Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.
Rodrigo Morgado: [0:00] E aí, Eron, tudo bem?
Eron Falbo: [0:01] E aí, bicho, beleza?
Rodrigo Morgado: [0:04] Tranquilidade.
Eron Falbo: [0:05] Seja bem-vindo. Graças a Deus, só tô cansado pra caralho, porque, pô, hoje eu fiz tudo errado. Sabe quando você não começa o dia direito, você não para pra respirar, e você já tem tudo marcado, e tudo vai... Pelo amor de Deus, é tipo, tipo o Domingo, nossa, só vai tudo vindo errado junto.
Rodrigo Morgado: [0:25] Eu tô...
Eron Falbo: [0:28] Eu tô me sentindo... Cara, no geral, graças a Deus, não tem nada pra reclamar.
Rodrigo Morgado: [0:33] Também não, tudo certo.
Eron Falbo: [0:36] Que bom, bicho, que bom. Cara, só pra avisar a galera aqui, eu conheci o Rodrigo, amigos em comum, né? Tipo, na night. Na verdade, no dia que eu te conheci, você não tava nem sendo DJ, né? Foi lá em Trancoso?
Rodrigo Morgado: [0:53] Sim, a gente tava no réveillon de Trancoso, né? A gente tem um amigo em comum, que é o Ronis Grace, né? E o Erick acabou me apresentando pro Boa Sede, conversamos sobre música, sobre tudo, foi uma noite bem legal.
Eron Falbo: [1:06] Eu acho que a primeira coisa que eu achei legal foi que você falou que era, pelo menos inicialmente, conversou como músico mesmo, aí eu fiquei impressionado. Pô, vai dar pra conversar sobre música com um DJ de eletrônica? Aí a gente trocou uma ideia de música não eletrônica. Eu digo isso sem julgamento, a gente já começou sobre isso, mas eu digo isso porque eu sou um merda, eu não entendo nada sobre música eletrônica. A questão é assim, a gente não consegue entender sobre tudo. Tem gente que não sabe o que é arte expressionista, não sabe sobre tudo, e não significa que é ruim, porque o cara é ignorante. Então eu sou ignorante em termos de música eletrônica. Então, óbvio que quando a gente entende de alguma coisa, a gente julga as pessoas. Então eu pensei: pô, o cara entende de música. Mas foi ótimo essa conversa por causa disso. E, na verdade, uma das razões que eu te chamei pra live é que você tem a cabeça muito aberta, sacou? Como é que foi pra você...
Rodrigo Morgado: [2:08] Desculpa, não. Então foi um papo muito legal, né? Porque como eu tenho essa formação musical de guitarrista e tal, e você também, a gente conversou sobre os produtores que você já tinha trabalhado, etc. E eu sou muito ligado ao rock, né? Eu tenho toda a formação básica do rock, tive várias bandas quando eu era mais novo e tal.
Eron Falbo: [2:29] E você pode falar isso abertamente, assim, para os seus fãs que estão assistindo? Tipo, eles não vão te julgar por ser do rock também?
Rodrigo Morgado: [2:37] Imagina, imagina. Inclusive, nos meus sets eu tenho várias influências de rock. Eu abraço rock, assim, com todo o amor.
Eron Falbo: [2:43] É verdade. Eu estava falando pra você outro dia que a gente estava lá no Pato com Laranja, e eu tava ouvindo e falei: pô, só que dá pra... Eu até escuto, assim, feliz, porque tem muita influência, dá pra ver, né, que você coloca muita coisa que você gosta de outros âmbitos.
Rodrigo Morgado: [3:03] Com certeza, com certeza. Assim, eu já fiz sets de rock também, em algum momento específico, mas eu olho muitos produtores que fazem essa mistura, que transitam entre o rock e o eletrônico. Isso é uma coisa que eu tô olhando com muito carinho. Então, como eu tô também caindo muito nessa área de produção, onde vou lançar diversas tracks minhas agora, Eu também tô produzindo tracks com esse tipo de coisa, de misturar rock com eletrônico. Isso é uma coisa que sempre me chamou atenção, assim, então... De maneira... Eu acho que, inclusive, são coisas que são super complementares, assim, apesar de não parecer, sabe? Então, pra mim, não tem muito essa barreira. Pra mim, existem dois tipos de música. Música boa e música ruim, né?
Eron Falbo: [3:53] Mas você sente... Porque eu vivi, sinceramente, em Brasília, né? Galera do rock era meio... Depende da época, mas uma época, claro, a música era bem separada, assim. A música, tipo, festinha de rock e festinha de eletrônica. Era uma galera diferente e rolava um pouquinho de preconceito. É claro que tinha um crossover, mas rolava um pouquinho de preconceito um com o outro, né? Então, você sente que existe ainda?
Rodrigo Morgado: [4:23] Cara, acho que ainda são tribos um pouco diferentes, né? Mas eu acho que já mudou muito, assim, do que era antes. Eu acho que a música eletrônica popularizou muito, né? E ela veio pra ficar. Então, muitas pessoas que gostavam de rock antigamente, hoje em dia já gostam de música eletrônica, já entendem e... E do outro lado também, as pessoas que já começaram com música eletrônica, de repente ela ouve um remix, de repente, sei lá, de uma banda, por exemplo, um The Police, alguma coisa assim. E aquilo ali desperta o interesse dela de buscar a obra original do artista, entendeu?
Eron Falbo: [5:04] Ah, legal.
Rodrigo Morgado: [5:04] Uma vitrine. Então, eu acho que são mitos que conversam bastante. Que faz despertar essa curiosidade do público. Pô, quem são esses caras ali que, sei lá, cantavam essa música no ano 70, pesquisa... E também o contrário, né,.
Eron Falbo: [5:21] Porque hoje em dia muito do rock tem influências eletrônicas, ou tem, tipo assim, se pegar Radiohead, por exemplo, tem muita coisa, muito uso de elementos eletrônicos, bandas que são renomadas, reconhecidas, ou seja, The Strokes, O segundo disco, por exemplo, The Strokes, tem uma camada de eletrônica bem maior do que o primeiro disco, por exemplo.
Rodrigo Morgado: [5:47] Claro, sem dúvida, sem dúvida. Cara, tem muitas bandas que misturam rock eletrônico de maneira assim... Eu gosto muito, né? Agora a gente teve a questão do Daft Punk tá se separando, que foi, assim, talvez a minha maior influência, assim, de adolescente, pra gostar de música eletrônica, quando eu era muito roteiro, assim, sabe?
Eron Falbo: [6:10] Foi uma das primeiras que eu gostei também de eletrônica.
Rodrigo Morgado: [6:13] Exatamente.
