Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.
Eron Falbo: [0:00] Você entrou no alvo, eu sou o Eron Falbo, e hoje estamos com Tielo Camolesi. Tielo Camolesi é um empresário serial, responsável pelas marcas Devassa, Cervejaria Vespa, Pizzaria Zaza Bistrô e mais recentemente a Casa Camolesi, restaurante no Jockey Club, e a Amazônica Mundi, produtos sustentáveis. Então galera, junte-se a nós, sentem-se ao redor da fogueira e vamos ter acesso juntos a esse toque especial do nosso Rei Midas. Fala, Tchelo! Tudo bom? Beleza, beleza. E você?
Cello Camolese: [0:38] Tudo legal também. Tudo melhor.
Eron Falbo: [0:41] Que bom você estar aqui.
Cello Camolese: [0:42] Estou refletindo muito no meu óculos. Eu boto o computador na frente. E aí, tudo legal?
Eron Falbo: [0:49] Graças a Deus, tudo certo. Você está aqui no Rio ou não?
Cello Camolese: [0:51] Achei que você tinha esquecido de mim. Falei, porra!
Eron Falbo: [0:54] Que isso, não. Só às vezes eu... Tenho meus preparativos psicológicos, que às vezes vazam um pouquinho o horário.
Cello Camolese: [1:04] Já estava no meu segundo uísque com soda aqui.
Eron Falbo: [1:07] Que isso? Então deixa eu te acompanhar aí, só um segundinho, deixa eu me servir aqui. Hoje a gente está tomando uísque com soda. Na verdade, a última vez que eu vi o nome uísque com soda foi naquela música do Renato Carosone, Tu Vou Falar Americano, sabe?
Cello Camolese: [1:25] Exatamente. E eu adoro, porque o uísque tem um pouco esse estereótipo de uma bebida noturna e tal, mas eu gosto muito do uísque desse jeito aqui, com soda, com muito gelo, para beber no calor. Eu acho refrescante para caramba. E eu aprendi, inclusive, com o meu sogro, que é pernambucano, o Edgard. Sabe que no Pernambuco, em Recife, é a capital com o maior consumo per capita de uísque do Brasil e do mundo. Uma das maiores consumidoras de uísque do mundo é a Recife. Tem uma tradição dos grandes uísqueiros.
Eron Falbo: [2:19] Será que tem a ver com a parada holandesa?
Cello Camolese: [2:22] Cara, assim, eu tenho muita curiosidade em saber, assim, mas eu já estive lá, já tentei entender, não consegui entender. Eu acho que tem um certo... Uma tradição, talvez, um pouco aristocrática, assim, dos senhores de engenho, de tomar... Ah, pode ser. Mas o fato é que combina muito com o calor mesmo, na minha opinião, sabe?
Eron Falbo: [2:44] Com o whisky soda, né?
Cello Camolese: [2:45] Se não fica aquela coisa inflada, como a cerveja te deixa. E olha que eu sou cervejeiro, né? Na minha segunda, provavelmente.
Eron Falbo: [2:54] Tem gente que fala que é cervejeiro só porque bebe muito.
Cello Camolese: [2:58] Mas saber beber tem muito a ver com isso. Saber o momento certo também. Cada momento tem a bebida certa.
Eron Falbo: [3:09] E os aristocratas, no geral... Saúde, saúde... Os aristocratas têm essa coisa de...
Cello Camolese: [3:18] Esse estilo que eu estou bebendo aqui é o que se convencionou chamar de highball, que é um jeito de fazer um soda, mas é um jeito meio japonês de fazer, que lá no Japão se bebe muito o Japanese whisky, e...
Eron Falbo: [3:31] Qual a diferença do...?
Cello Camolese: [3:33] O highball, na verdade, você faz com tudo muito gelado: deixou o copo na geladeira, no freezer; o whisky você deixa também no freezer; gelo grande. E a club soda, que é diferente um pouco da água com gás, porque ela tem a borbulha maior, entendeu? E tem pouca club soda aqui no Brasil pra comprar. Tem uma da Prata, não tô falando nenhum jabá aqui não, mas é a única que tem. Eu tenho na Camolese, inclusive, é uma latinha preta, e tem uma borbulha gostosa, grande, que deixa bem refrescante a bebida, entendeu? Enfim, tamo aí. Isto é cultura. Aliás, bebida é cultura, porque dá pra se contar...
Eron Falbo: [4:15] É isso que eu ia dizer: quanto mais sofisticado em termos de misturas, em termos de conhecimento, você fica mais controlado, na minha opinião, sobre o seu próprio consumo, porque você aprecia mais, está mais detalhado, está mais sofisticado, de uma maneira não elitista, mas de uma maneira em termos de conhecimento, em termos de consciência. Você tem consciência do que está ingerindo e, por consequência, acho que é natural você não exagerar tanto, ter um controle maior.
Cello Camolese: [4:54] Exato. O que eu costumo dizer é assim: não se trata de beber muito, se trata de beber melhor. Então, você escolheu, você vai beber, e isso vai aprendendo bebendo, compartilhando a bebida, como falei. A cerveja foi descoberta há 10 mil anos atrás, na China. Há 7 mil anos atrás, estavam fazendo vinho no Egito. Daí migrou para a Europa a cultura alcoólica, com os alquimistas que buscavam achar cura para as doenças. Eles pesquisavam isso, aquilo, infusões, raízes, ervas, foram chegando em composições que foram virando bebida. Os bitters, os samaros, enfim, por aí vai.
Eron Falbo: [5:46] É, o álcool... eu costumo dizer que as pessoas, no geral, hoje em dia, comparam todos os tipos de substâncias que alteram a mente, de qualquer maneira. Só que o álcool, acho que é a única, ou uma das únicas, eu não tenho certeza, que tem em todas as culturas do mundo. Tem outras substâncias que são regionais: a ayahuasca, na Amazônia, você tem... peiote, no México, você tem diversas coisas. Diziam até que tinha LSD na Grécia Antiga. Em diferentes lugares tem coisas, plantas e coisas do tipo que alteram a percepção humana, vamos dizer.
