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Eron Falbo: [0:00] Pode parar, pode parar.
Cláudio Tovar: [0:01] Muito obrigado.
Eron Falbo: [0:02] Muito obrigado. Obrigado pela presença de todos. Posso bater que meu nariz tá muito grande. E aí, galera? Vamos falar hoje com Cláudio Tovar.
Cláudio Tovar: [0:19] Que.
Eron Falbo: [0:25] Inventou uma das coisas mais ousadas da história da... Arte brasileira, artes cênicas brasileira. Por isso eu me senti no direito de ousar também hoje. Fala Cláudio!
Cláudio Tovar: [0:43] Você acha que ia ficar por menos? Depois dessa entrada triunfal sua, Lalandro, eu não ia deixar passar.
Eron Falbo: [0:56] Você foi rápido! Uma coisa que eu queria falar é que o grupo de vocês, o Zicroquete, eu vi um pouquinho do documentário de vocês, eu não sou exatamente do tempo, mas eu adoro o tempo, a música que eu mais gosto daquela E vocês realmente permitiram o brasileiro, vocês deram uma abertura para a arte brasileira ficar muito mais ousada, ficar muito mais aberta. Muita gente foi influenciada por vocês.
Cláudio Tovar: [1:32] Sem dúvida, foi uma revolução. Na época, foi uma loucura, porque foi muito ousado. A gente vivia a época de ditadura e, de repente, apareceram três malucos em cena, fantasiados de mulher, com coreografias absolutamente sensuais e ousadas, libertárias. E esses malucos modificaram a cabeça de todo mundo, modificaram a maneira de ser da época. As pessoas soltaram, viram que era possível ser mais livres e mudou bastante o jeito de pensar do brasileiro. E isso aconteceu na Europa também, quando a gente chegou em Paris Portugal nem tanto, porque estava num momento muito difícil. Foi na época da Revolução dos Escravos, então, realmente, estávamos saindo de uma ditadura muito pesada, do Salazar. Então, não foi uma coisa que foi muito bem aceita. Mas, quando chegou no Paris, foi um desbunte, uma loucura.
Eron Falbo: [2:39] Paris já estava acostumado.
Cláudio Tovar: [2:40] Itália, Bélgica e vários outros lugares também.
Eron Falbo: [2:44] É uma maravilha, eu vi tantos artistas brasileiros homenageando e é uma coisa assim que por ser, eu acho que cênico, por ser especialmente teatral, é espetáculo, como se fosse um espetáculo da Broadway, é uma coisa que não ficou tão registrada quanto outras coisas, como talvez é secos e molhados que teve disco que teve outras coisas. E é uma pena porque acho que tem tanto mérito quanto ou mais. Então é uma coisa que talvez as outras gerações tipo assim eu não cresci eu não cresci conhecendo conhecendo Zicroquete. Eu consegui conhecer outras coisas mas pelo que eu percebi da pesquisa que eu fiz era uma coisa tão gigante quanto tão influente quanto.
Cláudio Tovar: [3:33] O Zicroquete vem antes de tudo. O Zicroquete é que arrebenta com tudo. E, claro, outras pessoas antes também vieram. Teve a Dintar, teve a Maria Alcina, teve a Tropicália, teve um monte de coisa. Mas o Zicroquete rompe com tudo. E abre espaço.
Eron Falbo: [3:50] E explosivo.
Cláudio Tovar: [3:52] O Zicroquete é bom.
Eron Falbo: [3:54] O Zicroquete vem explosivo.
Cláudio Tovar: [3:55] Arrebenta tudo e abre caminho para todo mundo, inclusive Secos e Molhados, bem depois que a gente já existia. Agora, a gente teve um problema muito grave, porque a gente foi censurado. A censura não permitia que a gente fosse à televisão. Mais do que censurar, fomos proibidos. Proibidos era outra palavra, muito mais forte do que simplesmente ser censurado.
Eron Falbo: [4:24] Cancelado.
Cláudio Tovar: [4:25] Fomos censurados no Rio. Ficamos um tempo parados. Eu acabei indo à censura. Tive que ir lá. Foi uma das experiências mais terríveis da minha vida. Ir à censura e passar pelo que eu passei lá foi uma coisa horrível.
Eron Falbo: [4:41] Como é que foi? Você pode falar sobre isso?
Cláudio Tovar: [4:43] Posso. Eu fui recomendado. Fui com Orlando Miranda e Carlos Miranda, que eram os representantes da FUNARJ na época. E eles me disseram: olha, não fala nada, não deixa o cara falar e tal, não responde, não retruca nada e tal, não sei o quê. Aí eu fui com essa orientação, né. Quando eu cheguei lá, encontrei um cara, um baixinho, um militar, não sei qual era a patente dele, porque ficou nebuloso, não sei nem o nome dele, com dois caras, dois armários atrás dele, bandeira nacional e todo o resto. E ele me disse as coisas mais horrorosas, com o dedo na minha cara.
Eron Falbo: [5:28] Você me chamou de tudo, quero falar de tudo.
Cláudio Tovar: [5:32] Porque, na verdade, ele achava que eu era o Lenny, porque ele queria falar com o diretor do espetáculo, que era o Lenny Dale. Só que o Lenny tinha sido atropelado por um ônibus, e o Lenny estava em um hospital todo quebrado. Alguém tinha que ir, e esse alguém fui eu. Simplesmente porque eu tinha um terno, tinha um palito. Eu não sabia que ia passar por aquilo, aquela coisa horrível. Ele me falou barbaridades, falou coisas para mim. E aí eu simplesmente dizia: isso não é para mim. Então, eu fiquei zen. O que ele está falando não importa, não sou eu. Fiquei zen, olhando para ele.
