Publications

#57 Expressando verdades

com Paulo Figueiredo · 4 de fev de 2021

rss.comSpotifyApple PodcastsAmazon MusicDeezerYouTubeYouTube (só áudio)

Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Abertura e apresentação de Paulo Figueiredo (0:00)

Paulo Figueiredo: [0:00] No Alvo com Eron Falbo. Sejam.

Eron Falbo: [0:10] Bem-vindos! Você entrou no Alvo, eu sou Eron Falbo. Estamos aqui hoje com Paulo Figueiredo. Paulo é um empresário, economista e jornalista na Jovem Pan. Paulo é um cara que fala a verdade, sempre disposto a debater com quem quer que seja que queira espalhar meias verdades, vamos dizer. Então junte-se a nós, sente-se ao redor da fogueira e vamos ouvir um pouquinho dessas verdades do Paulo Figueiredo. E aí, bicho, beleza? Você está em Miami?

Mudança para Miami e motivos (0:52)

Paulo Figueiredo: [0:54] Estou perto de Miami, moro a 40 minutinhos de Miami.

Eron Falbo: [1:00] Legal, eu morei uns três anos da minha vida em Miami Beach. Por que você foi para aí, se eu puder perguntar?

Paulo Figueiredo: [1:09] Claro, eu vim para cá porque eu tive a minha primeira filha, e aí eu não queria sujeitar ela às coisas do Brasil: a violência grande no Rio, além disso, uma degradação moral do país muito grande, principalmente educacional. Aqui você tem, é um processo que também tá acontecendo, um declínio educacional, mas você ainda tem boas opções.

Eron Falbo: [1:42] Você tem refúgio ainda, né? Você tem umas ilhazinhas, você pode escapar, né?

Paulo Figueiredo: [1:47] No Brasil não tem pra onde correr. Você tá lá no Rio de Janeiro, atualmente, você podia virar e falar: 'Pô, vou botar meu filho no Santo Agostinho, que é um colégio católico, e aí eu escapo.' Cara, hoje em dia nem isso, mas o Santo Agostinho virou um colégio de lacração violento.

Eron Falbo: [2:03] Cara, eu também. Sua filha tem quantos anos?

Paulo Figueiredo: [2:07] Eu tenho uma de 4 e uma de 5.

Eron Falbo: [2:10] Eu tenho um de 4 e um de 2. Cara, eu também penso muito sobre isso, mas isso me faz pensar sobre uma educação um pouco mais macro, né? Porque, tipo assim, acho que muita gente vê educação assim: antigamente ensinavam latim e ética, hoje em dia não. Mas, ao mesmo tempo, eu acho que, por um certo ponto de vista, a educação formal sempre meio que serviu certas ideologias, certos programas do Estado. Tudo bem que os Estados, às vezes, eram melhores e não eram tão corroídos, talvez. Mas eu acredito muito mais na educação antiga, feita de uma maneira mais liberal, no sentido de como era em Roma, na igreja antiga, em que você tinha escolas e as pessoas escolhiam tutores baseados nas pessoas que você achava melhores, mais competentes, mais capazes, e a educação mais ou menos era feita assim.

Filosofia liberal da educação e subsidiariedade (2:16)

Paulo Figueiredo: [3:14] Aí é mais a universidade, a universidade tem mais esse objetivo. Mas, para a criança, você tem lá a teoria do Fröbel, do Kindergarten, que foi mais ou menos o que mudou o padrão de educação americana e que depois foi exportado. Veio da Alemanha, depois floresceu nos Estados Unidos, depois foi exportado. E aí você tem também toda a teoria do Horace Mann sobre a educação como Great Equalizer: a educação estatal, para todos e gratuita. No caso dos Estados Unidos, era a única política social que você tinha originalmente, era o Great Equalizer, porque ela dava um ponto de partida igual para todas as pessoas. Então, você não ia ter igualdade de resultado para todo mundo, porque algumas pessoas trabalham mais que outras, outras pessoas são mais capazes, mais inteligentes, outras pessoas têm mais sorte, essa é a natureza do mundo. Mas, se você tivesse um ponto de partida onde todo mundo tivesse uma boa educação, você teria uma sociedade mais igual.

Eron Falbo: [4:24] Mas isso não entra... É justamente uma questão, para mim, que tem um problema do socialismo, do Estado totalitário, porque, inevitavelmente, se você está definindo o que é uma boa educação, esse Great Equalizer, e você está definindo que parâmetros formam esse feijão com arroz educacional que todo mundo tem que ter, você está injetando uma espécie de ideologia, uma espécie de...

Paulo Figueiredo: [4:58] Não, porque a forma como foi feita não foi com uma decisão unilateral, com o que se chama de Common Core federal. Você não tinha um governo federal determinando para todas as escolas o que elas deveriam ensinar; as comunidades tomavam as suas decisões nos distritos escolares. Então, esse é o princípio americano de subsidiariedade, onde os governos locais, as comunidades locais, tomam as decisões sobre as próprias vidas.

Eron Falbo: [5:29] Uma coisa federalista, uma educação não unitária, mas federalista.

Paulo Figueiredo: [5:35] Mais do que federalista, local, porque federalista.

Eron Falbo: [5:38] É pressuposto... Quero dizer, no sentido de intenção.

Paulo Figueiredo: [5:42] Esse negócio se chama princípio da subsidiariedade. É um princípio liberal clássico que diz o seguinte: tudo que o núcleo familiar puder resolver, o núcleo familiar resolve. Se o núcleo familiar não puder resolver, a comunidade resolve. Se a comunidade não puder resolver, a cidade resolve. E aí você vai subindo, e o governo federal é para o que todas...

Eron Falbo: [6:05] Essas esferas... Que era norma no mundo antigo, era meio que... era intuitivo, era meio que óbvio para praticamente todas as culturas do mundo, porque as formações cada vez maiores foram secundárias às formações familiares, tribais, etc. E por isso era óbvio para todo mundo que elas serviam à anterior. E hoje em dia a gente vê no mundo o contrário, que a gente vê o Estado fazendo, como se fosse uma tentativa de aniquilar as organizações menores para não sofrer mudanças e ameaças dessas organizações.

Paulo Figueiredo: [6:53] O conceito de Estado-nação é um conceito razoavelmente recente. Nem esse poder todo estatal para a resolução de problemas. Se você pensar nos estados do mundo antigo, eles tinham basicamente uma função que era de guerra e proteção territorial. Esse conceito de Estado-nação mais amplo, com papel na educação, papel na saúde, papel na segurança social, etc., é um conceito do século XIX para o século XX. Mas eu achava muito bom... Eu acho a teoria do Horace Mann, da educação como great equalizer, absolutamente fantástica. Acho uma pena que os Estados Unidos tenham se desviado disso. E hoje você tem uma sociedade que é muito mais focada no equity, que é diferente do equality. O equity é a igualdade de resultados, que é impossível. E o equality é...

