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#58 Magia e som para o público

com Enrico de Paoli · 8 de fev de 2021

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Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Abertura e apresentação do convidado (0:00)

Eron Falbo: [0:06] Sejam bem-vindos! Você entrou no Alvo, eu sou o Eron Falbo e estamos aqui hoje com o Enrico de Paoli. Enrico de Paoli é duas vezes ganhador de Grammy. Ele é um engenheiro musical e produtor. Então vamos entrando, juntem-se a nós, sentem-se ao redor da fogueira, e vamos ouvir a sabedoria desse mestre da música. Falou! E aí, Enrico, beleza?

Enrico de Paoli: [0:35] Tudo bom?

Eron Falbo: [0:37] Beleza, cara, e você? Boa noite, seja bem-vindo.

Enrico de Paoli: [0:41] Boa noite. Tá me ouvindo e me vendo bem?

Eron Falbo: [0:43] Eron, eu também errei seu nome, então tá tudo certo.

Enrico de Paoli: [0:48] Eu conheço seu nome escrito.

Eron Falbo: [0:52] Isso é normal. E seu nome, a gente tá acostumado a falar Henrique, todo mundo deve falar Henrique toda hora. Enrico é bem italiano, né?

Enrico de Paoli: [1:02] Não só Henrique, todas as variantes: Érico, Eurico, Enrique, Enriques!

Eron Falbo: [1:11] E você tem família italiana? Seu nome é totalmente italiano.

Enrico de Paoli: [1:17] É, sou descendente direto de italiano. Tenho família e sou meio cidadão italiano.

Eron Falbo: [1:27] Ah, legal. Também sou, também tenho família, também sou cidadão italiano. Alguém está perguntando se meu nome é Egon. Egon é tipo os caça-fantasmas. E aí, cara? Estava vendo um vídeo seu aqui no YouTube e a entradinha tem uma coisa meio anos 80. A sua, vamos dizer, sua praia principal é a programação de sintetizador, né?

Início com sintetizadores na infância (1:42)

Enrico de Paoli: [1:51] Cara, é engraçado que um comentário seu e uma pergunta abrangem uma ampla gama da minha vida musical. Em primeiro lugar, obrigado pelo convite. É um prazer estar aqui.

Eron Falbo: [2:06] O que é isso? Obrigado por estar aqui.

Enrico de Paoli: [2:09] Agradeço também ao Vitor pela indicação.

Eron Falbo: [2:15] Eron Falbo: Eu também.

Enrico de Paoli: [2:17] Enrico de Paoli: Estou vendo, às vezes, uma rodinha da conexão. Se tiver algum problema de conexão, você me fala.

Eron Falbo: [2:25] Eron Falbo: Não, por enquanto, dá para te ouvir bem. Também vi a rodinha, mas você não foi interrompido na voz, pelo menos. Isso é importante, porque vai para o podcast depois.

Enrico de Paoli: [2:35] Enrico de Paoli: Então, agradeço, não sei se ele está aí, o Vitor, pela indicação da gente, indicação mútua da gente se encontrar aqui. Eu fiz um trabalho com a banda que o Vitor tinha, muitos anos atrás, uns 13 anos atrás, uma banda muito bacana que se chamava Linha 2. Mas, voltando à sua pergunta, eu comecei com um tecladinho da Casio que eu ainda tenho, que é quase uma calculadora de tão pequena. Ele se tornou um clássico, chama Casio VL-Tone ou VL-1.

Eron Falbo: [3:14] Eron Falbo: Acho que eu sei qual é.

Enrico de Paoli: [3:16] Enrico de Paoli: Nos anos 80, a molecada tinha esse brinquedinho bacana. E, nos anos 80, eu fazia uma coisa que era moda na época, que era equipe de som. Molecada lá do condomínio, cada um pegava um toca-discos do pai, um tape deck, um amplificador, caixa de som, e a gente ia para os playgrounds dos prédios montar aquela parafernália lá e fazer festa. E aquilo começou lá. O som foi ficando maiorzinho, maiorzinho, e começaram a contratar a gente para alugar o som para as festas. Quando eu era muito criança, ainda com 12 anos de idade, eu já tinha um equipamento meu, cartão de visita e tal, e eu alugava som para festa. Nessa ocasião, começaram os preparativos do Rock in Rio I. O Rock in Rio I foi um grande marco. Assim como várias coisas que acontecem... Por exemplo, quando o Gustavo Kuerten era tenista nato, ganhando um monte de coisa, um monte de criança começa a seguir os caminhos e virar tenista. Todo grande evento no país vira... Sim, sim.

Impacto cultural do Rock in Rio (3:41)

Eron Falbo: [4:32] Eron Falbo: Eu nunca tinha feito essa conexão, mas realmente, eventos têm essa coisa de trazer para o imaginário uma coisa mais concreta. Talvez as pessoas precisem ver para crer e começam a seguir depois. Porque as cenas estavam passando na televisão desde sempre.

Enrico de Paoli: [4:54] Enrico de Paoli: É, é fato o que você está falando, só que acaba que quando você vê o tenista, ou você vê um evento como o Rock in Rio, e aquelas pessoas lá, que não é um tenista só, mas uma série de artistas e bandas, crianças passam a ter aquilo como ídolos. Tipo, eu quero ser aquilo. Quando eu crescer, quero ser... E talvez.

Eron Falbo: [5:20] Eron Falbo: É porque traz mais pra perto, né? Você sente que é mais real. Porque talvez quando você vê uma coisa tipo na televisão, vê em Hollywood, né? Você vê um monte de filmes sobre artistas. É uma coisa, mas você vê lá o Freddie Mercury tocando. Mesmo que você veja na televisão, você sabe que ele tá tocando ali no Rio de Janeiro e você mora ali em BH, sei lá. Você vê que é uma coisa mais próxima da sua realidade, talvez.

Enrico de Paoli: [5:45] Enrico de Paoli: É, é isso mesmo. Bom, aí com o Rock in Rio, toda a molecada que eram meus amigos, eu via todo mundo indo pedir pros pais, no Natal, porque era uma guitarra. Todo mundo queria guitarra. A verdade é que 90% queria guitarra. Rock in Rio, o símbolo era uma guitarra. Todo mundo queria uma guitarra. Alguns, para a infelicidade dos pais, queriam bateria.

