Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.
Eron Falbo: [0:01] Fala, doutor Marcelo, que honra.
Dr Marcelo Daher: [0:03] Fala, meu caro Eron, como é que tá indo? Tudo bem?
Eron Falbo: [0:07] Graças a Deus, tudo certo. E com você?
Dr Marcelo Daher: [0:11] Que prazer estar com você aí.
Eron Falbo: [0:14] É, o prazer é todo meu. A gente conseguiu, hein? Quem diria.
Dr Marcelo Daher: [0:19] É, obrigado. Foi difícil agendar esses horários, né? Mas felizmente tá indo tudo bem.
Eron Falbo: [0:25] Que ótimo. Você tá morando em Brasília ou no Rio de Janeiro?
Dr Marcelo Daher: [0:32] Não, eu sou do Rio de Janeiro. Interclínica no Rio de Janeiro.
Eron Falbo: [0:37] Mas em Brasília você tem um hospital?
Dr Marcelo Daher: [0:39] É o meu irmão, Zé Carlos Dyer, é outro médico.
Eron Falbo: [0:44] Ah, entendi. Mas o hospital é de vocês?
Dr Marcelo Daher: [0:47] É um hospital familiar, vamos dizer assim.
Eron Falbo: [0:54] Não, porque você sabe que eu sou de Brasília, então eu cresci com... Ah, sim, exato.
Dr Marcelo Daher: [1:01] O seu pai, lembro dele, o Eron, né? Brasília, exatamente. Tinha até o meu herói na Brasília, inclusive.
Eron Falbo: [1:08] Exatamente, exatamente. Você conheceu o outro. O Eron lá deve ter conhecido.
Dr Marcelo Daher: [1:13] Sim, com certeza. Que legal.
Eron Falbo: [1:18] Por que vocês criaram um hospital lá em Brasília? Se vocês são do Rio.
Dr Marcelo Daher: [1:24] Ah, isso é um outro assunto. É um assunto familiar. É uma outra história. Mas a base nossa é aqui no Rio, meu.
Eron Falbo: [1:33] Entendi. Bom, eu ia te perguntar outras coisas do hospital, mas você não quer falar do hospital, né? Sobre a coisa que o Diego acabou de me falar, que você inventou essa técnica específica do... Qual o nome? Eu não sei falar isso.
Dr Marcelo Daher: [2:03] É outra técnica, Eron. É uma técnica chamada plástica eutrófica. A palavra vem de eu, bom, e trófico, quer dizer nutrição. Significa que a pele, nessa operação, está bem nutrida pelos vasos sanguíneos. Essa é a ideia. Por isso é que se chama eutrófico. O prefixo eu é muito usado, por exemplo: eugênio, eucaristia, eutrófico, entende? Quer dizer, como a gente cola a pele, a gente deu o nome de eutrófica, porque os vasos sanguíneos permanecem íntegros. E essa plástica tem sido utilizada já há mais de 15 anos, muito embora tenha sido publicada somente em 2012.
Eron Falbo: [3:09] Ah, entendi. Mas você mesmo usava, ou outras pessoas usavam?
Dr Marcelo Daher: [3:17] Não. Ela foi descrita por mim, né? Mas hoje, muitas pessoas usam, pelo mundo afora, uma técnica que foi apresentada 20 vezes no exterior e foi publicada numa revista europeia. Então, já é muito conhecida.
Eron Falbo: [3:38] Peraí, só um segundinho. Tão me dizendo que tá tendo alguns problemas técnicos aqui. Só um segundo aqui pra eu entender.
Dr Marcelo Daher: [3:46] Cê tá ouvindo bem?
Eron Falbo: [3:49] Eu tô te ouvindo. Tá caindo às vezes, entendeu?
Dr Marcelo Daher: [3:55] É...
Eron Falbo: [3:58] Deixa eu só perguntar aqui, ó. Milena, se você puder escrever no chat aí, porque deu um problema aqui no computador. A minha imagem tá ruim? A minha internet, de repente?
Dr Marcelo Daher: [4:13] A sua imagem tá um pouquinho fora de foco, viu?
Eron Falbo: [4:23] Bom, não era pra estar, mas de qualquer jeito dá pra entender, dá pra gente seguir. Uma outra coisa que me chamou a atenção, na verdade, é pra gente ir um pouco mais além nessa ideia de você ter inventado essa técnica. Eu me interesso em saber como funciona esse processo de inventar uma técnica. Para quem não conhece, o processo médico é desde o momento que você percebe que precisa de uma melhoria até você fazer testes, até você publicar, esse tipo de coisa.
Dr Marcelo Daher: [5:02] Exatamente, é um ponto bom de esclarecer. E é preciso explicar o seguinte: os médicos, inclusive, a gente não usa a palavra inventar técnica, a gente usa a palavra escrever. Escrever uma técnica. É totalmente diferente dos outros setores. Por exemplo, a indústria, ou a indústria farmacêutica, ou mecânica, ou elétrica, quando ela inventa um negócio, ela bota uma patente em cima. Os médicos não têm patente alguma. É porque trata-se do princípio de que você está escrevendo uma técnica para ser usada por pessoas, ou seja, pela humanidade, pela sociedade. Então, os médicos, eticamente falando, não cobram patente. Pelo contrário, se sentem orgulhosos quando vão ao congresso e as pessoas dizem que estão usando a técnica e apresentam o resultado. Não é um motivo de orgulho você ter descrito a técnica, vamos entender bem isso. A pessoa se sente útil a descrever uma coisa nova que está sendo usada com vantagem. E muitas pessoas leigas me perguntam sobre isso, porque não tem como explicar. As pessoas dizem assim: você não pode cobrar um royalty? Não existe isso. É vetado ao médico omitir qualquer tipo de tratamento, ou de técnica, que possa trazer melhoras para uma pessoa humana. Isso não é permitido pela ética.
