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#82 Rod Stewart, Brasília, Ópera e David Bowie

com Luiz Fernando Borges · 24 de mar de 2021

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Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Abertura e apresentação do convidado (0:00)

Eron Falbo: [0:05] Olá, sejam bem-vindos! Vocês estão no Alvo, eu sou Kátia Viamonte. E hoje estamos com Luiz Fernando Borges, que é produtor cultural, foi empresário do Zé Ramalho durante anos, diretor assistente e roteirista do filme Somos Tão Jovens, que retrata a carreira do Legião Urbana. Multitarefas, uma pessoa realmente muito talentosa. Vamos ver se o Luiz já entrou, gente. Com vocês, Géronimo! Opa! E aí, pessoal?

Luiz Fernando Borges: [0:51] Tudo bem aqui?

Eron Falbo: [0:52] Boa noite, boa noite a todos! Opa, obrigado! Vou ajeitar aqui as coisas. Olá. Beleza. Tudo certo?

Luiz Fernando Borges: [1:21] Tudo bem. Tá boa a imagem? Precisa de mais luz? Menos?

Eron Falbo: [1:27] Não, tá ótimo, perfeito, tá melhor que a minha.

Luiz Fernando Borges: [1:30] Não, aqui eu tô achando mais real a minha, eu tô achando meio esbranquiçada, mas tudo bem.

Eron Falbo: [1:36] Ah, mas a gente sempre se julga mais. A sua está perfeita. Eu estou até me ajeitando ainda, mas está tudo certo, vai dar tudo certo. Como é que você está aí? Está em casa? Você fica no Rio de Janeiro, não é? No Leblon, é? E o tempo todo...

Rotina diária e vida no Rio de Janeiro (1:45)

Luiz Fernando Borges: [2:00] Dentro de casa, quer dizer, eu saio para caminhar, porque eu acho necessário você caminhar pelo menos dois quilômetros por dia, exercício, etc. Mas as minhas atividades são todas... Uma amiga minha uma vez me falou que tudo que a gente gosta de fazer geralmente é sentado, que é ou ver filme, ou ler um livro, ou streaming na TV, enfim. Tem muitas outras coisas. Mas eu não sou barrigudo, não.

Eron Falbo: [2:39] Você conseguiu ficar sem ser barrigudo? Nos tempos de hoje é difícil, hoje tem tanta obesidade.

Luiz Fernando Borges: [2:48] Tem homens que eu adoro comer, eu cozinho, eu gosto de fazer.

Eron Falbo: [2:53] Mas você acredita que tem que andar dois quilômetros por dia. Só essa crença já emagrece.

Luiz Fernando Borges: [2:58] Pois é.

Eron Falbo: [2:59] É muito bom, mas você realmente faz isso todo dia? Dois quilômetros? Porque eu estou impressionado, estou tentando fazer isso.

Luiz Fernando Borges: [3:07] Você mora no Leme, que é a coisa melhor, é só descer, não sei se você mora em apartamento, descer alguns andares e caminhar. Caminha até o posto 6 e volta.

Eron Falbo: [3:19] Mas se desce, porque eu moro dentro do apartamento.

Luiz Fernando Borges: [3:22] Não, eu estou brincando, porque até o posto 6, realmente... Mas, na verdade, ter ido até ali, o Copacabana Palace é uma boa.

Eron Falbo: [3:32] Aqui é maravilhoso. Eu não sou do Rio, eu sou de Brasília. Você deve conhecer bem Brasília, porque você conhecia bem o Renato Russo...

Memórias da construção de Brasília (3:41)

Luiz Fernando Borges: [3:41] Nós filmamos em Brasília. Nós ficamos dois meses em Brasília filmando.

Eron Falbo: [3:46] O Maurício falou. Você deve conhecer bem Brasília.

Luiz Fernando Borges: [3:51] A gente conheceu Brasília desde que ela era ainda riscada no plano piloto. Eu fiz os primeiros voos para Brasília. Em 1962, veja só.

Eron Falbo: [4:05] A gente não deve ter muita data.

Luiz Fernando Borges: [4:06] Para não ficar meio mausoléu.

Eron Falbo: [4:11] E Brasília estava ainda no plano, não é?

Luiz Fernando Borges: [4:16] Eu tenho fotos de Brasília só riscada, com o Palácio... Enfim, a parte do Congresso, aquela parte, já existia. Só tinha praticamente isso e o Hotel Nacional.

Eron Falbo: [4:35] Como é que chama?

Luiz Fernando Borges: [4:38] O eixo monumental.

Eron Falbo: [4:40] O eixo monumental, a primeira parte.

Luiz Fernando Borges: [4:43] Isso, isso.

Eron Falbo: [4:44] Você está com um ar assim, não sei se é a luz, não sei se é a sua roupa, mas você está me passando uma coisa meio John Malkovich. Não sei se já te falaram isso, o jeito que você fala.

Cinema clássico e trilhas sonoras de jazz (4:57)

Luiz Fernando Borges: [4:57] Eu gosto de John Malkovich. Eu queria ser o John Malkovich. Não é esse o nome do filme dele?

Eron Falbo: [5:05] É, sempre, velho. Em inglês é Bean Diamond. Não sei como é que é em português. Mas qual é o seu filme favorito? Você lembra qual filme você gosta mais do Diamond?

Luiz Fernando Borges: [5:16] Olha, é o Nosferatu, né? Não foi ele que fez? Que entrou no papel?

Eron Falbo: [5:23] Ele refez o Nosferatu?

Luiz Fernando Borges: [5:25] Sim.

Eron Falbo: [5:26] Ah, não lembra.

Luiz Fernando Borges: [5:27] Não vi, eu acho. Um dos últimos filmes dele, é.

Eron Falbo: [5:32] Caramba, preciso ver isso aí, porque eu lembro de gostar do Nosferatu, aquele clássico, o Nosferatu clássico, que é atendorizante aquele filme, é super impactante. E a luz, aquela coisa.

Luiz Fernando Borges: [5:50] Eu acho que o John Malkovich fez aquele filme também do Bertolucci, passado do norte da África, sobre um casal de escritores. Eu acho que ele era o ator principal. Agora é o nome de todo mundo.

Eron Falbo: [6:04] Out of Africa, talvez o nome?

Luiz Fernando Borges: [6:06] Não, Out of Africa é outro.

Eron Falbo: [6:08] Ah, não é do Beto Lutti?

Luiz Fernando Borges: [6:10] Não.

Eron Falbo: [6:12] Ah, eu acho que eu sei o que você está falando.

Luiz Fernando Borges: [6:16] É um filme muito bonito até, colorido e enfim.

Eron Falbo: [6:20] É, vocês sabem o que é.