Eron Falbo: [6:12] Eron Falbo: Eu quis uma durante o trabalho.

Enrico de Paoli: [6:16] Enrico de Paoli: E os que se achavam menos aptos musicalmente pediam um baixo, porque o baixo tinha menos cordas, tecnicamente, teoricamente não tem acordes, então era mais fácil pra criança não atrapalhar. Eu pedi uma guitarra pro meu pai e falei: pô, eu queria uma guitarra de Natal. Aí ele falou: mas você já tem aquele tecladinho, você tira tanta coisa de ouvido naquela coisa, naquele pianinho, por que a gente não pensa num tecladinho um pouco maior? Você já está nas teclas. E o meu pai, só pelo olhar dele, ele era muito fácil, ele convencia, não precisava insistir, e a gente já comprava a ideia. Eu fui na ideia dele e ele me deu de presente um tecladinho um pouco maior. Logo depois, virou um tecladinho um pouco maior e eu juntei... Por isso que a sua pergunta, eu falei que ela dava uma resposta numa gama de vários momentos da minha vida, várias atividades da minha vida, porque logo já tinha um sintetizador com bateria eletrônica, e era um sonho da minha vida aquele sintetizador, um Roland Juno-106, que era uma coisa de louco, que vários artistas do Rock in Rio trouxeram tecladistas com aquele instrumento. Eu ficava lá na televisão babando, vendo eles tocando com aquele instrumento, aquele instrumento que eu tinha, então, um ano depois. E eu uni isso, esse meu aprendizado dos sintetizadores, com fazer som para a festa. Então, eu levava o meu sintetizador para as festas em que eu alugava som e, em dado momento da festa, eu começava a tocar junto com os discos que eu botava. E eu, criança, com 12, 13 anos de idade, vinha aquele monte de pai, mãe e as crianças, e virava um show particular aquilo. Então, o som andou muito em paralelo com o instrumento, o sintetizador, para mim, a vida toda. Quando eu fui estudar nos Estados Unidos,

Eron Falbo: [8:40] Eron Falbo: Bom, vamos voltar para o assunto. Na verdade, vamos para um assunto intermediário, um parêntesis. O que você está bebendo aí?

Bebidas e drinks favoritos (8:52)

Enrico de Paoli: [8:52] Enrico de Paoli: Cara, é engraçado, o nome dele também é diferente, não sei se vou falar certo. Nise? Nise?

Eron Falbo: [9:02] Não sei. Não sei o que é.

Enrico de Paoli: [9:05] Não, o nome da pessoa que me contactou.

Eron Falbo: [9:10] Ah, desculpa, o nome do produtor, Niasi. Achei que você ia falar o nome da bebida.

Enrico de Paoli: [9:15] Não, o Niasi me contactou e falou da bebida. Achei engraçadíssimo ele perguntando o que eu ia beber. Tinha chegado em uma festa e perguntou o que eu ia beber. O que tiver, eu falei. Não sei o que eu vou sentir vontade na hora. Eu bebo café, todas as bebidas alcoólicas, água.

Eron Falbo: [9:41] Ele me falou exatamente isso: você foi o primeiro convidado na história do programa a se importar com o que eu quero beber. Então eu peguei minha bebida favorita.

Enrico de Paoli: [9:52] É claro. Aí eu falei: das bebidas alcoólicas, acho que o mais bebo são Martini e Jack Daniel's. Aí, na dúvida, eu fiz um Martini com Jack Daniel's Spritz.

Eron Falbo: [10:05] Caraca, sério?

Enrico de Paoli: [10:07] Saúde.

Eron Falbo: [10:08] Isso aí eu tenho que experimentar um dia. Saúde. Eu tô tomando aqui um Cointreau, que eu gosto de tomar na segunda-feira.

Enrico de Paoli: [10:14] Você é mais chique que eu.

Eron Falbo: [10:17] Mais chique do que Jack Daniel's com Martini, não sei se é, não.

Enrico de Paoli: [10:21] Não, isso aqui é uma delícia. Na verdade, o Martini que eu digo é o Vermute.

Eron Falbo: [10:29] Ah, sim, sim, que é o Martini de verdade.

Enrico de Paoli: [10:34] Se você mistura Jack Daniel's com Martini com Campari, que é um bitter, você tem uma bebida que se chama, tecnicamente, o título desse drink é Boulevardier.

Eron Falbo: [10:49] Ah, nunca experimentei.

Enrico de Paoli: [10:53] Mas ele é um primo do Negroni, que é famosíssimo nos bairros, né?

Charuto e cachimbo (10:56)

Eron Falbo: [10:58] Sim, sim, sim.

Enrico de Paoli: [10:58] Só que o Negroni, no lugar do...

Eron Falbo: [11:00] Cheque dele... Ah, então... E aí, você...

Enrico de Paoli: [11:04] Desliga e põe um Bourbon ou um Tennessee Whisky?

Eron Falbo: [11:08] Fala, cara. E aí?

Enrico de Paoli: [11:10] Bom, eu religuei tudo aqui.

Eron Falbo: [11:13] Agora eu acho que tá bom. Nunca esteve melhor. Você nunca esteve tão bonito.

Enrico de Paoli: [11:18] Mas isso só se eu desligar a chave geral do bairro.

Eron Falbo: [11:24] Você tem essa chave aí, né? Aposto que eles deixam com você.

Enrico de Paoli: [11:27] É, a chave fica aqui atrás da porta.

Eron Falbo: [11:30] Mas agora tá vendo que tem esperança. Vamos lá, vamos lá.

Enrico de Paoli: [11:38] Tô com o celular na mão aqui, porque ele tava no tripé.

Eron Falbo: [11:42] Vamos ver se... De repente era isso, de repente era o tripé. Tem que fazer todos os macumbos.

Enrico de Paoli: [11:48] Eu tô tentando de tudo.

Eron Falbo: [11:52] Beleza, beleza. Cara, eu quis saber se você gosta de um charuto também. Charuto ou um cachimbo.

Enrico de Paoli: [12:01] Eu fumo cachimbo. Charuto não é muito a minha praia, não. Eu fumo cachimbo.

Eron Falbo: [12:06] Eu tenho que começar nessa do cachimbo. Eu fumo muito charuto, até demais. E até começaram a reclamar, né, as meninas, as pessoas ao meu redor.