Eron Falbo: [7:06] Olha, isso é uma coisa que eu não tinha noção, realmente... É muito interessante mesmo, mas então não tem como derivar, além de, vamos dizer, reconhecimento dos seus iguais, da comunidade médica, não tem como derivar nenhuma espécie de benefício para você por ter sido o primeiro a escrever...
Dr Marcelo Daher: [7:37] Não, não tem. É a pessoa: ela é procurada por pessoas, por clientes que querem ser subservientes a essa técnica. Naturalmente, o médico cobra o honorário para que a pessoa trabalhe, mas não é uma coisa assim em escala industrial, por exemplo, como na indústria mecânica. Todos que usarem no mundo terão pago. Você não tem isso. É uma coisa totalmente diferente.
Eron Falbo: [8:14] Doutor Marcelo, as pessoas estão falando que você está com eco na voz. Está com bom eco. Então, será que o senhor tem um fone de ouvido que dá para colocar?
Dr Marcelo Daher: [8:29] Eu vou tentar, posso tentar. Pode ser também que eu tenha voltado à adolescência. Estou usando um aparelho. Pode ser isso também.
Eron Falbo: [8:48] Você está usando um aparelho nos dentes?
Dr Marcelo Daher: [8:55] É, pode ser isso. Essa é a maneira de a gente querer voltar à adolescência.
Eron Falbo: [9:06] É, eu estou fazendo outras coisas ainda de adolescência.
Dr Marcelo Daher: [9:10] É bom também.
Eron Falbo: [9:15] Você mora onde aqui no Rio, doutor?
Dr Marcelo Daher: [9:20] Eu costumo dizer que moro no Jardim Botânico, porque a clínica é aqui no Jardim Botânico e eu passo o dia inteiro aqui na clínica. Então, eu entendo que moro aqui no Jardim Botânico. Mas a minha casa mesmo é na última.
Eron Falbo: [9:45] O que eu ia dizer? Desculpa, eu me confundi um pouquinho aqui por causa do som, problema de som. Ah, tá, uma coisa interessante que eu queria perguntar para você é sobre a questão de você ir aos congressos de cirurgia plástica dos descendentes de libaneses. Como é que é essa história? Como é que você começou a se interessar tanto pela cultura libanesa?
Dr Marcelo Daher: [10:19] É uma curiosidade, isso aí foi divulgado porque nós plantamos uma árvore lá, o cedro, porque o símbolo do Líbano é o cedro. Então, cada um planta uma árvore quando vai lá. É uma curiosidade: lá tem uma sociedade de cirurgia plástica muito desenvolvida, e eles amam a cirurgia plástica brasileira. Todos eles têm vários formados aqui no Brasil. Comigo mesmo tem uns três ou quatro formados. E a plástica brasileira é muito reverenciada lá em Beirute. Eu próprio já estive operando lá umas quatro, cinco vezes. E quando você fala que sou um cirurgião brasileiro, nossa, fica uma coisa assim muito importante. O Ivo Pitanguy, que você é mais novo, mas deve ter ouvido falar muito.
Eron Falbo: [11:32] Ah, sei quem é.
Dr Marcelo Daher: [11:33] Ele fez um nome internacional para o Brasil e para a plástica brasileira, de maneira que nós, que somos alunos dele, hoje em dia usufruímos muito disso. E isso dá para o nosso país também uma projeção muito grande.
Eron Falbo: [11:56] Mas você pessoalmente não tem uma conexão com o Líbano, com suas raízes libanesas?
Dr Marcelo Daher: [12:03] Não, eu sou filho de imigrantes libaneses. Sírio e libanês, mas libanês principalmente. Claro, tem lá minha família que mora no norte, vários primos e parentes, estive várias vezes com eles. É uma coisa curiosa, essa coisa cultural. Você às vezes vai lá e vê um parente seu que é a sua cara: têm os mesmos traços fisionômicos, a mesma origem, mas um tem uma cultura e o outro, outra diferente. Uma religião é diferente, a língua é diferente, uma coisa incompreensível.
Eron Falbo: [12:49] E a religião dos seus familiares era ortodoxo, cristão ortodoxo ou católico?
Dr Marcelo Daher: [12:56] Não, é cristão ortodoxo. É uma variação do cristianismo romano. Isso tem a ver com aquela história do cisma de Nicéia, quando houve essa repartição das duas religiões. Elas são iguais, na verdade. A ortodoxa tem como chefe da igreja o patriarca grego, ou patriarca russo, não sei bem qual é a diferença. E os nossos cristãos aqui do Brasil, os romanos, têm o chefe, o papa, romano.
Eron Falbo: [13:39] É, depende. Na questão, na verdade, também houve uma cisão entre a igreja russa e a igreja grega. Tinha Constantinopla, os bizantinos, etc., e depois esses dois viraram a russa e a grega.
Dr Marcelo Daher: [13:58] É, eu tenho a impressão que isso aí que é chamado de concílio de Nicéia, na época do imperador Constantino, se não me engano, tem a ver com a repartição da igreja romana, da Igreja Ortodoxa, mas eu não estou certo disso.
Eron Falbo: [14:17] O sacro do Império Romano era do lado ocidental, e o que veio hoje ser a Igreja Ortodoxa é o lado oriental, que a capital foi para Constantinopla, depois virou, em todos os países da Europa, a Igreja Católica. Mas, de qualquer jeito, vocês continuam com a religião ortodoxa ou vocês são católicos hoje em dia?
