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#51 A ilha dos prazeres

com Deise Novakoski · 20 de jan de 2021

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Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Abertura e apresentação de Deise Nowakowski (0:00)

Eron Falbo: [0:00] Do Alvo com Eron Falbo.

Deise Novakoski: [0:03] Sejam.

Eron Falbo: [0:09] Bem-vindos! Você entrou no Alvo, eu sou Eron Falbo. Estamos aqui com Daisy Novakoski. Daisy é uma sommelier e bartender com décadas de experiências nessas áreas que só vieram à tona mais recentemente no Brasil para os réis mortais. Então junte-se a nós, sente-se ao redor da fogueira. Vamos ter acesso juntos ao paladar especial dessa nobre e poderosa alquimista. Tá tudo certo.

Deise Novakoski: [0:42] Eu não tô vendo direito aqui por causa da luz.

Eron Falbo: [0:48] É uma gata?

Deise Novakoski: [0:50] Não, é uma cavelinha, é a Pipa.

Eron Falbo: [0:53] Ah, agora eu tô vendo direito, agora eu tô vendo melhor. Vou até aumentar o brilho aqui pra poder ver melhor. Desculpa, saiu? Você mora no Rio? Você mora em São Paulo?

Deise Novakoski: [1:03] Onde você mora? Eu moro no Rio de Janeiro, sou abençoada. Hoje é aniversário da cidade, que maravilha! Eu nasci naquele lugar esquisito, que as pessoas que fazem certo costumam dizer, como o Butunda diz, que lugar mais esquisito você fez, Técnico? São Paulo!

Eron Falbo: [1:25] Aquelas pessoas que fazem sexo, né? Aquelas pessoas que ainda fazem esse tipo de coisa.

Deise Novakoski: [1:31] Não, o Gusundo falou que lugar mais esquisito você fez sexo, em São Paulo.

Eron Falbo: [1:39] Essa é muito boa.

Deise Novakoski: [1:43] Eu nasci lá.

Eron Falbo: [1:46] Você nasceu em São Paulo? Eu nasci em um lugar mais esquisito ainda. Aposto que eu ganhei de você em um lugar esquisito. Eu nasci em Brasília. Existe um lugar mais esquisito que Brasília, na sua opinião?

Deise Novakoski: [2:00] É para fazer qualquer coisa.

Eron Falbo: [2:03] Exatamente.

Deise Novakoski: [2:04] Para fazer qualquer coisa. Brasília é o concurso, né? E aí, o que a gente está bebendo hoje? Bom, estamos bebendo um vinho com... Eu deixei para botar a soda agora, tá?

Vinho com soda e dicas de sommelier (2:10)

Eron Falbo: [2:22] Tá certo.

Deise Novakoski: [2:23] Eu já boto soda, limonada para finalizar, gelo e soda. Hoje, como eu estou a fim de beber pouco, eu vou botar só a meia garrafinha agora. A Pipa tá aqui esperando, que essa garrafinha é o brinquedinho.

Eron Falbo: [2:42] Dela, então, um brinde! Valeu, Deise! Só de vinho, né? Eu tô com vinho com soda também, só que eu botei...

Deise Novakoski: [2:53] Pouco a soda aí, tá? Não, eu esculacho mesmo.

Eron Falbo: [3:01] Eu não sabia dessa tecnologia de botar soda no vinho. Bom, eu sabia que existia esse tipo de coisa, mas nunca fiz em casa isso.

Deise Novakoski: [3:11] Aí eu boto gelo mesmo, boto soda. Agora, nesse verãozão, não tem quem aguente vinho branco. Nem o vinho branco eu aguento. E aí eu digo assim: você precisa de família para comprar esse tipo de vinho. Porque, para comprar aqueles vinhos carões, você só precisa de dinheiro. Agora, para comprar vinho barato, fácil e bebível, precisa de ajuda. Um vinho como esse, que você vai usar para misturar com soda, não é chegar lá e comprar o mais barato, não, porque isso dá cada dor de cabeça, dá cada ressacão. A gente precisa de ajuda do baratão, sabe? Porque o barato pode ser muito caro.

