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#67 O passado presente

com Miguel Salles · 24 de fev de 2021

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Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Abertura e cenário improvisado (0:00)

Eron Falbo: [0:05] Alô, alô, pessoal! Sejam bem-vindos! Você entrou no Alvo, eu sou o Eron Falbo e hoje a gente está com Miguel Salles. Miguel é um economista de formação, mas é o proprietário da Miguel Salles Escritório de Arte e Casa de Leilões. Fala, Miguel!

Miguel Salles: [0:27] E aí, cara?

Eron Falbo: [0:29] Beleza?

Miguel Salles: [0:31] Eu estou aqui equilibrando o celular, está uma tarefa árdua.

Eron Falbo: [0:35] É, isso aí é o que todo mundo faz, né? Todo mundo tem que comprar aqueles negocinhos, ver se acha no leilão um suporte para celular.

Miguel Salles: [0:47] Eu vou procurar um leilão de arte antiga da época romana.

Eron Falbo: [0:54] Essa parede aí atrás, qual é a explicação? Parece assim uma...

Miguel Salles: [1:01] Não, é uma montagem que eu fiz aqui para... Você tá me ouvindo?

Eron Falbo: [1:07] Tô te ouvindo, tô te ouvindo. Tá ótimo. Sim, sim, tá ótimo.

Miguel Salles: [1:09] É uma composição que eu fiz, né, pro nosso evento. É um amigo meu que... Tá me ouvindo?

Eron Falbo: [1:20] Tô te ouvindo, tô te ouvindo. Mas esse negócio aqui é atrás de você que eu tô falando. Não sei se...

Miguel Salles: [1:24] Esse quadro?

Eron Falbo: [1:26] É.

Miguel Salles: [1:26] Esse quadro é de um amigo meu de São Paulo. Ele lavava carros, continua fazendo algumas tarefas muito simples. É um cara bem simples, mas é um amigão meu, o Branco. Então, eu resolvi homenagear o Branco hoje, porque ele é um mais. Ele está expondo em Milão, está expondo em vários lugares. Coloquei uma arara também muito bacana, que eu gosto, do Manuel da Marinheira, de arte popular. É só para a gente se divertir, com alegria, ao fundo.

Eron Falbo: [1:58] Você fez um cenário, uma cenografia só para a gente aqui?

Miguel Salles: [2:03] Fiz, claro. No mínimo, né? Obrigado.

Brinde e apresentação de Miguel Salles (2:06)

Eron Falbo: [2:06] O que é isso mesmo?

Miguel Salles: [2:06] Sabe por quê? Eu tinha acabado de pintar a casa, não tem nenhum quadro na parede ainda. Eu tive que fazer uma improvisação para vocês e para todos, para a gente se divertir.

Eron Falbo: [2:17] Valeu! O pessoal aqui, com certeza, está honrado, porque esse público aqui, é a primeira vez que acontece isso. Se para você é o mínimo, você deve estar acostumado com outros padrões. Aqui não tem nada disso.

Miguel Salles: [2:31] Mas está tudo bem, eu fico muito contente que você, pelo menos, comentou e gostou.

Eron Falbo: [2:37] Que ótimo, que ótimo. Graças a Deus que eu comentei, porque senão ia ser antes feita. Mas vamos botar o nosso vinho aqui pra gente... Você tá com um vinho aí, não? Vamos tomar um vinho?

Miguel Salles: [2:47] Eu tô com um chardonnayzinho aqui, porque você falou que queria brindar, eu queria brindar, não com água e tal. É, você tá com chardonnay também.

Eron Falbo: [2:55] DV Catena. É o mais popular aqui no Rio.

Miguel Salles: [2:57] Olha que legal, cara. Eu tô com o da Casa Perini, mas daqui a pouco eu trago a garrafa pra lhe mostrar, mas de qualquer maneira, vai um brinde aí pra você.

Eron Falbo: [3:07] Vou botar aqui. Olha que eu sou bebedor de vinho.

Miguel Salles: [3:11] Eu tô tomando um vinho super gostoso, que eu descobri essa semana, que se chama Fração Única. Eu não tô aqui pra fazer propaganda de vinho, mas enfim... tem que dizer o que é bom, né? E a gente tá numa conversa entre amigos e, enfim, uma conversa íntima. Então esse Fração Única é uma delícia. É um chardonnay perfumado, enfim... qual é o nome mesmo?

Eron Falbo: [3:29] Qual é o nome?

Miguel Salles: [3:29] Desculpa. Fração Única, da Casa Perini.

Eron Falbo: [3:33] Então, uma das minhas regras aqui no programa é que, assim, propaganda de graça, de coisa boa, é uma coisa que falta no mundo, entendeu? Tudo é pago, é tudo amarrado, é tudo... Então, assim, isso eu acho uma coisa muito legal. Então, você pode fazer quando você quiser, que marca que você quiser...

Miguel Salles: [3:51] Não, não vou fazer sem querer, não vou fazer quando eu quiser. Eu falo porque realmente é uma coisa legal.

Eron Falbo: [3:57] E, assim, se for pago, tem que ser pago muito bem, entendeu? E aí não importa a marca, pode ser qualquer merda. Se for muito dinheiro, não tem problema.

Miguel Salles: [4:09] Saúde, saúde.

Eron Falbo: [4:11] Saúde, saúde. Desculpa, a gente nem brindou. Saúde, saúde. Tudo de bom aí. A nossa conversa maravilhosa que vai acontecer daqui a pouco.

Miguel Salles: [4:19] O seu tem mais madeira do que o meu, hein?

Eron Falbo: [4:21] É mesmo? Olha só, pô, sabe visualmente assim, ó.

Miguel Salles: [4:24] É claro, porque o seu é mais amarelo, ficou mais tempo na madeira.

Eron Falbo: [4:28] Isso é chique, porque eu só me visto bem, mas eu não sei nada dessas coisas. A gente estava conversando antes aqui, a gente tem um amigo em comum, o Antônio Henrique Cunha Bueno, que é um dos grandes colecionadores do Brasil, a casa dele é uma loucura.

Amigo colecionador Cunha Bueno (4:32)

Miguel Salles: [4:49] Eu fui almoçar com ele em São Paulo, eu até estava conversando com você, foi um pouquinho antes da pandemia. E o Cunha Bueno fez um almoço super legal.

Eron Falbo: [5:01] Eu tava morrendo de inveja, pô, que ele te encontrou durante a pandemia. Pô, antes da pandemia eu também encontrei ele, aí é fácil.