Cello Camolese: [6:38] Os estados alterados da mente. Isso é parte, é tão antigo quanto o próprio homem.
Eron Falbo: [6:45] É, só que o álcool está em todas as regiões. Na China, você tem lá álcool feito de arroz. No oeste africano, você tem coisas feitas de... o que era? Batata? Não é batata...
Cello Camolese: [7:01] Não, você pode desfilar qualquer...
Eron Falbo: [7:03] É, mas cada região do mundo... os astecas tinham a sua coisa, cada lugar tinha a sua, tem, né? Uma bebida. Então, o álcool, o etanol, essa substância que altera a percepção humana, é meio que universal, né? Então, tem esse diferencial.
Cello Camolese: [7:27] Exatamente, exatamente.
Eron Falbo: [7:29] E eu acho que é por isso.
Cello Camolese: [7:30] Foi contribuindo pra tradição, pra perpetuar o que eu acho... É, porque inclusive teve ligado à religiosidade também, né? Não só a coisa da festa, da celebração. Celebração, sim. Religiosidade também. Em muitas religiões, você pode ver que também envolve, às vezes, estados alterados da mente. E tudo isso me interessa, porque, como eu disse, isso ajuda a contar a nossa história, a história da humanidade.
Eron Falbo: [8:04] Até no catolicismo, o vinho faz parte da Eucaristia. Na Grécia Antiga, todo o banquete filosófico era muito regado a vinho, e todos os líderes da Grécia Antiga tinham que passar por uma iniciação nos ritos eleusinos, esse tipo de coisa. Tinha muita substância, como você está falando, não era uma coisa necessariamente recreativa. Também era recreativa, não era como se a gente fosse muito espiritual e do nada virou menos. Desde sempre foi tanto recreativo quanto espiritual.
Cello Camolese: [8:48] Medicinal, recreativa e religiosa. Eu acho que sempre teve aí nesse...
Eron Falbo: [8:55] Com um pouquinho de nuances de diferença de diferentes épocas.
Cello Camolese: [9:02] De uma cultura para outra, de um... Enfim.
Eron Falbo: [9:08] Aqui no Rio de Janeiro, na verdade, eu estou achando o Rio de Janeiro um pouco careta ultimamente, sabia? Eu acho que o Rio de Janeiro já foi, assim, mais festeiro, mas de uma maneira positiva, não de uma maneira... Acho que está mais oba-oba e menos festa, entendeu?
Cello Camolese: [9:25] É, bom, mas a gente também está vivendo um momento que hoje qualquer perspectiva aí de festa, de aglomeração... Ah, sim.
Eron Falbo: [9:37] É, mas não estou falando da pandemia, estou falando dos últimos 10 anos de Rio de Janeiro.
Cello Camolese: [9:44] Ser realmente um centro festeiro, para além do carnaval, para além das festas populares, para além da música, era um centro cultural no Rio de Janeiro. E onde se tem cultura, tem muita gente pensante, muita gente querendo trocar ideia, você vai ter com certeza sempre também essas ocasiões das festas e das trocas. Acho que o Rio sempre foi muito pródigo. Você lê esses livros que contam a história recente do Rio de Janeiro, do século passado até pelo menos a década de 1980, mais 1970. Depois que, na década de 1960, não deixou de ser a capital, teve um certo declínio e tal, mas até 1970, 1980 a coisa, acho que... Eu sou paulistano, então estou dizendo isso.
Eron Falbo: [10:39] Mais por... Ah, eu sabia, não.
Cello Camolese: [10:43] Eu leio, respeito e tal. São coisas que eu vivi, até porque também não sou tão velho assim, embora...
Eron Falbo: [10:50] Os grandes empreendedores aí da gastronomia, cultura, noite aqui no Rio de Janeiro... Tem alguns aí de São Paulo. Até conversei com o Ricardo Amaral, ele também é de São Paulo. É meio que os caras são conhecidos como reis do Rio de Janeiro, mas não são do Rio de Janeiro. Você veio com que idade, mais ou menos?
Cello Camolese: [11:17] Coisas incríveis. Eu sou um que escolheu o Rio para viver. Eu me encantei com o Rio de Janeiro. Mudei para cá em 1998, sou casado com uma carioca, tenho filhos cariocas.
Eron Falbo: [11:31] Uma nativa.
Cello Camolese: [11:33] Não estou no Rio por acidente, estou por escolha. Embora ela fosse carioca, Zaza, minha esposa, que também está no ramo de restaurantes e tal, morava em São Paulo. Trabalhava com marketing multinacional e tudo. A gente se casou lá, inclusive. E a gente resolveu ir para o Rio. Eu estava bem lá com meus negócios, mas foi uma escolha mesmo, consciente. Vamos para o Rio. Eu já tinha vivido muito a noite de São Paulo. Então foi uma forma de tentar equilibrar, que é uma coisa urbana, gosto muito. Só que no Rio você consegue equilibrar muito bem isso.
Eron Falbo: [12:14] É verdade. Você está no meio da cidade, mas também está no meio da natureza.
Cello Camolese: [12:18] Com natureza e tal. Agora, claro, o Rio precisa de um chacoalhão. É um momento em que a gente também tem de ser realista. Vamos ver se agora, com o Eduardo Paes, a gente consegue pelo menos voltar a ter esperança. Acho que pelo menos isso dá para acreditar. Com gente boa, com secretariado super bem montado, cheio de gente comprometida com a cidade. Não estou falando de propaganda do Eduardo Paes, não.
Eron Falbo: [12:53] O Eduardo Paes é daqui também, estou meio no...
Cello Camolese: [12:57] Depois do que acabou de ter, como prefeito, ninguém merece, que é um não-prefeito.
