Publications

#84 Brasilia, cinema, filhos, futuro, política na mesa de jantar

com André Moraes · 5 de abr de 2021

rss.comSpotifyApple PodcastsAmazon MusicDeezerYouTubeYouTube (só áudio)

Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Abertura e apresentação dos anfitriões (0:00)

Eron Falbo: [0:00] E agora vai ter que pagar direitos autorais. Vou dar uma voz. Sejam bem-vindos, meus amigos, meus irmãos. Fala, André, beleza?

André Moraes: [0:11] Fala, querido. Tudo bom?

Eron Falbo: [0:15] Beleza, beleza. Graças a Deus. E você?

André Moraes: [0:18] Tudo bem. Eu amei essa entrada, cara. Sensacional.

Eron Falbo: [0:25] Obrigado, estou sofrendo bullying aí de uma amiga.

André Moraes: [0:30] Por quê?

Eron Falbo: [0:31] Acabou de falar que é entrada humilde, muito sarcasticamente, muito ironicamente. Tentaram cancelar a minha entrada. Oi, não ouvi, que deu uma cortada.

André Moraes: [0:49] Falei que eu gostei bastante, adorei a entrada.

Eron Falbo: [0:52] Valeu, querido, valeu. Obrigado, Renan. Ela tá falando que foi fofo.

André Moraes: [0:58] Foi.

Eron Falbo: [1:00] E aí, André, você tá onde? Você tá no Rio ou em São Paulo?

André Moraes: [1:05] São Paulo. Eu moro em São Paulo já faz bastante tempo, desde 2005.

Eron Falbo: [1:11] Ué, o Maurício tá falando que a voz tá ruim com a imagem. Vê com a Milena se tá acontecendo problema. Milena, me fala aí se você tá sentindo esse problema também. Desculpa, André, só para a gente ter certeza que está todo mundo tendo uma experiência otimizada.

André Moraes: [1:31] Tranquilo. Não, estamos juntos. Vamos nessa. Você está no Rio?

Eron Falbo: [1:36] Eu estou no Rio. Eu sou brasileiro e você também é brasileiro. Nós somos brasileiros colonizando o resto do Brasil.

André Moraes: [1:46] É muito legal. Quando eu saí de Brasília, eu fui para o Rio.

Raízes em Brasília e mudanças de cidade (1:48)

Eron Falbo: [1:51] Quando você saiu de Brasília?

André Moraes: [1:54] Eu fui pro Rio, foi a primeira cidade que eu me mudei.

Eron Falbo: [1:58] E você ficou quanto tempo aqui?

André Moraes: [2:00] Fiquei uns nove anos no Rio, mais ou menos.

Eron Falbo: [2:03] Uau, nove anos, deu tempo de perder a brasiliensidade, não?

André Moraes: [2:08] É, um pouco, né? Eu acho que cada lugar que a gente vai passando, ficando um tempo e morando, a gente vai também se apaixonando por aquele lugar. Poxa, tenho muita saudade do Rio, dos amigos, dos lugares, enfim, de várias coisas. E depois vim para São Paulo, fui para a capital, morei muito tempo lá. E hoje moro um pouco mais afastado de São Paulo, moro numa região que é uma delícia, no campo.

Eron Falbo: [2:36] Graças a Deus. Você conseguiu estar em São Paulo. É difícil estar em São Paulo, porque tem muita tentação, é cultural, não sei o quê, as coisas estão acontecendo. Eu acho que você fez bem. Eu também morei em São Paulo. Você sente que quem é de Brasília tem uma vontade de pertencer a outro lugar? Eu tenho um pouco desse sentimento.

André Moraes: [3:06] Engraçada essa sua pergunta, sabia? Porque muita gente de Brasília fala isso para mim, sabe? Se sente carioca ou se sente alguma coisa assim de fora. Mas eu acho que Brasília... Demorei muito para sentir isso sobre Brasília, sabe, que eu estou te falando agora. Mas tem uma coisa engraçada com Brasília, que é o seguinte: eu gosto muito de Brasília, porque as minhas memórias de Brasília são muito boas, né? Poxa, eu adorei, eu tive uma infância muito legal, sabe assim?

Eron Falbo: [3:43] É, maravilha.

André Moraes: [3:44] Foi um privilégio.

Eron Falbo: [3:45] Mas você cresceu aonde lá?

André Moraes: [3:47] Cara, eu cresci no Lago Norte, porque eu nasci na Asa Norte, né?

Eron Falbo: [3:52] Eu cresci... Desculpa, deu uma apontada. Deixa eu só ver se é minha internet aqui, pra gente não ficar... Tá, tudo bem.

André Moraes: [4:00] Agora eu tô te vendo melhor.

Eron Falbo: [4:02] Aconteceu alguma loucura que foi na outra rede aqui, então agora a gente tá bem melhor.

André Moraes: [4:08] Tamo junto.

Eron Falbo: [4:08] Desculpa, você tava aqui falando que cresceu na Asa Norte?

André Moraes: [4:11] Eu cresci no Lago Norte, eu nasci na Asa Norte, e mudei pro Lago Norte com 5, 6 anos mais ou menos. Meu pai estava construindo uma casa lá, e aí a casa ficou pronta e a gente se mudou. Então a minha infância foi basicamente no Lago Norte, ali, vizinhança, solta na rua, aquela coisa. Você...

Eron Falbo: [4:34] Eu nasci no Lago Sul, só que... Ou, na verdade... Não, acho que eu nasci na Asa Sul, na 316 Sul, e quando eu era muito pequeno, muito pequeno mesmo, mudei para uma casa no Lago Sul. Depois eu voltei para o mesmo apartamento na Asa Sul, por isso que eu estava confuso. Na verdade, faz tempo que ninguém me faz essa pergunta, mas, para quem não conhece Brasília, o Lago Norte, a Asa Norte, a Asa Sul e o Lago Sul é meio que uma rixa... Mas existe, são mundos polarizados, vamos dizer, são mundos diferentes. A Asa Norte demorou mais um tempo para construir, e o Lago Norte mais ainda. Então acho que você cresceu num lugar meio que se construindo. Devia ser meio campo ainda, no início, lá.

André Moraes: [5:31] Totalmente, totalmente. Quando eu mudei para o Lago Norte, na rua do meu pai e da minha mãe, acho que tinham três casas, uma loucura. Hoje está completa a rua, né?

Eron Falbo: [5:44] Hoje tem shopping no Iguatemi.

André Moraes: [5:45] É, exatamente, atrás da casa da minha mãe, umas duas ruas para trás, o shopping é lá. É muito louco, né, cara? Quando eu fiquei sabendo que teve um shopping no Iguatemi lá, quando eu conheci o shopping, inclusive a pré-estreia do meu filme em Brasília, quando ele entrou em cartaz, foi lá. Imagina ver um shopping no Lago Norte, pra mim, né? Nossa, era uma coisa muito distante da minha infância.

Eron Falbo: [6:11] Da minha também. Quando eu cresci lá, o Lago Norte era uma coisa... Algumas casas, aquela coisa tipo Parkway. Eu lembro que o Parkway era tipo assim.

André Moraes: [6:24] Exatamente, é isso aí. Imagina, o Parkway hoje em dia é uma loucura. Nossa, hoje tem casa pra caramba. E lá era uma coisa meio afastada, um negócio meio...

Eron Falbo: [6:35] Setor de mansões.

André Moraes: [6:37] É isso, exatamente.

Eron Falbo: [6:39] Mas, cara, como é que foi essa coisa de você voltar pra sua cidade, Brasília, e ir pra estreia do seu próprio filme? Como é que é esse sentimento de você contar pros amigos da sua cidade?

André Moraes: [6:52] Puta, foi muito legal, velho. Minha família foi lá ver o filme, foi muito legal. Foi em 2015 que lançou o filme lá. Eu sempre gosto de ir a Brasília para tudo, tanto para voltar para tocar, para lançar um filme ou para ver os amigos, ver a família. Eu vou pouco, não vou muito, não. Sou uma pessoa que vai pouco a Brasília. Mas quando eu vou, acho que é um tempo grande para poder fazer bastante coisa com a galera lá, enfim, curtir. Já faz mais de um ano que não vou, por causa da Covid. Não encarei essa onda de carro. Mas estou doido para ir. Minha mãe mora lá. Meu irmão mora lá. Eles moram na casa em que a gente foi criado. Eu tenho a minha casa lá. E todos os meus irmãos moram lá. Todos eles. Eu tenho cinco irmãos.

Eron Falbo: [7:46] Você tem família inteira lá. Que legal.

André Moraes: [7:48] Família inteira. Meus cinco irmãos.

Eron Falbo: [7:50] Eu estou morrendo de saudade. Porque eu tenho minha avó lá. Minha mãe está em Portugal agora. Meu irmão está em Londres. É tipo, a galera espalhada pelo mundo, e só está minha avó lá. Acaba que eu devia visitar mais, mas ela também sente falta de Brasília no geral. Mas Brasília nessa pandemia deve estar um tédio inacreditável. Já é normalmente um pouco entediante para quem morou em outro lugar. Imagina na pandemia.