Eron Falbo: [6:14] Eu, na verdade, nem considerava eletrônica, considerava meio, tipo, tipo Crash Verse, assim, que é, tipo, uma coisa que é... E.
Rodrigo Morgado: [6:24] O legal é que eu consigo ouvir muito da base do rock no som deles. Na verdade eles tinham uma banda de punk nas antigas. O nome Daft Punk veio de uma crítica de uma revista inglesa. Os críticos falaram o seguinte da banda antiga dos caras. Eles falaram que o baterista do Phoenix inclusive era dessa banda. E eles falaram que eles queriam criticar aquele som de punk meio meloso, meio chato, e usaram o termo Daft Punk, que é tipo um punk meio... Meio burrão mesmo. É, exatamente. É até bem difícil traduzir, mas é um punk, entre aspas, meio babado.
Eron Falbo: [7:10] Bombo. É. Sim.
Rodrigo Morgado: [7:14] E eles acharam graça naquela crítica e virou basicamente o nome da banda deles.
Eron Falbo: [7:19] É.
Rodrigo Morgado: [7:21] Você ouve muito essa influência de punk, de rock no som deles desde o início, sabe? Seja na modulação que eles fazem nos synths, eles usam umas coisas bem distorcidas, sabe? As coisas assim, bem agressivas.
Eron Falbo: [7:36] E também, o mundo hoje tá meio, vamos dizer, mais fundido, né? As coisas não estão tão, sei lá, como há 30 anos atrás. As coisas eram mais categorizadas, tinha aquela coisa da indústria, de você ir pra Tower Records, né? Você ia pra essas lojas de disco gigantescas. E, pô, já que você estava lidando com coisas físicas, que precisavam de ambientes e lugares onde você ia, então tinha, tipo, a sala da música eletrônica, que era uma coisa mais moderna, e a sala do rock, sei lá, as coisas eram mais segmentadas porque eram mais físicas também, né? E as pessoas literalmente tinham que escolher o lugar onde iam colocar o disco. Então você não podia botar um disco eletrônico numa sessão de rock. Além da questão econômica, né? Tipo, delimitar os mercados pra poder criar, tipo assim, o punk. O punk foi criado pela indústria fonográfica, né? Apesar de ter artistas punk autênticos e tudo mais, o movimento, aquela parada toda, foi uma brincadeira da indústria fonográfica. E hoje em dia, eu acho, na minha opinião, por causa da era da informação, e também porque as paradas não são mais tão físicas, as coisas vão meio que se misturando, as pessoas vão experimentando. É mais fácil você pular a cerca pra outro gênero, talvez?
Rodrigo Morgado: [9:07] Claro, sem dúvida. Eu acho que isso, a globalização da música e a digitalização dela, acabou contribuindo um pouco pra isso, dessa questão de quebra de paradigmas, né? Então, assim, antes era muito mais rígido, essa coisa de estilos, mas se você pegar, assim, principalmente a galera que é mais precursora, assim, da música lá de trás, sempre teve uma barreira e sempre teve um momento de quebra. Então, você pega, sei lá, um cara tipo o Miles Davis, da vida, que era basicamente o epítome do jazz e tal, e quando ele começou a querer misturar com rock, ele foi rejeitado no início, etc., mas ele praticamente criou um estilo novo que foi chamado de fusion, né, que é a fusão do jazz com rock. E daí em diante, eu acho que hoje em dia tá muito mais fácil você misturar estilos e criar subestilos, assim, na música eletrônica mesmo, a gente... é meio difícil até dizer o estilo que a gente toca, porque se você for pegar por classificação, provavelmente vai ter uns 30 subgêneros assim, e todo dia surge um novo, sabe? E às vezes, por questão de classificação, até mesmo os...
Eron Falbo: [10:31] Eu acho que a galera ainda está na programação antiga, ainda não tem uma resposta nova para os tempos novos. Então a galera ainda está tentando categorizar. Eu mesmo não tenho uma sugestão sobre isso, mas as pessoas sustentam. Eu acho que não é mais relevante para o público essa classificação, esse jeito de separar as paradas.
Rodrigo Morgado: [10:55] Acho que é verdade que houve uma evolução muito grande nisso, no sentido das pessoas literalmente criarem subgêneros e vários outros tipos de classificação. Hoje em dia está muito mais aberto. Então, antes era realmente, como você falou, com as fronteiras muito rígidas.
Eron Falbo: [11:20] É muito específico, né? E muito desenhado, tentando controlar, assim, sem... Inclusive, quando ia lançar alguma coisa no mercado, as pessoas podiam falar: pô, você não é um artista disso, você não pode, tipo, tomar cuidado, entendeu? Você não mexe com... Porque os seus fãs têm uma expectativa X, e você tentando ser isso. Na sua label, tem uma vertente, assim, um plano nesse sentido?
Rodrigo Morgado: [11:52] Então, na verdade, a label começou muito ligada a dois estilos, que são principalmente o Afro House e o Melodic House, né? Mas hoje em dia já evoluiu muito, então a gente gosta de diversos estilos. A gente toca muito disco, ou nu-disco, a gente toca muito MPB, música brasileira. Inclusive, uma das coisas que a gente tá fazendo com os lançamentos de produções nossas é fazer essa mistura do próprio Afro House, desse estilo que é bem batucado, que veio lá da África e tal, tem expoentes aí como a Ekofi, o Otávio Fierro, essa galera toda. E misturar também com o que tem de legal de africano aqui no Brasil, que você pega na MPB, que tem coisa muito legal, que tem essa mesma origem, assim, né? E tem muita similaridade. Então, a gente tá produzindo bastante conteúdo, misturando os dois. Ou, às vezes, a gente vai pra uma linha mais house mesmo, aquele house, piano house mesmo, com teclado, etc. Então, a gente, principalmente na minha carreira...
Eron Falbo: [13:00] Como é que é piano house? Só por curiosidade. É o fato de que você tá fazendo uma melodia por cima de uma base eletrônica? Como é que é?
Rodrigo Morgado: [13:12] Então, o house, quando ele surgiu, lá atrás, né? Ele surgiu de Chicago e era muita base eletrônica e tal. E aos poucos foi havendo várias vertentes, uma das primeiras vertentes que teve foi justamente o piano house, que era basicamente uma música house, mas com uma pegada de piano assim, muito característica, entendeu?
Eron Falbo: [13:33] Ah, mas era pré-gravado, não era? Tipo assim, porque hoje em dia tá tendo, algumas pessoas fazem algumas coisas ao vivo, não tem uma onda assim?
