Publications

#73 Música é melhor que argumentos

com Gabriel Moura · 9 de mar de 2021

rss.comSpotifyApple PodcastsAmazon MusicDeezerYouTubeYouTube (só áudio)

Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Abertura com a música Felicidade (0:00)

Eron Falbo: [0:06] Alô, alô, pessoal! Sejam bem-vindos! Você entrou no Alvo, eu sou o Eron Falbo, e hoje estamos aqui com o Gabriel Moura, que é um cantor e compositor premiadíssimo, e hoje a gente vai conversar sobre o curso dele, sobre a carreira dele, e sobre outras coisas que vão surgir, com certeza. Felicidade é viver na sua companhia. Felicidade é estar contigo todo dia. Felicidade é sentir o cheiro dessa flor. Felicidade é...

Gabriel Moura: [0:55] Saber que eu tenho seu amor. Essa...

Eron Falbo: [1:03] É uma música que eu ouvi recentemente do Gabriel Moura. Agora eu vou convidar ele para entrar. Fala, Gabriel, deu certo?

Gabriel Moura: [1:12] Grande prazer. Eu não sabia que era a atualização.

Eron Falbo: [1:27] Eu sabia. Pra acompanhar essas regras aí que eles impõem na galera, ninguém consegue não, cara.

Gabriel Moura: [1:39] Que bom que deu certo.

Eron Falbo: [1:42] Graças a Deus, tamo junto. Perfeito, cara. Vamos lá. Essa música eu gostei pra caramba. Eu falei: pô, faz tempo que eu tô querendo botar uma musiquinha aqui no programa. Eu falei: pô, é hoje. Aprendi agora, dois minutos atrás, deve estar mais ou menos a melodia, mas é ótima, cara. Bem hitzão.

Impacto emocional das canções nas pessoas (2:09)

Gabriel Moura: [2:11] Tem certas músicas que a gente faz e que passam a ser das pessoas, dos momentos das pessoas. Essa música é muito interessante porque já teve gente que casou com essa música, festa de 15 anos.

Eron Falbo: [2:24] Maravilha.

Gabriel Moura: [2:25] Sabe? Essas coisas, todos esses momentos positivos, assim.

Eron Falbo: [2:28] Muito gratificante.

Gabriel Moura: [2:29] E é boa pra ser usada, isso é muito legal.

Eron Falbo: [2:32] Pô, como artista isso é maravilha, né? Sentimento de poder contribuir, né, para alegria, para momentos.

Gabriel Moura: [2:42] Acho que essa é realmente a função do artista: contribuir com os momentos que as pessoas vão viver. Seja na música, nas artes plásticas, sei lá... e qualquer situação que possa ser expressada do lado artístico, isso concorre às pessoas, isso traz momentos bacanas para ser guardado, não é isso?

Eron Falbo: [3:10] Com certeza, uma experiência, uma inspiração, essas coisas. Porque muita gente... Eu, antigamente, via a arte como uma coisa meio absoluta, uma grandeza infinita de expressar, não sei o quê, mas hoje eu realmente vejo que depende da experiência que a pessoa tem, porque você pode ter o Davi de Michelangelo sendo usado de uma maneira errada, sei lá, a Alemanha nazista usando nas estátuas que eles tinham. A Alemanha nazista usava muita arte, tinha muita estética, era muito poderoso esteticamente, mas aí as experiências não eram, de repente, com a intenção certa, esse tipo de coisa. E é isso que importa no final: o que aquela arte está gerando de experiência para o ser humano.

Gabriel Moura: [4:00] Com certeza, isso é muito legal. Uma vez um cara me parou na rua e falou: Gabriel Moura? Eu olhei para trás e não reconheci, não conhecia ele. E ele foi me falar que, por conta dessa música, queria me agradecer por ter composto Felicidade. Aí eu falei: poxa, tudo certo, legal. Aí ele falou: cara, eu sou dependente químico de cocaína, e durante toda a minha recuperação na clínica em que estive internado, todo dia de manhã eu ouvia essa música na hora que acordava. Então essa música foi uma força para mim, para a minha recuperação, e ver ele falar isso com o olho cheio d'água encheu meu olho de água também, porque é um negócio incrível: é a possibilidade de a música ter uma força dentro da força interior da pessoa, dentro da alma.

Eron Falbo: [4:51] É, nem posso imaginar. Maravilha! Isso aí, os artistas, sobretudo no Brasil, no mundo inteiro, especialmente os músicos, não estão com tanto status mais, não estão ganhando com tanta facilidade quanto ganhavam antes. Então esse tipo de coisa é essencial para a gente continuar, continuar compondo, continuar batalhando.

Crise financeira dos artistas no streaming (4:55)

Gabriel Moura: [5:17] Não estão ganhando no sentido financeiro e tudo.

Eron Falbo: [5:19] É isso que estou dizendo, estou falando no sentido econômico.

Gabriel Moura: [5:24] E até do próprio reconhecimento mesmo, porque o artista pode focar o seu trabalho para o seu nicho específico. Antigamente, os discos eram feitos para alcançar todo mundo. A gente pensava que os artistas eram os artistas de todos. Hoje em dia, os artistas são do seu público específico e conseguem enxergar isso, mapear isso e direcionar o seu trabalho diretamente para aquela parcela de gente que gosta daquele certo estilo de música que ele faz. Então, não precisa mais estar preocupado com...

Eron Falbo: [6:02] O grande sucesso. Mas tem menos reconhecimento, tá certo? Eu acredito que tem menos reconhecimento no sentido de que, antigamente, quando não existia o monopólio das gravadoras, se dava mais status ao músico, mais reconhecimento, colocavam ele no estúdio, davam tudo o que ele precisasse, orquestra, entendeu? Hoje em dia é muito difícil isso, porque o dinheiro está com o Spotify, com o iTunes, essas coisas, está com o distribuidor e não com o produtor, que é a Sony, a Warner. O dinheiro, o grosso mesmo, não está com a produção musical, sem contar os independentes, que também estão ralando para sobreviver.

Gabriel Moura: [6:43] Então acaba que cada um pode ter o seu home studio em casa: um laptop, um par de monitores, um pré para dar uma esquentada no som, um bom microfone, para gravar um disco. Eu estava ouvindo esses dias, até por conta da aula que vou dar sobre composição, o álbum Construção. E agora, com esse papo que a gente está falando aí, você está falando da produção musical, do arranjo de orquestra: imagina Deus Lhe Pague, em Construção, e Deus Lhe Pague sem aquele arranjo de orquestra fantástico que leva o negócio até para a Arábia Saudita.

