Publications

#62 Música sem fronteiras

com Fábio Allman · 16 de fev de 2021

rss.comSpotifyApple PodcastsAmazon MusicDeezerYouTubeYouTube (só áudio)

Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Abertura e primeiro encontro (0:00)

Eron Falbo: [0:00] Oi, Fábio, tô vendo que você tá entrando aqui. Fala, Fábio!

Fábio Allman: [0:04] Salve!

Eron Falbo: [0:05] Beleza, prazer te conhecer.

Fábio Allman: [0:08] Pois é, prazer te conhecer pessoalmente, né, Eron? Que hoje em dia o pessoalmente é esse, né, cara?

Eron Falbo: [0:15] É isso, é. Eu ia até te ligar antes, mas aí acho que não deu tempo. Devia ter ligado ontem, alguma coisa assim, mas gosto de falar um pouquinho pra quebrar o gelo.

Fábio Allman: [0:26] Ah, mas vamos nessa, cara. Eu tô com um monte de curiosidades também, a ter o respeito. Acho que essa troca vai ser legal.

Eron Falbo: [0:36] Ótimo, ótimo. A gente faz a nossa introdução ao vivo. Melhor ainda, você é um cara aberto, dá pra ver. Um cara com o coração aberto. Isso facilita muito a coisa, entrando no frio, assim, não é frio já, porque você já é caloroso. Então vamos nessa.

Fábio Allman: [0:56] Obrigado. Tô sentindo mesmo aí, andei te assistindo. Confesso que não te conhecia mesmo e, pô, não é inevitável, né, cara? Fui dar uma pesquisada até porque, cara, eu achei teu trabalho incrível também, como cantor. Fiquei impressionado, cara.

Eron Falbo: [1:10] Ah, você viu isso também?

Fábio Allman: [1:11] Vi, fui atrás.

Eron Falbo: [1:13] Valeu.

Fábio Allman: [1:14] Fui atrás, pô.

Eron Falbo: [1:15] Pô, obrigado, cara. Me sinto lisonjeado. Você é um puta músico aí, com experiência vasta. Só de você ouvir o que eu fiz já é uma grande honra. Ainda mais dizer que é bom.

Fábio Allman: [1:29] Qualidade, cara. Mas é verdade, é verdade.

Eron Falbo: [1:33] Valeu, cara. Sinceramente, muito obrigado. Obrigado por dizer isso.

Fábio Allman: [1:38] Como é que estamos de som aí? Tá chegando bem pra você?

Eron Falbo: [1:41] Tá ótimo. Pra mim tá perfeito.

Fábio Allman: [1:43] Eu tô esfriando esse microfonezinho aqui.

Eron Falbo: [1:47] Eu também tô esfriando aqui um novo. É.

Fábio Allman: [1:50] Esse aqui do Alaphone é muito ruim, cara. Ele não para aqui no ouvido.

Eron Falbo: [1:55] É, esse aqui também não para, mas aí tem que ficar fazendo assim. Pelo menos não atrapalha visualmente, mas sei lá, né? Tem que ceder em algum lugar. Mas deixa eu te perguntar aí, e as festinhas da Cássia, como é que eram?

Lembranças e admiração por Cássia Eller (2:05)

Fábio Allman: [2:10] É demais, cara. Sempre foi demais estar na presença dela.

Eron Falbo: [2:17] Mas ela era festeira? Ela era alguém que fazia as festinhas particulares?

Fábio Allman: [2:23] Demais! Agora... O que aconteceu também, Eron, naquela época, que até eu assimilar a essência da Cássia como pessoa, como amiga, eu ia para as coisas muito como... Ah, já estou aqui.

Eron Falbo: [2:43] Eu me servi. Já serviu? Beleza. Vamos brindar aqui.

Fábio Allman: [2:49] Um brinde à música.

Eron Falbo: [2:51] A Cássia, a música dela e a nossa live aqui hoje.

Fábio Allman: [2:54] Pô, que bom, cara. Teve um brinde à Cássia Eller. Cheguei até a me arrepiar aqui. A Cássia, então. É... Poxa... Foi muito... Demorou um pouquinho, cara, porque... Começou nessa coisa, meio festeira, e a gente ia lá, mas eu ficava naquela... Cara, tô na presença da Cássia Eller.

Eron Falbo: [3:13] Profissional. Chegou, eu tenho que tomar cuidado.

Fábio Allman: [3:17] É, eu já admirava ela demais, cara. Não era nem isso, era assim... Eu achava... Ah, entendi.

Eron Falbo: [3:22] Era a reverência mesmo.

Fábio Allman: [3:23] É, total. Porque ela me impressionou no primeiro minuto, cara, que eu a assisti cantando, entendeu?

Eron Falbo: [3:32] Ela tinha uma voz fantástica mesmo, e ela parecia o David Bowie, né? Acho que fisicamente ela tinha uma presença... Eu acho que fisicamente ela parecia o jeito da cara dela, entendeu? Então pra mim ela é a única... Eu vejo isso, não sei se outra pessoa já concorda com isso, mas eu vejo ela como um ícone assim, nasceu para ser ícone do rock, tem uma coisa assim, voz e presença, e as letras dela para mim eram... Poucas pessoas dentro do rock brasileiro tinham esse nível, entendeu? Renato Russo talvez, esse nível assim de poético, né?

Fábio Allman: [4:10] Um nível... visto do rock. Ela admirava demais o... Ih, pintou um mosquitinho aqui, desculpa. Ela admirava demais o Renato e, assim, a Cássia, apesar de compor, porque ela era muito... Ela tinha certas inseguranças e tudo, então ela dizia que não compunha. Ela dizia que não tocava piano. Ela mostrava uma coisa. O que é isso aí, Cássia? Ah, é uma música minha, nova. Não, mas não. Ela, depois do segundo disco, acho que ela parou também de colocar músicas dela, mas ela sempre ficou cuidadosa com o repertório, com as coisas que ela cantava, com tudo, cara. Com dicção, com... Ela era assim.

Eron Falbo: [4:59] Nossa, demais. Detalhes, métrica.

Fábio Allman: [5:03] Sabe, coisa de cacófato até, sabe?

Eron Falbo: [5:06] Sim, sim.

Fábio Allman: [5:07] A vez passada. Eu não consigo lembrar uma coisa, mas de vez em quando ela falava isso.

Eron Falbo: [5:11] Eu sei o que você tá falando.

Fábio Allman: [5:13] Essa palavra tá correndo.

Eron Falbo: [5:14] Pra quem não é músico, às vezes... Talvez, deixa eu dar um exemplo. Tem um exemplo clássico que até o Felipe Seabra sempre usava. Eu cheguei a quase produzir um disco com o Felipe Seabra, do Pablo Rui. É, do Pablo Rui.

Fábio Allman: [5:31] Você é carioca ou não?

Eron Falbo: [5:34] Eron Falbo: Não, eu sou brasileiro. Aí o Felipe mora lá em Brasília, tem um estúdio lá.

Fábio Allman: [5:39] Fábio Allman: Ah, e a Cassi, cara, passou boa parte da vida dela.

Eron Falbo: [5:40] Eron Falbo: E a Cassi curtiu muito lá no Beirute, lá no Beirute Sul. Você já foi, não, pra Brasília?

Fábio Allman: [5:47] Fábio Allman: Muito, cara, muito. O Monobloco, que também já é uma outra fase da minha carreira. Os lugares que eu mais visitei no Brasil, em número de vezes, foram Fortaleza e Brasília.

Eron Falbo: [6:01] Eron Falbo: E é o quê, micareta e Andanga, que eles chamam?

Fábio Allman: [6:03] Fábio Allman: Não, eu toco muito no NABB. Muito, muito. Fizemos muitos shows lá.

Eron Falbo: [6:08] Eron Falbo: Ah, eu lembro. Eu lembro que tinha muita festinha.

Fábio Allman: [6:10] Fábio Allman: Monobloco, sempre. A gente já enchia e a gente fez carnaval.

Eron Falbo: [6:13] Eron Falbo: E por que o nome é Monobloco? Me lembra mononucleose, porque é carnaval.

Origem do nome Monobloco (6:14)

Fábio Allman: [6:20] Fábio Allman: Cara, engraçado, essas coisas de nome também é outra coisa complicada, né? Porque paralelos do sexo, né? Pra um nome pegar é complicado. Mas a história que até o Pedro Luiz e os caras da Paredes contam é que eles foram gravar a banda deles, né? Eles formaram uma oficina de percussão que veio a ser o Monobloco depois. Começou assim, como uma coisa para ensinar, uma oficina de percussão brasileira.