Rodrigo Morgado: [13:42] Olha, tem vários DJs, inclusive, que hoje em dia os caras nem tocam, entre aspas, com CDJ. Os caras tocam... eles gravam, por exemplo, no Layla, que é uma plataforma de produção. Eles têm as coisas pré-gravadas lá. E ele tem vários instrumentos, ele pode tocar o piano ao vivo, etc. Tem vários produtores muito legais. O Who Made Who, por exemplo, acabou de lançar agora no Cercle. Eles são um exemplo aí de live, basicamente que os caras fazem toda a apresentação dele ao vivo. Tem um outro famoso também, agora, que tá em moda, que é um som um pouco mais introspectivo, que é o Jan Blomqvist também. E ele e outros, assim, o próprio Cercle, você pode ver o Cercle do FKJ, que é um multi-instrumentista aí, que na verdade ele usa vários instrumentos, ele toca bateria ao vivo, vai agrupando as coisas, mas meio que criando a música ao vivo mesmo. É uma parada super legal, Sancho, super legal.
Eron Falbo: [14:44] Ué, isso é interessante, porque assim, essa... um dos preconceitos, vamos dizer, da galera que é músico ou do rock com a música eletrônica, é essa coisa das coisas serem meio pré-gravadas. Eu acho que... eu vejo isso como novo, porque eu, na verdade, nunca vi isso muito ao vivo, essa coisa de tocar instrumentos e tudo, mas é muito legal que isso está acontecendo, porque isso demonstra que a gente finalmente, como humanidade, a gente quebrou a barreira de usar coisas digitais, eletrônicas e tudo mais como parte de um show, de uma coisa ao vivo. E isso é importantíssimo, porque senão sempre vai ter essa distinção: coisas gravadas, o DJ, que nem aquele filme lá que eu lembro, aquele filme sobre os DJs de hip-hop do começo, sabe? Esqueci o nome dele.
Rodrigo Morgado: [15:49] Do seriado, desculpa, tem um seriado do Netflix que mostra... Porra, eu...
Eron Falbo: [16:01] Sempre falo dele, agora esqueci. Mas, beleza. E nisso mostra, tipo... eu antes tinha preconceito contra os DJs, porque eu não entendia muito qual era a arte, qual era o processo de produção e qual era a parte que eles adicionavam pro show, ali, no momento. E com esse seriado, que eu esqueci o nome, eu entendi melhor essa parada de que começou com o vinil, né? E do scratch no vinil, e usar as músicas e adicionar um backbeat, e um backbeat de outra música, e regravar.
Rodrigo Morgado: [16:46] Eu lembro o nome da série, The Get Down, não é isso?
Eron Falbo: [16:49] The Get Down, exatamente. Boa, bem lembrado.
Rodrigo Morgado: [16:54] Essa é a maior série que fala da cena hip hop.
Eron Falbo: [16:58] Muito bom.
Rodrigo Morgado: [16:59] A música sempre evoluiu na medida que houve demanda. O house surgiu muito com a função de haver uma crise com o disco, que era a música que tocava na discoteca na época. Enfim, é uma longa história. Tem até um documentário muito legal.
Eron Falbo: [17:21] Mas qual foi a crise que rolou?
Rodrigo Morgado: [17:27] O que aconteceu foi que teve um DJ de rock que trabalhava numa rádio que era muito famosa. Ele foi demitido dessa rádio. E aí, quando ele foi demitido, ele meio que fez um movimento, chamando as pessoas que ele conhecia da rádio, etc., pra fazer um movimento contra a disco music. E várias pessoas fizeram parte desse movimento. Eles foram até pra um estádio lá, se não me engano, em Chicago mesmo, pra queimar uma série de discos. Foi um evento até meio antissemita, assim. Foi terrível. Porque eles pegavam qualquer coisa de cultura negra e comentavam, etc. E tem até um documentário que chama Pump Up the Volume.
Eron Falbo: [18:13] Ah, tô ligado.
Rodrigo Morgado: [18:15] Inglês, cara, que é maravilhoso, e ele conta em detalhes essa história. Eu acho que quem quiser ter mais ideia sobre esse conteúdo, vale a pena assistir, que ele conta a origem do house e ele vai até o início das raves lá na Inglaterra, que é lá pro início dos anos 90. Então, ele pega, assim, o finalzinho aqui dos anos 70 até o início dos 90 e conta pra gente.
Eron Falbo: [18:39] Mas, Pump Up the Volume, galera!
Rodrigo Morgado: [18:41] É, muito legal! Mas aí, o que aconteceu foi isso. E aí, a partir desse movimento, os clubes começaram a rejeitar a disco music, as rádios pararam de tocar disco music. E aí, literalmente, os DJs, o pessoal que tocava na noite, começou a não ter material ainda pra tocar.
Eron Falbo: [19:01] Caraca, sério? Tipo assim, tão grave assim?
Rodrigo Morgado: [19:04] E o house, ele veio disso, porque basicamente o pessoal da disco ia pro estúdio e gravava bateria, gravava baixo, gravava guitarra. E os DJs, eles não tinham esse know-how. Então, eles já tinham umas machines na época que eram mais básicas, né? Você conseguia botar as batidas básicas ali e você botava um vocal em cima. Então, todos os houses iniciais de Chicago, eles são bem básicos, com batidas e vocais meio que repetitivos, né?
Eron Falbo: [19:37] É engraçado isso que você tá falando, que muita coisa que é legal, que entrou dentro do espectro da música, da cultura humana, veio de uma espécie de fracasso. Tipo, não consegui fazer alguma coisa e não consigo tocar as músicas. Eu dou um jeito, então você faz uma gambiarra e cria um novo sistema, um novo jeito de agir. Aí, exemplo assim, tipo, o Paul McCartney sempre queria fazer, ou os Beatles, como no geral, queriam fazer músicas, mas eles gostavam muito daquelas músicas de show tunes, de Frank Sinatra, essas coisas assim. Só que eles queriam fazer show, eles não tinham como ter um Big Band, entendeu, lá em Liverpool. Eles não conseguiam fazer isso, aí eles foram fazer skiffle, que era aquela coisa mais country.
Rodrigo Morgado: [20:29] Eles improvisaram o que era impossível na época. E o termo House Music, ele vem justamente por isso, porque você tinha essa casa que era de periferia, de negro, em Chicago, e ele chamava The Warehouse, né? E alguns desses DJs já produziam esse material próprio e tocavam esse material lá. E aí, de tanto que o pessoal falava The Warehouse Music, The Warehouse Music, acabou depois sendo simplificado para The House Music. Entendeu?
Eron Falbo: [21:00] E era por causa de um lugar físico desse warehouse?
Rodrigo Morgado: [21:03] Sim, era por causa de um lugar físico.
