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#60 Causa social sem cancelamento

com Adriana L. Dutra · 11 de fev de 2021

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Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Abertura e vida na quarentena (0:00)

Eron Falbo: [0:05] Sejam bem-vindos! Você entrou no Alvo, eu sou o Eron Falbo e estamos aqui hoje com a Adriana L. Dutra. A Adriana é uma diretora de cinema, organizadora de festivais de cinema, empresária, CEO e produtora da Produtora Infinito. Então vamos entrando, junte-se a nós, sente-se em volta dessa fogueira linda e vamos ouvir a sabedoria de Dridri Dutra, essa nobre e poderosa cineasta.

Adriana L. Dutra: [0:38] Oi! E aí, Eron?

Eron Falbo: [0:41] Entramos! Conseguimos?

Adriana L. Dutra: [0:45] Conseguimos. Tudo bem?

Eron Falbo: [0:47] Tudo bem, graças a Deus. E com você?

Adriana L. Dutra: [0:50] Tudo ótimo. Olha, um brinde ao nosso encontro.

Eron Falbo: [0:53] Ah, um brinde? Ainda nem botei aqui. Só um segundinho. Não sabia se já estava servida.

Adriana L. Dutra: [1:00] Estou esperando.

Eron Falbo: [1:03] Vamos lá, um brinde, começar logo os trabalhos. Saúde.

Adriana L. Dutra: [1:08] Saúde.

Eron Falbo: [1:09] À nossa conversa.

Adriana L. Dutra: [1:10] À nossa conversa.

Eron Falbo: [1:12] Sejam todos bem-vindos aí, Laura.

Adriana L. Dutra: [1:15] Olá, Laura.

Eron Falbo: [1:16] E nem só os últimos que entraram, hein?

Adriana L. Dutra: [1:18] Laura é uma amiga nossa.

Eron Falbo: [1:21] Ah, que bom. Oi, Laura, seja bem-vinda. E aí, Adriana, você está no Rio? Onde você mora? Acho que eu não cheguei a te perguntar isso.

Adriana L. Dutra: [1:31] O Rio, eu moro na Barrinha, ali perto do Itanhangá, a barra antiga do Rio de Janeiro, no final da descida do Joá. Estou em casa desde março de 2020.

Eron Falbo: [1:47] Você ficou em casa o tempo todo? Está trancadona?

Adriana L. Dutra: [1:50] Estou, sim, home office. Claro que eventualmente fujo, vou à praia, num lugar superdeserto. Vou ver minha família, ver minhas irmãs, ver meus sobrinhos, mas estou realmente de...

Eron Falbo: [2:05] Quarentena... Uma coisa privada mesmo.

Adriana L. Dutra: [2:08] Tentando contribuir de alguma maneira para amenizar essa situação da Covid, do contágio, então estou fazendo a minha parte. Bom, acho que agora, esse ano, a gente consegue viver outro momento, e acredito que a gente vai sair desse... Espero.

Eron Falbo: [2:29] Que sim, para voltar um pouquinho à alegria. Acho que o principal é o que faltou, sem contar, obviamente, o sofrimento e a morte, que é a parte óbvia, mas o principal é a questão social e a alegria das pessoas, de se sentirem livres em fazer as coisas, em termos de experiências que a gente está perdendo. Espero que a gente volte em breve.

Adriana L. Dutra: [2:52] Pois é, estou esperando ansiosamente pela vacina, acreditando que até o final de 2021 a vida volte, porque muita saudade dos meus amigos, muita saudade de confraternizar, muita saudade de fazer os meus eventos, os meus festivais.

25 anos do Festival Infinito (3:11)

Eron Falbo: [3:11] Enfim, é isso aí para o pessoal que nem você, que passou... Você passou os últimos 25 anos, pelo menos é o que você falou, que está comemorando 25 anos esse ano do Festival Infinito, né? Do Circuito Infinito.

Adriana L. Dutra: [3:25] Com a galera do Festival Infinito, você...

Eron Falbo: [3:29] Tá certo, ótimo. Então, isso é um grande feito, 25 anos, você está aí nessa estrada há quase três décadas, e deve ser difícil você ficar um ano sem ver pessoas, sem ver tapete vermelho.

Adriana L. Dutra: [3:45] Nossa! E você sabe que uma coisa aconteceu que foi bem interessante. A gente estava com todo o festival do ano passado, de 2020, pronto. Festival de Miami, festival de Nova York para acontecer. E aí tivemos que cancelar. E nós construímos uma plataforma por causa disso, uma plataforma que era um sonho da Infinito, ter uma plataforma de exibição streaming. E, com a pandemia, a gente tirou esse sonho do nosso baú de sonhos e realizou esse sonho. E hoje a gente realizou o festival do ano passado todo nessa plataforma. Foi lindo, a gente realizou também a mostra Mulheres do Audiovisual, uma mostra do Domingos Oliveira, enfim, a gente fez muita coisa. Então, de uma certa maneira, foi triste a pandemia, mas a gente conseguiu tirar isso do...

Eron Falbo: [4:39] Mas teve essa... Claro, tem coisas boas em toda... até em tragédias, coisas são mudadas. Estava até estudando isso hoje, que eu estudo tarô, e a carta da morte no tarô é sempre de renovação, de fim de um ciclo e começo de um novo ciclo. Isso é importante lembrar, para olhar o lado bom. Eu também, durante a pandemia, comecei esse programa que a gente está aqui fazendo, então eu tenho que agradecer por isso, apesar de isso não diminuir o sofrimento das pessoas, etc. Mas que bom... eu queria até te perguntar como funciona um festival online, como é que é na prática para as pessoas que estão aprendendo isso, que talvez estão reticentes sobre isso, porque tem tanta live. Eu costumo falar que live é meio chato, eu faço live, acho que você já viu algumas lives minhas também. Mas, pô, tem muita live, então é meio uma roleta russa: você pode cair em uma coisa interessante, ou, em 99% das vezes, ser uma coisa meio forçada, né? Então acho que muita gente está com um pouquinho de cansaço dessa coisa de conteúdo online, né, dessas novas ferramentas que surgiram. Acho legal a gente falar um pouquinho sobre o lado bom: o que é possível nesse mundo online, nos festivais online, entendeu? O que é isso?

Adriana L. Dutra: [6:08] Gente, é o seguinte: o mundo mudou e não vai voltar a ser o que era. A gente já passou disso. A tecnologia está aí. Hoje ninguém mais vê TV aberta, ninguém mais vê TV a cabo, as pessoas veem conteúdo pela internet, as pessoas veem conteúdo via streaming. Isso é um fato, não tem como voltar atrás. Existem grandes plataformas com conteúdos incríveis, e cada vez existem novos modelos de plataformas de exibição. Então, a realização de festival online é uma realidade que não volta mais. Acredito que, no futuro, os festivais de cinema vão ser híbridos.