Luiz Fernando Borges: [6:22] Olha, são tantos nomes que a gente, às vezes, para puxar um filme maravilhoso...

Eron Falbo: [6:30] Aí a nossa equipe tá tentando achar aqui, mesmo procurando, é difícil. Mas o meu favorito é o Liaison Dangerous, o Dangerous Dangers, o Ligações Perigosas... era só o Maurício falar no mesmo tempo que eu.

Luiz Fernando Borges: [6:44] Eu adoro o Liaison Dangerous, inclusive, eu não sei se você conhece a primeira versão do Roger Vadim, com a Jeanne Moreau e o Gérard Philipe, em preto e branco?

Eron Falbo: [6:55] Eu conheço.

Luiz Fernando Borges: [6:57] Eu adoro essa primeira versão porque, primeiro, eu adoro a Jeanne Moreau. Eu adorava, né? E a trilha sonora, eu não ouço até hoje, porque é uma trilha sonora de jazz, que tinha Art Blakey com os Jazz Messengers, Thelonious Monk.

Eron Falbo: [7:16] Caramba! Isso é surpreendente porque nessa época do Jean Barrault não se fazia, pelo menos não era normal, se fazer filme de época com... ainda mais, bom, filme de arte até sim, mas um filme com uma narrativa, uma ficção normal, vamos dizer, não era normal se fazer com música que não era da mesma época. Isso é uma coisa que ficou, teve uma moda depois. Mais recentemente teve essa moda de fazer, que nem o Peaky Blinders, que faz um rock pesado, né? Gangster dos anos 20, um rock pesado, um Led Zeppelin, uma coisa... Isso eu estou falando a minha impressão, não sou especialista em cinema como vocês, tá certo?

Luiz Fernando Borges: [8:06] Essa trilha sonora é muito boa, as músicas são ótimas. E, já que a gente entrou em trilha sonora de jazz, tem também, com a Jeanne Moreau, um filme do Louis Malle chamado Ascensor para o Cadafalso, em que a trilha sonora é do Miles Davis. Quer dizer, ele estava assistindo o filme, tocando em cima, e fez essa trilha. Ela está no YouTube, você pode ver tudo isso no YouTube. Aliás, acho o YouTube uma maravilha, porque está tudo lá.

Eron Falbo: [8:42] E esse YouTube também é de época, não?

Luiz Fernando Borges: [8:45] Vendo desde o Paulo Giraldelli até o Rick Steves' Europe, que são viagens de turismo, enfim, tudo. Filmes antigos, filmes noir. Cheguei a descobrir um filme maravilhoso do Luis Buñuel, chamado Robinson Crusoé. Eu não sabia que ele tinha feito, e a versão de Robinson Crusoé que está no YouTube tem uma imagem excelente, é muito interessante de se ver.

Eron Falbo: [9:25] Claro. Eu gosto muito do Buñuel, mas normalmente esses clássicos só assisto o principal, porque eu tenho tanta coisa para aprender que, se eu for no Robinson Crusoé...

Luiz Fernando Borges: [9:39] O Buñuel, o filme que mais visito dele, que repito várias vezes, é o Discreto Charme da Burguesia.

Eron Falbo: [9:45] Eu adoro esse filme. É o que eu assisti, o único que assisti dele, mas gostei e gosto. Dessa coisa toda, desse tipo de filme no geral. Estou tentando lembrar qual é aquele... São.

Luiz Fernando Borges: [10:04] Pessoas que ficam marcando jantares e almoços e nunca almoçam nem jantam. Sempre acontece alguma coisa que interrompe a programação. É bem legal. É sobre isso.

Eron Falbo: [10:17] O Maurício falou que é o favorito dele. Pior que eu tinha, quando eu tinha uns 22, 23 anos, mais ou menos.

Luiz Fernando Borges: [10:24] Ontem, né?

Eron Falbo: [10:24] Na época que eu era para a faculdade.

Luiz Fernando Borges: [10:26] Foi? Quando você tinha 22 anos, ontem.

Eron Falbo: [10:31] É, faz muito tempo. Eu sou que nem o Maurício, sou vampiro, entendeu? Parece que eu tenho menos do que eu tenho. Eu tenho 36 anos. Não, o Maurício parece que ele tem 22 e ele tem, sei lá, Não vou revelar, mas ele tem um pouco mais do que eu. Mas eu, quando eu tinha mais ou menos uns 22, 23 anos, eu era cinéfilo total, assistia de tudo. Tarkovski, eu assistia a todos os Godard, qualquer coisa que for, e eu prestava atenção, eu gostava, comparava um com o outro. Aí depois teve uma fase que eu nunca mais assistia, que você perdia a paciência.

Luiz Fernando Borges: [11:13] É o que eu gosto. Antes de ontem, eu assisti também, eu assisto bastante, esse é o filme do Godard que eu mais vejo, que eu não acho chato, que é Le Mépris, com a Brigitte Bardot, o Michel Piccoli e o Fritz Lang, o famoso diretor Fritz Lang. E é um filme sobre filme, eu adoro filme sobre filme. Então, Michel Piccoli é um roteirista que vai fazer um roteiro para o Jack Palance, aquele ator de Hollywood que sempre fez especialista em papel de gangster. E todo ele é em Capri, então é colorido, é o mar, a paisagem de Capri, a filmagem é sobre Ulisses, eles falam sobre isso. Enfim, é um filme bem interessante.

Eron Falbo: [12:06] E a vegetadora ainda.

Luiz Fernando Borges: [12:08] Eu cheguei a ver a vegetadora pessoalmente quando ela esteve aqui no Brasil da primeira vez. Foi a atriz mais colorida e bonita que vi de perto. Vi a Catherine Deneuve também. A Catherine Deneuve tem uma pele que não é bonita. Agora, a pele da Brigitte Bardot, o cabelo, os olhos, nossa! Foi um deslumbre ver Brigitte.

Eron Falbo: [12:38] Falando em Virgínia de Bardot, a gente pode pegar uma carona da Virgínia de Bardot e entrar em Serge Gainsbourg e voltar para a música. Eu estou me sentindo fora do meu métier, que faz muitos anos que eu assisto os filmes clássicos. Aqui a Cate está falando que o filme do John Malkovich é Acessor para o Cadafalso.

Luiz Fernando Borges: [12:59] Não, Acessor para o Cadafalso não é John Malkovich, é do Louis Malle, com a Jeanne Moreau. E o ator pode ser... Então, eu queria.

Eron Falbo: [13:13] Estou mencionando outra coisa, então. O Lemeprit é o Desprezo, né?

Luiz Fernando Borges: [13:20] É o Desprezo, que é o Lemeprit, que é o do Godard.

Eron Falbo: [13:24] Só estou tentando acertar a minha própria cabeça, porque estou há muito tempo...