Eron Falbo: [21:04] E Deep House vem porque era feito no sótão? Como é que é?
Rodrigo Morgado: [21:10] É, não, esse não era o único caso.
Eron Falbo: [21:14] Não, tu falou Deep House, porque Deep House veio depois.
Rodrigo Morgado: [21:17] Bem depois, bem depois.
Eron Falbo: [21:19] Mas não tem nada a ver com o warehouse, só porque era feito no lugar bem distante.
Rodrigo Morgado: [21:24] O nome House Music... tem vários historiadores que contestam, tem aquela história. Mas uma das histórias mais aceitas é essa, que é a questão...
Eron Falbo: [21:36] O modificador do Warehouse.
Rodrigo Morgado: [21:37] Esse clube chama The Warehouse, que foi um dos precursores desses DJs tocarem House Music lá em Chicago, que era um clube de periferia, de negros. E vários desses DJs já tocavam nesse clube, e aí as pessoas falavam The Warehouse Music, The Warehouse Music, e depois passou a ser simplificado pra The House Music, né?
Eron Falbo: [21:57] Só pra avisar pro pessoal que a produção tava dizendo aqui que Pump Up The Volume tem na Amazon Prime, se quiserem assistir.
Rodrigo Morgado: [22:06] Sim, tem um super documentário pra quem quer conhecer, é em seis partes, e deve ser umas seis, sete horas de documentário no total, cada um deve ter mais ou menos uma hora, alguma coisa. Mas pra quem gosta de música eletrônica e quer conhecer essa trajetória, é um.
Eron Falbo: [22:24] Super. Me fala da sua trajetória em termos de sair e descobrir a música eletrônica. Quando você começou a sair mais do rock e se abrir e entrar, como é que foi esse processo psicológico, sentimental e histórico na sua vida?
Rodrigo Morgado: [22:46] Viajava com a minha família pra França quando eu era mais novo, adolescente. Eu tinha um pessoal, assim, um pouco mais velho, que eram amigos, vizinhos meus, que, inclusive, tinham família lá na França. Eu sempre ficava em Paris alguns dias. E a gente, normalmente, ia fazer esporte e tal, né, dessas coisas. E o que aconteceu foi que numa dessas vezes, lá para 96, 97, um desses amigos me sequestrou ali, eu era novo, com meu irmão, com o pessoal, e a gente foi. Me levaram para alguns clubes de lá, e aí eu fissurei naquele som. E isso foi o primeiro contato que eu tive com a música eletrônica mesmo.
Eron Falbo: [23:38] Na época era o quê? Era Trance? Era House? O que que era? Drum and Bass?
Rodrigo Morgado: [23:44] Era literalmente o início ali do French Touch. Então eu tive o privilégio de ver caras como o David Guetta, o Bob Sinclair no underground lá, os próprios caras do Daft Punk, o Thomas, o Gui... Eu consegui ver esses caras lá quando eu tinha 16, 17 anos de idade, sabe?
Eron Falbo: [24:06] Caraca, então isso é marcante!
Rodrigo Morgado: [24:08] Muito marcante! E era uma sonzeira, assim, porque eles, na verdade, bebiam muito da fonte do house original e do disco, né? Mas eles tinham toda uma produção própria, nova, moderna. E eu não sabia o que era aquilo, e aquilo me impactou de alguma forma. Eu voltei pro Brasil com as minhas bandas, com as coisas. Mas depois eu fui vendo o lançamento... Aí teve o lançamento do primeiro disco do Daft Punk, Homework, né? E falei: caramba, o som que eu tô ouvindo, que eu ouvi lá, era bem esse estilo aí. E daí por diante, aí que eu comecei a gostar mais de música, de fato, no primeiro contato mesmo. E eu tive banda durante vários outros anos, mas eu já gostava daquilo. E no Rio, principalmente, o clube que mais tocava esse estilo, no início, pelo menos que eu peguei, que eu saía na época, era o Baronete, né? Eu me lembro muito bem. Que o Baronete, quando abriu, no final de 2001, 2002, a gente ia lá e as meninas reclamavam, porque a moda era hip-hop, esse hip-hop tipo o diabo cantado com isso. E o house, que o pessoal botava, DJs como o Lorenzo na época, o Papagaio, etc, os caras que eu fiquei amigo depois, eles traziam esse som de fora, botavam, e as meninas reclamavam porque era diferente, né? Mas não durou muito tempo, dois, três anos, com a galera insistindo, todo mundo amava aquele som.
Eron Falbo: [25:39] Mas não foi porque começou a ficar famoso no mainstream? Porque, normalmente, é assim: a galera só dança porque... Também, mas...
Rodrigo Morgado: [25:47] É questão de cultura também. Eu acho que as pessoas, principalmente quando saem, elas esperam muito ouvir as coisas que elas já estão acostumadas a ouvir.
Eron Falbo: [25:55] É familiar, claro.
Rodrigo Morgado: [25:57] Não são todas as pessoas que têm a cabeça aberta pra ouvir algo novo. Então ela tem um instinto inicial de meio que rejeitar aquilo que ela quer ouvir, simplesmente porque ela já ouvia antes e tal. Mas, a partir do momento que ela abre a cabeça e deixa rolar, cara, é...
Eron Falbo: [26:13] Eu já sofri muito por isso, porque, assim, sendo um artista novo, você tocando coisas novas... tipo, a galera só quer coisa familiar. Aí cê, sei lá, cê tá suando, assim, pô, eu vou mostrar minha composição, aí cê toca, e cê olha o cara da galera: pô, vou buscar cerveja. Aí você desmorona psicologicamente. É muito difícil mostrar uma parada nova.
Rodrigo Morgado: [26:42] Na época que eu tinha a banda, eu passei muito por isso também, porque a gente fazia um trabalho muito autoral. Claro, a gente fazia covers também e tal, mas, óbvio, você passa um pouco por isso também, então, normal. Mas a questão de cultura, cara, na minha opinião, é repetição, né? Não tem muito mistério, é você ter um hábito e repetir ele. Então, assim, o que eu vejo é que o que a gente começou há cinco anos atrás com a label, com tudo de música eletrônica, esse estilo tá muito mais difundido do que era na época.
Eron Falbo: [27:16] Mas você vê show assim, você faz... você toca coisas suas e você toca coisas dos outros ainda, né? Tipo, só uma curiosidade, era minha impressão.
Rodrigo Morgado: [27:27] Claro, não, total.
Eron Falbo: [27:29] Então, aí a pergunta é: você usa, vamos dizer, uma festa pra lançar coisas, pra entender se deu certo? Ou você espera, sei lá, o pessoal lançar digitalmente, ver se deu certo, aí você usa? Como é que é essa dinâmica?