Miguel Salles: [5:07] Exatamente, não foi antes, sim. E ele tem na casa dele uma coleção espetacular, uma coleção monárquica, muito importante, brasileira. E tem, enfim, uma coleção de armarias absolutamente importante. Mas é um cara que tem um fashion incrível, porque também tem turbinas de 7.0.

Eron Falbo: [5:27] Isso é a esposa dele, a neta que faz essa decoração.

Miguel Salles: [5:36] Ele gosta também do trenzinho gráfico dele com tudo, é muito legal.

Eron Falbo: [5:44] A Nathalie foi minha mãe que convenceu ele a comprar esse trenzinho.

Miguel Salles: [5:49] Você tem um padrinho espetacular. E eu tenho um amigo que é meu amigo também, enfim, empresadista.

Eron Falbo: [5:56] Ótimo. Então, quando você diz importante, assim, é uma curiosidade minha, quando você diz uma coleção importante, o que você quer dizer para o pessoal aí que não entende.

Miguel Salles: [6:03] Muito de... Uma coleção importante é uma coleção que tem um plus em relação à média, ela tem um diferencial, ela provém de um esforço maior, de uma dedicação, temporal numa vida, numa dedicação mais extensa, entende? Então, é quase que um empréstimo, uma parcela da vida da pessoa, aquilo. O que faz daquilo uma coisa importante, entendeu? Porque é quase como se fosse uma missão, enfim, com todo o respeito à dimensão da coisa, mas que transmite uma... Transmite, enfim, uma vibração, transmite, enfim, uma importância. De fato, pelo esforço, pelo carinho, pelo amor, por tudo que a pessoa entregou durante tanto tempo aquilo. E foi o que o Cunha Bueno tem feito, fez e tem feito. Verdade.

Eron Falbo: [7:00] Ele é viciado, na verdade. Acho que a esposa dele está tentando impedir ele de ir mais longe para não deixar a casa...

Miguel Salles: [7:10] Daí eu não entro, eu não estou sabendo.

Eron Falbo: [7:13] Tô brincando, tô chutando isso também, mas imagino. Porque toda vez que eu vou lá, ele fica... Ele é pra ficar conversando com você, mas ele fica lá no leilão online, no... Fica. Ele fica fingindo que ele tá te ouvindo. Muito bom. Mas eu estou falando isso, adoro ele, é uma grande influência na minha vida, algo que me convenceu que a monarquia não era só saudosismo banal. Uma das coisas que eu queria conversar com você, na verdade, era o fato de você ter sido... O que você era da CVM mesmo?

Trajetória na CVM e mercado financeiro (7:47)

Miguel Salles: [7:53] Não, eu sou economista de formação, me formei em economia, administração, e... O telefone aqui está me preocupando um pouquinho. Eu me formei em Economia e Administração e trabalhei no mercado financeiro durante um bom tempo e terminei na Comissão de Valores Imobiliários, tendo uma trajetória durante uns oito anos, sete, oito anos. Foi nos rios da década de 80, na época muito difícil brasileira, com crise cambial, falta de reservas cambiais, enfim. E foi muito divertido, foi muito fascinante. Enfim, é uma experiência que eu guardo até hoje, com um valor enorme na minha vida. Eu vou segurar o telefone, que ele funciona melhor assim. Fiquei um pedaço de diretor.

Eron Falbo: [8:46] Ah, foi diretor.

Miguel Salles: [8:48] Foi diretor e tive a honra de ser presidente durante quatro meses. Meu amigo, que era presidente, o Luiz Otávio da Motavega, um rapaz brilhante, né, que eu dileto amigo até hoje. Enfim, ele precisou se ausentar e me deixou durante 4, 5 meses na presidência. E depois veio o doutor Arnoldo Valdi, eu fiquei mais um tempo com ele para fazer um handover, uma passagem profissional do meu trabalho, enfim, do que nós tínhamos de experiência aqueles anos todos. Na verdade, a gente lançou... Havia uma crise cambial muito forte, não haviam reservas brasileiras, nós lançamos o Fundo Brasil na Bolsa de Nova Iorque, Fizemos a conversão da dívida em capital de risco e começamos a abrir o Brasil para a globalização, que é uma tendência inevitável e que, se bem conduzida, fará do mundo uma nação só. Essa era a minha crença quando eu tinha 32 anos e essa foi a época em que eu curti isso, foi um período maravilhoso. Eu me ausentei do mercado de arte, perdi muita grana, claro, porque... Quando eu voltei, eu voltei completamente desatualizado e comecei a comprar coisas caríssimas, fora do preço, porque achava que... Quer dizer, caríssimas, fora do preço, porque achava que a moda tinha... O gosto tinha mudado, as cotações eram outras e tal, então eu me readaptei.

Eron Falbo: [10:14] Eu falei isso para uma amiga hoje, uma amiga superquerida, que eu conversei sobre... Ela estava me pedindo conselhos financeiros e tudo mais, e eu falei justo isso hoje. Porque as pessoas, quando pensam de preços baixos ou altos, estão acostumadas, assim, numa feira, assim, que, assim, sabe o preço de uma banana e é meio que preço... Eles pensam de uma... As pessoas, no geral, pensam de uma forma absoluta. Mas quando a gente está falando no mercado financeiro, a gente pensa barato significa alguma coisa que o valor não está justo. O valor, na verdade, é maior, só que o preço está mais baixo do que o valor que você julga ao olhar. Então você julga que é mais barato aquele papel, vamos dizer.

Preço versus valor no mercado de arte (10:26)

Miguel Salles: [10:59] É muito interessante o que você está falando, Eron, porque os meus clientes me perguntam quanto vale isso. Eu digo hoje ou quando. Com a revolução das comunicações, com esse dinamismo todo que nós temos hoje, comunicativo mundial, as coisas mudaram muito. Então, o mercado de artes, ele tem um lado que é um pouco fashion, o que não me agrada tanto, mas é uma realidade que a gente não pode subverter, a gente não pode subtrair. Então, hoje uma coisa vale, nós estamos no mês de fevereiro, Portanto, pode ser que em abril ela tenha uma cotação diferente a mais ou a menos. Depende muito dos participantes de mercado, como formação de preço. O nosso mercado economicamente não é tão organizado, ainda é um mercado muito incipiente, muito pequeno. Faltam uma série de elementos para que nós tenhamos um mercado em que não haja tanta volatilidade ou talvez tanta oscilação de gostos e preços.

