Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.
Eron Falbo: [0:05] Olá, bem-vindos! Vocês estão no Alvo. Eu sou Kátia Viamonte. E hoje estamos com o Carlos Eduardo Novaes, que é um convidado super especial. O Carlos é jornalista, dramaturgo, humorista, ator, escritor, com 45 obras literárias publicadas. Não é pouca coisa, gente. Com vocês... Eron Alvo! Fala, pessoal, sejam bem-vindos, pode parar, muito obrigado. Cadê o Carlos Eduardo? Vou botar ele aqui. Fala, Carlos Eduardo.
Carlos Eduardo Novaes: [1:02] Estamos aí, pô. Estamos aí.
Eron Falbo: [1:05] Estamos aqui também. Vocês aí de casa, é o que eu mais gosto. Que até hoje em dia tá todo mundo em casa, né? Então, não dá pra falar isso. E aí, Carlos Eduardo, muito prazer te conhecer eventualmente.
Carlos Eduardo Novaes: [1:23] Você acha que tá boa a iluminação aqui?
Eron Falbo: [1:26] Tá boa, tá ótima, tá bonitão. Bonito chapéu.
Carlos Eduardo Novaes: [1:32] É pra proteger a careca, né? Pra proteger a careca.
Eron Falbo: [1:37] Tá muito sol aí em cima.
Carlos Eduardo Novaes: [1:39] Porra, você não imagina.
Eron Falbo: [1:42] Mas você podia ter me falado que ia vir de chapéu pra não ficar sentindo pelado aqui sem chapéu, porra. Adoro mandar desculpas pra usar um chapéu.
Carlos Eduardo Novaes: [1:52] Eu tenho vários, né? Você sabe que tem um ditado que diz assim: Deus fez poucas cabeças perfeitas, o resto ele cobriu com cabelo. Isso, claro, só vale pra homens, né? Boa, boa.
Eron Falbo: [2:15] Essa é uma boa desculpa para a galera que perdeu o cabelo, né? Mas eu sempre quis perder o cabelo porque Shakespeare era calvo, né? E foi o meu primeiro ídolo na vida, Shakespeare. E eu sempre tinha essa inveja dos calvos, meu cabelo estava grosso.
Carlos Eduardo Novaes: [2:35] Você acha que se você ficasse calvo, você ia ficar igual o Shakespeare? Ia escrever aquelas peças todas?
Eron Falbo: [2:43] Essa é a minha teoria. O que você acha?
Carlos Eduardo Novaes: [2:47] É legal. Eu tenho alguns amigos aí que estão assistindo também, junto aí com a sua enorme galera. Tenho muitos amigos que estão vendo aí.
Eron Falbo: [2:57] Seus amigos provavelmente têm a inteligência que compõe o resto da minha galera inteira. Então a qualidade está ótima da agência. Eu queria saber um pouquinho, Carlos Eduardo, da sua situação atual. Você está isolado, você está numa torre de marfim, na serra. Como é que está a sua situação aí? Você está escrevendo uma obra-prima?
Carlos Eduardo Novaes: [3:32] Prima não, é irmã, de tão próxima que é dos fatos do dia. Estou escrevendo um livro que se chama O Vírus do Ipiranga nos Tempos da Pandemia. É a história da pandemia contada do ponto de vista dos vírus, os vírus olhando para os humanos, principalmente aqui no Brasil.
Eron Falbo: [3:55] Muito bom, muito bom.
Carlos Eduardo Novaes: [3:57] Mas eu tenho um livro que está saindo agora pela Almedina, que é uma editora portuguesa, que se chama Crônicas? Retratos 3x4 do Governo do Capitão. Deve sair daqui uns dois meses.
Eron Falbo: [4:17] Ah, esse está saindo agora. Agora você está escrevendo esse outro, que é o Vírus do Ipiranga, sobre o Capitão, que você admira tanto? Já vai sair agora, é isso?
Carlos Eduardo Novaes: [4:28] Não, o Crônicas é uma seleção de crônicas em cima do governo do nosso presidente dos últimos dois anos, desde 2019.
Eron Falbo: [4:39] Imagino que você goste muito dele, para homenagear ele com um livro de crônicas.
Carlos Eduardo Novaes: [4:45] Isso, vou homenageá-lo com um livro de crônicas. Eu não sei se ele vai gostar da homenagem, mas é um livro com muito humor, com muita ironia. Então não é um livro agressivo, sabe.
Eron Falbo: [5:00] Ele vai levar na esportiva, com o corpo de atleta dele, ele vai levar na esportiva. Mas, Carlos Eduardo, eu ia te perguntar: como é que você fez pesquisa, tanto para esse livro do Bolsonaro quanto para esse livro do vírus da pandemia? Porque assim, minha pergunta é o seguinte: com o nível de desinformação que está havendo no mundo, e quando eu digo desinformação, até fontes das mais, até então, copiáveis, vamos dizer, estão sendo deturpadas, até os formatos estão sendo questionados e tudo mais, como é o seu processo de pesquisa? O que você confia e o que não confia nesse processo?
Carlos Eduardo Novaes: [6:00] Eu vou ao Google, e no Google eu procuro tentar não pisar numa mina. Eu já passei por essa experiência quando escrevi um livro sobre as Olimpíadas, a invenção dos esportes. Então, claro, porque eu não conheço a origem de todos os esportes, vou ao Google. E no Google, de vez em quando, eu encontrava um site que dizia uma coisa, outro site que dizia outra, e eu tinha que procurar um terceiro site. Foi um trabalho e tanto para escrever esse livro sobre... É um livro de crônicas também, mas são crônicas focalizadas em cima de cada um dos esportes, como eles surgiram, os esportes que foram inventados em cima de uma prancheta, como o vôlei, como o basquete.
Eron Falbo: [6:48] Os modernos todos, praticamente.
Carlos Eduardo Novaes: [6:51] É, e os mais antigos. Por exemplo, a espada deixou de ser uma arma para ser um instrumento de esporte, coisas desse tipo. O remo também.
Eron Falbo: [7:07] Esse livro foi quando que você escreveu? Só porque eu me interesso muito por esse assunto também.
Carlos Eduardo Novaes: [7:12] O que que tem? Qual?
Eron Falbo: [7:13] Esse livro do esporte, quando que você escreveu?
Carlos Eduardo Novaes: [7:16] Desculpa, ignora. É, ele saiu pela Moderna, eu acho que tem quatro anos atrás. Vou ter que, inclusive, revê-lo depois dessas próximas Olimpíadas aí, se é que nós vamos ter as Olimpíadas aí no Japão em julho. Vou ter que atualizá-lo, né?
