Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.
Abraham Alcaim: [0:00] No Alvo com Eron Falbo.
Eron Falbo: [0:09] Aí, pessoal, sejam bem-vindos. Centro no Alvo, eu sou Eron Falbo. Estamos aqui hoje com Abraham Alcaim. Abraham é um artista plástico, PhD em engenharia pela Universidade de Londres e professor emérito da PUC-Rio. Será que ele já entrou? Sejam bem-vindos. Vamos entrando, vamos parando de fazer outras coisas menos importantes. Vamos concentrando nesta palestra muito importante. Abraham Alcaim já está aqui com a gente.
Abraham Alcaim: [0:49] Eu quero te agradecer pelo convite e te dizer que eu vivo em um lugar muito diferente do Brasil.
Eron Falbo: [1:00] O que é isso, Abraham? A honra é totalmente minha. Eu queria te agradecer por ter aceitado o convite, por ter tomado tempo para conversar com a gente, falar um pouquinho da sua experiência, falar um pouquinho das suas ideias, dos seus pensamentos. Vai ser, certamente, uma conversa única. Olha... Oi?
Abraham Alcaim: [1:23] Desculpa, eu te pergunto... Tem muito que responder também. Muito apoiado, muito apoiador, mais barato. Maurício Brito, ex-presidente, sugeriu para mim um light, um highlight lúdico, e eu ainda não escolhi. Então, quero pedir desculpas, e não um espetaculoso.
Eron Falbo: [1:53] Você está bebendo vinho aí?
Abraham Alcaim: [1:58] Tô, querido.
Eron Falbo: [2:03] Tô, querido.
Abraham Alcaim: [2:03] Tô, querido.
Eron Falbo: [2:04] Tô, querido.
Abraham Alcaim: [2:04] Tô, querido.
Eron Falbo: [2:13] Tô, querido.
Abraham Alcaim: [2:14] Tô, querido.
Eron Falbo: [2:15] Tô, querido. Você se enxerga principalmente como artista plástico ou como engenheiro? Eu sei que você mexe com tecnologia também, com tecnologia de codificação de voz.
Abraham Alcaim: [2:38] Sim, sim. O que acontece hoje? A pergunta é sobre hoje?
Eron Falbo: [2:46] Hoje, nos últimos tempos, no geral, a maioria.
Abraham Alcaim: [2:51] Certamente é sobre isso.
Eron Falbo: [2:54] Certamente, artista plástico, não?
Abraham Alcaim: [2:56] Sim, sim.
Eron Falbo: [2:58] E a outra parte de engenharia, de outras coisas mais técnicas e, vamos dizer, exatas. O que é fascinante em você é que não só você é artista plástico, você mexe com expressionismo abstrato, que é talvez a forma mais inexata que existe de arte, a forma mais inconsciente.
Abraham Alcaim: [3:25] Caótica. Desculpa.
Eron Falbo: [3:33] Não entendi o que você falou, não estou conseguindo escutar bem.
Abraham Alcaim: [3:35] Expressionismo abstrato é uma coisa que é caótica.
Eron Falbo: [3:41] Exatamente, o contrário de engenharia, o contrário de tecnologia.
Abraham Alcaim: [3:45] Exatamente.
Eron Falbo: [3:48] E você acha que faz esses dois extremos para poder se equilibrar psicologicamente?
Abraham Alcaim: [3:54] Não. Posso contar uma historinha? Por favor. Então, vamos lá. Eu sou paraense. Vim para cá com os dois irmãos e, em seguida, entrei para a PUC, direto, como aluno de graduação. Fiz a graduação lá e, quando acabou, fui direto.
Eron Falbo: [4:28] Fui direto.
Abraham Alcaim: [4:28] Fui direto e não tinha ninguém para estudar, ninguém para estudar. Não é só eu, não vou te dizer assim. Talvez eu tenha introduzido para você. Se você estiver curioso, eu te explico. É uma coisa muito bacana para a minha vida. A gente escreveu dois livros, dois livros bacanas. Fui cientista visitante no Brasil. Desculpe, Abraham.
Eron Falbo: [5:18] Acho que é bom a gente tentar, de repente, reiniciar aqui, porque realmente o seu som para mim está abafando. Estou tendo dificuldade de...
Abraham Alcaim: [5:27] Eu começo aonde? Eu já estava na PUC, fiz o doutorado em Londres, introduzi o procedimento de voz no Brasil, mais ou menos. Sou o homem da voz, eu e o Chacrinha. Então... Após isso, o que eu fiz? Escrevi dois livros em processamento de voz, que são importantes. Em qualquer livraria, se abrir qualquer coisa na internet, estão lá, com vários preços etc. Um deles é Fundamentos de Processamento de Sinais de Voz e Imagem, e o outro chama-se Princípios de Comunicações. Isso tem a ver com tecnologia, não é?
Eron Falbo: [6:08] Não tem a ver com o ser humano processando? Porque isso entra na linguística, entra em coisas assim, não?
Abraham Alcaim: [6:14] Pode entrar se você fizer síntese de voz. Porque o processamento de voz é dividido em várias categorias. Eu já fiz síntese de voz uma vez. Inclusive, tem um artigo meu que é usado do Oiapoque ao Chuí aqui. É um artigo de voz que fiz aqui. Tinha feito nos Estados Unidos, tinha feito lá em França. E eles quiseram fazer no Brasil? Só que, para fazer um negócio desses, você tem que ter o sotaque do local, senão não adianta. Tem que bater o sotaque do local com a coisa.
Eron Falbo: [6:50] Mas explica o que é. Você falou síntese de voz?
Abraham Alcaim: [6:55] Aquilo que você perguntou antes...
Eron Falbo: [6:57] O que é síntese de voz? O que é para o leigo?
Abraham Alcaim: [7:01] A síntese de voz existe, você perguntou isso. Eu trabalhei um pouquinho só nisso. Você falar e o negócio pegar algo escrito e transformar em voz.
Eron Falbo: [7:20] É tipo transcrever?
Abraham Alcaim: [7:21] Por exemplo, um cérebro...