Eron Falbo: [12:11] Miguel, eu vou te perguntar uma coisa que é uma coisa pessoal. Você sabe que eu compro muito em Leilão, eu te falei até mais cedo que eu até procurei, porque eu descobri que o seu Leilão é de Petrópolis, eu compro muito de Petrópolis, porque Petrópolis é cidade imperial.

Rio de Janeiro como celeiro de antiguidades (12:12)

Miguel Salles: [12:28] É uma delícia, é um celebra.

Eron Falbo: [12:29] Tem muita coisa. Aí eu fui olhar no meu e-mail, descobri o seu nome, botei e liguei o site. Coincidência.

Miguel Salles: [12:37] Que sorte minha, sorte minha.

Eron Falbo: [12:39] Sorte não, porque eu não consegui comprar. Pô, eu gastei tanto dinheiro ultimamente em leilão e não te dei quase nada de dinheiro, porque eu não consegui arrematar.

Miguel Salles: [12:52] O dinheiro é importante, mas não é tudo, cara.

Eron Falbo: [12:57] Mas o que eu queria dizer, na verdade, é que eu queria te perguntar sobre isso, assim, como alguém que compra em leilão, que eu vejo que o Rio de Janeiro... É a minha teoria, né, vê se você confirma ou não: o Rio de Janeiro era um lugar, especialmente desde o século XIX até hoje, foi numa decrescente, teve momentos melhores e piores, mas o Rio de Janeiro foi vagarosamente ficando menos o centro do Brasil, menos um lugar importante, e hoje a gente vê o Rio de Janeiro meio que no fundo do poço. Então a minha ideia que eu vejo, e eu não estou falando isso como crítica, eu adoro o Rio de Janeiro, moro aqui, estou dizendo assim pelo contrário, para a gente até ajudar o Rio de Janeiro a se reerguer e ter uma revolução. Mas a minha pergunta é a seguinte: qual é o fator que você acha? Por exemplo, eu sinto que nos leilões aqui você acha muita coisa boa. Por exemplo, eu comprei, depois eu te mostro, um sofá maravilhoso do século XIX, com duas poltronas, todas intactas, com os dragões, não sei se você já viu esse.

Miguel Salles: [14:09] Renascença colonial portuguesa.

Eron Falbo: [14:13] Pode ser, pode ser, deve ser. Eu não sou nenhum conhecedor a fundo dessas coisas, então o visual, pelo menos pra mim, eu julgo como assim, é disso que eu tô falando. Mas tava tudo totalmente intacto, totalmente limpo, e paguei super barato. E todos os móveis da minha casa foram assim também, graças a Deus. Mas a razão disso é porque o Rio de Janeiro um dia foi muito rico e hoje em dia as pessoas estão meio que vendendo por qualquer coisa e não conhecem tão bem e vendem barato? Qual é essa coisa que está acontecendo no Rio de Janeiro? E a maioria dos leilões que eu vi online foram do Rio de Janeiro ou Petrópolis?

Miguel Salles: [14:57] Eron, isso é uma feira de assuntos, tá? Enfim, na verdade o Rio de Janeiro é um celeiro extraordinário, Petrópolis... Nós fomos, enfim, capital, aqui em Petrópolis, uma capital informal, não é? Durante o império, por onde transitou boa parte da nobreza, da nobreza da corte europeia, enfim, nós éramos, enfim, primeiríssimo mundo, como, enfim, ainda seremos e estamos em parte, não é? Mas o Rio de Janeiro, principalmente, ele catalisou, ele absorveu acervos absolutamente de toda essa internacionalidade dele, desde um império... Como a gente brinca aqui em Petrópolis, ou diz, e não é muita brincadeira, nós somos a cidade imperial da América. Olha a representação disso, olha o que girou aqui, olha o que veio para cá, olha o que é fabuloso em termos de acervos que estão aqui. Eu acho que o que eu observo do Rio de Janeiro hoje é bastante interessante. Eu também transito bastante em São Paulo com a minha loja e percebo muito. O Rio de Janeiro continua rico, o Rio de Janeiro continua poderoso em termos de acervos. Obviamente, os capitais sofreram alternância de propriedade, mudaram, migraram de mãos a outras, e isso é normal. E também as famílias, enfim, elas evoluem, todos os que nascem morrem, vêm os descendentes e por aí a coisa segue, uns gostam, outros não gostam, tem o momento fashion, então tem uma rapaziada que não curte, assim como você, enfim, adora. Com todo respeito, tem uma rapaziada que não tem tempo para curtir a arte. Eu acho que isso representa um certo desperdício, uma pena, porque é uma coisa tão deliciosa, que eu usufruo uma paixão tão grande, você já começa a apreciar e já está apreciando há algum tempo e vai apreciar pelo resto da vida, porque no momento que você conhece, nunca mais deixa. É interessante porque essa não é a tônica.

Eron Falbo: [17:14] É um vício, isso é verdade.

Miguel Salles: [17:16] Não é a tônica, então você tem uma geração, um giro enorme de peças, enfim, as peças giram enormemente, elas vão para São Paulo, saem, vão para o Pará, vão para a Europa, voltam, é incrível como há o giro de mercadorias. Você tem uma oferta bastante generosa de acervos importantes no Rio de Janeiro. Você tem aqui na nossa região, quando eu falo Rio de Janeiro, eu quero falar o Grande Rio. E em São Paulo, eu também faço captações importantes, mas eu percebo que talvez a disponibilização de boas peças, enfim, aconteça de uma forma diferente. Mas eu vivo um mercado de artes por parte de família há tantos anos, enfim. Nós estamos desde 1915, meu pai. Nós temos conhecimento, enfim, no Rio, em São Paulo, no Nordeste, no Norte, no Centro-Oeste. Eu acho que as peças circulam, sim. É uma questão de você ter a... Talvez seja uma questão mais do caçador do que da caça.

Eron Falbo: [18:38] É, eu tô perguntando assim porque, na verdade, eu fiquei... Eu tive uma surpresa agradável, entendeu? Eu morava num hotel aqui, eu me divorciei faz um ano e pouco, mais ou menos, então eu tô naquela fase que você deve conhecer... Pelo menos dá pra ver que você tá com a sua esposa aí, então eu espero que o seu casamento dure pra sempre, mas você deve conhecer...

