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Eron Falbo: [0:05] Ô, Dona Maria, seja bem-vinda! Você entrou no alvo.
Maria dos Anjos: [0:11] O que que tá acontecendo? O que que é contra nós?
Eron Falbo: [0:15] Isso é o Jeff Bezos, que é o Lex Luthor. Tá tentando dominar o mundo e destruir o mundo. O dono da Amazon.
Maria dos Anjos: [0:27] Ai, ai, ai.
Eron Falbo: [0:29] Ela tá tirando o tarô aqui. Olha o tarô, que lindo.
Maria dos Anjos: [0:32] Ô, que maravilha.
Eron Falbo: [0:33] Tarô todo dourado. A senhora gosta ou não?
Maria dos Anjos: [0:37] Eu adoro. Maravilhoso, maravilhoso.
Eron Falbo: [0:44] E vamos brindar. Como é que a senhora está aí de vinho? A gente vai beber a garrafa inteira ou só uma tacinha?
Maria dos Anjos: [0:55] Como?
Eron Falbo: [0:55] Vamos beber a garrafa inteira ou só uma tacinha?
Maria dos Anjos: [0:59] Depende. Se a conversa for longa, a garrafa está cheia.
Eron Falbo: [1:06] Precisa de mais tempo, né? Não dá para a gente virar o copo, não.
Maria dos Anjos: [1:10] Então, saúde!
Eron Falbo: [1:12] Saúde, saúde. Saúde à senhora, que a senhora passe por essa pandemia inteira, para a gente poder brindar juntos, pessoalmente.
Maria dos Anjos: [1:20] Maravilha.
Eron Falbo: [1:21] E todos nós.
Maria dos Anjos: [1:23] Delicioso. Já me encantou o suficiente. Oh, que maravilha! Fantástico!
Eron Falbo: [1:31] Olha só, estamos bebendo um maravilhoso Esteva do Douro. É uma das minhas regiões favoritas de vinho, o Douro, sabia?
Maria dos Anjos: [1:42] É verdade. Eu gosto imenso. Ele é um vinho da casa Ferreirinha, não é? Então, é uma casa muito tradicional e geralmente produz excelentes vinhos.
Eron Falbo: [1:58] Essa eu não conheço, porque eu não sou grande conhecedor de vinho, mas eu vou lembrar desse nome, Casa Ferreirinha. Essa é uma casa boa? Pode confiar?
Maria dos Anjos: [2:07] Pode confiar, pode confiar. Inclusive a casa onde se produz o Barca Velha, que é outro excelente vinho, não é? Entre outros, não é? Mas é excelente. O vinho do Porto Ferreirinha é um dos melhores também.
Eron Falbo: [2:23] Vou pedir para o pessoal da produção anotar aqui, Barca Velha, para a gente poder tomar no nosso happy hour da empresa.
Maria dos Anjos: [2:32] Se quiser, pede para a Milena e eu mando alguns nomes divinos dessa casta, que é muito boa.
Eron Falbo: [2:39] Maravilha, aceito com muita ansiedade. E aí, Dona Maria, vamos conversar um pouquinho sobre sua arte, sobre sua vida. O Alvo falou tão bem da senhora que eu achei melhor a gente fazer uma live aqui para mostrar para o mundo seu conhecimento, tudo que você tem passado para os seus pupilos, para os seus artistas que a senhora agencia, que a senhora ajuda. Então, se a senhora puder dar uma introdução sobre a sua vida, sobre como a senhora começou na arte. Acho que vamos começar dos primórdios, talvez, para a gente te conhecer um pouquinho.
Maria dos Anjos: [3:29] Ok. Eu gostaria muito de agradecer ao ABE, né?
Eron Falbo: [3:34] Ao Niazi.
Maria dos Anjos: [3:35] Abessã. Eu chamo ele de Abessã.
Eron Falbo: [3:39] Ah, desculpa, o Abe.
Maria dos Anjos: [3:41] O Abe, é. Por ele ter nos aproximado. Fui muito grata a ele, ele é muito simpático. Ele é um excelente artista, é um querido artista e um amigo incondicional. Ele está, inclusive, com uma exposição individual online, que é curada pela Angela Zark-Geller e por essa pessoa que nos fala. Eu comecei muito cedo na arte, na pintura. Com cinco anos, ganhei de um tio meu lá em Portugal uma caixa de aquarelas que ele me trouxe da Inglaterra. E penso que foi o despertar para uma vida de arte. Nunca mais parei. Mesmo na escola, eu desenhava até na estrada, na rua, com giz. Qualquer papel para mim era ótimo para desenhar, os cadernos de escola, todos decoradinhos. Depois que viemos para o Brasil, continuei pintando. Nunca mais deixei de pintar, nunca mais deixei de desenhar.