Eron Falbo: [7:22] O contrário, o contrário de transcrever. É uma leitura de um android, de um robô, de uma bola de robótica?
Abraham Alcaim: [7:32] Pode ser. Agora, por exemplo, vou te dar um exemplo bem claro. Um cego recebe um e-mail. Ele não vê o e-mail, está em texto. A síntese de voz é pegar aquele texto e transformar em voz, aí ele ouve.
Eron Falbo: [7:47] Entendi. Então, para poder fazer isso, você está falando que, em determinadas regiões, a pessoa, para poder entender melhor, pelo menos aquela leitura, precisa programar o robô para fazer uma pronúncia... Não, aquela outra história que falei é outra.
Abraham Alcaim: [8:08] É uma história que... não vou nem entrar muito, porque é demais. Por exemplo, os fonemas: como é que ocorrem naquela linguagem? Os fonemas, que na realidade são fones, ocorrem diferentemente em cada linguagem. Então, fiz para a cidade do Rio de Janeiro. Apesar de ser paraense, fiz para a cidade do Rio de Janeiro. Então, só pessoas com sotaque do Rio foram usadas nesses experimentos. E aí saiu um artigo que é usado fora do Brasil, dentro do Brasil, uma loucura. O artigo, acho que é o que tenho mais curtido da minha vida. E ele é muito usado. Só que ele é usado, às vezes, erradamente, porque fiz com sotaques do Rio de Janeiro, da cidade, não é lá de Paraty ou não sei o quê, é da cidade. E o pessoal em Manaus, Belém, Nordeste, Rio Grande do Sul, todo mundo usa, mas não dá para usar. Me desculpem essa...
Eron Falbo: [9:20] O que é, exatamente, o que estão usando? Para mim não ficou claro isso.
Abraham Alcaim: [9:26] Esse artigo, por exemplo?
Eron Falbo: [9:28] Não, não o artigo, mas o conceito. Qual é a aplicação prática disso dentro dessa tecnologia?
Abraham Alcaim: [9:34] De processamento de voz? Tem várias, é isso que estou te dizendo. Uma delas se chama codificação de voz. Codificação de voz é o seguinte: para ouvir aqui o que nós estamos falando, a voz tem que ser transmitida, isso não é a minha área, a minha área é local, é o processamento no local. Então, ela tem que ser transmitida em uns e zeros, só que ela não é uns e zeros, é números que variam, é uma onda, a voz. Então, transforma-se aquilo em uns e zeros para entregar para quem transmite. Quem transmite manda de volta para cá, onde você está, e você recebe uns e zeros, e o seu celular transforma isso de novo na sua voz, naquelas ondas.
Eron Falbo: [10:29] Interessante. Isso, na verdade, eu nunca tinha pensado. Eu sempre pensei: como é possível um vídeo... Agora você está explicando como é possível, através do Wi-Fi, através do éter, uma informação como um vídeo ser transmitida. E acho que você meio que descreveu, e acho que deve ser o mesmo processo, de codificar uma imagem, codificar várias imagens...
Abraham Alcaim: [10:54] Não, isso vale...
Eron Falbo: [10:56] Exatamente, isso vale muito.
Abraham Alcaim: [11:00] Exatamente o que você falou.
Eron Falbo: [11:02] É, uau! Essa é a primeira vez que alguém me explicou isso, que eu fico satisfeito.
Abraham Alcaim: [11:07] Eu tenho um amigo no México, Eduardo, e sempre troco figurinhas com ele. Ele me ensina alguma coisa de medicina, eu ensino alguma coisa dessas histórias para ele, e ele fica alucinado: 'Mas como, Abraão, 1 e 0? Como é que vai fazer 1 e 0? 0, 0, 0, 1, 0, 1, 0?' Tem que ser uma loucura, não é? Mas é assim mesmo. E o que acontece: se você transformar nos zeros e fizer isso erradamente, na hora de chegar aí, nessa voz que a gente está tendo aqui, vai chegar péssimo.
Eron Falbo: [11:42] Então, isso que aconteceu agora, no começo... gente, só para avisar vocês, a gente fez esse erro técnico no começo, de som e tudo mais, para poder ilustrar o ponto que a gente ia falar agora. Não é, Abraham?
Abraham Alcaim: [11:55] Gostei, gostei da jogada.
Eron Falbo: [12:02] Mas o que aconteceu foi provavelmente por causa de um erro na transmissão desses 1s e 0s, que em algum momento teve algum ruído, alguma falha de velocidade, talvez. Porque, quando tem eco, por exemplo, provavelmente os 1s e 0s foram mandados repetidamente e aconteceu o eco, porque você não tem razão nenhuma para ter eco aí, de onde você está.
Abraham Alcaim: [12:36] Não, não tem razão, não tem nada. Aqui no salão não tem nada. E, só para te dizer uma coisa... Ai, meu Deus, o que eu ia te falar agora? Quando eu fiz doutorado, eu fiz esses transformadores de voz em uns exercícios usando inteligência. Usar inteligência é usar o teu aparelho vocal: lábios, dentes, língua, cordas vocais, traqueia, etc. Usa isso e imita isso tecnicamente. Ao imitar tecnicamente, você consegue fazer isso, sei lá, com o celular, que o número de uns e zeros seja muito pequeno. Então, para ser muito pequeno, tem que ser mais inteligente. Para ser mais inteligente, tem que fazer isso, que é o que é feito hoje, que já se fazia há 500 anos atrás também, de forma não tão bonita, talvez, como hoje, mas fazia. Então, essa é uma história da coisa. Por exemplo, se pegar um telefone fixo, faz também uns exemplos, mas de uma maneira altamente burra. Não faz nada.
Eron Falbo: [13:56] Mas por que o telefone fixo faz uns e zeros? Por que ele não é digital?
Abraham Alcaim: [14:01] Porque digital é... Porque transmite também em formas digitais, né?
Eron Falbo: [14:08] Também em formas digitais, mas o telefone fixo original não era binário, né?