Divórcio e descoberta dos leilões (18:50)

Miguel Salles: [19:05] Eu conheço, normalmente, eu também... Aí eu...

Eron Falbo: [19:08] Fui para o hotel. Ah, já divorciou? Então você sabe o...

Miguel Salles: [19:11] Que eu estou falando. Já fui casado e já estou com ela, enfim, há vinte e tantos anos, então é assim mesmo, e a vida é assim, isso aí não é nem bom nem ruim, é a vida, é como ela é.

Eron Falbo: [19:20] É, claro, é o que acontece. Aí eu estava morando num hotel, que era tipo, sei lá, 30 metros quadrados. Isso é bom porque você sabe onde tá tudo, né? Você tem o controle assim, 3D da casa, né? Você faz um scan assim, pô, você sabe onde tá tudo que tá acontecendo. Aí eu me mudei pra um apartamento de 3 quartos, bem maior. E aí eu falei, pô, agora eu vou precisar comprar móveis, só que eu tô pagando um aluguel muito caro, eu tô fudido, entendeu? Como é que eu vou comprar móveis, pô, além do divórcio, que é caro pra caramba, né? Aí eu vou ter que comprar um monte de coisa. Aí eu falei, pô, eu preciso de uma alternativa. Aí eu comecei a olhar, aí, pô, será que leilão... Leilão deve achar. Porque eu não sei se você sabe disso, mas eu sou do mercado financeiro também, né? Eu trabalhei sete anos no mercado financeiro, em family office, em gestão de patrimônio, esse tipo de coisa.

Miguel Salles: [20:23] Legal.

Eron Falbo: [20:23] Então, essa é uma outra coisa que a gente tem que fazer.

Miguel Salles: [20:26] Você é muito novo pra ter essa história toda, mas que bom, cara.

Eron Falbo: [20:29] É que eu faço tudo ao mesmo tempo. Aí eu mudei pra esse apartamento que é bem maior. Eu falei, pô, vou olhar leilão, e eu comecei... Porque eu sempre lembrava do Cunha Bueno olhando leilão. Eu sei que tem um leilão online. Pandemia, alguma coisa vai ter, entendeu? Aí eu comecei a pesquisar e hoje...

Miguel Salles: [20:51] Leilão é um negócio incrível, cara. Realmente é superlegal. No passado, eu comprava e vendia. É muito ingrato, entendeu? Quando você compra e vende, você tem que negociar um preço menor pra fazer um lucro e tal. Quando eu faço um leilão, eu brigo ao máximo pra peça do meu cliente atingir o maior valor, porque eu sou comissionado, entendeu? Então isso é superbacana pro cliente e pra mim. Com isso, a nossa captação, por exemplo, tô falando da minha captação, é uma captação muito rica, muito próspera. Você monta um apartamento, eventualmente, num leilão meu; você monta um escritório, eventualmente, em dois ou três leilões meus; você constrói uma pequena coleção, você faz o diabo, enfim, ou o céu, ou Deus, enfim, em dois ou três leilões. Então, realmente é um instrumento superlegal. Quer dizer, essa coisa da gente também estar entre Petrópolis e São Paulo, São Paulo e Petrópolis, quer dizer, Rio de Janeiro, obviamente, isso dá um alargamento enorme, enfim...

Eron Falbo: [22:11] É, é uma maravilha. Ô Miguel, o Natan Malho deve ser amigo seu aí, tá falando que é viciante. É só pra contar uma história: eu comprei tanta coisa que eu tive que alugar um storage aqui, um armazenamento aqui em Botafogo, pra colocar as coisas extras que não couberam. Deixa eu mostrar aqui algumas coisas. Aqui, eu mostrei o Shakespeare, você viu o Shakespeare?

Mostrando peças da coleção pessoal (22:13)

Miguel Salles: [22:38] Olha, você vai mostrar, eu vou tentar montar aqui a minha câmera, porque eu também depois vou querer mostrar, vou precisar...

Eron Falbo: [22:43] Tá tudo bagunçado aqui, tá tudo bagunçado...

Miguel Salles: [22:46] Então vai mostrando que eu vou sair um pouco...

Eron Falbo: [22:48] Essa mesinha aqui, essa... Pode falar, sai um pouco, se quiser.

Miguel Salles: [22:54] Vou ajeitar... Você vai sair um pouquinho do ar, que eu vou tentar montar aqui dentro... Não, não vou sair do ar, vou sair só do vídeo, que eu vou tentar instalar aqui em cima a coisa, tá?

Eron Falbo: [23:03] Então, eu tava te mostrando aqui, Miguel, o sinete aqui, que... Tá vendo? Tem umas... Eu não sei se é árabe, ou se é cuneiforme, ou sei lá o que... Maneiríssimo!

Miguel Salles: [23:14] Que coisa maneira, cara!

Eron Falbo: [23:17] É um sinete, assim. Esse sinalzinho aqui parece um pouco mais novo, parece que pode ser uma imitação de antiguidade, mas parece uma lira, né?

Miguel Salles: [23:31] Olha, eu gosto muito das duas peças, assim, pela imagem. Eu costumo dizer que a imagem, às vezes, ilude a gente um pouco, tá? Eu muitas vezes preciso revisar a classificação da peça quando eu me deparo com ela fisicamente. Mas a sua peça é interessantíssima. Olha aqui, você mostra a identidade, né? Olha essa figura extraordinária.

Eron Falbo: [24:05] Deixa eu ver.

Miguel Salles: [24:07] Ela é de barro, tá? Ela tem um cabelo chanel aeroespacial, um pingente.

Eron Falbo: [24:16] Essa aí é bem antiga, né?

Miguel Salles: [24:19] Essa é uma peça pequenininha, maravilhosa, um pingente, que é da minha família já há muitos anos, enfim, há dezenas e dezenas de anos, e é uma peça de origem hispânica, que é quase que um elemento, como é que se diz? Eu perdi o nome agora, enfim, um elemento espacial, uma figura um pouco...

Eron Falbo: [24:45] Daquele livro, né? Eram os deuses astronautas.

Miguel Salles: [24:50] Desse mesmo conjunto veio também essa, que são gêmeas, geminadas. Olha que coisa incrível. Eu gosto muito dessas coisas.