Dr Marcelo Daher: [14:43] Sabe o que é? Nós não fazemos muita diferença, sabe? Eu, na verdade, não sou um homem religioso, para dizer a verdade, mas a minha família frequenta a Igreja Católica Romana, ou a Igreja Católica Ortodoxa, que na Lapa, atualmente, no Rio de Janeiro, só tem uma igreja, na Rua Gomes Freire. Mas o rito religioso é o mesmo, praticamente. A diferença é que o padre ortodoxo se casa e o padre romano, católico romano, não se casa. É uma das pequenas diferenças que tem entre as igrejas. Eles têm feito um esforço muito grande, o próprio Papa atual, aliás, o Papa atual não, o João Paulo é que teve esse interesse em unir de novo as duas religiões, mas não conseguiu. Agora, é muito difícil isso, porque tem diferenças aí que são difíceis de... Você sabe que essa questão religiosa, ela é muito delicada. Toda vez que você vai propor uma mudança, todo mundo reclama, tem aquela ala conservadora das igrejas. Não, isso pode. Não, isso não pode. Como que um padre pode casar? Isso é um sacrilégio. Aí o padre da igreja ortodoxa diz que é o contrário: como que o padre pode orientar um casal que está em dificuldade, sem ele ter sido casado, não sabe bulhufas do casamento, entende?
Eron Falbo: [16:34] É isso que eu penso também. Eu sou judeu, e rabino casa, bebe, até mais do que todo mundo. Eu tenho 11 filhos.
Dr Marcelo Daher: [16:46] Pois é, quando você vai consultar o rabino, eu próprio consulto os rabinos às vezes, que são homens sábios. Eles são homens que têm uma experiência de vida completa. Eles são preparados para instruir as pessoas nas suas dificuldades. É uma curiosidade.
Eron Falbo: [17:08] Muitas vezes eles têm várias empresas, eles são empresários, são empreendedores.
Dr Marcelo Daher: [17:14] Há algum tempo atrás houve uma cliente... Eu tenho uma clientela judaica imensa aqui na minha clínica. Mas muitos brincam comigo: é porque você cobra mais barato pro povo. Eu digo, não, não é. É porque existe uma afinidade histórica entre árabe e judeu. Por exemplo, a minha avó, que era de origem libanesa, só queria ir no médico judeu. Uma curiosidade. E aqui na clínica, há algum tempo, uma moça me procurou, queria operar o nariz. Eu digo, olha, o nosso nariz, o nariz semita, ele é muito marcante. Pensa bem o que você quer fazer, porque é um nariz muito marcante. E eu não concordo com esse negócio da pessoa ter traços e você pegar e fazer um nariz para ela totalmente diferente das características raciais. Acho que tem que ter um nariz assim. Pode ser, o nariz semita às vezes é meio exagerado, como o Rio, por exemplo. É preciso dar uma ajeitadinha assim, light, dar uma retificação. Mas o que eu queria contar não era isso, não. Criou um problema familiar na família dela, que ela achava que deveria procurar médicos da mesma religião dela. Digo, olha, isso é uma bobagem, porque não tem nada a ver essa questão religiosa. Mas o que o senhor aconselhou? Digo, aconselho você procurar o rabino, porque o rabino é um homem sábio, geralmente ele sabe o que fazer. E a moça foi lá no rabino, segundo a minha instrução. Aí ele disse, olha, pelo amor de Deus, isso é uma bobagem, não tem nada... Você gostou do cara, foi com a cara dele, acha que ele pode fazer um bom trabalho para você, então, bulhufas para essa história da religião. Mas é apenas para ilustrar essa questão.
Eron Falbo: [19:25] Bonito. Eu queria perguntar para você, entrando um pouquinho na cirurgia plástica: você que é um homem leve, que gosta de bom humor, o que você vê que as pessoas estão exagerando no assunto da plástica? As mulheres estão pedindo... o que você acha que não deveriam estar consertando?
Dr Marcelo Daher: [19:55] Esse é um bom tema, isso aí é muito importante. Todas as vezes que a gente vai falar sobre plástica, acaba o tempo e o entrevistador diz que até a semana que vem continua, porque o interesse das mulheres é muito grande. Senta bem. O negócio é o seguinte: há realmente um exagero quanto a essa questão de procurar plástica. É preciso que o médico tenha uma certa calma, uma certa boa formação e ética, no sentido de fazer a pessoa ver que apenas o fato de incomodá-la... por exemplo, essa orelha um pouquinho torta assim, isso me incomoda, como elas dizem, isso é característico, isso me incomoda. Eu digo: mas não é possível que te incomode a esse ponto? É claro, se você está infeliz a ponto de não viver a sua vida prazerosa por causa desse pequeno defeito, podemos corrigir, mas, se não, você pode reconsiderar isso, não é verdade? Isso aí eu estou falando de uma pequena deformidade da forma. Mas tem umas mulheres que aplicam esse exagero, inclusive na plástica de envelhecimento facial. Por exemplo, para você ter ideia, tem umas que a gente chama de multioperadas. E vêm aqui para dizer: olha, aqui tem um pouquinho que está sobrando, acho que dá para fazer assim um pouquinho. Eu digo: olha, madame, nós não gostamos dessa cara muito esticada, é muito feio isso aí. E eles botam um apelido nisso aí, meio que onomatopeia, botam o nome de bicho: cara de lagartixa, cara de jacaré, coisas assim, são ridículas.