Eron Falbo: [13:04] É uma grande tradição de fracassos.
Cello Camolese: [13:08] Pior que isso, é um não-prefeito. Acho que dá para voltar a acreditar, só que a gente precisa de muitos Eduardo Paes, muitos governos comprometidos com a cidade, uma sequência de pessoas comprometidas, porque também só um não faz verão. Então, vamos ver... Tem muita gente legal também que está vindo, está se formando.
Eron Falbo: [13:32] E também a sociedade civil, não só o governo, empreendedores, empresários, você mesmo aí com a Amazônia Mundi está contribuindo para o meio ambiente, contribuindo para o quadro social no geral. Até uma das coisas que eu queria explorar com você é esse papel do empresário, da sociedade civil no geral, de tomar as rédeas um pouco do governo que está fracassando de novo e de novo, um depois do outro, e, de repente, chegou a hora de a gente começar a nem olhar mais para o governo e fazer as coisas que a gente tem que fazer.
Cello Camolese: [14:14] Acredito muito no empreendedorismo. Acho que cada um tem o seu olhar diante da realidade que você está posto. Acho que a educação... Acho que a questão é complexa e não é também... Nenhum governo vai se resolver, mas educação, acho que talvez seja a questão mais primordial, só que é um trabalho de longo prazo. Agora, empreendedorismo, acho que é uma coisa que depende de cada um. Acho que levantar, arregaçar as mangas... Nem todo mundo tem essa confiança em si. Então, acho que é um exercício, inclusive, quase religioso, de acreditar no negócio, ir lá e fazer.
Eron Falbo: [15:12] Hoje em dia tem certas coisas que foram dominadas pelos governos, num sentido semi-totalitário. Tem o MEC, para você fazer uma escola tem que ter um currículo aprovado pelo Paulo Freire, tem todo um sistema ideológico que foi montado, sem falar sobre que ideologia eu pessoalmente sigo, mas existe um maquinário ideológico por trás, de todo o regime, de todo o Estado, buscando manter os cidadãos mais ou menos em ordem, manter os cidadãos mais ou menos pagando impostos, e até faz sentido também, não estou nem criticando isso, mas hoje em dia, com a internet, com a difusão da informação, houve uma quebra de monopólio de muitos desses sistemas, desses monopólios, desses sistemas semi-totalitários, inclusive gravadoras de música, que você conhece bem também, monopolizavam totalmente o mercado e hoje em dia não tem nada a ver. Hoje em dia as distribuidoras estão ainda monopolizando, mas difundiu muito, democratizou muito. A mesma coisa que eu estou falando de educação, ao invés de a gente pensar, pô, precisa ter mais verba. O Brasil é um dos maiores em verba de educação do planeta Terra e eu acho que o terceiro pior em termos de ranking de performance de educação. Então assim, hoje, para os empresários, ficou muito mais fácil lançar curso online. Tá muito difuso isso, tá crescendo todo dia mais a porcentagem de pessoas que usa isso. E, de repente, é por aí. O governo perde aquela... Como é que chama? Aquela corda no pescoço que tinha. Toda essa coisa que a gente pede do governo. E a sociedade civil hoje está fazendo por si só. Um cara sozinho em casa está fazendo um curso. As pessoas que se interessam. E isso é educação pra mim, na minha opinião. É uma educação, às vezes, muito mais válida do que a educação da escola, sabe? É uma coisa honesta, que o cara está ensinando que ele sabe mesmo, que ele teve experiência de passar, não é aquela coisa engessada, aquela coisa demagoga, entendeu?
Cello Camolese: [17:37] Eu acho que a educação vai ser muito importante ainda para o Brasil, seja ela via digital, à distância ou presencial, mas o ensino fundamental ainda é muito falho. Primeiro, depois tem o ensino profissionalizante. Talvez mais do que você ter todo mundo diplomado no ensino superior, acho que a gente tem muito o que caminhar para chegar lá, nesse ponto ainda. Então, não sou um especialista em educação, mas acho que ainda... Sou um liberal, tá? Deixando claro, não sou nem de direita, nem de esquerda, eu sou um liberal de centro, e acho que o Brasil é um país que precisa ter uma economia, nunca teve uma economia liberal, de fato, em que eu acho que privilegia essa emancipação do indivíduo. Por outro lado, é um país com muita deficiência social, então não dá para você ignorar isso, você tem que ter um olhar, sim, para o social. Acho que o liberalismo permite isso.
Eron Falbo: [18:50] Não, eu concordo. Eu só acho que o governo não é o mais capaz de fazer isso.
Cello Camolese: [18:56] Em algum ponto, entre uma coisa e outra, o que não me interessa são os extremos, tanto de um lado quanto do outro, porque isso tende ao totalitarismo, tende a uma ditadura, tende a uma... O que se vende como liberdade, na verdade, é o contrário, é uma falsa liberdade.
Eron Falbo: [19:15] É, Tiago, eu só estou...
Cello Camolese: [19:17] É uma liberdade travestida de... Na verdade, é uma algema travestida de liberdade. Então, eu não caio...
Eron Falbo: [19:34] É esse socialismo demais.
Cello Camolese: [19:36] ...de negacionismo, entendeu? Nada disso me convence, acho que sou pró-ciência, acho que tem que respeitar as coisas, acho que tudo o que a gente caminhou até hoje não é nada disso, é de graça, em vão, a gente tem que fazer valer tudo o que o ser humano evoluiu nesses milênios todos. Enfim, começar aqui a falar de política...
Eron Falbo: [20:09] Acho que não... Uma coisa que eu queria te perguntar sobre as suas empresas, especialmente a Amazônica Mundi: até que ponto você usa a ciência, a pesquisa, para informar, para conduzir a sua visão, o que você quer fazer, aonde você quer chegar, em termos de empreendedorismo.