Burle Marx e seus drinks de artista (3:56)

Eron Falbo: [4:01] Essa foi uma das coisas que mais me impressionou quando eu falei com você primeiro, que você tinha essa simplicidade de falar assim: 'O que você vai beber hoje?' Eu estava falando com a sommelier, eu pensei: 'Pô, ela vai chegar aí com um Pinot Novo, alguma coisa da Mongólia, alguma coisa totalmente diferente', e ela falou: 'Hoje eu vou beber um vinho vagabundo com soda, porque, nesse calor, nessa economia, é isso que a gente tem que mostrar para as pessoas. É isso que as pessoas vão gostar.'

Deise Novakoski: [4:41] Estamos todo mundo há um ano sem ganhar o que ganharia. No meu caso, eu, assim, desempregada, tudo utilizado, tenho dado uma aula ou outra.

Eron Falbo: [4:55] Muita gente está nessa situação, infelizmente.

Deise Novakoski: [4:58] Aí, você vai fazer o quê? Tem mais é que beber o que você puder, tentar melhorar o que você tem em casa.

Eron Falbo: [5:10] Com certeza. Usar as cartas que você tem na mão.

Deise Novakoski: [5:13] Exatamente. E eu aprendi isso muito cedo, porque o Burle Marx tem um livro que... Ele encenava alguns pratos. O Burle Marx era um cara sensacional, todo mundo sabe disso, claro. Mas poucas pessoas sabem o quanto ele era talentoso. Ele pintava tecidos. Além dos jardins maravilhosos que ele fez, ele pintava tecido, desenhava joias, cozinhava e fazia drinks. E, quando ele vendia um quadro, pronto, estava rico. Aí ficava um tempão sem vender alguma coisa, sem fazer um projeto, e pronto, estava pobre. Mas nunca, jamais, deixou de comemorar, de fazer festa, né? Porque eu acho isso sensacional, né? Isso é inspirador. E aí, quando estava rico, carão, caviar; quando estava pobre... Isso é normal para artista, né?

Eron Falbo: [6:14] Para artista no geral, atores, né? Ainda mais, gente, até jogador de futebol vive, às vezes, uma época da vida em grandeza econômica e depois entra numa fase, continua com a fama, né, com um status meio de lendário, mas não tem dinheiro nenhum. Então, tem que aprender a fazer festa com soda.

Deise Novakoski: [6:39] E aí o Burle Marx tinha umas receitas pra aumentar a bebida alcoólica, né? Ponche e não sei o quê. E ele tinha um ponche de pitanga, que eu adoro, adoro. Você botava no vinho tinto e a pitanga, o suco de pitanga, ele fazia o gelo com o suco de pitanga e misturava com vinho tinto. Cara, mas aquilo ficava sensacional. E ele dizia que tinha que ser com vinho brasileiro, porque era fácil, então aquilo aumentava, sabe? Cara, mas era muito bom esse ponche dele. E eu adoro.

Eron Falbo: [7:17] E você tinha muito contato com ele? Você ia nessas festinhas? Como é que era?

Deise Novakoski: [7:22] Não, eu não tinha idade ainda, não ia nessas festinhas, né?

Eron Falbo: [7:27] Ah, desculpa, eu não sei qual é a época dela, se isso não foi nenhuma indireta. Eu não sei exatamente o que é, porque morei muito tempo fora. Os artistas brasileiros eu tomei por fora, desculpa a ignorância.