Eron Falbo: [22:01] E uma outra coisa que acho que é interessante, porque, hoje em dia, as técnicas e as possibilidades de uma cirurgia plástica são vastas. Você pode praticamente... se tem um canvas ali, você pode fazer o que quiser. Mas aí eu queria saber: até que ponto isso, ou no futuro, ou na sua cabeça, ou em qualquer coisa do tipo, você vê uma junção com a arte? Porque você vê, assim, um pintor, por exemplo: vamos pintar uma mulher linda, a Vênus de Milo, alguma coisa assim. Porque você tem que ter uma certa sensibilidade artística para ver o que é bonito, o que não é, o que é estético, o que não é. Como é que entra essa parte?
Dr Marcelo Daher: [22:45] Pois é, Eron. Eu costumo dizer a outros médicos e outros colegas que a plástica é uma mistura de estudo da parte artística, porque essa visão do belo é uma coisa que tem que estar na alma da gente. Você vai me perguntar qual é a definição do belo, não sei, depende da cultura. Por exemplo, na África, você pode pegar uma tribo de africanos que perfuram a pele com agulha e elas acham bonito aquilo. Aqui no Brasil não achamos nada bonito. Nós gostamos de ver uma mulher gostosa, bonita, na praia, de biquíni e tal, com a pele lisinha e tal, é tudo beleza. Mas você imagina que uma mulher pode fazer perfurações na mão e no corpo para ficar com a pele cheia de queloide? Você vai me perguntar: mas isso é bizarro? Não é bizarro, porque na tribo dela eles acham isso bonito. E os índios colocam a cola no nariz.
Eron Falbo: [24:03] Essa é a parte cultural. O que eu queria perguntar para você é o seguinte: chega uma mulher e diz "eu quero melhorar XYZ, a minha someceira, a minha tacinha". Você tem que ter uma certa sensibilidade artística no sentido de até que ponto, até onde, o que é belo, qual a expectativa dela, porque isso te faz uma pessoa mais procurada, um médico mais procurado.
Dr Marcelo Daher: [24:35] Não tenho dúvida, é claro. Não pode ser um médico apenas cirúrgico, viu, Eron? Ele tem que ter a habilidade manual do manejo, ele tem que ter a capacidade da artesania e tem que ter a capacidade artística de perceber o que é o belo, o que é indicado e o que não é indicado. Essas três qualidades devem ter no cirurgião plástico. Mas tem uma mais importante, que eu gostaria de lhe falar, porque essa sua entrevista é muito boa, ela tem um caráter educativo para todos que estão nos assistindo. Eu, atualmente, sou o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, da Regional aqui do Rio de Janeiro, e tenho insistido que a nossa questão maior é uma questão de educar. Não só os pacientes, como também os médicos têm que ser educados, porque o médico não pode ceder, porque a mulher é teimosa. Se você diz para ela que não deve fazer isso, ela vai teimar e dizer que quer, então vai procurar outro que faça. Por exemplo, nós temos tempo para dar uma explicação curiosa?
Eron Falbo: [26:01] Por favor, claro, claro, muito.
Dr Marcelo Daher: [26:03] Essa última vez que eu estive lá no Líbano, quando eu desci do avião para passar pela alfândega, eu quase tive um colapso de tanta mulher com o lábio preenchido. E são mulheres bonitas, lindas, mas com o lábio assim, beiçudas. Aquilo me causou um choque. Quando cheguei lá no congresso, comentei com os médicos e disseram que não deviam fazer o preenchimento labial das mulheres, porque fica uma coisa muito feia, exagerada. As mulheres ficam parecendo ETs. Aí sabe o que eles disseram? "Doutor Marcelo, não adianta, porque a gente manda elas não fazerem isso, elas batem na porta ao lado", e fizeram esse gesto: "batem na porta ao lado até que haja um médico que faça o que elas querem fazer". Então é assim, o médico tem que ter... por isso que eu digo, essa questão psicológica do cirurgião plástico, esse entendimento da psicologia, é muito importante. Você tem que entender a criatura para poder convencê-la do que é o melhor para ela.
Eron Falbo: [27:33] Existe um problema na nossa era, na era da informação, que a gente tem acesso a tanta coisa, que às vezes a gente tem um capricho, né? A gente tem uma coisa assim: "ah, eu vi umas fotos, eu gostei", e aí você cria uma identificação, "eu quero muito ir para o Taiti". Aí você fica com isso na sua cabeça pro resto da vida, porque você viu uma foto, que talvez, assim, em outra era, você nunca ia ter visto uma foto do Taiti, e não ia fazer diferença nenhuma na sua vida. Para as mulheres, muitas vezes, elas veem um monte de mulheres diferentes, veem o Instagram, de um monte de gente, aí falam: "pô, essa mulher tem o lábio muito bonito", mas às vezes ela é uma loira alemã, descendente polonesa, sei lá, e tá olhando para uma negra que tem um lábio mais robusto que ela, que não ficaria bom nela, mas ela ficou obcecada com aquela coisa de lábio sensual, porque viu uma foto e não tá adaptada ao corpo dela, ao jeito dela, ao biotipo racial.
Dr Marcelo Daher: [28:42] Acontece frequentemente. Veja, você tem que ver que é interessante essa questão da prótese mamária. A mulher vem para fazer uma consulta, geralmente é uma jovem. Então você a examina, analisa todas as dimensões, vê as tendências dela. Aí você diz que deveria colocar... eu nunca digo tal número, mas por volta de... Por exemplo, aqui na nossa clínica, nós experimentamos três tamanhos: o que foi indicado, um acima e um abaixo, para ver o que ficou melhor. Mas é matemático: ela já tem na cabeça um número. Ela tem uma amiga que ela viu e perguntou quanto você botou, ela falou que botou 330. Esse número bate lá dentro do cérebro dela e fica gravado. Mesmo que você queira contrariar, você às vezes quebra a cara. E às vezes você opera mãe e filha, ou duas irmãs. Há uma competição, você tem que mais ou menos respeitar isso, sabe? Você não pode falar: "a sua ficou melhor com 330, para você fica melhor com 270". Ela briga com você, porque tem uma competição.