Eron Falbo: [6:48] Eron Falbo: Ah, começou assim. Achei que veio depois isso.

Fábio Allman: [6:52] Fábio Allman: Primeiro ano já foi carnaval, bloco, pá, já explodiu. Mas eles tinham um microfone daqueles condensers, né, bom, que eles, no estúdio, tiveram uma ideia: vamos botar esse microfone no meio, cada um pega uma peça de percussão e a gente faz um bloco, um monobloco. Aí botava aquele microfone no mono, tocava todo mundo lá, captava daquela maneira e depois se abria em stereo.

Eron Falbo: [7:22] Eron Falbo: Mas captava tudo do mesmo microfone?

Fábio Allman: [7:25] Fábio Allman: Exato.

Eron Falbo: [7:26] Ao vivo. É mesmo? Até o vocal e todos os instrumentos? Não, não, não.

Fábio Allman: [7:29] A percussão, a percussão.

Eron Falbo: [7:31] Ah, só a percussão pra fazer a base.

Fábio Allman: [7:33] É, aí ficou aquilo. O monobloco.

Eron Falbo: [7:36] Ah, interessante, interessante.

Fábio Allman: [7:38] E aí depois virou o nome do bloco, virou percussão, virou banda. Monobloco foi uma explosão mesmo, cara.

Eron Falbo: [7:49] E aqueles microfones ainda usam isso para fazer a minha função? Não, né? Hoje em dia é tudo microfonado, meticulado ali.

Fábio Allman: [7:56] Isso já é uma outra fase. Passamos anos com o monobloco atrás da captação perfeita, se é que posso dizer isso.

Eron Falbo: [8:06] Isso aí é um Santo Graal, é que ninguém nunca chegou.

Fábio Allman: [8:09] Exatamente, muito difícil, porque os espaços com reverberação diferentes e gente pra caramba, e aí bota o PA assim, bota o sistema diferente.

Eron Falbo: [8:19] E outra coisa, toda vez que você ouve é diferente, né? Eu tava até fazendo uma live com o Henrico Paoli, sei lá. Ele falou uma parada que eu achei que, pô, é importantíssimo: que o engenheiro de som ele saca que você ouve uma coisa uma vez, a segunda vez que você ouve você já tá carregando a memória da primeira vez, entendeu? Então a segunda vez que você ouve, já tá viciado de uma certa forma. Você tem que levar isso em consideração. Então, a gente, quando tá na gravação... Tipo assim, eu também já gravei milhões de coisas. Em gravação, a gente sempre fica naquela coisa: 'Ah, não tô gostando da guinheta, assim.' Pô, tá perfeito!

Fábio Allman: [8:58] Exatamente, é o momento, é o... Principalmente quando você grava, registra e depois tem que ouvir várias vezes. Chega uma hora que a gente diz, às vezes, né? Cara, abandonei a mixagem, abandonei o disco.

Eron Falbo: [9:10] Claro. Tem um poeta, qual que é o nome dele? Paul Valéry. Tem um poeta francês aí que falou que um poema nunca é terminado, ele é abandonado. Que a arte é assim, tipo, em algum momento... Porque você, como artista, você fica lá com a sua vida ali, tipo...

Fábio Allman: [9:26] Os discos também. É um pouco por aí. Você é cantor, você sabe: cara, eu gosto muito dos meus primeiros takes de voz.

Eron Falbo: [9:39] Sabe?

Fábio Allman: [9:40] Durante a pandemia aqui, como eu fiquei com pouco recurso em casa, sozinho, na hora que caiu a bomba da pandemia, eu falei: o que eu tenho aqui? Tenho para gravar, para botar para o mundo online. Eu sempre tive um pouco de medo da tecnologia, porque sou um cara que é...

Gravação caseira durante a pandemia (9:42)

Eron Falbo: [9:57] Eu também, né?

Fábio Allman: [9:58] Gaita de boca...

Eron Falbo: [10:00] Eu também.

Fábio Allman: [10:01] Sabe? Esse tipo de coisa, e cantar. Minha coisa é cantar. Aí eu falei: cara, agora eu vou ter que lidar com isso aqui. E aí eu tinha três canais. Então, cara, assim, tem que valer o primeiro take da voz. Esses vídeos de collab que eu fiz, muitos assim, o cara me manda a base, eu botava a câmera, né, pra gravar o vídeo.

Eron Falbo: [10:21] Sim.

Fábio Allman: [10:21] E pra depois poder sincar, falei: cara, tem que valer o que eu já tô gravando aqui. Eu apertava rec, soltava o rec do telefone do vídeo e falava: tem que valer, porque senão... E como é que...

Eron Falbo: [10:33] Vocês fizeram essa parada de... É uma curiosidade minha, que eu nunca fiz essa coisa de fazer um vídeo com diferentes lugares. Deve ter uma base de bateria e você grava talvez uma voz por cima e usa como guia para os outros?

Fábio Allman: [10:46] A gente foi, durante esse ano, aprendendo demais a fazer esse tipo de coisa. Para quem edita som e para quem edita vídeo, que não é muito a minha praia ainda, apesar de eu já estar tendo que fazer alguma coisa. A gente tem que perder um pouco esse medo da tecnologia, porque eu acho que tá indo por esse caminho, né? Mas assim, uma coisa clássica é: quem tá gravando vídeo, no áudio tem o clique. Um, dois, três, quatro. Aí você escolhe a contagem. Pode ser um, dois, ou então um, dois, no silêncio. Quem tá gravando vídeo geralmente faz, ó: um, dois. E aí o cara, na hora de cortar, ele sabe, ó: tá começando aqui. E aí ele vai e junta, sinca, né? Faz assim.

Eron Falbo: [11:41] Entendi. Então já tem uma base de metrônomo. Não, porque eu acho que isso é difícil pras pessoas que estão gravando, se não tiver uma base. Porque assim, na verdade, se a pessoa tiver uma boa noção de metrônomo, tudo bem. O difícil depois é pro editor, né? Ficar juntando que parte é o quê.

Fábio Allman: [11:58] Exato. A imagem é bem complicada.

Eron Falbo: [12:01] Eu fazia com uma base, com um guia, que nem é feito numa gravação em estúdio mesmo, você grava um guia inicial, né?

Fábio Allman: [12:09] É, mas eu já fiz aqui até voz, primeiro a voz, porque eu tava tão interessado: cara, vou gravar a voz aqui, te mando. O importante é ter o tempo, ter o beat, ter o clique, que você tá chamando de metrônomo. Metrônomo é o aparelhinho, né? É o clique, né?

Eron Falbo: [12:32] Eu sei lá, na minha época o pessoal falava metrônomo. Eu era músico amador, tipo charlatão. Tipo o John Lennon nos Beatles, tocando desafinado, entendeu?

Fábio Allman: [12:42] Eu nunca fui pra escola de nada. Eu vi o vídeo Beat the Drums, eu fiquei muito impressionado, cara.

Eron Falbo: [12:50] Valeu! Mas aí a galera que fez o vídeo era uma galera muito chata.

Fábio Allman: [12:54] Não, mas pô, a estética é bem legal, né? Parece uma coisa de outra época, velho. Parece que você é de casa.

Eron Falbo: [13:01] Cara, isso aí foi feito com 500 libras. Eu não tinha dinheiro nenhum, né? Na época, eu tinha um orçamento de 500 libras. E um cara que era o líder da equipe de efeitos especiais dos filmes do Harry Potter foi num show meu. Se amarrou, o meu empresário na época conversou com ele e convenceu ele, em Londres. Aí a gente fez com um orçamento de 500 libras e eles até construíram um estúdio. Você viu que aquela é a parte do estúdio que tem eu cantando, que é preto e branco? Aquilo foi construído assim por marceneiro, entendeu? Aquilo foi maneiro. Então, pra poder imitar aqueles estúdios dos anos 60 que tinha, como é que chama, Top of the Pops, que tinha aqueles programas de televisão de lip-sync, né, que a galera ficava fingindo que tava tocando. Ed Sullivan, essas coisas. Então, cara, genial, né? Tipo, como é que você consegue... Tem coisas que acontecem na música, assim, tipo... Mas eu dei muita sorte de ter uma galera incrível, assim. A galera que fez o vídeo é incrível, mas eu não gastei quase nada, então, tipo, uma maravilha. E na música tem muito isso, né? Na sua história você deve ter também coisas assim de tirar as coisas do chapéu.