Deise Novakoski: [7:46] Não, não, magina, não há nenhuma ignorância de sua parte. É bem possível que eu tenha ido a várias coisas. Ô, Pipa, você quer descer? Ou você quer mandar um beijinho para todo mundo? Manda um beijinho lá para todo mundo, ó, Pipa. Pipa, às vezes não quer ficar aqui atrás de mim, ela não quer saber da divulgação. Um beijo para a Pipa. Ela adora carinho e atenção o tempo todo. Mas a Pipa não é minha, ela é emprestada. Eu tenho um cachorrinho... Você é um babysitter, eu tenho guarda compartilhada.

Eron Falbo: [8:26] É mais séria do que a babysitter.

Deise Novakoski: [8:29] É, porque a minha cachorrinha faleceu mês passado, então... Sinto muito. Então, a Pipa para me distrair um pouquinho, e eu vou caminhar com a Pipa de vez em quando, hoje eu vou de tarde e tal. E ela é uma ótima companheira. Mas, enfim, eu não frequentei as festas do Burle Marx, mas o que eu sei da história dele é porque, como trabalhei na H.Stern e tivemos uma coleção de joias dele, lançamento de coleção. Quando fizemos esse lançamento, estudei um pouco sobre a vida dele para poder fazer uns drinks em homenagem a ele e a essa coleção. Quando isso aconteceu, ele já estava morto. Mas quem me dera! Quem me dera!

História e mitos do absinto (9:09)

Eron Falbo: [9:22] Tem uma lenda que o absinto veio de justo esse conceito, de, acho que no século XIX, ou no final do século XVIII, talvez, acho que no começo do século XIX, os boêmios franceses, que eram artistas e muitas vezes não tinham muito dinheiro, inventaram esse drink baseado, não sei se era anis, alguma coisa assim.

Deise Novakoski: [9:49] O absinto era chamado de fada verde.

Eron Falbo: [9:55] É, mas... Desculpa.

Deise Novakoski: [9:59] Eu misturava o absinto, que é uma bebida à base de anis, de semente de papoula, na verdade. E aí, quando misturava com a água, ele ficava nublado, leitoso, mas esverdeado. Então, eles chamavam de fada verde, porque você tinha alucinações, via coisas. Dizem que o Van Gogh, quando cortou as orelhas, estava chapado de absinto.

Eron Falbo: [10:30] Eu já tentei ver coisas com absinto, bebi bastante e não vi nada. Então, não sei se é o mesmo absinto.

Deise Novakoski: [10:37] Não, mas acontece que já nos anos 60, eles cortaram a quantidade de semente de papoula que era colocada. Eles mantiveram o teor alcoólico durante um período, outro período aumentaram, mas jamais teve a mesma quantidade de semente de papoula que tinha lá no tempo dos renascentes.

Eron Falbo: [11:01] Eu já consegui absinto búlgaro de 89% de álcool, foi outra experiência.

Deise Novakoski: [11:08] O teor alcoólico é lógico que vai fazer muita diferença, mas o que vai fazer grande diferença, realmente, é a quantidade de semente de papoula junto com o teor alcoólico, claro.

Eron Falbo: [11:23] E também as histórias que tem para contar, porque senão não pode beber quando quiser.

Deise Novakoski: [11:29] Agora, essa concentração de semente de papoula nunca mais vai ser permitida em país nenhum. Eu trouxe da Alemanha uma garrafinha, uma baby garrafinha, ainda com uma concentração... Mas não era... Ah, tem gente de Lisboa aqui! Tem gente de Lisboa vendo a gente. Olha que coisa! Tem gente da Espanha e agora da França. Que coisa! Estamos internacionais, olha! Vou dando beijo para todo mundo que tá na live. Beijo, beijo.

Eron Falbo: [12:16] Bate, bate.

Deise Novakoski: [12:18] Bate tanto. E aí eu trouxe uma garrafinha, tinha uma concentração, mas só deu mesmo dormência nas partes baixas. Não deu assim.

Eron Falbo: [12:34] Entendi.

Deise Novakoski: [12:36] Como o gin, né? O gin também é dessas bebidas que dá uma dormência, da cintura pra baixo.

