Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.
Eron Falbo: [0:05] Alô, alô, meus queridos amigos! Sejam bem-vindos! Você entrou no Alvo, eu sou o Eron Falbo, e hoje estamos aqui com minha querida Vânia de Brito. Vânia é atriz, diretora, roteirista e agenciadora de atores, fundadora e dona da Barnabé Agenciados. Será que a Vânia já entrou aí? Deve ter entrado, porque hoje eu tô um pouco atrasado. Queria pedir desculpas aos meus queridos ouvintes de Alagoas, especialmente, já que a maioria dos meus ouvintes é de Alagoas. Não sei por quê. Não me pergunte por quê, porque eles têm humor negro lá.
Vânia de Brito: [1:01] Olá!
Eron Falbo: [1:02] Oi, querida Vânia!
Vânia de Brito: [1:04] Tudo bem, Eron? Que prazer.
Eron Falbo: [1:07] Prazer é um prazer, com certeza, maior aqui desse lado, e uma honra maior desse lado também. Uma maravilha estar com você.
Vânia de Brito: [1:18] É puto, é puto.
Eron Falbo: [1:20] Que ótimo, que ótimo! Eu acho que o melhor jeito da gente começar é falando sobre a nossa história de como a gente descobriu que a gente é da mesma família.
Vânia de Brito: [1:33] Será que as pessoas vão entender isso? Acho que sim, né?
Eron Falbo: [1:38] Eu acho que sim. Aqui é só alto nível, né? Os seguidores, os fãs, os nossos amigos.
Vânia de Brito: [1:46] Eron, as pessoas estão me ouvindo bem ou está tendo um delay? Está tendo um delay.
Eron Falbo: [1:52] Ah, para você está tendo um delay? Você está sem fone de ouvido?
Vânia de Brito: [1:56] Eu estou sem fone porque eu estava carregando o celular. Deixa eu ver se melhora aqui, peraí.
Eron Falbo: [2:03] O ideal é botar fone de ouvido.
Vânia de Brito: [2:07] Alô?
Eron Falbo: [2:20] Alô, está melhor? Deixa eu ver se está tudo bem aqui. Milena, está tudo certo? Deixa eu perguntar para a Milena. Alô, agora eu estou ouvindo, agora está melhor. Pra mim, melhorou. E vocês aí que estão nos escutando, vocês de casa, a gente também tá em casa, né? Não tô te ouvindo mais. Também a Emeliana não tá falando nada. Será que a Emeliana tá atrasada? Kati, você tá ouvindo? Fala aqui no chat se você estiver ouvindo. Dá pra me ouvir? Dá pra ouvir a Vânia? Dá pra gente fazer esse teste rápido aqui. Vocês de casa estão ouvindo? Na pandemia é ótimo, é vocês de casa. Não tô te ouvindo, Vânia. Não tô te ouvindo, o fone não tá funcionando.
Vânia de Brito: [3:22] Melhorou?
Eron Falbo: [3:23] Tá, Vânia, não dá pra ouvir.
Vânia de Brito: [3:25] O cara tá ouvindo?
Eron Falbo: [3:27] A Cátia tá falando que... Sim, agora tô ouvindo. Vamos assim, vamos assim. Dá pra ouvir a Vânia bem, sem eco? Não, eu não tô ouvindo delay, eu tô ouvindo bem. Eu quero saber se o público geral... Agora dá, mas, Cate, tem delay ou não?
Vânia de Brito: [3:52] Agora tá sem delay, agora tá tranquilo.
Eron Falbo: [3:55] Tá tranquilo. Então vamos lá, vamos lá. Agora vamos conversar com a nossa história de família, como a gente descobriu que somos da mesma família.
Vânia de Brito: [4:07] É um roteiro, né, Eron?
Eron Falbo: [4:09] Na verdade, todas as nossas interações aí deram vários roteirinhos.
Vânia de Brito: [4:17] Vários roteirinhos, vários dramédios.
Eron Falbo: [4:23] E eu tenho certeza que ainda tem muitas por vir. Tem algumas cozinhando aí, que eu estou sentindo.
Vânia de Brito: [4:32] Enquanto a vida existir, teremos histórias para contar, né? Essa é a parte boa, né?
Eron Falbo: [4:38] O evento também tem uma química de almas, que causa umas explosõezinhas, umas coisas interessantes.
Vânia de Brito: [4:49] Acho que foi encontros, encontros da vida. A gente já não sabe por quê. A sintonia foi imediata. Isso é um... Acho que é um presente que a gente oferece.
Eron Falbo: [5:03] Com certeza, totalmente mútuo esse sentimento. Mas contando com o pessoal, brevemente: eu fiz uma aula de atuação barra espiritualidade, outras coisas que a gente não... não é possível dizer. Mas foi maravilhoso. Eu até recomendo a todos que façam esse curso com a Vânia. Ela te prepara, independente de qual seja a sua vontade de expressão no mundo. Você pode ser um médico, você pode até ser um dentista, você pode ser uma advogada, até ator.
Vânia de Brito: [5:50] Eu já tive alunos médicos, já tive alunas jornalistas, que foi superinteressante. É um curso aberto para uma descoberta criativa, um processo. Por isso que eu chamo de processo.
Eron Falbo: [6:07] Ela te ajuda a entrar dentro de si, a se conhecer melhor, a entrar em sintonia, você e seu corpo, seus pensamentos e as suas vontades, esse tipo de coisa, e se expressar criativamente, artisticamente. E no meio desse processo muito doido que a gente fez juntos, a Vânia falou, algumas vezes ela falou: eu cresci no Nordeste, né? Aí ela é uma pessoa que, na primeira coisa que você fala, pô, Vânia, provavelmente ela veio do Nordeste porque era um tristáculo, né? Sei lá, ela morou muitos e muitos anos no Rio de Janeiro, né? Não sei por que ela foi para São Paulo, mas ela tem umas explicações aí que... estamos esperando a hora de volta. Então, ela insistindo que ela tinha nascido no Nordeste, eu falei, vamos perguntar de onde veio essa história, se é um personagem que ela inventou. Mas eu perguntei, de onde no Nordeste você é? Ela falou, de Aracaju, no Sergipe. Aí eu falei, caramba, que coincidência, porque... tá me ouvindo? Era caju, metade da minha família toda já era caju. Eu também não estava esperando que minha família fosse surgir.
Vânia de Brito: [7:30] Eu também, a minha também.