Eron Falbo: [25:03] Essa aí é bem antiga. Eu gosto disso aí, mas eu gosto mais de ver em museu. Para ter, eu gosto de coisas mais... Porque essa época da humanidade é muito obscura, né? A gente não sabe ao certo o que aconteceu. E eu, quando coleciono, quando compro as coisas, eu gosto que sejam significativas pra mim, entendeu? Então, assim, eu gosto de coisa de Roma Antiga, da Igreja Antiga, que são momentos históricos, né, que construíram a humanidade atual. Então isso pra mim é uma coisa que te une, te conecta com... É uma das razões que eu gosto de Antiguidades no geral, que te conecta com a humanidade, te conecta com as suas próprias origens. Você não está desconectado do resto da história humana. Não, quem que tá falando que não é obscura? Eu tô falando que a antiguidade antes da história escrita é obscura, porque não tem muita informação. A gente sabe através da egiptologia, é muita especulação. Tipo assim, os historiadores adoram fingir, os arqueólogos adoram fingir que tá tudo certinho, mas a maioria das coisas são especulação, entendeu?

Miguel Salles: [26:21] Claro, e muitas cogitações, enfim. Muitas descobertas para serem feitas, enfim... Estou...

Eron Falbo: [26:27] Falando que o som está péssimo. Está melhor o som? Desculpa, porque caiu o meu microfone.

Miguel Salles: [26:32] Mas será o seu ou o meu?

Eron Falbo: [26:33] Não, deve ser o meu, porque caiu o microfone. Está melhor, amigos?

Miguel Salles: [26:37] Bom, nós estamos falando de antiguidades. Da próxima vez nós vamos estar... Eu, pelo menos, vou estar tecnologicamente mais atualizado, né? Porque aqui caiu o telefone. Enfim, mas, por exemplo, olha uma coisa bacana. É que você está falando do passado, esse passado aqui me remete a um presente, não é, China? Isso é um vaso berinjela, tá? Berinjela, e a cor dele é o monocromático. Eu estudei na China, enfim, li alguns manuscritos, por exemplo, do Plácido Gutiérrez. O Plácido Gutiérrez foi um estudioso espetacular de meados do século XX, e ele chama a atenção para um fato: a forma do vaso chinês, olha isso, cara, tem que ter muita sensibilidade para prestar, para absorver isso, mas o que é mais bonito no vaso chinês, esse vaso não tem nenhuma decoração, mas ele tem uma forma de uma elegância, de uma ondulação, enfim... E isso é antigo.

Vaso chinês e arte atemporal (26:38)

Eron Falbo: [27:47] Tem cara de antigo.

Miguel Salles: [27:49] Isso é uma peça que pode ter de 300 a 400 anos, e você vai identificar muitas vezes uma peça dessas pela estilística. A estilística é exatamente a forma, porque o cara pode querer imitar, em um determinado momento, uma peça dessas na China, enfim, na Europa, ou coisa assim, mas vai ser difícil ele ter uma mão que crie uma curvatura... Às vezes é uma técnica.

Eron Falbo: [28:22] É uma técnica chinesa que foi aperfeiçoada durante anos e anos, e a Europa não desenvolveu essa técnica, desenvolveu outras.

Miguel Salles: [28:29] É um estado de espírito, talvez. Às vezes digo isso sobre o mobiliário. Quer dizer, o cara esculpia um móvel quando não havia televisão, quando não havia rádio, não havia carro, não havia eletricidade, enfim. Numa outra concepção espiritual, quer dizer, num outro estado de espírito mesmo. Então, obviamente, ele não vai conseguir fazer isso no século XXI, com o avião passando, com o carro buzinando, enfim, com toda a zorra que acontece, não se consegue. Eu acho isso também muito bonito na arte, quando você consegue perceber o momento em que ela foi feita e as razões dela ter características estilísticas diferentes das que você tem hoje.

Eron Falbo: [29:19] Esse assunto, na verdade, é um assunto que a gente tem muito pano pra manga, que é a questão das diferenças, não só temporais, vamos dizer assim. Em outros tempos, como você falou, e é muito bem observado, em outros tempos, por exemplo, o mundo tinha menos decibéis, o mundo tinha menos barulho, e as pessoas eram capazes de mais concentração. E por isso a escrita, por exemplo, era muito mais... Outro exemplo disso é que, você pode falar do século XIX, pode falar até de 70 anos atrás, ou de, na verdade, 20 anos atrás, antes de ter o mundo digital, quanto mais longe na história você vai, mais caro é escrever alguma coisa, colocar num papel. Os papiros... É que as pessoas às vezes não param pra pensar nisso, era extremamente caro. Tipo assim, não era pra qualquer um se pegar. Você não tinha um caderno de papiro que você podia fazer anotações. Então você escrevia o quê? Em areia, você escrevia em coisas que depois apagava e fazia de novo, para poder treinar, e finalmente escrevia. Então, quando ia para o papiro, era uma questão de que aquilo que ia ficar no papiro tinha que ser definitivo. Então o que você tem em papiro? Você tem só grandes clássicos. Aí depois se desenvolveram outros tipos de papel, madeira, e se desenvolveu a escrita cursiva, etc. Eu adoro esse assunto, então posso fingir que sei muito sobre ele.

Miguel Salles: [31:08] Você fala muito bem e sabe muito bem, sim.

Eron Falbo: [31:11] O que eu quero dizer é que existem diferenças de técnica, tanto de tempo quanto de cultura. Às vezes tem coisas que foram desenvolvidas em uma cultura, outras em outra. A obsessão pelo realismo, por exemplo, foi muito mais greco-romana. E não era porque os chineses ou os astecas não tinham habilidade para fazer, mas porque eles não tinham, às vezes, a cultura, a obsessão, a importância que se dava ao homem, à forma. Eles eram mais abstratos, mais ideológicos. Eles tinham uma questão religiosa, de não... Até tinha proibição, os druidas tinham proibição de escrever. Em todas as culturas do mundo havia diferentes formas de se expressar a arte. Então, tudo isso eu estou falando para dar valor à antiguidade, que preserva tanto a região quanto o tempo daquele momento em que aquela obra foi realizada, e muitas vezes as melhores obras. E é claro que isso requer, e o mercado é muito apto para isso, a gente dá valor às melhores obras, que são justamente aquelas que retratam aquela coisa única. Ovos Fabergé, por exemplo, são momentos históricos, é a escassez, o fato de que é único. Eu estou falando tudo isso, mas acho que é melhor você falar um pouco. Estou aqui aprendendo com você, ou trocando, enfim.