Eron Falbo: [7:35] Eu acho que, já que é no Japão, o pessoal vai fazer, porque eles já estão em pandemia há muitas décadas, então acho que todo mundo confia nos japoneses para se manter higiênicos. Uma coisa que eu queria entender sobre esse livro: eu vi uma entrevista sua, em que você foi entrevistado pelo Jô, e lá, pelo menos, deve ter sido mais de uma vez. Mas essa entrevista que eu vi foi aquela em que você estava falando do Sexo para Principiantes. Percebi que você é um autor... Desculpa, eu não li um livro seu, isso foi um erro meu. Estou entrevistando quatro pessoas por semana e meio que estou sobrecarregado de informação. Mas eu te prometo que você é uma das poucas pessoas que... Eu ouvi você até falar que não lê autores modernos. Eu também não leio. Mas você eu leria com o maior prazer. Infelizmente, não li antes. Mas você não falou que escreveu esse livro Sexo para Principiantes? E percebi que você junta, ao mesmo tempo que você tem o amor pelo humor, um pé bem estabelecido dentro do que Nietzsche diferencia como Dionísio e Apolo. Você tem aí o Dionísio muito bem estabelecido, mas ao mesmo tempo tem um pé na sociologia, na antropologia, muita história, muito interesse pelo desenvolver das coisas da consciência humana em diferentes avenidas, diferentes áreas. E isso eu achei muito interessante, porque normalmente autores têm uma coisa ou outra, e quando têm o que você tem, que é a sociologia, a história etc., normalmente são pessoas mais sérias, não fazem tanto humor. Tipo o Dan Brown, por exemplo, que é um cara de ficção que gosta dessa coisa de sociedades secretas, mitologia, religião, simbologia, só que ele não faz humor, ele faz uma coisa de romance mais thriller, essa coisa toda. Falei um monte de coisa sem pergunta nenhuma, mas a pergunta que eu queria desenvolver para você... Você é daqueles caras...
Carlos Eduardo Novaes: [10:02] Que levam meia hora para fazer uma pergunta para eu responder sim ou não. É isso ou não?
Eron Falbo: [10:07] Exatamente. Eu queria saber se você está na Serra.
Carlos Eduardo Novaes: [10:11] Estou brincando com você, querido.
Eron Falbo: [10:15] Não, é porque eu tive que falar essa parada toda. Primeiro, para te impressionar, para você ver que eu percebi alguma coisa em você. E segundo, para poder fazer uma pergunta um pouco mais profunda. E a pergunta é: no desenvolver das suas obras, o que você dá mais valor? Você dá mais valor ao entretenimento, que eu sei que você já trabalhou em fábrica de sorvete, então sei que você sabe agradar as pessoas, ou à coisa do desenvolvimento da psicologia, da sociologia humana?
Carlos Eduardo Novaes: [10:51] Olha, deixa eu dizer antes de mais nada o seguinte: você viu uma entrevista minha com o Jô. O orgulho que eu carrego comigo é o seguinte: eu fui o segundo cara mais entrevistado pelo Jô, depois do Geraldo. Geraldo foi o cara mais entrevistado pelo Jô, e eu subi no pódio em segundo lugar. Esse livro sobre o sexo, essa entrevista sobre o Sexo para Principiantes, inclusive, acabou me rendendo algumas palestras sobre sexo que fui fazer em algumas escolas pelo Brasil.
Eron Falbo: [11:25] Aí é bom, hein?
Carlos Eduardo Novaes: [11:26] Exatamente. Eu posso ser um praticante, mas não sou um teórico que possa dar profundas informações sobre sexo. Agora, eu trabalho nas duas pontas. Esse livro, por exemplo, do Vírus do Ipiranga, é uma espécie de docuficção, em que eu coloco informações reais, verdadeiras, científicas, pesquisadas, e concilio isso com o humor do fato de ter um império da virótica e os vírus estarem falando em destruir os humanos. Quer dizer, começa inclusive com esse propósito: o imperador da Virótica convida todos os vírus conhecidos, os grandes vírus, HIV, dengue, zika, e apresenta o corona, dizendo que o convidou para ele acabar com os humanos. Os vírus começam a fazer um trabalho para tentar acabar com os humanos, e o imperador da Virótica diz sempre que é ou nós ou eles: eles estão trabalhando para acabar com a gente e nós vamos tentar acabar com eles antes. E o livro se desenvolve em torno disso. E eu alterno, como no Sexo para Principiantes, situações reais com fantasias, com ficção. Então é uma espécie de docuficção literária, é isso aí. Depois eu queria falar com você também sobre... Estou fazendo um trabalho sobre a mulher no humor, ou o humor e a mulher, porque, na verdade, sempre... Existem mulheres no humor? Perdão?
Eron Falbo: [13:11] Existem mulheres no humor?
Carlos Eduardo Novaes: [13:14] Mulheres no humor?
Eron Falbo: [13:16] É.
Carlos Eduardo Novaes: [13:18] Não, mulheres que produzam humor. Uma coisa que sempre me empurrou foi isso, porque eram muito poucas as mulheres que trabalhavam com humor. A gente tinha muita comediante, como tem ainda hoje, mas há de se distinguir a comediante da humorista. A humorista é aquela profissional que produz humor na televisão. A comediante é aquela que representa, é um símbolo da comédia. Então, fui fazer uma pesquisa e estou desenvolvendo um trabalho sobre isso, sobre por que há tão poucas mulheres (hoje já tem mais até) trabalhando com o humor. É uma relação assim... Há um instituto americano que fez uma pesquisa dizendo que apenas 10% dos humoristas que existem pelo planeta são representados pelas mulheres, porque o resto é de homens. E aí tem um dado curioso, que é que uma das razões que explica o fato de não ter muita mulher fazendo humor, produzindo humor, é o fato de que os homens não gostam muito de mulheres engraçadas. Mulheres engraçadas não são muito desejadas. Essa é uma explicação simplória. Os homens gostam que as mulheres riam das suas piadas, mas não gostam de mulheres engraçadas.