Luiz Fernando Borges: [13:30] Muita parte, eu acho. Porque dessas dúvidas saem... Enfim, a gente pesquisa e sai a coisa.

Eron Falbo: [13:40] Antigamente eu gostava muito de lembrar todos os nomes, agora meio que foda-se.

Luiz Fernando Borges: [13:44] Não, agora você pega o celular no instante e você acha. Não precisa gastar tanto a memória assim.

Eron Falbo: [13:53] Mas me conta aquela história que você me falou quando a gente estava falando no telefone antes, que eu achei maravilhosa, que até um amigo meu, que é da hotelaria, estava me contando a história de quando o Rod Stewart ficou no Copacabana Palace e foi expulso, e o pessoal do Copacabana Palace que presenciou, ou não, escutou a história e contou a versão deles. Mas você me contou que estava trabalhando com o Rod Stewart nessa época, nessa turnê.

A festa do Rod Stewart no Copacabana Palace (13:57)

Luiz Fernando Borges: [14:30] Não, não era turnê, foi o seguinte. Ele tinha terminado, ele estava de férias, e resolveu vir de férias para o Brasil. Então veio ele, acompanhado do assessor de imprensa dele, chamado Tony Tun, e de um segurança. Vieram os três, e a Warner, que era a gravadora dele, colocou-os na suíte presidencial do Copacabana Palace. Então, ele, uma pessoa famosa, resolveu organizar um jantar para poucas pessoas, digamos. Seria a nata dos convidáveis da época. Se pensou em chamar a Danusa Leão, a Marta Rocha, enfim, seria um petit comité na suíte. E aí, o que acontece? O Rod Stewart, com esse segurança... Ele tinha um amigo que era dono de uma boutique chamada Smuggler, que era um inglês. Então ele comentou para esse amigo da Smuggler que ia ter essa reunião no Copacabana Palace com o Rod Stewart. O que esse cara da Smuggler faz? Telefona para um cabeleireiro chamado Oldie e diz que estava tendo essa festa na suíte. O Oldie detonou a festa para o Rio de Janeiro inteiro, praticamente. Então, o que aconteceu? As dez pessoas selecionadíssimas viraram quase duzentas e cinquenta. Foi uma loucura, o mundo de pessoas que foi chegando naquela suíte. Enfim, como seria essa situação? Eu me lembro que, no início, a gente começou a pedir as bebidas pelo room service. Agora, você imagina a loucura disso. E, como eram tantas pessoas, eles acabaram quebrando a suíte. Quebraram o vidro do box do banheiro, quebraram alguns móveis e, diante disso, o Copacabana pediu que ele saísse. Na época, quer dizer, a gente não quis falar que houve isso, que quebraram móveis e coisas, e nós lançamos uma notícia falsa de que ele teria jogado futebol na suíte e a bola teria ficado para o futebol no Brasil.

Eron Falbo: [17:07] Uma coisa menos mal.

Luiz Fernando Borges: [17:09] E aí a Warner conseguiu um apartamento para ele no Edifício Chopin. Eu nunca me esqueço disso, porque a gente foi ver o apartamento em que ele ia ficar. O cara devia ser um advogado: tinha uma mesa de escritório grande, mas tinha uma montanha de cheques. Eu nunca vi uma coisa assim, cheques preenchidos. Eu imagino que o cara gerou cheques sem fundos. Enfim, isso foi um detalhe da história. E quem ligou para ele, quando ele estava lá vendo se o apartamento ia ficar ou não, foi uma vizinha do andar de cima, que vinha a ser a Odile Rubirosa, quer dizer, ex-Rubirosa, ex-Odile Marinho, ex-Paulo Marinho, esse suplente de senador, eu acho. Enfim, ele foi para esse apartamento, e, como ele tinha se comportado mal, segundo os empresários, teve que voltar para fazer um programa de televisão na Alemanha e depois voltou para o Rio de Janeiro. Mas ele era o tipo do...

Eron Falbo: [18:21] A gente tem registrado a verdade sobre o que ocorreu, que é muito pior do que jogar futebol no apartamento: ele fez uma rave. Eu sei que você me falou que não é bem culpa do Rod Stewart, porque foi o cabeleireiro quem chamou a galera.

Luiz Fernando Borges: [18:44] É, detonou a festa.

Eron Falbo: [18:45] Se ele quisesse parar a festa em qualquer momento, ele podia parar.

Luiz Fernando Borges: [18:51] Não, a gente teve que fazer isso. Teve um momento em que a coisa estava tão incontrolável que, como eu era o responsável por isso, tive que avisar: a festa acabou. Aquela coisa meio chata.

Eron Falbo: [19:07] E como é que foi esse desconforto? Qual era a sua função nessa situação? Só para me localizar.

Luiz Fernando Borges: [19:21] Quer dizer, tipo o cicerone produtor. Porque eu, quer dizer, estava administrando a festa; quem me pediu isso foi o André Midani, que era o presidente da Warner.

Eron Falbo: [19:35] Ah, da Warner. Ele estava representando a Warner aqui no Brasil.

Luiz Fernando Borges: [19:40] É, era a Warner que estava responsável por isso. Tinha também o Leonardo Neto.

Eron Falbo: [19:45] Na época, a Warner ainda organizava esse tipo de coisa para os artistas.

Luiz Fernando Borges: [19:49] É, porque hoje em dia é pela briga. Agora, ele apostou também. Porque o André Midani tinha um almoço tradicional todos os sábados na Warner, no Marina Palace, em que era uma feijoada. Então, estava toda a equipe de vendas entusiasmadíssima em conhecer o Rod Stewart, e aí ele deu um bolo, não foi? O André ficou muito chateado com ele, aí ele disse que não tinha recebido um convite por escrito para ir ao almoço. Então, para o sábado seguinte, mandaram para ele um convite impresso. E ele rejeitou de novo o convite, e a desculpa dele é que as letras não estavam em relevo. Acabou não indo ao almoço. Depois, encontrei com ele no Rock in Rio de 1985.

Eron Falbo: [20:51] E relembrou esses bons momentos do Copacabana Palace.

Luiz Fernando Borges: [20:55] É.

Eron Falbo: [20:57] E relembrou nada, né? Vocês estavam bêbados...

Luiz Fernando Borges: [21:01] Na realidade, eu não vi ele beber. Eu vi muito ele cheirar.

Eron Falbo: [21:08] Ah, mas não dá para só cheirar, né? Ele estava cheirando... Tinha um refrigerante... Tudo faz isso com cerveja. Ele cheira tanto que é só isso que você vê, né?

Luiz Fernando Borges: [21:21] É.