Eron Falbo: [7:33] Aí eu perguntei, porque eu não tenho o sobrenome da minha família de Sergipe, infelizmente, até adoraria ter, mas eu sou da família Mendonça, de Sergipe, de Aracaju, de Itabaiana, de Lagarto, para aqueles de Sergipe que estiverem escutando aí, um beijo a todos vocês, meus familiares, meus amigos. Estado maravilhoso, infelizmente não conheço tão bem quanto eu gostaria e deveria. Aí assim que eu falei sobre a família Mendonça, é uma família que é conhecida, era do supermercado Bom Preço, os Pais Mendonça, etc. Aí eu falei, eu sou também dessa família, gente, é exatamente isso.
Vânia de Brito: [8:15] Eu sou da parte pobre dessa família.
Eron Falbo: [8:19] Mas eu também sou da parte pobre. É a mesma parte. Mas aí a gente descobriu, além de um monte de outras sinergias que a gente já tinha, né? Em termos de tarô e espiritualidade, cabala e atuação e ideia sobre a vida e outras coisas, a gente acabou descobrindo que a gente coincidentemente vem da mesma família e que faz total sentido, né, Vânia?
Vânia de Brito: [8:48] Total sentido. Eu até hoje ainda tô impactada com essa história, né? Até hoje eu tô pensando. Eu estava super envolvida com a Kabbalah, vendo algumas lives, querendo me informar mais sobre a Kabbalah, trazer um pouquinho de conhecimento. E você estudou a Kabbalah.
Eron Falbo: [9:12] Eu estudei muitos anos e eu falei pra Vânia que eu dei uma estudada muito longa nessa família. A gente descobriu que tem raízes com coisas da cabala e tem, mais engraçadamente, o grande ator Peter Sellers dessa família. Somos primos do Peter Sellers, que é um dos meus atores favoritos.
Vânia de Brito: [9:37] É distante, tá, gente?
Eron Falbo: [9:38] É distante, é distante, mas é a mesma raiz, é a mesma raiz. E até assim, eu mostrei pra minha família inteira fotos do meu pai comparando com o Peter Sellers, eles têm o mesmo formato de rosto, a mesma cara, em determinadas fotos até confundiriam um com o outro. Então é uma coisa muito bizarra. Agora, entrando além da nossa família, como é possível a gente fazer essas conexões depois de tantos anos, eu e você espalhados em outros... em outros mundos? Mas você morou em Israel.
Vânia de Brito: [10:18] Você tem experiência em Israel, você morou em Londres. Eu saí de Aracaju muito pequena, com 17 anos, para estudar no Rio, para fazer teatro, para me formar, fazer artes cênicas. E aí, esses anos todos no Rio, quatro anos em São Paulo, e, de repente, você me contrata para a gente desenvolver um trabalho, um processo com você nesse momento da sua vida. E, de repente, no meio da conversa, na última aula, praticamente, onde você era? Eu também, eu também, e aí eu fiz uma viagem na minha infância, quando meu pai me contava as histórias da família Mendonça. Infelizmente, ele não está mais aqui. Ele ia adorar participar.
Eron Falbo: [10:56] Meu pai também não está. Infelizmente, ele ia adorar também, porque ele é da família Mendonça.
Vânia de Brito: [11:02] E sinto saudades até hoje desse momento que a gente está vivendo, da pandemia, com tantas perdas, com tantos entes queridos.
Eron Falbo: [11:13] Faz falta, faz falta.
Vânia de Brito: [11:15] Faz falta.
Eron Falbo: [11:18] Meu pai também faleceu em novembro do ano passado e não foi de covid, mas foi durante a pandemia. Então a gente tem essa outra coisa em comum de sentir falta do nosso paizinho. E é isso, a gente tem essas energias todas. Outra coisa que eu achei muito bela, que assim, a Vânia é uma pessoa, vamos dizer, que me outrank, que tá muito além de mim em termos de experiência, de sabedoria, de prática, de técnica, de tudo.
Vânia de Brito: [11:49] Eu?
Eron Falbo: [11:50] A troca é muito boa. Eu indiquei o livro pra ela, indiquei o C.S. Lewis, que é um dos meus escritores favoritos, e ela foi, ela leu, e ela veio comentar, e eu achei, eu fiquei super honrado.
Vânia de Brito: [12:06] Tô com ele aqui, ó. Gente, super indico esse livro.
Eron Falbo: [12:09] Olha só.
Vânia de Brito: [12:10] A gente não foi pago pra falar dele, tá? Mas...
Eron Falbo: [12:14] É, eu sou amigo do C.S. Lewis.
Vânia de Brito: [12:16] Pro fundo, ó, C.S. Lewis.
Eron Falbo: [12:21] Eu vou fechar a janela aqui, porque eu esqueci a abertura.
Vânia de Brito: [12:24] Eu acho que vale muito a pena, e foi indicação do Eron. Eu comecei a ler e estou amando, de verdade. Está aqui.
Eron Falbo: [12:37] Perfeito, isso aí eu gostei muito e fiquei muito honrado. Isso mostra também o quanto você é uma pessoa dedicada a aprender, a crescer. Isso não é normal, como pessoa com tanta realização quanto você, você poderia descansar, você poderia dizer, tipo, ah, dane-se, mas você está aí trabalhando a todo vapor, você está ajudando pessoas, você está se dedicando muito. E aprendendo, fazendo perguntas, comprando livros.
Vânia de Brito: [13:15] A gente está o tempo todo aprendendo, o tempo todo trocando. Eu sempre falo para os atores que eu trabalho, que é um processo de três meses, tem às vezes o imersivo de uma semana, às vezes fica um ano comigo trabalhando, mudando, várias opiniões, porque a gente tem várias opiniões. Então, o processo é mais ou menos isso, não é? É você trabalhar o seu lado humano, o seu lado artístico, o seu lado criativo, o seu autoconhecimento, a sua parte, principalmente, nesse momento em que a gente está vivendo, a parte humana. A parte desse contato com a sua alma, como a sua alma expande, como ela cresce nesse momento de tanta tristeza no mundo. A gente pode ainda chegar, dividir, abraçar com os olhos. Eu lembro que a gente começou a ver essa pandemia, mas nós temos os olhos.
Eron Falbo: [14:08] Aprender a usar, acho que é a mesma coisa. O que está acontecendo com essa pandemia é o que acontece com uma pessoa quando perde a visão, que a audição dela fica melhor. A gente foi privado de certas coisas que nos fez olhar para outras coisas e tornar essas coisas melhores. Se antes a gente precisava, especialmente, abraçar as pessoas fisicamente para demonstrar carinho, a gente teve que aprender a abraçar com os olhos. Sendo que a gente precisava estar fisicamente para mostrar amor, a gente está aprendendo a fazer pelo vídeo, a gente está aprendendo a trabalhar pelo vídeo, está aprendendo o humanismo. Sempre que a gente estava com o humanismo em falta e com a hiperprodução em alta, agora a gente está com a hiperprodução incapacitada e obrigados a nos tornarmos melhores seres humanos. Então, eu queria oferecer um brinde. Você está com o vinho aí ou não?