Futuro híbrido dos festivais de cinema (6:13)

Eron Falbo: [7:01] Sim, vamos fazer uma cobertura de streaming.

Adriana L. Dutra: [7:05] A gente vai ter dois tipos de encontros: os encontros virtuais e os encontros presenciais.

Eron Falbo: [7:14] Pode ser. Tipo umas salas, talvez algumas salas.

Adriana L. Dutra: [7:20] Eventos vão acontecer presencialmente: festival com tapete vermelho, no formato mostra competitiva, foto...

Eron Falbo: [7:29] Talvez mais exclusivo também, porque, já que vai ter esse acesso público online, talvez os eventos físicos vão ser cada vez... Já são exclusivos, lançamentos e tudo mais. Oscar, essas coisas são exclusivas. Mas eu imagino que, depois da pandemia, que a gente está se acostumando a consumir coisas online e está tendo essa engenharia social que está acontecendo mundialmente, os eventos... Bom, na pandemia não dá para ter certeza, mas eu tenho esse feeling que os festivais, as coisas vão ser mais exclusivas, mais caros, mais bem organizados, só que com menos pessoas. O que você acha?

Adriana L. Dutra: [8:11] Acho que o festival de cinema presencial, a experiência de estar com as pessoas, a experiência de um festival de cinema, vai permanecer. Quando todos estiverem vacinados, a gente vai voltar para o cinema, a gente vai voltar para aquela coisa da agitação de festival, de encontro de negócios, do que representa a experiência de um festival. Mas a gente vai continuar também com um modelo de exibição via streaming, porque essa plataforma, por exemplo... Antes da pandemia, tínhamos os festivais presenciais, tínhamos uma média de público em cada festival, uma média de 10 mil pessoas. Hoje, um festival atinge um milhão de pessoas. A capacidade que um festival tem, dentro de uma plataforma de streaming, a capacidade que ele tem de atingir...

Eron Falbo: [9:14] Alcança.

Adriana L. Dutra: [9:15] É muito maior. Então, a gente não pode abrir mão disso. Qual o diretor que não quer ter a oportunidade de exibir seu filme para o mundo todo? Você jamais conseguiria uma distribuição mundial via o modelo pré-pandemia, o modelo...

Eron Falbo: [9:36] A gente tem essa coisa dual, que é até engraçado, que o mundo é cheio de paradoxos dessa forma. A gente atinge, como artista, também sou músico, escritor, outras coisas que faço, de criação, de produção, e a gente tem um lado que quer atingir o máximo de pessoas qualificadas, vamos dizer que seja, que também a gente não quer atingir pessoas que estão ali à toa, que estão engajadas com o nosso conteúdo, que querem receber o nosso conteúdo. Mas, ao mesmo tempo, a gente tem que sustentar a produção, sustentar o próximo ciclo, que é feito pelo primeiro ciclo. E, muitas vezes, essa distribuição online é um pouco mais difícil de conseguir justificar o ingresso, justificar esse tipo de coisa. Como é que tem sido para você essa questão? Porque eu sei que você está há 25 anos organizando, eu quero até aprender com você: primeiro, como é que você aguenta tanto tempo? E, segundo, como é que você faz acontecer tanta coisa? Porque a parte financeira é muito difícil no cinema. Não, eu não existo.

Adriana L. Dutra: [10:44] Sócias incríveis, Viviane Spinelli e Cláudia Dutra, que são minhas companheiras desde... A Ação Infinito, e a gente se pergunta assim: gente, como que a gente conseguiu fazer 25 anos nesses festivais? Mas é muita paixão, nós estamos apaixonadas pelo que a gente faz, a gente ama, e aí faz todo sentido quando você faz com amor, com paixão. Mas uma coisa interessante sobre a sua pergunta é o seguinte: quando você abre um festival online de cinema brasileiro, onde os filmes têm qualidade, onde você vai ter oportunidade de encontrar o diretor, o ator, para conversar, onde você vai conseguir ver filmes que você jamais teria oportunidade, e filmes recentes, quem está ali são pessoas interessadíssimas, são pessoas que querem consumir. E essas pessoas... Por isso que o festival passa a ser uma ação interessante para o Brasil e para o nosso setor, porque a gente tem muita porcaria por aí. A gente tem muita coisa que... Exatamente por conta do streaming, a gente tem muito...

Documentários pessoais e filosóficos de Adriana (11:42)

Eron Falbo: [12:01] É verdade, verdade. Falando nisso, eu tenho uma coisa, uma interjeição a fazer, que é só por coincidência absoluta: eu estava vendo... Eu estudo bastante filosofia, estou aqui... Tem um outro filósofo, esse aqui é o Barra, mas não está aqui. Mas eu gosto muito de filosofia, e eu estava zapeando o Netflix e vi esse documentário, o Tempo... Como é que é o...? Oi?

Adriana L. Dutra: [12:30] Quanto Tempo o Tempo Tem.

Eron Falbo: [12:32] Quanto tempo o tempo tem. Eu achei fascinante porque, normalmente, quando você vê esse tipo de coisa, que era superfilosófica... eu não cheguei a terminar de ver, mas vi que vocês entrevistaram um monte de filósofos franceses, gente atual, que está aí na conversa contemporânea filosófica. E eu te confesso que nunca vi isso feito no Brasil. Fiquei impressionadíssimo que era uma produção brasileira. Quando vi aquele crédito infinito do governo que tem que colocar no início, eu falei: caraca, produção brasileira, que incrível! Aí eu te pergunto aqui, como foi essa ideia de fazer... Depois a gente volta, desculpa, só não queria esquecer de perguntar isso, entendeu? Como é essa ideia de filosofia no Brasil? Como você chegou nisso? Como você convenceu uma galera a investir aqui no Brasil numa coisa tão densa intelectualmente?

Adriana L. Dutra: [13:31] Pois é, tenho feito um trabalho de documentários em que utilizo angústias pessoais, que são angústias contemporâneas, a minha angústia, a sua angústia, a angústia de todos nós, para pensar. Então fiz o primeiro filme sobre vício, que se chama Fumando Espero, um documentário em que eu paro de fumar pesquisando a indústria tabagista. Foi muito bem recebido, esse filme.

Eron Falbo: [13:59] Você própria parou de fumar, né?

Adriana L. Dutra: [14:00] Eu viro personagem, eu virei personagem.