Eron Falbo: [21:22] É para não ser pego bebendo e vai lá discretamente beber, mas ele cheira na cabeça de todo mundo.

Luiz Fernando Borges: [21:28] É, inclusive no restaurante, tinha um restaurante muito chique no Lido chamado Le Bec Fin, que é um restaurante francês, em que ele passou aí. Eu levei ele lá da primeira vez, aí, como era perto do hotel, ficou o restaurante. E, por acaso, nesse restaurante estava uma atriz brasileira que fez muito sucesso na Europa, na Itália, chamada Florinda Bolkan, que estava com a namorada dela, Condessa Sigogna, e as duas estavam no restaurante e acabaram se aproximando do Rod e fizeram um pequeno grupo. Enfim, uma curiosidade. Não sei se você... se lembra da Florinda Bolkan? Ela trabalhou num filme do Visconti chamado... eu acho que, em português, chamou Deuses Malditos. The Damned. É um filme com Dirk Bogarde sobre o nazismo.

Eron Falbo: [22:31] Ah, não é o que eu estou pensando. Não lembro, não. Mas, falando em filme, na verdade, vamos entrar um pouquinho no Sons Tão Jovens, que, na verdade, acabei não assistindo. A Legião Urbana era a minha banda favorita quando eu era mais novo, ainda antes da época do filme. Mas eu nunca assisti a esse filme, é uma falta na minha lista. Mas como foi a ideia disso? Como foi o processo de criação?

Bastidores do filme Somos Tão Jovens (22:32)

Luiz Fernando Borges: [23:02] O filme Sons Tão Jovens, mais ou menos como o título diz, é só sobre a fase do Renato em Brasília, e termina quando ele vem para o Rio com a Legião. Eu acho que isso foi uma falha, quer dizer, até o diretor concorda que o filme tinha que ir um pouco além da parte de Brasília. Então, foca justamente no Aborto Elétrico, que era o grupo que o Renato tinha em Brasília, e essa vida deles em Brasília.

Eron Falbo: [23:37] Tem um filme, eu não lembro do diretor agora, mas chama Nowhere Boy, que é sobre o John Lennon, e fala justo sobre a época dele em Liverpool, e o grande lance do filme é que mostra ele conhecendo o Paul McCartney, conhecendo o George Harrison e a história da mãe dele, e não menciona a palavra Beatles. Eu achei genial isso. É parecido com isso: no momento em que ele vai começar os Beatles, aí acaba o filme.

Luiz Fernando Borges: [24:09] É uma coisa interessante. Eu conheço esse filme do Lennon.

Eron Falbo: [24:20] Mas teve uma ideia parecida com a ideia de não falar do filme?

Luiz Fernando Borges: [24:26] Eu acho que o filme do Lennon veio depois. A ideia era fazer um filme jovem, e aí justamente abordar o início, que talvez fosse uma história que poucas pessoas conheciam. Mas o filme ficou divertido. Tem muito mais coisa filmada do que você vê no filme, porque se filma muito mais e depois vai editando, enfim. Mas é uma história leve, rápida, enfim, das aventuras do Renato em Brasília nessa época, chegando ao início dos anos 1980.

Eron Falbo: [25:10] Foi um grande sucesso.

Luiz Fernando Borges: [25:12] Tem justamente a ideia de "Que País É Esse" no primeiro show da Legião.

Eron Falbo: [25:20] Legião Urbana. No fim do filme, aparece ou não aparece?

Luiz Fernando Borges: [25:27] O fim do filme é quando eles vêm para o Rio de Janeiro. O que eles faziam em Brasília era penetrar em festas. Eles sabiam onde tinha uma festa e a turma ia e penetrava nas festas. Geralmente faziam bagunça, enfim. E o filme termina...

Cena de rock underground em Brasília (25:47)

Eron Falbo: [25:47] Isso é que está rolando até hoje, porque a cena do rock em Brasília é muito carente. É uma coisa que... como é uma cidade onde passa muito político, o que mais tem é uma coisa mais mainstream, uma coisa mais chata, boate mais ou menos, coisa de playboy. A cena do rock, que é mais underground... eu sou de Brasília. Até hoje é claro que tem diferentes fases, mas tem fases de chuva e seca em Brasília, tanto literalmente quanto em termos de festas de rock. Tem épocas em Brasília que sempre tem festa de rock, porque a galera do rock se coloca para o jogo e organiza. Tem outras fases de Brasília que não rola nada, só rola o que a gente chama de festa na casa de neguinho, que é a festa na casa das pessoas. Uma das grandes coisas que se faz é ir para a festa das pessoas e sequestrar a festa. Então, algum diplomata está organizando num apartamento lá, ele está fazendo uma coisa para os 10 amigos dele, aí a gente chama 200 pessoas, sequestra a festa, muda a música para rock e vira uma festa da cena do rock. Aposto que o Renato já fazia isso.

Luiz Fernando Borges: [27:14] O filme tem justamente uma cena na casa da filha do embaixador da França, em que eles invadem.

Eron Falbo: [27:23] E eu nem vi o filme, estou falando da minha experiência. Olha que bizarro.

Luiz Fernando Borges: [27:26] Tem justamente essa cena. E isso foi um pouquinho antes de você nascer, enfim. Eles faziam bandas de rock porque era uma maneira de arranjar namoradas. Lá não tinha como fazer surfe, nada disso.

Eron Falbo: [27:40] Eu também.

Luiz Fernando Borges: [27:41] A banda de rock era o chamariz para as menininhas, enfim, para arranjar a namorada.

Eron Falbo: [27:50] É gente que não pegou ninguém no segundo grau, aí está querendo se ligar, fazer uma banda de rock para conseguir alguma espécie de atenção. Para mim foi muito isso. Aposto que foi o Rod Stewart também, porque ele era bem nerd, pelo visto.

Luiz Fernando Borges: [28:11] Ele era o primeiro da classe. Aos 18 anos, ele já era professor de inglês da Cultura Inglesa. O inglês dele era a coisa mais perfeita que você possa imaginar, inclusive com vários sotaques. Ele fazia sotaque americano, fazia sotaque americano do interior, fazia sotaque de Liverpool, fazia sotaque da Inglaterra, era incrível.

Eron Falbo: [28:37] Ele gostava da língua inglesa.

Luiz Fernando Borges: [28:40] Sim, a mãe dele era professora de inglês e a irmã também. E o pai era economista do Banco do Brasil.

Eron Falbo: [28:50] Nisso a gente tem muito em comum. Eu também fui professor de inglês na minha juventude em Brasília, fiz banda de rock. A única coisa que eu não fiz foi estourar com ele.

Luiz Fernando Borges: [29:01] Mas você aprendeu a fazer letras e tudo? Você faz letras, compõe? Eu vi que você tem um violão aí, então você toca, claro.