Evolução da produção musical e home studios (6:46)

Eron Falbo: [7:29] A gente que é músico sabe que não é só uma questão dos músicos, da produção. Tem toda uma cena, né? Pra você poder chegar nessas coisas, você já tem que ter um produtor, que já conhece outros músicos, que te conecta com os instrumentos certos, com a sala que vai comportar, com a distribuição, com toda uma constelação de coisas ali que fazem um álbum como Construção funcionar. Você lembra quem produziu isso aí? Não lembro quem foi o produtor.

Gabriel Moura: [8:08] Esqueci também o nome do arranjador, que é foda. Aquele arranjo é meio esquisito, o negócio. Realmente, agora imagina se o Chico Buarque não tivesse condições de produzir aquele álbum dessa forma; se fosse uma coisa mais violão e voz, poderia ser... Continuaria sendo brilhante, porque o texto é brilhante, a composição é brilhante.

Eron Falbo: [8:32] Mas não ia ser épico. Não ia ser um épico.

Gabriel Moura: [8:35] Exatamente. Épico. É a palavra.

Eron Falbo: [8:38] E outra coisa, o épico é que hoje em dia as pessoas fazem as músicas no home studio e tudo mais, até põem lá um banco de dados MIDI, sei lá, umas formas de, como é que se chama, de simular orquestras, mas não tem aquele valor humano, porque lá cada elemento era um ser humano tocando. Não era um cara que nem toca trompete fazendo trompete no teclado; era um trompetista que toca trompete a vida inteira, né, entendeu?

Gabriel Moura: [9:16] Um trompete de um lado, o outro trompetista está soprando com outra força. Então, essa diferença de pegada de cada músico faz o negócio construir.

Eron Falbo: [9:29] É, isso a gente perdeu. Infelizmente, a gente perdeu isso nos anos 60 e 70; os anos 80 ainda tinha um pouquinho, e depois dos anos 90 foi acabando mesmo. Essa coisa do artista ter essas ferramentas, essa coisa gigante para trabalhar... Espero que a gente recupere isso se o Spotify começar a produzir música, que acho que em breve deve acontecer, porque é o que o Netflix fez, né? O Netflix começou a produzir filme, e eles têm um orçamento infinito, porque eles são o Netflix, eles são o top of the market, né? Estão ganhando tudo. Aí o Spotify hoje em dia tem negociações com as gravadoras que eles provavelmente não podem produzir música. Aí, quando quebrar isso aí, eles vão começar a produzir, e aí vai voltar o Chico Buarque, se Deus quiser.

Gabriel Moura: [10:16] Entendi, cara. É uma boa visão, uma boa análise, né? A plataforma digital vai se tornar também igual ao Netflix e outras, todas essas plataformas de cinema que produzem seus próprios filmes, HBO... E você vê que...

Eron Falbo: [10:32] A Netflix tem um orçamento, né? A Netflix tem um orçamento igual a Hollywood era antigamente.

Gabriel Moura: [10:37] Você vê sedes com produção de cinema grande.

Eron Falbo: [10:41] Isso é muito legal, muito legal.

Gabriel Moura: [10:44] Quem sabe? Pode ser uma saída para a gente voltar a ter músicas mais orquestradas, com produtores trabalhando mais assim, porque às vezes você pega um bom produtor, mas o cara tem que fazer dinheiro, então ele está fazendo quatro, cinco, seis, sete produções ao mesmo tempo e não consegue te dar a atenção necessária para olhar contigo o seu repertório, discutir música por música, ver a tonalidade de cada música, ver andamento, todas as coisas. Às vezes o cara pega, já joga no computador, já vai fazendo, e perde justamente esse lado.

Eron Falbo: [11:19] Exatamente. E realmente a gente sente isso na música atual, a gente sente que poucas pessoas têm esse acesso, talvez um Kanye West, Jay-Z, a galera que tem um orçamento mais alto, você vê que tem um elemento épico, uma coisa que eles colocam horas e horas de trabalho ali, seres humanos, mas é raro. Mas, cara, eu não sei se o nosso amigo Maurício Branco te falou um pouco de mim, mas eu sou um músico aposentado também, né? Quer dizer, você não aposenta disso, eu sou músico também, só que sou aposentado. Por enquanto, talvez um dia eu saia da aposentadoria. Mas eu gravei um disco com o Bob Johnston, que era um produtor também dos anos 60, dessa época épica da música, que gravou o Bob Dylan, Simon & Garfunkel, sabe? Gravou a galera aí. É, americano. E eu gravei o último disco da carreira dele. Eu perguntava pra ele como que ele fazia aquele som, assim, né? A gente trabalhou meses juntos, né, então teve mais uma das conversas que a gente teve, e ele falou: cara, na verdade eu não fazia nada. A única coisa é que eu sabia escolher os músicos que iam dar certo um com o outro. E eu colocava todo mundo na mesma sala, e a galera começava a fazer jam. Aí o Bob Dylan, sei lá, chegava com as cifras, jogava pra todo mundo, assim, aí a galera entrava dentro de uma música. Aí a gente ia escutando e lembrava: pô, isso funciona, faz mais disco. Era tipo uma jam session que virava um disco, entendeu? Era tipo um disco.

Bastidores com Bob Johnson e gravadoras (11:39)

Gabriel Moura: [13:02] Hoje em dia é como se não tivesse mais esse tempo, né, de você colocar as pessoas no estúdio: toca aí à vontade, fica tocando. É um estúdio, porra, a cada hora são 250 reais a hora.

Eron Falbo: [13:14] E a gente que tem que bancar. O artista que tem que bancar.

Gabriel Moura: [13:20] Tem que bancar isso, ou o empresário, ou, no caso, a gravadora que bancava.

Eron Falbo: [13:26] É, mas eu estou dizendo hoje em dia. Hoje em dia as gravadoras... Eu fui assinado pela Universal Music, eles me deram zero reais.

Gabriel Moura: [13:33] Orçamento zero. É, a gente só tem interesse nos artistas grandes, que dão retorno a nível de arte. Inclusive, artistas com mais de 25 anos não interessam, sabe? Só há interesse. É a verdade, já comecei... Isso não sou eu que estou falando de amor ou de nada. É porque os próprios donos de gravadora e diretores de editora, com quem eu tenho conversado bastante, eles mesmos falam isso abertamente, sem vergonha nenhuma. Só que artistas até 23, 24 anos... acima de 25, eles já não querem. É uma coisa assim, que é o mercado, o que se tornou o mercado da música hoje em dia. O que não quer dizer que a música esteja ruim. O mercado está ruim, mas a música... Porra, tem muita gente produzindo essa coisa.