Cello Camolese: [20:43] Que se convencionou a chamar de foodtech. Inclusive, sou contra os anglicismos, mas foodtech não tem tradução ainda para uma empresa de tecnologia...
Eron Falbo: [20:59] Alimentar.
Cello Camolese: [21:00] Alimentar. Então, claro que a gente está de olho na questão da ciência, do desenvolvimento, e tem um... um lado nosso de bastante pesquisa, inclusive em parceria com grandes nomes, como a Embrapa, que é um grande parceiro nosso, que é inclusive uma empresa estatal. Eu, que sou um liberal e tendo a olhar com alguma desconfiança para o poder público também, acho a Embrapa incrível. Acho a Embrapa um conceito de gente excelente, de primeira grandeza. Então, esse desenvolvimento da Amazônica Mundi passa muito pela parceria com eles. A gente está usando, por exemplo, na nossa matéria-prima principal, até então, um produto que era descartado pela indústria do suco do caju, que é a polpa. A gente desenvolveu com a Embrapa a utilização dessa fibra do caju, que até então eram quase 500 toneladas, mil toneladas a ano que eram descartadas, hoje a gente usa, e é a base de todos os nossos burgers, bolinhas, almôndegas, e isso foi um trabalho pioneiro. A gente é o único que está fazendo isso. A gente tem, chama Amazônica Mundi, não é porque está se apropriando do nome da Amazônia, de fato a gente está comprometido com a Amazônia. Eu vou para lá, há 20 anos foi a primeira vez que fui. Sempre desejei ter um negócio que tivesse a Amazônia como pano de fundo. Então, também tem parceiros lá, de pequenos produtores, populações ribeirinhas, aldeias indígenas, povos originários, quilombolas, pequenos produtores que produzem muitos dos nossos ingredientes. Isso através da Origens Brasil, que é um outro... uma rede de comércio transparente e rastreada. Você pode bater nas nossas embalagens. Inclusive, eu trouxe uma aqui, olha. Mais uma de Camondes. Ah, legal.
Eron Falbo: [23:16] E gostei da fonte. Tem uma coisa meio art deco, assim, sei lá.
Cello Camolese: [23:22] É, tem uma coisa... passam, sugerem algumas... algumas cores... indígenas, assim. Mas isso aqui é legal, ó. É um que você bate aqui e te leva, rastreia. Esse aqui, por exemplo, é o Amazônica Burger. É igualzinho carne, só que à base de fibra de caju. Não tem nada de aroma, nem cheiro de caju, nada disso, tá? Mas a textura é perfeita de carne, o sabor de carne, e a gente usa uma pimenta acici, muito indígena. Quando você bate aqui, te leva pros produtores lá na Calha Norte, que é uma das principais regiões de preservação ambiental do mundo, de floresta tropical. É a maior, na verdade. Isso é pela Origens Brasil, que, depois, quem tiver curiosidade, entra no site deles. É um trabalho seríssimo. É essa rede transparente de... e são os parceiros de primeira ordem nossa, junto com a Embrapa. Então, é um trabalho muito sério. A gente leva isso muito... sério mesmo, e além de comprar o ingrediente deles, a gente reverte parte da venda para eles. Então tá aqui, ó, quem quiser conhecer.
Eron Falbo: [24:43] Muito legal. Para quem tá ouvindo aí no podcast, ele tá mostrando uma caixa do hambúrguer, é isso?
Cello Camolese: [24:51] Isso, a gente tem oito produtos, tá? Esse aqui é o hambúrguer.
Eron Falbo: [24:54] Sim, é de um hambúrguer, de um dos hambúrgueres.
Cello Camolese: [24:56] Tem o Siriju, que é igualzinho o cabeçiri catado, só que é um croquete, também com base de fibra de caju. Tem gosto de frutos do mar, é uma coisa maravilhosa.
Eron Falbo: [25:06] E isso a gente encontra onde?
Cello Camolese: [25:08] Por enquanto no Rio, a gente tá na rede Guanabara, Mundial, Supermarket, as lojas escorrendo daqui, La Fruteria, Carioca Zen.
Eron Falbo: [25:22] E tá no Brasil inteiro ou não?
Cello Camolese: [25:24] São Paulo a gente tá no Oba Hortifruti, Instituto Chão, Empório São Paulo, enfim.
Eron Falbo: [25:35] Mas tem pelo Brasil inteiro ou é Rio, São Paulo?
Cello Camolese: [25:38] Brasil inteiro, Brasil inteiro. No Nordeste, na Rede São Luís. Estamos entrando no Big, que é uma rede grande também. Vamos entrar no Zona Sul aqui, no GPA, que é o Pão de Açúcar. Enfim, daqui a pouco vocês vão começar a ver por aí.
Eron Falbo: [25:56] E vem de como? É congelado ou não?
Cello Camolese: [26:03] Congelado. E é o único também do segmento que é Clean Label, ou seja, que também é uma nova expressão, né? As expressões da moda. O Clean Label é o rótulo limpo, ou seja, não tem nada aqui de coisa esquisita, de emulsificante, de conservante. Agora tô com pouca luz aqui e eu tô meio cegueta, meu óculos tá meio vencido.
Eron Falbo: [26:33] Tem canábis na caixa?
Cello Camolese: [26:36] Não, não tem. Mas eu tenho um produto assim, limpíssimo, ou seja, é o único no mercado que não é uma comida de laboratório esquisita, entendeu? É comida de verdade.
Eron Falbo: [26:48] Ah, que bom. Muito legal. Pô, sustentabilidade é... É claro que sustentabilidade é sempre bom, né? Tipo, sempre foi bom manter, né? Tipo assim, os nativo-americanos tinham um sistema sustentável de caça, né? A sustentabilidade sempre foi boa. Agora, é claro que no nosso mundo algumas coisas são muito exageradas, né? Pra coisa de sustentabilidade. E outras, assim, realmente são preocupantes. Como você sabe a diferença para você se dedicar tanto, criar uma empresa? Onde estão suas fontes, além da Embrapa, no geral, para você separar o joio do trigo? Porque tem tanta... É difícil saber hoje em dia.