Eron Falbo: [14:59] Isso me lembra o Harry Enfield, que é um comediante inglês. Ele tem uma série de sketches, não sei se você conhece o Harry Enfield, não é tão popular aqui no Brasil, pelo menos, que é Women Know Your Place, sobre mulheres que tentam ser engraçadas e o homem fica com a cara de chateado, assim: poxa, não acredito. Ou tenta falar uma coisa inteligente, aí ele fala: woman, know your place. E é sacaneando justo essa coisa. Você me permite falar um ponto disso? Eu, sinceramente, estou fazendo agora um curso de palhaço, e estou vendo com o Marcelo Ibarra, que é um grande mestre para mim, considero ele bastante. Eu queria até homenageá-lo agora, a qualquer momento que eu puder homenageá-lo. E ele me ensinou uma coisa de mim mesmo, algo que a gente meio que sempre sabe intuitivamente, que a gente, para poder fazer humor, especialmente de stand-up, não necessariamente de escrever, mas também de escrever... Você me fala isso porque você é um escritor de inúmeras obras de humor, que você precisa ter uma certa... não se levar tão a sério e não... não levar as coisas tão a sério, para poder ter essa saída do humor. Eu acho que a sociedade espera da mulher uma... tem muita pressão para se levar a sério, para estar bonita, para estar alinhada, para estar... Então tem uma certa coisa que ela não se permite, porque como é que você vai... é pouco fun, né? Como é que você vai... como é que fala em português, zoar, zombar de si próprio, se você tem tanta pressão para estar alinhado, esse tipo de coisa. Isso é o que eu tô jogando aí como teoria, uma das razões pelas quais não tem tanta mulher humorista.
Carlos Eduardo Novaes: [17:00] Você tem toda razão, as mulheres sofrem um tipo, e sofriam mais no passado. É evidente que hoje, a partir dos anos 60 do século passado, quando as mulheres começaram a se emancipar e a ganhar a vida por conta própria, enfim, a poder ser inteligente como os homens, porque as mulheres foram oprimidas ao longo de toda a história da civilização. Elas começaram a ser oprimidas quando o homem passou da caça para o pastoreio. Porque, no início, os nossos antepassados, os mais longínquos, os mais distantes, achavam que a reprodução era um plano divino.
Eron Falbo: [17:42] Não era ligado ao sexo.
Carlos Eduardo Novaes: [17:44] Só a mulher sangrava. O Deuteronômio, inclusive, fala isso, não é? O sangue e a vida. Só a mulher sangrava. Então, eles não relacionavam a relação sexual com o nascimento da criança que vinha nove meses depois. Então, achavam que isso era fruto apenas de um trabalho divino ou de outro tipo de suposição. Mas o que eu queria dizer a você é que você tem toda a razão: a mulher sofre uma pressão muito grande, eu sofri uma pressão muito grande. Aquelas expressões de "uma senhora de respeito", "uma mulher de boa família", tudo isso continha o comportamento da mulher. Mas, mais importante que isso, é um negócio chamado androcentrismo. Androcentrismo, a gente sabe, andro significa homem, quer dizer, há um pressuposto de que o homem é o personagem principal da história da humanidade. E a gente percebe isso, às vezes, em várias circunstâncias. As mulheres, às vezes, sofrem discriminações. Você vê, por exemplo, o tratamento pejorativo que a língua portuguesa dá às mulheres nos animais. Os animais machos são o cão, o touro, o galo; as fêmeas são a cadela, a vaca, a galinha, que são pejorativos. Havia uma discriminação linguística?
Eron Falbo: [19:26] Não em todas as línguas, depende da língua. Eu estudo bastante línguas antigas, e as línguas antigas são um pouco mais... eu não sei por que exatamente isso, dentro dessa sua teoria, mas as línguas antigas são um pouco mais complexas nesse sentido, em termos de representação do masculino e feminino. Você vê muito mais significado, mais profundo, menos, assim, como você falou, coisas pejorativas, e tem coisas mais a ver com filosofia. Os sufixos hebraicos, por exemplo, eles têm junções de letras, uma letra masculina junto com outra feminina, que fazem uma junção de duas ou três letras que têm um certo significado. Mas o que eu quero dizer com isso é: por que será que, depois... eu vejo essa coisa de machismo mais exacerbado vindo depois da era medieval? O que eu quero dizer com isso: não é que não existiu uma espécie de patriarcado depois, na sociedade agrícola greco-romana, da Suméria etc. Claro que existiu, mas eu acho que era muito mais simbólico, era com mais respeito ao materno, ao materno divino, tanto que você vê que tem Ísis, Osíris, Hórus, mitos que começam com o matriarcado para explicar certas coisas, mitos antes do cânone bíblico, onde era muito menos patriarcal do que... antes de se estabelecer o cânone que a gente tem hoje, por exemplo, que era muito menos essa coisa especificamente patriarcal. Então, assim, estou falando só desse exemplo que você deu, do pejorativo linguístico das línguas mais modernas. Mas aí eu nem lembro o que a gente estava falando antes, ou o que você estava falando antes.
Carlos Eduardo Novaes: [21:40] Como é que é esse final? O que você perguntou?
Eron Falbo: [21:42] Eu não lembro o que você estava falando antes. Antes você falava da galinha...
Carlos Eduardo Novaes: [21:46] Eu estava falando do androcentrismo. Se o homem fosse o padrão da humanidade... Você escuta falar, por exemplo, na conquista do homem para o espaço, a evolução do homem, o cão é o melhor amigo do homem, entendeu? Quer dizer, está muito em cima do masculino, do homem. Quando você usa o pronome pessoal "ele", ele serve para ele e para ela. Quando você usa o pronome pessoal "ela", ele só serve para ela, não serve para ele também.
Eron Falbo: [22:21] Então, mas isso é um outro bom exemplo do que você deu, que, por exemplo, não tinha no hebraico. Eu uso o hebraico como exemplo porque o hebraico é a língua mais próxima que a gente tem do fenício, que seria o primeiro alfabeto que existe, que existiria, pelo menos, na sociedade ocidental. E no hebraico, os pronomes são todos rá, e servem tanto para homem quanto... o problema não é o artigo, o artigo é tanto para homem quanto para mulher, raro. E qual a outra coisa que você tinha falado? Minha mente não está funcionando tão bem hoje, eu perdi o aparelho.
Carlos Eduardo Novaes: [23:05] Esse trabalho é sobre a dificuldade de fazer humor. Uma outra razão que colocam a respeito dessa dificuldade da mulher para fazer humor é que dizem que a mulher é muito mais emocional do que o homem. E o humor não se faz com a emoção, o humor se faz com a razão. O humor é uma atividade intelectual. E a mulher não pôde desenvolver a sua inteligência até pouco tempo atrás, hoje já não se discute mais isso, mas não pôde desenvolver porque a mulher era taxada, quer dizer, a razão, a lógica, a análise eram predicados do homem. A mulher era sentimento, era emoção, era intuição. De uns tempos para cá é que ela está podendo exercer a sua inteligência, e através disso, como o humor é feito com a razão, está conseguindo aparecer nesse cenário de mulheres humoristas.