Bastidores do clipe Beat the Drums (13:10)

Fábio Allman: [14:25] É, mas é muito bacana você falar isso a respeito do clipe, que provavelmente foi numa outra época, acho que foi 2011, né, que você fez?

Eron Falbo: [14:32] É, 2011, é.

Fábio Allman: [14:33] Então, mas hoje em dia, eu cheguei a falar com alguns amigos, porque isso é outra coisa, eu tenho um Shure 58. Se você não sabe, pra quem não entende, é um microfone duro, né, um microfone dinâmico, você tem que encostar, é o que você canta no show, né, e ele é clássico. Eu me lembro de um cara...

Eron Falbo: [14:49] Há muito tempo, faz mais de 15 anos que esse é o microfone.

Fábio Allman: [14:55] Não, muito mais. Muito mais. O meu tem quase 30. Eu faço em maio 30 anos de carreira. E meu pai me deu esse microfone em 1992.

Eron Falbo: [15:14] Caraca, é o mesmo.

Fábio Allman: [15:15] Tem o mesmo. Esse cara... Uma vez, um técnico na Irlanda disse que você pode ir num edifício de três andares e soltar o 58, o Shure 58, pela janela, pegar lá e plugar que ele vai funcionar.

Eron Falbo: [15:31] E eu boto aqui a verdade. Cara, eu tinha tipo uns seis, né? Que a gente tinha uma banda, tinha quatro vocais. Aí a gente sempre carregava, só que sempre que caía, caía cerveja em cima.

Fábio Allman: [15:41] Cara, eu pego uma baqueta de bateria, um martelinho e desamasso ele. Lavo ele com sabão e boto lá de volta, pra ele ficar bonitinho. Então, assim, esse é o microfone que eu tenho trabalhado aqui durante a quarentena, a pandemia, cara. Isso eu falei pro amigo meu. Às vezes você tem um Neumann, um condenser desses de dois por mil.

Eron Falbo: [16:02] Aí você deixa cair uma vez.

Fábio Allman: [16:05] O que eu queria dizer é que não basta ter um equipamento desses absurdos de ponta, se você não tem uma ideia na cabeça, se você não tem vontade, sentimento. Não adianta.

Eron Falbo: [16:18] É por isso que eu tô te admirando muito, porque você é músico há muito tempo. E você pensa exatamente igual a mim. Eu sempre fui contra, na verdade, qualquer tipo de tecnologia, porque eu sempre fui a favor do poder humano, né? Do poder pessoal dentro da música. Outra coisa, a Cássia Eller, claro, a Cássia Eller não precisava nem de microfone, nem de guitarra pra tocar. Porque as músicas dela tinham um poder, tinha harmonia, tinha melodia, tinha letra e tinha o poder da voz dela. E isso, nenhuma dessas coisas tem tecnologia envolvida. Então você pode ouvir até que as produções, elas são... Isso é relativamente simples. Ela não entra com... Até o Renato Russo escondia por trás de muita... A Legião Urbana tinha muito efeito, muita coisa assim. A Cássia tinha menos.

Fábio Allman: [17:02] Ela se garantia. Mas eu acho que também era um pouco do brasileiro, cara. Essa garra, sabe?

Eron Falbo: [17:09] É verdade. A música brasileira tem mais isso.

Fábio Allman: [17:11] A gente tira leite de pedra, entendeu? Se quebrou o microfone, o brasileiro vai cantar sem microfone, vai gritar ali.

Eron Falbo: [17:18] É verdade. Mas depende do rock, eu cresci no rock, a galera era muito obcecada com o timbre da guitarra e a pedaleira, e eu achava isso meio ridículo. Eu achava: galera, vocês não sabem, vocês não têm nem bom gosto ainda pra estar tocando com isso, vocês gostam de Ramones no máximo e não conhecem umas paradas mais elaboradas, estão preocupados com o timbre da guitarra. É uma questão de ressurgir.

Fábio Allman: [17:48] Você consegue resolver as coisas na simplicidade, né? Exatamente isso. O que você tá falando é o que eu falei. De repente, uma ideia na cabeça, vontade e a raça, você vai com um 58, um Shure, um microfonezinho vagabundo, vai fazer a mesma coisa do que com um Neumann de 2 mil dólares, entendeu?

Eron Falbo: [18:10] Total, total. Cara, que bom que você pensa assim também. É raro ver um músico de tanto tempo de estrada que preservou esse pensamento. Porque uma hora ou outra você dá o braço a torcer e começa a escolher os microfones mais top, né? Muito legal, cara. Parabéns aí pela resistência.

Encomendas de música personalizada (18:27)

Fábio Allman: [18:35] Pô, obrigado.

Eron Falbo: [18:35] E cara, me fala dessas... Eu vi no seu YouTube, eu acho que você tava fazendo music messages, né? É que você grava pra alguém uma música? Eu não sei bem como é que é isso.

Fábio Allman: [18:48] Eu andei colaborando com alguns que são mais produtores, né? Alguns músicos que são mais produtores do que eu. Eu acho que também é mais um caminho, entendeu? Eu fiz alguns aqui. Queria até ter feito mais, porque eu acho que é uma maneira de... Mas o que é?

Eron Falbo: [19:04] Como é que funciona?

Fábio Allman: [19:05] Você dá um presente em forma de música, né? Um aniversário. Agora o último que eu fiz foi domingo, que aqui na Europa, acho que nos Estados Unidos também, é Valentine's Day, né? No dia 14 de fevereiro. Um amigo meu me ligou na sexta, que é um inglês, o Paul Rumble, e falou... Ele tem um cardápio de cantores, e eu tô com essa sorte que eu fiz um com ele, aí fiz outro, fiz outro, fiz outro... Esse foi o quinto. E, olha, o cara que quer cantar pra mulher, pra esposa, ele gostou da tua voz. Eu falei, pô, graças a Deus. Aí ele me ligou e falou: 'Is This Love', do Bob Marley. Pô, melhor ainda que eu conheço essa música.

Eron Falbo: [19:45] Eron Falbo: Mais ou menos, sua voz é maravilhosa, cara. Pô, eu escutei Is This Love. Tá uma gravação... Normalmente, quando você pega essas versões, a gente fica com o pé atrás, mas aqui, legalzinho, é música de elevador, mas aí tá forte, tá convincente pra caramba.

Fábio Allman: [20:05] Fábio Allman: Se eu gosto da música... até um pouco da Cassia tinha muito isso também: se eu acredito no que eu tô cantando, aí eu consigo botar ali uma marca, uma marca minha. E ele me ligou na sexta e disse: bora. Aí no sábado à noite eu entreguei pra ele, pra entregar no domingo pro cliente. E assim, não foi muita grana, foi, sei lá, 20 libras. Eu vou até falar aqui, não devia ter falado, né? Não, olha, não foi 20 libras não, é mais caro, gente. Agora meu caixinha subiu.

Eron Falbo: [20:40] Eron Falbo: Ok, mas 20 libras pra música, pra gravar música?

Fábio Allman: [20:43] Fábio Allman: Não, pra gravar uma voz.

Eron Falbo: [20:46] Eron Falbo: Ah, só a voz, tá bom. Não, tudo bem.

Fábio Allman: [20:48] Fábio Allman: Não, não, relaxa, relaxa.

Eron Falbo: [20:51] Eron Falbo: Primeiro lugar, vamos fazer um disclaimer aqui: tudo depende de quem tá pedindo, de onde tá vindo, qual que é a música, o tempo de produção, isso aí tudo importa. E também sua agenda, né?

Fábio Allman: [21:06] Fábio Allman: Exatamente, vamos desbravar isso também. O cara me pediu na sexta, no sábado eu gravei, no domingo a mulher já tava lá. Thank you very much.

Eron Falbo: [21:16] Eron Falbo: Aí sai rapidez.

Fábio Allman: [21:18] Fábio Allman: Então é isso: cantar uma música para um aniversário, cantar uma música para um Valentine's Day. Teve uma senhora de 90 anos no Brasil também, pediu Metamorfose Ambulante.

Eron Falbo: [21:32] Eron Falbo: Cara, acabei de ver quantas pessoas tem aqui assistindo, nunca teve tanta gente aqui. Deve ser você.