Eron Falbo: [5:06] A senhora veio para o Brasil com quantos anos?
Maria dos Anjos: [5:09] Oito.
Eron Falbo: [5:10] Ah, por isso que tem um sotaque tão bom brasileiro. Eu estou te entendendo, dá para te entender. Mas tem um leve sotaque português. É engraçado, mesmo com oito anos...
Maria dos Anjos: [5:25] Com o Estêvão aqui perto, melhor ainda. Não dá para esquecer totalmente. Mas é muito bom. Eu vou lá muitas vezes, e muitas vezes ao ano, sempre a trabalho. E é muito gostoso. Eu gosto do sotaque da casa-mãe. Então, a gente sempre pega um pouquinho. E eu até faço questão de não esquecer algumas coisas, algumas frases, algumas entonações, porque eu acho que isso me faz muito bem.
Eron Falbo: [6:06] Com certeza, e faz bem para muitos brasileiros. É uma questão assim, a gente tem uma irmandade muito grande, os dois países. Não é tanto, não houve um rompimento tão grande quanto em outras colônias, porque aqui o Brasil era a capital do Império Português, então não era um lugar distante, tipo Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos, da Inglaterra. Era um lugar onde a família real continuou, e o Império Brasileiro foi fundado por um rei, que depois foi rei de Portugal também, que herdou o reinado de Portugal. Então, é uma irmandade muito maior, e eu acho que o brasileiro sente isso. A senhora concorda? Quando ele vai para Portugal...
Maria dos Anjos: [7:00] Eu plenamente. Eu nunca senti algo que me entristecesse de algum brasileiro para comigo, muito pelo contrário. Acho que sou uma pessoa muito querida pelo povo brasileiro, pelos artistas brasileiros. Na faculdade, eu nunca tive problema de bullying, eu nunca, não senti absolutamente, e até hoje eu continuo sendo a baixinha, continuo sendo a portuguesinha, a minha portuguesinha, às vezes o pessoal fala: 'ó, a minha portuguesinha, ó', mas é sempre tão carinhoso isso, que eu me sinto em casa. Eu sempre, quando as pessoas me perguntam de onde eu sou, eu conto a história e tal. Mas você é mais portuguesa ou mais brasileira? Olha, eu sou cidadã portuguesa, nascida em Portugal, vivo no Brasil, então meu coração é brasileiro. Sou uma cidadã do mundo também. Então, eu acho que sou uma privilegiada, Eron. Eu acho que quando a gente tem dois grandes amores que são apaixonados e que convidam também, não há coisa melhor. Lá, sou bem tratada, sou sempre muito bem recebida. Aqui eu vivo em paz e sou reconhecida, que às vezes até me emociona, não sei se mereço tanto, mas sou muito feliz por isso.
Eron Falbo: [8:59] Com certeza, Maria, a senhora é muito querida, muito simpática, alegre, aberta. Isso eu percebi em dois minutos de conversa com a senhora na Califórnia. Imagina com a vida de amizade. Quantas camadas de talento e doçura dá para sentir na senhora.
Maria dos Anjos: [9:20] Obrigada. Então, muitas vezes no Rio, no início da minha carreira, eu expunha no Rio, numa galeria muito importante que tinha na Barata Ribeiro, e eu ficava muito no Rio, me apaixonei pelo Rio também. Assim como o Dom Pedro, eu também me apaixonei pelo Rio de Janeiro. E tive até recentemente uma galeria aí no shopping Cassino Atlântico, que esta pandemia fez a gentileza de ajudar a fechar. Mas por causa disso, senão eu não tinha parado, eu tinha continuado. E a intenção é, não sei quando, mas voltar algum dia, porque sou extremamente feliz vivendo em São Paulo, morando em São Paulo e viajando, e muitas vezes me dando conta de que passo dias e dias infinitos no Rio de Janeiro. E eu, de paixão, adoro.
Eron Falbo: [10:27] E a senhora é de Évora, em Portugal, não é?
Maria dos Anjos: [10:29] Eu nasci numa aldeia, que hoje é cidade, mas na época em que eu nasci era uma aldeia, chamada Niza, que fica a 30 quilômetros de Évora.
Eron Falbo: [10:40] Uau, 30 quilômetros de Évora? É porque Évora já não é uma das maiores cidades, não é?
Maria dos Anjos: [10:46] É, é uma cidade importante, com vestígios romanos muito importantes. Ah, eu nunca estive nela.
Eron Falbo: [10:57] Na verdade, eu descobri Portugal tardio na minha vida. Eu morei quatro anos na Inglaterra e nunca fui para Portugal. Aí, recentemente, uns três anos atrás, eu fui para Portugal porque minha mãe se mudou para o Porto. Aí eu fui para lá e descobri minha família.