Vânia de Brito: [15:09] Estou aqui com o vinho assim, já pronta. E vocês aí? Cadê a garrafa de vocês?
Eron Falbo: [15:14] A garrafa está entrando aqui para provar que é de verdade.
Vânia de Brito: [15:19] Nos mantermos firmes, confiantes, e os melhores virão. Não perder a esperança no coração, não perder a criatividade, não perder a humanidade. Melhorar a nossa escuta, não é, Eron? Melhorar a nossa escuta e cuidar do outro à distância. É possível também, né? Ligar, saber como a pessoa está, escrever algo, né? Enviar umas flores, né? Enviar um vinho.
Eron Falbo: [15:49] Com muito álcool em gel, assim, para enviar a coisa. É isso tudo que você falou. Tamo junto. Saudades já. Brinde. Saúde. Engasguei um pouquinho aqui. Tô tomando aqui um Pinot Noir também, você escolheu o Pinot Noir. Coincidentemente, é a minha uva favorita.
Vânia de Brito: [16:12] A minha também, mas eu adoro vinho tinto, eu sou suspeita, né? Então, vinho eu amo. É a minha bebida favorita mesmo. Tem uma onda gostosa.
Eron Falbo: [16:28] No final do nosso episódio aqui, vamos tirar umas cartas de tarô pra você ou não?
Vânia de Brito: [16:34] Ih, meu Deus! Assim, ao vivo? Meu Deus! Não sei se tenho coragem, mas tudo bem. Eu gosto de desafios.
Eron Falbo: [16:45] Então, uma zinha. A gente pode botar uma coisa, ao invés de ser pessoal para você, a gente pode falar sobre o estado atual do mundo do teatro, para a gente poder juntos interpretar alguma coisa interessante assim.
Vânia de Brito: [17:03] Estou com um espetáculo agora, ensaiando um monólogo, um texto do Carpinejá. Aliás, quem nunca leu esse livro, mas é um livro conhecido, do Carpinejá, que é esse aqui, Cuide-me dos Pais Antes que Seja Tarde. É um livro belíssimo, é um livro que fala do cuidado que a gente tem que ter com os nossos pais quando viramos pais dos nossos pais.
Eron Falbo: [17:29] Isso é maravilhoso, isso é muito bonito. Você fez uma adaptação do livro e escreveu o roteiro, não é?
Vânia de Brito: [17:43] Na verdade, está sendo minha adaptação e de um outro co-diretor, porque tenho dois diretores. Tenho o Januzel, que foi diretor da IAD durante 35 anos, uma pessoa incrível, um ser humano. Foi um lindo encontro. O Januzel está com 84 anos, então ele está dirigindo à distância. E tem o Rodolfo Murim, que foi aluno dele, também é diretor, ator, excelente ator, que trabalhou junto comigo na adaptação do texto para que a gente transformasse em dramaturgia. Mas é um livro belíssimo, belíssimo. Eu super recomendo, vou colocar de novo aqui, deve estar na décima edição. E esse livro me tocou muito, meu coração, a minha alma. E eu fiz uma experiência, distribuí esse livro para amigos, porque eu queria ver a reação das pessoas. E foi muito tocante. Fiz também um trabalho em sala com ele. Foi lindo demais, foi uma descoberta para os atores que estavam lendo, vivenciando a experiência de contar essa história, com experiências do Carpinejá. E foi um momento mágico, sabe? Mágico, quando eu levei para a sala.
Eron Falbo: [19:01] Aquele texto que você me mostrou sobre a mãe, é dessa peça que você está fazendo?
Vânia de Brito: [19:09] Sim, esse livro. Esse aqui.
Eron Falbo: [19:17] Eu quero dizer que aquilo me inspirou bastante a cuidar mais da minha mãe, né? Você sabe, todo mundo tem problemas com as mães, acho que quem não tem um problema com a mãe... Não, quem não tem, ou é problemático, ou a mãe é problemática, teve alguma coisa de errado.
Vânia de Brito: [19:32] Normal é o quê?
Eron Falbo: [19:33] Normal é o quê? Se estiver tudo certo, então...
Vânia de Brito: [19:41] Mas a relação... Eu sou muito ligada à minha mãe, né? Porque eu saí de lá com 17 anos, né? E eu tive uma coisa que foi importantíssima pra mim, eu tive só a bênção da minha mãe, foi o suficiente, né? Vá atrás dos seus sonhos e você tem a minha bênção, né? E isso que me dá coragem até hoje, né? Pra continuar com os meus sonhos, pra continuar com a minha inquietude, né? E hoje eu sei que eu virei mãe da minha mãe, quando eu estou com ela. Isso é lindo demais, sabe? Agora a gente passou o Natal, eu e a minha filha, foi uma experiência linda para nós três. Nós ficamos juntas, entendeu? E dar banho na minha mãe. Não é porque ela precisa, porque ela está doente ou porque está inválida, mas um momento único, mágico, onde a gente conversa, conta histórias. Eu faço massagem. E ali é a nossa sinergia, a nossa poesia naquele momento, aquele momento é nosso. Por que esperar?
Eron Falbo: [20:45] E é um exercício importante, que faz parte, é como se fosse um rito de passagem. Na vida circular que a gente tem, a gente começa como bebês e a gente volta a ser bebês, de uma certa forma. E para a gente poder ter essa experiência maravilhosa de voltar a ser bebês, dessa vez não se vê... Porque na Kabbalah tem um conceito de Or Rishon e Or Sheni, que é a primeira luz e a segunda luz. A primeira luz, Deus dá de graça. E a segunda luz, a gente tem um prazer, que a luz é sempre prazer. O objetivo da existência é a gente ser preenchido com a luz divina, que é o prazer máximo que existe no universo. E isso é sempre prazer. É importante lembrar disso. Luz é prazer. Na primeira luz, Deus dá de graça um prazer. Quando a gente é bebê, a gente tem todo aquele prazer de ser cuidado de graça, porque a gente nasceu e não tem mérito nenhum de ter nascido, entendeu? A gente tá lá bebê e não sei se você lembra, mas eu lembro, dos banhinhos, o bebezinho... eu não lembro, mas como eu tenho filhos pequenos, eu sinto uma empatia muito grande, imagino como deve ser gostoso ser banhado, ser carregado e colocado perto do peito e não ter preocupação, tudo chega.
Vânia de Brito: [22:16] E se a gente tem essa oportunidade em vida, é porque às vezes a gente fica sempre deixando para o futuro, para ligar, para procurar, para usufruir da presença, da companhia.