Fábio Allman: [21:37] Fábio Allman: Mentira. Não, você é muito seguido, você é muito seguido, eu sei.

Eron Falbo: [21:41] Eron Falbo: Porra, mas nunca... Na real, a gente era tipo 450 agora. Mas obrigado pela sua presença.

Fábio Allman: [21:50] Fábio Allman: Porra, que isso.

Eron Falbo: [21:51] Mas cara, uma coincidência que eu acabei de lembrar é que o Vintage Jones foi gravado em Valentine's Day, dia 14 de fevereiro de 2011.

Fábio Allman: [22:03] Qual música? Desculpa.

Eron Falbo: [22:05] Beat The Drums, que você falou. Minha música, você ouviu?

Fábio Allman: [22:11] Ah, tá bom. Eu tenho um sotaque um pouco carioca pra falar inglês. Eu tava... Beat The Drums, né? Fez quantos anos?

Eron Falbo: [22:21] Não, não. Foi gravado no estúdio dia 14 de fevereiro de 2011. Aí foi lançado dia 1º de agosto.

Fábio Allman: [22:30] Fez aniversário da gravação agora, domingo?

Eron Falbo: [22:33] É, eu nem lembrava disso. Só lembrei disso que você falou que gravou em 14 de fevereiro e da Antazia. Eu lembrei que era o El Antazito.

Fábio Allman: [22:42] E Eron, foi em Nashville que você gravou?

Eron Falbo: [22:46] Não, Beat The Drums foi em Londres. Foi no estúdio dos Kinks... ah, não, desculpa, isso não foi no estúdio dos Kinks. Tem o Konk Studios, que é o estúdio dos Kinks, da banda The Kinks. Aqui tem o Waterloo Sunset, aquelas... Cara, You Really Got Me, né?

Fábio Allman: [23:08] Sim, claro, clássico.

Eron Falbo: [23:10] E até hoje já apareceu o Ray Davies no estúdio, o vocalista, aquele que, pelo menos na época, estava no estúdio. Mas a Beatles já não foi em outro, na verdade, foi no Garden Studios, em Londres. Mas o disco que eu gravei com o Bob Johnston foi em Nashville.

Fábio Allman: [23:30] Tá, esse foi outro disco, que ele...

Eron Falbo: [23:32] Trabalhou com o Bob Dylan. Esse foi um single, exatamente. Esse foi outro produtor, foi o... W Parsons, como é que é? Esqueci o primeiro nome dele.

Fábio Allman: [23:45] Steve, Steve W. Parsons. O single que você gravou com o Bob Johnston, eu não cheguei nem a ouvir.

Eron Falbo: [23:53] É um álbum inteiro, foi o último álbum da carreira dele, foi a maior honra. No planeta, ele gravou Bob Dylan, Simon & Garfunkel, Leonard Cohen, Johnny Cash. Ele que teve a ideia de mandar o Johnny Cash pra gravar no Folsom Prison, na prisão.

Pandemia e lockdown em Portugal (23:56)

Fábio Allman: [24:10] É um clássico.

Eron Falbo: [24:11] É um grande clássico.

Fábio Allman: [24:14] Legal.

Eron Falbo: [24:15] Muito fera. E cara, me fala um pouquinho: como é que tá aí em Portugal, como é que tá a situação da pandemia, como é que você tem se virado aí?

Fábio Allman: [24:24] Pois é, cara, é assim, realmente... trabalhando muito pouco, muito pouco mesmo. A gente voltou pra uma quarentena absurda aqui de novo. Eu até tenho inveja, quando eu te vejo assim, todo barbeado, cabelo cortado, cara, nem o barbeiro tá abrindo aqui, juro por Deus. Você vê com certas coisas simples, né? Porque quando eu morava no Rio de Janeiro, eu tinha um Panasoniczinho que eu abaixava a barba, tudo certo. Eu cheguei aqui, eu gosto de ir no barbeiro, sentar, e o cara fica ali perguntando qual pente que eu quero, fico uma hora no barbeiro. Não posso ir ao barbeiro. A gente tá naquela quarentena...

Eron Falbo: [25:05] Mas eles não vêm na sua casa também, não? Não pode eles irem pra sua casa?

Fábio Allman: [25:08] Não. Não.

Eron Falbo: [25:10] Caraca. E aqui rolava isso?

Fábio Allman: [25:13] Estão sem trabalhar também. Então, assim, a gente tá assim há mais de um mês de novo. E vamos até depois da Páscoa. Você pode até ver minhas pranchas ali, nem surfar está podendo. Nem surfar.

Eron Falbo: [25:31] Totalitarismo total.

Fábio Allman: [25:33] Tá.

Eron Falbo: [25:33] Agora, uma coisa: qual é a sua opinião sobre isso? O que você acha, o que você tem lido nas notícias, se acredita ou não acredita, como é que está a sua reação com isso? Pra mim, eu tenho curiosidade, eu não sou político.

Fábio Allman: [25:49] A gente acompanha tudo o tempo inteiro, muito aqui de Portugal, da Europa, mas também estamos acompanhando o Brasil. A gente tem que realmente acreditar na ciência, tem que acreditar nos números. O que aconteceu aqui é que o Natal e o Réveillon foram cruciais para os números subirem assustadoramente. Chegou no início de janeiro e a parada explodiu.

Eron Falbo: [26:17] Mas a gente sabe que... A razão de eu estar perguntando isso é que hoje mesmo um amigo meu da Inglaterra me falou. Eu estava com planos para ir para o Brasil em abril, só que fecharam tudo aqui. Eles falaram, inclusive, que quando abrirem, que ainda não está aberto, vão liberar para certos hotéis, que você tem que pagar o preço do hotel, que o governo inglês vai ter um convênio com esse hotel. Vai ter que ficar 10 dias nesse hotel sob vigilância, entendeu? Não sei se quarentenado completamente. E se quebrar alguma coisa, vai ter que pagar ou 10 mil libras de multa ou ficar até 10 anos na cadeia, saiu essa parada. Pra mim, essa coisa... É porque é o seguinte: eu acabei de... Aí eu mandei pra ele os dados do... Desculpa, não tem nada a ver com o nosso assunto, mas esse programa é assim mesmo.

Fábio Allman: [27:18] Não, não, a gente tá aqui para falar de tudo.

Eron Falbo: [27:19] É... Eu mandei pra ele as fotos do... Aqui tem uma coisa chamada Portal da Transparência, que é onde os cartórios mandam os dados de mortes. Porque toda morte, se você quer enterrar um ente querido... meu pai faleceu recentemente, tive que ir lá e levar no cartório. Tem que registrar, senão não sai do hospital o corpo, entendeu? Então, assim, isso aqui é um dado... Porque cartório aqui no Brasil, você sabe que é uma máfia. Então, se você pode confiar em algo, é nos dados de cartório. Porque eles não têm motivação pra mentir a mais, entendeu? Eles não ganham nada a mais com isso. Eles ganham, tipo assim... se eles falarem mais, você vai pagar mais imposto, entendeu? Se eles declaram mais óbitos, eles têm que pagar mais imposto pro governo. Então eles têm o viés de mentir a menos, só que eles não têm como mentir, porque eles reportam imediatamente os óbitos. Então existe uma coisa chamada Portal da Transparência, que apontava algo como 10 vezes menos mortes do que a mídia anunciava. Aí o que eu fiz? Eu peguei, desde o começo de março de 2020 até hoje, a comparação entre o Brasil inteiro, São Paulo e Rio de Janeiro. Aí qual é a situação? O Brasil inteiro tá em diversas situações diferentes, em lugares diferentes. São Paulo entrou em lockdown total e tá tudo fechado. E Rio de Janeiro, há muito tempo, tá tudo aberto, total. Tipo assim, Rio de Janeiro tá totalmente aberto, e o único gráfico que desceu foi o do Rio de Janeiro. Mandei uma dessas imagens pro meu amigo. Essa é a minha pergunta: como é que você explica isso?

Fábio Allman: [29:06] Pois é, é difícil. A falta, não de coerência, mas falando de uma maneira popular, o bate-cabeça dos políticos aqui também é um pouco o mesmo que a gente vê no Brasil, por exemplo. Eles fecharam, mas as escolas vão continuar abertas presencialmente. Imagina, mas como? As crianças vão para a escola e voltam para casa. Aí ficou essa briga aqui entre os políticos também. Aí chegou um momento, passou três, quatro dias assim, resolveram fechar de novo a escola, e o ensino está sendo online de novo.