Maria dos Anjos: [11:14] A minha galeria em Portugal é no Porto.
Eron Falbo: [11:17] Oi?
Maria dos Anjos: [11:17] A minha galeria em Portugal é no Porto.
Eron Falbo: [11:20] Ah, é? Ah, interessante. Vou falar para minha mãe visitar quando estiver aberto. E eu descobri minha família de Bragança. Eu tenho uma família grande em Bragança. E foi uma maravilha. Eu me apaixonei completamente. Eu descobri um país com um povo culto, carinhoso. E assim, tem o carinho do brasileiro e tem a cultura, vamos dizer, do europeu, do francês, talvez. Tem o senso de estilo. O Porto não tem um pedaço de lixo em qualquer lugar.
Maria dos Anjos: [12:07] Verdade.
Eron Falbo: [12:09] É impressionante isso. Você vai para Paris e vê lixo em todo lugar. Então, para mim, isso foi impactante, porque eu sempre pensei que Portugal era um país, vamos dizer, muito parecido com o Brasil no mau sentido.
Maria dos Anjos: [12:27] É muito interessante, é um país limpo. Sim, as ruas costumam estar bem mais limpas do que nós temos aqui. Infelizmente, que é uma pena, mas é bom para lá.
Eron Falbo: [12:44] Maravilha. Então, se a senhora puder continuar sua história: você veio para o Brasil e se mudou para cá, seu pai te deu esse presente?
Maria dos Anjos: [12:57] Meus pais foram imigrantes e aqui ficaram. E se apaixonaram. Minha mãe tem 94 anos.
Eron Falbo: [13:08] Era ela que estava te ajudando a comentar no Instagram?
Maria dos Anjos: [13:11] Não, era ela que estava ajudando a minha filha. A Fátima, minha filha.
Eron Falbo: [13:17] Eu não vi.
Maria dos Anjos: [13:18] A minha mãezinha, a única coisa que ela nos pede é "me enterre no Brasil". A grande paixão do meu pai era o Brasil.
Eron Falbo: [13:30] É mesmo?
Maria dos Anjos: [13:31] Eles amaram viver aqui, adoraram. Meu pai já partiu para outra dimensão, mas ele amava este país mais do que qualquer coisa. Ele foi muito feliz aqui. Minha mãezinha ainda está viva. Ela costuma sempre dizer que é muito feliz por ter vindo para o Brasil, por conhecer o Brasil. E é indiscutível a paixão que a gente tem por este país.
Eron Falbo: [14:02] A gente precisa de mais brasileiros com essa paixão.
Maria dos Anjos: [14:05] Eu sou muito feliz. Acho que a minha família também é muito feliz. Meus filhos são brasileiros. Minha vida toda é aqui, meus amigos, a grande maioria são brasileiros.
Eron Falbo: [14:22] E como a senhora iniciou profissionalmente na arte?
Maria dos Anjos: [14:27] Eu comecei fazendo aula de belas artes, frequentei movimentos estudantis, essa coisa toda. E depois continuei sempre nas belas artes, na história da arte e tal. Quando me formei, comecei a expor. Eu expus em vários lugares no Brasil, de norte a sul, e fora do Brasil. Comecei a expor fora do Brasil, inclusive no Japão, para onde fui várias vezes.
Eron Falbo: [15:09] E como a senhora, de estudante, passou a se expor, especialmente no Japão? Como foi esse pulo? Como a senhora se desenvolveu?
Maria dos Anjos: [15:23] Eu tive um ateliê na Avenida Paulista. E ali, em São Carlos do Pinhal, tem o Maxur de Plaza. E lá dentro, naquela época, tinha uma lojinha e eu deixava lá algumas telas de vez em quando. E um senhor passou por lá, gostou de uma tela, comprou. Depois deu volta ali pela Alameda Campinas e tal, entrou numa galeriazinha que tinha ali, uma galeria pequena também, gostou da tela e comprou. Quando ele chegou no hotel, ele percebeu que era a mesma assinatura e, obviamente, eram obras do mesmo artista. E aí ele chegou na lojinha lá e falou, olha, eu quero falar com este artista. Aí a pessoa da lojinha disse, ela é uma artista, é uma mulher. Ele falou, mas com essa pincelada, agora é que eu quero conhecer mesmo.
Eron Falbo: [16:34] Porque ela é uma pessoa muito masculina, como é que funciona isso? Eu não entendo isso.