Cello Camolese: [27:40] Na verdade, acho que tem que se informar. Tem que se ler muito a respeito. Não dá para ficar acreditando em fake news, ou ter gente que não sabe nada do que está falando falar como se fosse uma verdade absoluta. Então acho que é se envolver de verdade com os assuntos, pesquisar e tomar cuidado com o que você lê, com o que você ouve, a fonte, de onde está vindo. Mas o fato é que a floresta corre risco. Isso não tem dúvida. Isso é ciência.
Eron Falbo: [28:18] Sim, independente da culpa de quem seja.
Cello Camolese: [28:22] O que a gente fomenta com esse projeto aqui não é a floresta intocada, mas sim uma bioeconomia sustentável, da floresta em pé. Você gerar a riqueza que reverta, de fato, para os povos dali, que estão ali, os povos originários, quem está vivendo daquilo. Sair devastando aquilo não é inteligente, né? Se você quer vender carne, o cara não vai comprar tua carne mais, entendeu? Não adianta. Então, é um risco, inclusive.
Eron Falbo: [28:58] E não começou agora, né? Não começou nesse regime.
Cello Camolese: [29:02] Quem tá nesse mercado agropecuário sério já entendeu isso. Já entendeu isso. O cara também não quer, porque ele sabe que se ele mijar fora do penico, ninguém vai comprar dele. Europa não vai comprar, China não vai comprar, Estados Unidos não vai... Agora fica um discurso vazio em torno de uma paranoia de invasão, uma paranoia de que o mundo vai acabar.
Eron Falbo: [29:40] Estava lendo sobre isso mais cedo, que o ser humano, a humanidade, já passou por várias culturas diferentes, por vários momentos de cataclismo, de apocalipse. O mundo dessa vez vai acabar mesmo, né? Tipo, os israelitas antigos, os maias, a peste bubônica. Acho que, na verdade, em toda geração tem algum evento, algum acontecimento que gera uma preocupação e uma previsão de que em certa quantidade de tempo vai tudo se acabar. Então a gente está vivendo essa coisa do ambientalismo hoje em dia. Eu tenho um paralelo aqui que eu anotei, que em 1970 a população do mundo estava mais ou menos 3,5 bilhões de habitantes. Um pouco mais que dobrou, mas praticamente dobrou. Em 1970, estimavam que no ano 2000 não ia ter o suficiente para alimentar as populações do mundo, porque a população estava crescendo tanto. Em 1970, tinha 900 milhões de pessoas com fome no mundo. Em 2017, tinha 800 milhões de pessoas com fome e a população dobrou. Então assim, a fome diminuiu mais do que a metade de 1970 até 2017 em termos proporcionais. Então assim, a previsão é justo o contrário do que estavam botando medo nas pessoas. Então acho que tem que ter esse discernimento, a gente entender que a nossa geração não é única em termos de pessimismo, de sensacionalismo, de previsões, etc. E realmente a gente tem que ler e tem que estudar o que realmente a gente tá cagando, né? E essas coisas que a gente tá cagando, a gente tem que ir de forma sustentável, liberal, economicamente viável e não demagoga, né? Que nem você tava falando mais cedo, não é uma questão de tocar o coração das pessoas, é a questão de fazer a coisa realmente continuar, a beleza desse planeta, a abundância desse planeta, que a gente lê nos livros antigos, quando os exploradores chegaram na América pela primeira vez, a beleza da natureza que eles encontraram aqui, a abundância, como se fosse o Jardim do Éden, intocada. E isso que a gente não pode deixar escapar das nossas mãos, esse mundo perfeito que a gente tem ainda.
Cello Camolese: [32:17] É imprescindível, acho que é importante que todo mundo se inteire do que tratam essas teorias da conspiração que ficam levantando, que vão dominar a Amazônia, que a Amazônia é nossa. A Amazônia é nossa, de fato, só tem que tratar bem dela e não tratar mal. Eu entendo que esse governo tem fracassado redondamente ao tratar a Amazônia, no seu discurso, nas suas práticas. Tendo a discordar enormemente das políticas. Sou por uma Amazônia em pé, por uma economia sustentável. Enfim, é um outro viés, acho.
Eron Falbo: [33:17] Sim, sim.
Cello Camolese: [33:18] Se prega, entendeu? Mas acho que isso tudo é parte também de um crescimento nosso, de a gente aprender a lidar com essas diferenças, com as ideias, e amadurecer também a gente como nação e entender esses extremos e perceber que, de fato, nenhum extremo vai ter as respostas que a gente precisa. Tem que ter tolerância, tem que ter bom senso, tem que ter discussão, debate, democracia.
Eron Falbo: [34:00] E também a humildade da gente entender que a gente não necessariamente vai ter resposta, a gente está num processo de aprendizado constante e tem que ter essa abertura, porque essa briga de esquerda e direita, cada um pressupõe que tem resposta, que o outro não tem. Então, se a gente partir do princípio que ninguém tem resposta, acho que fica um pouquinho mais tolerante.
Cello Camolese: [34:23] Esse antagonismo, ele é burro, porque ele se alimenta, na verdade, se retroalimenta. Então é como se fossem só dois polos, só que tem todo um corpo no meio, as pessoas não estão levando em consideração, entendeu? Hoje, chutando por baixo, é 40% da população, sabe? Que não está nem tanto aqui, nem tanto lá, e que quer, na verdade, buscar um novo entendimento.
Eron Falbo: [34:54] Moderada, é uma população mais moderada. Que é o que eu me considero, se você está falando de conservadorismo, liberal, com certeza, conservador para muitas coisas, progressista para muitas coisas. E também não dá nem para dizer, porque dentro de um assunto depende do que você está falando. Mas, no geral, moderado e liberal, posso dizer que eu me orgulho de levantar essas bandeiras, que é o que para.