Rodrigo Morgado: [27:52] Então, na verdade, um dos principais trabalhos do Didi, que eu acho que nem todo mundo consegue entender, é a pesquisa. Então, você tem que estar fazendo uma pesquisa constante. Então, não é simplesmente você chegar aqui e tocar aquelas duas horas, mas toda a bagagem musical que você pesquisou antes, pra você estar aqui naquelas duas horas e estar fazendo, entregando aquele conteúdo pras pessoas, entendeu? Então, é... Isso é uma coisa que eu principalmente aprendi ao longo do tempo que eu decidi realmente envelhedar para esse caminho de se tornar um DJ. E é isso, eu invisto muitas horas em pesquisa, olhando todo tipo de site, todo tipo de referência, os artistas que eu gosto, os próprios sites, assim, Soundcloud. Por exemplo, Soundcloud é um lugar...
Eron Falbo: [28:50] É muita coisa independente.
Rodrigo Morgado: [28:52] É, você consegue... Porque, por exemplo, no Spotify, pra você botar uma música lá, ela tem que estar autorizada pelo artista original. Então, se, por exemplo, fizer um remix, você teria que me autorizar, aí eu tô lá. Já no Soundcloud, isso não é necessário. Então, lá no Soundcloud, você tem o que a gente chama muito de bootleg, que é, digamos, as músicas não oficiais. E a quantidade de bootleg que tem lá, de músicas não autorizadas, de produtores, assim, que não são tão conhecidos, mas que são maravilhosas, você pode Pô, essa é muito bom.
Eron Falbo: [29:26] E cara, o hip hop e a música eletrônica evoluiu disso, né? Porque hoje em dia as coisas são tão controladas, né? A tecnologia de copyright ficou tão inteligente que é até difícil... Desenvolver esse tipo de coisa, por isso que precisa de refúgios, lugares como o Soundcloud, nem sabia que o Soundcloud deixava esse tipo de coisa, mas a gente precisa, porque senão aonde você tem espaço pra criatividade, porque assim, uma coisa é propriedade intelectual, né, tipo, porra, proteger o incentivo do artista pra produzir mais, eu até tenho uma live com com o Fábio Pimentel, que é um advogado, um dos maiores do Brasil de propriedade intelectual. E ele, durante a live, me convenceu de que eu sou meio pirata. Apesar de ser músico, eu tenho músicas que já entraram em filmes, que já foram de playlist da BBC e eu podia ganhar. Ganhei pouco dinheiro na bicharia, né? Porque eu tenho poucas músicas. Mas eu ganhei alguma coisa. Mesmo assim, eu digo, cara, eu prefiro a parada pirata. Por quê? Porque eu acredito que usem a minha música pra criar novas coisas. E acho que a cultura tem que girar, e eu tenho que... E a minha responsabilidade é trazer mais valor. Então fazer show, trazer mais valor, melhorar a minha música. Sei lá, fazer uma nova música pra poder ganhar dinheiro. E a indústria realmente não pensa assim. Esse indivíduo até me convenceu que existe uma razão pra existir propriedade intelectual. Só que realmente, como é que chama? Cramp dá uma quebrada na criatividade.
Rodrigo Morgado: [31:12] Ah, sem dúvida, sem dúvida. A música eletrônica começou muito de samples de músicas que já existiam, né? Que é uma coisa muito usada até hoje e tal assim com essa lei de copyright assim ficou digamos um pouco mais chato de se fazer isso mas compensação também criou-se uma regulação para que essas pessoas que criaram originalmente pudessem ganhar.
Eron Falbo: [31:40] Isso é um ótimo ponto tem uma.
Rodrigo Morgado: [31:44] Tem uma tem uma faca de dois gumes aí que é interessante mas tem um lado bom e o lado ruim.
Eron Falbo: [31:49] Sim muito interessante Eu já tava aqui reclamando, mas você tá certo. Quando a gente vê evolução cultural, a gente sempre vê essa coisa. Tipo assim, no início a gente julga como uma coisa ruim, depois aparece uma coisa boa. Um exemplo, tipo, o exemplo contrário do que você acabou de falar. Quando chegou MP3, aí o Metallica... Como é que chama? Prosecutor? Como é que chama? Sue? Como é que chama? Na época.
Rodrigo Morgado: [32:28] Eles foram muito julgados assim como mercenários, etc, e tudo. E tiveram uma imagem muito arranhada, né? Mas, em conversação, ele criou-se uma discussão que depois fez muito sentido lá na frente, né?
Eron Falbo: [32:45] Processou, é essa palavra que eu tava procurando.
Rodrigo Morgado: [32:50] Porque, na realidade, internet é muito isso. O Spotify, inclusive, a história dele é muito assim. Principalmente os países, por exemplo, a Suécia é um país que teve uma infraestrutura de internet investida pelo governo muito, de muita qualidade. Aí todo mundo tinha internet em alta velocidade, entrava na internet e internamente não tinha muito o que fazer. Então, o que que aconteceu? Os caras começaram a criar os próprios serviços pros usuários usarem. E aí começou a criar os serviços piratas. Aí você via casar, todos esses negócios, tudo.
Eron Falbo: [33:34] Caraca, leão, casar.
Rodrigo Morgado: [33:35] Tudo sueto, tudo sueto.
Eron Falbo: [33:37] Ô, cê lembra qual que era o melhor de todos? Vou te fazer um cheat question. Qual que era o melhor programa desses de... De Fire Cherries.
Rodrigo Morgado: [33:46] Cara, eu peguei bem o início do Napster, então eu posso dizer que pra mim, na época, era isso.
Eron Falbo: [33:57] Era o Napster. Você lembra de um chamado Soulseek?
Rodrigo Morgado: [34:02] Lembro.
Eron Falbo: [34:03] Cara, Soulseek, é isso que eu amava, que você achava umas paradas mais obscuras do universo. Porque eu acho que eles inventaram um esquema de você poder entrar na pasta. Em vez de, tipo assim, o Kazaa, você tinha que falar: não, eu quero share essa pasta aqui. No Soulseek, você podia falar: eu quero share meu HD, sacou? Aí a galera podia entrar, aí achava umas coisas loucas. Exatamente, loucura, cara.
Rodrigo Morgado: [34:32] Teve depois o AudioGalaxy, que era um...
Eron Falbo: [34:35] AudioGalaxy, que era online, porra! Era um browser, né?
Rodrigo Morgado: [34:39] Exatamente.
Eron Falbo: [34:40] Era um browser.
Rodrigo Morgado: [34:41] E aí depois vieram os torrents, né? Que os torrents estão até hoje.