Eron Falbo: [30:25] Tem que ganhar, tem que ser maior, tem que ser mais voluptuoso.
Dr Marcelo Daher: [30:30] Mais ou menos isso.
Eron Falbo: [30:34] E é isso, eu juro, que a minha pergunta dessa coisa do artista dentro de você como médico é porque, pelo que eu estou vendo, você não tem muito espaço para, vamos dizer, mudar a opinião, para lapidar, porque se eu chegasse para o Michelangelo e falasse assim: "o meu Davi, eu quero com os braços maiores"... Eu tenho uma sensibilidade estética, eu gastei 20 anos fazendo a apprenticeship para poder desenvolver, e você sabe menos que eu, então eu vou botar os braços que eu acho melhor. Então, assim, os médicos chegavam lá para o Rafael, para o Leonardo da Vinci, e criavam o negócio de um jeito. Os médicos não iam chegar e falar que queriam mais vermelho aqui, eles iam falar "quem é o artista aqui é o Leonardo da Vinci". Até que ponto você não sentia que deveria ter mais a dizer nisso?
Dr Marcelo Daher: [31:47] Eron, essa pergunta é muito boa. Vou fugir um pouco dela, vou te explicar por quê. É porque temos limites anatômicos. Por exemplo, o Da Vinci... vamos dizer que ele estivesse fazendo uma escultura, a escultura não tem limite. Você tem um bloco de mármore na sua frente, ou de gesso, e você vai fazer da forma que melhor lhe aprouver. O cirurgião não é assim, ele tem um limite, claro, dentro de certo limite. Mas, por exemplo, se eu quiser avançar um pouco o sinal, vou esbarrar num nervo, numa artéria ou numa estrutura nobre que não posso, não posso contrariar, não posso tocar. Por isso é que surgiu o termo "escultura na matéria viva". Ou seja, você esculpe a forma dentro dos seus limites anatômicos, diferente do Da Vinci, porque ele não tem limite, ele tem um bloco de pedra, e ele faz o que ele quiser com o bloco de pedra. Do bloco de pedra não sai sangue em lugar nenhum. Então, nós temos esse limite, e o cirurgião tem que aprender a trabalhar com as pedras, com as armas que tem. Senta bem.
Eron Falbo: [33:30] O que eu quero dizer com isso, além de...
Dr Marcelo Daher: [33:34] Essa pergunta, viu? Então...
Eron Falbo: [33:38] Aí, o que eu quero dizer é o seguinte: mesmo dentro desses limites que você... Oi?
Dr Marcelo Daher: [33:47] Oi?
Eron Falbo: [33:49] Cortou um pouquinho, tá cortando, não consigo te ouvir.
Dr Marcelo Daher: [33:53] Alô? Alô, agora tô te ouvindo. O negócio do início da entrevista: quando falamos na plástica eutrófica, por exemplo, ela produz, na minha avaliação, resultados melhores, porque são mais naturais, não fica com a aparência de que está tudo esticado, e você respeita melhor a forma anatômica. É uma forma que o cirurgião plástico tem de expressar sua arte, porque uma cirurgia plástica não é uma receita de bolo. A receita de bolo, você vai na casa da sua avó, ela diz que é uma torta deliciosa, ela diz assim: bota uma colher de farinha, outra colher de farinha, dois ovos, tarará, tarará, tarará, mexe tudo, bota no forno. Mas uma cirurgia plástica não é assim, ela tem as delicadezas e as pequenas filigranas que cada um consegue fazer no sentido de melhorar e ter o melhor resultado. É essa que é a expressão artística, vamos dizer. Ela não é, vamos dizer, sem limites, como, por exemplo, um pintor ou, vamos dizer, um escultor, porque ele tem limites anatômicos que devem ser respeitados.
Eron Falbo: [35:35] Exatamente, isso eu entendo, mas eu acho que minha pergunta era uma, vamos dizer, uma analogia de aproximação, não tão exata. Então, o que eu quis dizer, na verdade, é que se você vai fazer um preenchimento de 300, 330 ou 270, eu não sei como é que seria o visual disso, não tenho ideia, mas você tem que ter a sensibilidade do que vai ficar bonito para aquela pessoa especificamente. Então, igual você olha para uma pedra, assim, Da Vinci está olhando para uma pedra, ele tem a sensibilidade de artista de ver o que aquele material pode trazer. Então, assim, você olha para uma mulher que é talvez mais gorda, mais magra, e você, com a sua sensibilidade, com a sua experiência, você vê até que ponto eu posso esculpir aquilo, até que ponto vai ser exagerado, até que ponto vai ser talvez imperceptível. E eu acho que, na verdade, ao contrário de Davi, por exemplo, que você pode pegar uma pedra, jogar fora e pegar outra, você está lidando com um ser humano que vai carregar aquela arte que você vai entregar a ela, ela não vai poder ter a escolha de tirar da parede, tirar do quarto e botar em outro lugar. Ela vai carregar consigo. Então é uma arte com muito mais responsabilidade.
Dr Marcelo Daher: [37:09] Sim, não tenho dúvida. Entendimento é uma coisa muito difícil, porque... é por isso que hoje em dia dizemos que a cirurgia é plástica. Muitos médicos não aceitam mais clientes que aparecem assim do nada, só aceitam pacientes que são indicados. Por que isso? É porque o paciente que foi indicado depende de uma pessoa que tem grande confiabilidade, porque, a um determinado momento, ele tem que emitir, pronunciar uma frase. Isso não pode ser.