Equity contra equality na educação (7:31)

Eron Falbo: [7:54] É uma coisa mais socialista.

Paulo Figueiredo: [7:56] É uma coisa mais socialista. E o equality é a igualdade de todos perante a lei. Se você parar pra pensar, o equity é o contrário do equality. Porque o equality diz: todos são iguais perante a lei. O equity diz: não, todos são iguais perante a lei, porém alguns são diferentes, porque sofreram opressão por causa disso, por causa daquilo, então eu vou forçar uma igualdade em resultado. Então as pessoas deixam de ser iguais perante a lei.

Eron Falbo: [8:24] É verdade. Mas o que eu queria entender, você que está aí, você tem filhos aí, como que você vê que essa equality que existia no começo do sistema educacional americano, como é que foi deturpada e por quê?

Curso sobre o declínio dos Estados Unidos (8:41)

Paulo Figueiredo: [8:46] Eu estou montando um curso agora que se chama O Fim da América. E aí a ideia, basicamente, por trás do curso, é mostrar que o que está acontecendo com os Estados Unidos agora, tudo que as pessoas estão vendo aqui, é uma consequência de um problema mais sério. Então a ideia por trás disso é que o Joe Biden não é a doença propriamente dita, é mais um sintoma de uma doença social. Estou falando isso porque abordo vários capítulos sobre o declínio da sociedade americana nos seus valores de fundação, o declínio da sociedade americana nos seus valores judaico-cristãos, e um dos capítulos fala sobre o declínio, justamente, da educação nos Estados Unidos. É um capítulo que estou aqui escrevendo, e você tem diversas origens nesse sentido: o trabalho do Dewey no início do século XX, mas um componente muito forte é a infiltração, no caso ideológica, principalmente dos sindicatos dos professores e das escolas de preparação dos professores. E você tem autores marxistas que tiveram uma influência muito grande, como, por exemplo, Howard Zinn. Howard Zinn é o historiador mais influente dos Estados Unidos, um historiador marxista, que escreveu um livro que quase todos os adolescentes leem na escola, que é o The People's History of America. É um livro falso, fraudulento, mas que conta uma história de uma América feia, de uma América que matava índio, que tomava a terra dos mexicanos, que oprimia os escravos, não sei o quê.

Eron Falbo: [10:38] Paulo, só um segundinho aqui, que deu uma chacoalhada que nem mais, deixa eu só ter certeza que tá tudo certo, só um segundinho. Cara, voltando ao assunto da educação, cara, eu vejo assim, tipo... Eu até concordo com você que, especialmente nos Estados Unidos, no começo, no Federalist Papers, em certos momentos também na Inglaterra, existiam algumas boas teorias, algumas formas de melhorar a educação pública, de melhorar talvez o acesso à educação que talvez pessoas de classes inferiores nunca tiveram antes. Isso é uma coisa positiva, eu acho. Só que eu acho que a máquina industrialista, e o tamanho que o Estado, e o poder que o Estado, a proporção que o Estado tomou, acabou hijacking, acabou sequestrando esses projetos, e também, obviamente, o neomarxismo, o sentimento de guerra de classes e de universitários, como você estava citando, livros que pegam uma fração de coisas que podem até ser verdades e transformam como se fosse pintar o retrato completo. Só que eu acredito que tem um lado bom disso ter explodido, porque eu acho que hoje em dia a gente tem a tecnologia e a capacidade de ir para um formato até melhor do que esses formatos centralizados, como universidades e... mesmo que seja de comunidades pequenas, entendeu? Porque isso deixa a própria família e até o próprio indivíduo tailor-make, customizar uma jornada de excelência pessoal, que é uma coisa que a gente não podia fazer praticamente... Bom, as elites em Roma e na Igreja Antiga conseguiam fazer, você mandava seu filho para estudar com Protágoras, com Górgias, com Sócrates, com a galera que você achasse que fosse melhor. O que eu ia te perguntar é: o que você tem pensado para a sua própria família em termos de futuro de educação dentro dos Estados Unidos? Colocar numa escola? É unschooling? É homeschooling? O que você tem pensado sobre isso?

Paulo Figueiredo: [13:08] É uma decisão que está até bastante sendo discutida aqui em casa, porque eu moro numa cidade que é tida como uma das melhores cidades do estado. A cidade se chama Weston. É um subúrbio planejado e tal, foi até feito pela Disney, uma coisa bem diferente. A Disney foi uma incorporadora na década de 90 e fez essa cidade aqui.

Escolhas escolares para as filhas (13:20)

Eron Falbo: [13:34] Tem uma... cidade feita pela...

Paulo Figueiredo: [13:36] Disney, isso tá bem... Aqui é legal, aqui é legal. Não precisa estar tanto de mentirinha. Casinha no lago, as casinhas são todas bonitinhas, tudo mesmo estilinho e tal. É bem legal. Mas a cidade é conhecida por ter escolas públicas de muita qualidade, muita qualidade. E eu vim pra cá considerando isso, porque uma das coisas que eu sempre preconizei era que as minhas filhas tivessem uma escola que não as desconectasse completamente da realidade. Isso é uma coisa que minha mãe fez muito comigo. Eu estudava numa escola que era muito perfeitinha, e ela me tirou, botou numa escola normalzona e falou: moleque, vai aprender a ser esperto. Entendeu? Eu estava numa escola que, com 14 anos, eu nunca tinha visto maconha na minha vida. Eu não sabia nem como era.

Eron Falbo: [14:19] Aí você ganhou o dinheiro da escola.

Paulo Figueiredo: [14:22] Não, cara, eu cheguei, tava no Bahiense, da Gávea. No primeiro dia que eu cheguei na aula, tinha uma garota de 14 anos, uma gracinha, a Cátia, falando assim: "Porra, fumei um ontem, muito bom, cara, não sei o quê." E aí, moleque, eu com 15 anos, nunca tinha ouvido, nunca tinha visto, nunca tinha ouvido falar de maconha, Cátia. E aí eu aprendi o mundo real e fiquei esperto, fiquei safo. Minha mãe preconizava muito isso.

Eron Falbo: [14:52] Importante isso, não ser alienado.