Eron Falbo: [14:03] Eu adorei o que você falou no Jô, que isso foi um processo meio ocultista, uma coisa que eu também gosto bastante, o ocultismo. Você falou: qual é o processo que eu escolhi para eu poder me auto-hipnotizar para ter efeitos? Nada melhor do que você ser personagem do seu próprio filme.

Adriana L. Dutra: [14:25] É, eu faço, eu sou, eu sou a minha própria... cobaia, tipo, como é que é o nome em português? A gente, como é que é o nome da pessoa que prova o vinho?

Eron Falbo: [14:35] É teste de laboratório, não... como é que chama... eu sou cobaia, cobaia, cobaia!

Adriana L. Dutra: [14:43] Sou cobaia do meu próprio pensamento. Foi muito legal. Com isso, criei essa linguagem, um pouco, para começar a trabalhar no setor audiovisual as minhas questões. E aí veio a coisa do tempo: não tinha tempo para nada. Acho que ninguém... mais ou menos em 2014, 2015, quando começaram as redes sociais, a internet bombando, a tecnologia invadiu nossas vidas, ninguém sabia lidar muito bem com isso na época. E aí fiz esse filme sobre o tempo, e foi muito bacana porque ele ganhou vários editais, esse documentário. Ele ganhou o edital de Baixo Orçamento do Ministério da Cultura, ele ganhou o edital de Financiamento e Desenvolvimento da RioFilme, e depois a gente conseguiu coprodução com a Sinapse. Ele viajou o mundo todo, foi vendido para o mundo todo e foi um filme muito lindo. E agora estou lançando o terceiro filme, dentro dessa mesma pegada, que é A Sociedade do Medo. É um filme que vai pensar sobre esse momento que a gente vive. Nós vivemos um momento em que estamos muito assustados com tudo que tem acontecido no mundo.

Novo filme Sociedade do Medo (15:36)

Eron Falbo: [16:04] No ar está tendo isso muito.

Adriana L. Dutra: [16:06] Uma sensação de medo presente. E é uma crítica que faço à sociedade, porque acredito que existem, por trás desse medo que vivemos, várias corporações.

Eron Falbo: [16:18] Exatamente. Puppeteers, como é que se chama? Pessoas fomentando isso.

Adriana L. Dutra: [16:25] Manipulando as nossas vidas, fazendo com que a gente consuma paliativos para amenizar o medo que sentimos. E aí a gente pensa: existem partidos políticos, existe a indústria farmacêutica, existem igrejas, religiões... Então a gente vai fazer uma grande... Esse filme eu estou montando agora, deve ficar pronto para o segundo semestre, vai ser lançado. E eu tô nele, tô nele falando que estou morrendo de medo, levantando a bola sobre o medo.

Eron Falbo: [17:04] Isso é lindo, porque eu vou te dizer: eu perdi uma das minhas melhores amigas na pandemia. Por causa do medo, ela se suicidou. Por causa, vamos dizer, do que estava acontecendo de colocar medo na mídia, da paranoia. E acho que foi demais para ela.

Adriana L. Dutra: [17:28] Você sabe qual é a maior pandemia do mundo? Não é a Covid, é a depressão.

Eron Falbo: [17:34] Também acho.

Fake news e cultura do cancelamento (17:36)

Adriana L. Dutra: [17:36] Que é a consequência de uma sociedade absorta, completamente mergulhada no medo. Eu concordo.

Eron Falbo: [17:48] E eu diria assim, além disso, essa capacidade que a gente tem de entrar em ondas, de acreditar em ilusões, em acreditar em produções, tipo, que vêm em cima da gente. Claro, não estou culpando, até porque eu mesmo devo entrar em centenas, porque às vezes a gente se acha meio acordado da situação, mas cada um tem sua própria coisa. E eu acredito que... um lado legal que eu acho, especialmente na pandemia que está acontecendo, é essa cultura de fake news. Fake news sempre existiu: Os Protocolos dos Sábios de Sião é um panfleto falando que os judeus inventaram um monte de coisa, que o Hitler usou para justificar as atrocidades que ele fez, e isso era um panfleto que era distribuído como verdade, como uma grande revelação. E isso é do século XIX, no final do século XIX já tinha isso, e tem desde a Roma Antiga: quando um político quer fazer alguma coisa, fake news é uma coisa que sempre existiu. Então a gente tá falando: é a era da fake news, é a era que a gente tá acordando pra entender que a notícia é fake.

Adriana L. Dutra: [19:06] Porque tem exatamente uma rede de comunicação mundial, que é a internet. Então, antigamente, existia fofoca, existia fake news, existia mentira, mas ficava dentro de uma bolha, dentro de um lugar específico. Agora, a fake news toma uma dimensão enorme e destrói vidas. A gente está vivendo essa época de fake news, de cancelamento, é uma loucura.

Eron Falbo: [19:30] É uma loucura.

Adriana L. Dutra: [19:32] Um ato falho acaba com uma vida, acaba com uma história.

Eron Falbo: [19:36] É verdade. Morgan Freeman, o Kevin Spacey... Eu acabei de ver hoje na notícia um grande diretor da Toyota que acabou de ser cancelado. Ele tem oitenta e poucos anos. Ele falou algum comentário sobre mulheres, tipo assim: beleza, feminismo, ótimo, tipo, eu sou a favor de empoderamento feminino, sou a favor de liberdade e tudo mais, mas o cara é de outra geração, entendeu? O cara, ele não tem a linguagem. Ele tem 80 e poucos anos, ele não tá atualizado. Só dele ser diretor da Toyota, a gente devia estar honrando o cara. E ele foi mandado embora da Toyota hoje.

Adriana L. Dutra: [20:20] Mas pode ser...

Eron Falbo: [20:22] É bem mais ou menos o comentário: mulheres às vezes falam demais, era uma coisa assim.

Adriana L. Dutra: [20:29] É uma coisa que parece besteira, mas é muito séria. O que está acontecendo hoje, por exemplo, com a Carol Punca... Coitada da Carol Punca, eu já estou cumprindo a Carol Punca, porque ela está sendo cancelada. As consequências vão ser enormes para a vida dela, e por uma besteira que ela fez ali as pessoas também estão julgando e destruindo vidas com isso.