Eron Falbo: [22:29] Exatamente. É exatamente isso que eu estou falando. Se o filho não dá essa oportunidade para o pai, olha que loucura, o pai não consegue ter essa segunda luz, entendeu? A primeira luz é quando ele é bebê. A segunda luz é quando ele volta a ser bebê, só que dessa vez por mérito dele, porque ele educou filhos que se tornaram pais, entendeu? Ele educou filhos bem-sucedidos o suficiente para os filhos se preocuparem com os pais dele. E existe medida de sucesso maior do que essa?
Vânia de Brito: [23:02] Não. É uma dificuldade. A vida nos dá essa oportunidade de usufruirmos da companhia dos nossos pais na velhice, quem tem essa oportunidade, quem tem esse privilégio, que é um privilégio, você poder se doar, cuidar um pouco. E esse livro do Carpinejar é lindo porque tem uma frase aqui que me pegou muito: não quero mais ter razão na vida, só quero ter amor. Olha como ele está velhinho, meu livro, porque ele já está comigo há três, quatro anos. Para onde eu vou, eu levo esse livro, porque meu livro diz tudo. Está todo marcado.
Eron Falbo: [23:42] Quero ler, quero ler.
Vânia de Brito: [23:45] Aqui tem toda uma história, um processo da minha vida nesse livro. Eu falei com o meu diretor, com os meus dois diretores, como é importante, nesse momento, como está sendo pertinente falarmos dos nossos pais, falarmos da família, cuidar um do outro, nos dar essa oportunidade. Porque o momento é agora, o tempo é hoje, não existe amanhã. E a gente...
Eron Falbo: [24:15] É verdade, a pandemia nos deu essa oportunidade de mais presença, de, ao invés de olhar para o externo, olhar para dentro do nosso próprio quarto, ao invés de salvar as borboletas do Vietnã, a gente arrumar a nossa cama, começar a olhar para o que eu estou fazendo, onde eu estou. Eu mesmo comecei esse programa, que hoje para mim é o motivo de grande autorrealização, ou talvez a maior autorrealização que eu já tive, porque existiu a pandemia. Obrigado.
Vânia de Brito: [24:49] Valeu.
Eron Falbo: [24:53] E outra coisa, a pandemia, bizarramente, ou não tão bizarramente, mas é claro que o Cosmos está dando essa oportunidade para a gente, é porque as pessoas mais afetadas foram as pessoas mais velhas. Então, quanto mais velha, maior risco. Então, isso é uma corda para as pessoas jovens que estão olhando para o celular e não tão... Que talvez, sei lá, pelos problemas geracionais e gaps geracionais que tiveram de informação e qualquer coisa assim, as pessoas começaram a não ter mais um elo com a geração anterior e abandonaram a geração anterior. Muitas vezes ligaram muito a geração anterior. E os problemas entre pais e filhos cresceram muito, as distâncias entre os pais e filhos cresceram muito. E essa pandemia, por um lado, sem menosprezar o sofrimento de todos nós, que eu também tive sofrimento durante a pandemia muito alto, com as tragédias e tudo mais, sem menosprezar isso, dá valor a essa lição cósmica que a gente teve durante a pandemia, de cuidar das pessoas do próximo degrau, seja qual for a idade. Essa beleza dessa lição cósmica é que se você tiver 70 anos, alguém de 90 anos vai estar mais frágil que você, então você tem que cuidar. Se tiver 90 anos, alguém de 110 vai estar correndo mais risco. Se tiver 30, alguém de 40 vai estar... Entendeu?
Vânia de Brito: [26:26] Então...
Eron Falbo: [26:28] Eron Falbo: É cuidar daquelas pessoas que se deram na gente.
Vânia de Brito: [26:33] Vânia de Brito: É que, às vezes, o que eu percebo, eu tenho uma filha de 32 anos, que é uma neta maravilhosa para mim.
Eron Falbo: [26:43] Eron Falbo: Que maravilha! Olha que elogio você está dando para o Manoel. Que maravilha! Uma neta maravilhosa. Eu adoro o Manoel também. Beijo, Manoel.
Vânia de Brito: [26:56] Vânia de Brito: Lu, se você tiver... Porque acho o seguinte, às vezes a juventude tem uma pressa. Acho que, na minha idade, já, embora a cabeça muito jovem, o corpo muito ágil, lido muito com os jovens o dia inteiro, tenho uma urgência. Agora, na minha idade, você imagina o idoso. Ele está mais que urgente na vida. Ele não quer perder um pôr do sol, ele não quer perder um mar, um jardim, a natureza.
Eron Falbo: [27:32] Eron Falbo: E se ele não tem a consciência, a urgência é maior ainda, porque às vezes as pessoas mais velhas entraram numa sombra de medo, de preocupação, entraram em umas coisas erradas. E talvez na pandemia isso dê um... Peraí. Agora você tem que... Tem que cuidar das coisas que importam, porque certas coisas foram esquecidas.
Vânia de Brito: [27:57] Vânia de Brito: Eu acho que essa urgência de viver, de cuidarmos dos nossos pais, já que o tema foi para aí, a gente nem pensou em nada. A coisa surgiu em cima do poema que, no trabalho que fiz com você, pedi que você lesse. Eu achei muito importante, naquele dia, te dar esse exercício, pegar de surpresa. Eu lembro da sua cara, me olhou meio...
Eron Falbo: [28:20] Eron Falbo: Eu posso ler agora?
Vânia de Brito: [28:22] Vânia de Brito: Pode, claro.
Eron Falbo: [28:25] Eron Falbo: Ao mesmo tempo, ser uma coisa espontânea e bonita e fazer propaganda da sua peça que está por vir, para todo mundo anotar.
Vânia de Brito: [28:38] Vânia de Brito: Se tiver um patrocinador por aí, é um monólogo.
Eron Falbo: [28:43] Eron Falbo: É com você mesmo, é com você que está ouvindo.
Vânia de Brito: [28:47] Vânia de Brito: Vamos fazer essa peça delicada, humana, necessária para esse momento do mundo.
Eron Falbo: [28:55] Eron Falbo: Estava no seu WhatsApp. Vou já achar. Um segundinho, gente.
Vânia de Brito: [29:11] Vânia de Brito: Nossa, está tão marcado, tem tanta coisa aqui.
Eron Falbo: [29:15] Você mandou como foto? Ah, foi como foto mesmo. Aqui, achei. Vou ler. Está pronto? Estão todos prontos?
Vânia de Brito: [29:24] Gente, desculpa, tá? Ah, já sei. Olha, mas você não tem o livro na página 9.