Eron Falbo: [6:19] Melhor.
Cláudio Tovar: [6:19] Estive falando, falando, falando, falando.
Eron Falbo: [6:21] Você teve essa capacidade na hora, você bateu o ar.
Cláudio Tovar: [6:25] Anos depois, conversando com um outro que foi com a gente lá também, ele falou: como é que você conseguiu ficar daquele jeito? Eu falei: cara, era a única coisa que eu podia fazer, é ficar zen, olhando para ele na boa, firme, simplesmente olhando. Não falei nada, eu não podia fazer nada, entendeu? Não deveria fazer nada. Fiquei sem ouvir aquilo tudo, tive uma barreira na minha frente onde aquelas palavras escorriam.
Eron Falbo: [7:02] Mas o que aconteceu? Naquele momento eles censuraram vocês?
Cláudio Tovar: [7:06] Censuraram. A gente ficou uns dois meses parado, enlouquecido, cheio de conta para pagar e tal.
Eron Falbo: [7:12] Mas como é que funcionava isso? Eles te censuravam? Eles te davam alguma chance de mudar o espetáculo?
Cláudio Tovar: [7:20] Não, no nosso caso não. Um dia a gente chegou para trabalhar e a produção falou que o espetáculo foi censurado. Mas por quê? Ninguém sabia. E nunca soubemos, até hoje, o que aconteceu, por que o espetáculo foi censurado, enfim. Mas antigamente tinha uma coisa que não sei se você sabe, que era o espetáculo para censura. Sabia disso?
Eron Falbo: [7:42] Não, o que é isso?
Cláudio Tovar: [7:42] Não é do seu tempo. Então, a gente fazia um espetáculo especialmente para censura, para os censores. Era meia dúzia de censores, ou três ou quatro, sei lá.
Eron Falbo: [7:51] Para eles poderem julgar?
Cláudio Tovar: [7:52] É, eles julgavam e diziam assim: isso aqui pode, aquilo não pode, e tal, corta aqui, corta aqui, e tal, não sei o quê. E era obrigado a cortar. Agora, o critério era o critério deles, era qualquer coisa, né? Eles censuraram peças inteiras, Calabar, do Chico, foi censurado.
Eron Falbo: [8:09] Você sabe se eles tinham diretrizes, ou eram os próprios censores que, na hora, julgavam e tiravam da cartola alguma coisa? Sabe se eles tinham regras, coisas que...
Cláudio Tovar: [8:21] As regras eram totalmente deles, eram deles. A gente não tinha a menor ideia do que ia ser censurado ou não.
Eron Falbo: [8:29] Mas tinha, tipo, se tivesse coisa homossexual, não pode.
Cláudio Tovar: [8:33] Se tivesse sexo, não pode. Pelado, não pode. Dependendo do dia, era qualquer coisa. Você sabe que, quando a gente foi fazer em São Paulo pela primeira vez, no teatro, a gente foi fazendo três demais. A gente trabalhou o tempo todo em boates. E pela primeira vez, a gente ia para um teatro. Então a gente estava muito preocupado com o ensaio para a censura, que podia ser cortado e a gente parar ali mesmo. E aí a gente fez o espetáculo, mas a gente não tinha muita mobilidade, a gente podia fazer qualquer coisa, era tudo solto, a gente podia brincar do que quisesse. A gente fez as coisas mais idiotas, a gente entrou fantasiado de palhacinho, de fadinha, de borboletinha, de não sei mais o quê. Eles não entenderam nada daquilo, livraram aquela viadagem toda, aquela frescura.
Eron Falbo: [9:35] Foi uma maravilha.
Cláudio Tovar: [9:41] Mas aí a gente já estava liberado e tal. Aí quando chegou no Rio, eles resolveram censurar. Aí cortaram o espetáculo.
Eron Falbo: [9:48] Mas você falou que ficou só dois, três meses e depois voltou?
Cláudio Tovar: [9:51] Aí voltou. Voltou.
Eron Falbo: [9:53] Mas como é que volta depois da censura?
Cláudio Tovar: [9:56] Ah, então... A gente voltou. Nem lembro direito se foi há tanto tempo atrás, tem 50 anos isso, cara, nem lembro. Eu sei que a gente voltou. Conseguimos uma liberação do espetáculo, voltamos. A gente deve ter feito alguma promoção, de chamar todo mundo de novo e tal, mas isso foi o estopim para a gente ir embora do Brasil.
Eron Falbo: [10:15] Vocês foram para a Europa, né?
Cláudio Tovar: [10:17] Não, fomos para a Europa.
Eron Falbo: [10:19] Ah, tá. Mas tinha uma história de Broadway, né? Tinha uma coisa...
Cláudio Tovar: [10:22] A história da Broadway foi um quiproquó. A Liza Minnelli era muita amiga nossa, ela curtia muita gente. E ela sugeriu, aqui no Rio, que a gente fazia um espetáculo com ela chamado Lulu, uma coisa assim, onde ela faria... Era um prostíbulo, uma coisa assim, um cabaré, não sei. E a gente faria as prostitutas, ela faria cafetina, uma coisa mais ou menos assim. Acabou que a gente foi para a Europa e tal, fizemos lá. E lá ela voltou, ela apareceu lá de novo, foi fazer o show dela lá, que na época era o Cabaré, Liza Minnelli, eu acho. E a gente se reencontrou, e ela foi a grande madrinha da gente, avalizou o nosso trabalho, e a imprensa foi assistir a um espetáculo nosso, a gente fez um espetáculo especialmente para ela. Ela levou toda a imprensa para lá e avalizou o nosso espetáculo, dizendo que esses caras são maravilhosos, tem que dar força para eles e tal. E foi quando a gente estourou lá em Paris. Mas aí, quando a gente voltou para o Rio, teve a ideia de ir fazer tal espetáculo com a Liza na Broadway, mas não tinha nada ainda confirmado, entendeu? Nada tinha sido transado. Então não deu, não deu tempo. A gente voltou para casa.