Eron Falbo: [14:20] Está ótimo. O mercado está injusto, está desequilibrado, vamos dizer. O mercado precisa evoluir.

Gabriel Moura: [14:27] E hoje em dia tem muita gente, muito mais gente produzindo e se colocando no ar do que sempre foi, porque todo mundo tem essas condições de fazer. E, naturalmente, volta e meia pinta um grande talento.

Eron Falbo: [14:43] Total. Fala um pouquinho sobre o que você tem feito ultimamente em termos de música, projetos que você está lançando, coisas que você está trabalhando. Antes, vamos brindar um vinhozinho? Está com vinho aí?

Gabriel Moura: [14:58] Vamos, vamos.

Eron Falbo: [15:00] Vou me servir aqui. Estou com o negócio na mão, mas vou mostrar para todo mundo que é de verdade.

Gabriel Moura: [15:09] Saúde!

Eron Falbo: [15:11] Saúde! Ao futuro da música!

Gabriel Moura: [15:13] Ao futuro da música e às mulheres, que hoje é Dia Internacional da Mulher, a todas as mulheres, com todo carinho, com todo amor, do fundo do meu coração, tenho certeza que do seu também!

Eron Falbo: [15:25] Com certeza! A todas as mulheres e ao futuro da música! Inclusive, isso aí, antes da gente entrar no assunto da música, é um negócio que outro dia um amigo meu estava me falando que, na Rússia, eles comemoram o Dia do Homem. Ele mandou um cartaz escrito em russo: Feliz Dia do Homem.

Gabriel Moura: [15:54] Feliz Dia do Homem. Como se já não bastasse.

Debate sobre vitimismo gênero e opressão (15:57)

Eron Falbo: [15:59] Não, mas assim, existe uma coisa na nossa sociedade que é até um assunto que eu vi que você se interessa muito pelo Black Lives Matter, né? Vidas negras importam e tudo mais. Você é um ativista, né? Que, assim, é bom, a gente se envolver para representar coisas que a gente acredita muito. Eu acredito muito em ser esse tipo de pessoa. Então eu gosto, nesse programa, de dar espaço para conversar sobre esse tipo de coisa também. E ao mesmo tempo eu vejo, uma das coisas que eu percebo sobre a nossa sociedade, é que está um pouquinho viesado para, vamos dizer, essa parada de vítimas versus opressores. Por exemplo, na Rússia tem dia do homem e dia da mulher. Aqui no Ocidente não tem dia do homem, e isso seria uma loucura, porque afinal o homem que é o opressor e a mulher que é a vítima.

Gabriel Moura: [16:55] Exatamente, opressor e vítima. Porque o homem não precisa para que todos os dias sejam um dia bom. A mulher está precisando dessa afirmação, assim como os negros precisam também, e a sociedade vai buscando também isso, os LGBTQIA+, de todas as formas, para que possa haver um equilíbrio. Mas isso não resolve, mas traz algum conforto, acho.

Eron Falbo: [17:25] É, sim, esse ponto de vista de precisar pode até ser, mas eu não sei se a sociedade exatamente tem essa visão. Vamos dizer, acho que existe hoje em dia essa coisa de política do cancelamento, essa coisa de, vamos dizer, guerra de classes, de segmentações sociais, um contra o outro, e coisas do tipo. A luta de ser mulher não é para qualquer um, não, é verdade. Mas, assim, eu acho que é bonito. Pô, tem injustiças, tem que defender a justiça, mas eu não acho que tem que ter um opressor. Para ter uma proteção de injustiça, você não tem que ter uma acusação em outro lado. Até porque homens como um todo não estão oprimindo mulheres como um todo, né? Existem mulheres que estão sofrendo certas coisas, existem homens que estão sofrendo certas coisas. E muitas vezes as mulheres sofrem certas coisas não por causa dos homens, é por causa de coisas históricas que aconteceram, não por causa dos homens de hoje.

Gabriel Moura: [18:32] A gente vive numa sociedade naturalmente machista. Ontem mesmo eu estava vendo uma notícia sobre maridos que matam mulheres em defesa da honra. Em defesa da honra significa que se a mulher traiu, ele vai lá e pode matar a mulher porque ela feriu a sua honra. Isso é um comportamento jurídico, institucional, machista na nossa sociedade. Se a mulher for lá matar...

Eron Falbo: [19:02] Mas isso não existe. Na nossa sociedade não tem isso. Tem isso no país muçulmano. Na nossa sociedade você não pode matar. Na prática, você não pode.

Gabriel Moura: [19:12] Na prática, não. Mas existe esse recurso amplamente utilizado. Inclusive, ontem, acho que assisti, se não me engano, isso no Fantástico, continua sendo utilizado esse recurso de que o cara matou em defesa da honra. Isso é uma das coisas que a gente precisa extinguir da nossa sociedade. Nós, como homens, precisamos ajudar para que essas coisas não existam mais.

Eron Falbo: [19:40] Absolutamente. O que eu queria dizer com isso é que eu concordo 100% que isso aí deveria ser... Sim, existe na jurisprudência, mas muita coisa da jurisprudência é obsoleta, e o importante é que, na prática, a gente não vê casos, a não ser, obviamente, que tenha corrupção. Mas isso é uma questão realmente de corrupção, de pessoas que estão sendo compradas e coisas do tipo para livrar outras pessoas, mas na prática, em massa, a gente não vê isso na sociedade. Mesmo assim, isso não deveria estar escrito em lugar nenhum e não deveria estar sendo defendido em lugar nenhum. O que eu gosto de fazer é só colocar as coisas na transparência, porque às vezes isso é usado como plataforma política de certos grupos, a identidade de grupo. E às vezes é muito exagerado, às vezes transforma muita gente em vítima, e as pessoas erradas em vítima, no sentido seguinte: muitos jovens, homens, hoje estão crescendo com culpa, com uma falta de autoconfiança, por crescerem sendo, vamos dizer, acusados e colocados para baixo por certos grupos e coisas do tipo.

Gabriel Moura: [20:59] Não acho que é acusado e colocado para baixo. Os jovens estão até na frente da gente nesse pensamento, porque eles estão conversando entre eles mais abertamente sobre isso, inclusive sobre a bissexualidade, todas essas coisas. E os jovens estão crescendo com a cabeça, entendendo que certas coisas não são mais cabíveis na sociedade. Se nós quisermos ser pessoas melhores, a gente tem que enxergar o outro da mesma forma que a gente enxerga um familiar nosso.