Eron Falbo: [24:01] Mas, na sua opinião, isso é só uma coisa sociológica? Isso foi imposto sociologicamente? Porque hoje em dia tem muitos estudos sobre a diferença do cérebro da mulher ao cérebro do homem, que funcionam de maneiras, vamos dizer, comprovadamente diferentes. Aí existe um grande discurso, uma grande discussão sobre exatamente como. A pergunta é se você acredita que essa diferença é só construída socialmente ou se existe alguma diferença entre, vamos dizer, o acesso ou o uso da razão da mulher e o uso e acesso da razão do homem. É só sociológico ou tem alguma coisa inerente, biológica?
Carlos Eduardo Novaes: [24:49] Não, deve ter alguma coisa biológica, que eu não sei, eu não me aprofundei nessa matéria. Mas o que acontece é que você tem que considerar que, desde a aurora dos tempos, a mulher sempre foi oprimida. E a mulher foi oprimida... deixa eu concluir aquele raciocínio que eu comecei a fazer antes: quando o homem substituiu a caça pelo pastoreio, descobriu, viu o carneiro transando com a ovelha. Então ele percebeu que era parte integrante da reprodução, coisa que ele achava que não era. Como ele percebeu que era parte integrante da reprodução, ele oprimiu a mulher. E por quê? Porque antes, ninguém era de ninguém, todo mundo transava com todo mundo, e era uma coisa enlouquecedora. Mas quando ele descobriu que era parte integrante da reprodução, ele oprimiu a mulher, porque ele precisava saber que o filho era dele.
Eron Falbo: [25:46] Mas, Carlos Eduardo, antes do pastoreio, quer dizer, antes de o homem ser pastor e começar a sociedade pré-agrícola, ele já era um nômade. Então ele já carregava animais, ele não via... ele não via os animais transando.
Carlos Eduardo Novaes: [26:02] Provavelmente ele deve ter visto, um ou outro deve ter visto, mas estou dizendo o seguinte: a partir da fase em que o homem deixa de ser caçador e passa ao pastoreio, quer dizer, passa a pastorear gado, a pastorear ovelha, a pastorear porco, ele percebeu a relação dos machos com as fêmeas e viu que ele tinha parte integrante nesse processo de reprodução, e aí oprimiu a mulher. E sabe quantos anos a mulher passou oprimida, quantos séculos? Pode botar alguma conta.
Eron Falbo: [26:32] Primeiro, eu não vou falar que a mulher foi totalmente oprimida. Eu acho que o papel da mulher mudou drasticamente, isso é a minha opinião, mudou drasticamente para a sociedade agrícola. E, sim, o homem tomou uma posição de maior liderança pública no geral, mas oprimida exatamente eu não concordo exatamente com isso, porque depende do ângulo que você vê. O homem ia para a guerra, a mulher não ia. Isso é uma forma de proteção, e não de opressão. Esse discurso, inclusive, é um discurso que as feministas modernas usam muito, que no mundo atual está causando um certo bullying com os jovens modernos. O que eu estou dizendo é que esse julgamento de dizer "oprimida" é uma extrapolação, mas não necessariamente precisa ser oprimida para você tirar essas mesmas conclusões. Por exemplo, que a mulher não é humorista hoje. O fato de que a mulher não é tão humorista quanto o homem não precisa vir de uma opressão, pode vir do fato de que ela gerou uma insegurança durante a história, porque ela era, de fato, protegida, porque, senão, ela ia ser estuprada na rua.
Carlos Eduardo Novaes: [27:59] Não é que ela fosse protegida. A questão da guerra: a guerra era um ato heróico, e quem participava de atos heróicos era o homem. A mulher ficava em casa, cuidando dos filhos, fazendo comida.
Eron Falbo: [28:09] Esse ato heróico era maior, mas de...
Carlos Eduardo Novaes: [28:10] Fato, as pessoas morriam.
Eron Falbo: [28:15] É a coisa do golpe heróico. Se você for falar assim, o fato de ser mãe também era tido como uma grande glória.
Carlos Eduardo Novaes: [28:24] Isso é uma visão retrospectiva da gente hoje.
Eron Falbo: [28:29] Eu não sei o que pensavam todos os caras. Se você ver, talvez na Grécia antiga tivesse o bias antifeminino, mas, por exemplo, se você ler a Arte do Amor, de Ovídio, ele tem uma glorificação enorme pela mulher, já em Roma antiga. E na Bíblia também, apesar de ter a história de Adão e Eva, que eu acho que os cristãos interpretaram demasiadamente.
Carlos Eduardo Novaes: [29:29] Não, não. Quer dizer, isso aí são fases da história, a gente não pode... A mulher, durante um longo período... Você sabe que a palavra "pai" foi inventada? Estou dizendo isso porque li o livro de uma antropóloga escocesa, que é fantástica, que é A História do Sexo. Ela se chama Reay Tannahill, e ela conta essa história. Não sei como ela descobriu isso, mas ela conta essa história de que a palavra "pai" foi inventada milhões de anos depois da palavra "mãe", porque a reprodução não incluía a presença masculina, o homem não conseguia associar essa distância de nove meses entre a relação e o nascimento da criança. Mas acho que a gente pode passar para outro... Acho que esse é o
Eron Falbo: [30:25] Ponto que eu queria chegar: que a sua sabedoria é gigantesca em termos da arte de escrever, e para mim é muito mais interessante isso do que essa coisa que a gente está... A antropologia, se foi de um jeito ou não foi de um jeito, é mais interessante o que eu gostaria de saber. Uma coisa que você me falou, por exemplo, é que o humor é muito mais intelectual, racional, do que emocional, porque, para mim, eu não via dessa forma. Então, eu gostaria que você me explicasse, porque uma das coisas que eu estou desenvolvendo na minha vida agora é como ser mais humorista e menos intelectual. Então, me explica isso, por favor, das suas perspectivas e sabedoria.
Carlos Eduardo Novaes: [31:08] Tem uma frase dita em torno disso. Deixa eu começar do princípio: a Enciclopédia Britânica ilustra o humor com uma situação curiosa. Na época de Luís XV, um marquês entrou em casa e encontrou a mulher transando com o bispo. Ele, o marquês, foi para a janela e começou a abençoar os cristãos que estavam lá fora, na rua, na calçada. E a mulher se espantou: "Mas eu não estou entendendo o que você está fazendo." "Ele está desempenhando as minhas funções, e eu estou desempenhando a dele." Isso, segundo a Enciclopédia Britânica, é o princípio do humor, quer dizer, é o fato em cima do inesperado. Você tem um fato: se a resposta da mulher ou se a resposta do homem fosse outra, provavelmente não haveria humor. Aí você tem que sobrepor o fato real, a realidade, à fantasia ou ao inesperado. O humor pega as pessoas, inclusive, pelo inesperado. Você precisa... Tem uma frase que diz que a percepção do ilógico requer um conhecimento prévio do lógico. Eu acabei de escrever um texto agora sobre a minha conversa com Deus. O Bolsonaro disse que só Deus tira ele do carro. Aí eu fui lá conversar com Deus. Digo: "Escuta..." Aí cheguei lá no céu...