André Moraes: [8:21] É uma loucura. O que eu acho interessante de Brasília, pelo menos para mim, quando eu vivi lá, porque eu vivi a adolescência lá e, logo depois, com 19 anos, eu fui embora. Então, fui para o Rio. Mas o que eu acho legal de Brasília é que não tinha nada para fazer, aquela coisa que você já sabe como é. Só que você faz a sua galera, isso é bacana. Tem uma galera que você está sempre junto, que é muito legal. E eu, por ser músico, a gente já tinha muitas bandas, já tocava, já fazia show. Então tinha aquelas coisas da radicultura, que eram os eventos que a gente tocava e tal. Então a gente era muito ativo no fato de compor, de estar na casa um do outro.

Cena musical e cultural de Brasília (8:40)

Eron Falbo: [9:08] E você tinha a banda crescendo lá? Você tinha a banda em Brasília?

André Moraes: [9:13] Tinha, eu tive uma banda lá chamada Atena, uma banda de rock assim, era metal, assim. Depois eu toquei no Matahari, não sei se você conheceu o Matahari.

Eron Falbo: [9:23] Matahari eu já ouvi falar, não lembro.

André Moraes: [9:25] Sim, que era do...

Eron Falbo: [9:26] Eu não lembro como é que era.

André Moraes: [9:28] Cara, era um som meio MPB rock, assim, sabe? Era muito legal, velho, muito interessante essa banda. O Matahari teve uma projeçãozinha, assim, em certa época. E aí, logo depois, eu fiz minhas primeiras...

Eron Falbo: [9:42] E você conhece essa galera, tipo, Isn't in the Six, o Andrazinho, essa galera que tocava rock, DJs... Não, essa galera não.

André Moraes: [9:53] Ó, quem eu conheço daí, que é mais velho que eu, daí não de lá, né? O meu professor, Maurício Lavenner, professor de guitarra, Adriano Fachini, cantor, uma galera que tá lá até hoje, eles moram lá até hoje, fazem música até hoje lá. Eles são mais velhos que eu, mas eu lembro muito da figura deles, eu sempre ia vê-los tocar e tal. Da minha geração tinha uma banda, tinha o pessoal do Autoramas, né?

Eron Falbo: [10:23] Ah, é, Gabriel Tomás. Graças a Deus, tá melhorando aí. Ele pegou Covid e tá melhorando.

André Moraes: [10:29] Ah, ele pegou Covid, eu não sabia.

Eron Falbo: [10:32] Foi entubado e tudo, mas a última notícia que eu tive foi que ele tá melhorando.

André Moraes: [10:36] Que bom, cara, que bom. E aí, enfim, o Raimundo... não, o Raimundo era da minha geração, tem o...

Eron Falbo: [10:41] Fred... Ah, eles eram da sua idade, mais ou menos? Eu não lembro qual era a idade.

André Moraes: [10:46] Eu acho que eles são um pouquinho mais velhos que eu.

Eron Falbo: [10:49] É, eu acho que eu esqueci o nome dele, que é o que virou evangélico, lá, o cantor... Rodolfo, é o Rodolfo. Ele virou Beirute, mas depois virou evangélico.

André Moraes: [11:01] A galera dos melhores do mundo, né, cara. Conheço todo mundo, adoro o Hélder, o Pipo, o Siri, o Vitor, essa galera toda aí lá de Brasília. Brasília tem uma cena cultural muito ativa, né? Impressionante. Tanto na comédia, no cinema, na música, na literatura. É impressionante isso lá, eu acho demais.

Eron Falbo: [11:29] Eu vi professor de cinema trash do Sérgio Morricone, já foi?

André Moraes: [11:35] Sim, claro, claro. Sérgio Morricone, essa galera é demais, cara.

Eron Falbo: [11:44] Muito bom. Pô, legal, cara. É bom, né? E quando você for para o Brasil, me avisa que a gente tenta conciliar aí. Se tiver fora da pandemia e tudo mais, a gente marca algumas coisas.

André Moraes: [11:58] Ah, vamos lá. Isso aí a gente tem que combinar. Tem que combinar com o Maurício, encontrar a gente lá. Porque o Maurício também é uma figura. Ele estava aí na live, eu vi ele entrar aí uma hora.

Eron Falbo: [12:05] É, eu adoraria levar o Maurício para o Brasil. Eu acho que o Brasil explodiria. Não sei qual foi a última vez que ele voltou para Brasília, mas seria explosivo. Nós três, eu mesmo.

André Moraes: [12:23] Claro, o Maurício é uma figura.

Eron Falbo: [12:25] O Maurício é uma vida que a...

André Moraes: [12:27] Gente tem em comum. Mas é isso, eu adoro Brasília, tenho intimidade com a cidade, adoro tudo que saiu de lá. Sou suspeito para falar, porque as pessoas olham Brasília muito por política. E acho que tem que mudar um pouco esse olhar, porque sai muita coisa de lá, cara. Muita gente criativa de lá. E isso é bom. É legal a gente falar sobre isso também. É muito bacana a gente estar aqui falando sobre as bandas, os amigos, os bairros. É muito legal você falar dos bairros, porque a galera às vezes não entende que é muito diferente Brasília, né?

Arquitetura de Niemeyer e vida nas quadras (12:59)

Eron Falbo: [13:04] Cara, eu tenho um amigo que tá montando um projeto de fazer campeonato de futebol entre os bairros. Tipo... eu não lembro se é entre os bairros ou entre as quadras, sabe? Alguma coisa ambiciosa pra caramba, mas a ideia dele é super genial: de pegar, tipo, parceria com o governo, pegar... sei lá qual é o nome das subprefeituras, sei lá, aquelas... os núcleos que cuidam das entrequadras. E fazer um esquema de eles organizarem os jovens. Você deve ter brincado debaixo do bloco. Em Brasília se brinca debaixo do bloco, que os prédios são todos feitos por Niemeyer e tem aquele esquema de o primeiro andar ser um vácuo. Acho que as pessoas fora de Brasília não têm noção disso. Acho que muita gente de Brasília não tem noção que, fora de Brasília, mas no resto do mundo inteiro, tem um primeiro andar. Em Brasília tem um vácuo normalmente embaixo do prédio. E as pessoas brincam, jogam futebol embaixo do bloco. E às vezes tem campo de futebol, tem times, não sei o quê. E seria legal organizar essa parada, fazer uma coisa mais para fomentar a juventude. Porque a galera se conhece, cria um sentimento de vizinhança, né? Que, pô, esse era o pensamento original, né, do Niemeyer, do Lúcio Costa e tudo mais, do Brasil: era ter as entrequadras autossuficientes, né? Era pra ser um parabenista, né? Tipo, tudo tinha, era pra ter lá nas, como é que chama, nas comerciais, né?

André Moraes: [14:54] Isso, né? É, mas é exatamente isso, é exatamente isso. Cara, é um luxo Brasília ter sido feita por Niemeyer e Lúcio Costa, porque é isso que você falou, os prédios não têm os pilares, os pilares são laterais, então você tem um vão no meio, você pode brincar ali embaixo. Isso é sensacional. E Brasília não tem nada muito alto, então dá pra você ver o céu o tempo todo. Isso eu acho incrível em Brasília, acho incrível. E essa sensação é muito boa, Brasília tem uma sensação muito ampla, assim, né? A Carol tava aqui, minha carona, falando que adora Brasília, muitos artistas incríveis saíram de lá e tal. E teve uma outra pessoa, o Dan Lemus, colocou aqui: a cena do hip-hop é forte no DF. É muito forte, cara, eu adoro o pessoal do Câmbio Negro. Inclusive eu tenho um contato muito bom com o Hex ainda, o Jamaica faz tempo que eu não falo, não sei como tá o hip-hop hoje de lá, mas eu sei que essa galera aqui, lá, os precursores, assim, puta, muito bacana, muito legal.

Eron Falbo: [15:57] Eu era meio bairrista do rock. Quando eu morava em Brasília, eu era totalmente do rock, assim, rock clássico. E, infelizmente, eu não conheci nada da cena do hip-hop. Até que eu ia em umas festinhas, porque em Brasília, se você não for de eletrônica e hip-hop, você não sobrevive, né? Você vai ficar no carro ouvindo música.

André Moraes: [16:18] É, não, e Brasília também é isso que você falou, sabe? Tinha muito aquela galera do rock alternativo, a galera do metal, a galera do pop, a galera do hip-hop e tal. E essas galeras começaram a se falar de pouco tempo pra cá, na verdade, porque também a gente não tinha muito contato um com o outro, não existia internet, não era fácil a gente conhecer as pessoas lá. E aquilo que você falou também, Brasília é uma cidade que não se anda a pé, então a gente ia pra escola, ia pra um shopping, voltava, ia pra um parque, então os contatos que a gente tinha eram esses. Então não se misturava muito, mais ou menos por aí. Eu acho que com essa amplitude toda da internet facilitou bastante a galera ali pra poder se unificar e tal. Eu sinto a cena muito forte em Brasília.

Eron Falbo: [17:08] Eu cresci... não sei se era o seu caso, mas a gente usava muito o mIRC. Muito, claro. Eu rolava nos canais de mIRC, tudo organizado pelo mIRC. Não sei se isso era assim em outras cidades também, mas em Brasília isso era essencial. Tudo era feito... acho que em outras cidades, como as pessoas têm coisas locais e outras paradas assim, têm outras possibilidades, mas em Brasília a gente não tem tanto.