Eron Falbo: [34:44] Os torrents vingaram. Por exemplo, os torrents supriram o lance que é meio pirata, no sentido de que você não precisa de uma plataforma específica. Então o torrent é um formato; na verdade, é um file type.
Rodrigo Morgado: [35:06] O grande lance dos torrents é que eles descentralizaram os servidores, entendeu?
Eron Falbo: [35:12] Exatamente, tipo blockchain. É, então isso é muito legal, só que aí eu tenho um problema, tipo: o Soulseek era uma palavra que já tinha, tipo assim, muita coisa que eu não acho em torno. A gente achava que Soulseek fácil, entendeu? Que eu não acho, porque não tem gente aplaudindo, entendeu?
Rodrigo Morgado: [35:31] Total, total. Mas pra gente que tinha que ir na loja comprar o CD, comprar o vinil, comprar alguma coisa... Eu me lembro assim, no início do MP3, quando começou a onda, lá pra 97, assim, você não conseguia nem achar direito na web, no site, porque era muito pesado para baixar. Então, o grande lance era você juntar a galera, e aí você pegava o CD de todo mundo, ripava e fazia essa troca entre a galera.
Eron Falbo: [36:00] Total. O peer-to-peer era dentro da cidade, né? Antes disso era o mixtape, né? Você botava o mixtape dentro do carro, entregava pro seu amigo. Aí tinha o brother, que era o mais tecnológico, que tinha uma máquina de mixtape com mixtape pra poder juntar.
Rodrigo Morgado: [36:15] Total, total. Tinha um amigo nosso que a gente fazia sempre isso na casa dele. Ele tinha um acervo enorme. Eu fui pegando dele e ele foi pegando de mim também. E a gente, assim... Nesse início, eu era um heavy user de MP3. Era bacana, era bacana.
Eron Falbo: [36:34] Tava pesado, né? Sua família teve que fazer uma intervenção.
Rodrigo Morgado: [36:38] Pois é, não. Eu sempre fui muito ligado ao computador também, né?
Eron Falbo: [36:44] Mas cara, sinceramente, sem querer fazer propaganda pro Spotify, eu quero até que eles me ofereçam 100 milhões de dólares que nem me ofereceram pro Joe Rogan. Mas, então, eu tô um pouquinho motivado por tentar chamar a atenção dele. Tá parecendo... Mas eu acho que, sinceramente, Spotify é bizarramente inclusivo. Tem muita coisa que é... Tipo assim, tem coisa que eu achava no Soul 5, por exemplo, que eu achava que eu nunca ia achar em lugar nenhum que... Porra, tudo bem. Tem muita coisa que não tem, por causa de direitos autorais, qualquer coisa assim. Mas cara, tem bizarramente muita coisa no Spotify. Eu acho umas bandas dos anos 60, tipo que... Que eu era tipo, não sei se vocês sabem disso, mas quando eu morava em Londres, eu era editor de uma revista só dos anos 60, de músicos dos anos 60. Então, assim, o nível de especificidade, sacou, das bandas era gigante. Então, eu acho umas paradas que, porra, só a nossa galerinha ali conhecia. E hoje tem o Spotify pra todo mundo streaming, sacou? É bizarro, cara. É muito melhor.
Rodrigo Morgado: [37:52] Não, com certeza, não. O Spotify, assim, é uma coisa de contato lá atrás, Eu sempre trabalhei... Eu trabalhei na indústria de tecnologia durante um tempo também, nesse ato. Eu tive banda durante um tempo, fiz a faculdade de engenharia e tal. E, basicamente, quando eu estava lá, por acaso, eu tinha um amigo meu sueco que me botou para representar uma empresa dinamarquês.
Eron Falbo: [38:21] Qual é a sua relação com a Suécia?
Rodrigo Morgado: [38:25] Ele mostrou o Spotify, assim, no início, início do Spotify.
Eron Falbo: [38:29] Porque é suéter o Spotify, né? Sim, é suéter.
Rodrigo Morgado: [38:31] É suéter, é suéter. E...
Eron Falbo: [38:33] É, ninguém aqui, ninguém sabe disso. Outro dia eu até olhei isso.
Rodrigo Morgado: [38:36] É, e o grande sucesso deles foi justamente isso, porque eles identificaram uma, basicamente, uma demanda, ou seja, você tinha uma internet de muita qualidade lá pro público, você tinha as pessoas que queriam consumir música, mas os serviços de música que eram prestados não eram bons. Então, qual era a consequência disso? Era pirataria, porque eles pegavam o Kazai, etc., basicamente suprindo uma demanda reprimida lá, né? E o Spotify foi inteligente de entender o seguinte, olha, se eu mudar esse modelo de negócio aqui, ó, ninguém tá ganhando dinheiro de nenhuma maneira. Então, vamos tentar fazer... Todo mundo vai ganhar. O cara paga uma mensalidade fixa, O cara já não tá ganhando nada com esse catálogo que ele tem aqui. A Warner ou outros grandes detentores de conteúdo e tal, eles foram nos detentores. Apresentaram o modelo, os caras aceitaram fazer esse modelo de Revenue Share.
Eron Falbo: [39:32] Mas isso leva a uma parada que eu acho importante também a gente colocar aqui, que a gente está falando sobre indústria fonográfica no geral. Cara, tem uma parada que aconteceu com a Netflix, que não aconteceu com o Spotify, que eu acho que é ruim, é uma coisa ruim, que é o seguinte, A Spotify, já que tinha o monopólio das grandes, dos Big 3, né, da Warner, Universal e Sony, de music label, né, na hora de fazer essa negociação que você tá falando, que a Spotify fez, pra poder pegar os direitos e ter o acervo musical pra poder lidar com, pra poder oferecer isso pro público, era um bom negócio pras gravadoras, só que as gravadoras já estavam em dofalência por causa do MP3, entendeu? E estavam sendo sustentadas pelas outras departamentos dessas grandes marcas, né? Porque Sony, Universal e Warner são marcas de tudo, né?
Rodrigo Morgado: [40:29] Sim, sem dúvida.