Cello Camolese: [35:22] Pra mim é... Não é o que você é, mas o que você permite, tolera que o outro seja, sabe?
Eron Falbo: [35:30] Ah, com certeza.
Cello Camolese: [35:31] E isso que tá faltando, eu acho. Tá faltando, e pode ser o que você quiser, desde que você permita que o outro seja também. E que a gente, inclusive, seria desejável que a gente pudesse conversar sobre isso, né? Tudo bem.
Eron Falbo: [35:47] Sim.
Cello Camolese: [35:49] Da maneira que ela hoje está colocada, não é só no Brasil, acho que no Brasil especialmente, mas é uma tendência, acho, no mundo hoje, que até a própria derrota do Trump é bem-vinda nesse caso, porque também se esfria um pouco essa polarização.
Eron Falbo: [36:12] Não sei se vai fazer, mas pode ser. Ele alimentou muito isso.
Cello Camolese: [36:21] Pra destruição, pra autodestruição.
Eron Falbo: [36:23] Cello, vamos virar a esquerda um pouquinho aqui nessa conversa e vamos falar um pouquinho de música, que hoje mais cedo eu tava olhando seu Instagram e vendo que, coincidentemente, eu tava ouvindo aquele disco... como é que é o nome? Getz/Gilberto? Do Stan Getz com o João Gilberto? Aí eu vi que você tinha uma foto do João Gilberto no seu perfil. E você ainda tem aquela banda lá com o Guti, não? É Tantra o nome dela, não?
Cello Camolese: [36:54] É Tantra, sim. Essa é a banda eterna, sabe? Mesmo que ele não esteja tocando, a gente continua com a banda.
Eron Falbo: [37:03] É mais um grupo de WhatsApp.
Cello Camolese: [37:07] É verdade, sim. Sou eu, ele e o Marcelo do Rio, que é um outro sócio meu, que hoje mora na Califórnia. Então, com a ida dele para lá, a gente diminuiu os ensaios, entendeu? Antes os ensaios eram três por semana, agora são três por ano. Mas a banda continua existindo.
Eron Falbo: [37:29] Mas é aquela Tantra ou é outra banda?
Cello Camolese: [37:33] Não, é outra.
Eron Falbo: [37:35] Ah, a Tantra que é... Tantra, tô brincando. Qual é o nome da banda?
Cello Camolese: [37:41] Pois é, sabe que isso é uma outra questão, né? Porque eu acho que a banda chama uma coisa, eles acham que a banda chama outra coisa. Eu acho que a banda chama Vibradores, por exemplo.
Eron Falbo: [37:51] Vamos ver, a Fernanda Menegaste tá aí, ó. Fernanda, diz aí, qual que é o nome da banda de acordo com as esposas?
Cello Camolese: [38:02] Na verdade, música pra mim é super importante. A música, na verdade, foi o que despertou esse meu lado, inclusive empreendedor, sabia? Eu acho que todo empreendedor tem uma coisa meio artista, assim, de desenvolver as ideias. Olha o Guti aí. Isso, viu?
Eron Falbo: [38:24] Ah, o Guti falou Vibradoras. E o Guti, porque tá ao vivo aqui, não quer se expor. Mas, Guti, depois você revela por que todos os nomes das suas bandas têm a ver com sexo, hein?
Cello Camolese: [38:43] Pois é. Inclusive, porque antes dessa, era a Fuego, que era... até Plebe Hood.
Eron Falbo: [38:53] Tem mais ou menos, né? Porque o Hood lá tá dando uma alusão. O que o Plebe tá fazendo? Tá sendo o Hood, né? Tá fazendo merda.
Cello Camolese: [39:01] Você conhece o Caíto, né? Caíto Maia, é meu brother.
Eron Falbo: [39:06] Eu nunca fui apresentado não, mas eu sei quem é.
Cello Camolese: [39:09] É meu brother da adolescência. E a gente tinha uma banda chamada Las Chicas Tendem Fuego. Isso em São Paulo, início da década de 90. E daí ele foi montar a Chilli Beans e eu fui montar a The Vassas. Não faz sentido: Las Chicas Tendem Fuego, Chilli Beans, The Vassas.
Eron Falbo: [39:28] Aí o Gucci tá falando, melhor do que sexo, só rock'n'roll.
Cello Camolese: [39:31] Isso, mas eu acho que tudo junto.
Eron Falbo: [39:35] É, concordo, velho. Então, e a sua experiência? Como é que chama? Alteradores da percepção, né? Sexy rock and roll. Exatamente.
Cello Camolese: [39:48] Mas a música que eu vou estar falando... Inclusive quando eu fui para Londres, em 1985, eu era muito novo já, sei lá, 18 anos. Eu não tenho família rica, então eu tinha que começar a trabalhar para conseguir sobreviver lá, tive de trabalhar em bar, em restaurante. Foi lá que comecei, na verdade, a aprender a fazer drink, a trabalhar em bar. Então, quando voltei para o Brasil, fazendo som, música, trilha sonora para cinema, e aquilo não dava grana, falei: vou montar um bar paralelamente aqui para ver se consigo. Montei um bar na Vila Madalena, em 1990, o The Jungle. Depois um outro bar, depois não sei o quê. E Vila Madalena em 90, quando tava começando a vila, né?
Eron Falbo: [40:40] Mas você chegou a tocar lá em Londres, não? Você chegou a fazer alguma coisa lá?
Cello Camolese: [40:44] Cheguei, cheguei. Tinha uma banda lá, com punk e tudo.
Eron Falbo: [40:49] Eu morei lá 4 anos, não sei se já te falaram isso, em Londres, e tive uma carreira, fui da Universal Music, tive uma microcarreira musical aí na Inglaterra.
Cello Camolese: [41:02] Pô, que legal, Nika. Eu não sabia.