Arte como conexão com o passado (32:43)

Miguel Salles: [32:54] Nós estamos aqui numa sinergia forte, e você me encanta com o seu interesse. Eu acho que isso tem que ser falado por você, principalmente também, que é um cara jovem. Mas, no fundo, o que você está dizendo é que você pode transitar no presente, você pode prospectar no futuro, mas a única forma de você viajar no tempo para trás é pela arte. Seja o que for, quer dizer, a arte não só lhe proporciona uma trajetória ao passado, como ela lhe proporciona emoções, enfim, ela lhe proporciona emoções presentes, ela lhe transmite todo tipo de arte, por exemplo, a literatura. Você pega um Catulo Cearense, eu estava lendo aqui outro dia, selecionando para classificar e tal, eu não vou terminar vendendo isso porque eu não consigo parar de ler, de tão bonito que é. Porque você... aí eu saí aqui do meu momento, não que eu tenha saído do presente, eu continuei presente aqui e agora, mas eu passeei no passado, ele me proporcionou um passeio a um determinado momento do passado em que eu vivi aquilo, como era. Então eu me ilustrei, pô, eu me lapidei, eu cresci naquele momento, um pouquinho, uma areia, mas, enfim, areia em areia, a gente termina fazendo uma pequena praia.

Eron Falbo: [34:30] É, mas não só areia em areia, porque a gente cresce com toda a experiência, mas essa experiência de visitação do passado, sobretudo através de um objeto real, é uma coisa bem intensa, é uma coisa bem única. Por exemplo, se você vai a um museu observar com uma certa distância, talvez você não tenha essa viagem com tanta intensidade quanto se você for um colecionador, ou se você segurar nas mãos. Tipo assim, eu comprei aqui uns anais do Parlamento Brasileiro, não sei se chamava Parlamento, mas eu tenho aqui em algum lugar, faz tempo que eu não olho, do Parlamento Brasileiro do Império, por exemplo. Senão a coisa é abstrata, você aprende na escola, porque, você sabe, eu sou monarquista, eu sou defensor fantasioso desse grande sonho antigo da humanidade. Mas uma coisa que você aprende num livro de história, com uma foto impressa, hoje em dia está com um tablet, sei lá como as pessoas estudam hoje em dia, porque aparentemente, quando você conhece jovem... Hoje em dia, quando se estuda, se estuda de uma forma estranha, distante. E quando você segura um livro desses, que fala sobre o que foi dito naquela sessão de parlamento, sei lá, 1876, você realiza aquela coisa, você internaliza aquela coisa como uma realidade. Porque, o que você estava falando de uma viagem, eu não quero, longe de te corrigir, mas eu quero complementar o que você está dizendo.

Miguel Salles: [36:20] Obrigado, Eron, eu entendi.

Eron Falbo: [36:21] Você não está indo numa viagem. Pelo contrário, é a coisa mais presente do mundo, a coisa está fisicamente... entendeu? Você está lá, entendeu? Você está hoje, agora, presente naquele momento, e você participa daquilo.

Vitalino e a Escola de Caruaru (36:30)

Miguel Salles: [36:36] É você trazer a história e o passado ao presente e ao futuro. Quer dizer, na verdade, é você viver presentemente o passado. Por exemplo, isso aqui eu estava curtindo outro dia, olha, aqui você tem uma peça absolutamente espetacular, que é o Vitalino, que é uma figura fabulosa. Essa peça chama-se O Ladrão de Cavalos. Tem um cavalo atrás que vem sendo rebocado por dois soldados, e o ladrão na frente.

Eron Falbo: [37:04] Então, você pega... aí você tira a data.

Miguel Salles: [37:06] Isso é feito em Caruaru, cerca de 1950. Ontem me ocorreu... nós temos a Escola de Paris, junto com os impressionistas, isso é uma maravilha. Aquele grupo se juntou naquele momento e gerou um evento histórico, gerou um movimento histórico de arte. Esse homem aqui, o Vitalino, ele pegou e criou a Escola de Caruaru. Ninguém fala isso aqui no Brasil, a gente tem que valorizar a nossa coisa, porque a Escola de Caruaru é uma escola única, isso vai ser internacionalizado. Daqui a pouco os alemães, os franceses, os europeus, os outros já adoram. Mas o que é a Escola de Caruaru? Numa quase rua que se chamava Alto do Moura, morava o Vitalino, a família, o Zé Caboclo, o Manoel Eudócio, e todos esses caras começaram a criar uma arte que hoje está sendo consumida intensamente, que é a arte de uma escola, uma escola nossa, brasileira. Isso me chamou a atenção ontem, falei: 'Poxa, que bacana, a Escola de Paris e a Escola de Caruaru, em Pernambuco.' Que realmente gerou uma safra de artistas a partir de um primeiro movimento e que continua gerando até hoje, fomentando uma região, uma região então pobre, mas que vem vivendo do culto da arte, e essa arte é reconhecida. Isso, daqui a 100, 150 anos, daqui a 60 anos, vai ser idolatrado como hoje nós idolatramos uma Escola de Paris.

Eron Falbo: [38:53] E nós aqui do Brasil temos, assim... o europeu muitas vezes reconhece muito mais do que a gente esse tipo de coisa, né? E a gente tem... Você conhece, é amigo do Fernando Cacciatore, não? Não sei se você conhece. Não, tá bom, porque ele escreveu um livro chamado... agora me lembro qual é a história, "Como Escrever a História do Brasil", alguma coisa assim, que eu achei fantástico, esse livro dele, porque ele fala muito sobre como, na história do Brasil, a gente foi apagando certas coisas e criando um hábito de não dar valor às nossas próprias coisas. Logo depois do Império, quando a República se instalou, a gente foi chamado de Estados Unidos do Brasil, que já é uma forma de você extinguir a própria história. Você fala: "não, tem um outro lugar que está superior a gente", e eu estou me entregando a essa história e tentando apagar a nossa própria história. Inventaram heróis, como o Tiradentes, que eu brinquei que era o prisioneiro que estava sendo levado pelos dois lados.

Miguel Salles: [40:07] Tiradentes tem histórias ainda não desvendadas. Toda essa coisa do final do século XIX mineiro, enfim, envolve muito a história brasileira, envolve a história da colonização, enfim. Existem textos ainda não lidos.

Eron Falbo: [40:22] O que eu estou dizendo não é que ele não existiu. Estou dizendo que ele não era um herói do povo brasileiro.