Eron Falbo: [11:44] Eu vi lá no documentário que o pessoal quis voltar para o Brasil, algumas pessoas queriam voltar para o Brasil. Tinha uma história assim?
Cláudio Tovar: [11:53] Teve. Eu tive uma reunião onde a gente, na verdade, merecia ir para Londres. Mas a proposta de Londres... Porque na Europa tem férias em agosto, julho e agosto, férias, e todos nós saímos de férias também, porque não tinha nem como trabalhar lá em Paris. Quando a gente voltou, teve a triste surpresa de saber que o tal do contrato de Londres não tinha acontecido. E, como as coisas são feitas com muita antecedência, todas as pautas de teatro são feitas com muita antecedência, nós estávamos sem possibilidade de trabalho. Aí uma das ideias era voltar para o Brasil. A gente já estava com saudade de casa, já estava com vontade de voltar. A perspectiva de outro inverno lá era uma coisa que a gente não estava a fim. E tinha a ideia de ir para a Broadway, mas não tinha nada acertado ainda. Não teve muita saída. Eu lembro dessa forma, não teve muita saída.
Eron Falbo: [13:01] Era muita gente, a trupe de vocês.
Cláudio Tovar: [13:03] Era treze atores, mais sonoplasta, mais... Treze atores? Treze. Mas era treze.
Eron Falbo: [13:16] Então eu tive a impressão que vocês moravam numa espécie de comunidade, todos vocês juntos. Tinha uma entourage, pessoas que participavam. Como é que era essa cena de vocês? Como é que era o seu grupo?
Cláudio Tovar: [13:33] Dependia do lugar. Às vezes a gente morava todo mundo junto, às vezes em hotel, mas no mesmo hotel, todo mundo junto. A gente curtia muito junto, todo mundo. A gente se curte até hoje... as pessoas que estão, nós somos só quatro, os vivos, os outros já se foram. Mas a gente até hoje se curte, está junto, se liga, se fala, sabe um do outro e participa da vida do outro. E sempre foi assim, sempre, sempre, sempre. Durante toda essa trajetória, esses 50 anos, a gente sempre esteve junto.
Eron Falbo: [14:09] Então são quatro, e a outra galera era meio substituível? Era isso?
Cláudio Tovar: [14:14] Não, não, não, não, não. Os outros morreram.
Eron Falbo: [14:19] Eles morreram todos, já morreram. De três, morreram nove.
Cláudio Tovar: [14:27] É incrível. Sinto muito.
Eron Falbo: [14:32] Mas deve ter começado com alguns. É mais isso que eu quis dizer. Deve ter começado com uma mão cheia de pessoas. Quantos começaram desde o início?
Cláudio Tovar: [14:44] Olha, eu, o Bené, o Carlinhos e o Eloy entramos depois. Então, eram nove. Entraram nove, começaram com nove e chegaram mais quatro. Eu fui um deles que chegou depois. Ou seja, começou com nove.
Eron Falbo: [15:07] Ah, e os nove que morreram, ou não?
Cláudio Tovar: [15:10] Não, não.
Eron Falbo: [15:12] Não, não todos. Achei que era só pessoal de uma coincidência mesmo. E você falou que cresceu fazendo faculdade em Brasília, né, em 1973. Isso também é super interessante, porque bem no começo de Brasília mesmo. Você se encontrou artisticamente em Brasília. Só que como é que foi isso? Em Brasília existia arte naquela época?
Cláudio Tovar: [15:39] Existia. Era o começo de tudo lá, respirava arte. Eu cheguei em 1963. Fui para lá porque simplesmente um primo meu, que trabalhava na aeronáutica, me arranjou uma passagem para conhecer a cidade. E eu, como todo mundo, fui trabalhar em obra. Eu era porteiro de obra, porque só tinha obra mesmo para trabalhar. Não tinha nada.
Eron Falbo: [16:07] Estavam construindo.
Cláudio Tovar: [16:09] Construindo. Asa Norte nem existia.
Eron Falbo: [16:12] Trouxe candangos, não é?
Cláudio Tovar: [16:14] É.
Eron Falbo: [16:15] Que estavam construindo.