Eron Falbo: [38:03] Eu não tô mais conseguindo te ouvir. Então, você estava falando aí da sutil arte de saber o que você está fazendo.
Dr Marcelo Daher: [38:15] Em outras palavras, nós temos um problema hoje muito grande, que é o Google. Então, a pessoa vem com uma série de informações e você tem que ter uma certa moral em determinado momento para dizer que isso não é o melhor caminho. Isso não é possível. Mas ela diz: 'Como que eu vi uma mulher que ficou linda, que fez essa técnica?' Então, em outras palavras, é uma pessoa que tem que ter credibilidade para poder dizer sim ou não. Por isso que esses pacientes que vêm do espaço, do nada, muitas vezes são rejeitados, que a pessoa chega pra você com uma série de informações errôneas e vícios. Aí não dá pra você explicar o que tem que ser. Agora tem uma outra que vem que diz assim, por exemplo, que é essa que operou há três dias atrás: 'Doutor, o senhor faz o que for necessário, que eu confio plenamente no que você fizer.' E pronto.
Eron Falbo: [39:33] Aí é bom.
Dr Marcelo Daher: [39:34] É bom, mas eu tenho que ouvir também a vontade dela para ver o que ela deseja.
Eron Falbo: [39:40] Mas por isso que você tem o nome que tem e que as pessoas te procuram, né? Porque você claramente ouve, né? E você, então, recomendaria que as pessoas... É claro que é uma faca de dois gumes, porque também tem muito médico charlatão, muito médico que está iniciando, que talvez não tenha essa sensibilidade e tudo mais. Então, acho que a recomendação é dupla: que as pessoas procurem bons médicos e que confiem nesse médico, procurem uma boa indicação.
Dr Marcelo Daher: [40:25] Inclusive, essa aula também serve para os médicos novos. Aqui está na minha frente o Álvaro Dyer, que é meu filho, que é cirurgião plástico, junto com a minha equipe, são quatro cirurgiões plásticos aqui na clínica. E nós trabalhamos em conjunto. E eles todos aprendem isso: é preciso ouvir o paciente, é para você tentar acertar, é preciso entender a alma da pessoa. Aí, sim, você faz um bom diagnóstico.
Eron Falbo: [41:02] Como é esse processo de ouvir, de entender? Porque isso é muito interessante para a gente que não está no dia a dia disso. Que sensibilidade você precisa ter para entender o que a pessoa realmente quer? Porque, às vezes, a própria pessoa não tem a habilidade de expressar isso muito bem.
Dr Marcelo Daher: [41:20] Eu, por exemplo, na prótese de silicone, tenho acertado em 95%. É difícil, mas tenho acertado bastante. Agora, isso é um treinamento que você tem que ter ao longo de anos e tal. A cirurgia plástica não é só a pessoa saber fazer uma técnica. É por isso que eu digo, hoje em dia, Eron, está uma febre de dentistas e médicos clínicos, e até dermatologistas, radiologistas e tal, fazendo operações. A gente condena fortemente, porque esse trabalho cirúrgico é uma coisa que vem ao longo de décadas. Não foi, por exemplo, um dentista que inventou esse negócio da harmonização facial, que, na verdade, é o que fazemos a vida inteira. Agora, cria-se uma publicidade em cima da divulgação. E o CRM às vezes me liga dizendo: 'Doutor, o senhor quer que feche a clínica de tal pessoa?' Eu digo: não, pelo amor de Deus, não quero que feche a clínica de ninguém. Cada um tem a sua responsabilidade. Eu poderia solicitar uma intervenção dessas, mas eu tenho optado por educar os pacientes. Ou seja: quando você vai tratar de dente, você vai ao dentista. Quando você vai tratar da sua pele, para ter um creme na pele, você vai a uma dermatologista. E quando você vai fazer uma operação no nariz, para deixar o nariz um pouquinho mais arrebitado, mais bonitinho, parecendo o Alain Delon... Tem o Alain Delon e tem o Alain Delon. Mas aí você procura um cirurgião plástico. Se você procurar um dentista...
Eron Falbo: [43:32] O que você acha? Você acha que tem esperança aí pro meu nariz, ou não?
Dr Marcelo Daher: [43:36] Ah, você tem um nariz bonito, rapaz. É meio que um botelo. É bonito.
Eron Falbo: [43:43] Nunca ouvi isso antes, mas obrigado. Vindo de você, eu vou me sentir até um príncipe.
Dr Marcelo Daher: [43:54] É ajeitado, porque combina com o rosto. Pode ser que um retoquezinho aqui, outro ali, uma coisinha, mas, de maneira geral...
Eron Falbo: [44:01] Agora tá piorando.
Dr Marcelo Daher: [44:03] Eu achei que tava indo bem. Se for no cirurgião plástico, vai ter o Alain Delon. Agora, se for fazer com dentista, vai ter o Alain Delon.
Eron Falbo: [44:15] Muito bom, muito bom.
Dr Marcelo Daher: [44:17] É uma brincadeira.
Eron Falbo: [44:19] Uma coisa que eu queria te perguntar, que eu fiquei curioso, é que a gente viu numa entrevista você falando, não sei se foi agora, em que momento, mas... a sua opinião geral sobre a questão do tratamento do Covid, de como foi visto, todo esse problema de OMS versus governo versus STF. Qual é a sua posição?