Enrico de Paoli: [12:17] O charuto tem um cheiro muito forte, né? O cachimbo... ele é mais agradável, o cachimbo é mais perigoso. O cachimbo é aromático.

Eron Falbo: [12:29] Ah, pronto! É isso que estava faltando na minha vida.

Enrico de Paoli: [12:34] O cachimbo não tem um cheiro nada parecido com o charuto.

Eron Falbo: [12:38] Não sabia não. Cara, deixa eu perguntar uma coisa, você mora no Rio ou não?

Trajetória entre Brasil e Estados Unidos (12:42)

Enrico de Paoli: [12:42] Moro no Rio. Morei muito tempo nos Estados Unidos, a vida toda, entre idas e vindas, mas eu moro no Rio.

Eron Falbo: [12:50] E por que você voltou dos Estados Unidos? Eu estava lendo um pouco sobre sua biografia, e você trabalhou com gente gigantesca nos Estados Unidos. O que te fez dar uma chance para o Brasil?

Enrico de Paoli: [13:02] Essa pergunta é clássica. Eu morei lá em épocas variadas. Morei lá com zero anos de idade, apesar de ter nascido aqui, mas morei lá recém-nascido. Morei lá com 15, 16, depois morei lá... no final de 17 até 21. Depois morei lá com 27, 28. Depois morei lá com 45. Eu tenho 48 hoje. Cada época da vida tem motivos, né, porque, depois que você não só mora fora, mas eu viajei muito fazendo turnê. Fiz shows com muitos artistas. O artista com quem eu mais fiz show foi o Djavan. Eu fiz uns 1500 shows com o Djavan.

Eron Falbo: [13:53] Caraca! Aquela turnê que eu vi no seu site chama Malásia. Eu fiquei curioso porque vocês não foram para a Malásia.

Enrico de Paoli: [14:02] É engraçado que, quando a gente fez aquele Malásia... mesmo sendo, em várias épocas da minha vida, muito próximo do Djavan, eu não sei por que aquele disco se chamou Malásia. Tem uma música que se chama Malásia, mas eu nunca soube exatamente por que aquele disco se chamou Malásia.

Eron Falbo: [14:23] Ah, é uma turnê do disco, eu nem sabia que tinha um disco chamado Malásia.

Enrico de Paoli: [14:27] É.

Eron Falbo: [14:28] É, pra você ver o meu nível de ignorância.

Enrico de Paoli: [14:30] O disco Malásia é engraçado, isso porque ele não é um disco muito pop, apesar de ter uma música que tocou muito na rádio, toca até hoje, que é Nem Um Dia. A música é um dia frio, um bom lugar para ler um livro, o pensamento lá. Ainda bem que eu não canto no disco, como você pode ver, né?

Eron Falbo: [14:52] Mas uma coisa que eu percebi sobre você é que parece que você tem uns 30 e poucos anos, cara. Você fala aí que você já fez um monte de coisa.

Enrico de Paoli: [15:00] Eu tenho 48.

Eron Falbo: [15:00] Você é vampiro também, né?

Enrico de Paoli: [15:03] Eu tenho 48. Eu tenho certeza que esse seu comentário faz parte do motivo da sua grandeza, né? Ser gentil.

Eron Falbo: [15:13] Thank you!

Enrico de Paoli: [15:14] As pessoas levam a gente longe, o vídeo e você.

Eron Falbo: [15:19] Eu fico aqui no Leme normalmente, não vou muito longe.

Enrico de Paoli: [15:25] Eu tive 30 anos, mas faz tanto tempo que eu mal me lembro.

Eron Falbo: [15:32] Você já teve?

Enrico de Paoli: [15:33] O Malásia é um disco que não foi um disco de paradas, de sucesso, apesar de ter tido uma música que é Nenhum Dia, que tocou muito e toca até hoje, foi muito sucesso. Teve outra música no disco, que é uma música do Jobim, que é Correnteza, que tocou na novela. Não lembro qual era a novela, mas era com a Patricia Pillar. As músicas nas novelas normalmente são para algum artista. Quando aparece aquele artista, toca aquela música em diversos arranjos.

Eron Falbo: [16:07] A música é tipo um leitmotiv, parece o Darth Vader. Curiosamente, eu não entendo nada de Star Wars.

Enrico de Paoli: [16:19] Eu não entendo nada de futebol nem de Star Wars.

Eron Falbo: [16:24] Que coisa, caramba! O que você conversa com seus amigos? Sobre o UFC?

Enrico de Paoli: [16:34] Eu posso conversar com você sobre carros, sobre cachimbos, sobre colecionáveis de uma maneira geral.

Eron Falbo: [16:44] Eu também não gosto de UFC e futebol, não. Estou brincando. É só um estereótipo.

Enrico de Paoli: [16:51] Eu não devo ter muita cara de UFC, né?

Eron Falbo: [16:55] Eu, muito mesmo.

Enrico de Paoli: [16:58] Salvo alguns enganos, as pessoas se parecem com o que elas gostam.

Eron Falbo: [17:04] Pode ser. É verdade.

Enrico de Paoli: [17:07] É raro um lutador de jiu-jitsu, por exemplo. Nada contra o jiu-jitsu, acho até bacana. Mas já até lutei taekwondo anos atrás.

Eron Falbo: [17:19] Também, taekwondo, exatamente.

Enrico de Paoli: [17:21] Quando eu era adolescente, eu lutava taekwondo. Mas eu não luto nada hoje em dia. Luto para pagar os impostos.

Eron Falbo: [17:33] Deixa eu te perguntar uma coisa: você passou mais tempo dentro de uma sala fedendo a mofo ou em turnê? Eu venho do estúdio.

Rótulo de expert e disco com Ray Charles (17:34)

Enrico de Paoli: [17:46] É engraçado. Mais uma pergunta: você é bom de perguntas. Em um programa de entrevistas, a gente é associado. As pessoas nos rotulam com a última coisa famosa que a gente fez. Então, a última coisa famosa que a gente fez, a gente vira, para o grande público, expert naquele assunto, mesmo que não seja. Por exemplo, eu não sou expert em MPB, não é. É de longe a música que eu mais ouvi na vida, de longe. Se você me perguntar meia dúzia de músicas do Chico Buarque, eu não sei te dizer, porque não é a música que eu mais ouvi na vida. Mas, por eu ter feito muitos discos do Djavan, acham que eu sou o maior aí, você viu, no país, que eu entendo tudo de MPB. Não é o caso, entendeu? Eu, muito novo, tive a bênção de fazer um disco do Ray Charles, como você deve ter visto.