Paulo Figueiredo: [14:54] Não ser alienado. Esse traquejo, esse jogo de cintura, que é uma coisa que você ganha muito no Rio, uma coisa muito forte da sociedade carioca, isso me fez muito bem, ao invés de ficar em um colégio de um monte de almofadinha, que não sabia nada. Isso foi legal. E eu penso muito nisso para as minhas filhas. Só que o que está acontecendo é que o nível de doutrinação marxista aumentou muito, sabe? De quando eu fui para a escola, estamos falando aí da década de 90, para agora, aumentou muito, mas em escala exponencial. Então, uma das minhas filhas eu coloquei na escola batista aqui, no First Baptist Church, que é a igreja da qual eu faço parte, e eu estou achando um espetáculo. E a outra está na escola pública, a escola pública, toda a estrutura americana, etc. Mas eu estou achando a formação da mais nova, que está no Preschool, tão formidável, que a gente está discutindo de tirar a mais velha da escola pública e, pelo menos por alguns anos, até ela ganhar um pouco mais de musculatura e criar anticorpos, manter ela na escola da igreja. Então, o que eu planejo para as minhas filhas, a salvação aqui da lavoura, infelizmente, é caro, escola particular é caro, vai ser educação através de instituições religiosas, que é a origem dos Estados Unidos. As escolas surgiram aqui como escolas para educarem as crianças, porque todo mundo precisava saber ler a Bíblia. Então, se é um país de protestantes...

Eron Falbo: [16:34] Ah, isso no mundo inteiro. No mundo, entre os primeiros sistemas educacionais, no mundo moderno e no mundo antigo. Até no mundo judaico existiam universidades, que eram yeshivot, seminários rabínicos, que se aprendia de tudo. Até mesmo na Academia de Platão, a gente vê Platão como filósofo, mas, cara, era 90% teologia, religião. A gente, hoje em dia, está acostumado a ver Platão e Aristóteles, essas coisas assim, como tipo, não, é o mundo secular, é um mundo à parte, e depois veio o cristianismo. Mas, cara, os pagãos, os ditos pagãos, eram extremamente religiosos. Tinha muita presença de religiosidade, que hoje a gente chama de mitologia, mas era a religião deles.

Paulo Figueiredo: [17:25] A civilização ocidental é a mistura de Atenas com Jerusalém. Então é isso, é muita... A minha salvação aqui, a minha expectativa de salvação são as instituições religiosas de ensino. Eu concordo.

Eron Falbo: [17:45] Olha, os meus filhos estudam na escola judaica, no Barilã, que é a escola mais tradicional judaica que tem no Rio de Janeiro, eu moro no Rio de Janeiro, e eu vejo, apesar de eu acreditar que existe um pouquinho de alienação também dentro de escolas religiosas, tem um pouquinho de problema de conflito, de comunicação, que às vezes você não... Como é que se diz? Você não comunica com outras culturas tão perfeitamente. Quando eu digo culturas, inclui religião. Se a pessoa é batista, às vezes com o católico não tem uma linguagem, às vezes entra um pouquinho de conflito. Mesma coisa de escola judaica: se você está muito fechado dentro daquela comunidade, às vezes você não consegue falar a mesma língua e você passa a ter um pouquinho de alienação. Ao mesmo tempo, você tem um senso de comunidade e uma língua em comum com os outros alunos que facilita muito certos aprendizados e aprofundamentos educacionais que você não teria em uma escola que não tem uma língua em comum. Porque uma escola totalmente secular, quando eu estou chamando de língua, eu estou falando uma... for lack of a better word, entendeu? Tipo, certos acordos comunitários, que dentro de uma mesma religião, dentro de uma mesma cultura, você tem certos acordos, então você não precisa explicar certas coisas. E dentro de uma escola totalmente secular, é meio que clean slate, então tudo é meio que denominador comum e todo mundo começa do mesmo lugar. Então acho que tem essa dualidade de questionamentos. E eu queria te perguntar se você já considerou, que é uma coisa que eu tenho considerado muito, a questão de unschooling, de formatar a educação dos filhos de uma forma customizada totalmente.

Contra homeschooling e unschooling (19:18)

Paulo Figueiredo: [19:37] Não. Não, porque eu, na verdade, sou bem contra homeschooling e unschooling. Eu acho que existe uma coisa que a criança aprende... É uma decisão difícil, tá? Não é fácil tomar essa decisão. Alguns pais não têm alternativa, e aí você tem que escolher o menor dos dois males. Ou eu vou mandar minha filha para uma escola onde ela vai aprender educação sexual com 7 anos de idade, ou eu vou de unschooling e homeschooling. Bom, aí unschooling e homeschooling, se você não tiver alternativa. Mas, de um modo geral, acho que a escola ensina um senso de comportamento em grupo, um senso de como você se comportar em bando, muito importante, que em nenhum outro lugar te ensina. Você aprende isso. O Jordan Peterson fala bastante sobre esse negócio. Ele diz que a escola tem esse papel fundamental.

Eron Falbo: [20:36] Mas não teria uma substituição disso, uns escoteiros, um clube?

Paulo Figueiredo: [20:43] É difícil porque na escola você passa o dia inteiro e vocês todos estão juntos com um objetivo comum. Então, você que está na escola, seus melhores amigos devem ser de escola ou de algum lugar assim. Essa coisa que você aprende, como você aprende a se relacionar com os outros, você aprende a jogar, você aprende a perder, você aprende as regras do jogo da vida.

Eron Falbo: [21:12] Isso eu concordo plenamente, mas o meu problema é o que você aprende junto com isso que está viciado, que é por causa do jeito que a sociedade trata professores. Os meus filhos, 90% dos professores são mulheres de uma certa classe, que pensam de uma certa maneira, que provavelmente são petistas. Entendeu?

Paulo Figueiredo: [21:38] Mas a história da escola... Eu não sei como é que é, por exemplo, no Rio de Janeiro...

Eron Falbo: [21:44] Eu estou chutando isso, mas estou falando em geral, assim. Eu não estou querendo, tipo, julgar ninguém.

Paulo Figueiredo: [21:54] Não, não, mas não é julgar. Você está retratando o que é o normal. Então, no nosso Rio de Janeiro, por exemplo, eu não sei como é que tá agora, mas eu tava dizendo, o Santo Agostinho era um lugar onde você mandava o seu filho, e por ser uma instituição religiosa, ele estava protegido contra você ter uma professora petista doutrinando teu filho. Você estava protegido contra uma educação sexual... vamos chamar aqui o termo de promíscua, eu não gosto muito dessa palavra, mas na falta de uma palavra melhor...

Eron Falbo: [22:27] Precoce, tá vendo?

Paulo Figueiredo: [22:29] É precoce. Ótimo.

Eron Falbo: [22:30] Precoce.