Dr Marcelo Daher: [44:51] Eu, sempre que posso, nessas palavras minhas dirigidas ao público, em meu nome mesmo e, às vezes, representando a minha associação, procuro dar uma explicação sobre essa questão da virologia, que foi uma coisa que atingiu a gente profundamente. Você sabe, tem uma imiscuidade entre a questão médico-científica e a questão política. E a questão médica tem levado desvantagem nessa luta aí, porque a parte política tem prevalecido um pouco. Isso é um absurdo, é uma ignomínia, porque, em vez de as pessoas procurarem ser humildes e entenderem os governantes... Agora está aí sendo publicada uma série de artigos. Não adianta ficar jogando pedra em todo mundo, entendeu? O presidente, o governador, o prefeito têm feito esforços dentro das suas medidas. Eu, por exemplo, conheço vários países do mundo e vários sistemas médicos do mundo. Eu posso lhe assegurar que o nosso sistema médico, o SUS, é muito competente, para começar que atende 220 milhões de pessoas. Você vai nos Estados Unidos, não é bem assim como aqui no Brasil, não. Tendo dinheiro, você é atendido. Não tendo, não é atendido. Então, eu não acho ruim que falem mal do SUS, sabe? É claro, tem que melhorar umas coisas aí. Tem que diminuir a corrupção, e a coisa tem que ir sempre pelo lado social. Eu não acho que o governo tenha feito mal. Esse negócio das vacinas está meio complicado, porque eles foram os primeiros a dar dinheiro para a AstraZeneca, parece que deram 100 milhões, e depois não receberam as vacinas. E a vacina da Pfizer? O problema é que o presidente não quis aceitar a tal cláusula de o laboratório não ter responsabilidade sobre efeitos colaterais. Eu, pessoalmente, acho que ele estava errado, porque se o FDA americano usou a vacina, a Inglaterra usou, a Alemanha usou, Israel usou, com resultado, por que não fazer logo o negócio para aplicar aqui no Brasil? Foram querer criar dificuldades burocráticas. Tem pequenos erros aí, mas, de maneira geral, não acho que o Brasil esteja tão mal assim, não. Nesse ranking mundial, ele está aí no 22º lugar, mais ou menos. Não está muito mal, não. Está bem na foto, viu? Agora, o que eu te pergunto é o seguinte: o mundo está de novo às portas de uma guerra. Você está vendo aí os porta-aviões americanos indo para o sul da China. A qualquer momento pode eclodir um conflito de proporções mundiais. Lá no Oriente Médio, mesma coisa: negócio de armas, mísseis, aviões etc. Eu pergunto para vocês: esses bilhões de dólares que gastam com as armas... Porque as armas não dão vitória a ninguém, você sabe disso. Hoje um país tem uma arma, amanhã o outro tem a mesma arma. Eu não acho que vai ser sempre um que tenha mais arma que os outros, não. Você viu lá agora, em Nagorno-Karabakh, na Armênia, deram armas poderosas para os dois lados, e, no fim, não tinha nem ganhador ou vencedor, porque acabou predominando uma facção com os drones que Israel e a Turquia mandaram para eles. Mas isso é hoje; amanhã os outros têm as mesmas armas, a mesma coisa, não tem diferença. Então, a solução que existe é criar canais de comunicação que pudessem ser discutidos, e criar um ambiente pacífico para que todos pudessem viver. E esses bilhões de dólares que gastam comprando mísseis... Você sabe quanto custa um drone daquele, Eron?
Eron Falbo: [49:22] Eu sei que só para voar um caça de guerra custa milhões de dólares. Só para fazer um voo.
Dr Marcelo Daher: [49:34] Tem um drone americano que é o... é o bam-bam-bam de todos os americanos, custa US$ 180 milhões. Sendo que, para fazer uma faculdade, você gasta US$ 1 milhão. Para fazer uma universidade, você gasta US$ 10 milhões. Vê se tem lógica uma coisa dessa. Quer dizer, as pessoas pensantes precisam convencer esses indivíduos bárbaros, brutais e burros.
Eron Falbo: [50:08] Existe uma questão complexa, que é a hegemonia mundial. No momento em que existem dificuldades ideológicas, como a China sendo um pouco mais para o lado do comunismo, e não o mundo agro, o mundo árabe sendo contra certas crenças e tudo mais, como você tem esses impasses aí, existe uma proteção, que aí vira aquela guerra fria que as pessoas vão construindo. E, realmente, você tem uma resposta.
Dr Marcelo Daher: [50:54] O Kennedy disse uma frase curiosa, que era: 'o preço da liberdade é a eterna vigilância'. Foi dito pelo Kennedy, o John Kennedy, do meu tempo. Mas é o seguinte, eu concordo em parte, porque senão você vai viver a vida inteira de olho no vizinho, se o vizinho vai te atacar, vai te matar. Não é possível.
Eron Falbo: [51:20] Mas o ponto não é só atacar. Existe um problema. Vamos dizer que a China, agora, no Covid, eles se resolveram muito rapidamente, compraram um monte de empresas dentro da Europa, dentro da América do Norte, etc. E daqui a pouco, aos poucos, eles vão instalando culturalmente ideologias e culturas chinesas dentro do Ocidente. E a gente vai perdendo, a longo prazo, certas, vamos dizer, liberdades culturais e até a herança cultural que a gente tem a longo prazo. Então não é só uma questão, essa vigilância; às vezes não é só uma questão de prezar pela sua própria vida, é prezar pela história do povo.