Eron Falbo: [29:49] O pior é essa oscilação. Você tem filhos também, não?

Fábio Allman: [29:53] Não, eu tenho um enteado, ele tem 12 anos, tá aqui na aula.

Eron Falbo: [29:57] Você tá por dentro da...

Fábio Allman: [29:59] Tô, tô acompanhando isso também.

Eron Falbo: [30:01] É uma loucura, né? Você fecha a escola e tem que mudar a rotina inteira de dentro de casa.

Fábio Allman: [30:08] É, e vai fechar tudo e não vai fechar a escola, sabe? Então, assim, essa falta de certezas mesmo, do vírus mutando e de tudo... Eu não sei, cara. É muito complicada, a situação de guerra que a gente vive, realmente. Mas o que aconteceu aqui foi que, nos primeiros 15 dias de janeiro, morreram duas mil pessoas, uma coisa que não tinha acontecido até então. Aí fechou tudo, e daqui a pouco, em uma semana e meia, o número de contágio caiu 40%, e agora já tá de novo bem tranquilo. Teve um resultado.

Eron Falbo: [30:56] Mas aí o problema é que a mesma galera que fornece essas informações são as pessoas que tomaram a decisão de que o lockdown era a melhor opção. Isso pra mim é um problema muito sério, entendeu? Tipo assim, se você não tem agências... E a OMS não é confiável. A gente já viu isso muito claramente durante o último ano, que manda coisas totalmente opostas, né? Uma hora fala uma coisa, outra hora fala outra coisa, e tem muita política por trás. Então, assim, a minha preocupação é: como é que você vai confiar? É tipo accountability, né? Tipo assim, como é que você vai confiar no cara? Tipo assim, se o cara vai perder o emprego, vai perder a carreira política dele, se essa decisão foi mal feita, se ele acabou com a economia do país por ter feito o lockdown, tipo João Dória. Então ele tem um viés gigante. Tipo assim, João Dória fechou São Paulo, então ele acabou com a economia do Brasil, entendeu? Então ele precisa que o lockdown tenha evidências, entendeu? Aí o que acontece? Você vê: os números de São Paulo todos batem com o lockdown. Os números do Rio não batem, porque abriu, entendeu? Então é uma coisa tipo... é muito claramente cooking the books. E a gente, como gente de casa, o que faz? Qual que é o nosso melhor? Qual que é o best practice? Eu acho que isso está servindo pra gente entender que, primeiro, os sistemas de governo do mundo inteiro estão obsoletos. Tipo assim, o jeito que tá funcionando não tá funcionando.

Reflexões e mudanças de vida (32:22)

Fábio Allman: [32:25] Não, e Eron, acho que tem que ir até mais longe, cara. A gente fez tanta reflexão aqui, eu, minha mulher, junto com meu enteado, e a gente mudou tanta coisa durante a pandemia. Eu, profissionalmente, comecei a investir mais em mim, sozinho, na tecnologia, a trabalhar em casa e fazer gravações.

Eron Falbo: [32:46] Autonomia.

Fábio Allman: [32:47] Minha mulher começou a fazer... Ela também era do meio musical: trabalhou na Sony, trabalhou na BMG, com sincronização, teve estúdio. Ela era do meio quando a gente se conheceu. Tem uma história muito louca nossa, que a gente se conheceu nos primórdios do Rio de Janeiro, da música, e depois se reencontrou, enfim. Agora tá investindo super, tá fazendo curso de culinária vegana, vários cursos. A gente ontem foi ver uma casa, porque a gente já tá também a fim, de repente, de mudar, de desacelerar e de mudar um pouco a nossa vida. Eu acho que, com tudo que tá acontecendo, deu pra gente olhar um pouco mais pra dentro da gente e ver o que realmente vale a pena. A gente não precisa de tanta coisa.

Eron Falbo: [33:32] Esse é o lado bom, esse é o lado bom.

Fábio Allman: [33:35] É, acho que tem muita coisa que tem que mudar no planeta, sabe? A gente tá destruindo o planeta.

Eron Falbo: [33:46] E principalmente na psicologia, na nossa psicologia como seres humanos, né? Na nossa perspectiva, a nossa view, assim, o jeito que a gente vê as coisas, e as nossas prioridades, né? Porque realmente durante a pandemia a máquina parou de girar em muitos momentos, e as pessoas começaram a perceber que, mesmo assim, ainda ficou a família. Muitos avós ficaram solitários, e muitas pessoas perceberam que não podiam fazer nada sobre isso. Os próprios avós tiveram que depender menos de outras pessoas e aprender a se conduzir sozinhos.

Fábio Allman: [34:25] Tudo bem, teve um impacto absurdo em várias questões da economia e tudo, mas eu acho que, poxa, a gente está aqui, a coisa continua, entendeu? Então, será que a gente não pode fazer diferente?

Eron Falbo: [34:37] Total, total. Meu lado positivo é esse, eu acho que, mesmo que a China tenha inventado a doença, ou que a China esteja usando essa doença para ganhar economicamente do mundo, que isso aí tem acontecido um pouco, então vamos dizer que daqui a 10 anos tem esse perigo de o mundo começar a ficar um pouco mais chinês. Mas, cara, tem sempre o fator X, que é o fator de que, beleza, se você considerar o mundo dois anos atrás, talvez o plano tivesse funcionado, mas o mundo mudou totalmente no último ano. Então, as pessoas que estão agora lutando, as pessoas que estão agora conversando, você pode ver no mundo, cara, as coisas que estão mais populares são os podcasts, os youtubers e tudo mais, a galera que está desmascarando, entendeu? A galera que está falando, não necessariamente teoria da conspiração, que também, tipo, eu acho que, tipo, você não precisa dizer 'eu acredito'. Tipo, eu nunca diria 'eu acredito que a China está inventando a doença', mas eu também não diria que eu tenho certeza que a China não tá criando. Dá uma coisa de aventura. Vamos discutir. Vamos discutir o que existe aí, entendeu? O que existe de evidências e quais são os players.

Fábio Allman: [35:55] Eu escuto alguns podcasts aqui, porque minha mulher escuta e tudo, mas, assim, eu tenho um pouco esse fatalismo de dizer: poxa, é minha profissão. Porque é mesmo, cara. Eu viajava, aqui no verão, a noite inteira... Milão, Itália, Inglaterra, Escócia, Holanda... Cara, eu fiz três shows o ano passado. A minha profissão, eu sei que teve impacto em muitas áreas, né?

Eron Falbo: [36:26] Mas a produção de músicos, cara...

Fábio Allman: [36:29] Eu tenho uma oficina de ritmos brasileiros aqui em Lisboa que tava indo muito bem. A gente fez um carnaval incrível no passado. Parou. Agora, cara, a música continua sendo uma coisa tão importante. Eu tô vendo outros caminhos com a música aqui dentro da minha casa. Então, assim, até um pouco você tá falando assim: vamos tentar outros caminhos. Mas a gente não precisa abandonar as coisas que realmente a gente acredita, entendeu?

Eron Falbo: [36:56] Claro, claro. E, cara, eu acho que sempre vai ter. Tipo assim, música que tinha 30 mil anos atrás, isso aí tem prova, né? Tô perguntando pra produção aí se tem exatamente o que quer, mas parece que recentemente, eu vi no noticiário da BBC, acharam uma concha que provaram que era usada como instrumento musical, acho que 30, 40 mil anos atrás. Estava dentro de uma caverna com pinturas e não sei o quê. Então imagina, música não é uma coisa que vai...

Fábio Allman: [37:28] Não, muita coisa.

Eron Falbo: [37:29] Música ao vivo, que eu estou falando. Não há música aqui.

Fábio Allman: [37:33] Sim, sim. Não, a música no seu sentido puro. Outro dia minha mulher me mostrou uma coisa, ontem ou anteontem, cara. Um japonês que começou a estudar que as moléculas de água... Ah, eu conheço, você viu isso? Se transformam, sofrem reações... Qual é o nome dele? Da música que tá... Sabe, bota ali aquela molécula de água com uma exposição a uma determinada música, e se formam... Fica harmonioso, mais bonito.

Eron Falbo: [38:03] Se for uma coisa irritante, até se você estiver falando palavras de ódio, a molécula já reage.

Fábio Allman: [38:17] Eu nem parei pra ver direito. Porque essas últimas semanas eu andei muito ocupado aqui por conta do carnaval, das coisas que a gente fez online.