Maria dos Anjos: [16:42] É porque eu sou pequena, de estatura e tal, mas tenho uma pincelada forte. Então, mais ou menos, as pessoas acham que a minha pincelada é uma pincelada de homem, de macho, uma coisa mais forte, não é? E não é tão delicada. Suponho que a mulher pinte com mais delicadeza. Talvez eu tenha um pouco dessa delicadeza, enfim, uma forma de conduzir, talvez, não sei. Mas na pincelada eu não sou tão frágil.
Eron Falbo: [17:16] A senhora pode mostrar algumas obras suas?
Maria dos Anjos: [17:19] Bom, hoje tenho aqui mais obras de artistas com quem trabalho, mas, em outra oportunidade, sim, posso espalhá-las pela casa.
Eron Falbo: [17:32] Ah, sim. Mas agora não tem nada para a senhora mostrar? Uma ou duas, talvez?
Maria dos Anjos: [17:36] Não, não tem nada.
Eron Falbo: [17:42] Ah, de outros artistas, olha só, que humildade. A minha casa é cheia de fotos minhas espalhadas pela parede. Eu sou super egocêntrico. A senhora põe outros artistas, é impressionante. E eu não sou nem talentoso, é só foto mesmo, de outra pessoa que tirou.
Maria dos Anjos: [18:01] Não, mas daqui a pouco vou pegar um que tenho ali, que é um quadro com telas pequenas, todas elas com figuras, só com rostos. Foi uma fase que eu tive, só pintei rostos, mas não rostos assim bonitinhos.
Eron Falbo: [18:18] Não figurativos.
Maria dos Anjos: [18:19] Deformados, loucos, rostos bem loucos, não é? Expus muitos anos na Europa toda, inclusive na Índia, na China.
Eron Falbo: [18:40] Mas o que eu gostaria de entender é como é que funciona essa cena das artes plásticas de se tornar um artista reconhecido. Porque eu acho que muita gente que está nos ouvindo agora gostaria de saber isso, porque todo mundo, mesmo que não esteja fazendo artes plásticas na faculdade, hoje em dia a gente vive num mundo que as pessoas, mais e mais, estão se conectando com o artista dentro delas. Então, independente de serem advogados ou, Deus me livre, dentistas... se conectam com música ou com algum talento que faz, e gostaria de saber como desenvolver isso mais, como ser reconhecido, como se desenvolver, porque às vezes a primeira coisa que o artista pensa é como eu posso ser reconhecido, mas o artista mais maduro já pensa mais em se desenvolver, em ser melhor, independente do reconhecimento. Então, se a senhora pudesse endereçar esse assunto, que a senhora tem muita experiência com isso, seria muito bonito para a gente.
Maria dos Anjos: [19:56] Então, esse japonês que comprou essas duas telas, quando chegou no quarto, que olhou, que era a mesma assinatura, quis conhecer. Bom, eu fui lá, fui chamada, almocei com ele e teve um amigo, porque ele... japonês e morando lá, e como ele falava vários idiomas, deu para a gente se entender um pouquinho em espanhol, um pouquinho em inglês e tal, e conseguimos conversar. E ele me convidou para expor na galeria dele em Osaka. E eu fiquei muito impressionada, porque, quando eu fui para o Japão, ele disse: olha, eu lhe dou a primeira passagem, pago a sua estadia lá e você vai, e tem que me levar 30, 40 telas. E eu fui um pouco mais atrevida, me preparei, e depois disso, com esse convite, preparei 57 telas.
Eron Falbo: [21:08] Uau, que isso! Por isso que todo mundo te ama, a senhora faz o dever de casa muito bem. Quem faz isso? Quando alguém me pede para fazer dez, eu falo, pô, aqui nove, com muito esforço.
Maria dos Anjos: [21:22] Então, levei, mas foi impressionante. Três dias antes da abertura, a exposição já estava montada, e ele chamou os colecionadores. Tinha tudo vendido, três dias antes. Aí ele me disse, olha, eu sinto muito, mas você vai ter que trabalhar. Vou comprar telas e tintas e você vai ir a um local lá onde eu ficava.
Eron Falbo: [21:53] Lá no Japão?
Maria dos Anjos: [21:54] Lá no Japão, só comia.
Eron Falbo: [21:57] Mas não tinha problema de conversão? Você achou todos os materiais que precisava?
Maria dos Anjos: [22:03] Tudo. Tudo, tudo. Os melhores pincéis, as melhores telas, as melhores tintas.
Eron Falbo: [22:12] E o japonês é tão apaixonado por arte, por cultura. Parece que o Japão foi tirado da Califórnia. Saem andando assim, que é muito parecido; no Japão é um pedacinho de terra assim, que é igual à Califórnia. Adoram todo tipo de seita, lá tem todo tipo de religião, adoram todo tipo de música. Você sabe que os maiores fãs de... eu já vendi vinil, né? Eu tenho um grande amigo que tem loja de vinil. E os maiores fãs de coisas mais obscuras, você pode imaginar, é no Japão.