Eron Falbo: [21:31] Poder ter um olhar... Uma pergunta para você que eu tenho sobre isso, para poder entender melhor o seu pensamento: primeiro, conversando entre eles. Porque a coisa que me incomoda não é só eles conversando entre eles e achando que a sociedade tem que ser de um jeito, é a imposição de que tem que ser de um jeito e não ouvir um outro lado, ou não ouvir uma outra forma de pensar, que não necessariamente é do jeito que certas pessoas pensam. Como você pensa que isso... Porque, na...

Gabriel Moura: [22:13] Verdade, sempre foi de um jeito. Esse jeito ao qual você está se referindo, na minha visão, é o jeito que sempre foi, sempre foi desse jeito. Hoje em dia, em 2021, depois de uma série de coisas que aconteceram, sobretudo nos últimos 20 anos, a sociedade passou a enxergar que certas coisas não são mais possíveis, não são mais legais. Não é mais legal ficar fazendo piada com o preto, com o gordo, mas...

Eron Falbo: [22:46] A sociedade começou a enxergar isso? Porque eu vejo assim: alguns universitários... e, de novo, eu não estou defendendo que deve fazer piada, só estou falando em termos de representação, qual que é o nível real da representação, entendeu? Porque às vezes a gente fala que a sociedade se iluminou e viu que certas coisas não devem ser feitas, por isso a gente deve legislar para não ter certos comportamentos. Acontece que a sociedade votou no Bolsonaro, entendeu? Então, tipo assim...

Polarização política e caso Bolsonaro (23:02)

Gabriel Moura: [23:16] A sociedade votou no Bolsonaro porque ele forjou uma facada. Não está provado que foi ou não foi, mas é praticamente certo que ele forjou essa facada, porque ele faltou a todos os debates, porque o Moro soltou uma fala do Palocci para prejudicar a oposição em cima do Lasso, por conta de redes sociais, por conta de Steve Bannon e todas aquelas coisas que a gente já sabe. Não é uma coisa que estou inventando, são coisas que a gente já sabe: o caminho foi o debate e todas essas coisas. Então, a sociedade votou no Bolsonaro porque foi feita... É claro, o PT e os partidos de esquerda tiveram muitos erros, é inegável que tiveram muitos erros. Agora, foi feita uma campanha pesada de difamação e de cancelamento, aí sim, cancelamento, dos partidos de esquerda, sobretudo do PT e do Lula. Hoje, por acaso, a gente teve a notícia de que o Lula foi absolvido, a princípio, dos processos que ele mandou. Inclusive o Sérgio Moro fez uma condução, um processo que é uma coisa absurda.

Eron Falbo: [24:30] Isso tudo que o senhor falou pode até ser verdade. Eu, sinceramente, não tenho a mínima ideia, porque, para mim, essas coisas são totalmente fora do meu alcance pessoal. Eu não estava nem morando no Brasil quando isso tudo estava acontecendo. E o que eu gosto de questionar, vamos dizer, é o tanto de representação que existe, de fato, na sociedade sobre certas pautas, certas bandeiras que são levantadas. E, primeiro, eu acho que todo mundo tem direito, não só direito como obrigação, de se defender, defender os grupos que ela sente que faz parte, seja negros, homossexuais, até brancos, eu não acho que os brancos deveriam fazer isso, mas qualquer tipo de grupo, as pessoas deveriam ter pelo menos a livre expressão, contanto que tenha, vamos dizer, sensibilidade com coisas históricas e coisas do tipo. Só que a gente tem que colocar as coisas na, vamos dizer, na medida certa. Muitas vezes eu posso dizer: eu sou judeu, por exemplo, eu sou judeu, e represento todos os judeus do planeta, e digo o que é certo e errado dizer sobre um judeu. Isso não é verdade, porque, primeiro, os judeus do planeta são totalmente diferentes uns dos outros. Eu não fui eleito...

Representatividade racial e identidade de grupo (25:00)

Gabriel Moura: [25:58] Assim como os negros. A gente tem uma mania de olhar a África como se fosse um país. A África é um continente, tem várias etnias ali conjugando, assim como tem várias etnias brancas também.

Eron Falbo: [26:14] Várias religiões, várias línguas.

Gabriel Moura: [26:17] Vários conceitos de vida. Desculpa, eu te interrompo.

Eron Falbo: [26:21] Não, estamos juntos. E um, muitas vezes, é totalmente antagônico ao outro. Tem países da África que pensam totalmente diferente de outros países. Tem um que é monarquia, tem um que é comunista. Então, é uma diversidade enorme de pensamentos. Então, o que acontece muitas vezes com identidade de grupo é que os políticos muitas vezes usam isso como plataforma para ganhar eleições, para movimentar as massas e coisas do tipo. E usam uma identidade de grupo que às vezes esse grupo nem é homogêneo. Você pode chamar de negros, "negros são todos uma coisa só", mas não existe isso. Pelo contrário, são os racistas que falam que eles são todos iguais. Os racistas que falam que os negros são todos iguais pensam assim, agem assim. Às vezes acontece o contrário: um cara que está achando que está defendendo os negros coloca os negros como todos iguais, fala que a gente pensa assim, a gente tem que defender esses...

Gabriel Moura: [27:30] Eu acho que os discursos variam, assim como as diferenças variam. Tem um discurso mais forte, mais duro, que é, inclusive, em geral, o discurso que vai na frente, que é o discurso da mulher negra. Porque a mulher negra, a nível de sociedade, é a mais subjugada pela sociedade, é a menos respeitada dentro da sociedade. Isso é um fato, não é uma coisa que estou falando por vitimismo, como costuma se dizer. As mulheres negras não têm direito nenhum. Quando ela chega em algum lugar, se ela estiver bem arrumada, é puta. Se não estiver bem arrumada, é empregada doméstica. É assim que é visto, é assim que é visto e é assim que é tratado. Mas, hoje em dia, elas estão dando a volta por cima, estão comandando o discurso sobre resistência, sobre capacidade de empreendedorismo...