Eron Falbo: [38:26] E o mais bizarro é que, se você for mais além com essa parada das moléculas de água, se a gente prova que as moléculas de água são afetadas pelas emoções ou pela música, também é pelas emoções, o cara já falou sobre isso. E, como é que chama, as tais correntes marítimas, as marés, são influenciadas pela lua, e o ciclo menstrual da mulher também, pela lua. Então entra numa coisa de conexão de emoções, mulher, lua e moléculas de água que começa, algumas coisas fazem sentido. Eu espero que eu não seja cancelado por isso, mas eu espero que sim. Mas, independente de ser mulher ou não, as moléculas de água são mudadas independente de quem está afetando aquela coisa. Mas isso só prova que as coisas todas são conectadas e que o mundo é mais complexo do que a gente imagina.

Fábio Allman: [39:35] Nossa, muito mais, muito mais.

Eron Falbo: [39:38] Acho que é por isso que a gente precisa de música, que é isso que eu ia dizer.

Fábio Allman: [39:43] Realmente, parece aquela balela, aquele clichê, que a música salva, a música salva. Meu irmão, se não fosse a música aqui, nesse período, pra mim... Ainda bem que eu tenho, entendeu? É a minha profissão. Tá afetado, não tô trabalhando muito, mas eu não sei o que seria de mim sem a música. Maurício Branco perguntou se eu vou cantar.

Eron Falbo: [40:06] Você quer cantar alguma coisa aí? Vamos lá, você tem alguma coisa? Não? Isso aí diz uma coisa que... Bom, entrou nessa onda da necessidade da música. No mundo antigo era dito, né, isso aí era dito por muitas pessoas, desde Platão até vários outros autores, colaborando, de que Pitágoras, na época da seita dele, eles curavam doenças através da música. Então você tinha uma questão de equilíbrio, né, tipo assim, tais hormônios ou humores, que eles chamavam de humores ou de éter, né, eles tinham nomes que hoje em dia a ciência não usa, mas que eles entendiam como coisas diferentes do que a gente entende hoje. É que você podia balancear essas coisas com diferentes tonalidades, diferentes usos de melodias exatas, especificamente construídas para equilibrar o corpo. Isso faz sentido porque, olha que bizarro, o nosso corpo é mais de 70% água.

Poder curativo da música (40:30)

Fábio Allman: [41:10] Exatamente.

Eron Falbo: [41:11] Então, se a música afeta os...

Fábio Allman: [41:13] Imagina o que não faz a gente, imagina o que não faz quando você fala alguma coisa bonita para alguém, ou se você fala alguma coisa feia para alguém. Se somos mais de 70% água, nesse estudo desse japonês, os sons e a música se afeta a molécula de água, imagina o que não faz com o ser humano. E vimos o Pitágoras também, que ainda tem a matemática, né, porque música é matemática pura, né?

Eron Falbo: [41:44] É, e a gente sobrevive, pra gente sobrevive só a matemática, porque a gente não tem a... Pitágoras era religioso, né? Hoje em dia a gente separa as coisas, tem uma coisa tipo: não, ou é sério ou é religioso. Mas Pitágoras era extremamente religioso, era uma seita, inclusive. Tinha uma dieta, tipo... A galera usava... Provavelmente o mesmo corte de cabelo. Mas, só para esclarecer uma coisa aqui para a galera ficar no auge, a citação que eu falei é do Paul Valéry, a citação sobre o poema Se Abandonado, e a coisa da concha vem dos investigadores do Museu de Toulouse, do Centro Nacional de Investigação Científica da França, o CNRS, só pra deixar fidedigno aí a coisa.

Fábio Allman: [42:34] Tá, acharam uma concha que pode ter sido... Foi um dos primeiros instrumentos.

Eron Falbo: [42:40] É, foi modificada a abertura da concha pra poder fazer sons melodiosos.

Fábio Allman: [42:47] E sabe-se lá quando?

Eron Falbo: [42:49] Ela não falou quando, depois se a Milena fala de quando foi a concha. Não sou eu que sei isso na minha cabeça, não. Mas me conta uma coisa: outra curiosidade que eu tinha é como funciona a parada do carnaval, de ser músico no carnaval. Eu vi que o maestro do Monobloco era o Celso Alvim. O que significa ser maestro de um bloco, por exemplo?

Ser maestro de bloco carnavalesco (43:08)

Fábio Allman: [43:20] Ah, é? O cara é muito dedicado e, assim, tem que saber muito de música, né? Tem muita sensibilidade.

Eron Falbo: [43:27] Mas na prática, o que faz? Você fica em pé, assim, tipo, coordenando quem vem antes, quem vem depois?

Fábio Allman: [43:33] É, muita matemática também, né? Geralmente, alguns mestres usam o apito, né? As contagens são muito importantes, né? Um, dois, três, quatro... Na mão, o gestual, o apito, a contagem, né?

Eron Falbo: [43:52] E isso vem, tipo, ancestralmente? Vem, tipo, de gerações? É uma escola isso?

Fábio Allman: [43:56] É, eu acho que é do ser humano, né? O gestual, o apito, né? Você avisa que vai, né? Não, não pode.

Eron Falbo: [44:06] Eu não faço a mínima ideia.

Fábio Allman: [44:08] Num mestre de bateria, ou de um bloco que tem, sei lá, 40, 50, até 150 pessoas, se não tiver um... vai parar. Vou contar: quatro...

Eron Falbo: [44:18] A razão que eu tô perguntando é porque acho que as pessoas não param pra pensar nisso. A gente pensa em orquestra e não pensa que um bloco de carnaval tem muita gente também, né? Então, pô, tem que ter uma coordenação...

Fábio Allman: [44:32] É, é igualzinho. Acho que é por isso até que se pode chamar o mestre da bateria de maestro, porque vai ter a seção dos tamborins, a seção dos repiques, a seção dos surdos. Às vezes você tem que ter um condutor para cada seção dessa, cada section, cada naipe, que a gente chama também de naipe: o naipe dos surdos, o naipe das caixas. E o mestre comanda todos esses naipes, geralmente até em cima de algum lugar, para ser melhor visto, porque muito no gestual se usa o apito e a contagem.

Eron Falbo: [45:12] Igual o maestro de orquestra.

Fábio Allman: [45:15] É, só não tem a batuta.

Eron Falbo: [45:17] Não tem a varinha.

Fábio Allman: [45:19] É, vem por aí. E eu aprendi demais, assim, hoje em dia, porque, como você disse aí no início, eu me considero educador, né? Eu sou cantor, compositor, percussionista, surfista e educador, porque eu aprendi muito com o Monobloco, muito, né? São 25 anos de carnaval que eu tive, 16 anos deles com o Monobloco, e sempre vim pra Europa. Foi uma das coisas que me fez vir morar aqui também, Eron. A primeira vez que eu pisei na Inglaterra foi com o Monobloco, em 2007. A gente foi pra uma turnê de 40 dias na Inglaterra. Falei: cara, eu quero ficar aqui, quero ficar mais tempo aqui. Você é um cara viajado, morando em vários lugares. Não sei se o primeiro lugar que você foi, foi... Porque eu vi que você foi pra Londres. Você morou muito tempo em Londres.

Eron Falbo: [46:07] Não, o primeiro lugar que eu fui, e falei 'eu quero ficar aqui', foi Londres.

Fábio Allman: [46:11] É, e o primeiro lugar que eu pisei na Europa, em 2007, foi em Londres, e foi pra essa turnê com o Monobloco na Inglaterra. E eu já pisei como português, porque eu tenho a dupla nacionalidade. E saiu assim, foi muito engraçado, porque minha mãe falou... Minha mãe é portuguesa, mas ela tinha que se naturalizar brasileira. E ela se repatriou, porque na época ela tinha que se naturalizar brasileira pra trabalhar, pra morar no Brasil. Ela se repatriou e falou assim: 'Fábio, você pode ter o passaporte português.' Eu falei: ah, então fui fazer o passaporte português. Um mês depois, turnei pra Europa com o Monobloco. E eu pisei em Londres. Eu falei: cara, eu quero ficar aqui um tempo.

Eron Falbo: [46:59] E o Monobloco ainda tá rolando? Como é que é?

Fábio Allman: [47:01] Sim, muito, cara. Tem oficinas em Belo Horizonte, em São Paulo.

