acesso à educação, à segurança, à saúde... Tudo bem, os ricos pagariam os impostos, a gente continuaria terceirizando todas essas coisas, mas as pessoas mais pobres teriam acesso. E não tem. Isso, para mim, é um absurdo. O que muda um país é a educação. O Brasil precisa investir em educação, precisa investir em cultura, porque a cultura faz parte de uma educação. E vejo que a gente está ficando muito pobre nesse sentido.
Eron Falbo: [42:08] Com certeza. E a grande promessa do governo Bolsonaro era mudar tudo isso. Ele estava fracassando gravemente. Era ter uma mudança revolucionária essencial no governo. Isso me lembra a independência americana. A grande razão que eles começaram a lutar contra a ocupação britânica nos Estados Unidos é o que ele chamava de taxation without representation, impostos sem representação, tributação sem representação, que é justo o que acontece no Brasil. Você não paga tributação nenhuma desse imposto. O problema é que a gente está tão... Eu acho que o nosso Estado foi tão eficaz em aleijar o povo brasileiro, em fazer o povo brasileiro ficar dependente de coisas do Estado, a cultura brasileira ficar dependente de coisas do Estado, todo mundo ficar mamando na teta do Estado, como eu costumo dizer, que o povo brasileiro não tem coragem de se revoltar.
Eron Araújo: [43:12] Não tem, não tem. Você paga IPVA e multa no Brasil, e em São Paulo as ruas são todas esburacadas. Você fala: porra, estou pagando um seguro. Aliás, estou pagando o imposto IPVA. Eu pago multa e tenho farol queimado, tenho faixa de pedestre apagada, tem buraco na rua. Então, é o que você acabou de falar, o dinheiro não vai para o destino certo, e aí a gente tem que abrir navios. Infelizmente, mas se a gente for falar de política aqui, a gente vai ficar...
Eron Falbo: [43:46] Horas... Eron, essas conversas aqui são totalmente psicodélicas. A ideia é pegar um cabeleireiro famoso, do que você tem a voz sobre... A pergunta é: por que, se você não fala, quem vai falar? É verdade, se você... As coisas do seu dia a dia a gente vai perguntar para a lista, que é alienada, que tem uma agenda política, que é o programa, sobre isso, é sobre extrair identidades ocultas, né? Aposto que você já deu muita entrevista na sua vida, mas duvido que você já tenha falado sobre isso.
Eron Araújo: [44:26] Estou sempre falando de cabelo, de beleza. É sensacional isso, mas essa oportunidade é muito boa. O Doria mandou fechar o salão dia 7 de março, a gente fechou.
Eron Falbo: [44:40] Você falou que ele foi aí.
Eron Araújo: [44:43] E aí, bacana, eu super acredito, acho que desde o início precisava ter um lockdown de verdade, eu sou a favor do lockdown, mas ao mesmo tempo eu acho que o Estado precisa dar suporte para as empresas, entendeu? Aí, o que eu fiz?
Eron Falbo: [45:00] Você tem que ser responsável, não é só tipo... Essa estratégia tem que levar em consideração todos os fatores.
Eron Araújo: [45:07] Exatamente.
Eron Falbo: [45:08] Incluindo os empresários. Minha amiga, que faz uma caridade super, uma mulher maravilhosa, Egepo Parque, tem o Biza Blog, que faz uma caridade, está alimentando as pessoas que estão desempregadas e tudo mais. Ela falou que ficou horrorizada, sabe? Foi para o centro do Rio de Janeiro e as pessoas que eram... Pessoas do bem, pessoas trabalhadoras que sempre, por princípio, religiosos talvez, que por princípio nunca foram pro crime e coisas... E pessoas falando assim: agora tô indo pro crime, entendeu? Eu tô disposto a matar pra alimentar meu filho. Então, não é tão simples assim, né?
Eron Araújo: [45:50] Não é tão simples assim. Daisy, um beijo, meu amor. Prazer ter você aqui nessa live.
Eron Falbo: [45:55] Eron... então, o Rock, acho que é comigo. Desculpa.
Eron Araújo: [46:01] Então, o que aconteceu? Eu fechei o salão no começo de março, dei férias coletivas para todo mundo até o dia 30. Depois ele mudou o decreto e estendeu até o dia 11 de abril. Então assim, eu te pergunto: eu dei as férias, não tinha programado férias naquele momento, banquei as férias. Vou colocar todos esses funcionários, que não são poucos, em banco de horas até o dia 11, e se ele estender do dia 11 para depois, eu pergunto: o que eu faço? Então, se o Estado não tomar uma providência, vai rolar uma demissão em massa, e eu não quero mandar as pessoas que eu amo embora.