Eron Falbo: [32:43] É o Ítalo que está torcendo por causa do charuto? Posso apagar.
Carlos Eduardo Novaes: [32:47] Não, pode fumar, eu estou fumando um cigarrinho aqui. Estou fumando um cigarro, um cigarro comercial, é bom que se espirre. Hoje, quando a sua assessora perguntou a respeito da bebida, ela disse assim: "O Eron quer saber o que você vai beber, para ele beber também, para vocês beberem isso." O que você vai beber? Eu disse: água. Eu não bebo.
Eron Falbo: [33:12] Você não bebe álcool? Só isso já é uma gratificação. Como é que você é um intelectual, humorista, e não bebe álcool? Como é que você chegou a essas ideias?
Carlos Eduardo Novaes: [33:22] É por isso que eu não me considero intelectual. Você lembra daquela frase do Jaguar? "Intelectual não vai à praia, intelectual bebe." Eu, como não bebo, só vou à praia. Então, acho que não sou intelectual. Não bebo. Eu costumo dizer para os amigos que não tenho pequenos vícios, os meus vícios são os maiores, não tenho os pequenos. Os pequenos são de beber, tomar porre. A última vez que eu tomei um porre, eu tinha 17 anos.
Eron Falbo: [33:47] Quais que são, mano? Eu quero saber, eu quero saber. Eu adoro vício. Adoro vício. Eu quero aprender novos vícios. Então, por favor, me ensina os maiores vícios.
Carlos Eduardo Novaes: [33:57] A última vez que eu tomei um porre foi um porre de Cuba Libre. Você já ouviu falar em Cuba Libre?
Eron Falbo: [34:01] Claro, eu já tomei em Cuba. E sabia que não tem nada a ver com Fidel Castro, Cuba Libre? É sobre uma coisa anterior.
Carlos Eduardo Novaes: [34:11] Claro, a gente também era nascido, eu acho, quando surgiu a companhia, que é rum com Coca-Cola. Mas onde foi que nós paramos mesmo?
Eron Falbo: [34:20] A gente parou no humor e, como é lógico, você tem que saber a música para poder quebrar a música.
Carlos Eduardo Novaes: [34:32] Claro, é essa a história que eu estava contando para você. O Bolsonaro disse que só Deus me tira daqui. Eu fui conversar com Deus. Ele colocou uma questão absolutamente lógica ali, uma frase perfeita, uma maior lógica, e eu inverti essa lógica. Fui falar com Deus, cheguei lá e estava uma multidão na porta do céu. Perguntei para São Pedro, que estava lá tentando organizar as coisas: o que é isso aí? O que é essa multidão? Esse é o pessoal da Covid? O pessoal da Covid disse: o que é que você veio fazer aqui? Eu disse: vim fazer uma palavrinha com o senhor, vim conversar com o senhor. Aí ele diz assim: os vivos é pelo outro lado, é outra porta. E aí eu vou lá conversar com o senhor e olho para Deus, vejo que ele está batido, está até meio deprimido, e eu fico achando que isso tudo era consequência do fato de ele ter criado o vírus. Ele deve estar arrependido de ter criado o vírus. E por aí vai a história, quer dizer, eu peguei um dado real e inverti o raciocínio em cima dele e fiz uma brincadeira, fiz o humor em cima de uma frase real. É assim, quer dizer, o marquês entrou ali e viu uma realidade na frente dele e ele teve um outro tipo de reação que não aquele de jogar o bicho pela janela, desafiar o bicho.
Eron Falbo: [35:58] No duelo, isso me lembrou uma coisa que a Universidade de Berkeley tem: o departamento de estudo de seita. E lá no estudo de seita eles falam essa coisa que você fala do Bolsonaro, que é típico de seita, que ele fala assim: para você dar uma informação para uma seita, para os seguidores seguirem, o melhor jeito de você se tornar um líder absoluto é essa informação ser inchecável, você não consegue checar. Não falsificável. Você não pode falsificar essa informação. Tipo assim: só quem me tira daqui é Deus. Você não tem como descobrir se Deus vai tirar ele de lá ou não. Então isso gera uma crença. Pô, sei se é o poder dele. Isso gera uma liderança de seita. Aí a típica coisa de humor é tipo aquela galera de Jonestown que tomou o Kool-Aid, todo mundo foi para uma ilha e fizeram um suicídio em massa. Esse líder de seita, que eu esqueci o nome dele, é... o que inventaram Jonestown, alguma coisa Jonestown, talvez. Ele falava para as pessoas que se comunicava com uma nave alienígena, esse Jim Jones. Ele se comunicava com uma nave alienígena que dava informações para eles, privilegiados, e ele passava para os seguidores. Aí eu me lembrei, enquanto estava falando do Bolsonaro, de fazer uma piada de um dos seguidores do Jim Jones, que por pão se sentia em massa terrível, chegar e falar: o cara da nave também me ligou. E agora tem outras paradas, para falar: todo mundo que está aqui, vem comigo. Mas a essência disso é que o departamento anti-seitas de Berkeley analisa como as seitas funcionam e a gente pode aprender. Muitos desses demagogos, como Bolsonaro, como Lula, como vários demagogos que existem no Brasil, na verdade só respondem à demagogia, infelizmente, ao sensacionalismo, à demagogia. A gente pode se defender desses demagogos através de entender como as seitas funcionam. E o humor também, obviamente. Se você tem humor e lê sobre humor e tudo isso, você não leva a sério certas coisas.
Carlos Eduardo Novaes: [38:31] Eu tenho uma frase, uma divisa que eu uso na minha vida e que eu tento passar para as pessoas: não leve a sua existência tão a sério que você não vai sair dela com vida, não leve a sua existência tão a sério que você não vai sair dela com dúvida. Então, acho que a gente tem que ter uma visão um pouco mais elástica dessa realidade, sobretudo a realidade que a gente está vivendo agora. Estou adotando uma posição de absoluto cinismo. Absoluto cinismo.
Eron Falbo: [39:03] Eu também, estamos juntos.
Carlos Eduardo Novaes: [39:05] Eu não me surpreendo mais com coisa nenhuma. O que me disserem, eu vou...
Eron Falbo: [39:12] Eu não necessariamente acredito em nada também.
Carlos Eduardo Novaes: [39:16] O quê?
Eron Falbo: [39:17] Eu também não necessariamente acredito em nada.