André Moraes: [17:35] Não, é exatamente isso. É isso aí.

Carreira no cinema e Entrando numa Roubada (17:36)

Eron Falbo: [17:38] Vamos voltar um pouquinho com a sua carreira pra sair um pouquinho de Brasília. Muita gente não é de lá. Mas eu queria falar um pouco do Entrando Numa Roubada, que eu te falei no telefone logo antes da gente conversar aqui agora. É que eu assisti o trailer e achei uma lástima não ter assistido o filme antes de falar com você. Porque, no trailer, eu fiquei: porra, caraca, eu quero assistir esse filme, que é o tipo de filme que eu gosto. Falei que gosto muito de Tarantino, Robert Rodriguez. Aquela cena toda de tipo, quase trash, só que trash. Eu não sei se é o seu caso, porque eu vi só o trailer. Mas o Tarantino tem essa onda de ser semi-trash, só que ele salva, né, com estética, com a trilha sonora bem escolhida, né. Só que o sentimento, pra mim, pelo menos, é meio de... tem aquela leveza do semi-trash, né. Aquela coisa de tipo, ah... pode acontecer qualquer coisa.

André Moraes: [18:42] É, não, a tua leitura é perfeita. O filme é exatamente isso. Inclusive, acabei de ver que o Lúcio Mauro Filho entrou aqui. Lucinho, se estiver aí, podemos falar um pouquinho do senhor. O Entrando Numa Roubada era um projeto meu desde 2007. Eu venho da música, como alguns aqui sabem, eu sou compositor de trilha sonora, porém meu pai foi diretor de cinema, e eu sempre nasci num set de cinema, então eu sempre vivi cinema na minha casa, na minha vida, tudo. Então sempre tive a curiosidade e vontade de dirigir, fui me preparando pra isso com o tempo, e demorei muito pra tomar essa decisão, de realmente querer dirigir alguma coisa. Então meu primeiro curta foi em 2007, e foi quando eu criei o Entrando Numa Roubada, que o projeto original se chamava A Estrada do Diabo. E mudou muito o projeto de lá pra cá. A gente filmou ele em 2013, com a Carol, a Ana Carol está aí, o Lúcio Mauro Filho, Débora Seco, Julinho Andrade, Bruno Torres, que também é de Brasília, que é meu irmão, o Marcos Veras, participação do Zé do Caixão e tal. E eu sou muito... você falou do Tarantino, eu sou muito fã do Tarantino, claro, mas o Tarantino não me influenciou tanto, porque as minhas influências vêm um pouco... é porque vêm um pouco antes do Tarantino. Acho que o Tarantino me influencia mais hoje. Eu amo os filmes do Tarantino hoje, adoro os filmes.

Eron Falbo: [20:14] E ele deu uma revivida, ele voltou a fazer obras-primas, ele tinha dado uma adormecida.

André Moraes: [20:21] Olha o Maurício Branco, só não me chamou pra fazer o filme.

Eron Falbo: [20:25] Vamos chamar ele agora, vamos chamar.

André Moraes: [20:27] Não, ele chamava pra live, ele só não me chamou pra fazer o filme, ele falou.

Eron Falbo: [20:31] Ah, entendi.

André Moraes: [20:32] Não, pode chamar, se quiser botar aqui, eu vou adorar, vou morrer de fome.

Eron Falbo: [20:35] Vamos ver se ele vai querer.

André Moraes: [20:38] Vamos ver. Aí, esse projeto, cara, demorou muito tempo pra ser feito. A gente passou por um processo muito grande pra tentar arrumar essa grana, aquela coisa, o mundo sabe como é que é o cinema, é foda. Conseguimos, então, o Edital, e fizemos o filme. E o filme, cara, deu super certo. A gente fez um filme super legal. A Paramount lançou com a Europa Filmes. Foi um lançamento bem bacana, bem dentro do que a gente tinha. Eu adoro esse filme, é um filme que eu gosto bastante. É um filme de humor sarcástico, que tem uma reviravolta no filme, e aí o filme vira um drama no final, ele muda de gênero, é muito louco isso. Você falou do Robert Rodriguez aí... Dá uma modulada, né? Exatamente, é legal. O Robert Rodriguez faz isso no Um Drink no Inferno, né? Você vem num road movie, um thriller de road movie, e de repente o filme vira um filme de terror. Eu adoro esse tipo de coisa. E você citou duas pessoas que são influências fortes. Adoro o Robert Rodriguez também, acho ele foda.

Histórias de Robert Rodriguez e John Waters (21:42)

Eron Falbo: [21:43] Ele é um pouco mais trash. Ele se permite ir mais longe no trash.

André Moraes: [21:48] Cara, o Robert Rodriguez tem um negócio que eu acho do caralho. Acho do caralho a história dele. Para quem não sabe, é interessante pra caramba contar aqui algumas coisinhas. O Robert Rodriguez é um diretor mexicano que foi para Hollywood da seguinte forma. Ele fez um filme no México chamado El Mariachi. Não, não, não, com bandidos é o Era Uma Vez no México.

Eron Falbo: [22:12] Ah, tá.

André Moraes: [22:13] É o Mariachi.

Eron Falbo: [22:14] Eu vi o Mariachi também, mas agora não lembro.

André Moraes: [22:17] Então, é um primeiro filme dele bem independente, assim, porque é um cara que não é famoso. É um amigo dele que interpreta. Cara, o filme é uma loucura, tem três locações só. Ele, para arrumar o dinheiro para fazer o filme, cara, virou cobaia de um hospital, para os caras pagarem ele. Bicho, a história é sensacional. E aí, um estúdio de Hollywood, se não me engano foi a Sony, amou o filme e falou assim: 'Eu quero comprar teu filme e lançar no mundo.' Aí ele falou: 'Porra, do caralho', e tal. Aí chegaram para ele, levaram ele para Hollywood para ele finalizar o filme novamente, porque eles queriam recolorir.

Eron Falbo: [22:56] Refazer o som...

André Moraes: [22:58] Exatamente, para botar mais pop a coisa. Aí encontraram ele num hotelzão, assim. Aí ele chegou e falou assim: 'Quanto custa a diária desse hotel?' Aí os caras da Sony falaram assim: 'Custa tanto.' Aí ele virou e falou assim: 'Eu posso dormir no sofá lá no estúdio, não precisa disso. Vocês pegam o dinheiro desse hotel e dão para o meu irmão, para ele fazer a faculdade dele.' Aí a Sony topou, cara. A Sony topou.

Eron Falbo: [23:20] A Sony pagou a faculdade dele.

André Moraes: [23:21] Essa história é do caralho. Ele é foda. E a história que eu acho mais louca dele é o seguinte, a gente tá falando aqui dos filmes trash dele, da coisa de terror e tal. Foi quando um dia um filho dele chegou para ele e falou assim: 'Pô, não posso ver nenhum filme teu, né, pai? Porque teu filme, tudo é em sangue e tal.' Ele falou: 'Não pode. Então vamos criar um filme pra você ver.' Foi aí que ele criou aquele filme, Sharkboy e Lavagirl. Sacou? Que são os infantis. Olha essa miséria. Maurício, Maurício! Fala, meu lindo. Adorei o cabelo, adorei o cabelo. Esse cabelo é inspirado no John Waters, aquele diretor americano, John Waters. Amo, amo, amo, amo. Maravilhoso.

Eron Falbo: [24:12] John Waters?

André Moraes: [24:14] John Waters. Pode falar, Maurício. O John Waters é o diretor que começou como trash, quer dizer, permaneceu como trash, só que ele inovou a linguagem do cinema trazendo o trash para o grande público. Depois, ele começou com filmes bem pesados. Ele lançou uma travesti super gorda chamada... meu Deus, amnésia de velho... a Divine, Divine, Divine. O que eu ia falar do John Waters, que eu acho maravilhoso, é que o John Waters, pelo que eu sei, não sou muito profundo sobre isso, mas acho que ele foi o primeiro diretor a fazer um cinema LGBT.

Eron Falbo: [24:57] Exatamente.

André Moraes: [24:58] É muito legal isso. Inclusive, eu lembro muito que vendia uma caixa de filmes dele, que era linda.

Eron Falbo: [25:06] E ele tem muito isso.

André Moraes: [25:08] O que eu acho legal pra caramba, sabe, Eron? Porque a gente estava falando do Tarantino, Rodrigues, e agora vem o Maurício falar do John Waters, que são diretores muito autorais. Trazem muita mensagem que eles querem passar, sabe? Eu fico, ah, estamos tomando a mesma, né, hoje.

Eron Falbo: [25:23] A gente está tomando o suco de tomate.

André Moraes: [25:26] O drink dos vampiros? É que eu não bebo álcool. Então, assim, eu estou tomando um suco de tomate, que eu adoro tomar, e o Eron entrou na minha parceria, e eu achei muito legal.

Eron Falbo: [25:36] E eu não bebo álcool todos os dias, então a gente pode jantar com cerveja, beba.