Eron Falbo: [12:44] Ah, é? Tem essa? Eu conheço umas bebidas, dá essa dica aí, porque às vezes, quando tem essa dormência, as mulheres não gostam muito.

Deise Novakoski: [12:52] Pois é, aí é que eu ia falar mesmo. Eu não entendo por que o gin tem feito tanto sucesso entre as mulheres ultimamente. Porque elas estão adorando.

Eron Falbo: [13:03] Elas estão ficando com os caras erradas, eu acho. Aí estão gostando do dormência, entendeu? Pra não sentir muito... Você vê que...

Deise Novakoski: [13:10] Está dando muita tristeza? Aí o gin está dando uma adormência, está dando calma.

Eron Falbo: [13:17] Também, a expectativa das mulheres hoje em dia é de muita abertura sexual. Eu acho que elas não estão necessariamente psicologicamente preparadas para tanta abertura e elas têm que beber um gin para dar uma adormência nas partes inferiores.

Deise Novakoski: [13:32] Eu acho que essa coisa de dar uma acalmada nas partes inferiores é necessária, mas por vários outros motivos. Então, vou apanhar aqui agora. Por favor, não divulguem meu endereço, porque vai ficar uma piada aqui agora. Porque agora não pode falar mais nada, né? A gente está feia.

Eron Falbo: [14:01] Não, não, mas é para isso que serve o No Alvo com o Eron Falbo, esse programa: rebelde, rádio pirata, entendeu? Você pode falar o que quiser, porque eu sou dono. Aqui ninguém vai te processar, ninguém vai falar nada. Tudo eu absorvo. Absorvo qualquer dano, eu absorvo. Pode falar o que você quiser.

Deise Novakoski: [14:22] Não, desde o dia que o Pochá falou que não queria ter filhos e tal, e que deu aquele buzinho danado, eu falei: meu Deus do céu, que absurdo! Eu não tive filhos porque eu não quis também. Eu me casei com o vinho e meus filhos são os coquetéis. Pronto, vou virar alcoólatra, né? Mal falada... Tenho 57 anos, escolhi, foram as minhas opções. Agora, voltando à história das mulheres, eu fui a primeira mulher sommelier da América Latina. Durante 22 anos, nenhuma mulher seguiu carreira de sommelier. Eu era a única. Única. Não tinha outra. E eu pensava assim: caraca, que meleca é essa que escolhi? Deve ser muito ruim. Ninguém me contou nada. Eu não sou vanguardista, eu sou maluca. As pessoas devem ver alguma coisa muito ruim que eu não vejo. Mas eu não estou negra, então... E depois, de repente, começaram a entrar mulheres, mulheres, mulheres. E hoje tem uma profusão de mulheres em todos os setores, não é só na sommelieria, mas tem em tudo que é campo. Eu hoje até sei por que demorou muito para as mulheres entrarem e ficarem: porque elas entravam e saíam, não é que elas não entravam, não seguiam a carreira.

Primeira sommelier mulher da América Latina (14:34)

Eron Falbo: [16:02] Porque elas ficavam grávidas e não podiam beber durante nove meses, né?

Deise Novakoski: [16:07] Exatamente. Ficavam grávidas, não podiam beber durante nove meses. Aí mudava o lifestyle, quando você...

Eron Falbo: [16:14] Para de beber. Durante nove meses você descobre o dia, você descobre o sol, um monte de coisa ruim que você descobre. E para de beber vinho: todas as coisas boas da vida vão embora.

Deise Novakoski: [16:24] Fora da profissão, do trabalho, você está fora mesmo, porque o mercado do vinho é muito veloz, é muito rápido, sabe? E você, nove meses fora daquilo, já tem que praticamente começar do zero de novo. E mais ainda, você ficar nove meses sem beber... Você pode, você tem a opção de botar na boca, cuspir, ok, mas nove meses fora, alimentando ou criando, ou seja lá o que for, você começa a descobrir uma série de outras coisas, que não basta só dar um negócio. Ou então, pega o teu filho e entrega na mão de quem? Quem que vai criar aquela criança? É muito complicado tudo isso de ter filho. Qual é o marido que acha legal a mulher sair viajando com mais 20, 30 homens?