Carlos Eduardo Novaes: [39:21] É verdade. É um negócio impressionante, porque essa história da seita que você falou mobiliza a cabeça das pessoas. O Jim Jones matou na Guiana 200 pessoas, pessoas que se suicidaram por conta das palavras dele, por conta do fato de ele dizer que agora vão encontrar Deus ou coisa parecida. É o que acontece, o que acontecia com Mussolini, o que acontecia com Hitler: as pessoas ficam completamente tomadas e perdem um pouco a capacidade de raciocinar com clareza. Ficam naquela... Acho que um pouco dessas pessoas que vão atrás do Bolsonaro, não são todas evidentes, tem um antilulismo, um antipetismo muito grande atrás do Bolsonaro, mas há uma turma que o Bolsonaro pode fazer absolutamente o que quiser de malfeito, e são poucas as coisas que ele tem feito de malfeito, que as pessoas continuam ligadas a ele, como ficaram ligadas a Hitler, como ficaram ligadas.
Eron Falbo: [40:28] A Mussolini, isso é demagogia. Eu acho que hoje em dia tem a cultura do cancelamento, que é uma coisa que eu odeio gravemente, que justo não permite que as pessoas se expressem e tragam clareza para certas situações, temas, e isso afeta até o humor, que eu acho muito grave. Então, assim, alguém fala, faz uma piada de estupro, por exemplo, aí: "você não é uma mulher para saber os problemas do estupro", e aí fala: "não, você, humorista, não pode falar de estupro". Mas cara, o humor é justo a liberdade de você falar sobre coisas que não pode falar. Se você não tem a liberdade de falar sobre coisas que não pode falar, aí os demagogos podem usar isso como plataforma para te impedir de trazer clareza para certos assuntos importantes.
Carlos Eduardo Novaes: [41:29] Não, e eu percebo no Facebook, com pessoas que me acompanham de alguma forma, que não é todo mundo que... Às vezes escrevo com uma ironia, com a sátira, e as pessoas leem ao pé da letra. Tinha um amigo meu que já faleceu, que eu contava uma piada e, ao invés de rir, ele ia interpretar a piada. Quer dizer, ele não se ligava no humor da piada. E eu vejo que tem muita gente, tem muita gente mesmo, no Facebook, eu percebo isso, que vejo algumas respostas de pessoas que não entendem o humor e levam ao pé da letra.
Eron Falbo: [42:10] Então, mas isso acontece com todas as pessoas. Elas estão lendo o que você está falando e estão interpretando aquilo como um grupo, entendeu? Elas não estão interpretando aquilo como uma pessoa que está lendo uma coisa pessoalmente. Hoje em dia existe uma coisa que sempre existiu, obviamente, mas que hoje em dia piorou muito, que é a identidade de grupo. As pessoas estão se vendo: "ah, eu sou de direita, eu sou de esquerda, eu sou feminista, eu sou mulher independente, eu sou homem machista, eu sou bolsonarista". O que quer que seja, você não é um indivíduo com opiniões complexas, você é uma célula de uma ideologia grupal e representa essa célula. Então, se eu vejo uma piada, o que eu tô tentando ver lá é como o meu grupo ia julgar essa piada. Eu não vejo, pô, é engraçado. Eu penso: porra, como é que eu posso defender meu grupo agora, entendeu?
Carlos Eduardo Novaes: [43:10] Não, é uma coisa curiosa. Tenho um exemplo disso. Quando fui a Cartagena das Índias, na Colômbia, e visitei o túmulo do Gabo, Gabriel García Márquez, quem sou eu, macaquinho de auditório, eu queria saber qual era a distância para chegar à terra onde ele nasceu, Aracataca. E entrei no Google e perguntei qual é a distância de Cartagena até Aracataca. Só que, ao invés de botar Aracataca, eu botei Arataca, que é um restaurante que tem no Rio de Janeiro. E o Google me respondeu: de Cartagena até Copacabana. E eu achei aquilo muito engraçado. Até hoje eu rio dessa história, porque eu errei, e o burro respondeu: de Cartagena até Copacabana são 3.200 quilômetros, uma coisa dessas. E algumas pessoas me perguntavam assim: "mas por quê? Qual é a graça?" Porra, qual é a graça?
Eron Falbo: [44:24] A graça é que você não está nem aí, na distância de Copacabana pra Espanha. Mas aí, deixa eu ver outra... Essa coisa me interessou muito. Eu tô numa fase agora de sair, eu acho que, na medida... A gente começou essa conversa hoje, eu tava muito na coisa, assim, intelectualoide, né? Tipo, pô, porque eu tava muito no modo antropologia, sociologia, né? Porque eu tenho um calcanhar de Aquiles nessa parada, que eu gosto muito, sou meio tarado com antropologia e sociologia. E às vezes eu tenho lá minhas narrativas que fazem sentido pra mim, e eu até peço desculpas se eu fui um pouco demais nessa onda, mas eu estou justo me policiando pra isso, porque eu acho a vida muito mais interessante sem essa parada ao pé da letra, usando um pouco desse conhecimento curioso, conhecimento sobre antropologia e sociologia que a gente na verdade não detém, que a gente acha que detém, mas são teorias. Que nem você falou da mulher, mas são teorias: como é que a mulher vai saber como o homem pensava? A verdade é que não tem como saber, de fato não tem como saber. Qualquer historiador honesto, qualquer antropólogo honesto, te diz que tem um monte de missing link, lacunas no conhecimento que a gente preenche com teorias, e foda-se. Então o importante não é se a coisa está certa ou está errada, o importante é que isso contribui para o humor do dia a dia, para a beleza da vida, para o conhecimento ou sabedoria que a gente pode adquirir hoje, entendeu? E é nisso que eu estou focando mais ultimamente. Então eu estou entrando bem mais no humor e focando bem mais em como eu posso extrair isso. Afinal, se alguém filmasse tudo o que você fez ontem, você assistiria? Claro que não.
Carlos Eduardo Novaes: [46:43] Não sei, eu gosto muito de mim. Talvez eu assistisse umas quatro ou cinco vezes.
Eron Falbo: [46:48] Eu também me incomodo vendo vídeo de mim mesmo nas lives, eu te entendo. Mas outra pessoa faria isso? Provavelmente não, porque a ficção, até a porra da história, a gente sai, a gente... como é que chama... a gente encapsula os melhores momentos, porque ninguém quer saber o que o Napoleão estava fazendo no banheiro. Então a gente pega os melhores momentos que a gente acha que as pessoas vão se interessar.
Carlos Eduardo Novaes: [47:26] É verdade, é verdade, tem razão. A sua assistente comentou comigo sobre um cartão que o Carlos Drummond de Andrade me escreveu. Acho que comentei isso em uma oficina de crônica que fiz, e ela disse: "ah, o Eron vai perguntar pra você sobre a história do cartão que o Drummond escreveu". Porque o Drummond, quando eu trabalhava no Jornal do Brasil...