Eron Falbo: [18:59] Sim. My World, eu não citei na câmera.

Enrico de Paoli: [19:04] My World é um disco fenomenal, um disco fora de série. O disco já era fora de série antes de eu entrar, eu entrei no disco já iniciado, e foi uma grande escola. Eu tinha 18 para 19 anos nesse disco, e foi uma faculdade esse disco.

Eron Falbo: [19:25] Caramba, 18, 19 anos trabalhando com o Richard. Mas você chegou... você estava só, assim, na parte de pós-produção, ou você chegou a ter interface com ele mesmo?

Enrico de Paoli: [19:36] Não, nem o produtor... um dos maiores nomes da produção da história, chama-se Richard Perry, produziu hits dos anos 60, June Pointer, das Pointer Sisters, Motown, Barbra Streisand. O cara é, assim, o maior produtor com o maior número de hits, singles, músicas famosas, com artistas diferentes daquela época.

Eron Falbo: [20:04] Ele era da Motown, né?

Enrico de Paoli: [20:06] Inclusive, ele foi presidente da Warner Brothers nos Estados Unidos. Desculpe, comecei a falar disso e esqueci a pergunta principal.

Eron Falbo: [20:22] Só um aparte: me falaram que a novela que você estava mencionando é O Rei do Gado. Foi a produção que me falou.

Enrico de Paoli: [20:29] Legal, a produção é boa. Eu não lembrava.

Eron Falbo: [20:34] Eu não sei nem como é que a produção descobriu isso. A produção tá boa.

Enrico de Paoli: [20:37] A produção tá lá, para o Google.

Eron Falbo: [20:41] São os deuses, só pode. Mas cara, eu tinha te perguntado se você tinha passado mais tempo na sala do estúdio. By the way, a gente conversou antes rapidamente em algum momento, não conversou? A gente falou uns cinco minutos. Não lembro, mas eu não sei se eu já te falei, mas eu já gravei com o Bob Johnston, você já ouviu falar? É um produtor também dos anos 60, que gravou os maiores, a galera do folk, tipo Bob Dylan, Leonard Cohen, Simon & Garfunkel. Eu gravei o último disco da carreira dele, foi meu disco. Eu tive também essa experiência.

Enrico de Paoli: [21:28] Ah, cara, eu preciso ouvir.

Eron Falbo: [21:31] É, depois eu te mando.

Enrico de Paoli: [21:33] Que bacana, parabéns, que bacana.

Eron Falbo: [21:35] A pergunta era se você passou mais tempo no estúdio ou em turnê?

Enrico de Paoli: [21:42] Então, eu comecei a falar que a gente é associado com as últimas coisas famosas que a gente fez. Então, quando eu fui trabalhar com o Ray Charles, que é o maior de todos do R&B, eu não entendia nada de R&B. Passei a entender. A situação, onde você está, o momento que você está vivendo, o que você tem a oferecer naquele momento, com quem você encontra, cruza pelo caminho, te leva a fazer determinados trabalhos. Nem sempre o mercado vai pegar o melhor cara do R&B ou da MPB para fazer aquele trabalho. Você está ali, você resolveu o problema do artista.

Eron Falbo: [22:21] Sim, claro.

Enrico de Paoli: [22:22] Teve uma sinergia boa e você acaba entrando naquele projeto. Mesmo que você não seja o expert daquele assunto, você é o expert que resolve o problema dele naquele momento.

Eron Falbo: [22:34] A indústria de entretenimento no geral é muito, for lack of a better word, nepotista nesse sentido. Você trabalha muito com as pessoas que estão em volta, com as pessoas que entendem o que está acontecendo ou que você já trabalhou antes.

Enrico de Paoli: [22:52] E às vezes é até proposital. Com as informações conhecidas, você traz alguém com informações diferentes do costume daquele projeto e aí que acontece a soma, aí que acontece o novo disco, vamos dizer assim, o novo resultado. Por que eu estou falando isso tão distante de responder a sua pergunta? Porque quando eu fui trabalhar com o Djavan, fui trabalhar com ele para fazer a música do Rei do Gado, que precisava ir para a novela com urgência. Quando eu trabalhei nessa música com ele, ele gostou das gravações que a gente fez e perguntou se eu podia ficar mais uma música e, eventualmente, ficar o resto do disco. Estou chegando na resposta. Durante todo o processo do disco, era superengraçado que ele toda hora falava assim: você já foi a Paris? Não, nunca fui a Paris. Você tem que ir a Paris, você vai adorar a Paris. Mas o que eu ia fazer em Paris?

História e convite de turnê com Djavan (23:18)

Eron Falbo: [24:03] Ele já estava te preparando.

Enrico de Paoli: [24:06] Eu tinha 23 anos. Eu não estava pensando em apenas tomar um café. Eu estava em outra. Eu estava gravando. Quando a gente fica mais velho e, com o tempo, quando calha de você ter tempo e dinheiro ao mesmo tempo, porque normalmente você tem um ou outro...

Eron Falbo: [24:23] Isso nunca aconteceu comigo.

Enrico de Paoli: [24:27] É, normalmente você tem um ou outro. Mas quando você ao menos acha que tem os dois, você pega e vai para Paris.

Eron Falbo: [24:35] É isso que se faz quando tem isso aí. Vai me dando as dicas aí. Depois você manda um WhatsApp ou uma lista.

Enrico de Paoli: [24:51] Aí ele toda hora perguntava, todo dia perguntava: ah, você já foi à Inglaterra, à Londres? Não, nunca fui à Londres. Ah, você tem que ir à Londres comigo, você vai adorar. Aí eu me perguntava, que loucura, por que ele pergunta essas coisas, né? Eu sabia que não era, porque eu...

Eron Falbo: [25:10] Não vivia... Estão me dando mole.

Enrico de Paoli: [25:11] Eu sabia da elegância, da gentileza, da diversão que é estar do lado do Djavan, ele é muito bacana. Mas para um desavisado pareceria até pedante, né? Tipo: você já foi lá? Você tem que ir lá.

Eron Falbo: [25:26] Sim, sim, sim.