Eron Falbo: [47:08] Mas em termos de show, bom, agora não tá rolando shows, mas antes da pandemia tava rolando.

Fábio Allman: [47:14] Sim, continuou com uma agenda bem bacana, né? O Monobloco tá lá no Rio.

Eron Falbo: [47:23] Ah, bota fé, bota fé. Não, só porque eu vi na Wikipédia, a última coisa que eu tinha visto era 2009, alguma coisa que tinha no centro, quatrocentos mil pessoas. Aí a minha curiosidade era que depois de 2009 o que rolou, se aconteceu alguma coisa.

Fábio Allman: [47:38] Não, teve muita coisa. Em 2010, teve um disco, um outro DVD ao vivo. Em 2014, teve um outro disco com várias participações. Mas foi assim, minha escola. Eu vim pra cá e eu comecei a ensinar também. Era aí que eu ia chegar aqui, como educador.

Eron Falbo: [47:52] Ah, mas você não tá mais no Monobloco?

Fábio Allman: [47:55] Não, já há cinco anos que não tô.

Eron Falbo: [47:58] Desculpa não saber.

Fábio Allman: [48:00] Não, não tem problema. Vai fazer cinco anos. A gente tá perdendo um pouco também a noção do tempo com esse ano que a gente perdeu. Mas eu vim pra cá ensinar com eles. Eu participava, era monitor, então aprendi demais. E eu me dou esse luxo, hoje em dia, de ensinar um pouco do que eu sei. Eu sou um pouco maestro aqui, assim, com minha oficina de ritmos, eu ensino um pouco, passo um pouco do que eu aprendi nesses anos todos no Carnaval do Rio.

Eron Falbo: [48:36] Está levando mais vinda para Portugal. Você está em que cidade em Portugal?

Fábio Allman: [48:40] Lisboa, centro de Lisboa.

Eron Falbo: [48:43] Minha mãe mora no Porto.

Fábio Allman: [48:45] Eu já fui para o Porto, inclusive com o Monobloco, em 2009. A gente ainda não esteve no Porto. Apesar do país ser assim, dessa vez ainda não. Porto é maravilhoso. A gente ainda não foi no Porto. A gente foi para o Sul.

Eron Falbo: [49:03] Só umas informações interessantes: a concha instrumental tem 17 mil anos, exagerei um pouco. Consegue produzir três sons próximos a notas musicais: dó, dó sustenido e ré. Dá pra fazer a musiquinha do Jaws, do Tubarão.

Trilhas sonoras e ícones do rock (49:10)

Fábio Allman: [49:18] Pô, e o ré é um tom que eu gosto muito, cara. E você sabe que tem uma história.

Eron Falbo: [49:27] Engraçada... Como é que você escolhe entre os tons? Agora eu quero saber, por que você gosta muito do ré?

Fábio Allman: [49:32] Porque a minha região, falando assim, às vezes é um pouco mais média, mas eu tenho uma região baixa. Eu sou barítono quase baixo, então o ré, o sol, são umas tonalidades que eu gosto. Agora, eu não sei quem fez a trilha sonora do Jaws, tem uma história muito engraçada.

Eron Falbo: [49:57] John Williams. Hã? John Williams, eu sei porque eu sou fã.

Fábio Allman: [50:02] Foi o John Williams. Estava faltando o nome, eu sabia que era um desses clássicos. Quando ele mostrou para o Spielberg a trilha, olha, eu fiz a trilha, e o Spielberg falou: meu irmão, não, só isso aí? Quando eles botaram na tela, botaram uma coisa pequena.

Eron Falbo: [50:24] Sem isso não existe filme, né? Sem essa parada não existe filme, é muito chato, filme.

Fábio Allman: [50:29] São duas notas, cara. Depois ela vai crescendo, vira... Muda a dinâmica.

Eron Falbo: [50:35] Mas são duas notas com meio tom de distância. Por isso que eu falei que dá pra usar na concha.

Fábio Allman: [50:42] Acho que a primeira vez que o Spielberg ouviu falou assim: não, faz outra coisa aí, Williams, que essa aí não vai ligar não. Mas...

Eron Falbo: [50:56] É isso, cara. Diz uma coisa: em termos sonoros, agora uma pergunta do nada. Você falou do Jaws e tudo, mas qual é o seu filme que mais impactou por causa da música? Você lembra?

Fábio Allman: [51:12] Tem alguns filmes. Acaba que quando é filme, você liga com muitas outras coisas, né? Eu gosto muito das trilhas sonoras de filme, a trilha mesmo. Eu tive a oportunidade de fazer uma trilha pra um curta, que eu usei muito pouca coisa: um jaw harp, um berimbau, uma gaita, percussão. Mas assim, tem um filme que me marcou demais, que tem muitas trilhas.

Eron Falbo: [51:38] Você sabe tocar o jaw harp? Chamam também de Jew's harp, né?

Fábio Allman: [51:44] Sim.

Eron Falbo: [51:45] Porque eu queria, cara, num dos discos que eu gravei, eu queria alguém que tocasse Joe Harbster.

Fábio Allman: [51:50] Sim, cara, tá aqui em algum lugar. Eu fiz a trilha, eu até toquei um pouco numa live que eu fiz.

Eron Falbo: [51:57] Vou te mandar uma gravação aí pra você fazer o Joe Harbster.

Fábio Allman: [52:01] Mas um filme que me marcou demais pela trilha, por ser musical, foi o Almost Famous. Você conhece esse filme?

Eron Falbo: [52:10] Ó, conheço. É do Cameron. Qual é o nome do...

Fábio Allman: [52:15] Fever Dog, knocking on my window. Isso foi uma coisa demais, cara. Porque eu sempre vi aquilo ali, Eron. Eu queria ser... Eu comecei no rock. Eu fui pra batucada, pro molo boca.

Eron Falbo: [52:29] Você queria ser do Led Zeppelin, né?

Fábio Allman: [52:30] Eu queria ser o Robert Plant. Eu queria ser o Jimmy Page.

Eron Falbo: [52:35] Pô, muito bom, cara.

Fábio Allman: [52:36] Eu gostava muito daquela coisa do glamour mesmo, de ser... Não é nem glamour, mas aquela hora de estar no palco ali, sabe?

Eron Falbo: [52:47] Sabe o que eu vou dizer? Eu também adoro, então eu vou definir como feitiço. A galera é tipo feiticeiro, né? O Led Zeppelin é uma galera que entra no palco assim, é... Tudo, desde a luz, e a presença, e a postura, tudo é um feitiço. Tem que ter uma dança, é uma loucura, né?

Fábio Allman: [53:05] É, o rock daquela época tinha muito isso, né? Daquele impacto do palco, de ser igualidade mesmo. Era o Golden God, né, que no...

Eron Falbo: [53:17] Final... I am a Golden God!

Fábio Allman: [53:19] Era o Golden God. Todo mundo queria ser o Golden God. Eu comecei a cantar no armário da minha mãe, assim, com a guitarra de madeira, sabe? Aquelas coisas.

Eron Falbo: [53:28] Eu também. A minha escola é exatamente essa. Eu gostava de glam rock, tipo Ziggy Stardust, Led Zeppelin. Pô, essa galera, tipo, de show mesmo.

Fábio Allman: [53:38] Sim, era a minha praia. Pô, Freddie Mercury também, uma pessoa que tinha... um artista que tinha uma presença de palco absurda, incrível. Sem falar que era um cantor absurdo também. Então, essa coisa de... nem ser poser, mas de ter esse poder no palco. Pô, eu quero isso aí pra mim, sabe?

Eron Falbo: [53:58] Cara, o Freddie Mercury é incrível, cara. O jeito que ele comanda a plateia. Tipo, uma coisa, parece um ditador de um pequeno país africano, né? Ele entra assim e para.

Fábio Allman: [54:09] E a postura, né? Sempre assim. Ele entra com um negócio assim que favorecia cantar, entendeu? Ele tinha aquela coisa do diafragma colocado, a postura dele era... sabe, perfeita, entendeu?

Eron Falbo: [54:21] O Maurício Branco tá falando que adora esse filme. Frances McDormand... a Frances McDormand também não é do Velvet Goldmine?

Fábio Allman: [54:30] Do Fargo, também fez o Fargo. Ela é sensacional.

Eron Falbo: [54:33] Mas, se eu não me engano, é Velvet Goldmine também, não? Que é o filme que é sobre o David Bowie.