Eron Falbo: [47:54] Tô te perguntando agora.
Carlos Eduardo Novaes: [47:55] Hã?
Eron Falbo: [47:56] Tô te perguntando.
Carlos Eduardo Novaes: [47:58] O que você tá me perguntando?
Eron Falbo: [48:00] Sobre as cartas que você trocou com o Carlos Drummond de Andrade.
Carlos Eduardo Novaes: [48:04] Sim, pois é. Então, eu tô contando pra você: eu trabalhava lá no Jornal do Brasil, e o jornal resolveu fazer um programa de rádio sobre esportes. Chamou a mim e o Zé Inácio Werneck, que hoje mora nos Estados Unidos e que era o colunista do Jornal do Brasil, para fazer um programa de esportes, nós dois no ar. Um dia o Drummond apareceu lá no Jornal do Brasil, na Avenida Brasil 500, e ele ia muito pouco lá, só ia lá para pegar correspondência. Eu o vi ali, muito tímido, o Drummond era uma pessoa extremamente tímida, ali naquele cantinho pegando a correspondência, e eu fui lá correndo falar com ele, porque ele tinha feito um elogio ao programa. Eu disse: "mestre, o senhor não me conhece?" E ele disse: "como não lhe conheço? Claro que eu lhe conheço. Eu leio, eu ouço sempre o seu programa de rádio, escutei inclusive aquele programa em que você contou que perdeu a lente de contato." Aí eu disse: "pô, eu não uso lente de contato, quem usa lente de contato é o Zé Inácio, e eu gosto muito das colunas que você escreve no jornal", porque não sou eu que escrevo. Quando ele citou mais três ou quatro circunstâncias que eram do Zé Inácio e não minhas, no final ele chegou e disse assim: "é claro que eu conheço você, você faz aquele programa de rádio com aquele rapaz, o nome dele é Carlos Eduardo Novaes". Isso mesmo. E, muitos anos depois, para não pensarem que o Drummond estava ficando gagá, eu contive a minha vontade de fazer uma crônica a respeito. Quando ele fez 80 anos, eu escrevi a crônica, escrevi com todo cuidado, para não parecer que ele estava pirando. Aí ele me mandou esse cartão, que eu guardo até hoje, um cartão muito simpático do Drummond. O Drummond era uma figura, realmente. Fui companheiro dele, trabalhava no Jornal do Brasil, na área de esporte, e, quando o Walter Fontoura entrou como editor do jornal, me transferiu para colunista, para cronista do Caderno B. E aí ficamos lá: o Drummond, o José Carlos de Andrade e o Carlos Eduardo Novaes. Acho que, se não me chamasse Carlos, talvez não conseguisse ser, porque eram três Carlos lá como cronistas. Ainda tinha o Carlos Castelo Branco, que era cronista, colunista de política.
Eron Falbo: [50:36] Eles eram carlinistas.
Carlos Eduardo Novaes: [50:38] Eu tenho algumas histórias para contar, mas não sei ainda a sua disponibilidade.
Eron Falbo: [50:47] O nosso tempo, infelizmente, está acabando. Das coisas que eu escrevi aqui, que eu ia entrar para a gente explorar, a gente explorou umas duas aqui de 20. Então, a gente nem começou, mas é normal. A ideia é essa: a gente entrar, não ter pauta, e o que rolar, rolou, entendeu? Foi o que estava entre a gente ali. E aconteceu uma coisa bela. Eu acho que no mundo antigo da mídia, no papiro do Egito antigo, isso custava caro pra caralho. Quem ia escrever livro tinha que ser da elite, e na hora de escrever também eles tiravam tudo que não precisava e deixavam só o essencial. Aí depois da invenção do Gutenberg e da imprensa, isso aumentou muito o quanto de merda era escrito, e hoje em dia na internet só tem merda praticamente. Mas a gente ganhou o quê? A gente ganhou a capacidade de abraçar um pouquinho mais a espontaneidade. Porque no mundo da comunicação antiga, tipo assim, se você fosse no Jô Soares, você tinha lá um horário, horário nobre, pra talk show, né? E aquele era o horário pra você entrevistar uma pessoa. Era caríssimo um programa daquele, custava, sei lá, 300 mil reais pra produzir, né? Então a coisa era de altíssimo cuidado para poder fazer. Era tudo muito planejado, tinha banda, tinha não sei o que e tal. Nos nossos tempos, hoje em dia, está acontecendo um fenômeno que o público está gostando mais de coisas que são mais humanas, espontâneas, menos planejadas, com menos pautas. E é isso que eu quero trazer pessoalmente com esse programa, entendeu? Então o objetivo foi esse mesmo: chegar assim, pô, eu tenho coisas aqui que eu uso esse programa como autorrealização. Além de, obviamente, tentar contribuir com alguma merda para as pessoas, egoisticamente eu uso como autorrealização. Então eu vi, porra, Carlos Eduardo Novaes, uma estrela da literatura brasileira, um cara com conteúdo infinito. Eu, muito egoisticamente, fui te estudar e fui ver o que eu quero saber dessa pessoa, o que eu quero extrair. E eu acho que muita gente que pensa parecido comigo pode gostar desse tipo de coisa. Mas a ideia é essa, não é uma pauta, entendeu? Por que eu não te perguntei do Carlos Eduardo de verdade, apesar de estar aqui no meu tablet de papiro? Porque, cara, não veio esse assunto. A gente entrou em assuntos interessantes, espontaneamente, e foi isso. E agora eu passo para a nossa aula.
Carlos Eduardo Novaes: [53:52] Mas a gente pode virar a página, né? Vira a página, começa um outro capítulo e começa outro livro. E aí a gente vai falar de outra coisa, vai se tratar de outro assunto. Total, total.
Eron Falbo: [54:01] E você fez isso muito bem. Tipo, quando eu tava falando merda de antropologia, você falou "para de falar merda". Aí eu parei, a gente foi pra outro assunto. Aí, quando eu não sabia mais o que falar, você falou "é ótimo". Mas aí surgiu o que veio na sua cabeça, o que veio na minha cabeça. Só tô te explicando, entendeu, por que que parece meio caótico, mas é proposital. É pra ser caótico mesmo.
Carlos Eduardo Novaes: [54:23] Eu acho que é uma boa ideia. Não fica uma entrevista acadêmica muito formal. Fica uma coisa jogada assim, e a gente conversa como se fôssemos companheiros de colégio, de banco de escola. Espero que seja.