Cláudio Tovar: [16:16] Eu era um candangão mesmo, cara. Candango. E aí, um dia, uma prima me convidou para conhecer a universidade, a Universidade de Brasília, a UnB. Cara, eu fiquei encantado com aquilo lá, porque vi um monte de gente desenhando, um monte de gente fazendo artes plásticas e fazendo esculturas, fazendo não sei o quê. Era o Minhocão? Não, não era o Minhocão. Nem o Minhocão existia ainda. Era o ICA, Instituto Central de Artes. Eu falei: poxa, mas aqui é o meu mundo, é aqui que eu quero, é isso que eu quero. Porque eu vinha de Vitória, não sou capixaba, e lá, naquela época, tudo era muito árido ainda do ponto de vista artístico. E eu queria muito trabalhar com arte. E aí cheguei em Brasília e encontrei esse lugar. Eu falei: é tudo o que eu quero, eu quero isso, eu quero. Fiz vestibular, passei para a faculdade e fui fazer o curso de arquitetura. Me formei lá, mas não fiquei muito interessado na arquitetura propriamente dita. Teve um festival de teatro lá, onde todos os alunos participaram, inclusive eu, e vi que gostei muito da parte de cenografia da peça que fiz. Falei que posso usar as coisas que estou aprendendo na cenografia de teatro, que era uma coisa também pouco desenvolvida. A direção de arte, essas coisas, naquela época, não eram uma coisa muito... Tanto que, logo que fui trabalhar para fazer direção de arte, na verdade, acabei fazendo cenário, figurino, fazia tudo de uma forma muito confusa, porque, hoje em dia, direção de arte não é bem isso. Aí eu vim para o Rio para fazer cenografia e dei sorte de conhecer o Reginaldo Faria, que me convidou para fazer um filme dele. Ele falou assim, do nada: 'Você não quer fazer meu filme?' Falei: 'Claro que quero.' Falei: 'Então, vai fazer direção de arte do filme.'
Eron Falbo: [18:45] E como funcionava nessa época? Como funcionavam os orçamentos e os investimentos? Como é que a arte, um filme ou até o Dzi Croquettes, como era financiado? Como era viabilizado?
Cláudio Tovar: [19:00] O Dzi Croquettes era uma cooperativa. Como todas as coisas daquela época, a gente fazia cooperativa. A gente juntava, era muito comum, era completamente diferente, não tinha esse negócio de patrocínio. Então, o que acontecia era um grupo de amigos se juntar para fazer uma peça, pegava daqui e dali, não sei como. Tinha o teatro, que andava em acordo também, não tinha negócio de...
Eron Falbo: [19:27] É por isso que estou perguntando, porque hoje em dia me parece que a arte brasileira meio que entrou debaixo da asa do governo. Hoje todo mundo só faz coisas se tiver patrocínio, se tiver a coisa garantida. E é isso que eu queria entender. Em algum momento no Brasil isso não existia, né? Então eu queria entender assim: o Dzi Croquettes era um espetáculo espetacular, era uma coisa gigante, era uma coisa com dançarinos, com diferentes figurinos, com cenografia, etc. E vocês mesmo assim conseguiam viabilizar, né? Através de...
Cláudio Tovar: [20:05] É uma coisa muito especial, porque, quanto ao apoio que a gente teve, quando a gente foi fazer a boate Pujol, aqui no Rio, cada um de nós ganhou uma bota, a botinha de dançar. Isso foi tudo que o Alberico, que era o produtor do espetáculo, entre aspas, deu para a gente. O resto a gente inventava. Os figurinos, com o que tinha, a gente ia inventando coisas, e isso fez uma enorme criatividade, porque cada dia a gente fazia uma coisa, fazia de um jeito, punha uma roupa, punha outra, uma coisa virava a outra. Enfim, era uma grande salada de frutas que a gente fazia. Então a gente tinha essa liberdade de criação que permitia a gente usar qualquer coisa. Não era um figurino específico, não era um Romeu e Julieta ou uma coisa assim, sei lá. Era uma coisa diferente, era uma coisa que a gente podia fazer. Quanto ao filme, não. O filme tinha produção. A produção era dos Irmãos Faria. E era tudo, saía dali, daquele dinheiro que eles tinham. Eles também não tinham patrocínio, não. Eles tinham apoio.
Eron Falbo: [21:17] É isso que eu acho que é diferente. Eu até gostaria de estudar isso mais, essa história da produção cultural brasileira, porque mudou muito. Hoje em dia, realmente, tudo é baseado em incentivos, patrocínio, esse tipo de coisa.
Cláudio Tovar: [21:33] Mas isso é muito bom, você trabalhar com apoio é muito bom, você ficar trabalhando muito.
Eron Falbo: [21:39] Bom, por um lado, o governo do Bolsonaro, por exemplo, tirou, e as pessoas... Não parece que não sabem mais fazer. Como é que acaba? Acaba acostumando as pessoas a terem essa saída, vamos dizer assim. Se não tiver essa saída, aí acabou não fazendo nada, nos Estados Unidos.
Cláudio Tovar: [22:01] A Lei Aldir Blanc, que foi feita agora também pelo governo federal, foi muito boa, viu? Porque ela contemplou muitos, muitos artistas. Não é muito dinheiro. Eu fui contemplado para fazer uma peça. Mas, assim, está dando para muita gente montar um monte de coisa, espetáculos maiores, espetáculos menores e tal. Foi uma ajuda boa agora, sabe? Porque a gente estava também com a corda no pescoço, né? A gente está há um ano sem trabalhar, estamos todos num sufoco danado, né?
Eron Falbo: [22:42] E como funciona essa lei? Quem entrou, quem não entrou? Porque tem realmente muita gente precisando, né?
Cláudio Tovar: [22:51] Nessa pandemia, teve um edital. Todo mundo apresentou seu projeto, reivindicando X cruzeiros... X reais.
Eron Falbo: [23:09] O que você está lembrando?
Cláudio Tovar: [23:14] Voltei no tempo.
Eron Falbo: [23:20] É por causa da minha gravata, eu acho.
Cláudio Tovar: [23:28] Enfim, sei que ganhei muitos cruzeiros.
Eron Falbo: [23:31] Precisa de muitos cruzeiros para pagar as comodidades.