Eron Falbo: [20:56] Sem poder julgar, né? Isso que é o problema. São pessoas que não têm cacife nenhum pra isso, entendeu? Isso que eu vejo: são universitários que começaram a fazer universidade agora e já estão aí na internet, super vocais, o que é uma coisa que... Você é um alívio, entendeu? Você é uma pessoa bem diferente, eu tenho que te dizer isso porque eu acompanho muita coisa internacional, de produtores, e você tá fazendo uma coisa muito diferente, porque você tá unindo duas coisas muito interessantes. Eu fico até mais aliviado de ouvir você falar essas coisas, porque eu vejo que você, ao mesmo tempo que é super preocupada com causas sociais e tá pronta pra peitar, tá pronta pra stand up to the man, tipo, enfrentar, ir lá botar o microfone na cara e perguntar, tipo, coisa Michael Moore, só que com elegância, né? E, ao mesmo tempo, você se preocupa em não julgar, se preocupa em ter humor na sua apresentação da coisa, que é aquela coisa socrática, tipo: beleza, vamos questionar, mas vamos questionar juntos. Você não está fazendo uma filípica, não está acusando as pessoas de estarem vivendo a vida errada, você está falando: o que eu e você estamos fazendo juntos? Eu acho que isso, pra mim, é o que precisa pra uma grande cineasta.

Adriana L. Dutra: [22:29] Obrigada, fico muito feliz. Não quero levantar verdades, não acredito nisso. Acredito que a gente possa pensar juntos e criar reflexões. Minha missão é essa enquanto documentarista. Acredito muito no audiovisual como uma ferramenta para pensar a vida, e tenho utilizado ele dessa maneira. E sempre deixo, nos documentários, nas séries, nas coisas que crio, para que o público resolva e tenha a sua própria visão sobre o que a gente está discutindo, porque ninguém, na verdade, ninguém sabe de nada.

Eron Falbo: [23:12] Que maravilha ouvir isso! Agora vou assistir todos os seus filmes. Vou estar... Oi, desculpa.

Adriana L. Dutra: [23:21] Vou ouvir ele agora. Beijo, Maurício.

Eron Falbo: [23:25] Beijo, Maurício. Obrigado por nos apresentar, foi o Maurício que nos apresentou. Adriana, eu me considero platonista desde os 17 anos, é a coisa que eu mais gosto, porque eu sou aristocrático agora. E Platão, em uma das cartas dele, uma das únicas que dizem que é autêntica, que Platão realmente escreveu, ele fala assim: muitas pessoas estão nessa onda de... E que depois, na época dele, quando ele ainda era vivo, entrou nessa coisa de filosofia aristotélica, de pessoas escrevendo dissertações, tipo, tal coisa, logo tal coisa... E Platão fala: eu nunca escrevi uma dissertação, nunca escrevi minha própria opinião, nada que eu falei é uma verdade, tudo são diálogos na voz de um Sócrates, e é o público que... Você sabe.

Adriana L. Dutra: [24:17] Platão... Pesquisando sobre sociedade do medo, Platão foi o primeiro manipulador. Inclusive, eu menciono isso no filme, porque Platão cria uma reflexão sobre a coragem, já que os soldados tinham medo de morrer. Todos eles não queriam ir para a guerra, porque eles tinham de morrer. Então ele cria o patriotismo, Platão.

Eron Falbo: [24:47] Na República e nas Leis.

Adriana L. Dutra: [24:49] Para buscar o quê? Não tenho medo de ir para a guerra, não tenho medo de lutar, porque vocês têm um motivo maior. E, de uma certa maneira, o que Platão fez foi manipular para que... O que ele queria era que os soldados continuassem lutando. Então, esse é o primeiro movimento que descobri na minha pesquisa da Sociedade do Medo. O primeiro movimento de manipulação nas civilizações foi feito por Platão. Nessa questão da... Bom, mas eu só...

Eron Falbo: [25:25] Vou fazer um aparte, assim, representando o platonismo, só para dizer que, enquanto eu entendo o que você está falando, é só uma pequena justificativa. Como ele não escreve a própria opinião e não faz dissertações, eu acho que o que eu diria sobre isso, para defender um pouquinho Platão, uma apologia ao Platão, que é irônico, é que isso já existia desde Péricles, que é antes de Platão. Já existia o sentimento de patriotismo, o sentimento de... Inclusive, a própria monogamia, alguns dizem, foi inventada para sustentar cidades-estados, patriotismo e tudo mais. Mas Platão, o que ele fez, talvez, foi expressar isso por escrito, de uma forma que... Vamos dizer, que influenciou as pessoas e, por isso, ele trouxe ao mundo, dentro da literatura.

Adriana L. Dutra: [26:26] Esse meu comentário, não estou... Poxa, quem sou eu? Só estou pontuando.

Eron Falbo: [26:31] Não, é só porque é uma coisa que gosto muito.

Adriana L. Dutra: [26:35] Não, mas a gente pode conversar isso à noite. Um dia a gente vai se encontrar.

Eron Falbo: [26:38] A gente toma uma garrafa inteira. Eu já vim com cenas minhas.

Adriana L. Dutra: [26:48] Aliás, o vinho é o meu remédio depois de um dia de trabalho. É um copinho de vinho e aí faz bem, me faz bem.

Financiamento do filme e transumanismo (26:49)

Eron Falbo: [27:02] Mas voltando à sua obra, eu queria entender como é que você convenceu a galera a fazer uma obra tão intelectual, honestamente intelectual. Eu vi que é honesto, você entrou em profundidade ali.

Adriana L. Dutra: [27:17] Esse projeto que eu comentei, o Quanto Tempo o Tempo Tem, por incrível que pareça, eu escrevi ele humildemente em diversos editais, e fui ganhando editais, porque ele estava falando, na hora, um assunto que tocava na vida de todos, que era a sensação de urgência. Em 2014, 2015, 2016, quando começaram as redes sociais a bombarem, e-mails e conferências, todos nós estávamos com uma sensação de urgência em que a gente não tinha tempo para nada. Então, quando eu criei, simplesmente, minha antena de pensamento pensou essa sensação, que não era uma sensação só minha, era uma sensação universal. E aí eu convenci várias pessoas a investirem. E essas pessoas incríveis que encontrei, que estão no filme, são ícones do pensamento da civilização contemporânea, porque tem pessoas muito importantes, por incrível que pareça. A gente mandava o argumento para as pessoas e todos eles queriam falar comigo. Eu não acredito! Ray Kurzweil é o cientista.

Eron Falbo: [28:38] É, ele é incrível. Futurologista.

Adriana L. Dutra: [28:40] É o cara que criou o carro que não precisa dirigir. É o cientista da Google. "Adriana, ele quer falar com você."

Eron Falbo: [28:50] Vou te pedir umas dicas aí para chamar a gente, claro, no Breakers, acho que ele não vai aceitar, mas umas intelectuais boas aí para chamar, para convidar, porque eu quero também agitar essa conversa.

Adriana L. Dutra: [29:04] Se eu puder te ajudar, pode contar comigo.

Eron Falbo: [29:06] Igualmente, igualmente.