Eron Falbo: [54:41] Eduardo, espero que sejamos, espero que eu possa te conhecer pessoalmente quando for permitido, pelas diversas forças que existem aí. Eu queria, antes da gente terminar, fazer algumas coisas. Uma: te convidar para aparecer de novo, pra gente elaborar outros assuntos aqui dos milhares que existem. Então, em outro momento, deixar passar um tempo aí. Mas se você tiver um tempo, daqui três meses, quatro meses, a gente volta a se falar. Segunda coisa: eu queria te dizer o tanto que me interessaram os livros, e relembrar as pessoas que estão lançando. Qual é o nome mesmo do livro do Bolsonaro que você está lançando?
Carlos Eduardo Novaes: [55:26] Chama-se Crônicas. Tá? Com interrogação. Aliás, eu vou precisar deste seu canhão de divulgação para me ajudar a jogar esse livro para frente.
Eron Falbo: [55:41] Mas é isso que estou fazendo agora. Isso aqui vai ficar gravado no podcast e todo mundo vai ouvir.
Carlos Eduardo Novaes: [55:46] A divulgação que importa é essa divulgação que a gente tem pela rede. E eu sou semi-analfabeto em TI. Então preciso me apoiar nos amigos, nos recém-chegados, para que me ajudem a divulgar o meu trabalho.
Eron Falbo: [56:02] Pode, com o meu total apoio. Eu queria te dizer: um dos meus livros favoritos da minha vida inteira chama-se Screw Tape Letters, do C.S. Lewis. Eu não sei como é que é em português, eu acho que é aprendiz de demônio, alguma coisa assim. Você conhece esse livro? Não, não conheço. É super obscuro. O C.S. Lewis é conhecido pelas crônicas de Nárnia, mas o C.S. Lewis tem esse livro, que o livro é um demônio... É bizarro porque é muito parecido com o vírus de piranga, que é o seguinte: é um demônio mestre ensinando a um demônio aprendiz como dominar a humanidade através dos vícios.
Carlos Eduardo Novaes: [56:49] Através do?
Eron Falbo: [56:50] Dos vícios. Então o demônio mestre explica como a mente humana funciona para o demônio aprendiz dominar completamente qualquer pessoa que tenha qualquer tipo de tentação. Então o livro na verdade é sobre moralidade, e ele está ensinando moralidade, mas da forma negativa. Entendeu? O que não fazer. Mas é muito parecido com a sua ideia. A sua ideia é de uma forma humorística. O escritor Heberus também é humorístico. Mas eu queria te falar desse ensaio porque é o meu livro favorito, praticamente, um dos meus livros favoritos. E você teve uma ideia muito similar, que é genial.
Carlos Eduardo Novaes: [57:32] Pois eu quero lhe falar do meu livro favorito, que está na minha mesinha de cabeceira até hoje, e que foi um livro lançado há 40 anos. Chama-se A Conjura dos Tolos. Se você está interessado em humor, não pode deixar de ler. É de um autor que se suicidou antes de ter o livro dele editado, e a mãe dele saiu correndo aí e foi rejeitada por 14 editoras, e ela conseguiu editar por uma universidade, da Louisiana. E esse livro ganhou todos os prêmios nos Estados Unidos depois, para você ver as contradições.
Eron Falbo: [58:10] Qual é o livro? Descreve para mim.
Carlos Eduardo Novaes: [58:13] A Cerimônia dos Tolos, é do John Kennedy Toole, é de um americano, e o livro se passa em Nova Orleans, ainda para me agradar mais.
Eron Falbo: [58:24] Adoro Nova Orleans!
Carlos Eduardo Novaes: [58:27] Você pode procurar esse livro, não vai ser fácil você encontrar, porque é um livro que já está, enfim, já tem mais de 40 anos, não sei se você encontra em... É da Record, mas não sei se você encontra na Record ou em algum desses lugares que vendem livros antigos.
Eron Falbo: [58:46] Pode ser uma missão.
Carlos Eduardo Novaes: [58:47] A Cerimônia dos Tolos. Fantástico. Quase que posso repetir as 325 páginas de cabeça, tantas vezes que já li esse livro. Eu leio e acho muito engraçado.
Eron Falbo: [59:02] Vou ler com certeza. Antes de fazer a nossa próxima live, vou ler e a gente conversa sobre ele.
Carlos Eduardo Novaes: [59:10] Maravilha.
Eron Falbo: [59:11] Então, para terminar, eu queria te agradecer imensamente pela presença. É uma grande honra estar falando com você. Espero que a gente se mantenha em contato para a gente poder conversar mais de uma hora, porque se eu beber um vinho e você não beber nada, que eu acho que é um grande mistério da vida, a gente chama a Ana Maria e faz uma festa. Chama amigo pianista, toca música.
Carlos Eduardo Novaes: [59:39] A Ana Maria sabe que eu não bebo nada. Quando existia o Pico, que era um lugar fantástico no Rio de Janeiro, eu tomava Coca-Cola. Eu, na verdade, sou um coca-cólatra. Eu tomo Coca-Cola na veia, mas isso fica só entre nós dois.
Eron Falbo: [59:59] Tá bom, não vou falar para os milhares de ouvintes. Mas é isso, Carlos Eduardo, vamos manter contato, por favor. Peço, por favor, apresente seus amigos também para eu chamar para a gente poder ter conversas intelectuais, barra humorísticas. Eu estou precisando de mais convidados do seu calibre, sinceramente. E a gente faz esse quid pro quo. E eu prometo que quando o seu livro lançar, você volta aqui, a gente fala sobre ele, divulga e tudo mais.
Carlos Eduardo Novaes: [1:00:32] Eu estou seguindo você, né? E aí eu vou te informar quando o livro for lançado. O livro vai ser lançado, eu acho, daqui a umas duas semanas.
Eron Falbo: [1:00:41] Eu que estou te seguindo. Pode deixar que eu vou ficar sabendo e a gente se chama.
Carlos Eduardo Novaes: [1:00:49] Se ganhar um de divulgação aí que você tem na mão, você faça o favor de girá-lo como uma metralhadora.
Eron Falbo: [1:00:58] Eron Falbo: Vamos junto, vamos junto. Valeu, Carlos Eduardo, tudo de bom para você. Sorte aí na pandemia, saúde, fique bem aí e vamos nos encontrar assim que der. Só me avisar.
Carlos Eduardo Novaes: [1:01:10] Carlos Eduardo Novaes: Valeu, querido. Muito obrigado. Valeu muito conhecer você e valeu essa conversa tão agradável que nós tivemos.
Eron Falbo: [1:01:16] Eron Falbo: Valeu, beijão. Tchau, tchau, tudo de bom. Beijo a todos.
No Alvo com Eron Falbo · episódio #81 · todos os episódios