André Moraes: [25:44] Olha só, eu não quero atrapalhar a live de vocês, só vim pra dar um beijo, porque o André é uma pessoa que eu amo muito, foi um cara que eu conheci no Festival de Gramado e, por sermos da mesma cidade, Brasília, ficamos irmãos. Acabou o Festival de Gramado, fomos pro Festival de Cuiabá, e de lá fui pra casa dele e fiquei uns cinco dias. E não saí nunca mais.

Eron Falbo: [26:10] Na época ele bebia álcool, né?

André Moraes: [26:13] Pois é, e o pai dele era uma pessoa muito incrível, foi um grande diretor de cinema brasileiro, que me inspirava muito e me dava muitas ideias para escrever roteiros. Eu sempre fiz documentários, e ele, nessa época, já ia me dando... a gente trocava muita ideia, era uma pessoa que eu gostava, que eu gosto muito, porque eu acho que ninguém morre, acho que as pessoas ficam aí. E, André, te amo muito. Eron, parabéns por estar entrevistando essa pessoa incrível. Você também. Realmente a abertura ficou muito boa. Gostei também.

Eron Falbo: [26:45] Obrigado, Cátia e a Morte.

André Moraes: [26:49] Ô Maurício, obrigado, cara, te amo. Imagina, imagina. Esse cara é doido, hein! Ele ficava pra mim falando: esse cara é doido.

Eron Falbo: [26:58] Um beijo, gente. Valeu, Maurício.

André Moraes: [27:01] Tô aqui assistindo, tomando meu vinhozinho.

Eron Falbo: [27:05] Tá bom, beijo.

André Moraes: [27:05] Tamo junto, tamo junto. Vamos falar.

Eron Falbo: [27:07] Como é que eu discuto? Eu não sei como eu discuto.

André Moraes: [27:09] Ah, eu acho que você tem que ir em cima.

Eron Falbo: [27:11] Ah, o Maurício tem que sair por espontânea vontade.

André Moraes: [27:14] Agora eu tô ferrado. Maurício, fica no xizinho. Agora?

Eron Falbo: [27:17] Fica no xizinho lá em cima.

André Moraes: [27:19] Aperta x. Ó, isso.

Eron Falbo: [27:19] Ao x.

André Moraes: [27:20] Tá ok.

Eron Falbo: [27:21] Aperta.

André Moraes: [27:22] Cai, porra. Ah, cara, o Maurício é figura. Maurício, beijo, querido. Mas, cara, ele... Pode falar, vai.

Eron Falbo: [27:32] Eu ia te perguntar, agora o Maurício até deu uma dica, né, que seu pai é diretor também, como é que você saiu de um curta para um longa tão high budget, né, como é que chama, com um orçamento adequado, né? Tem que perguntar pra todo mundo, né, pra pessoal que quer fazer cinema e tudo mais.

André Moraes: [27:57] Na verdade, eu comecei com os curtas, né? Eu fiz o meu primeiro curta. Galera, pra você começar com curta é o seguinte: tem duas maneiras de fazer. Uma é você botar num edital, se tiver, se não tiver. A outra é você ter uma ideia e sair filmando.

Eron Falbo: [28:09] Se constituir. É.

André Moraes: [28:11] Constituir é ótimo, também é outra opção que você tem. Mas enfim, você pode fazer o seu. Hoje em dia tá muito mais simples a situação, porque tem muitos youtubers que já manjam de filmar, já têm ideias, têm canais hoje em dia que a pessoa faz curtas pro canal. Então isso é do caralho, né? Inclusive, tem gente que sabe mexer com After Effects, que aprende em tutorial de YouTube, é uma loucura. Isso é uma coisa que na nossa época não existia. Isso eu acho maravilhoso hoje. Então, se você quer fazer um curta, você pode fazer por si. Você pode ter uma ideia na tua casa, fazer um curta com você mesmo se filmando no iPhone, numa câmera. Não vejo necessidade de você fazer o primeiro curta com uma puta de uma câmera. O bom é você ter uma ideia boa. E aí você tem que mostrar essa sua ideia pras pessoas. As pessoas têm que ir te vendo. Você vai, bota nos festivais, que os festivais aceitam filmes de celular.

Eron Falbo: [29:02] Qualquer festival. E por que vale a pena o festival? Não é só tipo uma massagem de ego? Tem um outro canal?

André Moraes: [29:10] Sim, eu acho que depende do festival, é claro. Vamos falar de Brasil, porque senão a conversa fica muito ampla, mas no Brasil tem festivais que são muito consagrados por serem festivais sérios. É claro que uma ou outra edição... Mas são festivais tradicionais. O próprio festival de Brasília é muito tradicional, muito famoso, muito bom. O festival de Recife é muito bom, eu adoro.

Eron Falbo: [29:35] Não sabia. Muito bom.

André Moraes: [29:37] O de Recife é muito bom, é o top, assim. Foi o festival que consagrou o Bicho de Sete Cabeças, com o Santoro. Enfim, é um festival muito poderoso.

História e preconceito no cinema brasileiro (29:46)

Eron Falbo: [29:46] Que é muito bom, by the way. Adoro esse filme.

André Moraes: [29:49] Adoro esse filme.

Eron Falbo: [29:49] Um dos primeiros filmes brasileiros que me fez perder... Acho que todo mundo cresce com um pouquinho de preconceito. E eu estudei em escola americana de Brasília, você deve conhecer gente da escola americana de Brasília. Além de todo mundo ser doido, é super alienado. Então eu cresci totalmente fora do mundo, ainda mais crescendo em Brasília. Eu costumo dizer isso, que Brasília já fica meio alienada porque é uma cidade que não remete a nada, tipo, não tem raízes com nenhum lugar do mundo. O Brasil só tem Brasília de ponto e talvez o Leste Europeu, que é parecido, e o resto do Brasil não é parecido. Então você fica meio alienado mesmo. Eu cresci em Brasília e na escola americana. Então, assim, eu tava tipo... mas o Bicho de Sete Cabeças me fez perder esse preconceito, que é um preconceito bobo, ao mesmo tempo é fundado em alguma coisa, porque realmente a tecnologia do Brasil demorou um tempo para alcançar, é muito mais acessível um filme americano para jovens, para pessoas com atenção mais baixa, mas hoje em dia não é mais o caso, a gente tem produções brasileiras que estão pau a pau com produções americanas.

André Moraes: [31:13] Sim, eu acho assim, é muito legal você tocar nesse assunto, eu nem te respondi a outra pergunta, mas... Não, não, mas está certo, o papo é isso mesmo, não tem jeito, mas acho muito importante você falar sobre isso, porque é claro que existia esse preconceito. Inclusive, eu tinha esse preconceito dentro da minha casa. Eu tinha preconceito e meu pai falava: não, não é assim, tem que ver esses filmes. Aí eu falava: esses filmes têm um som muito ruim, tudo muito ruim. Mas agora, hoje em dia, a gente fazendo filme, entendendo a história do cinema, convivendo com outros diretores mais antigos, da época do meu pai e tal, a gente vê que, cara, essa galera que fez cinema no Brasil, cara, de 2000 para trás... Aham, Glauber Rocha. Era... não, Glauber Rocha, todo mundo, Glauber Rocha, Walter Lima Júnior, Ivan Cardoso, bicho, esses caras são loucos, absolutamente loucos. É inacreditável, não tinha como fazer. Muitos pegaram a medida da ditadura, que foi muito difícil filmar no período da ditadura, porque não tinha grana. Aí abriu a Embrafilme. Quando abriu a Embrafilme, facilitou para filmar, porque a Embrafilme era uma agência de... não era a Ancine, é bem diferente, mas a Embrafilme era quem controlava todos os filmes. Então tudo saía da Embrafilme, o dinheiro, tudo saía de lá. Não tinha como fazer um filme com patrocínio, não tinha leis que apoiavam isso no Brasil. Nunca teve, de 1995 para trás. O que aconteceu? Essa galera fazia mesmo e era de qualquer jeito. Então, por isso que a gente realmente... não tinha como a gente gostar desses filmes. A gente é adolescente, a gente via aquilo, e aí via um filme americano, que lá tem uma indústria, sabe assim?

Eron Falbo: [33:03] Eu acho que é um assunto interessante da gente entrar, porque acho que não é todo mundo que para pra pensar nisso. A gente só pensa... normalmente a gente pensa em termos de tecnologia, em termos de qualidade da experiência, e não pensa em termos assim: cara, tem uma parada chamada indústria, de fato. A Hollywood foi lá desde os anos 10 engatinhando, se solidificando, e é uma indústria feita por empreendedores, por investidores. Não tinha essa coisa... Até na Inglaterra, se você for ver os filmes dos anos 80, ingleses, são muito mais ou menos comparados com os Estados Unidos, porque não tinha essa indústria. Também eram feitas as coisas através de editais, não tinha uma indústria capitalista injetando ego na parada.

André Moraes: [34:00] O Brasil teve uma indústria cinematográfica na época, da Cinédia, que era anos 40, muito antiga. Era com o Grande Otelo, Carmen Miranda, essa galera toda.

Eron Falbo: [34:19] Ah, é verdade.

André Moraes: [34:20] Tinha muita grana envolvida. Agora, depois perdeu-se isso. Como é que é?