Eron Falbo: [29:32] Não, tem aqui, já achei aqui. Está aqui, todo mundo pronto? Beleza, vamos lá. Minha mãe vai encolhendo. Cada vez mais baixo a cabeça para receber sua benção. Ela levanta o braço direito com esforço para alcançar minha testa, indecisa entre buscar uma escada e pisar na ponta dos pés. Sempre que me despeço dela, recebo sua proteção. Sou sua prateleira de água benta. Não existe tchau sem o sinal da cruz e a reverência à maternidade. Eu disse que minha mãe vai encolhendo, mas sua generosidade só vai alargando. Preocupa-se como o filho artista se vira. Telefona nas manhãs com a voz calma de feriado em dias úteis. Entrega semanalmente sorvete de pistache em meu apartamento, o nosso contrabando de doce. Os pais diminuem de tamanho. Arqueio as costas para serem os nossos bebês. Eu já posso dar colo para minha mãe. Ela já cabe em meu peito. Ela já entra no berço dos braços. Ela já pode morar em meu ventre. Ela não tem idade, porque se misturou à minha vida. Tão pequenina, tão amada. Seu corpo se apequena, porque a alma não para de crescer. É uma criança sábia. Anda em linha reta pela calçada, pela alçada, devagar, nunca se desviando da rota traçada. Um passarinho que poderia voar e não usa as asas pra não esnobar os humanos. Minha mãezinha, mãezinha mesmo, o diminutivo é imensidão. O entardecer e o amanhecer têm hoje os cabelos da minha mãezinha. Derrota é perder quem amamos antes do fim, pelo fracasso de nossa comunicação. O resto é agradecimento.
Vânia de Brito: [31:21] Olha que coisa linda, né? Aí já tem toda a alma da peça, né? O que vocês acharam aí, gente? Vai passando aí para a gente o feedback.
Eron Falbo: [31:35] Se quiser botar comentários ou perguntas, coloca na caixinha de perguntas para a gente poder ver, porque, às vezes, passa muito rápido.
Vânia de Brito: [31:41] Vai ser um prazer. E a gente está aí ensaiando, com toda a dificuldade da pandemia. Agora vai ter um lockdown em São Paulo. São 15 dias agora. A gente voltou para a bandeira vermelha. O que foi?
Eron Falbo: [31:59] Não fiquei sabendo.
Vânia de Brito: [32:01] Só farmácias e supermercados. Vou fechar tudo.
Eron Falbo: [32:06] Então vem para o Rio logo, Brayne. O que você está fazendo aí?
Vânia de Brito: [32:09] Estou indo para o Rio. Ficar um pouco com a filha, né? Preparar os cursos que eu vou brevemente dar no Rio.
Eron Falbo: [32:19] Com o Richard, querido. Beijo, Richard.
Vânia de Brito: [32:22] Vocês estão com a gente aí. Querido demais. Pergunta demais. Grande arquiteto, maravilhoso. Muito especial.
Eron Falbo: [32:33] Tem uma citação sua aqui. Não vou ler ela inteira, mas vou ler uma menor sua, que está aqui: 'Para mim, a vida é um presente, é o agora. Para mim, não existe futuro.' Vânia de Brito. Isso tem tudo a ver com o que a gente está falando, o que as pessoas estão descobrindo na pandemia. Eu tenho uma outra citação do Sêneca, do estoico romano, que é o seguinte: 'O tempo presente é brevíssimo, ao ponto de, na verdade, não ser percebido por alguns.' Isso é uma sacada matemática. O presente é tão incomensurável, é tão breve, acontece e passa, que não dá nem pra perceber. É, exatamente. Ele está passando. Se você não prestar atenção agora, ele vai passar. Ele está passando, está passando, está passando. Então, ele é tão breve que a gente não consegue perceber. Por isso que a gente precisa da meditação, a gente precisa de aulas da Vânia de Brito para poder entrar no presente.
Vânia de Brito: [33:46] Maravilhosos, né? Que surgiram durante a pandemia. Nunca se procurou tanto yoga e meditação, né? Eu sempre acho que qualquer pessoa, qualquer pessoa deveria fazer uma prática de yoga na vida e se permitir silenciar, né? Pra experimentar mesmo, fazer uma prática da meditação, porque é uma das coisas mais lindas da vida, sabe? Quando você silencia a sua alma, a sua alma fala, né? Seu corpo, né? Mantém a quietude, né? É tão bonito isso, a gente permitir.
Eron Falbo: [34:22] Eu vou falar para todos os nossos amigos algumas das coisas que eu retirei das nossas sessões juntos, do nosso tempo juntos. Uma das coisas foi, como a gente falou no começo, um relembrar do tanto que eu devo para minha mãe. Tanto que eu tava precisando, não por ela, mas por mim mesmo, me reconectar com ela e dar a ela o que ela realmente merece. O que ela não mereceu, não por dar nada a mim, mas por ser quem ela é e pelas coisas que ela deu a mim terem sido tão espontâneas, tão generosas. Porque mãe tem de todo tipo. Então, as mães não necessariamente precisam ser cuidadosas, não precisam se dedicar tanto. Então isso foi um presente que você me deu. E outra coisa é que eu voltei a meditar: antes, no melhor dos momentos, eu meditava uma vez por dia e sempre quis meditar mais vezes, e agora tô todos os dias meditando duas vezes.
Vânia de Brito: [35:27] Eu fui pro mar falando isso em presente, sabe? Para que eu insista e persista nisso de trabalhar o humano em cada um dos meus atores, cada um que vem de outra profissão e diz: espera aí, eu sou tímido, quero trabalhar a criatividade, quero ter vida com autoconhecimento. Não é aula, gente, aula não ajuda, mas a gente trabalha tudo. Os meus atores estão aqui participando, tem vários que já estudam comigo um ano, dois anos. Eles falam realmente desse divisor de águas, antes do processo e depois do processo.
Eron Falbo: [36:18] Com certeza.
Vânia de Brito: [36:18] O presente, o estado da gratidão com a vida, da persistência, da coragem, de entender os nossos pais, de percebê-los, que também não são super-heróis, como a gente coloca, mas que têm medos, que têm crises, que têm fragilidades, já vêm de outra educação, de outras gerações. E que a gente precisa também se permitir conhecê-los, né? A gente precisa se permitir conhecer os nossos pais. Assim como a gente tenta conhecer uma amiga, uma pessoa que a gente se relaciona, que a gente casa, que a gente namora, os nossos pais também a gente precisa se permitir conhecer e investir numa relação. Porque muita gente desiste, sabe? Fala: minha mãe é uma pessoa difícil, meu pai é não sei o quê, minha mãe é assim... A gente encontra adjetivos para tudo, não é? Mas a gente tem que, nesse momento do mundo, ter outra apreciação pela vida. De olhar. Olhar os olhos da alma. Os olhos da alma é o que importa no final.