Eron Falbo: [46:35] Programação, o mínimo que se espera. Infelizmente, isso é uma crítica grave, para mim, do STF. O STF deu esse poder para os governadores de fazer o que quiserem sem pagar a conta.
Eron Araújo: [46:54] Exatamente.
Eron Falbo: [46:55] Quando você faz isso, é que nem se você falar para uma criança: aqui está uma loja de brinquedo e de chocolate, e se alimenta durante uma semana. Você não vai entender o mal que está causando para o corpo dela.
Eron Araújo: [47:08] Exatamente.
Eron Falbo: [47:10] Fazer essas coisas... E o governador, ele tá lá um pouco se fudendo, porque ele tá há quatro anos no poder, ele só tá querendo se eleger. Então ele vai reeleger, que é coisas humanistas, né? Vamos fazer lockdown, que se dane a economia. Emocionalmente impressiona, né? O Dória chorando na televisão, essas coisas impressionam. Demagogia humanista, né, entre aspas. E, no final das contas, o que acontece? O empresário, o behind the scenes, o que está acontecendo nos bastidores, é essa parada mais complexa, que é difícil falar numa sentença.
Eron Araújo: [47:43] Sim.
Eron Falbo: [47:44] Fala, pô, eu estou ajudando o empresário, estou ajudando as pessoas.
Eron Araújo: [47:49] Então assim, você vai pagando o salário da galera estando com o seu negócio fechado, e você não tem apoio nenhum. Pelo contrário: a minha casa fica num bairro nobre aqui de São Paulo, que o IPVA é altíssimo, e nem o IPVA os caras isentaram. Então, ano passado, eu fiquei quatro meses fechado na quarentena, e eles mandaram o IPVA normalmente. Você fala: poxa, nem o IPVA os caras isentaram durante esses meses que eu fiquei fechado.
Eron Falbo: [48:20] Quando eu começo a falar contra o lockdown, eu falo nesse sentido. As pessoas acham que eu sou contra o lockdown porque eu sou negacionista. Eu acho que as pessoas estão morrendo de fome, eu nunca falei isso. A questão é que o lockdown não é tão simples assim. E, como você vê, na frente da gente, na frente da pista, ver as pessoas rebocando carros porque estão na rua... Carro parado na rua, o que tem a ver com o lockdown? Isso é só para ganhar dinheiro de multa. Isso é tirania do mais grave possível, sabe? É o Estado tentando roubar dinheiro do povo. Então, como é que as pessoas podem aplaudir isso? Tipo, é entrar numa... E as pessoas no Instagram falando que o lockdown vai salvar vidas, a galera rebocando os carros, tem que rebocar mesmo.
Eron Araújo: [49:06] Uma coisa é a Inglaterra dar lockdown e dar subsídio para os empresários; Estados Unidos dá lockdown e dá subsídio. Mas, assim, aqui no nosso país, você não tem esse apoio, você não tem esse suporte. Então, as pessoas estão perdendo seus empregos, os empresários estão quebrando, e o governo não está fazendo absolutamente nada.
Eron Falbo: [49:26] Tá pegando multa, tá tentando roubar mais.
Eron Araújo: [49:29] Exatamente. É o que eu tô falando. Eu tô com meu negócio fechado, eu tô pagando um IPTU altíssimo e os caras não estão nem aí. Então, assim, é uma falta de respeito com o empresário no Brasil. Porque o governo não vê o empresário como um parceiro que tá gerando emprego, que tá pagando seus impostos. Então eu chamo o brasileiro todo de corno manso, porque, assim, eles fazem, fazem, fazem e a gente fica quietinho, entendeu? Os caras estão lá fazendo um monte de coisa com a gente e a gente está assim, beleza, né? Ah, fecha, abre, fecha, faz isso, faz aquilo outro. Então eu também sou a favor do lockdown, mas desde que ele seja organizado e que todas as pessoas tenham suporte, que as pessoas simples recebam cestas básicas em casa, que os empresários tenham suporte para poder afastar seus funcionários. Porque, cara, você manda fechar uma empresa e tudo, aí eu faço o quê com meus empregados? Ninguém falou para mim assim: olha, você vai afastar e tudo bem, tudo bem de você afastar, se o cara depois entrar com um processo trabalhista contra você a gente vai estar dando esse suporte para você. Nem isso os caras fizeram. Então eu me sinto desrespeitado, porque sou um cara que paga meus impostos como muitos e muitos e muitos empresários.