Paulo Figueiredo: [22:31] Uma educação sexual precoce. Porque eu não sou nenhum puritano sexualmente. Acho que todo mundo pode fazer o que quiser. Não tenho nada contra gay, não tenho nada contra ninguém que tenha nenhuma fantasia sexual. Eu sempre digo: atos sexuais são problemas particulares, preferências sexuais são individuais e privadas, e devem permanecer assim. Tomara que permaneçam assim. Agora, crianças, não. A sociedade entendeu: criança, não. Preservemos as crianças, e na vida adulta você explora a sua sexualidade. Se quiser fazer sexo com um anão besuntado de mel, cavalgando um pônei albino, seja feliz, entendeu?

Eron Falbo: [23:13] Você viu esse vídeo meu?

Paulo Figueiredo: [23:15] É, meu irmão, seja feliz. Eu não tenho nada com isso, e também não sou nenhum puritano do ponto de vista sexual, religioso. Então você segue por um outro caminho, muito menos preocupado com isso. Mas não é isso, meu povo. O meu ponto é que você não deve levar esse assunto para as crianças. Então, eu não sei como é que está a escola judaica aí no Rio, não tenho a menor condição de opinar. Eu posso dizer o seguinte: aqui as escolas judaicas não têm bons anticorpos, tá? Você vê que a sociedade americana, os judeus votam em peso no Partido Democrata, numa coisa meio doida, porque é mais ou menos como se, sei lá, vocês votassem no Hitler, na Alemanha nazista, entendeu? Porque, porra, o Partido Democrata é absolutamente anti-Israel, então é uma coisa meio suja. Mas os judeus aqui votam em peso no Partido Democrata em várias eleições. Os protestantes, não. Os protestantes, que é a escola...

Eron Falbo: [24:14] Mas também tem uma grande diferença: a comunidade judaica se separa, no geral, entre ortodoxos, os judeus mais praticantes, e judeus clube social. Os clubes sociais... O que me leva ao meu ponto?

Paulo Figueiredo: [24:27] Então é o seguinte: no final das contas, o que importa é se você está colocando numa escola... se existe uma escola que compartilhe da sua visão de mundo para os seus filhos, e aí ela colabore nessa educação de visão de mundo para os seus filhos. Então, no caso da minha visão, por exemplo, é uma visão patriótica, é uma visão fundada nos valores americanos de igualdade, de direitos naturais, de acreditar em Deus. Então, se eu coloco as minhas filhas numa escola que ensina esse tipo de coisa, show de bola. Se eu coloco as minhas filhas numa escola que diz que não existe Deus, que acredita em equidade e não em igualdade, que acha a história americana uma coisa horrorosa, etc., aí eu estou destruindo as minhas filhas. A mesma coisa eu penso para a universidade. Universidade para as minhas filhas, se eu tiver que pagar... a universidade aqui é paga, se eu tiver que pagar, eu não mando para a Califórnia nem Nova Iorque, já falo. Nenhuma chance de eu pagar uma universidade em Nova Iorque ou na Califórnia, já começa por aí. Esquece Columbia, esquece NYU. Aí você fala assim, mas Harvard também é tão ruim quanto, não sei o que eu falo. Não, nada se compara a Califórnia e Nova Iorque. A outra coisa: eu não vou pagar, essas são minhas, meu dinheiro, eu não vou pagar faculdade de mentira. Eu não vou pagar artes cênicas, eu não vou pagar gender studies, eu não vou... Quer fazer? Mas meu sonho é ser... Então vai trabalhar e paga, né? Show de bola, vai limpar a mesa.

Escolas e faculdades alinhadas a valores (24:28)

Eron Falbo: [25:55] Pra mim também, engenharia, medicina, direito.

Paulo Figueiredo: [26:00] Filosofia, medicina, etc. Você vai ter uma profissão.

Eron Falbo: [26:04] Até história e filosofia, eu acho que não é válido. Cara, se quer aprender história, vai estudar história, eu compro uns livros bons.

Paulo Figueiredo: [26:12] Metade dos livros que estão na minha biblioteca são de história. Fica à vontade.

Eron Falbo: [26:16] Eu tenho um monte de amigo que fez história e, porra, não sabe metade do que eu sei ler, assim, tipo, do que eu assisti no YouTube.

Paulo Figueiredo: [26:26] Exatamente isso. Então são os anticorpos que eu tenho. Agora, você nunca sabe o que vai fazer, o melhor que eu posso fazer é isso. Agora, eu não vou deixar, dentro do meu limite de possibilidade, destruir a cabeça dos meus filhos. E claro, óbvio, você tem que ter, na minha opinião, um pai presente, e conversar com as suas filhas. Já começa ensinando política para elas desde cedo, contrapõe os pontos, ensina os valores. Eu acho que a religião, seja ela judaica, seja ela cristã... não afirma a mesma coisa para as outras fés, mas eu acho que esses dois pilares são os melhores anticorpos para qualquer problema desse tipo. Se você acredita em Deus...

Fé como anticorpo ideológico (26:46)

Eron Falbo: [27:19] Perfeitos? Talvez não. Não são imunes a todo tipo de avanço intelectual, mas são ainda anticorpos completos, testados pelo tempo, que estão funcionando, que estão ainda apresentando bons resultados.

Paulo Figueiredo: [27:38] É uma pirâmide, né? No momento em que você acredita em Deus e que Deus criou o homem, como a gente acredita como cristão-judeu, à sua imagem e semelhança, você acredita na sacralidade da vida humana. Se você acredita na sacralidade da vida humana, que todos nós somos imagem e semelhança de Deus, não somos mais um animal, você acredita que nós temos certos direitos inalienáveis, que os pais fundadores aqui chamaram de vida, liberdade e busca da felicidade, e que John Locke chamou de vida, liberdade e propriedade privada. Você acredita que certos valores e direitos são dados por Deus e que todos são iguais, que todos são imagem de Deus. Se você acredita nesse troço, você já tem 90% dos anticorpos contra qualquer teoria marxista.

Eron Falbo: [28:26] Eu vi uma citação de Buda, não sei nem se sou eu que componho esses memes. Primeiro, é difícil saber o que Buda de fato disse, mas é tipo assim: se você vê alguma coisa de bom em mim, é algo que está em todos nós. Achei muito bonito isso. É tipo, se todos nós somos feitos à imagem de Deus, significa que, tipo assim, se você vê alguma coisa boa em mim, isso está em todos nós. É a parte em que todos nós somos iguais. As coisas que estão deturpadas, os defeitos e tudo mais, isso é a nossa personalidade. Os filmes...

Paulo Figueiredo: [29:01] Mas tem uma diferença em relação ao budismo, né? A gente não vem todo mundo do samsara. Nós somos criados à imagem e semelhança do Deus Criador. Nós não somos só iguais entre nós, somos semelhantes a Deus. Então nós somos, em certo sentido, divinos. Divino!