Eron Falbo: [28:34] E ninguém melhor do que elas para defender o antivitimismo, defender o heroísmo. Se elas estão, como você falou, no final da pirâmide em termos de tratamento e falta de respeito e tudo mais, ninguém é melhor do que elas para serem as primeiras pessoas a defender a força pessoal, você dá a volta por cima, você tem um sentimento heróico: apesar de eu não ter tido facilidades na vida, estou eu aqui, poderosa, forte, garantindo, eu como indivíduo, independente da minha raça, independente de onde eu estou vindo, eu como indivíduo estou vencendo, estou vencendo apesar dos apesares. Acho que esse discurso é muito mais bonito e tem muito mais futuro do que o discurso de parar de maltratar qualquer coisa.

Gabriel Moura: [29:26] Acontece que, como estamos vivendo esse período de transição, um período em que essas pessoas começaram a atinar, começaram a ter voz a partir do momento em que a internet deu voz a todo mundo. Então, os negros começaram a ter voz também, mais do que sempre tiveram, mais chances em mercado publicitário, inclusive. Hoje a gente vê uma gama muito grande de comerciais com pessoas negras, mas eu cresci sem ver isso. Desde pequeno não via isso. Inclusive, já participei de um ano de trabalho em publicidade. Eu vi numa reunião uma propaganda em que os garotos estavam brincando dentro do quarto, e tinha um que ia brincar: ele apertava um botão e ia parar na quadra de futebol. Aí estava jogando bola e fazia um gol. Apertava um botão, estava na quadra de bola. Estavam acordados. Apertava outro botão, estava no quarto de novo com os amigos. Aí surgiu a possibilidade, isso aí no início da década de 90, de ter um garoto negro. A resposta foi a seguinte: dentro do quarto, não, só lá na quadra de futebol. Esse tipo de comportamento da sociedade como um todo era uma coisa natural, sempre foi dessa forma. Só que agora a gente está tendo voz, e as pessoas estão tendo voz. Lá de cima do morro, ela consegue pegar uma parada e fazer um trap e comunicar com a massa do Brasil inteiro e do mundo todo. É uma coisa que causa um desconforto na sociedade, porque essas pessoas, a princípio, eram para não ter voz, e hoje elas têm.

Eron Falbo: [31:22] Graças a Deus, isso a tecnologia proporcionou. Às vezes não dá para calar. Agora, não dá para calar certas pessoas, certas pessoas com muito talento.

Gabriel Moura: [31:30] Não tem como controlar isso mais. Eu sei que você tem uma outra visão a respeito do mundo do que a minha. Eu respeito a sua visão. Só que acho que não existe mais como controlar isso.

Eron Falbo: [31:46] Com certeza, eu sou totalmente contra. O que a gente está fazendo aqui, esse programa... a razão pela qual às vezes falo dessas coisas políticas é porque a razão de eu fazer esse programa é poder dar liberdade de expressão para todos, deixar as pessoas realmente falar, para realmente pegar a essência de todos. Por que estou te perguntando dessas coisas que sei que são importantes para você? Porque, assim, você é músico, um músico condecorado, uma pessoa que recebeu de tudo, e nem todo mundo te faz pergunta sobre o que você acredita, sobre as coisas que você talvez sofreu, as coisas que te incomodam, as coisas que você defende, entendeu? Então é isso que para mim me interessa mais do que coisas que talvez você já tenha falado em outra entrevista, porque é para isso que eu estou criando essa parada.

Gabriel Moura: [32:33] É muito positivo, muito legal, fico muito feliz de poder bater esse papo com você aqui e discorrer sobre esses assuntos, além das coisas naturais que a gente faz no trabalho, das coisas que eu estou fazendo, que eu fiz, da carreira, da história e tudo. Essas coisas todas as pessoas podem buscar no Google.

Eron Falbo: [32:53] Está na Wikipédia.

Gabriel Moura: [32:56] Onde foi, o que ganhou, o que perdeu.

Eron Falbo: [32:59] Exatamente, só que está repetindo.

Gabriel Moura: [33:01] Esse tipo de conversa é muito positivo. Acho que a sociedade precisa ter mais disso, no sentido de a gente poder ouvir e falar, conversar e tentar não convencer o outro, mas tentar expor sua visão.

Eron Falbo: [33:17] Com certeza. Eu vou te contar uma história que aconteceu comigo pessoalmente, porque muitas vezes... eu sou muito a favor de livre expressão, e às vezes eu sou meio que ativista contra vitimismo. Eu acredito muito em força, as pessoas têm que ir para o lado positivo, o lado de superação, crescimento, heroísmo. Isso é uma coisa pessoal minha. Mas muitas vezes eu sou acusado de negacionismo porque eu não gosto muito de focar no lado do sofrimento, do vitimismo e tudo mais. Só que eu, desde pequeno... eu morava nos Estados Unidos, eu morava em Atlanta. Na primeira escola que eu estudei lá, a escola era tipo 99% negros. E eu e o Matt, o outro carinha, eram mais ou menos brancos, porque o Matt era branco de verdade e eu não era considerado branco, porque eu sou latino. Então, nos Estados Unidos, o branco é bem mais branco que eu. Então, assim, eram dois não negros dentro da escola e, assim, tinha talvez um ou outro, mas não na minha série. Mas o resto, a escola inteira, eram negros. Então eu ia no ônibus escolar, e isso me fascinava. Eu cresci em Brasília, numa bolha, estudando na escola americana, super alienado, com pessoas privilegiadas, etc. Então, como eu estou fazendo uma conversa agora com você, sempre me interessou o ser humano, o indivíduo, saber a história dele, de onde ele vem. Isso eu tô falando que eu tinha 15 anos, né? Então eu sentava do lado... eu lembro de sentar do lado de uma menina que era, assim, duas séries abaixo de mim, ela devia ter uns 12, 13 anos, e perguntando como é que foi crescer dentro de uma comunidade negra, que no Brasil isso existe, mas é em bairros que eu não tinha acesso. Também nos Estados Unidos é muito segmentado, os negros ficam no lado branco, é bem o que os antropólogos chamam de mosaico e não é caldeirão, porque tem um caldeirão e um mosaico. O caldeirão, quando as culturas se misturam, é mais parecido com o Brasil, que tem mulatos, tem uma mistura, e os Estados Unidos é mais segmentado, é mais grupos. Exatamente, judeus, italianos, irlandeses. Exatamente. Aí eu fiz uma pergunta pra ela que me marcou pro resto da vida. A gente tava falando... eu faço perguntas e às vezes eu entro em assuntos polêmicos. Aí eu perguntei pra ela se ela tinha sofrido muito racismo, coisas do tipo. E ela foi me falando que sim, a gente crescendo. Aí eu perguntei pra ela sobre quando ela brincava de bonecas. Ela me falou que as bonecas dela, só tinha quando ela estava crescendo, vendia mais, todo mundo queria ter as bonecas brancas. E tinha... as bonecas negras existem desde os anos 60, mas elas não queriam ter, porque era... aí ela me falou: o sonho da minha vida, quando eu tinha 8 anos, era crescer e ser branca. E isso, pra mim, foi uma coisa muito marcante, muito chocante, porque eu achei muito feio que existisse isso no mundo, entendeu? Que uma mulher bela, que tenha a sua própria beleza, o seu próprio jeito de ser, deveria estar sonhando dentro das suas possibilidades, é que nem uma semente de macieira, uma árvore de maçã, que iria ser pereira, entendeu? Não é sobre superioridade ou inferioridade, ou racismo ou não racismo, é só que é uma coisa que não te leva a despertar todo o seu poder interno, você está vivendo uma leitura.