Adriana L. Dutra: [29:09] Com certeza, mas as pessoas todas topavam. E aí a gente criou. E, na medida que eu ia conversando, ia aparecendo outras pessoas tão interessantes quanto. Aí eu conheci os transumanistas. Os transumanistas foi a coisa mais incrível. São as pessoas que não acreditam na morte, que querem se sobrepor à morte, elas querem viver infinitamente.

Eron Falbo: [29:31] Isso existe há muitos anos, porque isso não é uma coisa de agora. Acho que o Walt Disney está congelado. Tem uma galera das antigas que está congelada.

Adriana L. Dutra: [29:40] Exatamente. E os transumanistas estão estudando. O que eles acreditam é que, em breve, e eu acredito que pode ser muito possível, que a gente possa transferir nossa consciência para uma máquina. Singularity. Morre seu corpo, mas sua consciência está ali. Inclusive, há pouco tempo eu vi um filme, esqueci o nome, que Hollywood sempre conta, sempre antecipa tudo o que vai acontecer. E é isso, eles estão nessa luta.

Eron Falbo: [30:13] A ficção é... Jules Verne, Julio Verne, H.G. Wells, essa galera é muito incrível. O George Orwell.

Adriana L. Dutra: [30:36] Que é científica. Mas você sabe de um personagem do Sociedade do Medo, que é o Frank Furedi? Ele é um escritor que escreveu...

Eron Falbo: [30:47] Vai ser ficção, o Sociedade do Medo?

Adriana L. Dutra: [30:50] Não, é documentário.

Eron Falbo: [30:51] Mas eu estava com ele e ele falou... Como assim? Ah, o personagem está falando de uma pessoa que eu não conheço.

Adriana L. Dutra: [30:58] E aí ele falou o seguinte: Adriana, você já percebeu que todos os filmes que a gente já viu sobre o futuro, o futuro é péssimo, não existe um futuro feliz, todos são apocalípticos, a gente está buscando outro planeta, o meteoro vem. Eu não tinha percebido, e é verdade, a gente cria um futuro apocalíptico. É verdade.

Eron Falbo: [31:27] A primeira coisa que a gente pensa, caramba, é verdade. Se não todos, é a grande maioria. Eu estou adorando que você está fazendo esse filme e, cara, já está pronto? Vai lançar quando?

Adriana L. Dutra: [31:40] Estou conversando com o meu grande parceiro, Renato Martins. A gente está montando nesse momento e a gente está criando... É a primeira vez que eu monto um filme à distância, muito difícil. Mas ele está quase pronto. A gente vai... Globo Filmes é a nossa co-produtora. A gente vai lançar nos cinemas, se os cinemas voltarem, hoje, a distribuição da Fortes Filmes, produção da Infinito. E aí eu quero... Meu sonho é que a gente esteja todos vacinados, que eu possa fazer festivais, posso inscrever ele em alguns festivais importantes no mundo e no Brasil, e depois viajar com esse filme e lançar no cinema. Isso é o que está fechado. Agora vamos esperar para ver se a ciência ajuda a gente.

Eron Falbo: [32:31] Eron Falbo: Você falou segundo semestre desse ano?

Adriana L. Dutra: [32:33] Adriana L. Dutra: É, segundo semestre.

Eron Falbo: [32:34] Eron Falbo: Então, já está em pós-produção ou já acabou a pós-produção?

Adriana L. Dutra: [32:38] Adriana L. Dutra: Já, estamos montando. Nesse momento de montagem. Já está todo filmado.

Eron Falbo: [32:42] Eron Falbo: Montagem se diz quando... Entendi, edição. Eu até estudei um pouco de cinema, mas faz muito tempo, não sei as terminologias.

Adriana L. Dutra: [32:50] Adriana L. Dutra: Normalmente, a edição, a gente trabalha mais com esse nome, edição, quando a gente está trabalhando para a televisão, a gente usa edição. A gente usa mais quando a gente está fazendo cinema.

Eron Falbo: [33:04] Eron Falbo: Como é que é em inglês? Eu percebi que seu inglês é perfeito, então dá para te perguntar. Como é que é? É montage, editing?

Adriana L. Dutra: [33:11] Adriana L. Dutra: Editing, editing. O único é editing.

Eron Falbo: [33:15] Eron Falbo: Existe alguma coisa que é montage, que é tipo do francês? Esqueci, tem alguma coisa?

Festival Mulheres do Audiovisual (33:24)

Adriana L. Dutra: [33:24] Adriana L. Dutra: O conceito, tipo, eu tô falando inglês.

Eron Falbo: [33:28] Eron Falbo: Eu tô falando em inglês, eles usam a palavra montagem para alguma coisa? Não?

Adriana L. Dutra: [33:31] Adriana L. Dutra: Sei lá, a montagem, inclusive, tem a premiação do festival, best editing, é no...

Eron Falbo: [33:41] Eron Falbo: Oscar, é verdade. Eu ia te perguntar uma coisa: você tá numa coisa meio mulheres, né? Tipo assim, o Festival Mulheres do Audiovisual, que você falou que fez online, que depois a gente vai falar um pouco sobre. Eu vi umas lives com você, com umas mulheres. Você falou que três mulheres te ajudaram a financiar esse festival também. Você tá numa... qual que é essa lombra? Lombra, eu traduzi do trip, né, em inglês. E nos anos 60 era usada. Eu uso.

Adriana L. Dutra: [34:14] Adriana L. Dutra: Não, é o seguinte: esse ano a Infinito faz 25 anos, a minha produtora e a realização dos festivais de cinema brasileiro fora do Brasil, que são os Infinito Filme Festivals. E a gente começou a fazer, a partir de março, a gente começa a celebrar esses 25 anos. A primeira celebração é essa mostra, esse festival, é a segunda edição do Festival Mulheres do Audiovisual. A gente vai exibir 50 filmes, vamos ter debates, workshops, masterclasses, oficinas de capacitação. E são 50 filmes de produção que vão estar disponibilizados gratuitamente na plataforma inff.online, que é onde acontece toda... inff, com dois Fs, né? É, inff.online, de Infinito Filme Festival.

Eron Falbo: [35:05] Inf.online, ouviu, pessoal?

Adriana L. Dutra: [35:09] E aí, no dia 18 de março a gente abre o festival: filmes, sinceramente, incríveis, que as pessoas ainda não assistiram, filmes que não circularam, porque acontece o seguinte: muitos filmes brasileiros não encontram distribuição e ficam guardados. Esses filmes foram produzidos em 2018, 2019, 2020, são filmes jovens e que vão estar disponíveis. Além disso, a gente vai estar conversando sobre o papel da mulher no setor, porque você sabia que, até 2016, somente 17% dos filmes produzidos pelo Brasil eram dirigidos por mulheres? Somente.