Eron Falbo: [29:26] Eu não estava defendendo a ideologia budista, estava dizendo que essa situação específica trouxe essa parte, né? Porque, assim, se o bem, né, que é o que, tipo, Platão iguala com Deus, com o Bem e o Uno... Se o que a gente tem de igual é divino, aquilo é o bom que tem dentro de nós. Isso que eu achei que é semelhante ao que você está dizendo.

Paulo Figueiredo: [29:56] Para isso, você tem que acreditar que existe um Deus. Se você acredita que existe um Deus, você tem que acreditar em absolutos, como o Bem. Para você acreditar em absolutos, você já joga no lixo toda a teoria pós-moderna. Então, você está imune ao pós-modernismo. Formação cristã.

Eron Falbo: [30:20] É anticorpos, eu gostei da palavra que você usou.

Paulo Figueiredo: [30:22] Hã?

Eron Falbo: [30:23] Eu gostei da palavra que você usou, anticorpos, né? Porque, assim, muito religioso leva muito a sério, como se fosse um guia perfeito, né? E muitas vezes o problema é que talvez até seja, a gente não tem nem como saber, talvez o Mahabharata seja um guia perfeito, talvez o Corão seja um guia perfeito, mas como é que a gente vai saber, se a gente não tem olhos perfeitos, né? Então, melhor do que um guia perfeito, as escrituras e tudo mais são anticorpos adequados, bons o suficiente para te preparar para questionamentos éticos, para os desafios da vida que vão surgir no decorrer da sua evolução.

Paulo Figueiredo: [31:09] Eu, pessoalmente, e é por isso que sou protestante, não sou católico, acho que Deus comunica as suas verdades de forma diferente a pessoas diferentes. Tem certas pessoas que, por personalidade, não adianta você colocá-las numa igreja pentecostal; eu, por exemplo, não funcionaria numa igreja pentecostal. Tem certas pessoas que não funcionam numa igreja histórica, como a minha, porque acham que falta avivamento. Vai da personalidade de cada um. Então, como bom protestante, eu acredito na infalibilidade da Bíblia. Tudo que está lá é infalível e perfeito em princípios, né? Não significa que todas as linhas literais e tudo que está escrito seja absolutamente...

Eron Falbo: [31:58] E também, nem que a nossa interpretação seja adequada à sua perfeição, né? Isso, pra mim, é um conceito importante.

Paulo Figueiredo: [32:06] Interpretação bíblica é um negócio difícil. Por isso que eu, particularmente, levo sempre em consideração... É um papo teológico bom, mas, geralmente, a visão que eu tenho para qualquer texto bíblico, para a Torá, para qualquer coisa que seja, é que ela é infalível em princípios. Então, se alguém vier e ela falar lá que não pode comer crustáceo, eu tenho duas opções. Ou eu falo assim: crustáceo é proibido, se eu comer crustáceo eu vou morrer. Ou: peraí, o que que tá por trás dessa ideia de que não pode comer crustáceo? Você tá protegendo um povo contra uma coisa; você tá no ano três mil antes de Cristo, tá protegendo um povo que não tem condições de refrigeração, etc. Então, qual o princípio por trás disso? Ah, você tem um Deus que se preocupa com o seu povo. Ah, legal, isso é infalível. Agora, se você fica só no não pode comer crustáceo, não pode comer porco, não pode isso, não pode aquilo, eu, particularmente, não vejo uma forma de interpretação bíblica sem que você suicide o seu intelecto. Porque a mesma Bíblia que diz que você não pode comer crustáceo, pra vocês, na Torá, chega pra gente, no Novo Testamento, e diz que tudo que foi criado por Deus é bom.

Eron Falbo: [33:21] Esse assunto que você começou, eu nem vou continuar, porque eu estudei... estudei em seminário, estudei exegese, tipo comentário bíblico e interpretação bíblica, até mais do que eu deveria. Um dia, quando você vier para o Rio de Janeiro, a gente toma uma cala e entra nas profundidades disso aí. O tempo passou muito rápido. Eu comecei com uma pergunta sobre os seus filhos e a gente começou a viajar pela educação. Mas, cara, tenho muitas curiosidades, na verdade, sobre o seu trabalho, sobre as coisas com as quais você tem lidado no dia a dia, né? Censura, o declínio do jornalismo, a qualidade do jornalismo versus a qualidade da informação do Joe Rogan, por exemplo, entendeu? Que não é um jornalista formado, que não pretende ser, e, ao mesmo tempo, está alimentando informação para milhões e milhões de pessoas. Na verdade, nunca houve, na história da humanidade, um comunicador que atingiu mais pessoas do que ele, até hoje. Enquanto isso, o jornalismo ainda está tentando manter áreas de autoridade, como se fosse... A autoridade é o último lugar onde você pode checar as fontes e tudo mais. Até a Wikipédia, que é para ser livre, só aceita artigos se tiver mídias jornalísticas de high repute, esse tipo de coisa. Eu queria saber um pouquinho da sua experiência nesse mundo, da sua opinião, das suas paixões a respeito do que você tem vivido nisso.

Trajetória de Paulo no jornalismo (33:53)

Paulo Figueiredo: [35:18] Basicamente, pelo fato de eu ter tido um sucesso profissional no meu campo que me permitiu me dedicar ao jornalismo, resolvi recentemente arregaçar as mangas e entrar na profissão que sonhei ter quando tinha 16, 17 anos, quando entrei na faculdade de jornalismo. No que eu imaginava, no meu imaginário, se você olhar aqui tem bastante Superman na minha estante, era o meu herói de infância, o Superman, o Clark Kent, aquela visão romântica.

Eron Falbo: [36:00] Você vê, o meu é mais Batman.

Paulo Figueiredo: [36:02] Eu gosto do Batman também. Eu virei mais Batman na minha vida, mas eu idealizava ser mais um Superman. É uma boa explicação. E eu, assim, resolvi depois que podia me dedicar a essa profissão, que é uma profissão que não dá dinheiro, naturalmente, mas eu podia me dar o luxo de me dedicar a ela e expor o que para o Brasil é uma coisa que parece que é uma novidade. Foi a tal da frase que viralizou muito quando eu disse que o jornalista profissional morreu. E a pessoa também morreu. Morreu aqui nos Estados Unidos completamente. Hoje, menos de 20%, menos de 2 em cada 10 pessoas de direita dão alguma credibilidade ao que lê no jornal. Isso é morte. Menos de 2 em cada 10. Quando você é democrata, são 5 em cada 10. 5, 6 em cada 10, depende do levantamento. O que mostra por quem será, né? Por quem será. Mas se você é democrata porque você acredita nos jornais, ou se você acredita nos jornais porque você é democrata... Toschini.