Eron Falbo: [41:05] Depois eu te mando alguma coisa.
Cello Camolese: [41:06] Eu não tinha nenhum contrato, nada, mas eu tinha banda e a gente tocava nos pubs, assim. Morei 2 anos lá. Então eu gastava minha grana toda com música, comprava vinil pra cacete, via show pra cacete, enfim...
Eron Falbo: [41:21] Eu também, eu também. Gastei muito dinheiro. Até que um dia eu comecei a... O que a música faz é a gente gastar muito dinheiro, né? Comprando disco, investindo na carreira, né? Comprando guitarra, pagando estúdio, fazendo turnê, né? Com van alugada, não sei o quê. Exatamente. Aí, em algum momento, a gente falou: deixa eu ganhar um pouquinho de dinheiro aqui.
Cello Camolese: [41:44] Pois é, mas a música me ensinou muito, assim. Inclusive banda, essa coisa de tocar em grupo, né? De ser valorizado, cada um que tá ali, cada um tem uma contribuição pra fazer. Isso dá um senso de... nem de jogar futebol, quase, assim, sabe?
Eron Falbo: [42:01] Sim, é tipo trabalhar em equipe, aquela coisa que se desenvolve organicamente, né? Que a gente tem que ceder um pouquinho, que as coisas meio que acontecem, né?
Cello Camolese: [42:12] E aflora a sua sensibilidade. Então, pô, aprendi a fazer luz, de bar, de restaurante. Eu acho que, muito da música, fazer uma luz legal, criar um clima e tal.
Eron Falbo: [42:25] E saber a importância também, porque às vezes você, lá, vivendo o palco, tendo essa sensibilidade... você não é só o público, você está lá como parte de produtor e público ao mesmo tempo. Porque eu acho que quem é amante da música é sempre fã. Os caras que tocam, que se dedicam... Porque é uma parada ingrata, né? Você tem que ralar pra caramba, tem que... É muito do it yourself, o mundo da música. Então você acaba tendo essa visão dupla, né?
Cello Camolese: [42:55] Exatamente. E eu acho que hoje, inclusive, a gente já estava falando no começo, que retoma um pouco a nossa conversa inicial, que a tecnologia hoje permite você ser uma banda de um homem só, né? Claro que não tem a mesma graça de você tocar com uma banda, com uma galera que você curta, que você tá ali dividindo, que você olha na cara, que você vibra junto e tal. Mas eu tô fazendo. Eu já tinha feito música eletrônica, voltei a fazer agora, sozinho, programando, tocando guitarra, fazendo... E também é uma condução. E, pra mim, na hora que eu entro ali, é um negócio que vai pra um outro... uma outra galáxia, sabe?
Eron Falbo: [43:40] Deixa... Uau, música eletrônica, então você...
Cello Camolese: [43:43] Passam-se três horas e eu tô ali ainda, tipo: caraca, eu tô fazendo turnê, preciso não sei o quê, preciso trabalhar, sabe? Então, a música pra mim ainda é um negócio que me mexe muito, sabe?
Eron Falbo: [43:56] É... Eu tento nem começar com isso, porque, cara, tô tão ocupado ultimamente que, se eu começar, eu realmente vou perder... vou perder o fio da minha alma.
Cello Camolese: [44:07] Vai perder o eixo.
Eron Falbo: [44:08] Vamos responder umas perguntas aí que o Maurício tem um saco cheio pra gente responder. Porque a gente entra no papo e esquece da galera, mas tem que lembrar. Vamos lá. Maurício, pra começar, porque é ele que tá se representando: o Maurício Branco perguntando por que entrou no mercado da culinária asiática. Amei o Mitsuba.
Cello Camolese: [44:31] Eu, na verdade, nunca quis ter um restaurante japonês ou asiático, propriamente dito. Quando eu tive o Zero Zero, a gente tinha, inclusive... No Zero Zero tinha uma cozinha contemporânea, tinha um bar bacana, tinha uma área externa fodona, mas aí tinha um sushi ali. Mas não é que eu achava que eu tinha um restaurante japonês, tinha um sushi legal, que era o que o Carlos fazia, era um sushi de alto nível, mas não era um japonês. Eu nunca tive e quis ter um japonês. Mas, no caso do Mitsuba, eu era fã, continuo fã, do Mitsuba lá da Tijuca. Fui frequentador assíduo, virei amigo do Homero, do Nakahara. E nas crises pós-Olimpíada, que todo o mercado do meio já tinha entrado em crise naquela época, a gente conversou, falou: pô, vamos trazer um Mitsuba pra nós, mantendo a Tijuca. Tem muita gente que acha que eu tirei... E eu, o cara frio e calculista que tirou o Mitsuba da Tijuca, não fui eu.
Eron Falbo: [45:40] É a sua cara, frio e calculista.
Cello Camolese: [45:43] Eu queria ter mantido o Mitsuba da Tijuca. Foi uma decisão dos sócios, por achar que não ia conseguir dar conta da qualidade de ter dois lugares. É um lugar muito especial, muito específico. Então, a gente trouxe pro Leblon. Eu passei a ser sócio a partir daí, entendeu? Então, é isso. Não é uma coisa que eu almejava; eu era muito fã e queria participar daquilo de alguma maneira.
Eron Falbo: [46:12] Beleza, a Janara Morena tá perguntando qual o ticket médio desses produtos, Mara. Ah, esse aqui?
Cello Camolese: [46:21] Imagino que é esse que é o tamanho. Bom, esse aqui é do segmento, no Mercado Guanabara você vai achar em torno de R$ 17, R$ 18, mais ou menos.
Eron Falbo: [46:35] Beleza. Mendi Abutbu, seja bem-vindo, Mendi. Obrigado por assistir. Quando o Cello vai lançar a Amazônica Kosher?