Maria dos Anjos: [22:54] No Japão.
Eron Falbo: [22:54] Não dá nem pra entender como que eles acham. Artista brasileiro, o melhor violonista brasileiro, eles têm lá todos os dias, e a gente nunca ouviu falar. Vem, vai.
Maria dos Anjos: [23:07] E eles são assim mesmo. E quando eles gostam, eles te dão todo o apoio. Na noite de abertura, não teve um convidado que não chegasse com um presente para mim. Eu ganhei desde o uísque, o samurai, aqueles uísques de arroz, aquela coisa, os mais caros que você possa imaginar, até um cinto de couro. Eu recebi flores, nessa fala eu disse: eu não sei como é que eu...
Eron Falbo: [23:40] Vou levar isso, porque a senhora gosta de bebida. E o whisky japonês, conhece de vinho, a gente vai ser muito...
Maria dos Anjos: [23:47] Amigo. E aí eu fui, foi maravilhoso. Além dessas 57 telas, pintei mais 30, 40. Vendi mais 32 telas até terminar a exposição. Telas pequenas, não telas grandes: telas 50x60, 60x70, a maior que eu tinha, 1x1. Mas essas foram as primeiras que levei daqui.
Eron Falbo: [24:21] 50x70 não é tão pequena, não.
Maria dos Anjos: [24:23] É, já é um bom tamanho, porque ele me disse que não traga muito grande, porque no Japão os espaços são pequenos. E eu acho que não pedi tanto, porque as obras não eram muito grandes. Depois voltei para o Brasil, e teve um terremoto lá em Osaka que abalou. Foi uma loucura, acabou com o museu.
Eron Falbo: [24:54] Eles sofrem tanto lá no Japão, isso é outra coisa, tem cada desastre.
Maria dos Anjos: [24:59] É verdade. Eles me ligaram, meu marchand me ligou e disse: olha, nós vamos fazer um leilão aqui, se você puder ajudar com algumas obras, você manda e nós leiloamos. Ok. Aí eu pensei: poxa, mandar só duas, três obras minhas não vai refrescar nada. Pensei: vou convidar. O Mabe era vivo, pedi ao Mabe uma obra para mandar, pedi uma obra a Tomie Ohtake, o Antônio Henrique Amaral, o Fang, enfim, os grandes mestres da época.
Eron Falbo: [25:42] E eles gostavam especialmente da Tomie Ohtake por ser de descendência japonesa? Ela é de descendência japonesa.
Maria dos Anjos: [25:48] Na verdade, eles queriam tudo que eu mandasse, porque isso ia virar dinheiro, não é? Eu mandei, consegui 30 obras de artistas relevantes.
Eron Falbo: [26:03] E, Dona Maria, o que eu quero perguntar para a senhora é o que a senhora acha que a senhora fez de certo, que é mérito seu, na hora de desenvolver sua arte, para poder ser reconhecida, para poder ter essas vendas. E eu falo isso no ponto de vista de negócios mesmo, porque tem muito artista bom, tipo Van Gogh, que não vendeu durante a vida dele, que talvez não se predispuseram a se colocar no mercado, a entender como funciona. E eu sei que a senhora tem os dois lados, tanto quanto artista de fato, trabalhando e vendendo sua obra, como vendendo de outros artistas. Isso é muito interessante, eu acho, para quem está nos escutando, que é esse pulo do gato, de como você conhece o mercado da arte e como você coloca a sua arte para dentro do mercado.
Maria dos Anjos: [26:58] Um bom marchand, uma boa galeria, uma obra bem feita, bem executada, uma obra séria, ela alcança, mais cedo ou mais tarde, ela alcança o seu devido lugar. Isso eu não tenho a menor dúvida. E, porque eu tive, felizmente, tanto sucesso, isso eu posso te dizer que é verdade, eu tive um problema de saúde. E nesse problema de saúde eu fiquei dois anos sem sair de casa, sem pintar, sem trabalhar. Aí eu pensei, refleti muito, e pensei: vou fazer alguma coisa que me traga algo além de vender a minha obra, para além daquilo que eu tenho feito até aqui. E pensei em trabalhar com alguns artistas. Tem artistas espetaculares que não vendem, estão escondidos... A maioria não tem como fazer investimento, não tem conhecimento. Então foi isso que me levou a trabalhar com os artistas, porque tem artistas que não são conhecidos, que não têm, digamos, um grande currículo, mas têm uma obra espetacular. Então eu quis mostrar que também existe esse lado. Levando para fora, tenho levado artistas para o mundo inteiro. E sou extremamente grata a Deus por isso, por conseguir fazer isso. Não é tudo que o artista faz que a gente tem que expor. Há que ter uma seleção, por isso a curadoria é importante.