Eron Falbo: [29:09] É, eu compus, eu ia cantar a música Hot Legs, mas fiquei com medo de estar rouco demais e não conseguir, só porque a gente estava falando de Hot Legs.

Luiz Fernando Borges: [29:19] Qual a sua música preferida dele?

Eron Falbo: [29:23] A única que eu aprendi dele é Have I Told You Lately, porque eu me divorciei da minha ex-mulher em janeiro do ano passado, e aprendi um monte de música que a gente fazia de serenata, entendeu, pra voltar pro jogo. Então, a única música que eu sei cantar é essa. Mas, como eu te falei, o que eu gosto do Rod Stewart é The Faces. Então, eu gosto de... como é que é o nome mesmo? There's No Doctor... Hey Doctor... Doctor, pera aí, não vou achar agora, mas é...

Luiz Fernando Borges: [30:03] Eu gosto muito de Maggie May. Você lembra de Maggie May?

Eron Falbo: [30:06] Ah, lembro, lembro. Maggie May é dele sozinho já.

Luiz Fernando Borges: [30:10] Eu adoro esse disco dele chamado Every Picture Tells a Story. Eu acho um dos melhores discos dele.

Eron Falbo: [30:18] Gosto muito de Maggie May.

Luiz Fernando Borges: [30:20] Você tem Maggie May.

Eron Falbo: [30:22] I don't need no doctor. I don't need no doctor. Vamos botar um pouquinho. Se o YouTube plagiar, a gente recorta depois. Mas só para a gente escutar um pouquinho de música na nossa live. Você lembra dessa? I don't need no doctor?

Luiz Fernando Borges: [30:39] Não. I don't need no doctor.

Eron Falbo: [30:44] É, bom demais.

Luiz Fernando Borges: [30:45] Eu lembro disso com... Ah, não, esqueci.

Eron Falbo: [30:49] Não é do Rod Stewart, é do Humble Pie.

Luiz Fernando Borges: [30:51] É do Humble Pie, claro. I don't need no doctor. Aquela guitarra pesada, aquela...

Eron Falbo: [30:58] É, exatamente. Perfeito. Sabe por que eu viajei? Porque o Steve Marriott saiu do Small Faces, e o Small Faces virou The Faces com o Rod Stewart.

Luiz Fernando Borges: [31:10] Eu tinha esse disco de capa preta, escrito Humble Pie em vermelho, será que era assim? E ao vivo, porque essa gravação era ao vivo.

Eron Falbo: [31:24] Boa, só de lembrar do Rambopar eu já fiquei feliz. Eu não ouço Rambopar depois de uns 10 anos, era uma das minhas canções favoritas. E olha só, esqueci da banda que fez. Que isso. Mas agora vamos botar pra ouvir só o que a gente falou. Botar uma versão ao vivo pro YouTube não sacanear a gente. Dá para ouvir?

Luiz Fernando Borges: [31:55] Estou ouvindo que parece uma japonesa cantando.

Eron Falbo: [32:01] Esse experimento não funcionou. Beleza. Vamos para a próxima pauta. Mas me conta mais das coisas que você fez depois do Somos Tão Jovens, para eu conhecer mais do seu trabalho mais recente.

Bossa Nova, Bowie e Velvet Goldmine (32:12)

Luiz Fernando Borges: [32:22] Um roteiro muito interessante sobre o Roberto Menescal e a Bossa Nova. O Menescal, você está lembrado dele?

Eron Falbo: [32:40] Estou lembrado.

Luiz Fernando Borges: [32:42] Tem a galeria Menescal aí, que é da família dele. Mas Menescal foi um dos pioneiros da Bossa Nova, e ele pega...

Eron Falbo: [32:52] Eu não lembro da música. Eu sei quem é, mas não lembro do som.

Luiz Fernando Borges: [32:58] Você conhece a música dele, O Barquinho. Dia de sol, festa de luz e um barquinho a deslizar no azul-verde do mar. Não conhece?

Eron Falbo: [33:07] Dia de sol... Só para me justificar, a maior parte da minha musicologia foi fora do Brasil. E eu era colecionador de vinil. E, sei lá, entrei numa onda. Eu gostava muito de música dos anos 60. Se você me perguntar de Nuggets, Humble Pie, Small Faces, The Who, The Zombies, qualquer coisa dos anos 60, da Inglaterra, especialmente, eu conheço muito bem. Mas do Brasil...

Luiz Fernando Borges: [33:39] Eu tive a oportunidade, claro, até hoje. Até hoje eu adoro ver o T-Rex.

Eron Falbo: [33:44] Adoro o T-Rex.

Luiz Fernando Borges: [33:44] Eu sou alucinado pelo Bowie. Eu vejo o Bowie sempre.

Eron Falbo: [33:49] Vamos falar sobre o Bowie. Quero que a gente tenha que falar muito sobre o Bowie, porque, primeiro, eu estou com saudade. Você gostou daquele... do Velvet Goldmine?

Luiz Fernando Borges: [33:58] Claro, eu fui ver.

Eron Falbo: [34:03] Sabe que eu sou jornalista desde os 16 anos. E a primeira coisa que eu publiquei na minha vida... já publiquei em jornal, revista, livro, todo tipo de coisa, música, mas a primeira coisa que foi publicada com o meu nome na vida foi uma crítica do Velvet Goldmine, na revista Tablado de Brasília.

Luiz Fernando Borges: [34:29] Então, claro, esse filme é bem cult, que pega o Lou Reed. Eu acho que tem uma parte do Lou Reed.

Eron Falbo: [34:37] Pega? Não, tem um personagem que... esqueci o nome dele. Wild, alguma coisa Wild. E esse personagem é uma mescla entre o Iggy Pop e o Lou Reed.

Luiz Fernando Borges: [34:51] Exato, que é a trilogia, a Santa Trilogia: Bowie, Iggy Pop e Lou Reed. Isso no Kansas City, New York.

Eron Falbo: [35:04] É...

Luiz Fernando Borges: [35:06] Agora, Bowie, por exemplo, eu assisti duas vezes aqui no Rio. Eu assisti na Praça da Apoteose, que não foi muito legal, porque é muito grande, mas espetacular foi no antigo Metropolitan. Acho que ele voltou a ser Metropolitan hoje. Enfim, aquele lá da Barra. Lá foi ótimo, foi muito, muito bom.

Eron Falbo: [35:31] Mas você chegou a conhecer ele?

Luiz Fernando Borges: [35:34] Eu cheguei a ver o Boi bem de perto, assim, bem na... Ah, tá,.

Eron Falbo: [35:38] Mas você não conheceu ele. Nessa época, você já trabalhava em gravadora e tudo?