Eron Falbo: [37:13] Vem demais porque é fresquinho, é fresquinho e vem demais, isso aí é muito defetivo.

Paulo Figueiredo: [37:17] É, exato. Eu sou dos 80, né? Então, cara, eu decidi que era uma luta que valia a pena lutar, e, graças a Deus, por providência divina, a Jovem Pan se interessou pelo meu trabalho, me deu um espaço e me dá liberdade total para falar o que eu quiser. E aí, na Jovem Pan, comecei a ganhar mais e mais exposição, e acho que as pessoas se apaixonaram pelo tipo de jornalismo que faço, que elas estão entendendo como se fosse algo novo, que é você dizer o seguinte, olha, esses são os fatos, essa é a minha opinião e eu tenho uma posição.

Eron Falbo: [38:03] Você faz uma parada meio Carlos Lacerda, né? Você fala tipo, é isso que eu tenho que falar mesmo, eu não tô servindo ao Jovem Pan, eu tô falando, eu tô reportando a verdade que eu vejo.

Paulo Figueiredo: [38:18] Existem os fatos, existem as minhas opiniões, eu não sou isento e nem misturo as minhas opiniões com os fatos. E as pessoas, eu não sei, me parecem, pela velocidade de crescimento, pelo feedback que tenho tido das pessoas, as pessoas me parecem apaixonadas por isso, olhando como se fosse uma grande novidade. Eu falo assim, não é uma grande novidade, era assim, esse é o certo. E sem a arrogância de tratar o leitor, porque a raiz por trás dos problemas do jornalismo são os jornalistas acharem que são sacerdotes, com o dever de educar as pessoas e falar assim, olha, as pessoas são retardadas demais, se eu falar os fatos para elas, vão acabar tendo uma opinião que é errada. Então, não posso utilizar os fatos. Então, a gente saiu da época da parcialidade, para a época das fake news, para a época que eu chamo agora das anti-news, porque você teve um princípio da parcialidade, a imprensa sempre foi parcial, isso é normal, as pessoas são parciais, então você dava uma notícia com um viés, alguma coisa assim?

Da parcialidade às fake news e anti-news (38:42)

Eron Falbo: [39:31] Sim.

Paulo Figueiredo: [39:32] Depois você saiu para a época das fake news, que as pessoas começaram a inventar notícias. Misturavam três, quatro coisas pra darem aparência de veracidade, mas isso meio que...

Eron Falbo: [39:44] Sempre, mas meio que sempre fizeram isso, acontece que na época dos grandes conglomerados de mídia, por causa da autoridade que era dada pros veículos no geral, eles sabiam mascarar esses fake news de uma forma que era aceitável, que não podia ser chamado de fake news, porque tinha todas as fontes, né?

Paulo Figueiredo: [40:07] Sim e não, porque o que acontece é o seguinte. O que muda é, um, a magnitude. A magnitude muda drasticamente. E a outra coisa que mudou muito foi o declínio da profissão mesmo. A profissão tinha normas. Você checava as notícias, você tinha o contraditório. Claro que você dava a sua visão na matéria. Mas você checava, você tinha o contraditório óbvio pra todo mundo. Essas coisas foram abandonadas. Isso é verdade.

Eron Falbo: [40:35] Que foram coisas boas, porque lá no início do jornalismo era meio free for all. Aí começaram a criar certas regras, por um lado positivo, para poder ter mais veracidade, para a Bolsa de Valores não enlouquecer, porque muita gente plantava fake news para poder fazer flutuar, esse tipo de coisa. Um exemplo, mas pode ter milhões de exemplos.

Paulo Figueiredo: [41:05] Reputação, o jornal vivia da sua reputação, não se o jornal dava notícias. As pessoas paravam de acreditar quando o objetivo era mercadológico. Hoje os jornais não tem mais o objetivo mercadológico, eles não servem mais aos seus consumidores. Então, todas essas práticas, claro, existe por trás disso uma noção moral, uma noção de que eu tenho uma responsabilidade como jornalista de reportar os fatos para as pessoas. Eu tenho essa definição moral. Quando você não tem moral, quando o seu princípio é marxista e o seu princípio não é relatar os fatos, é fazer uma transformação social, aí tudo muda de figura. A verdade é um detalhe, é um detalhe na marcha da história. Então você não vai falar a verdade se ela atrapalhar a marcha da história. Se você tiver que falar que o governo do Bolsonaro vai bem, se ele fizer uma coisa certa, você não vai falar. Porque senão, você vai falar assim, senão os meus leitores vão ter a impressão de que o Bolsonaro é bom, eles vão acabar ficando de direita, e aí as ideias marxistas, às vezes não na camada superior do intelecto do cara, às vezes estão no subconsciente, no inconsciente do cara, ele nem sabe que ele tem ideia marxista, que é o que era a ideia de Antonio Gramsci. Ele fala assim, senão eu vou atrapalhar a marcha marxista da história. Então ele, como um sacerdote, não quer que você saiba a verdade pelo perigo de você explicar uma coisa que não é verdade.

Eron Falbo: [42:31] Eu estava pensando justo nisso, sacerdotes egípcios, que durante o declínio dos reinos egípcios tinham justo esse papel, os sacerdotes egípcios, que era de filtrar os mitos, de filtrar as interpretações, para não deixar o povo se desvirtuar do programa do Estado, do que quer que seja, de colheita, da construção de uma pirâmide, do que quer que seja. E os veículos viraram isso, viraram sacerdotes egípcios que não estão deixando o povo se desvirtuar daquele programa.

Paulo Figueiredo: [43:11] Eu sou o oposto. Você é senhor de si mesmo. Você é o senhor do seu intelecto. Eu vou te apresentar os fatos e a minha opinião. Se você quiser discordar, primeiro, vem aqui e discorda na minha cara. Vamos conversar, vamos debater. Eu debato com qualquer pessoa sempre, o tempo inteiro. Gosto do contraditório. Essa é a primeira coisa. A segunda é, eu mostro pra você de onde vêm as minhas opiniões. Então, é uma relação honesta. Agora, mais poder às pessoas. Mais veículos dando mais notícias. Mais pessoas buscando mais fontes. Eu não sou o senhor da verdade. Eu não tenho a obrigação de moderar o seu conteúdo. Eu não tenho a obrigação de te dizer o que você pode pensar ou não. E eu não tenho o direito de fazer isso. Então, é uma visão antagônica à do jornalista Antoine. Absolutamente antagônico. Então, se o Joe Rogan... Se o Felipe Neto... Se você acha que a verdade está no Felipe Neto, mais poder para o Felipe Neto.

Eron Falbo: [44:05] Deus lhe livre.