Memórias de infância e racismo (33:18)

Gabriel Moura: [37:06] Mas o que acontece é o seguinte: quero falar sobre vitimismo, que é uma palavra que você usa, e quero falar também sobre essa coisa do espelho. Na minha infância e adolescência... primeiro, na minha infância, tinha a Ana Passarinho, se não me engano, que era a menina que apresentava o Globinho Supercolorido. Depois do Globinho Supercolorido, veio a Era Xuxa. Na Era Xuxa, eram as Paquitas, dançarinas, na Rede Globo. Na Rede Manchete, era a Angélica e suas acompanhantes também, que eu não lembro o nome. No SBT, era... era outra, a Eliana, se não me engano, o mesmo tipo de meninas. O padrão de beleza estética era esse. As meninas negras não tinham como se ver bonitas porque não existia esse padrão de beleza na televisão brasileira. Elas só viam meninas brancas fazendo sucesso, elas só viam meninas loiras sendo rainhas da televisão e todas essas coisas, que são as coisas onde a pessoa se espelha. Por isso é tão importante, hoje em dia, que haja comerciais e haja atores e atrizes trabalhando amplamente na publicidade e na televisão. Mas, com essa dificuldade de se enxergar, logicamente rola esse sentimento. Até porque, quando uma menina dessa sai na rua, se ela entra no supermercado, a segurança vai atrás dela.

Eron Falbo: [38:50] Sim, é horrível.

Gabriel Moura: [38:51] Se entra num ônibus, como aconteceu inúmeras vezes na minha vida... se eu estou num ônibus e a polícia entra para dar uma dura, vai em cima só de mim. Por isso que, de um tempo para cá, a partir do momento em que ganhei a minha primeira grana, que foi quando fiz um samba-enredo para a Cacique de Pilares, recebi um prêmio que era direito de arena. Então, com o direito de arena, comprei um Chevette 77. Foi o meu primeiro carro. E, a partir desse momento, nunca mais andei de ônibus. No máximo, ônibus de viagem, para pegar um leito e ir dormindo, para não ter que ir de avião algumas vezes. Mas ônibus coletivo, urbano, nunca mais peguei e não quero mais pegar.

Eron Falbo: [39:34] Para não sentir essa indignidade, para não sentir essa... pelo menos no Rio de Janeiro.

Gabriel Moura: [39:38] Então, é muito difícil a pessoa, por mais força interior, por mais capacidade de...

Eron Falbo: [39:46] Dar a volta por cima, são muitas.

Gabriel Moura: [39:50] E muitas voltas por cima que você tem que dar todos os dias da sua vida. Então, quando você fala nisso... É um assunto que sempre vem muito à tona, o de a pessoa falar que é vítima. Tipo, a mulher tem que ser empreendedora, o negro tem que ser empreendedor. Sim, ele tem que ser, só que para ele conseguir o crédito é trinta vezes mais difícil. Para ele ter a confiança do padrão é trinta vezes mais difícil, ele está sempre sendo vigiado, o padrão está achando que ele vai roubar, sabe? Então, esse tipo de coisa são coisas que acontecem dia a dia na sociedade: levar porrada de polícia, levar porrada de segurança, ser seguido na rua, todas essas coisas. Você está andando na calçada e acham que você é bandido; você está atravessando a rua e o cara fecha o pino do carro pensando que você vai abrir a porta e fazer um assalto. Essas coisas são muito difíceis de vencer. Quando a pessoa fala de vitimismo, não é questão de usar de vitimismo, é questão de, do outro lado, enxergar que as dificuldades são muito grandes e que, mesmo com as dificuldades muito grandes, tem muita gente vencendo, tem muita gente que não vence, que é difícil, que já levou tanta porrada na vida que não consegue mais se levantar.

Eron Falbo: [41:23] Certeza, certeza.

Gabriel Moura: [41:24] Mas essa é a situação real. Quando a gente fala de vitimismo, de empreendedorismo, tem que ser empreendedor, não pode fazer papel de vítima. Claro, ninguém quer fazer papel de vítima, ninguém quer ficar pedindo nada, a gente só quer direito.

Eron Falbo: [41:39] De igual para igual, com certeza. Quando eu tô dizendo essa coisa de vitimismo, eu não tô dizendo, primeiro, que não pode existir, porque... Primeiro, quem sou eu? Segundo, óbvio que todo mundo tem que... Você falando esses relatos, esse tipo de coisa, é muito importante, porque às vezes as pessoas nem têm consciência do grau de dificuldade do dia a dia, do quanto que psicologicamente é maçante e mais difícil você sobressair com certas experiências do que outras. A razão que eu contei a história da menina que sentou do meu lado foi para dizer que isso eu levei para o resto da minha vida, como um entendimento do quanto eu estava alienado, primeiro, sobre essa realidade, que as pessoas, pelo menos naquela geração que eu estava vivendo, que era 99, 98 mais ou menos, quando eu tinha 15 anos. E realmente, igual você está falando, são coisas que uma pessoa que não viveu essa realidade jamais ia imaginar, entendeu? Porque a gente está acostumado a... Sei lá, ainda mais quando você é mais novo, você não tem empatia, né? Mais novo, você está pensando nas suas inseguranças, no que você está vivendo. Então, a informação sobre esse tipo de coisa, para mim, é absolutamente necessária. A questão do vitimismo não estava falando nesse ângulo, assim, de "pô, não entendi, não tenho empatia". Estava falando no sentido de: vamos fomentar jovens negros para se colocarem, para colocar as ideias deles, para participarem na televisão, ultrapassarem as barreiras, criar canais de televisão, que eles são... Ou YouTube, ou qualquer coisa. Isso sim, é mais por esse lado. E não focar tanto no lado de, cara, vítima realmente, porra, que nem o povo judeu também teve muitos problemas, ancestralmente falando. E eu digo a mesma coisa quando o povo de Deus começa a entrar muito na lombra, entendeu? Pô, mas a gente sofreu perseguição e tal, beleza, mas ao mesmo tempo a gente tem heróis, a gente tem pessoas com muito talento aí. Então vamos focar nisso e criar mais disso, vamos crescer mais nesse sentido, mas eu não discordei em nada com o que você tá falando.