Luiz Fernando Borges: [35:42] Já, já. Mas ali, quer dizer, não é tão fácil assim você conseguir passos para camarim e coisas. Mas, atualmente, eu vou fazer propaganda da minha banda que eu praticamente vejo todo dia. Eu gosto muito... Eu parei muito de ouvir disco para ver show ao vivo. Eu acho mais completo.

Rammstein e preferência por shows ao vivo (35:53)

Eron Falbo: [36:04] Você se apaixonou, né?

Luiz Fernando Borges: [36:06] É.

Eron Falbo: [36:07] Você é o maior fã dele tudo.

Luiz Fernando Borges: [36:08] E é uma banda alemã chamada Rammstein.

Eron Falbo: [36:14] Caraca, você imaginou? Do Hass, do Hasslich. Claro.

Luiz Fernando Borges: [36:20] Então, você já viu o show deles? É uma loucura. Eu me dei o luxo de ir a São Paulo no dia 10 de dezembro de 2010 para assistir o show deles no Via Funchal. Eu fui assistir o show e voltei no dia seguinte. E no dia seguinte, quer dizer, no dia 11 de dezembro, eles estavam em Nova Iorque, no Madison Square Garden, e esse show foi gravado. E eu tenho esse show, que eu vejo várias vezes. Então, o show que eu vi em São Paulo, eu vejo no vídeo de perto, porque para mim o vídeo é substituir qualquer show ao vivo, porque você vê de perto, você vê um detalhe da mão no teclado, você vê milhões de coisas, vê a plateia, e o som sempre é super. Então eu sou... Porque eu acho que o Rammstein ele sintetiza muitas coisas que eu gosto. Bowie, King Crimson, lembra do King Crimson? Lembro. No final dos anos 60. Não tinha vinil do King Crimson? King Crimson. King Crimson.

Eron Falbo: [37:38] Claro que lembro.

Luiz Fernando Borges: [37:38] Do Robert Fair.

Eron Falbo: [37:39] Não lembro.

Luiz Fernando Borges: [37:40] King Crimson. E uma parte de ópera, de Wagner, que eles cantam em alemão, então eles têm dentro daquela coisa do punk rock...

Eron Falbo: [37:50] Ele tem a sequência wagneriana... E aí.

Luiz Fernando Borges: [37:53] Tem uma parte melódica que lembra as óperas alemãs, né? Olha o Wagner aqui, ó! É o Wagner? Mas você ouve as óperas dele?

Wagner, Puccini e grandes óperas (38:06)

Eron Falbo: [38:09] Claro, eu sou fã... Eu sou judeu, mas eu sou fã de Wagner.

Luiz Fernando Borges: [38:14] Para mim, o terceiro ato das Valquírias é uma das coisas mais lindas que existem.

Eron Falbo: [38:21] Eu adoro Wagner. Inclusive, eu só comecei a gostar de ópera por causa de Wagner, por causa do Anel dos Nibelungos.

Luiz Fernando Borges: [38:31] Sim, a melodia, claro. Então, ver isso produzido em Bayreuth é uma maravilha. Tem aquela mais famosa, que eu adoro, do Pierre Boulez com o Patrice Chéreau, que fez a ópera atemporal. Então, as pessoas estão vestidas com roupas atuais, com roupas do passado. Realmente, eles fizeram uma montagem incrível, e a regência é incrível, a Gwyneth Jones... E foi onde? O pessoal que está ali, enfim, é incrível você ver.

Eron Falbo: [39:10] Foi aonde essa obra atemporal?

Luiz Fernando Borges: [39:12] Foi no Bayreuth. Você acha isso? É difícil. Eu vi, por exemplo, há pouco tempo, o DVD para vender estava a mais de R$ 400.

Eron Falbo: [39:25] O Guillaume Snart está falando... Pergunta do LP raríssimo da Julie London que eu dei para ele.

Luiz Fernando Borges: [39:34] Ele me deu a Julie London, Supercool, ele me deu um LP sobre os meses do ano. Calendar Girl era o nome desse LP. Muito legal, porque a Julie tem aquela música famosíssima chamada Cry Me a River. Não sei se você conhece. Now you cry lonely for being so untrue. E isso veio numa época que tinha o rock do Little Richard, que era aquele... Tutti Frutti, e veio essa coisa cool da Julie London cantando Cry Me a River, naquele filme maravilhoso sobre rock chamado The Girl Can't Help It.

Eron Falbo: [40:22] Eu quero.

Luiz Fernando Borges: [40:48] Ler isso, ler isso! É alto pra caramba!

Eron Falbo: [40:56] E essa música é em fá, né? Aí o Paul McCartney foi lá e ninguém conseguia cantar essa música. Paul McCartney foi lá e aumentou pra sol e cantou melhor que o Little Richard. Aí ele foi...

Luiz Fernando Borges: [41:12] Mas você fez a voz do Little Richard. Eu acho que você devia continuar sua carreira de cantor e compositor. Afinado, vou suar. Ou então, quem sabe, canta a Wagner.

Eron Falbo: [41:30] Aí eu ia acabar me perdendo. Eu costumo dizer o seguinte: eu só virei do rock porque eu não tive paciência para virar da música do dia, para fazer aquela disciplina toda, porque senão eu ia me perder. Eu ia, sei lá, comprar uma casa de campo, ia ficar só tocando e perdendo os riscos. Aí eu meio que saí do planeta.

Luiz Fernando Borges: [41:56] Tinha uma época que eu gostava de todo tipo de música, menos ópera. E aí o Otonzinho Bezerra de Mello me deu uma fita da ópera La Bohème, de Puccini. Então, enquanto eu estava cozinhando, eu resolvi ouvir ela no toca-fitas, como fundo musical. Aí fiquei fã de Puccini. A ópera Madame Butterfly tem a ária...

Eron Falbo: [42:23] De introdução... Nunca gostei, confesso que nunca gostei. Depois você me explica. Ou você me explica agora. Qual é para você? O que te conquistou no Puccini? Porque eu nunca gostei.

Luiz Fernando Borges: [42:32] O Puccini, primeiro, a modernidade dos arranjos dele, que é de 1900 e pouco, é diferente do Verdi. E eu acho ele mais pop. Os temas dele são muito pop.

Eron Falbo: [42:46] Foi ele que fez La Bohème?

Luiz Fernando Borges: [42:49] La Bohème, Madame Butterfly, Tosca.

Eron Falbo: [42:52] Eu acho muito romântico.

Luiz Fernando Borges: [42:54] É trágico. A ópera literalmente é trágico. Tem essa conotação.

Eron Falbo: [42:58] É, mas é muito novela. O roteiro é muito novela.

Luiz Fernando Borges: [43:02] A heroína acaba sempre morrendo.