Paulo Figueiredo: [44:07] Mais poder para ele. Fala a bobagem que ele fala agora.

Eron Falbo: [44:10] O Felipe Neto não é o Lucas Neto, não. O Lucas Neto falando aquelas coisas, compra os brinquedinhos. O Lucas Neto é irmão do Felipe Neto, que manda comprar os brinquedos e pega as coisas e faz tudo errado, põe de cabeça para baixo. Isso aí devia ser censurado.

Paulo Figueiredo: [44:26] Aí a gente já tomou outra categoria, que é a categoria das crianças. Eu sempre falo: tudo que é para adulto é uma coisa, tudo que é para criança é outra coisa. Crianças têm que estar sob a responsabilidade e a tutela dos seus pais. Então, eu acho que é isso. Eu acho que a gente saiu da era do viés para a era das fake news e agora a gente está na era das anti-news, onde a metanotícia é o oposto da notícia. Você pode reparar, isso tá ficando cada vez mais comum. As fake news eram uma notícia falsa, era uma notícia mentirosa. A anti-news, vou te dar um exemplo: o caso aqui do suposto do Trump, que estaria incitando a violência e a invasão do Capitólio, é uma notícia que não é só falsa, ela é o oposto da verdade. A verdade era que o Trump estava falando para se fazerem protestos pacíficos e para não invadirem o Capitólio, mas a notícia que saiu era de que o Trump estava incitando a invasão do Capitólio. Outro exemplo, o Bolsonaro, quando virou e falou que as forças armadas é que decidem se você tem democracia ou liberdade, ele estava fazendo uma defesa das democracias, dizendo o seguinte: nós precisamos das forças armadas e não podemos deixar que elas destruam a democracia.

Eron Falbo: [45:43] Ele estava ameaçando.

Paulo Figueiredo: [45:46] Então assim, tomem anti-news. Isso não é uma fake news.

Eron Falbo: [45:50] E o pior é que isso destrói o due process. É tipo o Me Too movement, o Black Lives Matter, qualquer coisa assim, tipo, a essência sempre, pô, é bonitinha: vamos defender mulheres, vamos defender pessoas injustiçadas. Mas aí vai pra cadeia, a galera sofre, tipo assim, o House of Cards foi cancelado porque o Kevin Spacey foi acusado de molestar alguém, acusado, entendeu? Tipo, como é que alguma coisa pode ser executada, como é que alguma ação pode ser tomada a partir de uma caça às bruxas, de uma acusação, né? Exatamente. Essa cultura, cara, é tipo perigosíssima, porque tá acabando com todos os pilares da civilização ocidental, que é o due process, é tipo, a justiça é baseada em... é tipo bruxas de Salem, entendeu? A gente saiu daquele mundo e começou a viver num mundo que justo defende as mulheres, justo defende os negros, porque as massas não podem apontar o dedo e te botar numa forca, entendeu? Então é bizarro, é totalmente paradoxal, porque justo o que eles estão falando para defender é o mundo que a gente construiu para defender essas pessoas, para defender as pessoas que não têm voz, para defender o due process. Eu queria te perguntar uma coisa, já que a gente tá acabando, já acabou o nosso tempo, e eu não quero te manter mais do que eu combinei, mas eu queria te perguntar uma coisa sincera, porque, cara, eu comecei a fazer isso, e você e a gente, tipo, é de certa forma colegas de mídia que tá aí tentando falar verdades e sendo meio que se colocando em jogo, de certa forma, falando o que pensa de fato. E eu queria te perguntar, tipo assim, o que você acha de programas que não são jornalísticos, que não estão na Jovem Pan, que são podcasts e tudo mais, e que às vezes nem são. Tipo assim, tem muito podcast que é o cara relatando fatos e tudo mais. O meu programa, por exemplo, como foi a nossa conversa hoje, é uma conversa entre duas pessoas e seja o que rolar, rolou. Eu queria ter a sua visão, que para mim importa muito, sinceramente, porque eu te admiro, admiro o seu trabalho, então importa a sua visão. Eu queria saber isso publicamente de você. Você acha que o público extrai valor, conteúdo, verdades de coisas que não estão citando fatos, que são sínteses de duas inteligências se unindo?

Podcasts, entrevistadores e debate honesto (47:36)

Paulo Figueiredo: [48:44] Claro, e eu acho que isso é uma coisa que sempre teve, de uma maneira ou de outra, nos programas de televisão. O maior entrevistador do mundo morreu há duas semanas atrás, que era o Larry King, considerado o maior entrevistador da história.

Eron Falbo: [49:01] Ah, nem fiquei sabendo que ele morreu.

Paulo Figueiredo: [49:02] É, morreu, por volta de duas semanas atrás. O que o Larry King fazia no programa dele era sentar com pessoas que, ele falava, ele fazia questão de não saber nada sobre a pessoa, só o headline, ele sentava e batia um papo com a pessoa.

Eron Falbo: [49:16] Ah, não sabia que ele fazia questão de não saber.

Paulo Figueiredo: [49:20] Nada, não sabia nada. Ele sabia assim: quem é o... sei lá, o João da Silva. Ah, escreveu um livro? Aí ele sentava e falava assim: então, conta aí, sobre o que é o teu livro? E aí o cara ia falando, e ele ia curioso, como se duas pessoas tivessem se conhecido num bar, um lugar assim. E daí surgiu o maior programa de entrevista. Eu acho que hoje, você citou muito bem, para mim, hoje, você tem dois... tem vários, mas dois dos melhores entrevistadores americanos: o Joe Rogan e o David Rubin, seu colega, aliás, judeu, né? O David Rubin, que é um... correligioso.

Eron Falbo: [50:02] Correligioso.

Paulo Figueiredo: [50:06] São dois caras maravilhosos, o Rubin Report...

Eron Falbo: [50:11] O Ben Shapiro também, né?

Paulo Figueiredo: [50:12] É, o Ben Shapiro...

Eron Falbo: [50:15] Ele é mais político, né?

Paulo Figueiredo: [50:17] É, o Ben Shapiro é uma coisa que é o que eu sou, um polemista. O Ben Shapiro é um polemista.

Eron Falbo: [50:25] Vocês e o Milo Yiannopoulos.

Paulo Figueiredo: [50:28] O Milo Yiannopoulos é um polemista. Então a gente vive de polêmicas e de assuntos polêmicos. O Milo é um grande polemista, muito competente. Pena que foi cancelado.

Eron Falbo: [50:39] Eu acho ele divertido, cara.