Cláudio Tovar: [23:36] É, poucos os contemplados, mas muita gente para contemplar. É uma pena que a gente esteja passando esse sufoco tão grande, porque em outros lugares ganha-se tanto dinheiro, movimenta tantos artistas, tantos técnicos, tanta gente se envolve num espetáculo, é trabalho para todo mundo, e é dinheiro que entra também. Apenas estamos nessa dificuldade outra vez, fazendo quase que outra vez cooperativa, outra vez trabalhando com muito pouco dinheiro. Estou fazendo essa peça agora e voltei a fazer o que eu fazia antes, cenário, figurino, adereço e tal, mas eu que vou pegar, eu que carrego, eu que pinto o cenário, eu que faço tudo, eu que compro as coisas e tal. Não estou reclamando, não, porque eu gosto, eu faço isso. Isso é teatro, teatro é muito isso.
Eron Falbo: [24:41] Mas para você voltar para trás um pouco.
Cláudio Tovar: [24:44] O teatro é isso, o teatro é muito artesanal, a gente carrega o cenário, a gente prende, a gente faz. Gente de teatro é assim, sabe? Eu me considero uma pessoa de teatro porque vivo há 50 anos nesse métier, mas voltei a pintar cenário, voltei a comprar os tecidos, não sei o que, cortar, levar, trazer e tal.
Eron Falbo: [25:11] E essa peça que você está organizando vai ser lançada?
Cláudio Tovar: [25:14] Vai ser lançada no dia 30 de abril. Chama-se As Meninas Velhas. É um texto meu. E tem Lucinha Lins, tem Bárbara Bruno, tem Nádia Nardini, tem Divina Valéria. São quatro mulheres. É uma peça que fala sobre amizade. Sobre envelhecer, sobre crescer, sobre morrer também. É muito bacana.
Eron Falbo: [25:50] Mas isso que você fala em termos de... é humorístico ou é um drama?
Cláudio Tovar: [25:56] Não é drama, não, mas é muito... é uma reflexão sobre coisas que eu estava vivendo. Já estou com 77 anos, vou fazer, e chegou uma hora que comecei a pensar também que já tinha passado um tempo muito maior do que vou viver, o tempo que já tinha vivido. Já era grande e tal, e a gente começa a ter reflexões sobre isso, né? Pensar na vida, pensar na morte e tal, mas com muita tranquilidade, sabe? Não é uma coisa assim, ah, estou morrendo de medo. E agora, então, com essa pandemia, mais do que nunca, né, você vê aquela questão...
Eron Falbo: [26:42] É, o mundo inteiro está enfrentando isso. Qual é a sua visão disso? Você tem alguma religião, espiritualidade, alguma coisa que você tenha, um prisma sobre a morte?
Cláudio Tovar: [26:55] Não, eu não tenho, eu não sei se eu sou religioso, não sei assim, de ter uma religião, não, mas eu gosto muito da natureza, eu gosto muito da arte, da criação, sabe, eu acho a criação, criar arte, acho tão bonito, a gente fica próximo de Deus, porque você também está criando, você fica um pouco criador, você fica perto de Deus. A minha conexão com Deus é essa, é através da arte. Gosto muito de desenhar, então fico desenhando e para mim é a minha conexão. Eu viajo desenhando. Então, acho que essa que é a minha religião, minha conversa com Deus é quando estou fazendo arte, criando, entendeu?
Eron Falbo: [27:49] Através de fazer o mesmo que Deus, vamos dizer, pressupondo que Deus é o criador, você, criando, você participa do divino.
Cláudio Tovar: [28:00] Participo também. Agora, eu não sou uma pessoa que vai para a igreja e ajoelha, ou vai para um... Respeito todas as religiões, acho bacana as pessoas que cultuam, que cultivam isso, mas não é a minha. Fico muito mais inspirado quando vou para a praia e vejo aquele mar maravilhoso que tenho lá da minha casa do que numa igreja. A igreja não me diz nada. Tem igrejas que acho muito bonitas. Aí eu vou na igreja, curto, acho lindo tudo e tal. Como o ser humano cria coisas lindas para homenagear a Deus, mas não é isso que me faz ver a divindade, eu vejo mais na natureza. Então acho que tenho sim, tenho uma religiosidade, percebo, curto o universo, olho, vejo, penso, mas essa é a minha religião, não é? Não tem nenhum Deus, não.
Eron Falbo: [29:13] Me conta um pouquinho da época, que eu fiquei curioso, de como era essa coisa, porque você se vestiu de drag, uma coisa que hoje em dia, por exemplo, com a RuPaul, ficou uma coisa bem mais aceitável, mas na época as pessoas não sabiam nem o que era. Então, como era essa coisa do impacto do público, porque também a sociedade brasileira no regime militar era muito conservadora? Vocês sofriam preconceito? Sofriam violência?
Cláudio Tovar: [29:51] Nenhum, nenhum, nenhum. A gente foi curtidíssimo desde o primeiro dia, desde sempre. A gente era muito engraçado, a gente dançava muito bem, a gente era muito bonito. Falou-se que eu era jovem na época. Todos eram muito tesudos, gostosos. Então, o que eu queria mais era comer aqueles croquetes, entendeu? Nunca teve preconceito, nunca teve nada, não.
Eron Falbo: [30:17] Ao contrário, a gente era uma coisa, porque isso me surpreende muito, porque naquela mesma época, em 1975 mais ou menos, se fosse isso, nos Estados Unidos tinha muita revolta ainda contra o próprio Kiss, né, a banda de rock, tinha movimentos contra o Kiss, e eles só vestiam uma maquiagem meio de ficção científica, né? Vocês eram homens vestidos de mulheres, né? Rebolando e...
Cláudio Tovar: [30:52] Rebolando nada, cara. A gente é uma coreografia barra pesada, uma coreografia de atleta, sabe?