Eron Falbo: [29:06] E o que a senhora recomendaria para um artista que não está iniciando... Iniciando é aquele artista que está experimentando ainda, mas um artista que está pronto para se expor, que já tem obras, já passou por aquela primeira fase de encontrar a própria voz e entender o que quer. A senhora falou uma coisa muito importante: a curadoria. Eu venho do mundo da música, eu trabalhei na indústria fonográfica. E no mundo da música, acho que em qualquer mundo artístico, você tem esses mesmos parâmetros universais de, por exemplo, fazer uma curadoria. Eu lembro que quando eu comecei a trabalhar com o Tony Calder, que foi empresário dos Rolling Stones também, e eu tive o privilégio de ser um dos artistas dele também, ele negou trabalhar com o disco. Eu tinha gravado um disco com um grande produtor, que eu achei que ia ser com certeza acolhido, que ele ia pegar para ele e falar: pô, esse aqui é produtor, qualquer coisa. Só que ele me falou: esse produtor não faz hit, ele não faz música que vende. Então, apesar de ele ser um excelente produtor e ter produzido os maiores nomes da música folk, que era o que eu fazia, ele não sabe fazer música que vende. Aí que eu comecei a entender que no mercado existem esses parâmetros. Eu, como artista, eu estava pronto para me lançar e coisas do tipo. E eu queria ver da senhora essa perspectiva desse limiar, esse momento entre eu estou pronto e eu quero ganhar dinheiro agora, eu quero me profissionalizar, eu quero ser aceito pelo mercado. Tudo que a senhora puder dizer sobre isso para o artista plástico. Qual é a mensagem, se a senhora estivesse falando com um artista plástico, sobre curadoria, esse tipo de coisa que a senhora estava falando?
Maria dos Anjos: [31:16] Quando um artista tem uma boa obra, ele não pode ficar escondido, ele tem que ser mostrado. Como é que você pode mostrar a obra de um artista? Pertencendo a uma instituição cultural, onde você vai selecionar as obras dele, e selecionar até os artistas que vão escolher lá, ou sendo independente, levando-o para diversos lugares, tanto nacionais como internacionais. Mas, em tudo o que você fizer, tanto no independente como no curador fixo numa instituição cultural, precisa de dinheiro para fazer catálogos, para fazer boas exposições, a custos exorbitantes. Então, o patrocínio é extremamente importante. Você tem que ter patrocínio, você tem que ter dinheiro.
Eron Falbo: [32:26] E para alguém que não tem dinheiro, existem ainda os mecenas? Existem pessoas que adotam artistas, que levam os artistas para frente?
Maria dos Anjos: [32:36] Caríssimo! Claríssimo. Hoje você tem que fazer um projeto e tentar viabilizá-lo através da Lei Rouanet, através de outras leis que tem por aí. Consiga esse patrocínio para poder expor os artistas nos lugares melhores que puder. E sem dinheiro, ninguém... Primeira coisa, você bate numa porta, você vai numa galeria nacional ou internacional.
Eron Falbo: [33:12] Dona Maria.
Maria dos Anjos: [33:14] E a pessoa vai dizer que tem patrocínio, tem dinheiro, fazemos. Não tem dinheiro.
Eron Falbo: [33:21] Dona Maria, por que não existe mais mecenas?
Maria dos Anjos: [33:26] Porque... Acho que isso foi se diluindo. E hoje você conta nos dedos os artistas que têm mecenas que investem neles. Eu conheço uma artista que tem mecenas. Mas conheço centenas de artistas que não têm mecenas nenhum.
Eron Falbo: [33:48] Que adorariam ter.
Maria dos Anjos: [33:49] Que adorariam, que precisariam ter. Essa artista é uma grande artista, é espetacular, mas, como ela, tantos outros são ótimos. Têm obras fantásticas, mas não têm mecenas. E sem mecenas hoje é muito difícil. Sem mecenas, e agora também com tudo isso, sem patrocínio, eu não sei como é que se sobrevive. Eu não sei sequer como é que estou conseguindo trabalhar. É muito, muito difícil. A arte não só está passando por um período muito difícil. Tomara que passe isso logo para que os mecenas comecem novamente a surgir, a aparecer. Lá se vai vendendo uma obra de vez em quando.