Eron Falbo: [50:56] Eu acho que tá na hora, a gente, como brasileiro... Sinceramente, estou falando isso do fundo do coração, porque eu passei boa parte da minha vida lutando contra ser brasileiro, em escola americana, escola britânica, cresci fora do Brasil também, e eu sempre fingi que era brasileiro. Aí, como um grande homem uma vez me disse, você entende que é brasileiro quando mora muito fora, você entende que não é outra coisa. Você vai para a Inglaterra... Eu passei quatro anos na Inglaterra e entendi que eu não sou inglês. Não, o sistema é incompatível, eu sou brasileiro. E isso me trouxe um orgulho de ser brasileiro que vem de uma coisa muito misteriosa. Porque, racionalmente, você não vê muita coisa por qual se orgulhar dentro do Brasil. Só que existe alguma coisa essencial em ser brasileiro, e eu acho que a gente tem que começar a se despertar, acordar desse sono profundo do corno manso, como você falou, de ser usado pelo Estado, e parar de olhar para o Estado para as nossas respostas. Cara, se a galera não está respondendo, vamos criar coisas alternativas, vamos se unir, vamos criar clubes, grupos para um apoiar o outro, e foda-se o Estado, ignorar o Estado e fazer a sociedade civil funcionar, entendeu?
Eron Araújo: [52:30] Porque se a gente... Sociedade forte. Se a gente depender de uma reforma política, que provavelmente seria feita por eles mesmos, não é muito certo, porque...
Eron Falbo: [52:43] Tem uma reforma que vai se formar, ou vai ter uma revolução que vai trocar o sistema por completo. Mas eu acredito que, até para ter essa revolução, a sociedade brasileira precisa se unir, entendeu? Precisa parar de olhar para o Estado e falar: não, beleza, o Estado fracassou, e a gente vai voltar para a sala de guerra, para a sala de planejamento, e rebobinar a fita.
Eron Araújo: [53:09] Mas é muito triste que, nos últimos anos, infelizmente, uma coisa que não tinha no Brasil era essa divisão de esquerda e de direita, e o Brasil está muito dividido atualmente. Então, isso que você falou é muito pertinente. Mas como unir tendo essa divisão?
Eron Falbo: [53:24] É isso que eu estou falando. Essa divisão está vindo do Estado também. Essa divisão é uma divisão que só serve ao Estado.
Eron Araújo: [53:33] Os caras se matam aqui e os caras ganham dinheiro sendo corrompidos ou fazendo mal para o Estado.
Eron Falbo: [53:42] Na mesa de jantar a gente fica se dividindo, e quem ganha com essa divisão é o Estado. Não é nem o Bolsonaro, nem o Lula, nenhum dos dois ganha. É o Estado como poder. Se o Estado fica mais forte, as famílias ficam mais fracas, o indivíduo, o empresário, fica mais fraco, e quem ganha é a demagogia, porque aí fica mais fácil de vender ideia. Tipo, você fala: você é de direita ou de esquerda? Ah, se você for de direita, você acredita em tal coisa. Aí a galera compra essa merda.
Eron Araújo: [54:12] Fica ligando... E ficam se matando na internet, um xingando o outro, outro chamando um de gado, outro chamando isso daqui. Então, sim, eu acho que a gente tem que ser brasileiro. A gente não tem que pensar: ah, eu sou de esquerda, eu sou de... Eu sou brasileiro! E eu preciso acreditar que esse país tem jeito. Esse país é maravilhoso, esse país é incrível. A gente tem um sério problema que, para mim, é o sistema político. Infelizmente, não acho o brasileiro tão politizado como deveria ser. Se ele fosse, ele ia entender realmente isso tudo que a gente está falando aqui. Porque você não pode ficar cego e só o que um fala é certo, você tem que abrir sua cabeça. Mas tudo isso, na minha opinião, envolve educação, e a educação você precisa construir a longo prazo, e o Estado precisa investir muito nisso.
Eron Falbo: [55:05] Mas, assim, eu dando a minha opinião sobre isso... É que essas coisas, eu sou quase ativista nisso, então me perdoa.
Eron Araújo: [55:14] Imagina.
Eron Falbo: [55:15] Tipo assim, eu sou muito anti-Estado, entendeu? E o Estado dando educação... O que acontece é aquela coisa do Paulo Freire: o Paulo Freire fez o MEC que a gente conhece hoje, e é tudo desenhado para poder sustentar a ideologia política que ele acreditava. Isso é muito problemático, porque as escolas educam um pouco. Claro que é melhor você ter alguma alfabetização do que ser totalmente ignorante. Só que o problema é que, quando você entra numa coisa do MEC, do currículo do MEC, as escolas do Estado acabam sendo matadoras, acabam sendo açougues, onde as pessoas estão entrando e estão perpetuando essa ideologia corno manso, perpetuando essa mentalidade. E isso é superproblemático. Eu digo que a gente tem que se emancipar do Estado. A gente tem que... Tipo assim, eu estava falando com uma mulher maravilhosa, incrível, a Dona Thalita, que eu vou dar uma explicação, e ela estava falando que, na comunidade dela, na favela, ela tem uma educação melhor do que a gente tem na zona sul do Rio.