Abraham Alcaim: [14:15] O original, eu não sei te dizer, nem senti antes de ler.
Eron Falbo: [14:19] Era através de cabos, né? Via direta.
Abraham Alcaim: [14:24] Aquela onda, que é a onda da voz.
Eron Falbo: [14:26] Eu não sou uma pessoa para garantir nada sobre esse tipo de coisa, mas, sei lá, na minha concepção, o código binário... até o pessoal da produção pode me dizer... o código binário deve ter se inventado quando? Logo depois do código Morse, não?
Abraham Alcaim: [14:45] Não, não, não. Essa coisa do binário, digital hoje, tudo é digital hoje.
Eron Falbo: [14:54] Sim.
Abraham Alcaim: [14:55] Digital, brother, digital qualquer coisa. Digital significa um e zero.
Eron Falbo: [15:03] Eu sei disso, mas existia o conceito antes do digital. Eu acho que... Bom, eu estou chutando isso porque lembrava...
Abraham Alcaim: [15:15] Talvez não exista. É bem moderno, digamos, interessante.
Eron Falbo: [15:24] Que o I Ching, o I Ching chinês, que é uma espécie de protolíngua que hoje é usado como oráculo, só que isso antigamente era uma coisa. Antes da língua chinesa existir, já existia o I Ching, e o I Ching é binário, tem linhas cheias e linhas pontilhadas, é basicamente um e zero. Aí você constrói em cima de blocos de três, mas, basicamente, com um elemento básico, que é 1 e 0. Então, o que eu quero dizer, talvez, é que antes da... Aqui está dizendo que o código binário foi criado no século XVII, na Alemanha. Bom, mas isso aí é o código binário. Estou falando... o mundo digital não é o código binário.
Abraham Alcaim: [16:16] O mundo digital é esse, um mundo que hoje é isso. Ninguém pode surgir mais.
Eron Falbo: [16:28] Vamos voltar para a ideia de que é uma área que a gente pode explorar, que é muito bela, essa ideia do seu próprio psicológico e como você se vê em termos de artista, expressionista abstrato, que é um lado totalmente, como você mesmo colocou, caótico e espontâneo, inconsciente, e o outro lado que é engenheiro, tecnólogo, matemático, que é totalmente consciente, totalmente exato e totalmente ordenado. Como você concilia esses dois mundos psicologicamente e o que, dentro da sua personalidade, levou você a explorar essa amplitude?
Abraham Alcaim: [17:14] Vou te dizer, só vou completar um segundo o negócio da engenharia: eu cheguei, no final, a ser professor titular e professor emérito, porque, você já tinha falado bem disso também, você errou, agora sou artista. Essa é a minha impressão, não é, Eron? É que fico emocionado, fico alegre. Hoje a Milena me ligou e perguntou o que eu gosto. Eu gosto de alegria, não gosto de gente enjoada, não gosto de gente mexendo no saco. A nossa vida é curta, seja lá quanto for, seja 120 anos, é curta. Então, vamos viver com alegria. É isso que falei para ela. Então a arte é isso para mim.
Eron Falbo: [18:04] Agora você falou 120 anos, e é uma tradição na comunidade judaica falar 120 anos, até os 120. Eu queria saber qual a sua origem, a origem de seus pais.
Abraham Alcaim: [18:16] Eu sou judeu. Como você, né? Só que você... Não, eu sou sefardi também. Ah, também? Olha, mas não tem cara, não. Porque o sefardi é mais assim, galera, tem cara mais...
Eron Falbo: [18:35] Eu sou sefardi da Holanda. Os meus bisavós vieram da Holanda para cá. Então, a maioria dos sefarditas é do Líbano, da Síria, da Argélia, de Marrocos.
Abraham Alcaim: [18:48] Exatamente, dessas áreas.
Eron Falbo: [18:50] Os seus pais são de onde? Só para a gente entrar nessa...
Abraham Alcaim: [18:54] Os pais estão no Brasil, mas o resto todinho... Uma vez até saiu na Veja uma reportagem sobre isso: o resto todinho é de Marrocos.
Eron Falbo: [19:03] Então é a mesma origem nossa, porque os holandeses vieram de Portugal, e os marroquinos, grande parte, também vieram de Portugal. Vieram fugidos depois do Decreto de Alhambra, para o Marrocos, para a Itália e para a Holanda. Então, provavelmente, a gente é do mesmo grupinho.
Abraham Alcaim: [19:30] Do mesmo grupinho, né? Operativismo nosso. Mas é verdade, eu vim daí. E os meus avós todos... engraçado que eles falavam espanhol, né? Não era porque... era a história do árabe-espanhol ou árabe-francês.
Eron Falbo: [19:52] E vocês provavelmente cantam Bendigamos, né? Bendigamos al Altíssimo, ao Senhor...
Abraham Alcaim: [20:00] Não é assim. Eu sou meio ignorante nesse negócio.
Eron Falbo: [20:04] Depende se sua família manteve ou não. Mas muitos marroquinos cantam. Muitos marroquinos têm essa tradição de cantar Bendigamos al Altíssimo.
Abraham Alcaim: [20:16] Eu tenho uma grande amiga que até tem um estúdio de arte aqui. Eu moro na Jarauquiza, aqui no Leblon, Leblon-Rio, e ela tem o estúdio dela aqui, eu moro aqui. Aí a gente se encontrou, ela me adora. Ela é formada em arte, é professora de arte, licenciatura, e eu sou autodidata, mas já vou chegar lá. Mas eu sou autodidata, na realidade. E, felizmente, eu consegui alcançar coisas maravilhosas, uma evolução gigantesca, etc. Mas, mesmo assim, sou autodidata. E ela é formada em artes, é licenciatura, etc. Chama-se Vitória. Vitória, um beijo para você.
Eron Falbo: [21:12] Ela não está aqui falando agora, Vitória Steinman?
Abraham Alcaim: [21:15] Isso, exatamente, é ela mesmo.
Eron Falbo: [21:17] Ela está falando aqui no chat.