Eron Falbo: [35:57] A gente tem que chamar mais mulheres para produzir filmes e mais apoiadores. Você está fomentando isso, você está sendo uma inspiração, um exemplo para ajudar essa causa.

Adriana L. Dutra: [36:14] A intenção é exatamente isso: colocar foco, luz aos talentos femininos, discutir o papel equalitário das mulheres no setor, poder exibir esses filmes de grande qualidade. São 50 filmes dirigidos por mulheres.

Eron Falbo: [36:33] Então, o seu objetivo é levantar mulheres e não derrubar o diretor da Toyota?

Diretor da Toyota e cultura japonesa (36:40)

Adriana L. Dutra: [36:40] O meu objetivo é explicar para o diretor da Toyota que o mundo mudou, que as mulheres não falam demais, que eles entendessem... Eu sou contra o cancelamento. Eu acho que quem cancela não dá oportunidade da pessoa mudar. A gente está sempre em transformação. Todo mundo erra, todo mundo erra.

Eron Falbo: [37:04] Cara, eu acho que o diretor da Toyota tem que ser mandado embora se ele fizer uma merda na Toyota, entendeu?

Adriana L. Dutra: [37:10] Ele tem que ser mandado embora de qualquer jeito, gente.

Eron Falbo: [37:12] Não, mas eu imagino que, se ele está lá com 80 anos, ele tinha algum... Primeiro, uma capacidade mental, porque a Toyota não é gente boa.

Adriana L. Dutra: [37:24] Quando eu tiver 80 anos, eu quero...

Eron Falbo: [37:26] Estar numa ilha tomando... Realmente, o problema dele não deve ser antifeminista, deve ser uma das outras coisas. Se ele está lá com 80 anos, eu acho que ele está esquecendo de viver um pouquinho. Eu só espero que ele não cometa o seppuku, né? Porque ser demitido da Toyota com 80 anos, sendo japonês, é muito sério. A honra no Japão é muito séria.

Adriana L. Dutra: [37:54] Você já foi ao Japão? Gente, o Japão é seríssimo. O Japão não tem barulho.

Eron Falbo: [37:58] Eu nunca fui.

Adriana L. Dutra: [37:59] O Japão, as pessoas são perfeitas. Existe esse negócio. Eles têm um problema de honra muito sério.

Eron Falbo: [38:07] Eu fiquei um pouco preocupado com esse senhor, justo por causa disso. Uma coisa, nos Estados Unidos os CEOs são mandados embora, né? Tipo assim, toda hora estão mandando embora. No Japão tem uma política, que eu sei, até o Koji, que é um grande amigo meu, a gente já trabalhou junto, hoje a gente ainda trabalha junto, ele é um filmmaker, inclusive eu tenho que apresentar vocês dois, ele entrou aqui. Ele morou lá, é nissei, se não me engano, segunda geração japonês. E, se eu não me engano, foi ele que falou que o pessoal não é mandado embora no Japão, entendeu? Tipo assim, a galera entra numa empresa e a galera aguenta. Não, não depende, você vira faxineiro.

Adriana L. Dutra: [39:02] Tipo, para de ser... São muito fascistas, esses japoneses, hein? Extremamente.

Eron Falbo: [39:09] É, claro, mas a sociedade patriarcal é antiga.

Adriana L. Dutra: [39:14] Mas, olha, fui para lá e fiquei encantada, a perfeição. As pessoas falam e você não ouve a voz das pessoas, você não vê lixo. É uma perfeição, acho que eles buscam esse lugar e é muito surpreendente.

Eron Falbo: [39:32] O jardim zen deles, literalmente é um grande jardim zen, o Japão.

Adriana L. Dutra: [39:38] Eles já estão de máscara há muito tempo, viu?

Eron Falbo: [39:40] Claro! Eles já estavam sem se encostar, já estavam de máscara em todos os lugares. Logo antes da pandemia, minha mãe estava lá e fez vídeo. Tipo, eu estou aqui. Não é documentário. Ela estava lá saindo do shopping e a galera fazendo fila para atravessar a rua. E ninguém está lá com chicote.

Adriana L. Dutra: [40:07] É lindo de ver. Mas, por outro lado, eles são muito contidos, reprimidos, sim. Dizem que eles usam máscara. Não é para se contaminar, é para ninguém ver o que eles sentem.

Eron Falbo: [40:22] É, pode ser. Mostrar sentimentos... E, ao mesmo tempo, tem maquininha. Eu gosto de falar as duas coisas, não estou julgando ninguém, nem cancelando ninguém, entendeu? Mas vou falar os dois lados, entendeu? Os japoneses são estoicos, maravilhosos, samurais, mas também vendem maquininha, né? Maquininha de Coca-Cola, calcinha de colegial, vendem coisa para duas pessoas se masturbarem ao mesmo tempo, que tem até um nome para isso.

Adriana L. Dutra: [40:53] Tem de tudo na maquininha do metrô, você compra brinquedinhos para assistir com o seu companheiro.

Eron Falbo: [41:03] Cara, isso me assusta, porque na sociedade que você vê funcionando, você vê essas válvulas de escape meio bizarras. Em Londres, depois de duas horas da manhã, você vê sangue nas ruas, a galera brigando. É meio bizarro.

Adriana L. Dutra: [41:20] Eu não vi nenhum japonês brigando.

Eron Falbo: [41:23] Eles tiveram outras válvulas de escape, pelo amor que eles vão. Mas é um amor meio... tough love. Máquina de calcinha, exatamente. O Maurício Broco conhece bem... Mentira, antes que alguém cancele o Maurício Broco e o meu nome. Tipo assim, o meu programa é, hoje em dia, eu considero principalmente anti-cancelamento, uma das bandeiras aqui é a gente poder falar a merda, o foda-se que a gente quiser.

Manifesto contra o cancelamento (41:37)

Adriana L. Dutra: [42:00] A gente não pode deixar essa cultura de cancelamento progredir. A gente tem que parar com esse negócio. Nós somos humanos, nós erramos, nós aprendemos, a gente reinventa. Isso é uma besteira, isso é muito perigoso. E atrapalha as causas.

Eron Falbo: [42:16] Você está defendendo tantas causas, e chegam outras pessoas que fazem filmes que são tendenciosos, que são mentirosos, que na edição, na montagem, eles foram lá e... O Michael Moore é muito assim, desculpa falar, o Michael Moore é um cancelador-mor. Acabei de fazer esse jogo de palavras.

Adriana L. Dutra: [42:38] É muito igual nas artes. Você tem a liberdade de colocar o que você sente, e isso é interessante. Se você agora começa a podar isso, pra onde a gente vai?