Eron Falbo: [34:28] Não sei se isso é a sua praia, mas você sabe, em termos históricos, o que aconteceu naquela época? Porque, realmente, o Brasil tinha esse tipo de coisa. Talvez foi o regime militar ou Vargas.

André Moraes: [34:43] Cara, não sei o que aconteceu, para ser sincero, mas era legal de pesquisar sobre isso. Mas sei que o projeto foi abandonado por algum motivo, não sei se foi político ou não, foi financeiro, não sei o que aconteceu. E depois disso teve esse buraco, tivemos esse buraco no cinema, e aí esse buraco ficou muito grande na questão financeira. Enfim, aí a gente ficou anos e anos fazendo Nosso cinema tem filmes muito bons nessa época, filmes muito ruins, não é? Estou falando de 60 para frente. É, porque era como se fazia mesmo, imagina. Tinha gente que fazia o filme bom, e nessa época era tudo com negativo.

Eron Falbo: [35:26] Espera, o Carlos Imperial, Pornô Chanchada, não? É isso, não?

André Moraes: [35:32] É. Não, a Pornô Chanchada.

Eron Falbo: [35:35] Ela veio depois.

André Moraes: [35:38] Ela era um jeito que se fazia dinheiro no Brasil. E aí começou a se fazer muitos filmes assim. E deu dinheiro, deu público, deu tudo.

Eron Falbo: [35:52] E a comédia do Brasil foi meio dominada por essa onda, né? Tipo assim, de mulher como simbolo sexual. Eu lembro até a Torra Total, até recentemente. Graças a Deus, depois veio Porta dos Fundos, que era uma comédia um pouco mais inteligente. Que eu lembro crescendo, cara. A comédia do Brasil era muito dominada por essa parada de... De mostrar a perna de mulher.

André Moraes: [36:15] Essa coisa do nosso machismo estrutural reflete em todas as nossas áreas, não é só no cinema, em qualquer área. Na literatura também tem muito isso. E o cinema, é óbvio, por ser uma arte plástica, uma arte visual, a gente está ali vendo e as pessoas querem ver isso. Também tem essa coisa da pornografia, que é uma coisa muito consumida pelo público, a pornochanchada foi nessa onda, entrou nessa onda. E aí o que aconteceu? Entrando no assunto do meu pai, que é legal o que o Luiz falou, que é o seguinte, quando o Collor foi eleito, o Collor fechou o Ministério da Cultura, para quem não lembra disso, ele fechou o Ministério da Cultura, ele nem abriu secretaria nem nada, como fez o Bolsonaro. Ele fechou e fechou, acabou.

Eron Falbo: [37:09] Então, acabou.

André Moraes: [37:11] Não, acabou. Tem casos que são assim. Hoje em dia, as pessoas podem até rir, eu acho graça. Mas eu imagino que a pessoa deve ter sentido na época. Porque tinha gente que tinha um filme pra filmar, contrato assinado com o Ministério da Cultura, com a Embrafilme, e acabou o Ministério. Então, assim, acabou. Acabou. A pessoa se planejou pra filmar daqui a dois meses, não tem dinheiro, não tem mais nada.

Fama, dinheiro e vida real dos artistas (37:32)

Eron Falbo: [37:35] E pelo menos honrar os contratos.

André Moraes: [37:38] Claro, isso aí foi uma insanidade que fizeram, óbvio, porque ninguém fecha um ministério assim da noite para o dia, muito menos da cultura. Falando de um país aqui, você sabe do que eu estou falando, pois é uma pessoa muito culta e é um artista. Não tem como fechar o Ministério da Cultura aqui no Brasil, num país que tem Tom Jobim, que tem essa galera do Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque. É uma insanidade fazer isso. Quanto mais um país do tamanho do nosso. Você não pode simplesmente abandonar a cultura. E eu não estou falando só dos governantes, não. Estou falando da própria população. A gente tem que admirar o que é nosso. E achar do caralho, né? A gente tava aí entrando numa roubada, pô. Esses atores que trabalharam com a gente, Júlio Andrade, Lucio Mauro Filho e tal. Uma galera que tá enralando pra caramba, bicho. Fazendo filme, uns tão na Globo, outros não tão, mas tão fazendo coisa e escrevendo projetos. E tem bom sim em todo mundo.

Eron Falbo: [38:33] É só mais outra coisa que a gente pode falar aqui pra esclarecer, que muita gente acha que o cara, porque é famoso, porque tem muito seguidor, tá ganhando muito dinheiro, tá muito fácil pra ele. Isso é uma falha de concepção muito grande, e acho que tem que ser reivindicado, tem que ser consertado isso na cabeça do povo, porque uma coisa não significa outra. A gente viu, o Ringo Starr já foi Beatle, imagina esse nível assim, o nome da banda dele tem tantos direitos autorais que os bisnetos dele não precisam fazer nada. Mas o mundo não é tão simples assim, as coisas acontecem. O cara é artista, mas não é gestor financeiro, sem contar que muitas vezes o cara vira famoso mas não ganha dinheiro. Tem muito jogador de futebol que jogou e foi campeão mundial, é só emprego. Quando vai ao barzinho com os amigos, tira onda. Na hora de pagar as contas, é igual a qualquer pessoa.

André Moraes: [39:42] Exatamente, você tem toda a razão. É muito bom você falar nisso, porque existe uma diferença muito grande em todas as classes. Na classe artística tem uma diferença muito grande. Existem pessoas, por exemplo, a galera peleja muito, a Globo, os atores da Globo, são pessoas muito diferentes. Não dá pra você comparar o Antônio Fagundes com o Tonico Pereira, com o Lúcio Mauro Filho, com a Taís Araújo, com a Deborah Secco, com o Marcos Veras e com o Murilo Rosa.

Eron Falbo: [40:20] É que nem terraço, né? Tipo, porra, cada nego é diferente do outro. Pode achar que todos são uma coisa, ou outra coisa.

André Moraes: [40:30] Exatamente.

Eron Falbo: [40:32] É um grupo com identidade homogênea. Um grupo com várias identidades.

André Moraes: [40:39] Exatamente.

Eron Falbo: [40:40] É isso aí.

André Moraes: [40:44] Isso tem que ser falado, acho muito inteligente você falar isso, porque... O que a gente vê, principalmente nesses tempos conturbados, de muita fake news... Enfim, às vezes nem é fake news, às vezes um artista vai lá e bota uma coisa dessas qualquer. E tem artistas aí que são famosos, e eu tô falando de artista, não tô falando de celebridade. De celebridade eu nem vou falar, porque acho que nem temos que falar, não porque eu não aprecie nada disso, mas porque nós estamos falando da classe artística. Então, assim, os atores, atrizes, músicos, cantoras e cantores, tem uns e umas que usam o Instagram pra um serviço. Na verdade, eles postam como se a vida fosse uma luxúria, 24 horas, e não é. A vida de artista, bicho, é você ralar 24 horas. Eu, por exemplo, passo 24 horas pensando em projetos, fazendo projetos, estruturando roteiro, escrevendo música, compondo trilha, tocando. E eu estou aqui, eu e a Carol, com as duas crianças em casa, cuidando dos filhos, fazendo almoço, lavando louça, arrumando casa. A nossa vida é assim. A minha vida é assim, a do Lúcio Mauro Filho é assim, eu sei porque eu conheço. O Pedro Cardoso vive assim, em Portugal. A gente vive assim. Essas pessoas que...

Paternidade e equilíbrio entre trabalho e filhos (41:14)

Eron Falbo: [41:59] Eu acho, humildemente, André, que você... pra falar aí pro público que não participa do dia a dia, não sabe desse tipo de coisa, mas eu tentei marcar essa live com o André e ele falou que só conseguia depois das nove, né? Então a gente marcou pra usar lá pelas sete horas, porque ele tá aí, pô, cuidando dos filhos, botando o filhinho ou a filhinha pra dormir, o mais novo?

André Moraes: [42:26] O mais novo é o Antônio. Hoje quem botou o Antônio foi a Carol, eu botei o Francisco.

Eron Falbo: [42:33] Você coloca mais fácil?

André Moraes: [42:36] Não, não, não, depende. Aqui, cara, depende do que eu mais faço. O mais fácil é o menor, na verdade, é o menorzinho.

Eron Falbo: [42:42] Eu retiro a pergunta, que eu tava te elogiando, e eu não vou fazer uma piada que vai acabar com o elogio. Mas a ideia é o seguinte, porra: você podia muito bem falar, não, Carol, minha esposa querida, por favor, eu preciso fazer uma live pra aparecer, não sei o quê, por favor, dá pra você botar os dois juntos pra dormir? Quando eu falo, não posso, não posso, só posso às 9 horas. E isso é admirável, é um pai assim, presente, que prioriza os filhos. E eu sei que não é fácil, eu morei em Israel, meus dois filhos nasceram em Israel, morei 3 anos em Israel.

André Moraes: [43:21] Que legal, eu não sabia.

Eron Falbo: [43:23] E lá não existe babá, é impossível ter babá. Então, o tempo todo era... Assim, meu primeiro filho, até os 2 anos de idade, eu revezava com a minha ex-mulher, 24 horas. Então, eu sei como é essa coisa. Aí, óbvio, quando eu mudei para o Brasil, eu comecei a descobrir a tecnologia de babá.