Enrico de Paoli: [25:28] E o ir lá não é tão próximo, né? Você já foi conhecer aquela sorveteria nova que abriu no Barra Shopping? Não é exatamente assim, né? Aí, todo dia ele perguntava uma coisa diferente dessa e eu não entendi por quê. Chegando no final do disco, ele perguntou: "Bom, estou fechando a equipe que vai fazer a turnê comigo e eu gostaria de saber se você vai." Aí eu falei: "Eu vou aonde? Paris?" Aí ele falou: "Não, você vai fazer show comigo." "Você está fazendo um convite sem pé nem cabeça. Eu não faço shows. Eu nunca fiz show. Eu fiz show quando eu morava em Los Angeles, de artistas conhecidos, em barzinho. Los Angeles tem muito show, tipo mistura fina."

Eron Falbo: [26:14] Mas como engenheiro ou como tecladista?

Enrico de Paoli: [26:19] Eu vou contar a parte onde a minha vida se separou oficialmente como engenheiro e músico, que é bem interessante. Mas deixa eu terminar essa parte, minha memória é ruim, se eu entrar em outros caminhos... Tá bom, como entrevistador, a sua memória deve ser melhor, você sabe voltar nas perguntas. Ou a sua produção te ajuda, mas...

Eron Falbo: [26:40] Aqui, se eu sair... Tudo é produção. Eu sou só um charlatão.

Enrico de Paoli: [26:46] Aí ele falou: "Velho, eu queria saber se você podia ir fazer o show com a gente, pô, eu gostei tanto de trabalhar aqui com você." Eu falei: "Não, o que você está me convidando é igual pegar um piloto de Fórmula 1 e perguntar se ele quer fazer o Paris-Dakar, entendeu? Ele pilota bem, mas ele não sabe pilotar uma moto de deserto, entendeu? São coisas completamente diferentes. Mixar um show, o equipamento é diferente, as caixas de som são diferentes, o sistema todo é diferente, as mesas de som são diferentes, é tudo diferente."

Eron Falbo: [27:18] Mas aí ele gostou do seu trabalho e queria você mesmo.

Enrico de Paoli: [27:20] Aí ele virou pra mim, aí foi o checkmate. Ele virou pra mim e falou assim: "Eu tô disposto a que você aprenda a fazer show durante a minha turnê, se for pra você me dar o som que você me deu no estúdio."

Eron Falbo: [27:33] Pô, que legal.

Enrico de Paoli: [27:34] Aí eu olhei pra ele e falei: "Esse cara é completamente louco." O convite é uma honra sem precedentes, porque é depositar muita confiança em mim, mas é muito risco o que ele tá falando.

Eron Falbo: [27:46] Mas, cara, vamos entrar um pouco nisso, que eu acho que isso é uma coisa muito legal, até pro público, assim, que de repente não entende tanto de mixagem de som, da importância do engenheiro de som, né? Eu fui músico minha vida inteira também, e a gente sabe, tipo assim, eu tinha roadie lá, quando eu tinha 20 anos, eu tocava em cruzeiro, né? Aí, cara, se você... aí, tipo, cara, você tá com o roadie errado, sei lá, o seu roadie pegou tuberculose, sei lá, e o outro cara tá substituindo, e o cara não consegue achar o seu som, aí você não consegue se encontrar como artista, tipo assim, você lá no palco, o cara não tá conseguindo te dar o retorno certo, não tá te dando o eco certo, o reverb certo, não tá fazendo a equalização certa com a guitarra e voz, aí, cara, você faz um show merda porque o engenheiro de som não te deu o som que você precisa, né? E acho que é isso que ele estava... Você acha que concorda comigo?

Enrico de Paoli: [28:56] Eu concordo 100% com o que você falou. Ele, de forma muito sagaz, estava atrás da sonoridade. E ele sabia que a sonoridade não é saber qual botão apertar, mas é saber ouvir. Você saber ouvir, você aprender a diferença de uma mesa para outra, aquilo é mera... é igual você comprar um pedal novo pra sua guitarra, um software novo, não é só o software que faz a arte, o software é só a ferramenta. Tá certo que alguns equipamentos, você que é músico, são inspiradores, você compra um sintetizador novo, um plugin novo, você acaba tendo novas ideias.

Eron Falbo: [29:36] Amplificador Vox.

Enrico de Paoli: [29:38] O quê?

Eron Falbo: [29:40] Amplificador Vox.

Enrico de Paoli: [29:41] Amplificador Vox. Mas, então, respondendo à sua pergunta se eu passei mais tempo em turnê ou no estúdio, eu sempre fui do estúdio.

Eron Falbo: [29:51] Ele que te pescou.

Enrico de Paoli: [29:54] Eu não venho do show, eu sou do estúdio. Ele que me levou para fazer show. Aí, voltando à analogia que eu fiz logo anteriormente, muita gente que me viu fazendo turnês muito grandes com Djavan, no mundo todo, me associou diretamente ao show. Porque aquilo era uma coisa muito relevante, então aquilo naquele momento chamava mais atenção até do que o disco do Ray Charles, porque aquilo estava acontecendo naquele momento, então para aquela época eu era o cara expert em shows, MPB.

Eron Falbo: [30:28] E de novo a gente volta aquela parada do imediato, do físico, do presente, isso faz uma diferença enorme, né?

Enrico de Paoli: [30:35] É, exatamente.

Eron Falbo: [30:38] É o que tava acontecendo naquele momento e pô, a galera vai assistir o show e aparece no vídeo às vezes, aparece no release de imprensa, né?

Enrico de Paoli: [30:52] Eu vou pegar uma carona numa coisa que você falou pro seu público: você falar pra quem não sabe exatamente o que é um engenheiro de som, que é realmente uma coisa um pouco... A pergunta que eu mais ouvi na vida é o que exatamente você faz. É normal, porque é uma carreira muito atípica. Mas você é músico, você canta, você compõe. Engenheiro de som. E eu me considero felizmente responsável por ter rebatizado essa... Primeiro, sempre chamaram de técnico de som, o que eu não concordava, não gostava muito desse termo, né? Técnico de som, pra mim, é o cara que conserta rádio. Sem nenhum menosprezo, eu preciso dessas pessoas.

O que faz um engenheiro de som (30:53)

Eron Falbo: [31:45] Pode ser um monte de coisa também, né? Técnico de som é aquele cara que tá começando, ele pode fazer isso, fazer aquilo, ele conecta o microfone.