Vidas Negras Importam e reflexão (44:01)

Gabriel Moura: [44:08] Fiz uma canção ano passado, que lancei mais ou menos na época das manifestações nos Estados Unidos, que se chama "Vidas Negras, Sim, Importam". Posso tocar aqui, se você me permitir? Por favor. Sou um descendente da mãe africana, na luta ainda contra a escravidão. No mundo, o preço. Mas todos nós somos descendentes desse chão que sente tanto. Seja preto, branco, índio, o que for, o sangue é mesmo a cor. O que não é o mesmo respeito sobra, que lá de espera. Everybody fight together. Sim, a vida toca no seu tambor. Vidas negras se importam. Cada uma delas conta. Lembram suas vozes, por favor. Minneapolis, Minnesota. O que aconteceu com o mundo, adorável pagamento. Volta pra pregar de novo amor e ficou mudo. Agora voltou.

Eron Falbo: [45:52] Voltou?

Gabriel Moura: [45:53] Beleza.

Eron Falbo: [45:54] Voltou, voltou.

Gabriel Moura: [45:54] Ficou mudo no finalzinho.

Eron Falbo: [45:56] É, ótimo, ótimo. A música fala mais alto do que os argumentos.

Gabriel Moura: [46:02] Inclusive, na música eu procurei também colocar ali que todos nós, independente de qualquer coisa, somos irmãos, todos viemos do território africano; segundo a ciência, a humanidade nasceu lá. Então, é importante que todos nós nos vejamos como irmãos, independente das palavras de Jesus. Jesus falou isso.

Eron Falbo: [46:31] A ciência comprova.

Gabriel Moura: [46:34] É, a ciência comprova. Nós somos irmãos, devemos nos enxergar assim, mas, como irmãos, a sociedade precisa evoluir. Acho que é esse processo de evolução que causa um desconforto na sociedade, porque os discursos acabam sendo polarizados e enviesados muitas vezes. Porque é natural, porque é uma coisa que está sendo descoberta, que está em erupção, tipo um vulcão, que descobriu um magma subterrâneo que está explodindo e vindo à tona. E é uma coisa que nós temos como controlar. A gente tem como conversar e conscientizar cada vez mais as pessoas de que ninguém é dono da verdade, a verdade é ampla e a gente vai descobri-la, à medida que a gente vai vivendo e vai passando.

Eron Falbo: [47:29] É isso, total, que eu penso. Eu te digo, meu amigo Gabriel, que quando a gente conversa assim, de pessoa para pessoa, alma para alma, sem propaganda, sem palanque, sem imposição, a gente é muito fácil de concordar, entendeu? Porque, cara, quem não concorda com o fato de que todo mundo vem não só da África, mas vem de estrela, né? A gente é feito de estrela. Cada alma, cada corpo é feito de estrela. Exatamente, pode ser, como dizia Carl Sagan. Então, o meu problema, de fato, são as plataformas políticas, o neomarxismo social, de tentar usar a suposta igualdade das pessoas para dividir as pessoas. Bom, não vou entrar nos detalhes, por isso não importa. Mas político de qualquer lado, também da direita, faz a mesma coisa, que é pegar as coisas, sequestrar as ideias, sequestrar pessoas talvez ingênuas, que acreditam em meias-verdades, e pegarem o coração delas e usarem como massa de manobra. E isso eu luto contra, apesar de lutar a favor de justiça, das pessoas se empoderarem, das pessoas serem vistas com dignidade, com respeito, universalmente, independente das diferenças, porque eu acredito fortemente em diferença das pessoas, que acho bonito, porque a gente é uma paleta de cores, de culturas, de crenças, que é maravilhoso, e eu defendo isso, e acho que o mundo deveria ser feito disso. Mas, em termos de dignidade e respeito, todos devem ser tratados com igual potência, nesse sentido.

Gabriel Moura: [49:21] É isso aí, total, total. Vamos voltar um pouquinho a falar de música também, que acho que a gente já disse um bocado sobre esse assunto.

Curso de composição e hit perfeito (49:29)

Eron Falbo: [49:31] Com certeza, com certeza. Posso te fazer uma pergunta? A gente só tem mais 5, 10 minutos aqui, mas, como eu sequestrei um pouquinho a nossa conversa com assuntos políticos, vamos estender um pouquinho mais. Mas uma coisa que eu queria saber muito é sobre o seu curso, porque eu passei, sei lá, agora mais de 10 anos, pelo menos, tentando decifrar o hit, decifrar como compor uma música. Eu queria que você falasse um pouco da sua ideia do curso. E como é que você acha: existe um hit inerente, uma coisa subjetiva, ou você consegue aprender a arte de compor um hit?

Gabriel Moura: [50:15] Eu acho que existem técnicas possíveis que fazem com que o resultado seja próximo de algo que soe palatável ao mercado, ou palatável para ser consumido mais rapidamente. Então, você pode construir uma música que obedeça certos critérios, que podem fazer com que ela tenha mais força. Existem muitos critérios nesse sentido, o que não garante que a música vai efetivamente ser um sucesso. O que garante que a música vai ser um sucesso passa um pouco além da caneta, porque você escreve uma canção, pode ser uma canção foda, porque você toca na voz do violão, as pessoas se emocionam, empalam, não sei o quê. Só que, na hora que você for gravar, que alguém for gravar, vai ter que gravar no tom certo, vai ter que gravar com o arranjo adequado, vai ter que ter uma publicação de forma que ela tenha exposição suficiente e, no final das contas, se o público vai gostar. Mas acho que a ideia maior do curso é falar sobre essas possibilidades de técnicas que a gente pode usar para não depender tanto da inspiração, porque a inspiração é ótima. Quando ela vem, é lindo. É lindo e faz a gente até ter palpitação. Fica louco. Tem vezes que eu chorei com a música porque senti que estava vindo a partir de uma inspiração e de uma vez, sabe? Então, eu acho que a inspiração é linda, mas a gente não pode depender dela, porque o mercado é ágil, o tempo urge e você precisa apresentar.