André Moraes: [43:45] Aqui tem essa facilidade, é claro, mas a gente se divide nas funções, a gente colabora muito um com o outro. E a questão também da Carol, a Carol ainda tá amamentando. Então, assim, o máximo de suporte que eu puder dar no período dela, para mim, é bom, e para ela também, para todos nós. Então, existe essa parceria que a gente tem que olhar, e tem que estar sempre atento no dia a dia com as crianças também. E a pandemia agravou muito isso, né? Porque a gente tinha sempre aqui os avós vindo, a gente ia para a casa dos avós, então era tudo muito mais tranquilo. Quando aconteceu isso e não tem a escola também, né, o Francisco não tá frequentando a escola, então é uma loucura, porque são 24 horas com as crianças, e é isso aí mesmo. Por isso que eu te falei, cara, tem que ser depois das nove, tem que botar ele, se a gente for entrar na hora da live. E é isso.

Eron Falbo: [44:43] Eu fiquei sabendo que você gosta muito... No começo, principalmente, eu lia muito mais. Até hoje, eu leio livros de psicologia infantil, de pedagogia, que, para mim, não tem nada mais importante do que a educação dos filhos. A gente está preocupado com Bolsonaro, Lula, qualquer coisa assim, e às vezes a gente esquece da educação das nossas próprias filhas.

André Moraes: [45:09] Muito bom.

Eron Falbo: [45:11] E esquece de fazer um Brasil melhor através da educação dos filhos, que eu acho que é um caminho muito mais certeiro, muito mais garantido para o futuro. E você está nessa onda? Como é que é a sua visão a respeito?

André Moraes: [45:30] Não, eu achei maravilhoso. Ô, Bonita, você está na live ainda, Bonita? Só para eu saber. Se você estiver, eu quero que tu fale um negócio aqui. Mas assim, o que eu achei demais foi o que você falou, porque uma coisa que a gente deve falar aqui na live é assim: os políticos, cara, bons ou ruins, eles não brotam do chão, nem caem do céu, eles vêm de uma sociedade, eles são criados por famílias. Então, se nós não gostamos da maioria dos políticos que estão lá, e nós votamos nesses políticos que estão lá, então nós temos que mudar a sociedade. Esse é o fator. Muito bom você falar. É muito importante nós falarmos, sim, sobre a briga entre Lula, Bolsonaro, Ciro Gomes, sei lá o que vai ser. Mas o que é muito melhor a gente falar é sobre como nós vamos nos preparar para o futuro.

Eron Falbo: [46:25] Essa briga, tudo bem, pode até ser importante, não estou tirando... Mas mais importante, como você falou, muito mais: quem está falando sobre isso?

André Moraes: [46:36] É claro, exatamente, exatamente, é isso aí. Agora, eu falei para a Carol entrar aqui, eu queria muito que ela entrasse, porque a Carol me trouxe esse olhar, porque eu sempre fui uma pessoa muito workaholic quando a Carol me conheceu. Pô, estava fazendo trilha para caramba, estava no auge, né, cara? Já tinha vindo do Embaú de Lisbela e tal, então, assim, vamos trabalhar, foi muita gente chamando e fazendo coisa e tal. E aí veio o Francisco, e quando o Francisco nasceu, eu tava trabalhando muito, tava em plena finalização, entrando numa roubada. O Francisco nasceu... É muito engraçado essa história.

Eron Falbo: [47:17] Eu tava entrando numa roubada quando ele nasceu.

André Moraes: [47:19] Totalmente. O Francisco nasceu, cara, na hora e no dia do 7 a 1.

Eron Falbo: [47:26] Caralho!

André Moraes: [47:27] Ele nasceu às 4h06 da tarde, e o jogo era às 4h.

Eron Falbo: [47:32] Então, assim... Tipo o fundo do poço do Brasil, né? Então ele é o Messias, ele veio aqui para consertar, no fundo do poço, agora chegou, agora vamos para cima.

André Moraes: [47:43] Não, totalmente. E aí, cara, o que aconteceu? Eu viajando para caramba, aquela loucura, fui para Los Angeles gravar trilha, e voltei e tal, e não sei o quê, naquela loucura. E aí, um momento, cara, sabe, a Carol falou: cara, a gente tem que parar e olhar a nossa vida, porque não tem condição de eu estar aqui com as crianças, e mesmo assim tinha estrutura um pouco melhor, mas eu não estava muito ligado nesse assunto. Aí, quando você para para olhar, e começa realmente a olhar como foi a minha infância e quais são as minhas questões de infância que eu trago comigo até hoje, e como eu crio o meu filho hoje, os erros que eu cometo com ele que meus pais cometeram comigo, para não fazer igual... Então, você vai começando a olhar isso que você tá falando, de você preparar um ser humano melhor para que ele tome uma decisão melhor na hora dele votar, na hora dele escolher um emprego, na hora dele escolher a pessoa com quem ele vai se casar ou não vai se casar, enfim, essa é a decisão dele. Então, assim, isso é muito bacana a gente ter esse olhar hoje, sabe? Eu acho muito importante para a gente criar uma sociedade melhor, e a gente também se transformar, né, Eron? É muito legal.

Eron Falbo: [48:54] Eu acho assim, o que eu vejo disso é que, quando a gente entra muito nessa coisa de política, isso, na verdade, é uma pandemia, literalmente, no mundo. Essa polarização política que está rolando, apesar de, sem julgamento de nenhum dos lados, mas eu acho que é problemático a exacerbada polarização, a incapacidade de escutar outras pessoas, brigas dentro da própria família, irmão por irmão, primo com primo, por causa de ideologias, às vezes, que os dois lados dentro da mesa de jantar estão sendo órgãos hospedeiros de ideologias que nem entendem tão profundamente, e estão ali representando coisas que não são parte do dia a dia delas tanto assim. Elas acabam entrando numa ideologia de grupo, uma coisa que é outro mundo, vamos dizer, é um mundo intelectual, é um mundo de nuances, de sutilezas. E quando você concentra em educação do filho, eu e você, eu não sei qual é a sua visão política, mas a gente pode ter visões polarizadas politicamente, mas quando a gente começa a olhar para os filhos, a gente começa a concordar em muita coisa, começa a focar em coisas assim, tipo, vamos falar de psicologia, sabe? Tipo, o que eu sofri quando era criança? O que você sofreu quando era criança? Como que a gente pode quebrar a cabeça pra que os nossos filhos não sofram isso? Acho difícil a gente não concordar, porque é meio natural. E a psique humana é a minha, a sua, a mesma coisa, né? E a gente tá olhando pro mesmo canvas, né? E nisso a gente consegue, vamos dizer, sobressair a essas polarizações que muitas vezes são artificialmente, pelo menos, turbinadas. Existem as agendas, existem as coisas importantes que a gente tem que conversar, mas os políticos, para poder usar a massa de manobra dos dois lados, exageram, turbinam, focam demais em um assunto. E as pessoas entram na neurose dessa coisa, quando, na verdade, no final das contas, somos todos pais que queremos um Brasil melhor para os nossos filhos. Mesmo se você não tiver filhos, você quer isso para os seus sobrinhos, para órfãos, para quem quer que seja.

Polarização política e educação dos filhos (48:55)

André Moraes: [51:31] Para você mesmo. Mas o que eu acho é assim, falando desse mundo político, eu acho muito legal você falar sobre isso, as visões políticas e tal. Eu concordo com você. Não me interessa se você é uma pessoa mais de direita, ou mais de esquerda, ou mais de centro, ou centro-direita. Eu sou uma pessoa mais centro-esquerda, mais esquerda até. Mas isso não quer dizer que uma pessoa de direita vai sentar comigo e vai falar uma coisa e eu vou falar assim, pô, legal, eu acho uma solução muito inteligente, eu acho bom, entendeu? Não tem nada a ver uma coisa com a outra, é isso que as pessoas têm que parar de confundir no Brasil. Porque o que acontece é o seguinte, você falou uma coisa muito interessante sobre essa coisa da briga de família, e o que é mais louco dessas brigas de família é que a maioria dessas brigas, o estopim é uma fake news. Então, as pessoas estão brigando por nada, por uma coisa que não aconteceu. Então...

Eron Falbo: [52:32] O navio que tá bloqueando o canal é uma fake news.

André Moraes: [52:36] Exatamente. Então, é uma coisa assim, cara, onde vocês leram isso? Aonde? Ah não, meu amigo me mandou no WhatsApp, falou, véi... Pelo amor de Deus, eu nunca vi nenhum jornal, nenhum jornalista falar sobre isso. Vocês estão discutindo por uma coisa... Isso que eu estou falando aconteceu com 300 mil pessoas, não é de um só. Então, cria uma neurose, uma loucura que aí fica... Não dá pra tu combater, sabe? Uma coisa... O Brasil se tornou um lugar. Não só o Brasil, os Estados Unidos também, cara.

Eron Falbo: [53:05] O mundo inteiro, o mundo inteiro.

André Moraes: [53:07] O Trump e o Bolsonaro usaram a mesma estratégia de marketing, inclusive com a mesma agência de Londres.