Abraham Alcaim: [21:19] E ela chega comigo, ama meus quadros. Ela quer fazer um quadro comigo que é uma mistura de escultura com pintura abstrata, porque trato muito dos relevos das tintas acrílicas, e ela quer misturar isso. Então, eu digo: Vitória, a princípio não sou nada perto de você, porque você é formada, tem licenciatura, tem não sei o quê, e eu sou só autodidata. Não, não, não tem nada a ver. Mas é uma curiosidade isso. Realmente, comecei horrível, mas evoluí.
Eron Falbo: [22:03] Mas isso é uma curiosidade minha: como é que você julga o que é horrível e o que não é dentro da arte abstrata, da expressão abstrata?
Abraham Alcaim: [22:13] Eu era uma pessoa que não sabia nada, não sabia. Dão uma tinta a óleo, para mim é tenebrosa, eu pinto abstrato, eu pinto acrílico. Dão para mim uma coisinha. Olha que eu me sujava todo, tinha que botar querosene e não secava, depois de três meses. Eu comecei num cursinho até na Casa Laura Ouvir. Sabe qual é, para mim, amor?
Eron Falbo: [22:42] Não, sou mentiroso.
Abraham Alcaim: [22:44] Na Naveira Solta, eu comecei lá, fiz um cursinho. Eu não sabia nada. A professora dizia: faça se quiser.
Eron Falbo: [22:57] Mas é isso que estou te perguntando: o que é não saber? Tipo assim, em arte abstrata, você pegar um Jackson Pollock, por exemplo, ele, em termos de saber alguma coisa, em termos de técnica, ele não tem muito o que saber, é uma questão mais de você entender como se soltar para poder se expressar de uma maneira mais autêntica e verdadeira. Eu estou falando assim, eu não sou artista abstrato, eu não sou nem artista, sou charlatão. Mas explica para a gente como funciona esse processo. Saber o quê? O que você sabe em arte abstrata?
Abraham Alcaim: [23:33] Olha, eu até discordo de você. Não tem que saber das técnicas, tem que saber de como lidar. Mais ou menos isso que você falou, não é?
Eron Falbo: [23:43] Não, eu digo assim que não necessariamente, tipo assim, pelo que eu entendo, né, vocês também são leigo nisso, mas é que não necessariamente você precisa de uma técnica específica. Claro que você pode ter ou não técnicas específicas, né. Aí eu tô usando o Jackson Pollock como exemplo, que eu conheço um pouco melhor o trabalho dele, e eu sei que não necessariamente ele usa técnicas... Você falou.
Abraham Alcaim: [24:02] Que aquele que pisava com cigarro na boca, no chão?
Eron Falbo: [24:07] É, exatamente.
Abraham Alcaim: [24:08] Muito doido, né?
Eron Falbo: [24:13] Não sei. Todo artista abstrato é doido, não é?
Abraham Alcaim: [24:16] Eu sou.
Eron Falbo: [24:19] Então, fala sobre isso. Fala como você é doido e como você vive doido, por favor.
Abraham Alcaim: [24:25] Eu sou doido. Tem a ver com ser doido. As pessoas que vêm pintando aqui acham isso uma loucura. Quem vê, muito raramente, porque eu não gosto que fique alguém me vendo. Eu jogo a tinta hoje em dia loucamente. A evolução foi daí, daquele início: eu larguei lá, peguei uma amiga minha e disse assim: 'Abraão, pega papel Canson de alta gramatura para você não gastar muito.' Pintei 200 papéis de alta gramatura para treinar. Tem 12 que são muito bacanas, da época. O resto era porcaria. Aí foi indo, foi indo. Depois eu disse: vou virar autodidata e tal. Comecei fazendo quadros. A minha irmã tem um quadro meu lá da época. Eu disse: 'Claro, pelo amor de Deus, tira essa porcaria daí da tua casa.' Não!
Eron Falbo: [25:23] É bom.
Abraham Alcaim: [25:25] Não é bom, não. É péssimo isso. E hoje eu evoluí, evoluí, evoluí. Evoluí, sabe como? Com técnicas. Jamais vi. Jamais, não. Vi uma vez. YouTube e outras coisitas que não quero falar aqui.
Eron Falbo: [25:43] Você não quer revelar seus segredos.
Abraham Alcaim: [25:46] Outra coisa que eu não quero revelar é o seguinte: é que eu nem gostei de inglês, nem do YouTube, nem das coisitas. Não gostei. Nada, nada. Porque eu queria aprender a fazer, e não conseguia. Não conseguia achar o seu valor.
Eron Falbo: [26:03] Qual é o segredo do sucesso para você?
Abraham Alcaim: [26:06] O segredo do sucesso é você, primeira coisa, ser original. Inventar! Inventar! Eu levei anos inventando todas as técnicas que vou usar. Se vou jogar um spray de água, ou se vou jogar um papel higiênico, ou se vou jogar outra mídia lá dentro, e como vou manipular com isso? Se vou manipular com mão de fada ou se vou manipular com mão de monstro? Isso é outra coisa. Tudo varia ao longo do momento. E isso vai criando o negócio, vai aumentando, vai aumentando, vai aumentando, ao ponto que você chega lá e tem maior confiança. Você joga tinta, tanto que as pessoas que vêm pintando não jogam tinta loucamente e dizem: 'Não, isso vai sair loucura.' Calma, calma que vai. E vai, e sai coisa boa.
Eron Falbo: [27:02] Abraão, o Picasso tem uma citação que gosto muito, é que você tem que aprender as regras como profissional, para você poder quebrá-las como artista. Você acha que isso tem a ver com essa coisa de aprender as técnicas e você poder, vamos dizer, se expressar de uma maneira mais ampla, mais profunda? Você acha que isso tem a ver?
Abraham Alcaim: [27:30] Tem. Tem a ver, sim. Tem a ver, sim. No meu caso, foi isso. As pessoas me perguntam qual é a inspiração. A inspiração é emoção. Chego lá para pintar e tenho a maior noção. Acho que cai até uma entidade em mim, porque é uma emoção tão grande, a minha respiração fica mais acelerada, etc. E, quando acabo um quadro, caio na cama como se tivesse feito diabo, loucuras. Hoje, como estou com muito mais confiança, porque eu aprendi as técnicas minhas, que são originais. E é por isso só. É só por essa razão.