Miguel Salles: [40:28] Não, em determinado momento não. Nem passou a ser, até onde eu saiba.

Eron Falbo: [40:34] Ele era da Inconfidência Mineira, então ele queria transformar Minas Gerais num estado independente. Não tem como ser um herói brasileiro pra começar, na minha opinião.

Miguel Salles: [40:49] Tem um exemplo extraordinário. Por trás dessa história existem coisas fantásticas, ainda não desvendadas. Então, por trás da Inconfidência Mineira, existe todo um colonialismo, toda uma ação internacional sobre o Brasil colonizado à época e tal. Isso vai muito longe. E você, com todo esse seu gosto pela arte, com toda essa sua formação também no mercado financeiro, ainda é um músico, pelo que eu sei, não é?

Eron Falbo: [41:19] Você estava me entrevistando e agora a gente está saindo de finalidade. Bom, eu sou músico, eu sou dentista também, gosto de tirar a gente...

Miguel Salles: [41:32] É boa?

Eron Falbo: [41:33] Não, não, não. Isso foi só uma brincadeira. Eu sou um grande charlatão, na verdade. Desde cedo eu descobri que as pessoas se impressionam facilmente com títulos. Eu aprendi poucas coisas de muitas coisas e as pessoas se impressionam muito comigo. Aí eu falo: pô, isso está funcionando. Aí eu faço malabarismo.

Miguel Salles: [42:03] Legal. Mas é isso mesmo.

Eron Falbo: [42:07] A verdade é que eu não sei fazer nada demais. Eu toco um pouco de violão e fui abençoado por Deus com uma voz rouca. As pessoas não percebem que tá fora do tom e acham bonito.

Miguel Salles: [42:23] Tá ótimo, Eron. Maravilha.

Eron Falbo: [42:29] É isso. Bom, a gente tem mais... Que isso, obrigado. Vindo de você, dá pra ver assim, eu tô tentando não entrar muito a fundo nas coisas, pra não ficar suando aqui, envergonhado de não saber alguma coisa que você vai falar. Porque você claramente... você mencionou aí 20 artistas brasileiros que eu nunca ouvi falar, porque a verdade é que eu... Agora, sinceramente, eu cresci fora do...

Miguel Salles: [42:58] Mas não é isso importante? Não é importante você saber os artistas, saber o nome deles?

Eron Falbo: [43:03] É importante para mim, não é uma parada pseudo-intelectual. Eu nunca fui assim e não gosto disso. O que eu gosto é valorizar coisas esquecidas por outras pessoas, que não precisam ser esquecidas por pessoas com sensibilidade, entendeu? É que nem você falou, a escola de Caruaru, não é? Tá certo ou não?

Miguel Salles: [43:25] Sim, sim, claro.

Eron Falbo: [43:27] É uma escola, eu nunca tinha ouvido falar, então não vou nem fingir, porque vai pegar mal, mas eu acho importantíssimo.

Miguel Salles: [43:39] Não existe a escola. A escola de Caruaru surgiu na minha mente ontem, é uma escola... Não, não existe, essa é a minha primeira vez.

Eron Falbo: [43:48] Mas deveria existir, eu concordo que deveria existir. No Brasil tem tanta coisa boa. No Rio de Janeiro, pô, museu pegando fogo... No Rio de Janeiro tem coisas maravilhosas, cara, que a gente, tipo assim... Isso me deixa extremamente irritado, porque, tipo, agora eu tô abrindo meu coração, eu cresci achando o Brasil ridículo, entendeu? Eu cresci fora do Brasil, eu cresci...

Valorização da cultura brasileira (44:01)

Miguel Salles: [44:12] Eu acho o Brasil maneiro.

Eron Falbo: [44:13] Mas deixa eu explicar o que aconteceu comigo. Eu cresci sendo um anglófilo, morei na Inglaterra quatro anos, eu falava inglês britânico, fingia que era inglês, era coisa ridícula. Quando eu voltei para o Brasil, e comecei a estudar história brasileira, especialmente, obviamente, história imperial, mas claro que durante a república teve raramente coisas boas, mas teve também algumas coisas... Tô brincando. Tem música, tem arte, tem coisas maravilhosas. Eu sei que tem, tô brincando. Mas eu senti vergonha de não ter dedicado mais anos ao estudo da história e da cultura brasileira, de tudo que a gente tem. Então, quando você fala de Caruaru, eu posso te intitular, nomear 20 mil coisas esquecidas na história americana, na história inglesa, que eu não posso no Brasil. Então, eu sinto vergonha, entendeu? Vergonha disso, se eu estou falando sinceramente. E eu acho que a gente, como sociedade brasileira, tinha que dar muito mais valor para esse tipo de coisa. A arquitetura do Rio de Janeiro, tem coisas que eu descubro diariamente aqui que as pessoas não só estão esquecendo, como estão tentando destruir.

Miguel Salles: [45:29] São maravilhas, né? São maravilhas, e a sua sensibilidade é importantíssima. Eu acho que a sensibilidade está acima de tudo, quer dizer, está acima dos nomes, está acima do conhecimento histórico, enfim, a sensibilidade é um portal que vai lhe permitir depois, enfim, adentrar por tudo isso e detalhar tudo isso, enfim. E isso é um privilégio, e pode ser exercitado, a sensibilidade pode ser adquirida, sim. Basta você se abrir, você se expor, enfim, e ter vontade de conhecer um pouco mais, e aquele assunto fica interessante e lhe sensibiliza. Eu acho que é isso, entende? Então, é muito legal você... Então, quando você fala, não sei os nomes que você falou e tal, pô, isso aí é pouco importante. A Escola de Caruaru você não poderia saber, porque eu inventei que ela existia ontem, apesar de ela existir, ou talvez alguém já tenha falado e eu não sei.

Eron Falbo: [46:31] É óbvio.

Miguel Salles: [46:34] Pô, você tem três ruas em que surge um seleto grupo de artistas nordestinos que viveram na seca e na miséria, e que de repente hoje você tem dezenas de livros escritos sobre eles, enfim, dezenas de colecionadores, enfim, pessoas importantes de todo tipo, de toda origem, de todo lugar, colecionando isso numa rua em Caruaru. Não é uma escola? Que é, cara.