Eron Falbo: [37:34] E pra dar um outro lado dessa coisa toda, eu também, ao mesmo tempo, tô com uma postura bem melhor, o meu tônus melhorou também, porque ela dá uma aula muito bela sobre consciência corporal. Pra mim, eu chamo de consciência corporal porque era o desejo que eu tinha, era a falta que eu sentia. Eu sentia falta de conexão, porque eu sempre fui meio pseudo-intelectual. Porque, na verdade, eu me sentia muito inadequado na escola, porque eu era muito magrinho e as pessoas me chamavam de vareta. E eu não pegava ninguém na escola. E todos os outros alunos... Quando você tem 16, 17 anos, você vê a galera se dando bem com as garotas e tudo mais, e você não consegue fazer isso, você se sente muito inadequado.
Vânia de Brito: [38:29] Principalmente os que praticam esporte.
Eron Falbo: [38:31] Exatamente. Normalmente é a galera que tem mais conexão com o corpo, tem essa consciência corporal mais em dia. Então, eu escolhi me dedicar muito a coisas da intelectualidade. Já que eu não ganhei no corpo, eu vou compensar aprendendo um monte de coisa para impressionar as garotas. Então, eu fui muito longe mesmo, e acabei exagerando um pouco, e esqueci um pouquinho do meu corpinho, que hoje eu tenho me dedicado bem mais a isso. Hoje mesmo eu fiz uma aula de escalada, e a Vânia me ajudou muito a entrar no meu corpo, tipo, aterrissar dentro do meu próprio corpo, e começar a perceber as nuances de coisas que estavam rolando dentro do meu corpo, e como controlar, tomar consciência disso. E finalmente, isso também tem a ver com essa consciência que eu acho que é além do corpo, porque o nosso corpo vem, a gente vem das cinzas e das cinzas a gente vai. Até aqui no cemitério de Botafogo tem uma frase que eu adoro, é revertere ad locum tuum, em latim, que eu acho uma frase maravilhosa, que em latim significa volte ao seu lugar, e tá na segunda pessoa, não é volte ao vosso lugar, pra todos vocês humanos. Volte ao seu lugar, tu voltes ao teu lugar, entendeu? Então, a frase tá falando com você, entendeu? Maravilha isso. E o que isso significa? Que a gente é parte da natureza, né? O nosso corpo é parte da natureza e a gente tem que se conectar a isso. E desde que eu fiz a sua aula, eu tô indo pro mar, né? Frequentemente. Eu moro na frente do mar e eu nunca tinha ido uma vez, e agora eu ganhei esse presente.
Vânia de Brito: [40:19] Que loucura, né? Eu acho que você falou uma palavra que eu tenho repetido bastante, que é a palavra consciência, né? O sentido dela, a importância dela, né? Nesse momento do mundo, né? Você vai sair, mas você usa sua máscara. Você quer encontrar um amigo, mas você não consegue aglomerar. Você teve Covid, mas você tem a consciência que você pode passar pro outro, né? Então, sem abraço, né? Sem aglomerações. Então, essa palavra consciência, que nunca foi tão necessária no mundo de hoje. Isso é em tudo: é a nossa consciência corporal, é a nossa consciência do que comemos, como nos alimentamos, como dormimos, como nos conectamos com a natureza, que tempo você tem pro seu ócio. São dez minutos, é quando o dia começa, pra você depois se dedicar à sua labuta. É quando o seu dia termina, tá tudo certo também, é no meio do dia. Então, assim, a palavra consciência tem flutuado aqui de volta pra mim o tempo todo, sabe? Minha pesquisa nesse momento, principalmente em São Paulo, né? Eu tô longe dos meus amigos, né? De anos, longe... Eu morei a minha vida inteira, foi em janeiro... Então, eu fiquei durante um ano num apart-hotel, agora, porque passou o período, e aí veio a pandemia e ficamos demorando. E aí foi uma coisa muito interessante, eu comecei a observar os pássaros. E eles se tornaram os meus amiguinhos durante as manhãs. Eu comecei a alimentar os pássaros. Eu comecei a perceber o barulho de cada um, entendeu? Quando chegava na janela. E foi tão interessante essa descoberta. Foi tão simples, né? E marcou muito a minha vida, porque foi uma conexão. Essa conexão com a natureza, porque tudo vem da natureza, tudo está em volta da natureza. A gente não tem, a gente faz parte dessa natureza, não tem como escapar. Então é a gente observar melhor.
Eron Falbo: [42:35] É a gente acordar um pouco, porque, às vezes, a gente dorme dentro das nossas loucuras, das nossas esquizofrenias, do jeito que a gente vê o mundo, e a gente tem tantas bênçãos, a gente perde as estribeiras, a estribeira que fala aquela coisa do cavalo, né? Então a gente tem essa coisa assim que, né, faz a gente ver só uma coisa, e a gente tem tanta bênção aqui, né? Aqui do lado, né? Os nossos pais, que a gente não tá ligando assim, a gente tá reclamando que aquele menino, aquela menina, é um monte de coisa, é porque a gente foca naquilo que a gente não tem, né? Aquela carta do tarô que eu te mostrei, do cinco de copas, né? Que é uma mulher se lamentando, olhando pra três copos quebrados no chão, e há dois copos em pé atrás dela, e ela não está olhando.
Vânia de Brito: [43:33] Bem significativo. Acho que a gente tem que transformar a nossa ansiedade do momento em inquietude, porque ela é muito mais criativa. E a gente aí, como você falou, amplia os nossos sentidos.
Eron Falbo: [43:50] Vou mostrar. Vou mostrar uma carta aqui.
Vânia de Brito: [43:54] Que permite tirar as toxinas. Olha que carta interessante. E dramática, né?
Eron Falbo: [44:02] Vou botar mais um tempo aqui para o pessoal olhar. Dois copos levantados, três quebrados, e a pessoa focando na coisa errada.
Vânia de Brito: [44:18] É, focando... às vezes, assim, limpar as toxinas da mente, sabe? A gente tem que dominar a nossa mente, não deixar que a mente nos domine, entendeu? Tirar as toxinas e recuperar de uma forma ou de outra, mudando a alimentação, hábitos ruins que a gente tem, entendeu? Permitir silenciar, né?
Eron Falbo: [44:42] Vânia, eu tô super preocupado aqui que tá acabando minha bateria. Se acabar a bateria, a gente perde nossa live. O normal é a gente carregar o celular antes, acho que aconteceu algum erro aqui, e o pessoal não carregou. Ou eu não carreguei, provavelmente fui eu. É melhor botar para carregar. Não tá ainda no finalzinho, mas eu não quero perder nossa live.
Vânia de Brito: [45:09] E aí, vocês estão passando, gente? Como é que está aí para vocês? Onde vai?