Eron Falbo: [28:17] Por que você diz isso? Se não fosse original, você não ia ser entregue? O que me interessa por isso? Acho que você está chegando numa verdade muito profunda. Eu gostaria que a gente chegasse junto e também junto com o público que está nos ouvindo para revelar isso, que acho que é muito bonito. Por que a importância dessa originalidade, que você não use técnicas de outras pessoas, que você não tem influências e coisas do tipo?
Abraham Alcaim: [28:46] A princípio, não pensei, porque a princípio busquei alguém que me ensinasse. Eu sempre fui apaixonado por arte abstrata, só que não fazia por causa da engenharia, que me ocupou. Aí, quando pude, quando consenti, me larguei feito louco. Aí eu enlouqueci mesmo. Desculpe, repete a pergunta.
Eron Falbo: [29:16] Eu quero saber: me parece que, para você, é muito importante a questão da originalidade, de você não estar copiando, de você não estar sendo influenciado. De onde vem essa importância para você? É óbvio que é melhor ser original, mas eu estou falando da questão de você não remeter a alguma coisa. Qual a importância de você ter essa originalidade absoluta, ao extremo?
Abraham Alcaim: [29:47] Eu não pensei nisso, não faço nada a priori, tudo vai acontecendo. Não foi assim de eu querer, não. E agora, com a arte, é a mesma coisa. Eu digo assim: eu quero ser original, eu não quero nada, por causa da maroquice minha. Eu não quero nada aqui mesmo, eu quero brincar, me alegrar, me emocionar, mas quero sim que isso seja divulgado. E isso é divulgado. Fiz exposições aqui no Rio, fiz exposições em três galerias hipertransadas em São Paulo, fiz exposição em Nova Iorque, em Paris, em Portugal, lá no Porto e no Algarve. Já tenho um currículo razoável em arte. Agora, é um período ainda pequeno, porque é recente, mas, mesmo assim, sinto uma evolução, lágrima. Uma pessoa que me apoiou muito nisso, gostaria de citar aqui, se você me permitir, é a Maria dos Anjos Oliveira. A Maria dos Anjos Oliveira é uma grande amiga minha, através da arte. É curadora excepcional e é uma artista excepcional. Ela deu aula de artes, de colorimetria, no Japão, na Índia, não sei o quê. E ela é apaixonada pelo que eu faço. Eu digo para a Maria: eu não sou nada ainda, sou meio... Eu sempre falo essas humildades demais, não é? Vou ser um espetáculo, etc., etc. Inclusive, vou fazer uma propagandinha: daqui a um mês, em São Paulo, eles vão soltar o negócio, fazer em virtual ainda, por causa da pandemia, uma exposição individual minha, com 34 telas, com a duração de um mês.
Eron Falbo: [32:03] Vai ser digitalmente?
Abraham Alcaim: [32:06] Vai, vai, vai. Inclusive, em três minutos, você entra lá e fica andando.
Eron Falbo: [32:13] Olha que engraçado: como é que uma arte, vamos dizer, tão única, que veio do seu inconsciente, que veio de uma coisa que nem você sabe direito de onde veio, como é que isso pode ser transformado em uns e zeros para poder ser transmitido no mundo digital?
Abraham Alcaim: [32:32] Olha, se você quiser, jogo isso para o meu mundo digital, eu jogo. É o seguinte: você pega essa tela minha, eu quero transmitir essa tela minha para você. Eu tiro uma foto, essa foto vai ser transformada em uns números, só que no caso aqui são pixels, porque são quadrados.
Eron Falbo: [32:56] São pequenos quadradinhos; dependendo da resolução, quadradinhos menores.
Abraham Alcaim: [33:02] O que sai de lá, da tela... Então, a mesma coisa, são números. Igual você disse, são números, tudo é número.
Eron Falbo: [33:09] É porque, na verdade, são cores. Os pixels, ainda mais dependendo da resolução, são só uma cor. Então, os zeros só estão expressando o grau do espectro de luz.
Abraham Alcaim: [33:22] Em geral, são três cores.
Eron Falbo: [33:28] É, RGB.
Abraham Alcaim: [33:29] Quando chega lá, aí chegou você. A tela que eu tenho aqui chegou para você com os zeros.
Eron Falbo: [33:40] Como você consegue traduzir uma obra que você fez fisicamente, que você fez com material físico, que veio da sua alma, do seu inconsciente, coisas que você jamais conseguiria traduzir nem em uns e zeros, nem em nenhuma língua? Porque uns e zeros é binário, são só dois números. E, mesmo com todo o vocabulário do mundo, você não conseguiria expressar o que uma obra expressionista abstrata está expressando. Mas, não sei como, você consegue.
Abraham Alcaim: [34:21] Ela vai como se fizeram. Quando você fica no teu celular, ela é transformada de novo na forma original.
Eron Falbo: [34:31] Isso é uma coisa que eu quero te perguntar, agora entrando nessa coisa de expressar o expressionismo, né? Porque assim, o expressionismo, a razão que o expressionismo é chamado de expressionismo é porque tá expressando algum sentimento, pode ser forte ou fraco, normalmente é forte. Eu queria te perguntar: na sua obra, qual é, na sua opinião, porque às vezes o próprio artista não sabe, mas na sua opinião, qual é o sentimento ou o significado que você está expressando com a sua arte? No geral, os diferentes significados.
Abraham Alcaim: [35:02] Eu te digo claramente qual é: um, beleza; dois, elegância. Elegância é importantíssima, aliás, em pessoas também. Eu não gosto de gente não elegante. E a terceira é alegria. Se às vezes a pessoa pode ficar com raiva do quadro, tudo bem, ainda é arte. Mas a minha intenção é que a pessoa fique alegre vendo. É isso.