Eron Falbo: [30:58] Quando eu digo rebolando, eu tô falando assim: você fazia uma dança sexual. Rebolando é uma coisa específica. Mas eu tô falando, vocês ousavam sexualmente, ambiguamente, vamos dizer, andrógena. E isso me surpreende, que vocês não sofreram preconceito, né?
Cláudio Tovar: [31:21] Nunca. Eu falo nunca porque é nunca mesmo, entendeu? A gente foi uma coisa que dizia assim: nós não somos homens nem mulheres, nós somos gente. Gente. Não tinha nenhuma classificação disso, ou daquilo, ou outro.
Eron Falbo: [31:37] Só no ano de setembro. Vocês eram influenciados pelo glam rock, pelo David Bowie, pelo Lou Reed, Velvet Underground, essas coisas todas?
Cláudio Tovar: [31:49] A gente foi curtido muito pelo Mick Jagger, pela Liza, pelo... Meu Deus do céu, quem mais? Aquele povo, tudo que passou pela gente, curtia. Mas eu não me lembro agora. Ah, o Pierre Clementi, Jacques Demy, Lelouch... Esse era o povo de cultura.
Eron Falbo: [32:09] É verdade que o Mick Jagger andava com vocês?
Cláudio Tovar: [32:12] Não, o Mick Jagger, eu estive com ele duas vezes. Uma vez... Primeiro, quando eu cheguei em Paris, eu botei as malas na casa desse amigo que estava nos produzindo. Ele falou: vamos embora, que a gente vai ter que ir, eu vou almoçar com um amigo nosso. E eu estava com o Cláudio Gaya também, nós dois. E nós fomos para a Brasserie Lipp, em frente ao Café de Flore, ali em Paris. E, quando chegou, o Mick Jagger... Meu Deus, o Mick Jagger! Ele falou assim: "Vocês são os famosos Dzi Croquettes?" Eu, famoso? Quem? Nós somos os famosos Dzi Croquettes, amigo! E é engraçado que o Mick Jagger nunca foi meu grande ídolo, não. Naquela época eu gostava do Pink Floyd, gostava do The Who. Então eu tinha muito para curtir dos outros músicos ingleses e pouco sobre ele, entendeu? E aí a gente curtiu um pouquinho, conversamos um pouquinho e tal. Ele perguntou e estava muito interessado em saber quem éramos nós, porque esse amigo nosso comum estava nos produzindo. Mas, logo em seguida, o assunto acabou. Eu tinha acabado de chegar, vindo de Portugal. O Claude Berger já estava lá. E aí eu tinha que falar com o Gaya coisas. Eu falava: e o teatro? Como é que é o teatro e tal? Os cenários que ele fazia era eu. E o cenário é palco, é grande e tal. Então, o assunto já virou para o Cláudio Gaya, já esqueci o Mick Jagger aqui, e a gente ficou falando sobre a coisa. Esse foi o nosso almoço. E ele estava na estreia também. Finalmente, quando a gente estreou, ele estava na estreia, junto com Deus e o mundo, Verúrgica, Irte, Omar Sharif, sei lá quem estava lá, não era tanta gente, José Filipe, muita gente bacana estava lá.
Eron Falbo: [34:22] Isso é muito legal. Naquela época estava fervendo. O mundo inteiro estava cheio de gênios. A arte estava bombando muito. Vocês devem ter vivido... Sem dúvida nenhuma.
Cláudio Tovar: [34:38] Para mim, foi a década mais bacana que eu vivi. 60 e 70. Porque 60 já começava ali uma revolução, começou a pílula, os Beatles apareceram, eu estava na faculdade, o mundo abria para mim. Então, tudo para mim era uma revolução. E a década de 70 foi tudo isso já na prática. Uma maravilha de liberdade, de liberdade sexual. A gente jovem vivendo aquilo tudo, aquela abertura. Foi muito bonita a década de 70. E ainda por cima, com o sucesso do Dzi Croquettes, a gente viajando na Europa, fazendo sucesso em Paris, com aquelas pessoas... Meus ídolos estavam lá, Jean-Nouveau. Então, foi incrível para mim essa época. Foi muito rica. Em 1980, já entra o punk, já fica mais heavy.
Eron Falbo: [35:43] Começou a acalmar, não é? A viagem, o trabalho também, a inteligência.
Cláudio Tovar: [35:51] 1983. Vem a Aids.
Eron Falbo: [35:56] Lá em Brasília tem uma curiosidade: você lembra de alguém chamado Marcão Adrenalina?
Cláudio Tovar: [36:02] Não.
Eron Falbo: [36:04] Porque ele era uma figura muito conhecida. Talvez fosse antes de você ser tão... Ele era muito conhecido como o cara que trazia os discos para todo mundo ouvir. Talvez você pudesse... Para mim, era o...
Cláudio Tovar: [36:22] Seguinte, eu era um estudante duro, e eu não fazia outra coisa na vida a não ser estudar e ficar na universidade, porque eu morava na universidade, morava no alojamento lá. E aí eu passava o dia na universidade, o restaurante era lá, era o Bandejão, eu tinha aula o dia inteiro, e, de noite, eu dava aula em Planaltina, dava aula de desenho para adolescentes, para a garotada. Já existia Planaltina?
Eron Falbo: [36:49] Já existia Planaltina? Então...