Eron Falbo: [45:19] A galera está calada pra caramba hoje. Acho que é porque estão prestando atenção. Quando a live é intensa assim, o pessoal não fala muito, não. É normal isso.
Vânia de Brito: [45:29] Mas eu queria que vocês fizessem perguntas, ou colocassem também a opinião de vocês, sabe? Emily, minha linda, saudades também de você.
Eron Falbo: [45:41] Viu, e o meu nome é... desculpa, peço muitas coisas por isso, gente.
Vânia de Brito: [46:00] Olha o ritmo, olha o que houve.
Eron Falbo: [46:07] Alô, não estou te ouvindo.
Vânia de Brito: [46:08] Então, estávamos falando desse livro, que é o monólogo que vou fazer no teatro.
Eron Falbo: [46:13] Agora estou ouvindo. Vamos ver se o som está aceitável.
Vânia de Brito: [46:15] Cheguei agora. O que vocês estavam falando? Fica o tempo... Falando desse livro, da relação nossa com os pais, do cuidado. Indiquei esse livro, que é o livro do Carpinejar, que a gente fez agora adaptação para levar para o teatro, e estávamos dividindo experiências. Eu queria que vocês falassem também.
Eron Falbo: [46:37] Dona Beauty, eu não sei qual é o seu nome, só para dizer assim: o tema é Eron Falbo e Vânia de Brito. Está escrito aí em cima, Eron Falbo e Vânia de Brito. Não tem muito tema; as lives que a gente faz, as conversas que a gente faz aqui, é o que aconteceu aqui. O que aconteceu foi uma coisa maravilhosa, que eu convido todos vocês a ouvirem, assistirem, depois que vai para o YouTube e Spotify. E a gente tem mais cinco minutos, na verdade, Vânia, então vamos aproveitar eles para a gente trazer tudo o que aconteceu na nossa conversa maravilhosa, juntar tudo e fazer mensagens para as pessoas que estão nos ouvindo. Na verdade, a gente bateu o recorde hoje, eu acho que foi a primeira vez que passou de 850 pessoas assistindo.
Vânia de Brito: [47:30] Fico feliz que esse momento traga muita esperança para todo mundo, que vocês transformem o cotidiano, sabe? Descubram a arte, descubram o amor. Reconectem-se com as pessoas que estão distantes, sabe? Amigos, né? Amigos de escola, né? Às vezes a gente passa um período sem falar. Descobri, um dia desses, minha amiga de infância... Foi a coisa mais linda, esse encontro agora em Aracaju, né, quando eu fui. Minha melhor amiga de infância, foi lindo demais. E cuide, cuide, cuide de vocês: cuide da alma, cuide da mente, cuide do coração, leveza, amor, né?
Eron Falbo: [48:14] Cuide dos pais, cuide da natureza. Cuide de sua conexão com a natureza, na verdade, né? Que é mais importante do que cuidar da natureza, eu acho. Porque se você cuidar da sua conexão com a natureza, você vai cuidar da natureza com certeza, né? Porque você vai lembrar que é você.
Vânia de Brito: [48:32] Você vai lembrar que tudo está na natureza, tudo a gente tira da natureza. Tem uma frase que eu gosto muito, que tinha no painel, na casa de um amigo meu, que é: quando você não souber para onde ir, corra para o mar. Mas você pode correr para uma floresta, para um parque, para uma praça, para um bairro distante, diferente, pegar a estrada, visitar um amigo, tudo com consciência. Tudo com amorosidade, tudo com resiliência nesse momento, porque vai passar, gente, vai passar, e vamos estar bem melhores, viu? Muito mais humanos, muito menos distraídos, porque acho que já estávamos bastante distraídos na vida.
Eron Falbo: [49:22] Eu tenho uma frase que depois você vê lá no meu feed, uma frase do John Lennon que é "War Is Over If You Want It", que era sobre a Guerra do Vietnã, que é uma parada até profunda, porque é tudo uma questão de estado de espírito, do jeito que a gente olha para as coisas. Então, é óbvio, e de novo, sem menosprezar o sofrimento de ninguém, mas existiram na humanidade coisas tão graves quanto o que a gente está passando agora, pelo menos. Tipo a Segunda Guerra Mundial, o Holocausto, invasões bárbaras, queda de Roma, peste bubônica. Tem milhares de coisas que acontecem. Então, por um lado, não é uma grande novidade o que está acontecendo. Então, assim, quando a gente está passando por momentos graves, que a gente não tem escolhas sobre isso, a gente consegue olhar pra dentro e mudar nosso estado de espírito. Então o John Lennon falou, o que eu leio disso, a camisa que ele tem, "War Is Over If You Want It". A guerra acabou se você quiser. Significa, não é tipo se você pressionar o governo para acabar com o Vietnã, entendeu? É tipo, se você dentro da sua cabeça não estiver em guerra, entendeu, acabou. E eu peguei essa placa, eu achei uma placa do John Lennon, e mudei para "Covid Is Over If You Want It". Entendeu? Tipo assim, essa coisa toda de pandemia é uma coisa que você entra. Claro que existe uma pandemia, existe uma doença, existem coisas graves acontecendo, mas o seu estado de espírito entrando dentro de uma modorra, dentro de uma hipnose coletiva, dentro de um medo, qualquer coisa do tipo, isso é uma coisa que você deixou acontecer, eu deixei acontecer. E se eu deixar isso acontecer, eu acabo quando eu quiser com isso. A Covid explorou o homem. Então a pandemia acaba agora.
Vânia de Brito: [51:23] O estado consciente, entendeu? Estamos vivendo um momento muito delicado no mundo, de muitas incertezas, mas que precisamos ter essa certeza que queremos estar vivos, com os nossos, com as pessoas que amamos, fazemos o que gostamos de fazer, ter essa liberdade na vida de ir e vir. Mas tudo com consciência, com cuidado com o outro. Nunca foi tão necessário termos cuidado com o outro. Aprender a ouvir o outro, os medos, muita gente criando paranoias. E as pessoas estavam sem tempo de ouvir uns aos outros. Eu acho que uma hora a gente tem que parar e pensar que o outro também tem um problema maior, porque o nosso problema é muito pequeno diante do problema do mundo, de tanta gente sem trabalho, sem comida, sem teto, sem saúde, com as doenças mentais que não cresceram tanto como agora.
Eron Falbo: [52:20] Então, assim, tem gente que perdeu parte do dente, até.