Eron Falbo: [52:08] Tem uma citação, só rapidinho, um parênteses: citação do Hemingway, se não me engano, ou do Mark Twain, um dos dois, que diz o seguinte: 'Eu só escrevo quando estou extremamente inspirado, e eu trato de estar inspirado todo dia às 9 horas da manhã.'

Gabriel Moura: [52:26] Mas é isso, isso também é uma das coisas do curso. Não adianta você ficar só esperando pela inspiração, você tem que se munir de informações, você tem que, sei lá, se você gosta de certo artista, certo compositor, vai ler a letra da música, vai procurar entender o que está por trás disso, porque, às vezes, a gente ouve algumas coisas, não entende exatamente o que está rolando ali. Foi um pouco, como ele está falando aqui, de construção. A ideia é que o cara talvez tenha se matado ou talvez tenha escorregado de cima do prédio e caído, e tenha morrido na contramão, trabalhando tanto. Mas conta a história toda dele, da situação dele, da família, de como ele se despede da mulher, da situação dele, de como ele está indo para o trabalho. Ele chega lá em cima, na hora do ramo, escorrega ou se joga, a música me deixa claro, mas é um contexto incrível. E, além do mais, ainda tem o lance dele usar proparoxítonas de três sílabas para o final de todas as frases. É um negócio foda, porque, além do contexto da história, que muda aquela vez, como se fosse a última...

Eron Falbo: [53:39] É literário, não é?

Gabriel Moura: [53:45] Único. Todas essas palavras são palavras que têm o mesmo formato de três sílabas. E o cara consegue colocar isso na música toda, criando essa história incrível do trabalhador que cai do alto do prédio e morre atrapalhando o tráfego. E depois ele começa a mudar todas as palavras do lugar e consegue.

Eron Falbo: [54:10] Eu adoro isso. Adoro essa galera que consegue usar a música e também usar métrica poética, entrar dentro da língua. Isso é raro.

Gabriel Moura: [54:20] Eu vivencio muito isso, estudo bastante isso e tenho bastante coisa para passar nesse curso. Acho que vai ser legal, inclusive para mim, porque andei revisitando um monte de coisa para falar nesse curso. Quero só dar um recadinho aqui: o curso chama-se À Procura do Ritmo Perfeito, na Real Music Academy. Quem quiser se inscrever, Real Music Academy, procura lá, À Procura do Ritmo Perfeito. O curso é de 15 a 19, agora de março, na semana que vem.

Eron Falbo: [54:53] Eu queria dar um recado para as pessoas, porque eu já procurei muito desses cursos, e queria dizer que, quando a gente é músico iniciante, sei lá, eu também já dei... Bom, um outro dia eu falo sobre isso, mas eu já dei curso de music business, né, sobre a indústria musical e tudo mais. Mas o que eu queria dizer para os jovens músicos, para os que estão ouvindo a gente aí, procurando cursos, querendo crescer com isso e tudo mais, é importante você encontrar um professor, um instrutor disso que tenha bagagem, que tenha hits, sucessos aí lançados, como é o caso aqui nesse curso, e também pessoa que tem experiência de tocar, porque faz muita diferença. Às vezes a gente vê cursos que são ministrados por músicos que são mais músicos acadêmicos, músicos que estão ali, que, tudo bem, tem seu valor, mas, em termos de sucesso, em termos de carreira, aí você quer gente que já trilhou alguma coisa ele mesmo, que chegou em algum lugar. E esse é o seu caso, você já ganhou Grammy, se não me engano, você já teve hits aí, que nem o Maurício Branco estava falando, que tocam no Pão de Açúcar, o Caso da Felicidade. E isso é extremamente importante, não importa qual faculdade a pessoa estudou. Isso é extremamente importante.

Gabriel Moura: [56:24] A experiência pessoal, a experiência de vivência. Isso é importantíssimo. Posso tocar uma última música?

Última música e despedida (56:31)

Eron Falbo: [56:33] Por favor.

Gabriel Moura: [56:34] É uma música que eu compus recentemente, foi lançada em dezembro e foi gravada pelo Nando Reis e pela Ana Villela. É uma canção em homenagem aos profissionais da saúde.

Eron Falbo: [56:47] Antes de você começar aí, só para a gente dar os adeus, para a gente terminar com o final da música, a gente fica com o final perfeito. Então, eu só queria te agradecer imensamente por ter aceitado o convite, por ter sido tão aberto e generoso com o coração. Eu sei que eu faço perguntas, às vezes, que podem incomodar ou ser irritantes para certas pessoas, mas você foi sempre cordial, cavalheiro, e respondeu tudo com o coração, e isso eu admiro muito. Muito obrigado por aceitar isso, e te convido pra gente tomar uma cerveja qualquer dia, se conhecer melhor e formar esse elo. Você mora no Rio? Eu moro no Rio. E você?

Gabriel Moura: [57:25] Eu tô morando em São Paulo. Vim pra São Paulo no início do ano passado, pronto pra trabalhar, mas ninguém me pegou, me deixou de casa todo esse tempo. Mas tudo bem, a gente tá trabalhando em casa.

Eron Falbo: [57:35] Me avisa quando você voltar. Muito obrigado, Gabriel.

Gabriel Moura: [57:40] Tá bom. Eu que agradeço pela oportunidade de a gente bater esse papo e se conhecer. E desejo a você tudo de bom, muita saúde, muitas boas ideias para novos papos e novas realizações na vida.

Eron Falbo: [57:54] Valeu, valeu, tudo de bom.

Gabriel Moura: [57:55] E homenagem aos profissionais de saúde. Quem cuida com carinho de outra pessoa, se importa com alguém que nem conheceria. Você que vai à luta e serve sempre em frente, enfrenta os desafios que o destino traz. A vida é preciosa, todo mundo sente, a fé e a compaixão a gente sempre tem. Máximo respeito a você que faz laços de ternura e aliança, onde se faz a diferença, o impossível pode acontecer. Só o amor é capaz de dar a vida e encontrar uma saída pra esperança. Vem de novo, um novo amanhecer...

Eron Falbo: [59:18] Na, na, na, na, na, na, na...

Gabriel Moura: [59:20] Na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, na, valeu.

Eron Falbo: [1:00:00] Valeu. Grande abraço. Abraço a todos. Prazer. Valeu. Beijão. Tudo de bom.

No Alvo com Eron Falbo · episódio #73 · todos os episódios