Eron Falbo: [40:30] É, de multimídia. Aí o que aconteceu? Eles tiveram que costurar relações com essa galera do... Esses daqui. E o artista ficou em último lugar, sacou? Por quê? Porque as gravadoras estavam... Eles já iam à falência. Então eles tiveram que pegar todo um revenue que o Spotify dava pra eles. E segurar, tanto que teve até a Taylor Swift processou a Spotify, porque mesmo a Taylor Swift era 1% da galera e não ganhava quase nada, entendeu? Aí o que aconteceu? A Netflix, por exemplo, não tem isso. Por quê? Porque a Netflix começou a produzir filme. Aí, aconteceu no começo a mesma coisa, aí começou a ter uma falência, um decaí, o cinema, etc. E isso foi suprido pelo fato que a Netflix e a Amazon Prime, os distribuidores viraram estúdios de produção. E a Spotify não virou, até onde eu sei até agora não virou, porque pra poder conseguir esses catálogos iniciais tinha muito monopólio. Eles fizeram... De que eles não podiam produzir música, entendeu? E isso é super complicado pro artista, porque hoje na indústria fonográfica, o artista não tem revenue stream pra fazer show, entendeu? E isso transformou o artista em meio, o artista muito desfavorecido, o artista musical. O ator, o diretor de desenho voltou a ter sentido. Porque hoje tem séries pra caralho, tem Netflix, Amazon Prime. Agora, o músico tá foda, né?
Rodrigo Morgado: [42:13] Não, sem dúvida. Assim, esses modelos são muito novos, né? E a galera que ganha dinheiro por isso são pessoas que estão ali na casa dos milhões e bilhões de plays, sabe? Então, realmente, principalmente para artistas novos, é muito complicado. Ou até para artistas como a gente, que está, digamos, no meio da música eletrônica, que é um pouco mais nichado, um pouco diferente, não tem tantos plays assim. Então, para você monetizar dessa forma é realmente complicado. A grande sacada dessa história do Spotify é entender uma demanda que está ali reprimida, você conseguir fazer um produto que as pessoas querem pagar.
Eron Falbo: [43:05] Para o consumidor e para a cultura no geral, isso é genial. Agora, eu fico me perguntando qual é a resposta para trazer dignidade de volta para os artistas, porque a Netflix teve essa resposta, e a Spotify ainda está presa nessa coisa do acordo das record labels.
Rodrigo Morgado: [43:25] Eu acho que já teve uma evolução bem grande no sentido de eles criarem modelos que, de fato, as pessoas são monetizadas, só que são modelos que exigem um número de plays assim...
Eron Falbo: [43:38] Mas é tipo assim, quando você fala Taylor Swift, o dinheiro que ela ganha hoje por bilhões de plays é pouco, considerando o que o artista ganhava por um milhão de vendas antigamente. Então a diferença é muito grande. O cara às vezes hoje tem muitos seguidores. Talvez seja, eu tô citando isso, mas talvez seja que com o artista musical esteja mais ou menos acontecendo isso: ele tem aqui, vamos dizer, que nem era, sei lá, rock independente dos anos 80, anos 90, que vendia merch, né, vendia a camisa da banda, ia em turnê. Ou seja, eles se viravam de uma forma. Quando saturou um pouco a indústria, tinha banda demais, aí não tinha muito espaço pras bandas novas, né. Aí eles iam fazer um show e prensavam, eles mesmos em casa, discos, 300 discos lá pros fãs deles, e vendiam isso. Custeava o próximo passo deles. De repente, na nossa era, é o que os músicos têm que começar a voltar a ser mais... Eles já estão começando, né, a ser mais hands-on, né? Tipo, participar mais da carreira e fazer diferentes coisas, e fazer malabarismo, ou o que seja. E ser influenciador. E assim, se você tem 10 mil seguidores, faz alguma coisa, você consegue vender aí pra 5 mil pessoas. Tô piscando a tela, não sei o que tá acontecendo aqui. Tá tudo certo aí? Entendeu? Acho que talvez, por um lado, é bom isso, né? Porque o músico também era meio de lado. Tipo assim, rolava aqueles filmes, né, tipo do cara tocando pra uma plateia e sendo descoberto pelo empresário, e daqui a pouco ele tava lá no jet ski dele e tal. E hoje em dia o músico precisa ser mais criativo de novo, né? De repente é bom.
Rodrigo Morgado: [45:40] Não, sem dúvida, sem dúvida. Assim, o legal das plataformas digitais agora é que é muito mais fácil você mostrar o seu trabalho, né? Então, antigamente, eu lembro também, na época que eu tinha banda, você dependia muito mais de outras mídias, e você sempre dependia de outras pessoas. Então você tinha que levar disco pra rádio, tinha que levar disco...
Eron Falbo: [46:09] Pra aquele jornalista babaca.
Rodrigo Morgado: [46:11] Exatamente.
Eron Falbo: [46:12] Que era amigo de todo mundo.
Rodrigo Morgado: [46:14] Era uma coisa muito mais fechada, que pra você entrar era muito mais difícil. Hoje em dia, o teu trabalho consegue ser exposto na internet de uma maneira muito mais simples. E essas distribuidoras digitais, no meio da música eletrônica, hoje em dia, são uma maneira muito eficiente de você conseguir distribuir isso pro mundo. A gente tá justamente montando a Underdogs Music agora, né, que a gente vai lançar esses dias. A gente tem alguns EPs já prontos pra sair. A gente vai ter uma distribuição do pessoal da Get Digital, que é a distribuidora digital dessa gravadora de Berlim, chamada Get Physical, que é uma label maravilhosa de Berlim, onde vários caras que a gente é super fã lançam. A gente vai estar trabalhando com eles pra lançar esse material, e é bem legal porque você vai estar em todas as plataformas: você vai estar no Beatport, você vai estar no Spotify, você vai estar no Deezer, você vai estar no SoundCloud...
Eron Falbo: [47:22] Em tudo. E essa distribuição é importante, assim, pra você como DJ? É importante, tipo assim, porque você tá fazendo festas, você tá sendo contratado, você tá aí no circuito, né, no Rio de Janeiro e tal. É importante essa coisa de outras pessoas ouvirem? Como é que é essa dinâmica na sua cabeça?
Rodrigo Morgado: [47:40] Cara, acho que é muito importante, porque, claro, você tá presencialmente fazendo as gigs, etc., é super importante, você tá aí mostrando o seu trabalho. E, claro, aquilo tem um impacto, as pessoas estão aqui de uma maneira diferente. No entanto, eu acho que a tua obra artística é tão importante quanto isso, entendeu, pra você ser levado a sério como um artista.
Eron Falbo: [48:07] Pode ser.
Rodrigo Morgado: [48:07] Entendi.
Eron Falbo: [48:09] É porque você se vê... É porque isso eu acho que eu tô explicando pra galera que tá... né, os seguidores aí que não... que não é da edição desse mundo, né, de repente, pra poder entender melhor essa cabeça do DJ de eletrônica, né. Que, tipo assim, mais uma vez, eu não quero correr o risco de ofender, porque não tem nada a ver com isso, mas você sabe que tem essa... muitas vezes um certo mundo não vê o DJ como artista, mas você se vê como artista, e por isso tem essa preocupação, como qualquer artista, de difundir o trabalho, de que as pessoas que talvez estejam com aquele anseio de ouvir uma música que você trabalhou, que você pesquisou, que você construiu com sua experiência, e fazer aquele match de desejo com arte.