Eron Falbo: [35:34] Desculpe dizer, mas os judeus sefaraditas são muito mais elegantes do que as asquenazitas.
Abraham Alcaim: [35:40] Mas as asquenazitas se acham o máximo.
Eron Falbo: [35:46] Essa coisa do expressionismo, como você disse que não tem influência... Você falou da Maria dos Anjos, você considera que há uma influência sua? Só uma pergunta.
Abraham Alcaim: [35:57] Não em termos da pintura em si, mas em termos de empurrar, um trator que me empurra, é um trator imenso que me empurra. Além disso, ela dá... Qualquer quadro que eu pinto, eu acabo de pintar e mando para ela. Eu digo: minha querida, minha amada, o que você achou disso, sinceramente? Aí, na maioria das vezes, ela elogia muito. Uma vez ou outra, recentemente, fiz um quadro aqui que eu disse: olha, Maria, eu não gostei disso aqui, onde é que eu errei? Aí ela disse: meu querido, é o seguinte, você botou muita informação onde não cabia, diminui essa informação. Eu diminuí e ficou lindo.
Eron Falbo: [36:44] Interessante, interessante. Tem aquela, como é que é o nome? Esqueci, acho que eu...
Abraham Alcaim: [36:52] Ela está assistindo, viu?
Eron Falbo: [36:54] Ela está assistindo? Então, que honra, que honra. Vou chamar ela também para fazer uma conversa aqui com a gente.
Abraham Alcaim: [37:02] É fantástico.
Eron Falbo: [37:04] Maria dos Anjos, você já está convidada. Então, a gente pode entrar um pouquinho no mercado da arte? Você me dá permissão para a gente entrar nesse mundo um pouco? Como você vê, hoje em dia, especialmente do seu nicho, o mercado da arte dentro do Brasil, ou talvez a arte brasileira no mercado da arte geral? Você acha que está tendo espaço, está tendo crescimento? Como é o quadro geral?
Abraham Alcaim: [37:39] Exibição das suas obras, etc., etc. Está crescendo muito, é maravilhoso. Aqui recebo convites adoidados. Acabei de receber um da MBOA, a galeria aqui de Ipanema, e por aí vai. Então, ótimo, tudo isso ótimo. Mas o que acontece é o seguinte: as pessoas tendem a pegar dinheirinho, dinheirinho, através do nome, não importa que tenha feito uma desgraça. Então, o nome é que vende. Ainda não tenho esse grande nome, mas acho que... já estou tendo, lá na Europa já sou conhecido. É legal. Via Maria dos Anjos. Você tem que chamar essa Maria dos...
Eron Falbo: [38:35] Anjos. Vou chamar a Jacianeira, ela é uma bonada.
Abraham Alcaim: [38:39] Ela tem uma história linda. Uma vez, ela tinha uma galeria de arte aqui. Ela disse assim: vou sair com você. Ela deve ter uns 70 e poucos anos. Eu disse: mas ela não tem mais idade para isso, ela zoava... Na pandemia, sair com você? Que absurdo! Não, foi bem antes da pandemia. Aí eu pensei assim: ela já tem uma certa idade, vou perguntar o que ela pode comer. Olha a minha cabeça. No meio do caminho, ela me diz assim: olha, meu querido, eu já fui piloto de prova da Volkswagen, dei cavalo de pau que macho nenhum deu. Então, ela era assim, ela tinha uns 70 e poucos anos, vinha sem parar, fazendo construções no mundo inteiro. Aí eu cheguei no tal restaurante, ela disse assim: o que você pode comer? Como pode? Com tudo. Picanha. Picanha com gordura, eu quero.
Eron Falbo: [39:43] Com gorgonzola.
Abraham Alcaim: [39:45] Então, é uma pessoa muito interessante. Deu aula na Índia, deu aula em tudo de arte.
Eron Falbo: [39:54] Olha só, Abraham, vamos dizer, em termos de arte moderna, o meu favorito, pessoalmente, é impressionismo. O expressionismo eu gosto, normalmente eu gosto mais do figurativo. O abstrato eu gosto de algumas coisas, na verdade, especialmente de Jackson Pollock, porque é o mais popular, vamos dizer, e eu entrei mais nos porquês dele, de onde ele criou as coisas e tudo mais. Mas eu adoro, uma das coisas que eu mais adoro, tem uma citação do personagem Sócrates, de Platão, que é o seguinte: eu adoro estar errado. Eu fico atento na conversa para escutar.
Abraham Alcaim: [40:31] Aonde eu estou errado. Ele não é ótimo. Quando eu ia dar palestra de engenharia, dei na USP para professores. Eu cheguei lá e disse: meus queridos, eu gostaria de errar, e vocês, sabendo as coisas, vocês me dizerem e a gente discutir aqui. Vai ser tão rico para nós dois. Exatamente.
Eron Falbo: [40:53] Essa situação não é legal, sabe? É o que eu penso hoje em dia, eu penso assim: eu fico escutando atentamente para ver onde eu tô errando, para ver o que eu posso aprender. Então, você é um artista, é espiritual abstrato... A técnica que eu uso, vamos dizer, para buscar essa sabedoria é achar um ponto em comum, apesar de eu ser músico, charlatão, como tudo que eu faço, mas eu gosto... Charlatão não!
Abraham Alcaim: [41:21] Hã? Charlatão não!
Eron Falbo: [41:26] Ué, mas charlatão é você que está dizendo. Para mim é ótimo charlatão. Respeito todo charlatão. Inclusive, no ano que vem vai ter a Conferência Internacional dos Charlatões e a gente não vai ser digital.
Abraham Alcaim: [41:38] É a Conferência Internacional dos Loucos.
Eron Falbo: [41:40] É que a gente é um hospital e que a gente pode abrir, entendeu? A gente vai fingir que a gente está em leitos e todo mundo vai ser reunido dessa forma.
Abraham Alcaim: [41:49] Não sei, você estava falando de...