Enrico de Paoli: [31:53] É, eu venho da música, e eu acho, como tudo que a gente falou até aqui, pra você ser um engenheiro de som, técnico de som, para ser bem sucedido, ter bons resultados, na verdade o que você está fazendo, você está regendo a música, só que você está regendo a música já gravada no estúdio, quando você está ali com cada canal da gravação. Vou falar de uma forma mais simplória: tem a bateria, tem o contrabaixo, tem o violino, tem o violoncelo, o piano, o cantor, e ali você pilota quem que vai brilhar mais em qual momento. Você ouve a música, se situa dentro do arranjo, do que está sendo tocado ali, e você pilota aqueles volumes, aquelas tonalidades, mais grave, menos grave, mais abafado...

Eron Falbo: [32:58] Mais brilhante... E você tem que ter uma sensibilidade muito grande do que o público tá pronto pra ouvir, o que ele quer ouvir naquele momento, que tipo de público é, né? Porque você pode estar numa arena, uma banda de metal, aquele público tá disposto a ouvir só um instrumento.

Enrico de Paoli: [33:19] Se você estiver numa rave e o público tá querendo ouvir bumbo, baixo, aquele grave pulsando... Exatamente. Num show do Iron Maiden, o público quer ouvir todo mundo, naturalmente, mas se as guitarras estiverem lá no fundo, vai ter problema, sobretudo a hora que você tem a guitarra, né? E tem as nuances, não é só qual instrumento é mais importante no momento, tem... É igual assistir um filme, né? Você tá assistindo um filme e, de repente, tá aquela música alta, aquela... E, de repente, vira aquele silêncio, aquela cena escura. Esses contrastes, isso não é só no filme, nem só na música, isso é no restaurante bom que você vai,

Eron Falbo: [34:03] Que tem uma iluminada, tem uma escura,

Enrico de Paoli: [34:06] Tem o que você come que é mais azedinho, aí em seguida tem uma coisa que você come que é adocicada, aí você dá um gole no drink. Toda a degustação de contrastes, ou seja, visuais, auditivos, sensoriais, é o que faz tudo ter graça na vida.

Eron Falbo: [34:26] E o bom engenheiro de som, inclusive, está trabalhando junto com a luz, conhece o ambiente, conhece o que está acontecendo ali no show em diferentes graus.

Enrico de Paoli: [34:36] Então, voltando ao técnico de som, eu me sinto felizmente responsável por ter rebatizado essa carreira no Brasil para engenheiro de música, porque eu acho que pessoas que fazem o que eu faço, regendo a música, endereçando a música e os contrastes dela para o ouvinte, para o público, são engenheiros de música. E aí eu pego uma carona no tal do famoso PA dos shows, né? Muita gente não ouviu falar, muita gente já ouviu falar sem saber o que que é, por que que é. Você que vai mixar o PA, ah, o PA estava alto, o PA estava bom, o que que é PA? Tecnicamente, são as caixas de som de um show. Aquilo é o PA. Mas por que é PA? PA quer dizer Public Address.

Eron Falbo: [35:28] A última interface com o público.

Enrico de Paoli: [35:31] É o endereçamento do palco sonicamente para o público. O público vai ouvir e o que ele vai sentir sonicamente do show, do espetáculo.

Eron Falbo: [35:45] Você tá pegando a música que eles tão fazendo, tanto num álbum quanto ao vivo, e você é a última interface com o público. Se eles fizeram merda no show, você pode consertar. Se eles fizeram merda na gravação, você pode consertar. Se eles fizeram bem, você pode estragar tudo.

Enrico de Paoli: [36:06] Você consegue chamar a atenção de determinadas áreas, né? Por exemplo, se um guitarrista rebenta a corda dele, você consegue ir escondendo a fixagem.

Eron Falbo: [36:15] Exatamente.

Enrico de Paoli: [36:16] É um trabalho em equipe, né? Aí o baixista começa a fazer uma coisa pra chamar a atenção, e o público não fica olhando ali pro guitarrista trocando a corda da guitarra ou pegando outra guitarra.

Eron Falbo: [36:26] Exatamente, exatamente.

Enrico de Paoli: [36:27] É quando você vê que o baixista tá fazendo uma coisa interessante e você...

Eron Falbo: [36:30] Aí tem que cutucar alguém e gritar: o outro cara lá tava, não tá prestando atenção, acontece muito, ele tá...

Enrico de Paoli: [36:43] Vendo a live, do... era um bem.

Eron Falbo: [36:47] Bem possível, quando você é convidado, acho que tem tudo a ver: o cara tá lá perdendo o show agora pra ver... Cara, então eu ia comentar uma coisa, acho que trazendo luz um pouco pra importância, de novo, do engenheiro de som. Tem uma citação do Oscar Wilde que eu notei aqui, na verdade nem achei a citação, mas eu lembrei que ele fala uma coisa do tipo que tudo que é feito na natureza é ruim, tudo que é natural, tudo que é realista é ruim, e tudo que é arte, tudo que é bom, é mentira, é uma enganação, entendeu? Aí isso leva pra coisas de engenharia de som, porque, tipo assim, os caras tão lá fazendo o que supostamente é real, né, que é tocar a guitarra lá, e se tivesse todo mundo ouvindo só aquela guitarra, sem as camadas e camadas de engenharia de som que tem por trás, isso inclui o pedal da guitarra, inclui o...

Citação de Oscar Wilde sobre arte (36:51)

Enrico de Paoli: [37:53] Agora eu só me perdi na sua associação com o Oscar Wilde.

Eron Falbo: [37:58] Não, não, a questão do Oscar Wilde é o seguinte: é que, tipo assim, muita gente ou julga ou não entende a importância dessas camadas de enganação, entre aspas, que a gente tem que adicionar, diferentes sons, mudar o... Oi?

Enrico de Paoli: [38:17] Onde eu me perdi foi que ele falou que tudo da natureza é ruim e tudo que é...

Eron Falbo: [38:21] É, e tudo que é mentira, ó.

Enrico de Paoli: [38:25] O que é que é bom?