Eron Falbo: [43:07] Eu gosto mais de Mozart, Wagner, essa coisa mais austro-alemã.

Luiz Fernando Borges: [43:14] Mozart eu gosto muito das Bodas de Fígaro e do Don Giovanni.

Eron Falbo: [43:21] Adoro isso.

Luiz Fernando Borges: [43:24] E a cantora de ópera que eu gosto, além da Maria Callas... eu tenho a Madame Butterfly com a Maria Callas, é sensacional. Mas em áudio, né? Mas a La Bohème, com a Teresa Stratas e o... ai, fugiu o nome dele, aquele José Carreras. É maravilhoso! É José Carreras?

Eron Falbo: [43:59] Não sei, não conheço as estrelas.

Luiz Fernando Borges: [44:01] É da turma dos Três Tenores. Era o Pavarotti, o Plácido Domingo e o José Carreras. Mas os dois jovens... Olha, esse La Bohème é maravilhoso, com aquele maestro que acabou de falecer, o James Levine.

Eron Falbo: [44:18] Mas como é que você fica acordado naquelas óperas com roteiro de novela? Qual é o segredo? Porque, para mim, é uma coisa meio...

Luiz Fernando Borges: [44:32] Melosa. Porque eu acho que me ligo mais na música, mais na área do que propriamente na história, entendeu? Porque a história a gente já sabe o que vai acontecer, não é? A música, quando você ouve, sempre tem um...

Eron Falbo: [44:49] É um absurdo. Desculpa.

Luiz Fernando Borges: [44:53] A música sempre tem um detalhe ou outro que você se emociona mais, eu acho, com a música do que propriamente com a história. La Bohème é a história da... Marguerite, não, a Dama das Camélias, que é a história daquela mulher de vida fácil que fica tuberculosa e tem uma paixão e acaba morrendo no final. A Tosca acaba se jogando porque... o namorado dela é torturado e assassinado e ela acaba se jogando do alto de um palácio, se suicidando. A Madame Butterfly também se mata e o namorado volta para a América. É tudo assim.

Eron Falbo: [45:52] E parece aqueles romances de banca, que tem um cara cabeludo, sem camisa, na capa. É tudo a mesma história. Que é pornografia feminina, pornografia de mulher. Porque você sabe que foi feito um estudo pela Google que mulher consome tanto a pornografia quanto o homem.

Luiz Fernando Borges: [46:19] Sim.

Histórias trágicas da ópera e pornografia feminina (46:20)

Eron Falbo: [46:20] Só que a pornografia da mulher é auditiva e do homem é visual. A mulher gosta de ouvir histórias de coisas que são proibidas, tipo os 50 tons de cinza, essa coisa de domínio masculino de homens. E isso aqui, cara... isso é estatístico. A mulher consome o mesmo tanto que o homem. E a gente sabe o tanto que o homem consome de pornografia. Por isso que eu estou mencionando aqui. É, contos eróticos. Obrigado, Larissa. Mas a ideia não é só contos eróticos. Eu não lembro exatamente qual é o formato, porque eu nunca tive essa curiosidade, mas agora estou tendo. Qual é o formato? O que elas procuram? Elas procuram certas coisas no Google e tem contos escritos, que elas gostam muito, e coisas em som, tipo podcast que fala, que conta histórias do que aconteceu com as mulheres, etc. Aí o Tom fala que tem uma mulher aí comprovando os 50 tons de cinza. É maravilhoso. Poucas mulheres admitem, ainda mais da idade do Aristóteles, mulheres mais velhas que já estão tranquilas com elas mesmas admitem que adoram esse tipo de pornografia feminina. Mas é interessante essa comparação, que a gente tem esse costume de pensar que a mulher fica na dela, não gosta tanto, e o homem é aquela tara, fica procurando pornografia todo dia.

Luiz Fernando Borges: [47:55] Mas parece que uma pesquisa falou que os homens pensam em pornografia, mas menos que as mulheres. Talvez que também os homens pensam mais e fazem menos, também tem essa história. E teve uma pessoa também que perguntava o que deixa o ser humano mais feliz, dinheiro ou sexo. E a resposta foi sexo.

Eron Falbo: [48:24] Apesar da gente fazer... externamente, a gente usa o dinheiro como bode expiatório. Tipo, não, estou fazendo isso pelo dinheiro, mas, na verdade, a gente está fazendo... tipo assim, não, eu estou virando cantor de rock porque eu quero muita fama e muito sucesso, mas não, é para comer mais mulher.

Luiz Fernando Borges: [48:39] É verdade. Mas falando na história, teve um cara, um professor americano chamado Joseph Campbell, que ele escreveu O Herói de Sete Faces. Então, ele escreveu todas as histórias do mundo.

Eron Falbo: [49:02] Adoro isso. Joseph Campbell, para mim, é um dos autores mais importantes do século XX.

Jornada do herói e técnica de roteiro (49:03)

Luiz Fernando Borges: [49:09] Então, você conhece toda a história justamente da jornada do herói. Aquele vídeo dele nos estúdios do George Lucas é maravilhoso. Você já viu isso? Já vi, já vi. Dá vontade de você se abraçar com o Joseph Campbell e ficar ali: "Papai!" E ele reduziu as histórias a quatro, quer dizer, o que você escreve hoje em dia é sempre variação de quatro histórias, ainda mais para quem é roteirista. Vai vendo que acaba sempre, ou quando você está vendo um filme ou qualquer coisa, você já vê as soluções, enfim. As fórmulas de contar bem uma história.

Eron Falbo: [49:56] Isso é genial. Eu até hoje ainda não tive coragem de... Bom, eu já escrevi um romance. Eu nunca publiquei esse romance que eu escrevi. Eu nunca tive coragem de publicar uma história que eu escrevi. Então, nos últimos dois anos, eu tenho lido só Joseph Campbell, storytelling, arco narrativo, esse tipo de coisa. Aristóteles até.

Luiz Fernando Borges: [50:25] Claro, mas começou tudo ali.

Eron Falbo: [50:28] Aristóteles, a Poética, né?

Luiz Fernando Borges: [50:30] Exatamente. Eu fiz um grupo de estudo sobre esse livro. Quando eu aprendi...

Eron Falbo: [50:35] Ele não perde tempo, ele fala só o que precisa. Não é que nem livro de hoje em dia, que tenta te convencer a ler. Ele fala em dez linhas, fala só isso, pronto.

Luiz Fernando Borges: [50:49] Ele tem uma frase sobre isso muito legal, uma instrução. Ele diz que uma história começa quando você não tem nada para contar antes e ela termina quando você não tem mais nada para contar depois. Simples, não é?