Cláudio Tovar: [36:53] A minha vida era toda girando em torno daquilo, da faculdade. Eu era monitor também de plástica na universidade, ou seja, eu tinha que preparar coisas para o professor da aula. Então, eu não vivia muito a vida na cidade, entendeu? Engraçado que, quando eu me formei, tive que sair do alojamento, claro. Fui morar na cidade e, cara, vi que a cidade não fazia o menor sentido mais para mim. Não tinha o menor sentido. Adorava Brasília. Mas, assim, acabou aquilo. Acabou. Ficou uma cidade que eu pensei: o que estou fazendo aqui? O que estou vivendo? É um lugar deserto, não vejo as pessoas. As pessoas, todo mundo se formou, todo mundo foi cada um para o seu canto, ou foi para a sua cidade, sei lá.
Eron Falbo: [37:49] Aí você foi para o Rio depois?
Cláudio Tovar: [37:52] Aí eu vim para o Rio.
Eron Falbo: [37:55] Aí como é que você conheceu o grupo do Cicloquete?
Cláudio Tovar: [37:59] Eu já conhecia, eu já estava aqui há algum tempo, porque eu fiz muitas coisas, além de trabalhar em cinema. Por exemplo, eu trabalhei em escola de samba, com o Fernando Pinto. O Fernando Pinto era um grande carnavalesco da época do Império Serrano. Depois ele foi para uma escola independente e tal. E o Fernando foi uma porta para muitas pessoas. Ele conhecia todo mundo e me apresentou a muitas outras pessoas. O grupo do Cicloquete todo vem através do Fernando. Eu já conhecia quase todo mundo. Conheci o Lênin. O Lênin era o...
Eron Falbo: [38:47] Principal, o que guiava, sei lá, o dançarino.
Cláudio Tovar: [38:53] O Lênin era o coreógrafo e era o grande criador. O grande criador foi o Lênin, junto com o Wagner Ribeiro. Foram duas cabeças que a gente teve bem fortes. O Lênin, que era a parte do corpo, da teatralidade, e o Wagner, o mentor de tudo isso, um cara que escrevia textos.
Eron Falbo: [39:18] E o grupo era assim, eles que meio que guiavam ou era mais democrático, era uma coisa fluida, que evoluía?
Cláudio Tovar: [39:28] Era bem democrático, sim. Era uma coisa bastante democrática. É claro que, na parte de coreografia, o Lênin que mandava. O Lênin era, inclusive, um ditador. Mas só ele conseguia segurar aquele bando maluco, né? Aquele bando de gente doida, e ele...
Eron Falbo: [39:51] Era muito... E como é que ele fazia isso? Isso é uma curiosidade minha, porque eu faço por mim as próprias produções, eu já fui líder de banda, eu morei na Inglaterra há quatro anos, eu tinha uma banda de oito pessoas, e eu até me interesso em como que se mantém as pessoas na linha, o que o Lênin fazia para a coisa funcionar e tudo mais.
Cláudio Tovar: [40:12] Cara, ele era muito forte, o Lênin. O Lênin, fisicamente, era um touro. Ele era um touro. Tinha um corpo extraordinário. Só que eu não tinha medo dele... Eu ficava com medo mesmo, porque ele tinha uma liderança, uma coisa extraordinária. E depois, todo mundo queria ser igual a ele. Todo mundo queria dançar igual a ele. Ele era um ídolo da dança. Então, a gente... a gente obedecia, claro que sim. Não tinha... Agora, a gente era muito criativo, todo mundo era muito criativo. Não é que ele soltava todo mundo, agora ele segurava na coreografia, entendeu? A coreografia era extremamente rígida. A gente podia fazer a maior bagunça e, em determinado momento, a coreografia segurava tudo, porque era muito... muito segura. Ele soube muito bem fazer isso, sabe?
Eron Falbo: [41:18] Tinha momentos soltos, momentos de...
Cláudio Tovar: [41:22] No meio da música, de repente, pá, todo mundo fazia igual. Era muito bacana, porque era aquela confusão, de repente, pá, tudo se organizava e ia. E a gente tinha, como falei, era uma coisa muito livre para criar. A gente tinha uma coisa que era abertura, abertura de espetáculo. Todo mundo se preparava para fazer maquiagens incríveis e cada dia entrava com um figurino diferente. Então, isso era uma atração para o espectador, para o cara que estava assistindo. As pessoas iam várias vezes e acompanhavam tudo o que a gente fazia. Aí a gente dizia, ah, você não fez aquele negócio, você não fez aquilo, ou não, amanhã eu faço, ou não, e tal. Era tudo muito livre assim. Então, a gente tinha essa possibilidade de criação, mas segurava tudo na hora da coreografia.
Eron Falbo: [42:18] Muito boa dica para as pessoas que estão precisando fazer coisas que funcionam.
Cláudio Tovar: [42:25] Era realmente um líder, um cara muito.
Eron Falbo: [42:29] Forte. Isso é muito importante num grupo. Quanto maior o grupo, maior tem que ser o líder para poder fazer. E 13 pessoas não é fácil, Cláudio. Você falou que você fez sua peça Mulheres Velhas.
Cláudio Tovar: [42:57] Entrou Bruninho e entrou um monte de gente.
Eron Falbo: [43:00] Que você fez essa reflexão nesse momento agora da vida e todos os momentos que você viveu. Essa contabilidade da alma nessa coisa é muito bonita que você falou um pouco mais cedo. Aí eu queria saber o que você diria que, pelo que você vê, não só na pandemia, mas no geral, para a juventude brasileira, juventude artística, juventude cultural, baseada na sua reflexão, baseada em tudo que você viveu, quais são as principais mensagens que você gostaria, se você pudesse, transmitir para os jovens, para a nova geração de artistas e cultura brasileira?