Eron Falbo: [53:14] Na Inglaterra é a mesma coisa.

André Moraes: [53:16] Isso, na Inglaterra é a mesma coisa.

Eron Falbo: [53:18] Na Rússia é a mesma coisa.

André Moraes: [53:20] Isso. Cara, em todo lugar, independente do lado, se é esquerda ou direita, não tô falando disso. É isso que as pessoas têm que entender. Agora... e no Brasil existiu sim diversas coisas aí que hoje em dia tá mais do que provado, que foram manobras para eleger a pessoa que está lá. Então, manobras que eu digo assim, não houve coisas no voto, mas houve sim várias coisas aí que os jornais já comprovaram.

Eron Falbo: [53:50] Em que eleição que não rolou isso? Eu acho, na minha opinião, sinceramente, todas as eleições são feitas, é uma guerra entre oligarquias, são grupos oligárquicos que perdem ou ganham poder, e quem elege o que está no poder foram certas oligarquias, sempre.

André Moraes: [54:06] E sempre quem lucra são os caras que são tetra, leonários, bilionários.

Eron Falbo: [54:12] E o povo fica lá no meio do jantar, pra essa galera, entendeu? É isso que eu tô falando. Eles são abduzidos, possuídos e trabalham de graça pra essa galera.

André Moraes: [54:25] E outra coisa que as pessoas têm que pensar é o seguinte: não tem que ficar pensando também se é esse ou se é aquele. Tem que pensar o seguinte: qual é o time de deputados que eu vou eleger? Qual é o time de senadores que eu vou eleger na próxima eleição? Porque não adianta o presidente não fazer nada.

Parlamentarismo, fake news e cidadania (54:30)

Eron Falbo: [54:44] Por isso que eu sou parlamentarista. Eu acredito em parlamentarismo fortemente. Na verdade, eu acredito tanto que eu realmente acho que não tem nem discussão. Quando eu digo isso, não quer dizer que eu não discutiria, mas depois de eu ter... Não que eu seja cientista político, mas o que eu estudei, de pesquisar e tudo mais, cara, eu não achei nenhum argumento para o presidencialismo. O parlamentarismo ganha em essência que você elege representantes locais ao invés de eleger o presidente. Se você não eleger um cara que você não entende o escopo nem da sociedade... Eu moro no Rio de Janeiro. Eu não entendo o escopo do Rio de Janeiro. Eu não entendo como é que funcionam os diferentes municípios dentro do estado. O Rio de Janeiro como cidade eu não entendo. O prefeito, o que ele tem que levar em consideração? Imagina o Brasil, como é que a gente vota num presidente? É óbvio que vai ser por demagogia, por cesta básica, por mídia, por qualquer tipo de conluio possível. Porque você tá comprando uma massa crítica de pessoas através de uma mensagem simplória. Sempre tem que ser uma mensagem simplória. E se não for, não tem como se eleger. Então, não é nem questão de julgar o pobre coitado que achou que não ia estar entrando numa roubada, sendo presidente, né? A Dilma, quando estava entrando no governo, tipo, pô, tô sendo presidente, aí depois, ahhh, entrei no pesadelo. Coitada, até senti pena dela chorando. Mas é isso, cara. As pessoas não entendem o quanto que é. Tipo, é tudo já meio que, porra, já tá engessado, não tem como mudar. E o parlamentarismo tá dizendo, pelo menos, não tô falando que é um paraíso, mas pelo menos você tá, porra, elegendo um representante local que você entende mais ou menos o que tá acontecendo. Essa pessoa tá te representando pra eleger um primeiro-ministro que vai cuidar do governo.

André Moraes: [56:53] Não, então, eu acho que o teu ponto de vista é um ponto de vista muito interessante, eu acho que é um ponto de vista a ser debatido, a ser conversado. Não acho isso ruim, nem bom, nem tenho como saber e te responder isso agora, porque realmente isso aí teria que ter um estudo muito grande para saber como isso funcionaria no Brasil. E você já deve até ter pensado nisso várias vezes, porque você... Pô, Bruno, eu me empolguei! Não, do caralho, o rapper Sagat tá aí, meu amigo, do Rio de Janeiro. É um rapper maravilhoso. Ô, Sagat, você mora onde? Na Mangueira? É na Mangueira que tu mora, né? Se eu não me engano.

Eron Falbo: [57:36] Ô, Sagat, vamos fazer uma live aí, Sagat.

André Moraes: [57:38] Cara, o Sagat é foda. Esse aí é... Choquinho do rap.

Eron Falbo: [57:43] Esse aqui, hoje em dia, se falar nada do rap, eu falo nada do Covid, gente.

André Moraes: [57:47] Cara, a história dele é incrível. A história de vida desse cara é foda, é muito forte. Mas voltando para o teu assunto, eu acho isso: o sistema que a gente tem hoje é esse, é um sistema muito complicado, as pessoas não entendem como funciona. Você falou uma frase muito importante, que é essa questão que a gente tem que abrir o olho, que é assim: para se eleger, o discurso tem que ser simplório. E é verdade, sabe? Infelizmente é verdade. Então por isso que é muito mais fácil votar no cara que fala assim: vamos matar, eu vou liberar. Então o outro fala assim: vou dar.

Eron Falbo: [58:18] A vida pro Bolsonaro, arminha, pô, tem que ser uma coisa assim que dá pra repetir. Não, exatamente.

André Moraes: [58:24] E assim, eu não vou também ficar aqui só esculhambando o Bolsonaro, não, porque muitos outros candidatos de outros cargos também fizeram a mesma coisa. Então é muito perigoso esse tipo de política. É muito perigoso, porque a política não se faz com isso. Ninguém chega lá e fala assim: vou fazer isso hoje. Não é assim, cara. Não é assim, há uma votação, há um projeto de lei, tem que passar por um monte de gente. Então, cara, tem que olhar, tem que...

Eron Falbo: [58:50] Ler, tem que se inscrever. O caminho de prometer é fácil, né? Porque ele fala, pô, eu vou tentar fazer. Então, tipo assim, se ele tentou, aí, não, o STF não deixou, aí, pô, pelo menos eu tentei, né? Ele tá mais ou menos cumprindo. Mas a verdade é que não dá pra prometer essas merdas, né, pô?

André Moraes: [59:06] Claro, exatamente. E nenhum consegue fazer isso. Agora, o que a gente tem que pensar é o seguinte, cara: já que a gente tá falando de política, é importante que o próximo candidato aí que esteja na frente das pesquisas faça um projeto social pro Brasil. Faça um projeto que as pessoas realmente se preocupem com as outras... Você que quer fazer uma live com o Sagat, ele tá até falando aqui, só chamar e tal. Ele é um cara que mora na favela, nasceu na favela, perdeu um amigo pra caralho, perdeu um monte de gente. Sabe da realidade, sabe? A gente tá aqui falando coisas que a gente lembra, sabe? Isso é muito complicado. Então é interessante a gente falar sobre isso. Vamos falar! Vamos!

Eron Falbo: [59:45] O Sagat já aceitou, tá todo mundo vendo, vou tirar foto aqui. Todo mundo veio aqui e aceitou, vamos fazer. Cara, é isso, cara. Essa questão, eu acho que a gente concorda com certeza. E o que é mais importante nessa parada de educação dos filhos é a galera não se levar tão a sério no que acha que sabe, né? Até porque boa parte é fake news, do que você tava falando. Mas, cara, eu queria te agradecer muito pelo seu tempo e por ter aceitado o convite. Você é essa pessoa aberta, sorridente, maravilhosa. Bom, gostei muito de te conhecer, espero tomar um suco de tomate aqui no Rio de Janeiro, porque eu não vou mais para São Paulo, nunca mais ali.

André Moraes: [1:00:27] Cara, eu quero te agradecer o convite, adorei te conhecer, o Maurício falava super bem de você. O papo foi ótimo. Eu acho que esse papo... Podemos ter esse papo outras vezes também, fora daqui. Acho que é muito saudável que a gente faça isso.

Eron Falbo: [1:00:43] A gente pode brigar. A gente pode brigar de política.

André Moraes: [1:00:47] É, mas brigar de uma forma boa, né?

Eron Falbo: [1:00:50] Muito bonito. Não, brigaria não.

André Moraes: [1:00:52] Não, não. Eu acho que a gente pode... Cara, nossa, pelo amor de Deus. Imagina, uma vez na minha casa, eu vou falar uma coisa que você é de Brasília, tu vai entender. Uma vez na minha casa, na festa do meu pai, eu encontrei o Cristóvão Buarque e o Zé Roberto Arruda. Os dois...

Eron Falbo: [1:01:11] Ele está de lado comigo, acho que daqui a uma semana.

André Moraes: [1:01:14] Cristóvão é grande amigo da família. Cristóvão é meu grande amigo. As filhas são minhas amigas de infância. A Júlia é uma das minhas melhores amigas. Amo de paixão. Então, assim... Eu adoro o Cristóvão, acho uma figura muito bacana, um cara muito inteligente, fez um trabalho maravilhoso em Brasília e na reitoria da UnB, quando meu pai era professor. Ele é muito amigo do meu pai, depois você pergunta pra ele na live. Mas, enfim, vamos encerrar.