Cello Camolese: [46:44] Por acaso, a gente está falando com o rabino sobre isso, e vendo a viabilidade, porque não é só você fazer o kosher, você tem que ter toda uma logística, não é só ir lá e benzer o produto, você tem que ter uma logística, separar e tal. Nesse momento, como a gente tá muito startup ainda e com uma série de demandas urgentes, não tá dando pra fazer, mas a gente já chegou...
Eron Falbo: [47:18] Mas não deve ser muito difícil, porque não tem carne, né? A parte mais difícil da comida kosher é a parte de carne, não?
Cello Camolese: [47:25] Eu não sei, honestamente, eu não entendo tanto.
Eron Falbo: [47:28] Mas não tem carne na Amazônica? Não tem nada de carne? É substituto de carne, né?
Cello Camolese: [47:37] Então, proteínas, vegetais, todas elas análogas à proteína animal. Esse aqui tem gosto de suculência, cor de carne, mas não é carne. Mas é melhor que carne.
Eron Falbo: [47:49] Mas é, na comida kosher, o mais difícil mesmo é, claro, que você tem que ter a supervisão rabínica. De repente, uma versão kosher seria mais cara, por causa desse processo de supervisão rabínica. Mas o que eu posso dizer é que a supervisão rabínica não é muito complexa. A parte mais complexa é o primeiro momento de analisar todas as máquinas, para ver se tem alguma parte do processo que está sendo misturada de alguma forma com alguma coisa animal, entendeu? Porque o problema principal de comida kosher é ter banha de porco, queijo parmesão, por exemplo, é misturado com... É difícil queijo parmesão ser kosher por causa disso. Mas a sua empresa, acho que justo a proposta dela é de substituição de carne, então vocês já devem ter...
Cello Camolese: [48:41] Não tem nada animal. E assim, a gente foca em... Na verdade, não é nem necessariamente um produto só para veganos, tá? É justamente para todo mundo. Esse é o barato desse negócio, é que a gente fala para... Aqui também é uma outra expressão da moda, que são os flexitarianos, que é quem come tudo, mas que pensa no que come, respeita o tempo das coisas. Pô, comi carne anteontem, não vou comer hoje, vou substituir por isso, por aquilo e tal. Então, esse é o barato de você pensar no que você come, né? Assim, não é só botar coisa pra dentro, não é só matar fome, né?
Eron Falbo: [49:24] Tem que ter esse momento de ver o outro lado, né? Tipo assim, se a gente bebe todo dia, a gente perde até o gosto de beber, né? Meio que vira um costume, você esquece do prazer daquela novidade, né? Tipo, se você passa uma semana sóbrio, aí você bebe e você fala: pô, que legal beber.
Cello Camolese: [49:52] Exatamente, você passa a valorizar mais aquele momento, de fluxo, que você fica naquele negócio e nem sabe mais o que está fazendo aquilo. Ao passo que você começa a criar uma espécie de disciplina, você passa a valorizar mais.
Eron Falbo: [50:14] Acho que filosoficamente tem tudo a ver com sustentabilidade. Sustentabilidade às vezes nem é sobre... Porque existem aqueles teóricos, até cientistas renomados, que pregam que a natureza é muito maior do que o ser humano. Então a natureza não vai... Não vai ter tantos problemas quanto a gente está pensando. Mas às vezes é uma parada mais filosófica: a gente não quer entrar numa onda tão contínua de consumo porque a gente quer, de repente, ter uma outra experiência. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, o Mar do Norte tinha um problema muito sério de falta de peixe, logo antes da Segunda Guerra Mundial, porque era muito explorado ali. Aí, durante a Segunda Guerra Mundial, por causa das batalhas navais e tudo mais, pararam de pescar. Aí, depois da Segunda Guerra Mundial, tinha uma abundância enorme de peixes. Então, assim, foi muito bom pra indústria, foi muito bom. E, assim, é uma experiência de inovação: você deixa a natureza em paz durante cinco anos que... É uma volta normal, pode ficar tranquilo.
Cello Camolese: [51:27] Então, você vê que a natureza sobrevive muito bem sem a gente, né? E a gente não sobrevive sem a natureza. Então, se tirar todos os humanos da Terra, a natureza daqui a cinco anos vai estar como talvez fosse cem anos atrás.
Eron Falbo: [51:44] É. Agora, se tirar a natureza da gente.
Cello Camolese: [51:47] Daqui a cinco anos... É verdade.
Eron Falbo: [51:52] Esse é um bom ponto. Eu vou botar essa frase aí no meme, hein, Cello Camolese? Essa é boa.
Cello Camolese: [52:01] Mas aí com meme é mais caro, entendeu?
Eron Falbo: [52:04] Não estava incluso no nosso contrato o meme? Então você vai ter que me pagar mais pelo meme, porque você que vai ficar popular pra caramba, vai vender a Amazônia e Camus.
Cello Camolese: [52:19] Me faz bombar aí, tô louco pra cima. Me ajuda, vai, na carreira.
Eron Falbo: [52:25] Vamos te ajudar, pô. Tamo junto, tamo junto, com certeza. Eu adorei conversar com você, Cello. A gente claramente pensa muito parecido. Aquele dia lá, a gente se conheceu brevemente. Acabou que nem conversou, né? Porque o Guti não deixa ninguém falar. Mas a gente tem que marcar, quando eles voltarem do exílio político deles aí no Sul, a gente tem que marcar todo mundo. Vocês estão convidados aqui pra casa, a gente toma um whisky e soda. E vamos continuar, os dois. Você mora onde? São Conrado? Desculpa falar pra todo mundo, mas é um bairro grande, né? Então é isso, Cello. Muito obrigado, cara. Obrigado pela presença. Foi um papo iluminador, iluminante, iluminático. Foi muito bom. E aí, abraço a todos. Tudo de bom.
Cello Camolese: [53:31] Beijão.
Eron Falbo: [53:33] Valeu. Boa noite. Tudo de bom.
No Alvo com Eron Falbo · episódio #53 · todos os episódios