Eron Falbo: [17:24] Mas eu acho legal isso que você está falando, porque, com tanta pressão do lobby feminista, a primeira coisa que diriam é: não, por causa da profissão não tinha muitas mulheres, por causa do patriarcado masculino que impediu as mulheres. Mas você está falando de uma coisa biológica, tipo assim: as mulheres sentem, muitas vezes, uma pressão hormonal para ter filho quando chega aos 29, 30 anos, e muitas delas entram nessa fria.

Deise Novakoski: [18:03] Olha, 30 anos é quando você está exatamente começando a subir na sua carreira. Quando as papilas começam a amadurecer, você tem uma maturidade dessas papilas, realmente. Estabilidade, porque as papilas também vão amadurecendo. Quando você é muito jovem, você sente determinados paladares. Você vê que as crianças, quando estão lá no bercinho, elas não combinam: vamos testar brócolis e espinafre, todas nós? Não! Elas detestam porque sentem muito determinados sabores, mas, conforme a gente vai amadurecendo, a gente tende a não sentir mais tão profundamente os amargos e vai suportando melhor alguns. E aí, quando você chega aos 30 anos, você está no seu patamar mais estável, onde você consegue perceber tudo com muito equilíbrio e, de fato, avaliar e analisar tudo, gosto pessoal disso ou daquilo. Então, é muito bacana. Agora, esse negócio de dia e de noite, eu trabalhei 26 anos à noite. Quando fui trabalhar de dia pela primeira vez, fui trabalhar num restaurante no centro da cidade. E aí, era sábado, domingo, terça, feriado... E eu achei a coisa mais maravilhosa do mundo, sabe o quê? Pegar a fila do cinema. Eu queria ir no cinema pra ficar na fila, que eu nunca tinha ficado, eu sempre ficava na compra à mão de todo mundo. Eu ia no cinema e não tinha ninguém, eu ia de dia. Aí eu achava muito divertido ficar na fila do cinema. E ir no ônibus de dia, olhando as coisas, assim, que eu não via na cidade. Eu achava muito divertido.

Vida noturna versus vida diurna (19:09)

Eron Falbo: [20:15] Mas é um outro mundo, né? Eu trabalhei um tempo organizando festivais de música e, realmente, eu vivia só à noite, né? Aí, às vezes, você muda um pouquinho, pega um emprego, pega um contrato, alguma coisa, e muda. É um mundo totalmente diferente, né? O mundo da noite e o mundo de dia. Você muda tudo, né? Muda as perspectivas, os pensamentos.

Deise Novakoski: [20:36] Eu ainda não mudei. Apesar de tudo isso, eu ainda vivo no meu horário da noite.

Eron Falbo: [20:44] É, mas eu estou falando: durante esse tempo que você viveu o dia, você viu um outro mundo, viu a fila do cinema, coisas assim que as pessoas não param para pensar.

Deise Novakoski: [20:55] Dentro de mim, eu ainda sou noturna. Mas eu achei sensacional pegar engarrafamento, porque eu sempre tirava férias na contramão. Achei sensacional ficar na fila do cinema. Foram duas coisas que me marcaram bastante.

Eron Falbo: [21:14] Eu também gosto muito do mundo noturno. Eu aprendi, obviamente... Bom, tenho dois filhos hoje. Trabalhei no mercado financeiro durante anos.

Deise Novakoski: [21:26] Você foi violentado? Oi? Você foi violentado?

Eron Falbo: [21:31] Eu fui... Eu sofri um ataque quando eu era jovem.

Deise Novakoski: [21:36] Pessoas.