Rodrigo Morgado: [48:58] Não, exatamente. Eu acho que o DJ, simplesmente por estar num clube tocando, já tá fazendo um trabalho super artístico, porque ele tá pegando a bagagem musical dele, que ele tem toda guardada dentro da pesquisa dele e tudo, e colocando aqui pra fora pra galera, dando essa experiência. Então, só de ele tá mixando e fazendo uma experiência musical diferente daquele momento já é algo extremamente artístico. Então, no meu modo de ver, muitas pessoas não percebem.
Eron Falbo: [49:28] É, além de compor a obra, né? É isso que eu tava falando no começo: até o DJ de hip-hop, que só tá meio que juntando elementos, ele tá fazendo uma performance, uma coisa...
Rodrigo Morgado: [49:38] DJs de hip-hop maravilhosos, que, pô, os caras fazem, sabe, tem uma técnica super refinada, o cara vai fazer scratching...
Eron Falbo: [49:49] É uma espécie de alquimia, né? Eu tava falando com o Henrico de Pauli, que é um engenheiro de som maravilhoso; ele me deu esse insight, cara, que é uma espécie de alquimia. Tipo assim, um som gera um efeito na pessoa, e você tem que ter a noção de que efeito gerou pra escolher qual é o próximo som. E às vezes você faz isso em tempo real, né? E você fala: "Esse é o momento de..."
Rodrigo Morgado: [50:21] Quando você começa a trabalhar nisso, a mixagem... você aprende, de repente, a mixagem básica. Parece que é uma coisa até razoavelmente simples, mas, na verdade, isso aí pode ser levado a níveis muito mais complexos. Toda música tem várias frequências, tem vários elementos que aquela produção tem, e você tem que saber combinar tudo isso. Você tem que saber combinar os tons, você tem que saber combinar tudo de uma maneira muito interessante. Você pode... O CDJ hoje a gente tem recurso pra você praticamente...
Eron Falbo: [50:59] Considero que o DJ, ou um bom DJ, ele é melhor do que a maioria, ou boa parte dos instrumentistas, né? Porque o instrumentista tá com um instrumento muitas vezes mais simples do que o DJ. Tipo, o DJ tá explorando mais elementos.
Rodrigo Morgado: [51:16] Eu vejo o CDJ ali como um instrumento musical mesmo, do mesmo jeito que eu, quando era adolescente, pegava a guitarra e fazia os exercícios lá de digitação, palhetada, etc. Você chegar, pegar e... aprender o CDJ, ficar estudando, etc. Pra mim, principalmente no início, foi muito importante isso: aprender com a galera que era realmente muito boa, fazer exercícios pra treinar o teu ouvido, pra você conseguir sincronizar as músicas pelo ouvido, simplesmente sem saber qual é aquele BPM, detectar pelo ouvido mesmo, como era feito antigamente, principalmente no vinil e tal, que era tudo basicamente de ouvido, né? Então, isso tudo vai te dando, vai deixando você mais afiado e vai te dando base pra você ter uma técnica maior no instrumento, que aquilo não deixa de ser um instrumento.
Eron Falbo: [52:15] Morgado, eu gosto de... A razão que eu faço essas lives, esses podcasts, né? Isso que eu tô fazendo, que eu tô cada vez mais dedicado pra isso, é pra poder aprender coisas novas, entendeu? Pra poder sentar como eu tô sentando com você. Eu acho que isso pra mim foi matador. Eu acho que pra quem tá escutando a gente também é uma inspiração, entendeu? Entender que as coisas transcendem o... o formato, né? Tipo assim, a gente tá falando de música rock versus essas paradas aí que foram inventadas pelos nossos avós, né? E de fato, a música, a sonoridade, é uma parada que acontece dentro do nosso coração, no final das contas, nem dentro do cérebro, né? É tipo assim, como que a gente joga os sons e escolhe isso de uma forma X, pode ser desde metal até lounge, né? E como que isso vai impactar o... primeiro, como que vai entrar no cérebro da pessoa, vai ser digerido e vai cair no coração, e a pessoa vai ser mordida de alguma forma, ou pra dançar, ou pra gritar, ou pra chorar, sei lá. Então, acho que é isso que eu aprendi nessa live hoje. E achei bonito pra caramba essa mensagem de estar acabando o nosso tempo aqui. Eu queria que você... antes, primeiro, eu queria te agradecer por aceitar o convite, te agradecer por sempre ser um anfitrião, um cara generoso, um cara... como chamam? Lord, né? Lord Jess, um cara Lord. Um cara que sempre se preocupa... o Morgado tá saindo de dinheiro e se preocupa se a pessoa... se tá sozinha, se alguém apresenta os amigos, pergunta se precisa de alguma coisa. Um cara, assim, é um grande cavaleiro. E enquanto ele tá trabalhando, enquanto ele tá tendo que se concentrar, ele escuta as pessoas falando merda no ouvido dele, sempre sorrindo, sempre sendo muito íntimo. Então, eu queria te agradecer por ter aceitado, por ser essa pessoa maravilhosa aí sempre que a gente se encontra enquanto você tá trabalhando. E te deixar nesse espaço aí pra você divulgar suas marcas, o que você tem feito, sites e tudo mais, pro pessoal que tá ouvindo descobrir.
Rodrigo Morgado: [54:34] Obrigado pela oportunidade, pelo espaço. O bate-papo foi muito bom. Na verdade, a gente tem essa label que chama Underdogs, né? É uma label que eu venho trabalhando já há cinco anos aqui no Rio de Janeiro. E também no Brasil a gente faz uma série de eventos; agora os eventos estão parados, então a gente tá focando principalmente nessa parte da record label. A gente vai lançar em cerca de dois meses... a gente lança o nosso primeiro EP, que é da Underdogs Music, né? E vocês podem seguir aqui, é arroba Underdogs Music, aqui no Instagram, tem no Facebook também, a gente tem lista no Spotify, etc. Aqui no próprio Instagram você vai ter um Linktree que tem tudo direcionado lá.
Eron Falbo: [55:18] Mais fácil, ótimo, perfeito. Como um bom entendedor de tecnologia, você facilitou pra todo mundo. Beleza, bicho, muito obrigado, é isso. Boa noite a todos, muito obrigado pela participação, e a todos que estão aí assistindo.
Rodrigo Morgado: [55:34] Valeu, tchau, tchau. Abração.
Eron Falbo: [55:36] Valeu, boa noite.
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