Eron Falbo: [34:48] E o que a senhora acha, como a gente poderia revitalizar o interesse dos investidores privados em arte e nos artistas? Porque eu acredito assim, não sei se a senhora sabe disso, mas eu fui do mercado financeiro, ainda sou do mercado financeiro, mas eu trabalhava mais ativamente no mercado financeiro. Eu aprendi muito sobre investimento, o que vale a pena, o que não vale a pena. Eu queria entender da senhora, que tem esse lado do business também. Eu, vamos dizer, como investidor, o que a senhora poderia me dizer para me convencer a investir na carreira de um artista e não só em obras?
Maria dos Anjos: [35:32] Então, você tem que ter esse poder de persuasão oferecendo. Uma obra que você, depois de pesquisar, é uma obra que vale a pena... Você tem que convencer o mecenas ou o investidor, nesse caso, que vale a pena investir nessa obra.
Eron Falbo: [35:56] Acabei de pensar em alguma coisa. Eu percebi uma coisa que acho que é relevante, que a gente chama mecenas, e acho que a concepção popular tem mecenas como um grande benfeitor, que está ajudando o artista meio que de graça. Mas, se a gente for analisar os mecenas históricos mais a fundo, a gente percebe que não é exatamente assim. Os mecenas, muitas vezes, ganharam muito dinheiro com os artistas que ajudaram. Muitos mecenas viraram mecenas profissionais, no sentido de ter cinco a dez artistas que ajudavam e tinha um desconto enorme ou de graça, aquelas obras maravilhosas. Desenvolviam os artistas e, no final, tinha patrimônio em nome desses artistas. Famílias de banqueiros, a família Rothschild, acho que é o Oppenheimer, do pintor, a família Médici, com o... Qual o nome dele? Bertolucci? Não, Bertolucci não. Esqueci o nome agora. Bom, mas famílias de banqueiros, sobretudo, que já são investidores e tudo mais. E eu acho que a gente pode fazer essa hipótese: nós, eu e a senhora, como artistas, como que a gente pode convencer investidores que é um bom negócio. A senhora acha que isso tem futuro? Porque eu pessoalmente não vejo que o governo tem futuro, entendeu? Eu não vejo que estatais têm futuro, eu acho que nem deveria ter. Pessoalmente, eu acho que a sociedade civil deveria ser autossuficiente, não depender do Estado para... Infelizmente, a gente depende porque não tem dúzia, etc. Mas eu queria ouvir da experiência da senhora. O que convence esses investidores a saírem dessa coisa? Não, mas mecenas é um benfeitor e, na verdade, pode ser um grande investimento você encontrar artistas.
Maria dos Anjos: [38:16] Olha, eu vou lhe contar um caso bem simples. Eu encontrei um menino, um rapaz que um dia veio no meu escritório e disse assim: eu gostaria de comprar arte. A senhora me enviou umas imagens e eu quero comprar uma dessas obras, que eram umas pequenas. Eu quero que a senhora me indique qual desses artistas eu posso comprar. E aí ele disse: eu não quero perder dinheiro. Eu percebi que poderia ter ali um grande colecionador. Então, tratei de ser o mais honesta possível e falar a verdade, porque, ao olhar uma obra de arte, você percebe se aquele artista vai parar no começo, no meio, ou se vai até o final. Então, a gente já tem essa percepção. Eu, pelo menos, olho e já sei até onde é que eu posso ir, onde é que eu posso acreditar. E, nisso, eu disse para ele: olha, você pode investir nesse artista. Aí ele disse assim: quanto custa esse quadro grande? Eu falei: se fosse você, começava comprando esse pequeno, porque no mês que vem eu vou ter outro artista e você vai comprar outra obra pequena. Durante dois anos ele me comprou uma obra por mês. Ele tinha, ao final de dois anos, 24 obras. Ele chamou uma pessoa que hoje já não está no meio, teve uma grande decepção e saiu do meio, mas ele chamou essa pessoa, que tinha uma galeria, e disse: eu quero que o senhor avalie esta minha coleção que estou fazendo há dois anos. Diz ele: olha, eu te compro por tanto. Aí ele fez as contas, disse: tá bom, depois eu dou a resposta. Ele veio aqui e disse: eu quero que você continue fazendo comigo o que você fez durante esses dois anos, porque aquilo que eu apliquei durante tal tempo vale tanto. Eu forneci. Isso é muito importante.