Eron Araújo: [56:36] E por quê?
Eron Falbo: [56:37] Por que isso? Porque o que é educação, de fato? Educação é você preparar a pessoa para a vida. Não é você ser doutrinado e memorizar coisas para passar no vestibular, porque isso só, você entrou no sistema e permaneceu no sistema. Então a favela tem uma educação melhor, que é gratuita, e é melhor no seguinte sentido: porque lá eles não têm que ser público do MEC, porque eles não são registrados. Por causa disso, eles podem botar os valores deles, e você pode acreditar no que você quiser. Mas a grande maioria das pessoas em favela são pessoas do bem, não são criminosos.
Eron Araújo: [57:19] Eu acredito muito nisso.
Eron Falbo: [57:21] São pessoas que são às vezes submetidas a regimes de criminosos, mas são pessoas que vivem em comunidade, têm valores familiares, são educados. Você veio de um background humilde, mas tenho certeza absoluta que você foi educado com valores, com princípios, foi educado para o mundo. E muita gente que é playboy da Zona Sul não tem esses valores, essas coisas todas. Então, é isso que eu tô falando. É uma sociedade que não tem subsídio do governo. A favela não tem ajuda nenhuma. E no final, os filhos, eles têm oportunidades muito menores. Ah, eles não estão sendo bem protegidos. É porque, porra, eles cresceram no pior das circunstâncias econômicas possíveis, né? Mas em termos de estar preparado pra vida, eu tenho certeza absoluta que um cara que cresceu na favela é muito melhor do que eu.
Eron Araújo: [58:15] Acho que a sua internet travou agora.
Eron Falbo: [58:19] Acho que ambas as internets travaram.
Eron Araújo: [58:20] A minha acabou aqui. Melhorou?
Eron Falbo: [58:24] Não, não. Voltou. Mas de qualquer jeito, a gente ultrapassou o nosso tempo, mas o papo estava bom.
Eron Araújo: [58:31] Deixa eu só mandar um beijo para o Cris. Cris é o diretor do programa do Faustão, um amigão. Um beijo grande para você. Nossa, já passou o nosso tempo?
Eron Falbo: [58:44] Já passou, né? Parece que nem começou ainda, gente.
Eron Araújo: [58:47] Ah, que legal. Que pena, aliás. Que pena.
Eron Falbo: [58:50] Eu te prometo que a gente faz outra live juntos. Até porque eu sei dessa coisa de herói com herói, assim...
Eron Araújo: [58:59] Eu adorei, adorei, adorei, adorei. Adorei que muita gente entrou. Fiquei feliz com a galera participando. Desculpa não responder todo mundo aqui, porque a gente ficou no nosso papo. Mas, galera, obrigado pela companhia de vocês aí, por estar prestigiando a nossa live. Eron, foi um prazer gigantesco te conhecer um pouco melhor. Você é um cara aí que tem muito repertório, muito conteúdo. E eu adorei participar, adorei o convite. Pode me chamar quando você quiser, vai ser um prazer.
Eron Falbo: [59:28] Bom, Eron, você me emocionou muito com a pessoa que você é, com a surpresa de te conhecer, essa coisa de conciliar várias coisas que são inconciliáveis.
Eron Araújo: [59:42] Não é à toa que a gente se chama Eron, né?
Eron Falbo: [59:47] E é isso, cara. Pô, muito prazer enorme de te conhecer, de saber que você existe. E tamo junto aí, qualquer coisa que você precisar. Me liga aí, você tem o meu número.
Eron Araújo: [1:00:01] Obrigado.
Eron Falbo: [1:00:02] Vamos conversando, vou te visitar aqui no Rio também.
Eron Araújo: [1:00:06] Tá bom.
Eron Falbo: [1:00:06] Obrigado por aceitar o convite, por esse conteúdo maravilhoso que você forneceu, desde integridade pessoal da moda até a tributação. Que legal! Especialmente em termos da sua coragem, da sua integridade pessoal, da sua simplicidade, já que você podia ser um cara que esnoba outras pessoas. Você tem tudo para isso. Você veio de um background na mídia, você calçou... Porra, você, em termos de onde você saiu, para onde você está, você ganhou mais ainda do que os seguidores que você tem, mais que eu.
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