Eron Falbo: [38:27] O que ele está querendo dizer é que o que é enganação, o que você está deliberadamente adicionando à realidade, e não só pegando o real e copiando. Então, o artista que tenta copiar, ser realista, tenta copiar a natureza e reproduzir, ele está fazendo uma arte ruim. O artista que pega e deliberadamente tenta adicionar aquilo, enganar de uma forma ilusória, ele é um artista bom. Eu acho que ela tá cheia dessas citações que são meio contraintuitivas, né, que entendi.

Enrico de Paoli: [39:03] Entendi. Aí você estava começando a falar sobre as camadas, e se uma guitarra estivesse sozinha.

Eron Falbo: [39:14] Sim, tipo assim, muitas vezes você pode pegar um auto-tune, por exemplo, e melhorar a voz de uma pessoa. Ou botar um eco numa voz que é fraca, de repente. Tipo assim, se o cara estivesse lá realista com a voz dele, ia ser um show merda. Mas já que você soube usar aquela voz dele, adicionar as camadas que precisava, você fez ele virar um anjo.

Enrico de Paoli: [39:34] Na verdade, aí entra uma coisa que sempre faço, uma associação com os chefs gourmet ou os bartenders, que é o seguinte. Quando faço os meus seminários, minhas clínicas e workshops, um exemplo, uma analogia que sempre faço e acho muito bacana, é a seguinte: você conhece o gosto da Coca-Cola. Praticamente todo mundo conhece, mesmo quem não bebe mais refrigerante já bebeu uma Coca-Cola alguma vez na vida, alguma época da vida, né? Aí, ok, você conhece o gosto da Coca-Cola, legal. Põe um copo de Coca-Cola ali, você dá um gole, você sabe. Só de eu falar nisso, as pessoas já conseguem pensar, imaginar o gosto que eu tô sugerindo aqui, né? Dar um gole num copo de Coca-Cola geladinha, todo mundo sabe o que vai sentir, ok? Aí você pega e come um Quindim. Imediatamente dá mais um gole naquela Coca-Cola. Parece outra bebida. Parece que alguém foi ali e trocou o copo. E, no entanto, é a mesma Coca-Cola. Isso acontece com o som. Nosso ouvido, o tempo inteiro, está sendo remoldado pelo que ele ouve. Assim como o nosso paladar está o tempo inteiro sendo alterado pelo que é alimentado ali. Por isso que existe a experiência gastronômica: você come isso, prepara o seu paladar para o que vai experimentar depois, e vai gerar um contraste, como eu mencionei, sugeri há pouco. No arranjo, não é só na engenharia de música, mas no próprio arranjo: uma coisa é um acorde de sol, uma nota sequer. Uma coisa é você tocar um Si. Outra coisa é você tocar um Si e em seguida um Dó. Aquele Si automaticamente vira a sétima maior do Dó. As coisas passam a ter correlação. Ela não é mais uma coisa absoluta, ela é uma coisa relativa. E assim é com tudo na vida, tudo, tudo. Você pega um tênis All Star, tanto uso, se você tiver de shorts, camiseta e tênis All Star, você está um mulambo. Mas se você tiver de terno e tênis All Star...

Analogia da Coca-Cola e contraste sonoro (39:46)

Eron Falbo: [42:19] Aí você é o Paul McCartney.

Enrico de Paoli: [42:21] Aí você é o Paul McCartney! Porque as coisas trabalham junto com as outras, elas passam a significar outra coisa com o contexto onde elas estão. Voltando na parte musical e na associação com o Quindim e a Coca-Cola: o que a gente tá ouvindo o tempo inteiro, né? Começa uma introdução de guitarra. Na hora que começa a voz, a voz tem um papel em relação àquela guitarra. É diferente, né? Quando você vai mixar uma música que começa só com a voz e depois entra a banda, mesmo que seja o mesmo cantor, o mesmo microfone, o mesmo som de voz, o tratamento que eu tenho que fazer nela é diferente do que se a banda tivesse entrado antes, e 16 compassos depois entrasse a voz. Porque o ouvido que está ouvindo aquela cena musical já está diferente, já está com o gosto do Quindim. Então, para ele receber bem a Coca-Cola, a Coca-Cola não pode ter aquele mesmo gosto, senão ela vai estar com um gosto ruim. A Coca-Cola só tem o gosto bom quando ela vem depois de um amendoizinho.

Eron Falbo: [43:31] Não, depois. Ou seja, o seu trabalho... deixa eu ver se eu resumo isso de uma forma interessante: o seu trabalho não é entender os diversos sons de uma forma absoluta, ou seja, isso faz isso, aquilo faz aquilo, nem a união de diferentes sons e o efeito que ela faz, mas sim entender uma série de coisas, incluindo o timing. Tipo assim: qual som entra, qual entra depois, onde ele está, em que ambiente está, que tipo de músico está produzindo esse som, e você manipular todos esses sons para poder entregar isso no PA, no Public Address, da melhor maneira possível, respeitando duas coisas principalmente: o que o público está disposto, está querendo e gostaria de ouvir naquele momento, e a vontade do artista ou da pessoa que está ali dirigindo o espetáculo.

Enrico de Paoli: [44:39] Tudo isso que eu falei, ainda tem isso: não só a vontade do artista, mas o estilo do artista. Quando a gente estava comparando Iron Maiden com uma rave, são públicos diferentes, estilos diferentes, vontades diferentes. A mesma coisa se você vai num restaurante japonês superfino: toda a onda ali vai ser diferente de uma feijoada de carnaval, em todos os aspectos, tudo é diferente. Então, quando eu ensino, quando eu leciono, faço vídeos, faço workshops, treinamento particular, do que eu faço... você falou agora há pouco, deixa eu tentar resumir exatamente o que você faz. O que eu faço, basicamente, é trabalhar em função de entender cada vez mais como funciona o ouvido. Isso é o que eu faço, claro que usando as ferramentas musicais e técnicas, para poder entregar uma coisa que o ouvinte vai ouvir com sensações, né?

Eron Falbo: [45:51] Falou?

Enrico de Paoli: [45:52] Oi, oi.