Eron Falbo: [47:02] Faz todo sentido, total. É, mas essa é a minha queixa, assim... Quando eu falo queixa, tipo, eu não tô reclamando, eu tô como um filho, entendeu? Que tá pedindo pro pai participar, assim, da refeição, sei lá. Eu tô falando assim, tipo, eu sinto que o Brasil tem um valor muito maior do que o brasileiro conhece, não só o brasileiro comum, o brasileiro intelectual não sabe, não conhece. Eu converso diariamente com... Vocês sabem que eu faço quatro lives por semana, e é óbvio que eu não estou falando das pessoas com quem eu faço a live, mas para poder fazer quatro lives por semana, eu faço um networking gigantesco. Então, claro, eu converso diariamente com intelectuais renomados, pessoas gigantes. Como você, mas esse lado...

Miguel Salles: [47:52] Eu não estou nesse nível.

Eron Falbo: [47:54] Você é um cara que é conhecido, muita gente já falou de você, ia ser uma honra estar falando com você, mas o que eu quero dizer é que muita gente não sabe coisas essenciais, não sabe, por exemplo... Eu não quero insistir no monarquismo, mas eu sou uma... É uma decepção pessoal minha. E eu queria convidar o público que está ouvindo a não só procurar leilões, procurar os leilões do Miguel Salles, o seu escritório de arte, todas as coisas que você tem feito, e até te perguntar, gente, não sei se tem tempo para fazer isso, perguntar qual é a sua paixão por cartunismo. Mas, assim, o Miguel Salles tem muita coisa a contribuir, e dá para ver por essa conversa, só das coisas que você mencionou. E a gente não está dando, como população, a gente não está dando o valor necessário. A gente prefere a coisa do Netflix sueco do que dar valor para as coisas que a gente tem aqui, e pesquisar, descobrir, criar arte em cima, criar cultura em cima. Essas coisas maravilhosas, dá valor a isso.

Miguel Salles: [49:09] A gente tem fartura. E o Brasil sempre foi um país farto em tudo. Talvez um dos países mais fartos, historicamente, no mundo. Enfim, ele supriu a Europa no século XVII, no século XVIII, enfim, supriu boa parte, enfim, da riqueza internacional. Enfim, e nós temos, com isso, uma área territorial gigantesca que abarcou culturas das mais diversas origens, que no meio dessa riqueza, no meio dessa confusão, gerou um universo maravilhoso de variedades, de possibilidades. Minha filha é casada com um rapaz suíço, e a família dele vem para o Brasil, e os amigos todos vêm para o Brasil. Eles ficam completamente enlouquecidos, porque aí eu reparo, realmente, eles ficam alguns dias aqui em Itaipava, com aquele céu azul de anil, aí vão para Búzios, aí vão para o litoral de São Paulo, aí vão para o Nordeste. Eles têm coisas maravilhosas lá, tem civilização, tem cultura, mas quando eles encontram isso aqui, a carência que eles têm, enfim, me emociona tanto, enfim, me enaltece tanto em relação ao lugar que eu vivo, que me encanta isso, entende? Então, maravilhoso, realmente nós estamos num lugar maravilhoso, como todos, enfim. Só que nós não damos valor à nossa variedade. A nossa variedade, relativamente ao internacional, é de uma riqueza extraordinária. Exatamente.

Eron Falbo: [50:54] Isso vindo de alguém que é um colecionador, que é um mercador de antiguidades e é um amante, é um apaixonado por antiguidades, por cultura, por todo tipo de coisa. Infelizmente... É normal nessas conversas, a gente acaba entrando num assunto que não tem nada a ver com o que a gente planejava, qualquer coisa do tipo, mas a gente pode, se você concordar, de repente marcar outro em outro momento e conversar mais e com mais tempo.

Miguel Salles: [51:21] Não, vamos, porque eu senti que a gente se emocionou muito no meio do papo aqui, e aí talvez tenha lateralizado um pouquinho a coisa.

Eron Falbo: [51:31] Isso que é beleza. A gente faz isso porque é arte, é cultura, é isso que a gente está fazendo aqui: é espontâneo, vai para qualquer lado, não é uma coisa controlada, como as pessoas pensam.

Miguel Salles: [51:44] Adorei. Na hora que você falou e fez uma divagação enorme, eu aprendi muito com o que você disse, foi maravilhoso. Mas isso mostra a espontaneidade, o nosso papo é um papo realmente bastante informal, de onde você pode ir pensando. É como uma mina de diamantes, uma mina de ouro: você vai tirando ali uns pedacinhos, mas a parede toda é de pedra.

Eron Falbo: [52:08] E depois vai ter tudo isso, vai ter isso tudo no YouTube, vai ter os melhores momentos aí pro pessoal curtir. Eu vou mandar pra você, vou mandar pros amigos também. Queria te agradecer imensamente pela participação, por te conhecer, por ter mais uma pérola na minha vida, alguém assim com a sua capacidade de sensibilidade, de cultura, etc. e tal. Espero que a gente possa se encontrar pessoalmente pra gente se conhecer melhor e ter mais tempo. E queria agradecer a Ana Maria Tornaghi por nos apresentar e dar essa oportunidade pra nós. E a todos que assistiram, muito obrigado. E é isso.

Miguel Salles: [52:48] E se quiser falar alguma coisa do...

Eron Falbo: [52:50] Comercial, site, alguma coisa pra gente poder deixar o pessoal acessar, qualquer coisa assim.

Miguel Salles: [52:54] Não, nós vamos fazer agora dois leilões bonitos, e sempre que quiserem ver os meus eventos, vai estar no www.miguelsalles.com.br. Vou ter um leilão lindo, modéstia à parte, em Petrópolis, agora no dia 10 e 12. E vou ter um em São Paulo no final do mês, 29 e 30. Me honrarão muito, e eu estaria à disposição para esclarecer o que for necessário e, principalmente, nesse momento, agradecer a você. Fiquei encantado com a possibilidade que você me proporcionou e com o evento, que tive a honra de participar.

Eron Falbo: [53:31] Muito obrigado, Miguel. Você é um cavaleiro e eu aprendi muito com você. Obrigado por tudo, e a gente se vê pessoalmente. Manda um beijo para sua esposa aí, que participou.

Miguel Salles: [53:40] Muito obrigado. Ela vai agradecer, ela é uma gente bonita.

Eron Falbo: [53:43] Valeu.

Miguel Salles: [53:44] Valeu, tudo de bom.

Eron Falbo: [53:45] Tchau, tchau.

Miguel Salles: [53:46] Beijo a todos. Tchau, tchau.

No Alvo com Eron Falbo · episódio #67 · todos os episódios