Eron Falbo: [41:53] Não, o que eu estava falando é o seguinte: a minha técnica para poder aprender o que eu não sei é achar um ponto em comum das coisas que eu acho que sei. Por exemplo, eu adoro lógica, adoro matemática, adoro engenharia, esse tipo de coisa, e você é um engenheiro que foi para o outro extremo, o da arte abstrata. Então, eu te vejo como um portal para me converter ao mundo da arte abstrata.
Abraham Alcaim: [42:17] Você já pintou?
Eron Falbo: [42:21] Eu já pintei e já esculturei também. Já fiz aula dessas coisas. Como charlatão, superficialmente, aprender alguns pontos... Você.
Abraham Alcaim: [42:35] Tem que continuar a ser jovem. Eu, que já sou de idade avançada, viro jovem e... Você deve...
Eron Falbo: [42:44] Ter cinco anos a mais que eu, no máximo.
Abraham Alcaim: [42:46] Como é que é?
Eron Falbo: [42:47] Você deve ter cinco anos, no máximo, a mais que eu. Você deve estar com 4 ou 5 anos.
Abraham Alcaim: [42:53] Eu sei tua idade. Eu tenho 33 anos a mais que você.
Eron Falbo: [43:07] O que é isso? Mentira, não é possível.
Abraham Alcaim: [43:10] Você é uma criança, você podia ser meu filho.
Eron Falbo: [43:13] Podia mesmo, a gente é do mesmo grupinho.
Abraham Alcaim: [43:17] Mas olha, eu sou uma pessoa qualquer, jovem que esteja aqui em casa, eu entro na linha com qualquer mulher. O jovem acha que eu sou jovem, o velho acha que eu sou velho, e por aí vai.
Eron Falbo: [43:33] Dá certo. A gente tem que tomar um vinho aí, fora das telas, chamar o Maurício.
Abraham Alcaim: [43:38] Ah, tá. Deixa eu fazer uma coisa aqui para te encerrar... Não pega bem eu te mostrar nada aqui.
Eron Falbo: [43:50] Não, pega sim, mostra aí.
Abraham Alcaim: [43:53] Posso? Aí eu tenho que... Olha.
Eron Falbo: [43:57] Já mostrei, agora você mostra também, vai.
Abraham Alcaim: [44:02] Olha, recentemente estou com a cabeça muito colorida, sabe? Então, estou pintando coisas desse tipo aqui, olha. Esse aqui. Caraca, estou muito perto. Espera aí.
Eron Falbo: [44:20] Cores bonitas.
Abraham Alcaim: [44:22] Espera aí, é muita cor demais. Ó, faz... E essa última também. Um quadro que eu amo... Mostra o...
Eron Falbo: [44:37] Seu quadro favorito que você tem aí, por favor.
Abraham Alcaim: [44:39] Esse aqui.
Eron Falbo: [44:42] Esse aí, então vamos ver direito esse aí. Chega mais perto para a gente ver. Esse aí, no seu sentimento, na sua opinião, o que ele está expressando? Não quero diminuir a sua arte, mas eu quero entender a sua cabeça. O que ele está expressando, mesmo que...
Abraham Alcaim: [45:04] Seja... Para eu considerá-lo favorito.
Eron Falbo: [45:10] Sim.
Abraham Alcaim: [45:12] O que ele está expressando? O que é que você está pensando de mim? Olha, eu fiz coisas aí... Como eu te falei, no fundo, essa história de você inspira em quê? Eu me inspiro em beleza, elegância e ser livre para fazer essa beleza, elegância e alegria. Então, é isso. Nesse quadro aqui, só para você ver, ele tem muita coisa aqui. Lá em cima, aqui, tem tipo um couro de cobra.
Eron Falbo: [45:56] Ah, bonita!
Abraham Alcaim: [45:58] Se a gente chegar mais em cima, tem um azul cobalto, que é um azul interessante. Aí botei um grafite em volta dele. Eu tive a maior emoção, adorei. Aí fui indo. Aqui tem uma madeira de demolição mineira, em azul, que é loucura, não é? É coisa para doido. Continuando, fiz pedras preciosas azuis, fiz esse azul fumaça, aqui embaixo fiz essas coisas, esses rabos aqui. Cada um tem uma característica legal. Esse daqui tem uma história que eu não posso falar em público, não é?
Eron Falbo: [46:48] Opa, você pode sim, no meu programa você pode fazer o que quiser, você é o chefe.
Abraham Alcaim: [46:52] Não, mas se eu falar em público, não, está doido. Por favor. Esses dois laranjas aqui, eles surgiram, mas eu vou falar, vou tentar usar palavras científicas, então...
Eron Falbo: [47:07] Vagina.
Abraham Alcaim: [47:08] Vou parar de falar palavras científicas. Vou dizer o seguinte: comecei esse quadro pintando um negócio aqui que parecia a genitália feminina.
Eron Falbo: [47:20] Já falei, imagina.
Abraham Alcaim: [47:23] Exatamente. Tinha laranjas, perguntei, e achei horroroso o que fiz. Achei que não tinha nada de beleza, tudo aquilo que eu gosto. Pensei: vou modificar. Comecei a modificar. Chegou uma hora que passei a ser azul, mas ficou o restinho. Tinha a ver com a vagina. Aí só ficou bonito, o azul com esses traços de laranja.
Eron Falbo: [47:49] Então você faz arte figurativa também, só para te avisar. Isso aí não é abstrato, não. Isso aí é figurativo.
Abraham Alcaim: [47:56] Não, não é. É inúmero, na hora que eu acho. E esse daqui também é um dos quadros preferidos, que acho extremamente elegante. É um quadro muito grande, 1 metro por 1,20 metro.
Eron Falbo: [48:14] E tem uma coisa sexual sempre nos seus quadros, dá para ver. Isso aí tem um sanduíche, no outro também tem.
Abraham Alcaim: [48:22] Sexual? Tem, bastante tem, querido. Quem é que não vive de sexualidade? Quem não vive de sexualidade está morto.
Eron Falbo: [48:31] Está certo, está certo.
Abraham Alcaim: [48:32] Está morto. Ou vai ficar o quê? Fazendo o quê? Fazendo crochê? Olha aqui.