Eron Falbo: [42:50] Exatamente, o humor. Muitos humoristas estão sendo contra isso. A base do humor é você ser livre naquele momento.

Adriana L. Dutra: [43:01] Eu acho que você não pode, por exemplo... Não é que você não possa, você não deve machucar ninguém. Você não deve fazer um filme mostrando que é legal matar mulheres, ou matar os homens, sei lá, qualquer coisa assim, e fazer apologia. Você pode fazer uma coisa...

Eron Falbo: [43:22] Claro.

Adriana L. Dutra: [43:23] Porque faz parte de um contexto, de uma história. Quando faz parte de uma história, a gente entende. Agora, quando é uma apologia do mal, aí a gente não entende.

Eron Falbo: [43:33] Mas eu acho que você está certo em dizer: a gente não deveria. Isso deveria ser contextualizado num contexto ético, num contexto social, e não num contexto governamental, num contexto econômico, de você acabar com a carreira do Kevin Spacey, cancelar a última temporada de House of Cards com uma coisa que não tem nada a ver com House of Cards.

Adriana L. Dutra: [44:00] Eu acho que ele assediou mulheres e homens pesadamente.

Eron Falbo: [44:06] Eu não cheguei a ver a conclusão do caso, se não me engano, foi cancelada a última temporada da House of Cards antes de ter um julgamento, quando ele foi acusado.

Adriana L. Dutra: [44:20] Semana passada eu estava zapeando na Netflix e vi um filme dele, uma besteira, mas fiquei muito feliz de vê-lo de volta, fiquei feliz. Ótimo, é o nome dela, a Winona, que roubou roupas na loja.

Eron Falbo: [44:38] De apartamento a uma termina, aquela que parece uma termina, não é?

Adriana L. Dutra: [44:45] Mas ela foi... acho que, por exemplo, ela foi cancelada assim. Ela tinha um problema, mas...

Eron Falbo: [44:53] Não é que... Tipo assim, cancelamento não está ajudando. Tipo assim, não. Então, vamos cuidar das nossas celebridades e foda-se. Tipo, a gente vai... Vamos botar um rehab de kleptomania pra essa pessoa, que eu esqueci o nome.

Adriana L. Dutra: [45:06] Ou... Winona Ryder.

Eron Falbo: [45:08] Winona Ryder. A Winona Ryder, que, se eu não me engano, eu sempre confundia com algum termo, por alguma razão. Ou eles fizeram alguma coisa juntos.

Adriana L. Dutra: [45:18] Obrigada, Gisele, minha sócia. Winona Ryder.

Eron Falbo: [45:22] Então, isso não tá ajudando em nada, entendeu? Eu não acredito que isso esteja ajudando em alguma coisa. Pelo contrário, essa cultura de cancelamento tá causando muita fúria, tá botando pessoas como Bolsonaro no poder, tá causando que pessoas que, otherwise, são moderadas, virem um pouquinho mais de direita, um pouquinho mais conservadoras, né?

Adriana L. Dutra: [45:51] Ninguém precisa pensar a mesma coisa. Você não precisa gostar das coisas que eu gosto. As pessoas precisam entender que existem diferenças e respeitar as diferenças, respeitar uma visão sua, você respeitar a minha. E, quem sabe, eu possa te convencer, mas também não precisa te convencer de nada, entendeu?

Eron Falbo: [46:12] É muito isso, essa palavra que, tipo assim, se corrigiu, que eu acho lindo: é tipo assim, o 'tem que' tem que virar 'deveria'. Não é 'deveria' que vira 'tem que'. O 'tem que' tem que virar 'deveria', entendeu? Porque o 'tem que' é uma parada fascista, é uma parada totalitária, é o que os políticos usam para manipular, para fazer a gente de marionete. Que a produção aqui me lembrou, que ele estava tentando lembrar o que é puppet.

Adriana L. Dutra: [46:51] O meu filme, Sociedade do Medo, trata disso. Nós somos marionetes diante de grandes corporações, instituições, partidos políticos, instituições religiosas, que estão se beneficiando e manipulando nossas vidas nas mais ínfimas parcelas da nossa intimidade. E a gente não percebe.

Eron Falbo: [47:19] Isso é muito importante dizer. Somos duas pessoas formadas aqui, conversando em uma live que as pessoas estão ouvindo e estão interessadas. A gente está dizendo, você acabou de dizer e eu também repito, a gente também não percebe. Eu não percebo quando estou sendo manipulado.

Monopólio das big techs e censura (47:22)

Adriana L. Dutra: [47:38] É exatamente isso. A nossa vida, olha só: saúde, você precisa ter um crédito, você precisa ter seguro de saúde, você precisa ter crédito para ter dinheiro, você precisa ter beleza, você precisa ter juventude. Então, a gente precisa de um monte de coisas que a gente não precisa, que é um sistema por trás, trabalhando para que a gente...

Eron Falbo: [48:02] Eu estou me identificando, só entregando isso aí.

Adriana L. Dutra: [48:04] E consumir, consumir, consumir, consumir. Para que eles ganhem dinheiro e a gente vai morrendo.

Eron Falbo: [48:11] Sabe o que eu acho pior? Aquela coisa de nós e eles. Eu acho que, na verdade, não tem nem eles, porque eles também são vítimas. Tipo assim, o Mark Zuckerberg também está no Instagram demais.

Adriana L. Dutra: [48:23] Ele também está... Porque o Zuckerberg cancela o presidente dos Estados Unidos.

Eron Falbo: [48:29] Ele também está se fudendo. Ele também está se colocando dentro da guilhotina. É tipo o Robespierre. O Robespierre é o cara que botou todos os reis na guilhotina, que fez a Revolução Francesa, foi o líder da Revolução Francesa, que botou todo mundo na guilhotina, e ele morreu na guilhotina. É isso que eu estou falando: uma vez que você joga isso, você também é vítima disso.

Adriana L. Dutra: [48:54] O Mark Zuckerberg, eu acho que ele é um reptiliano... Estou brincando, mas eu acho que o Mark Zuckerberg é o imperador do planeta Terra. Esse cara comanda o Facebook, o Instagram, o WhatsApp, ele é dono disso tudo.

Eron Falbo: [49:10] Mas ele não comanda a si mesmo, então tem como ele comandar outra pessoa? Mas o que eu tô tentando passar aqui é que, tipo, não tem um nós e ele. Ele tá tão perdido quanto a gente tá. Ele é parte de um mecanismo mundial de vaidade, de ganância, de tudo mais que as pessoas precisam ter, entendeu? Pra gente perder essa coisa de, tipo, tem alguém ali e tem alguém aqui. Tá todo mundo no mesmo barco, de tanto bom quanto ruim, entendeu? Eu também imagino que o Marquinhos deve... Ô, Marquinhos!