Eron Falbo: [40:54] Se a senhora me permitir, eu, dentro do mercado financeiro, eu trabalhava com vendas. E no mercado financeiro, especialmente se você trabalha com vendas de high net worth, para bilionários, pessoas com muito patrimônio, você precisa ser muito, muito sutil... Como é que se diz? Sua performance tem que estar no auge, como vendas. E acho que no mundo da arte também tem isso, porque não é qualquer um que é investidor de arte, não é qualquer um que se expõe a esse tipo de coisa. Tem que ter uma inteligência, tem que ter uma sensibilidade, tem que ter dinheiro. Então, essas três coisas na mesma pessoa já é difícil pra caramba: inteligência, sensibilidade e dinheiro numa só pessoa. Então eu acho que até o mundo da arte é um pouco mais sutil ainda. Mas eu percebi, porque eu era basicamente um vendedor. A gente obviamente não chama de vendedor porque a gente não estava mexendo com sapatos, a gente estava mexendo com fundos e tudo mais. Mas eu percebi a mesma coisa que a senhora está falando sobre a importância da honestidade. E não é uma honestidade piegas, daquela tipo...
Maria dos Anjos: [42:08] Não, não.
Eron Falbo: [42:08] Você tem que ser ético. É uma questão de business mesmo. Se você não for, você vai perder o business. Eu acho que é isso que eu admirei na fala da senhora, que a senhora não chegou cheio de falsa modéstia, falsa ética. Ela falou muito claramente, para poder se sobressair, para poder ganhar a lealdade do cliente, do investidor, você precisa ser honesto, porque os maiores investidores têm acesso a todo tipo de investimento. Então, se você não for honesto, ele vai rapidamente, mesmo se você enganar ele uma ou duas vezes, na terceira vez não vai enganar, ele vai te jogar fora e não vai te recomendar.
Maria dos Anjos: [42:55] Exatamente, exatamente. Então, sou muito frontal no quesito arte, para a venda ou para a exposição, seja lá para que for. Quando acredito a sério, me aprofundo, compro a briga, vou até o fundo. Eu gosto muito do que faço, amo de paixão o que faço, por isso acho fundamental você ser honesto. Ele queria comprar uma obra, mas, se você perceber que ele é um menino que está começando a vida, eu prefiro... Claro, se chegar aqui e quiser comprar uma obra de R$ 100, R$ 200 mil, eu não vou vender, porque ele não vai me pagar. Então ele tem que subir... Você tem que saber a condição da pessoa. Vai formando, mas forme. Eu adoro formar colecionadores.
Eron Falbo: [44:03] Ah, isso é maravilhoso.
Maria dos Anjos: [44:06] E eu digo para eles, olha, vou fazer uma exposição ou tem uma série de imagens aqui, vou mandar para você, veja o que te interessa. Se você tiver dúvida de alguma coisa, me fale. Eles estão formando as coisinhas deles, isso é maravilhoso.
Eron Falbo: [44:29] Dona Maria, a senhora me conquistou, infelizmente chegou no final da nossa conversa, porque acabou o nosso tempo, mas eu tenho um monte de perguntas ainda para a senhora, espero que a gente possa conversar por telefone. Eu tô sentindo que a gente vai fazer negócios juntos, que eu vejo que a senhora entende muito e eu preciso de alguém assim. E eu quero, só para terminar, dizer a importância dessa honestidade que a senhora está falando, que eu acho que a mensagem que a gente está dando nessa conversa para os artistas é que se coloque no lugar da pessoa que está comprando e não da pessoa que está vendendo. É entender o que ele quer, o que ele precisa de verdade. Eu, graças a Deus, tive um moderado sucesso no mercado financeiro porque, como a senhora está falando, eu me recusava a vender coisas que eu não acreditava. Então, uma coisa pode até estar fazendo fama, alguém pode até pagar alguma coisa, mas eu não acredito a longo prazo nisso. Isso no mercado financeiro é muito sério, porque existem fundos que, durante três anos, pode te dar milhões de dólares e, no quarto ano, te quebra. Entendeu?
Maria dos Anjos: [45:40] Então, eu prefiro ganhar. Um pouco de cada vez, como eu costumo dizer, formar o meu milhão da forma mais honesta possível, porque você, para além de tudo, conquista amigos. Você já viu que riqueza é maior?
Eron Falbo: [45:57] Isso é muito, muito importante. É uma das razões que eu faço esse programa aqui, para poder conhecer gente como a senhora e criar novas amizades.
Maria dos Anjos: [46:07] Obrigada, Eron, obrigada.
Eron Falbo: [46:09] Eu queria te agradecer por ter aceitado o meu convite, por ser essa pessoa maravilhosa, do bem, uma pessoa aberta, uma pessoa serena, é realmente um grande privilégio te conhecer.
Maria dos Anjos: [46:21] Muito obrigada! Olá a você! Viva!
Eron Falbo: [46:25] A nós! Tudo de bom! Muito obrigado! Um beijo a todos! Tchau, tchau! Saúde!
Maria dos Anjos: [46:34] Saúde!
No Alvo com Eron Falbo · episódio #85 · todos os episódios