Eron Falbo: [51:07] Perfeito. Eu fiz um curso de roteiro com o Sorkin, o pai do Aaron Sorkin, qual é o nome dele? O Sorkin mais famoso, que é um roteirista gigantesco, que fez aquele... The West Wing, ele fez vários filmes maravilhosos, que agora não estou lembrando. No curso de roteiro ele fala: tem vários livros sobre como escrever um plot, como é que escreve os três atos e como é que funciona essa coisa toda. Ele fala: joga tudo no lixo, lê Aristóteles, que é mais simples, mais curto e melhor do que todos. Aí ele jogou a literatura do cinema inteira pela janela. Falando nele, só isso.

Luiz Fernando Borges: [51:56] Tem um livro do Vogler, o sobrenome dele é Vogler, chamado A Jornada do Herói. Esse livro foi traduzido... Ou então, The Journey of the Hero, e trata sobre os arquétipos dos personagens.

Eron Falbo: [52:19] Sim, a Jornada do Herói é uma coisa junguiana, junto com Joseph Campbell, não é?

Luiz Fernando Borges: [52:22] É, então você conhece esse livro.

Eron Falbo: [52:26] Claro, acho que li todos os livros que existem de história. Nos últimos dois anos, fiz uma pesquisa bem extensa.

Luiz Fernando Borges: [52:34] É, porque o roteiro é técnica. Aliás, o último que li está online, chama-se Dramatica. É uma... Uma fórmula nova de escrever roteiros. Então, se você assimila bem as instruções da Dramatica, quando está escrevendo, sai automático. Você já sabe quais são as reações do personagem, porque ele já tem um perfil definido. A Dramatica vem junto com o Final Draft. Você conhece esse... Ah, conheço o programa.

Eron Falbo: [53:18] Eu usei quando eu escrevia o roteiro que faz dança.

Luiz Fernando Borges: [53:21] É, o canal conhece o programa de roteiro.

Eron Falbo: [53:23] Antiguíssimo, o Final Draft dos anos 90. Não sei se você já usava nos anos 90, mas eu usava nos anos 90 o Final Draft. Foi um dos primeiros, bem organizadinhos.

Luiz Fernando Borges: [53:37] Ele já estava bem formatado para você escrever.

Eron Falbo: [53:43] Eu estava falando, a Kátia também falou o nome do pai dele, mas eu estava falando do próprio Aaron Sorkin mesmo, só para corrigir isso. Eu gosto de deixar registrado para as pessoas que estão ouvindo, para depois não ter fake news. A galera sabe qual é a galera que a gente está mencionando de fato. Mas agora eu esqueci o que a gente acabou de falar.

Luiz Fernando Borges: [54:07] Você falou em Herzog, Vladimir Herzog, foi isso?

Eron Falbo: [54:11] Não, não. Na verdade, acabou o nosso tempo, então vamos terminar com avisos paroquiais. E nos últimos cinco minutos é que a gente começa a entrar em coisas que a gente gosta e esquece do tempo.

Luiz Fernando Borges: [54:27] Nossa, passou rápido, eu acho. Adorei.

Eron Falbo: [54:31] Passou super rápido. A gente falou de Ricardo Couto, Wagner, David Bowie.

Luiz Fernando Borges: [54:38] Cinema.

Eron Falbo: [54:40] Não sei nem como a gente conseguiu fazer tanta coisa. Mas Luiz, foi um grande prazer te receber.

Luiz Fernando Borges: [54:48] O prazer foi meu. Muito bacana.

Eron Falbo: [54:53] Valeu, valeu. A gente tem muita coisa para conversar. Vamos nos encontrar quando você quiser. Eu estou bem. Tem umas assim, com máscara e tudo mais, o que for necessário. Mas vamos nos encontrar. Ou esperar um tempinho aí.

Luiz Fernando Borges: [55:09] Maravilha. Perfeito. Se você precisar de qualquer coisa, eu tô aqui. Enfim.

Eron Falbo: [55:18] Você toma um bom vinho ou não? Ou você para de beber? Qual que é a sua tribo?

Luiz Fernando Borges: [55:22] Eu gosto de Dry Martini.

Eron Falbo: [55:26] É, meu?

Luiz Fernando Borges: [55:26] Então, perfeito.

Eron Falbo: [55:27] Porque o Maurício e eu, quando a gente se encontra, a gente só toma Dry Martini.

Luiz Fernando Borges: [55:30] Mas fui eu quem produziu o Dry Martini pra Maurício.

Eron Falbo: [55:34] Ah, Maurício, safado, quem me introduziu o...

Luiz Fernando Borges: [55:39] Dry Martini foi o Maurício. Eu dirigi aquela primeira talk show dele em que ele aparece de smoking com uma taça de Dry Martini. Foi bem legal trabalhar com ele ali, foi muito engraçado. Eu conheci o Maurício desde quando ele era de menor.

Eron Falbo: [56:03] De menor, é.

Luiz Fernando Borges: [56:06] Eu fiz questão de ser de menor.

Eron Falbo: [56:09] Vamos combinar de fazer alguma coisa, você e eu, Maurício, não só em termos de Dry Martini, mas em termos artísticos. Vamos produzir alguma coisa.

Luiz Fernando Borges: [56:16] Vamos.

Eron Falbo: [56:17] Vamos criar alguma coisa.

Luiz Fernando Borges: [56:18] Maravilha. Maravilha.

Eron Falbo: [56:21] Valeu, Luiz. Foi um grande prazer estar com você.

Luiz Fernando Borges: [56:24] Igualmente.

Eron Falbo: [56:26] Você quer divulgar alguma coisa que você está lançando? Vai lançar só para o pessoal lembrar? O site?

Luiz Fernando Borges: [56:34] Não, eu acho que o que está acontecendo é um documentário que vai ter sobre o Renato pela Globoplay, mas que está sendo um pouquinho atrasado por causa de vacinação e pandemia. Então, vai ser um documentário da Globoplay abordando quatro ou cinco aspectos da vida do Renato: cultural, político, enfim. E isso deve acontecer mais depois do meio do ano, porque as imagens tiveram que ser postergadas por causa da pandemia e vacinações e essa coisa toda.

Eron Falbo: [57:24] Beleza. Então, quem é fã de Legião Urbana e do Renato Russo, fiquem ligados aí que em breve vai ter um lançamento, um furo, né? A gente tá tendo uma notícia exclusiva de que isso vai ser lançado em breve. Mas me avisa depois que eu posto no Instagram e aviso todo mundo quando lançou de fato.

Luiz Fernando Borges: [57:45] Maravilha.

Eron Falbo: [57:46] É isso, Luiz Fernando. Muito obrigado mais uma vez. A gente se fala. Obrigado a todos. Beijão.

Luiz Fernando Borges: [57:52] Beijão, então. Bye!

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