Cláudio Tovar: [43:46] Eu acredito muito no trabalho, sabe? Tudo o que fiz, porque trabalhei muito para conseguir, não foi uma coisa que foi acontecendo. Se vale alguma coisa esse conselho, é fazer, fazer, fazer. Eu me lembro de uma frase do Hermann Hesse, que foi uma coisa que me guiou muito quando eu estava na faculdade, que dizia assim: para o homem consciente só há um caminho a seguir, conhecer a si mesmo, afirmar-se a si mesmo e seguir o seu caminho, não importa para onde ele vai levar, mas que siga o seu caminho. Vá no seu caminho, na sua intuição, fazendo as suas coisas, acreditando nelas, porque isso é você, é a sua essência. Porque eu obedeci à minha essência. Se vale alguma coisa isso, eu diria para o jovem: trabalhe, siga a sua vida, acredite em você e vá em frente. Trabalhando sempre, criando sempre, fazendo sempre.
Eron Falbo: [45:00] Tem uma situação...
Cláudio Tovar: [45:01] Trabalhar a gente não perde, fazer a gente não perde. Sempre, de uma hora, você vai aproveitar aquilo que você fez, aquilo que você descobriu, aquilo que você participou e tal.
Eron Falbo: [45:25] Tem uma frase do Eduardo que eu escutei recentemente que acho que tem muito a ver com o que você falou, que ele fala o seguinte: se você não produzir, não vai existir, aquela coisa não vai existir. Então você tem que produzir. Porque as pessoas pensam assim: vou ganhar alguma coisa, vou assistir um filme na Netflix. Mas alguém está produzindo isso, alguém está fazendo isso acontecer. Alguém está criando um prédio, alguém está criando uma empresa. Tipo assim, as pessoas hoje em dia têm, no geral, uma mentalidade muito de consumidora, muito de receptora. Mas tem outras pessoas nesse mundo que estão produzindo essas coisas.
Cláudio Tovar: [46:08] Aí você tem que acreditar. Muitas vezes a gente fala assim: meu Deus do céu, eu sou uma pessoa que também faz isso, será que isso está legal? Será que é isso? Será que não é? Essas dúvidas fazem parte da gente, mas vai em frente, vai em frente. Foi isso que a intuição falou: vai em frente, acredita nela. Mesmo que a dúvida venha, vai em frente. Porque você vai chegar num resultado.
Eron Falbo: [46:45] Você não precisa de certeza, né? Você não precisa de certeza pra coisa funcionar. Você precisa só... Você precisa fazer, né? Que é isso que você tava falando. Precisa fazer, que você sempre vai ficar orgulhoso do que você fez. Mesmo que não seja a melhor coisa do mundo, você vai ficar mais orgulhoso de ter feito do que de ter deixado de fazer, né?
Cláudio Tovar: [47:07] Claro que sim. E depois, o artista é isso mesmo, é um artista caótico. O artista vive nesse caos para chegar no cosmos. A vida da gente, essa coisa, essa bagunça, essa criação, não se adaptar a nada, querer fazer outra coisa, pegar esse mundo, transformar, mudar... Todo mundo pensa assim, todo artista tem isso na cabeça: modificar o mundo, modificar tudo, o planeta, se possível, para uma coisa ideal. Mas chegar no cosmos é difícil também. Essa eterna procura é o que faz o artista criar sempre, procurar, procurar, procurar, sempre criando, sempre em contato com o divino, jogando ali toda a sua experiência, sua vida, seus pensamentos, suas coisas. Acho muito bacana a vida do artista, acho muito interessante como ele cria. Às vezes é engraçado que você cria uma coisa e o outro também cria a mesma coisa na mesma época, como se você fosse uma antena, e duas, três pessoas em lugares diferentes fizeram a mesma coisa, uma coisa parecida. É muito louco, é muito incrível a vida do artista. Eu agradeço a Deus ter descoberto esse mundo e fazer parte dele, sabe?
Eron Falbo: [48:51] Cláudio, então a gente chegou no nosso horário aqui, mas eu queria te agradecer imensamente pela sua carinhosa participação, por ter sido tão generoso com as palavras e ter se aberto aqui para a gente conhecer um pouco da sua história do Zicroquete. E eu acho assim que as suas palavras para os jovens foram coisas que não só eu subscrevo, eu concordo com você, mas acho que realmente as pessoas estão precisando desse toque hoje em dia, de fazer mais e esperar menos. Fazer acontecer, gerar, iniciar.
Cláudio Tovar: [49:39] Fazer, criar, fazer coisas boas e pensar sempre no positivo, no bom. Eu acho que no bem, no bom, não sei o que é o bem ou o bom, mas o que é positivo. O absoluto positivo, eu acho. O absoluto Deus. Acaba chegando lá.
Eron Falbo: [50:06] É isso, tudo bem. Muito obrigado.
Cláudio Tovar: [50:08] Eu te agradeço também, esse papo gostoso. Espero que tenha sido bacana. Eu adorei. Adorei curtir com você.
Eron Falbo: [50:18] Foi maravilhoso.
Cláudio Tovar: [50:20] Que venham outros.
Eron Falbo: [50:21] Amém, tamo juntos. E é isso, muito obrigado. A gente fica em contato aí. Qualquer dia a gente se encontra com o Maurício, toma um vinho, não sei se você toma vinho, mas a gente se encontra e conversa mais. Adoraria ouvir mais, porque uma hora é muito pouco, né?
Cláudio Tovar: [50:41] É pouco. Tem muita história. Abração pra você.
Eron Falbo: [50:48] Valeu, tudo de bom. Tchau, tchau. Você também.
No Alvo com Eron Falbo · episódio #80 · todos os episódios