Adriana L. Dutra: [49:49] Eu vou te falar uma coisa: Mark Zuckerberg é perigosíssimo. Se existe alguém perigoso nesse planeta, é esse mocinho, porque... a gente não percebeu e a gente não sabe onde isso vai dar, mas existe uma pessoa que comanda a comunicação de todo o planeta. Isso é monopólio.

Eron Falbo: [50:17] Não, isso eu concordo com você, em termos econômicos, termos sociais, eu concordo com você. Eu só estou sugerindo a ideia de que... ele não tem tanto controle, ele, pessoalmente. Eu acho que em termos de monopólio tem que acabar com isso, porque eles são poderosos, a marca Facebook é poderosa demasiadamente, porque eles têm o poder de cancelar, mesmo que você não goste do Trump. O Facebook não deveria ter o poder político de acabar com um processo democrático, um processo político.

Adriana L. Dutra: [50:51] Eu odeio o Trump. Desculpa, não posso falar isso. Bom, posso. Eu não gosto do Trump.

Eron Falbo: [50:55] Aqui no meu programa, pode falar o que você quiser. É para isso que a gente está aqui.

Adriana L. Dutra: [50:59] Esse Trump dá bem. Agora, o que ele fez com o Trump é perigoso.

Eron Falbo: [51:03] Claro, claro.

Adriana L. Dutra: [51:05] Acabei dele. Acabou o cara.

Eron Falbo: [51:07] É isso que tá faltando as pessoas falar. Por isso que eu te adoro. Tá faltando as pessoas serem contra a coisa e defenderem o direito de defesa delas. Tipo assim, eu sou contra os piores pessoas, o Harvey Weinstein, o Jeffrey Epstein, só os teens da vida aí que estão no Hollywood sendo cancelados, mas tem que defender o due process, o direito constitucional da pessoa se colocar, da pessoa falar ao lado dela, entendeu? Seja constitucional ou não, eu tô falando filosófico, também foda-se a Constituição.

Adriana L. Dutra: [51:47] Ele agora cancelou o Trump, o presidente da maior potência do planeta.

Eron Falbo: [51:53] Que não é mais a maior potência, agora é o Facebook.

Adriana L. Dutra: [51:56] Agora imagina o que esse cara, que perigo esse homem, gente. Esse homem é muito perigoso. Enfim, olha, vai acabar nosso tempo. Temos dois minutos. Eu como produtora e o outro não me conta.

Encerramento e onde encontrar o festival (52:00)

Eron Falbo: [52:08] Valeu, valeu. Infelizmente vai acabar nosso tempo, mas vamos, antes, porque eu gosto de, bom, como agradecimento, o mínimo que eu posso fazer é te honrar, honrar toda a sua trajetória, sua produção, tudo que você tem pra fazer. Vamos só deixar umas dicas pra galera poder te achar, pra ter certeza que a gente não vai esquecer disso e não vai acabar, porque a gente tá, dá pra ver que a gente tem uma química filosófica aqui que é até perigosa, porque daqui a pouco acabou a live, né?

Adriana L. Dutra: [52:39] Bom, sigam o Infinito, infinito... com dois T's, né?... Brafe, B-R-A-F-F, sigam a Dri, Dri, Dri... peraí, mas...

Eron Falbo: [52:50] É Infinito com dois T's, não?

Adriana L. Dutra: [52:52] É, dois F's, de filme e filme.

Eron Falbo: [52:54] Ah, é? Então escreveram errado aqui pra mim. Então vamos letrar, só porque muita gente vai ouvir pelo Spotify depois. É I-N-F-F-I-N-I-T-O. É underline... br, a, ff, e o outro é a arroba, e, n, e, ff, e, n, e, t, o, filme festival, que acho que as pessoas vão ter capacidade, uma inglês, uma inglesa, um...

Adriana L. Dutra: [53:24] Português e sim, a Adriana Dutra sou.

Eron Falbo: [53:27] E onde vocês conseguem achar os mais quentes festivais, ponto, online, que...

Adriana L. Dutra: [53:36] Onde exatamente? Mostra das Mulheres, inff.info.

Eron Falbo: [54:04] E eu espero que a gente possa ter em breve esse prazer de várias garrafas juntos. A gente chama o Maurício Branco, que nos apresentou, outras pessoas que estão aí, depois a gente faz um casting.

Adriana L. Dutra: [54:19] Eu vi muitos amigos, queria dar um beijo em todos eles, vi minhas grandes patrocinadoras aqui, Lili, Laura, minha sócia Cláudia, Vivi, amo vocês. Obrigada.

Eron Falbo: [54:33] Eu também amo vocês por serem mecenas, por terem apoiado. Isso é uma coisa que a gente não conseguiu entrar, mas é uma coisa que é minha. Desculpa, eu interrompi isso aí, mas daqui a pouco pode exceder um pouquinho, não tem problema. Uma das minhas bandeiras da vida, além de anti-cancelamento, é a sociedade se emancipar do governo. Então, eu queria agradecer a essas grandes mulheres por entrarem nessa jornada de mecenas, como já existia no século XV, da galera começar a ajudar e começar a fomentar, e a gente começar a ignorar o governo e viver nossas vidas culturalmente.

Adriana L. Dutra: [55:14] O governo está ignorando a gente, amor.

Eron Falbo: [55:16] O governo sempre ignorou, e agora a gente tem que acordar para isso. Mas desculpa interromper esses agradecimentos lindos.

Adriana L. Dutra: [55:24] Não, imagina, eu já fiz, já agradeci. Inclusive, a Laura já me deu um beijinho aqui. Ela é muito especial. Enfim, cultura, a gente precisa de cultura para viver. Não existe, a gente precisa. E acho que o conteúdo audiovisual salvou vidas durante a pandemia. Vem salvando vidas durante toda a história da civilização, e a nossa luta é essa.

Eron Falbo: [55:49] É isso, Adriana. Caramba, final fantástico, começo fantasmêutico. A gente entrou em umas coisas muito bonitas. Muito obrigado pela participação. Muito obrigado por uma pessoa tão grande aceitar um convite de alguém, espero que é a sessão, mas com menos experiência, com certeza. Muito obrigado, de coração. E espero que a gente se veja em breve.

Adriana L. Dutra: [56:13] Obrigada, querido. Sucesso. Adorei te conhecer. Foi uma honra.

Eron Falbo: [56:17] Igualmente. Tudo de bom. Beijão. Beijão a todos.

Adriana L. Dutra: [56:21] Tchau, tchau, tchau.

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