Dr Marcelo Daher: [52:08] Eu concordo contigo, mas eu queria deixar uma mensagem seguinte: não é uma semana, um mês, um ano que você vai resolver isso. Mas é assim, em vez de optar por armas, tem que optar por negociação. É claro que as armas vão ter que existir, mas não assim como está essa corrida maluca. Mas você vê, o Trump quebrou a torpete dos chineses com o negócio da diminuição das alíquotas, com o aumento das alíquotas de importação. Pronto, já foi uma coisa satisfatória, não precisamos mandar agora porta-aviões. Ontem, o Gorbachev, não sei se você chegou a conhecer, lembra dele? Mikhail Gorbachev, o criador da perestroika. Ele ligou para o presidente dos Estados Unidos, o Biden, e ligou para o Putin, da Rússia. Sabe o que ele falou? Cuidado, que vocês estão a um passo de um conflito nuclear. Se eu falar isso ou você falar isso, tem um peso, né? Agora, se o Gorbachev falar isso, pô, é porque a coisa tá muito perigosa, realmente. Entendeu? Então, fica a mensagem, gente, que em vez de...
Eron Falbo: [53:29] É, eu estou com você 100%, que existe um perigo, só que as respostas não são claras, a gente não sabe o que está por trás. Essa coisa do Covid teve muitas coisas misteriosas, muitas coisas mal contadas. Então, às vezes, é até difícil a gente opinar nesse sentido. Infelizmente, a gente está começando agora uma parte do assunto que até tem muito pano pra manga, mas ia ser muito interessante. A gente continua, outro dia, tomando uma cerveja, alguma coisa assim. Agora está acabando o nosso tempo. Eu só queria, antes de a gente terminar, de você falar um pouquinho sobre a clínica e as diversas coisas que vocês fazem aí, para a gente chamar as pessoas que não são completamente loucas, que são sensatas, que vão fazer um bom trabalho, a irem visitar vocês.
Dr Marcelo Daher: [54:27] Será um prazer. Eron, é o seguinte: durante a pandemia, a gente operou normalmente. Só paramos naquele mês mesmo, março e abril, que foi agudíssimo, a questão da crise, e paramos um pouco. Mas chegamos a operar na faixa de 25, 30 pessoas por mês, mais ou menos, tomando todos os cuidados, máscara, luvas, fazemos o exame do Covid para ver se a pessoa tem alguma coisa. A gente fez muitas dessas operações pequenas da pele, pequenas tumorações que aparecem no rosto, e as pessoas não queriam parar e esperar o fim da epidemia. Fizemos muitas dessas operações nas pálpebras, no nariz. Fizemos cirurgias estéticas também de mama, de abdômen, de face, de plástica de pálpebra, é muito procurado. Mas, assim, tomando um cuidado excessivo, sem nenhuma irresponsabilidade. A gente fez tudo com muita calma, com muito cuidado. Algumas pessoas procuravam aqui dizendo que não queriam operar em hospital, porque tinham medo de pegar essa doença lá. 'A gente escolheu uma clínica', diziam. Eu digo que não, mas não é só por isso que você vem operar aqui, se for assim, você pode convidar o seu médico para vir operar você aqui. 'Não, mas nós queremos operar com você, porque a gente já conhece...' Então, teve um movimento razoável. Não vou dizer que era como antes da epidemia, claro que não. A gente está meio que reorganizando as coisas, mas tem um volume considerável, e estamos abertos e rezando para que essa questão da vacinação seja mais rápida um pouco e a gente possa voltar à normalidade. Eu acredito que, em dois ou três meses, terá um número razoável de vacinas e que a gente vai poder... Acho que toda a população, não só nós que somos médicos, tivemos o privilégio de ser vacinados antes, mas, se Deus quiser, toda a população será vacinada. É isso que a gente quer acreditar. Amém.
Eron Falbo: [56:44] É isso, então. O centro clínico fica onde? Só para a gente anunciar aqui para...
Dr Marcelo Daher: [56:52] Para o pessoal que quiser achar: fica no Jardim Botânico. Só para você ter uma ideia, é uma das poucas clínicas de plástica que continuam vivas ainda. Funciona desde 1990, até hoje, 2021, são 31 anos.
Eron Falbo: [57:17] E vocês têm alguma especialização, alguma coisa que vocês indicam especialmente, que vocês fazem melhor?
Dr Marcelo Daher: [57:23] O carro-chefe nosso aqui é a cirurgia da face, como eu tinha explicado no começo. Mas, assim, a plástica tem umas fases. Por exemplo, a lipoaspiração atropelou todo mundo, é o número disparado maior de tudo que é feito em plástica. Depois vieram as próteses de silicone e também atropelaram todo mundo, é um número altíssimo de demanda por próteses de silicone. Vai por aí a forma. Então, a gente está polivalente, vamos dizer, nesses procedimentos. Estou aberto aqui, vou te convidar um dia para vir aqui, se você quiser, será um prazer, tomar um café, para conhecer as instalações e para estreitar mais a nossa amizade, que já tinha sido começada pelo conhecimento que eu tenho do seu trabalho, e agora nos aproximamos mais um pouco. Muito obrigado, doutor. Vamos ver se depois a gente continua essa amizade no Amiral Barra, é um barco que está aí à disposição para a gente fazer uns passeios. Muito obrigado, muito obrigado. Está bom? Muito obrigado, doutor.
Eron Falbo: [58:39] E obrigado por aceitar o meu convite, obrigado pela conversa e pela sua disposição generosa.
Dr Marcelo Daher: [58:46] Tá bom, eu que agradeço, muito obrigado.
Eron Falbo: [58:49] Valeu, tudo de bom, gente. Boa noite a todos.
Dr Marcelo Daher: [58:51] Tudo de bom.
Eron Falbo: [58:52] Um abraço.
Dr Marcelo Daher: [58:53] Tchau, tchau.
No Alvo com Eron Falbo · episódio #69 · todos os episódios