Vânia de Brito: [52:24] Ah, eu tenho uma passagem muito legal, gente, com o Eron. Primeiro dia que eu fui fazer uma reunião com ele, eu não conhecia, tá? E a gente tentou ir para um lugar que tivesse mais isolamento, para não ter aglomeração, porque estou bem cuidadosa com isso. E ele falou, vamos para o clube aqui do lado. Quando a gente chegou no clube, estava quase uma micareta no clube, porque tinha um torneio de tênis, a piscina cheia. Fiquei chocada, chocada. Foi uma péssima ideia minha. Íamos tentar conversar, uma barulheira, uma loucura. E ele resolve, no meio, assim, no final, ele fala, você está com fome? Eu falei, não, eu estou bem. Você está com fome? Vamos pedir um franguinho, um franguinho a passarinho? Eu falei, franguinho a passarinho? Comia franguinho a passarinho há quanto tempo? Dez anos. Achei legal, tá? Vamos pedir um franguinho com uma batatinha, tá, ok. Bom, na primeira mordida do frango, eu quebrei o meu dente, tá, meus amores? O dentista hoje, a conta está indo para o Eron, porque ele que resolveu pedir esse frango, né? Eu acho que é justo. Pague a conta do dentista, vocês acham?
Eron Falbo: [53:29] Eu já mandei para o clube. Foi maravilhoso. E essa situação, na verdade, leva a gente a tipo, cara, algumas coisas estão fora do nosso controle, né? Tipo, a gente pode ter a melhor das intenções e as coisas acontecem. E às vezes, se a gente abraçar o jeito que a coisa aconteceu, a gente se diverte mais, a gente tem uma experiência diferente, ri sobre ela e agradece. A gente pode agradecer pelas tragédias, né? Porque a tragédia nos educa também, né? Então, a tragédia do dente quebrado, da batata frita com...
Vânia de Brito: [54:06] Não foi da frente, foi de trás, foi o último. Já está superresolvido. Vim para São Paulo rápido para resolver essa questão. Mas foi um belo encontro, Eron. Foi um encontro realmente muito especial. Descobrimos que temos um parentesco muito distante, que temos aí uma história que a vida nos colocou nesse momento.
Eron Falbo: [54:29] Não preciso enfatizar tanto que é muito distante, porque é toda hora muito distante. O que é que tem que falar isso? É muito próximo, para mim é muito próximo, entendeu?
Vânia de Brito: [54:36] Por que do tataravô? Enfim. Mas está aí, o sangue está aí. O sangue está ali.
Eron Falbo: [54:44] Está aqui, olha.
Vânia de Brito: [54:47] Foi um prazer, viu? Um prazer enorme dividir com vocês esse momento. Quero agradecer a todos vocês pelo tempo, porque o tempo tem se tornado muito precioso. Tem uma frase linda desse livro, o Cristianismo Puro e Simples. Ele diz assim, né? "As maiores misericórdias de Deus foi quando ele me disse não, pelos seus nãos." E eu achei isso muito profundo, muito curioso, muito interessante. Porque aí eu fiquei pensando nos nãos que a vida me deu. E eu falei, gente, que coisa linda isso, porque às vezes a gente tem uma ansiedade, uma pressa para antecipar as coisas das nossas vidas. Nós, artistas, temos uma intensidade com a vida. E amar, e ler, e absorver, e viver tudo.
Eron Falbo: [55:39] E ser aceito naquela audição. A gente tem uma audição no Globo, aí tem que ser aceito.
Vânia de Brito: [55:46] Vinícius, o tempo, senhor de todas as coisas. O tempo é sábio, ele é honesto. O tempo é honesto. E falar para vocês que calma, às vezes não é a hora, não é o lugar, não é o momento. Mas a vida dá voltas e depois tudo se acerta, e vai tudo para o lugar que tinha que estar, mas na hora certa. Aceite os nãos, mas não desista dos sins. O não você já tem, os sins você vai persistir e correr atrás. Não é, Vitor? Vitor Latour, que o doutor Alenador entrou agora. Vitor, regência, querido. E é isso, seguimos, né? Seguimos com luta, com sorrisos, com leveza, né, com esperança, torcendo um pelo outro, né, e com esse olhar de compaixão. Não vamos perder esse olhar com o outro. Menos egoísmo, menos individualismo, mais resiliência, mais simplicidade, mais tempo para nós mesmos, para o nosso processo criativo. Vamos cuidar da nossa alma.
Eron Falbo: [56:54] Vânia, normalmente... Quebrou o finalzinho, porque você falou uma frase de impacto, provavelmente. Eu não ouvi a última coisa que você falou.
Vânia de Brito: [57:04] Não sei onde eu parei. Pra gente cuidar das nossas almas, né? Cada um cuidando da sua alma, cada um, entendeu?
Eron Falbo: [57:13] Então, Vânia, primeiro eu quero dizer que muito obrigado por aceitar esse convite, por fazer uma live, uma conversa maravilhosa, afiadíssima. E quero dizer que, normalmente, eu que faço esses avisos paroquiais no final da mensagem.
Vânia de Brito: [57:36] Amém!
Eron Falbo: [57:37] E você sequestrou esse meu final. E quando eu digo isso, eu digo que agora eu não ouso fazer um em cima do seu, porque eu sou tão perfeito. Então, vamos deixar assim.
Vânia de Brito: [57:51] Faz uma citação, faz uma citação.
Eron Falbo: [57:54] Oi?
Vânia de Brito: [57:55] Faz uma citação linda, deixa aí pra galera.
Eron Falbo: [57:58] Ah, uma citação. Só sei que nada sei, Sócrates. Eu não tenho nada para competir, o meu repertório está péssimo. Quando eu fico nocauteado por nobreza, por humanismo, por sinceridade, eu prefiro ficar no meu lugar e só agradecer, agradecer pela sua presença, agradecer a presença de todos, e que todos tenham um fim de pandemia muito agradável, porque hoje acabou a pandemia, gente. Hoje acaba a que está dentro de nós. O resto é só coisas que a gente tem que fazer ou não tem que fazer.
Vânia de Brito: [58:36] Cuidado e consciência. Com você e com o outro. É muito importante. Não perder o senso de humor, importante também para trazer a leveza. Entendeu? Vamos correr atrás dessa felicidade que está dentro da gente. Em qualquer lugar que você esteja, na sua casa, na sala da sua casa, no seu quarto, no quintal da sua casa, na varanda, sabe? Pense: eu sou um ser especial e eu tenho muita coisa para viver e distribuir pelo mundo. Afeto, afeto, afeto. Amém.
Eron Falbo: [59:09] Valeu, gente. Muito obrigado. Vânia, boa noite para você. Tudo de bom a todos. Boa noite a todos.
Vânia de Brito: [59:16] E fiquem bem.
Eron Falbo: [59:17] Tchau, tchau. Beijo.
No Alvo com Eron Falbo · episódio #71 · todos os episódios