Eron Falbo: [48:37] A Milena lembra isso aí com uma frase: quem vive de sexualidade está morto, vai ficar fazendo o quê, crochê? Adorei.
Abraham Alcaim: [48:50] Esse ou outro. Tudo eu faço por acaso. Aquele não dá. Dá. Aquele primeiro.
Eron Falbo: [49:00] Qual é o nome daquele primeiro? Porque, Abraham, eu queria dizer que existe muita gente agora ouvindo a gente no podcast, então vamos falar para eles o nome dos quadros para eles poderem procurar e depois falar mais.
Abraham Alcaim: [49:13] Eu não dou nome, não dou nome. Eu só dou quando eu quero sacanear. Quando eu quero sacanear, eu dou. Quando eu não quero, eu não dou. Por exemplo, esse daqui eu dei o nome dele numa exposição que eu fiz. Todos eles já fizeram exposição dele. Esse aqui eu fiz, botei assim: Crepúsculo Indiano. Mas isso é putaria.
Eron Falbo: [49:34] Porque você não gostou. Quando você não gosta, se dá nome.
Abraham Alcaim: [49:38] Não, é que pediram para mim. Eu até gosto desse quadro. Eu disse assim: todo mundo gosta de arrotar palavras difíceis, e não sei o quê. Aí eu arrotei "Crepúsculo Indiano". Não é interessante?
Eron Falbo: [49:55] Você tem que vir aqui em casa, a gente chama o Maurício, a gente bebe vinho e joga aquele jogo lá de inventar definições para as palavras. Acho que você vai jogar bem.
Abraham Alcaim: [50:07] Aonde?
Eron Falbo: [50:08] Aqui em casa, vou te chamar, você e o Maurício, e todos os amigos.
Abraham Alcaim: [50:13] O Maurício, você está conosco, não é? Oi! Eu rio muito com ele, né? Porque ele está assim... Ele está babando vendo eu ficar falando aqui.
Eron Falbo: [50:25] Ele está achando ótimo. É que você não está vendo aqui ele fazendo vários comentários.
Abraham Alcaim: [50:31] Esse aqui eu fiz com um ortopedista meu, que ainda vai pegar, porque ele é louco. O vermelho, ele é flamengo; como ele é flamengo, ele tem preto aqui. Se você olhar, tem muita sexualidade aqui. Tem aqui, olha.
Eron Falbo: [50:50] Esse aí eu não vi muita sexualidade, não. Olha, eu não estou conseguindo ver... Aqui tem uma bunda, e aqui tem uma bunda.
Abraham Alcaim: [51:00] Aí tem, aí tem seis, tem aqui. Eu reconheço.
Eron Falbo: [51:10] Se tem algo que eu reconheço, é seis de bunda.
Abraham Alcaim: [51:14] Seis de bundas. São parecidos. Mas é bacana isso, é bacana.
Eron Falbo: [51:21] Maravilha, Abraham. Obrigado por mostrar no meu programa sua arte e comentar.
Abraham Alcaim: [51:25] Obrigado por tudo. Você... Olha, eu estava nervosíssimo por você estar aqui. Se eu pudesse, eu ficava mais de três horas falando com você.
Eron Falbo: [51:37] Eu também, eu só posso... Eu tenho pena do público, entendeu? Porque eu sou uma pessoa relativamente irrelevante no mundo, entendeu? Então, me ouvir, que eu falo pra caramba, entendeu, me ouvir por mais de uma hora, eu acho que é um purgatório, que às vezes as pessoas, por, sei lá, por qualquer patologia, podem querer ouvir mais. E eu não quero submeter as pessoas a esse crime, entendeu? Então eu limitei uma hora pra eu poder falar um pouco menos. Mas eu adoraria ouvir você falar mais, e a gente vai tomar vinho junto. Vamos tomar um Malbec?
Abraham Alcaim: [52:11] Eu falo de tudo em cinco minutos, é demais, e agora vi que realmente é gostoso. Obrigado, vai me deixar feliz.
Eron Falbo: [52:26] O que é isso, Abraão? Obrigado a você. Obrigado por ser uma pessoa tão aberta, tão espontânea, tão contraditória, por ser um engenheiro, artista abstrato, que é para isso que a gente está aqui.
Abraham Alcaim: [52:42] Eu vou querer vinho, não é? Eu moro em Urubu e você mora em Copa, não é? Então eu vou ver se vim. Você mora onde? Eu moro em Urubu, na General Urquiza... Leblon.
Eron Falbo: [52:55] Leblon, você falou, desculpa.
Abraham Alcaim: [52:58] Aí eu vou lá e se vim, não esquece.
Eron Falbo: [53:00] Vai rolar, vai rolar, não vou esquecer. Então é isso, Abraão. Muito obrigado. Obrigado por tudo. Obrigado.
Abraham Alcaim: [53:05] Você é realmente uma delícia de profissional. Muito legal. Não é delícia no sentido... É uma delícia no sentido elogioso.
Eron Falbo: [53:21] Como os asquenazes dizem, Geschmack, delicioso.
Abraham Alcaim: [53:28] E você? Eu também sou.
Eron Falbo: [53:32] Você também é, a sua arte também é, o seu espírito também é. E eu fiquei muito feliz de te conhecer. Vamos tomar esse vinho juntos, vamos continuar essa conversa. E o Zoltan, além de excelente pintor, é muito sexy.
Abraham Alcaim: [53:47] Zoltan é meu sobrinho. É muita sacanagem dele. Um beijo grande, tudo de bom para você e muito obrigado por me dar essa oportunidade.
Eron Falbo: [54:05] Muito obrigado por me dar a sua oportunidade. Tudo de bom, Abraão. A gente se vê. Beijão. Boa noite.
Abraham Alcaim: [54:11] Boa noite, amigo.
Eron Falbo: [54:12] Tchau, tchau. Tudo de bom.
Abraham Alcaim: [54:14] Tchau.
No Alvo com Eron Falbo · episódio #72 · todos os episódios