Fábio Allman: [54:37] Que é tipo um... ah, eu não sei. Ela me marcou muito no Fargo também, que ela era a policial grávida.

Eron Falbo: [54:46] O Fargo, o filme ou...?

Fábio Allman: [54:49] O filme, o filme.

Eron Falbo: [54:50] Ah, não, é a Tony Colletta do programa que eu já achei.

Fábio Allman: [54:53] Que é mais ou menos parecido. Esse filme, o Almost Famous, tem atuações absurdas de vários atores, assim, sensacionais.

Eron Falbo: [55:04] Cara, é demais, meu. E é bem escrito pra caramba, né. Tipo, é escrito por alguém que entende o rock, entende o jornalismo, entende a cena.

Fábio Allman: [55:15] É, muito legal. É um dos filmes que me marcou. Eu comprei até... na época eu comprei uns DVDs dos filmes que eu gostava mais. O Almost Famous, já que é o da música, esse é o meu preferido, cara.

Eron Falbo: [55:30] Você já ouviu o David Goldblatt?

Fábio Allman: [55:33] Não, que é do David Bowie?

Eron Falbo: [55:36] É que é sobre o David Bowie, só que o David Bowie não autorizou. Então eles fizeram um Brian Slade, alguma coisa assim, o nome do cara. E cara, é simplesmente magnífico, cara. Tem que ver.

Fábio Allman: [55:49] Tem que ver.

Eron Falbo: [55:50] Vou buscar. Fantástico. Bota fé. Cara, a gente tá acabando nosso horário aqui. Foi uma conversa maravilhosa.

Projetos atuais e despedida (55:53)

Fábio Allman: [55:57] Foi um prazer. É gostoso. Foi diferente também. A gente misturou todos os assuntos aí, mas é assim que é bom.

Eron Falbo: [56:07] Eu só queria te deixar um espaço para você falar dos seus projetos e falar do que está acontecendo agora, onde a gente pode te encontrar.

Fábio Allman: [56:16] Olha, é muito fácil, muito pouca coisa para falar nesse momento. Eu acabei de produzir uma música da Liga dos Blocos de Carnaval de rua de Lisboa, porque é uma coisa que está acontecendo aqui muito forte já há muitos anos e não é muito reconhecida pela Câmara. Aqui a Prefeitura chama Câmara, as freguesias são os municípios, enfim. Eles dizem que não existe o carnaval de rua do brasileiro em Lisboa, né? Mas existe, e estava muito forte. E ano passado foi muito forte. A gente colocou duas mil pessoas na Ribeira das Naus, lá perto do Rio Tejo. Está ficando cada vez mais... Tem até.

Eron Falbo: [57:00] Em Londres, o carnaval de rua brasileiro?

Fábio Allman: [57:02] Não, a batucada aqui na Europa... A cultura brasileira, mas principalmente...

Eron Falbo: [57:13] A galera agora, né?

Fábio Allman: [57:13] É impressionante, cara. A força que a música brasileira tem aqui na Europa e no mundo, né? Mas a Europa, realmente... Então, assim, a gente fez uma hashtag, Lisboa Carnaval em Casa. Eu produzi uma música, que é Quando o Carnaval Chegar, do Chico Buarque, que a gente fez um split screen, pegou todos os blocos e gravou.

Eron Falbo: [57:33] Eu ouvi, é maravilhoso.

Fábio Allman: [57:35] Ficou muito legal o resultado. Hoje está encerrando o Carnaval aqui online da galera, e eu acabei de ter uma reunião. Já estamos falando do próximo, de 2022, porque a gente precisa de apoio do povo português e da Câmara aqui, do governo de Lisboa, para continuar. Então, busquem aí no meu YouTube, e lá vão achar muitas outras coisas a respeito da minha carreira e todas essas collabs que fiz também, que estou produzindo demais aqui na minha casa. E é basicamente isso, Eron.

Eron Falbo: [58:11] Aí tem o fabioalman.com, né? Alman é A-L-L-M-A-N.

Fábio Allman: [58:18] Isso. Www.youtube.com barra Fábio Alman. A-L-L-M-A-N. E no Instagram também a mesma coisa, Fábio Alman. E tô sempre postando, sempre colocando o que eu posso de música, sempre criando, compondo. Tô me mantendo criativo aqui.

Eron Falbo: [58:44] Beleza, Fábio, cara, foi um prazerzão conversar com você, espero que você venha em breve pro Rio aí pra gente curtir juntos, curtir um carnaval juntos, curtir um vinho aqui na casa.

Fábio Allman: [58:54] Sim, pois é, seria bom. Então você vir aqui me visitar em Lisboa.

Eron Falbo: [58:58] Com certeza, se minha mãe voltar pra ir, com certeza eu vou dar uma passada aí.

Fábio Allman: [59:03] Se você me permite aí o... O Maurício Branco pediu pra eu cantar alguma coisa, então acho que pra finalizar... Eu fiquei muito inspirado com a sua história de Néstor e tudo. Eu sou do samba, da batucada, mas esse instrumento foi o que eu comecei na minha carreira. Então vou soprar um pouquinho aqui, só pra gente terminar... Qual é o tom.

Eron Falbo: [59:25] Que você tá fazendo?

Fábio Allman: [59:27] Eu escolhi lá...

Eron Falbo: [59:29] Eu também toco isso, de repente eu entro...

Fábio Allman: [59:35] I woke up this morning I was feeling so alone Well,.

Eron Falbo: [1:00:00] I woke.

Fábio Allman: [1:00:01] Up this morning And my baby Eu me despertei perdido, porque minha grande família foi embora.

Eron Falbo: [1:00:28] Nem me deu tempo de pegar minha caixa de gaita aqui, eu já entrei...

Fábio Allman: [1:00:32] Pega aí, cara!

Eron Falbo: [1:00:33] Espera um minuto.

Fábio Allman: [1:00:35] Temos um minuto, não? Já estouramos o tempo?

Eron Falbo: [1:00:38] Estouramos o tempo, cara? Bom, agora que eu falei, eu tô com mais timidez. Cara, minha primeira gaita, eu acho que é essa aqui. Você nem está afinado. Faz tanto tempo.

Fábio Allman: [1:00:54] Vem lá, né?

Eron Falbo: [1:00:56] Vem lá. Começa aí.

Fábio Allman: [1:01:01] Cara...

Eron Falbo: [1:01:14] Não lembro nada, na verdade. Faz muito tempo que eu não toco, é melhor não tentar.

Fábio Allman: [1:01:20] Se você perguntou, respondi.

Eron Falbo: [1:01:21] Pergunta aí. Não, não vou fazer isso não, não tô preparado. É porque assim, eu toco violão e gaita, eu aprendi gaita depois. Aí quando eu tava tocando violão sempre, sacou? Aí eu tocava, agora eu acabei de perceber que eu tô meio sem fluidez, sem fluência.

Fábio Allman: [1:01:42] Não me pareceu, cara, não me pareceu.

Eron Falbo: [1:01:46] Pessoalmente a gente faz.

Fábio Allman: [1:01:49] Como se diz aqui, não percebi. Não percebi.

Eron Falbo: [1:01:53] Eu não percebi.

Fábio Allman: [1:01:55] Eron, querido, obrigado, cara. Obrigado pelo espaço. Foi um prazer bater esse papo contigo, cara.

Eron Falbo: [1:02:01] O prazer foi todo meu. É muito bom te conhecer, cara. Tu é muito fera. Gente boa pra caramba, vamos manter conectado e fazer parceiros musicais aí. Conte comigo.

Fábio Allman: [1:02:13] Pô, por favor, vamos ver se a gente faz uma colaboração dessa aí. Vou sugerir alguma coisa. Então você me sugere, diz alguma coisa que você queira cantar.

Eron Falbo: [1:02:22] Os dois, a gente fala.

Fábio Allman: [1:02:24] Seria muito legal um vídeo. Sim, vamos fazer.

Eron Falbo: [1:02:27] Fera, fera.

Fábio Allman: [1:02:28] Tempo não falta.

Eron Falbo: [1:02:29] Valeu. Valeu, bicho. Tudo de bom. Obrigadão, obrigado.

Fábio Allman: [1:02:34] Um beijo pra todos aí. Um prazer muito grande, muito obrigado mesmo pelo espaço.

Eron Falbo: [1:02:40] Valeu, tudo de bom.

Fábio Allman: [1:02:41] Tchau, tchau.

No Alvo com Eron Falbo · episódio #62 · todos os episódios