Eron Falbo: [45:53] Ah, não. Então tá bom, eu só paro de falar. É que às vezes não dá para ver sua boca. Cara, então agora acabou nosso horário. Eu deixei um pouquinho a mais para a gente poder compensar um pouquinho pelas falhas. Eu acho que na boa foi o Instagram, mas deixa isso para os deuses, para a produção aí resolver depois. Mas eu queria te agradecer muito por ter aceitado o convite, queria te dizer uma coisa, sinceramente, assim: só nessa conversa aqui, de te ver falar e o jeito que você explicou, eu tô dando muito mais valor para engenheiro de som. Eu, claro, como músico, eu dava um certo valor a engenheiro de som, mas, por exemplo, antes... uma coisa que eu percebi, por exemplo, é que um single que eu gosto, que eu gravei, que não foi gravado pelo Bob Johnston, eu gosto mais desse single do que das músicas que eu gravei com o Bob Johnston. Só que o engenheiro de som que mixou as músicas que eu gravei com o Bob Johnston, eu nunca gostei dele. Porque, entre nós, ele não fala português, então acho que ele nunca vai... nunca vai ver isso.

Enrico de Paoli: [47:06] Principalmente com você rindo depois que fala que não gostou. Nunca gostei disso. Parece que você está fazendo um elogio.

Eron Falbo: [47:12] Mas o cara que fez a mixagem de som desse single que eu gostei, que foi lançado pela Universal Music e foi até super popular lá na Inglaterra, eu lembro que o engenheiro tava... ele tava muito casado com a parada, sabe? Tava, tipo, porra, tava se amarrando, ele tava... E eu fui com a cara dele, a gente trabalhou bem, eu falei o que eu queria, ele, aham, entendeu? E saiu um negócio melhor. Eu sempre achei que foi porque eu tava mais maduro, e pode até ser, né? Depois... Mas é, eu vou te fazer um convite não oficial: depois eu vou relançar esse disco. Na verdade, nunca foi lançado o disco do Bob Johnston, de fato. Eu tive um problema com as gravadoras e tudo mais. Nunca foi oficialmente lançado. Mas quando eu for lançar ele, eu vou te fazer um convite oficial em algum momento. Mas quem sabe a gente não senta e vê, se você não estiver muito ocupado, você pode talvez fazer essa mixagem, essa magia negra que você faz. Para a gente...

Enrico de Paoli: [48:16] Esse momento que você deve recordar, quando você me convidou para fazer, mandou a mensagem para a gente fazer a live, eu estava em uma área moto aqui, fazendo projetos simultâneos e mais outros dois em paralelo. Nossa, estava realmente um momento muito difícil. Então, foi uma grande falha minha, e eu peço desculpas de eu não ter feito o meu dever de casa. Eu fui apresentado a você por um...

Eron Falbo: [48:48] Cara... Que isso, eu não tinha dever de casa nenhum.

Enrico de Paoli: [48:51] Um cara que eu tenho as melhores estimas, o Vitor. Então, eu sabia que eu ia estar encontrando alguém muito bacana, e eu vi o seu Instagram, a sua quantidade de coisas que você faz. Mas eu não sabia... eu tô falando isso tudo porque eu não sabia que você era músico esse tempo todo, né? Essa é a minha grande falha. E eu quero, vou desligar aqui, a primeira coisa que eu vou fazer terminando esse drink é... As suas músicas estão... Aonde que eu ouço? Elas estão no Spotify?

Encerramento e despedida (49:11)

Eron Falbo: [49:23] Eu te mando. O Spotify a gente tirou, né? Teve problema com a gravadora e tudo mais, mas graças a Deus estão tudo no meu nome, porque eu tive essa perspicácia de não... de não entregar as coisas para eles. Mas eles que fizeram a inscrição no Spotify em tudo, e depois saiu, né, depois que acabou o contrato com eles, saiu. Mas eu tenho no YouTube, eu te dou os links. Mas eu não consigo parar de beber não, é melhor beber para não julgar tanto, bebe um pouco.

Enrico de Paoli: [49:54] Não, eu vou beber, eu não bebo muito não, eu bebo uma coisinha sempre, mas não bebo muito, não. Tem aquela frase que fala: eu bebo pouquinho, não é só aquele pouquinho, o suficiente para... a gente vai chamar uma outra pessoa, essa outra pessoa é que bebe mais.

Eron Falbo: [50:17] Você está saindo de casa? Vamos marcar de se encontrar a qualquer momento, tomar um café, tomar um drink, você me ensinar a fazer esse drink aí, você chega aqui em casa, te convido.

Enrico de Paoli: [50:28] Vai ser um prazer, podemos sim, vamos sim, a hora que você quiser a gente combina isso, vai ser um prazer.

Eron Falbo: [50:35] Te convidar para ir para Paris?

Enrico de Paoli: [50:37] Vou tomar um café com leite. Acho que a gente poderia marcar aqui primeiro.

Eron Falbo: [50:46] Valeu, Enrico. Obrigadão, cara. Dá pra ver que você é muito divertido. Você é um cara... É outra coisa que... Um outro elogio que eu ia fazer e acabei não fazendo. Você, pô, já tocou, já trabalhou com gente aí de todo o calibre. Você, desde o primeiro momento, sempre foi cavaleiro, foi elegante comigo, foi aberto. Foi, pô, generoso, entendeu? Sempre... Pô, não posso te atender, peço desculpa. Tem gente que... até a minha namorada que não me atende, não pode... Não que eu tenha namorada, hein, gente? Só para anunciar que... Só para não causar nenhum distúrbio.

Enrico de Paoli: [51:26] Eu sempre digo que a gente não consegue mudar o mundo, mas a gente consegue ser como a gente gostaria que todo mundo fosse com a gente. Então, a gente acaba, ao menos, moldando... Moldando, não. Fazendo com que o nosso perímetro... Sim, influenciando positivamente. Mais bacana, né? Isso é só um estilo de vida.

Eron Falbo: [51:55] Tamo junto nesse estilo de vida, pode ter certeza.

Enrico de Paoli: [51:58] Legal.

Eron Falbo: [51:59] Te agradeço muito. Eu te agradeço muito.

Enrico de Paoli: [52:01] Eu também. O agradecimento é muito recíproco. Manda pra mim os links do YouTube que eu vou ouvir aqui no estúdio agora.

Eron Falbo: [52:11] Valeu, Enrico. Um abraço. Tudo de bom, cara. Muito prazer. Um abraço pra todo mundo. Beijão. Boa noite.

Enrico de Paoli: [52:17] E seguiu. Um abração. Tchau, tchau. Fiquem com Deus.

Eron Falbo: [52:19] Valeu.

Enrico de Paoli: [52:20] Tchau, tchau.

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