Eron Falbo: [1:01:42] Cara, você estava falando do aniversário do seu pai. Eu te cortei de novo.

André Moraes: [1:01:46] Não, foi isso, entendeu? Porque no aniversário do meu pai, eu lembro, de 60 anos, eu lembro que encontrei o Cristóvão Buarque conversando com o Arruda. Então, tipo assim, aí sim, a gente vê... O Cristóvão estava no PT nessa época, e o Arruda, se eu não me engano, no...

Eron Falbo: [1:02:03] No STB.

André Moraes: [1:02:04] Não, não, não, era mais de direita. Era o... Que depois virou Democratas, o... MDD?

Eron Falbo: [1:02:11] Não, acho que era o PSD. PSD, não era?

André Moraes: [1:02:15] Era um... Que depois virou Democratas, que eu lembro que ele foi pro Democratas e tal. Enfim, era um partido de direita com um partido de esquerda. E os dois batendo papo ali, velho, numa boa, falando da política de Brasília, do governo de Brasília, de não sei o que lá e tal. Engraçado que depois os dois viraram governadores, né? Foi muito legal isso. Muito engraçado a gente ver isso acontecer. Então, esse debate político é sempre muito bom. Desde que não tenha fake news e gente doida. Porque aí não tem debate. É aquilo que você falou.

Eron Falbo: [1:02:49] Para mim, a última mensagem que eu gostaria de deixar sobre essa questão, eu acho que gente doida e fake news têm uma raiz em comum. Que é a ideologia de grupo, as pessoas entrarem muito nessa coisa do clique, do tipo assim, porra, eu sou do punk rock, eu sou, cara, mas a beleza da vida é você, porra, conhecer a galera do rap, aprender. E tipo assim, eu falei que eu fui de Brasília e eu fui assim muito do rock alternativo, porra, me arrependo, porque se eu tivesse sido mais aberto, mais abrangente, ia ter aprendido muito mais, ia ter crescido muito mais. E eu acho que é isso, ideologia de grupo não serve pra nada, entendeu? Tipo, a gente deveria ser curioso, né? Tipo, pô, a gente talvez até venha de algum grupo, mas, pô, a gente não precisa, o nosso destino não precisa ser esse mesmo grupo, né? A gente, pô, cresci em Brasília, mas eu quero conhecer o mundo. Eu cresci flamenguista, mas, pô, eu fui ver jogo do Corinthians, sei lá, e adorei. Porque, pô, são experiências, são coisas diferentes. Então, acho que isso que faz a gente buscar fake news pra provar que a gente tá certo, porque a gente tá tão hipnotizado por essa obrigação de representar nosso grupo. Que a gente busca informação até onde não existe para poder sustentar. E fake news, para mim, não é nem o pior. Para mim, o pior é quando é factual e a pessoa está usando erroneamente para sustentar uma ideologia de grupo, entendeu? Então, a mensagem que eu deixo pessoalmente é que, galera, eu falo para mim mesmo também, que muitas vezes eu perco isso, vamos ter empatia humana, ver que as pessoas são seres humanos passando por problemas e vamos escutar o que elas estão dizendo com o coração e não com o discurso, para a gente poder se unir nesse aspecto que todo mundo tem, que é o coração, que é o psíquico, que a gente falou antes, o desejo de ter um país melhor, mais seguro. Quem vai argumentar com isso? Mais seguro, mais bem-sucedido, mais rico, com mais recursos pra todos. Seja de esquerda ou de direita, todo mundo concorda com isso.

André Moraes: [1:05:11] É, não, exatamente. Tá até um amigo meu aqui, o Roberto Stavik, que foi pré-candidato aqui em São Paulo. Terminou que ele desistiu da candidatura. Por isso que a gente tá falando também, sabe? É muita loucura. Eu concordo contigo, acho que a gente tem que sempre ter a empatia, você sentir o outro, a pele do outro, o que a outra pessoa passou para você poder ter essa noção. Acho muito importante, realmente sou um adepto do combate a fake news mesmo, porque o que eu posso falar para as pessoas que estão aqui é que não se informem por WhatsApp, por favor. Não façam isso, não façam isso, se informem. Você pode eleger quatro sites que você goste, sabe? UOL, Globo, Folha de São Paulo, Estadão, Carta Capital, Zero Hora, Correio Braziliense, qualquer um. No exterior, você tem The Guardian, você tem BBC, você tem... Entra nesses portais, cara. Vai todo dia lá e entra lá que você vai ver notícias. São jornalistas sérios, sabe? Que estão ali fazendo coisa. Isso é muito importante, que a gente saiba o que realmente está acontecendo nesses países, sabe? Hoje em dia, a galera está muito em cima também. Dos jornais, né? Não é mais aquela bagunça que foi, né? Porque a imprensa já foi uma bagunça muito grande. Aquilo que você tava falando, que você usar a notícia também erroneamente. A imprensa já fez isso. Já fez muita cagada no passado, né? E por isso que surge tanta fake news hoje. Porque deram um pano pra manga. A verdade é essa. Mas o que eu posso falar pras pessoas é isso, cara. É que se informem da melhor forma possível. Consumam a arte. Aproveitem essa pandemia pra ver, assistir às lives, ouvir mais artistas, conhecer mais artistas, conhecer filmes novos. Tem um monte de filme brasileiro bacana que a gente não viu, sabe? De 2005 pra cá, que tá aí solto, que deu público pequeno e tá nas plataformas digitais. É muito legal que a gente possa ver a nossa cultura e aprender muito com a nossa cultura, sabe? Porque todo país tem a sua cultura muito peculiar. Você falou que morou em Israel, né? Então, Israel tem a cultura de lá, tem os filmes de lá, tem as coisas de lá, tem a história de lá, tem a música de lá.

Onde assistir e novos projetos de cinema (1:07:28)

Eron Falbo: [1:07:29] E vamos dizer, para o pessoal saber onde achar, aonde está tocando o Entrando Numa Roubada?

André Moraes: [1:07:37] O Entrando Numa Roubada hoje, meu primeiro filme, ele está na Pluto TV, que é um canal gratuito na internet, que é do grupo Viacom. Ele está também no NOW, está na Apple TV, ele está também na Claro, na Claro TV, está em todas essas plataformas digitais, que você pode pagar pra ver o filme. Então, se você assina, por exemplo, o NET, você consegue ver de graça no NOW, não tem nenhum problema. O meu segundo filme, que é um filme com o Leandro Hassum, que chama Não Se Aceitam Devoluções, tá disponível no Globoplay, porque é um filme da Globo. E só pra encerrar, eu vou falar uma coisinha bacana. Esse ano vai lançar meu novo filme, que se chama Compro Likes. Tem tudo a ver com esse assunto que a gente tava falando aqui. Que é um filme muito divertido, a história de um cara que faz um fake de Instagram e fica muito famoso e tal, com um puta elenco, mas ainda não sabemos aonde vamos estrear. Estamos em plena negociação agora com vários lugares.

Eron Falbo: [1:08:43] O filme está pronto para estrear.

André Moraes: [1:08:46] O filme está pronto, está finalizando agora. Vai finalizar dentro de 1, 2, 3 meses e a gente já está pronto para lançar.

Eron Falbo: [1:08:53] E pode falar qual que é a produtora por trás, qual que é o... Como é que chama isso? O estúdio?

André Moraes: [1:09:00] Então, a produtora é a minha produtora, Aquarela Produções. Débora Secco é minha coprodutora, Lúcio Mauro Filho é meu coprodutor, a gente fez o filme junto. Agora, onde vai exibir a gente ainda não sabe. Existem vários canais interessantes. A gente optou por não colocar no cinema, a gente ia colocar no cinema, porém a pandemia está impossibilitando que isso aconteça. Então a gente está vendo onde vai ser feito. Eu vou te avisar em primeira mão, você vai saber, vai avisar a galera, mas vocês vão gostar bastante do filme. O filme tem um elenco muito diversificado: tem Débora, tem Lúcio, como eu já falei, tem Fabinho Lago, tem Marcos Mion, tem a galera do Hermes e Renato, tem Ailton Graça, tem Millen Cortagi.

Eron Falbo: [1:09:44] Pô, você é ótimo, sei.

André Moraes: [1:09:46] É um elencaço, meio gigante, muito divertido mesmo, muito engraçado. Você vai gostar bastante.

Eron Falbo: [1:09:51] Cara, eu tinha um monte de perguntas aqui que eu não fiz pra você, mas infelizmente tem gente que a gente marca uma próxima e conversa pessoalmente também, com certeza.

André Moraes: [1:10:02] Tamo junto.

Eron Falbo: [1:10:02] Mas é isso, André. Cara, muito bom te ter aqui. Você é sempre bem-vindo. Qualquer coisa que você precisar, estamos aí.

André Moraes: [1:10:09] Igualmente.

Eron Falbo: [1:10:11] E aí a gente se fala. Beijão, beijão a todos.

André Moraes: [1:10:14] Obrigado, gente. Obrigado por tudo.

Eron Falbo: [1:10:15] Tchau, tchau.

André Moraes: [1:10:16] Boa noite.

No Alvo com Eron Falbo · episódio #84 · todos os episódios