Paulo Figueiredo: [50:41] Eu acho o Milo ótimo. Pena que foi cancelado. Tem um problema com o polemista. A profissão do polemista, ela não funciona bem com a cultura do cancelamento, pelo seguinte: quem tá no ar o dia inteiro, falando todos os dias, o tempo todo, vai falar bobagem. Então eu vou falar merda, pode anotar. Eu não sei quando vai ser, mas um dia eu vou errar feio. E aí vão querer me cancelar por causa disso. E não tem jeito. Você tem que ter a carapaça e a couraça. Então eu acho que o programa que você faz, um programa de entrevista, de bate-papo, está justamente nisso que você falou, das pessoas quererem ver boas conversas de pessoas inteligentes. E isso não precisa estar na mídia. Quem é a mídia? Pelo contrário, a mídia é ruim pra se formar porque ela é engessada.

Eron Falbo: [51:27] Não, eu não quero. É uma coisa que eu sempre falo. Na verdade, eu ouvi isso do Joe Rogan falando, e eu aprendi. Cara, eu não tô fazendo isso porque eu quero me vender pro MSNBC, pro Multishow, pra Globo, qualquer coisa assim. Eu tô fazendo isso porque, cara, esse conteúdo tem que ser autêntico. No momento que não é autêntico, eu não quero fazer, entendeu? Então, posso vender no álbum com o Eron Falbo ou sem o Eron Falbo, entendeu? Porque eu não vou participar, entendeu? Aí a essência da parada é não vender.

Paulo Figueiredo: [52:01] Eu acho que o Joe Rogan, a autenticidade dele, está em ele realmente querer ouvir o seu entrevistado e não em querer propagar uma ideia ou a agenda de pensamento dele. Então ele entrevista todo mundo, faz as perguntas honestas que todo mundo gostaria de ver, prestando atenção e levando em consideração o que o entrevistado está dizendo, com curiosidade. É muito diferente, por exemplo, da entrevista que o Jordan Peterson deu para a Cathy Newman, onde ela quer colocar o cara dentro de um retrato, dentro de uma caixa, para vender uma imagem dele que não é a imagem dele, e ela não tem verdadeiro interesse nenhum no que o entrevistado está dizendo. E aí não é uma conversa, é uma coisa inquisitória.

Eron Falbo: [53:01] É um debate político. Um debate político é assim: você está tentando encurralar o oponente. É uma retórica, uma retórica romana.

Paulo Figueiredo: [53:11] Eu acho um debate político ruim. As pessoas me pedem um curso de debate, porque eu estou o dia inteiro debatendo, e as pessoas gostam da forma como eu debato. Eu tenho algumas amarras na minha forma de debater. A primeira delas é essa: eu sempre procuro debater buscando a verdade no que eu estou fazendo.

Eron Falbo: [53:30] É um erro.

Paulo Figueiredo: [53:32] É um erro de técnica, mas eu acho que no final você não aceita.

Eron Falbo: [53:37] Não, mas para você é muito bom e para o público é muito bom, é muito importante.

Paulo Figueiredo: [53:42] É uma dificuldade a mais para você debater, porque você está sujeito a uma regra que seu opositor não está. Mas, por outro lado, eu acho mais reconfortante. E eu acho que o payoff no longo prazo existe.

Eron Falbo: [53:56] É isso que eu ia dizer. A longo prazo você vai se construir num cara íntegro, que fala essas lógicas, você vai se tornar imune a falar essas lógicas suas próprias. Porque você não vai buscar criar falácias retóricas pra encurralar o cara, porque você tá realmente, honestamente... E eu vejo o Jordan Peterson assim, né? Eu vejo aquele debate com o Cizek. É uma regra dele.

Paulo Figueiredo: [54:23] É, com o Cizek. É o debate que ele vai... E.

Eron Falbo: [54:27] Ele concorda muito com... Porque o Cizek é sinistro, né? O cara, pô, ele pega umas coisas... Ele entra numa... Até fico, tipo...

Paulo Figueiredo: [54:37] Mas tem um problema que o Jordan Peterson foi para um debate pelo qual ele não está equipado. Não é a área dele. Então ele como intelectual não deveria ter discutido este assunto com um cara que é da área. Então é um debate que é um erro. É como se eu fosse para um debate fazer um debate sobre moda. Eu jamais faria. Eu não entendo de moda. Então eu vou tomar uma surra no debate.

Eron Falbo: [55:04] É como se eu fosse para a praia. Eu sou de Brasília.

Paulo Figueiredo: [55:08] Tá no rima, tá no rima. Mas eu acho que o Jordan Peterson foi mal nisso. Agora, o bom é que ele tem essa regra e é uma das regras do livro dele, né? Sempre diga a verdade ou pelo menos não minta. Porque mentir te deixa numa posição de fraqueza. E mentir num debate te deixa numa posição vulnerável. Então, nunca diga algo que não é verdadeiro. E eu acho que numa entrevista, quando você faz a entrevista de forma sincera, você também, de certa forma, aproveita essa máxima, porque você está sendo curioso, está querendo realmente saber sobre a vida do entrevistado.

Eron Falbo: [55:47] Cara, Paulo, muito obrigado aí pelo seu tempo e posso te dizer que eu não explorei nem um décimo do que eu gostaria de ter te perguntado, se aprofundar.

Paulo Figueiredo: [55:57] Vamos repetir, vamos fazer mais vezes. Eu estou agora aqui num pequeno turbilhão, tentando escrever aqui dez aulas sobre um tema complexo, que é a decadência americana, mas passado esse período aí de loucura do curso, que foi uma coisa que eu me propus a fazer e que estou me dedicando muito, passado esse turbilhão, vamos sentar de novo e ter uma outra boa conversa.

Eron Falbo: [56:27] E você tem planos pra vir pro Rio ou não?

Paulo Figueiredo: [56:32] Rapaz, eu não tenho. Eu não tenho. Eu tô precisando, mas eu não consigo encontrar um... Porque pra quando eu for pro Brasil, eu tenho que passar um mês. Eu tenho que ir a Brasília, eu tenho que ir a São Paulo, eu tenho que ir ao Rio, eu tenho que ir a Curitiba, eu tenho que fazer evento, eu tenho que fazer não sei o quê, eu tenho que ver minha mãe, eu tenho que ver meu pai. Então, assim, não dá pra eu dar um pulinho, passar uma semana. Eu tô devendo visita pro mundo inteiro. Então tá difícil eu conseguir virar e falar assim, vou tirar um mês pra ir pro Brasil. Mas eu vou.

Eron Falbo: [57:02] Beleza, Paulo. Muito obrigado, cara. Valeu. Foi um prazerzão te conhecer ao vivo aqui. E vamos nos manter em contato. Tudo de bom pra todo mundo. Boa noite. É isso. Valeu, galera.

No Alvo com Eron Falbo · episódio #57 · todos os episódios