Eron Falbo: [21:42] Como eu, a gente tá sempre vitimizado na sociedade, a gente tá sempre nas piores posições, e realmente as pessoas tiram vantagem dessa posição social nossa. E realmente alguém me usou e colocou dois filhos na minha barriga, e hoje eu tenho que criar sozinho.

Deise Novakoski: [22:07] Isso é tão pronto, né? Eu não continuei a história do gin porque é isso mesmo, o gin é o anestésico, ele foi usado durante muitos anos para fazer cirurgia.

Origem árabe da destilação e dos monges (22:17)

Eron Falbo: [22:20] Eu não sabia dessa. Eu sei que, historicamente, os espíritos, os destilados, foram inicialmente, se eu não me engano, por manuscritos árabes no século 9, alguma coisa assim, eles usavam isso como remédio no início dos destilados. Eles conseguiram destilar o álcool para potencializar o tanto de álcool que consegue colocar numa bebida, e isso no início foi usado como remédio. Você viu alguma coisa assim?

Deise Novakoski: [22:56] Os árabes desenvolveram a técnica da destilação. Eles é que desenvolveram a destilação. O que é que eles queriam com isso? Eu já não sei se eles queriam fazer álcool, remédio... ou comprar caixinha.

Eron Falbo: [23:20] Os muçulmanos antigamente não eram... Hoje em dia tem proibição de beber álcool, mas no início era uma proibição de reza. Você não podia estar bêbado durante a reza. É claro que eles rezam cinco vezes por dia, então acho que faz sentido você proibir o álcool, se você não pode estar bêbado em tantos momentos do dia.

Deise Novakoski: [23:40] É, bêbado na igreja também não pode. Sabe a piada do bêbado quebrando a igreja? O pai está rezando na missa e ele fala... Bêbado e religião nunca pode, né? Nem lá. Agora, os árabes, eles desenvolveram a destilação, e o que eles queriam com isso, a gente não tem história. Mas se sabe assim... Eu sei, porque de tudo que eu estudei, tudo que é bebida começa sempre na mão de algum monge. E por que eles estão sempre envolvidos em bebidas?

Eron Falbo: [24:15] Porque eles são entediados pra caramba. Eles estão lá na torre.

Deise Novakoski: [24:19] No princípio, porque eles eram os primeiros que sabiam ler e escrever.

Eron Falbo: [24:25] Ah, verdade.

Deise Novakoski: [24:25] Então, para você fazer a bebida, você tem que ir anotando, você tem que ir calculando.

Eron Falbo: [24:34] Não é uma coisa tão casual, porque hoje em dia a gente tem toda uma indústria, mas antigamente você tinha que ser um alquimista, como eu te chamei hoje mais cedo, você tinha que ser um cientista para produzir bebidas.

Deise Novakoski: [24:48] Eles chamavam essas pessoas de camaradas. Disso que os meninos hoje estão se chamando, eles estão se autointitulando desse nome, como se fosse alguma coisa muito elevada. E olha que bobagem que eles estão fazendo. Estão dando o nome mais antigo do que se poderia dar, que é esse bartender agora que é o... mixologista. Mixologista. O mixólogo, naquele passado mais distante, onde não existia produção nenhuma, era o cara que fazia o quê? Misturava. Mix. Então, os meninos hoje estão se chamando de mixologistas. Entendi. Eles estão ajudando.

Eron Falbo: [25:33] Em contrapartida ao alquimista, né? Em contrapartida ao cientista que não fazia só o mix, ele fazia uma receita, né?

Deise Novakoski: [25:41] Então, antes de tudo vem o mixologista, depois vem o alquimista, porque então ele já sabe a importância da química, né? Da mistura química. Mas os monges sabiam ler e escrever, eles tinham noção de química, de biologia. E o que eles buscavam? Eles buscavam poções ou ingredientes para conservar os alimentos, ou para preservar uma carne, ou para disfarçar o aroma de uma carne já pútrida. Então, eles desenvolveram os vermutes, pegavam os destilados, misturavam para fazer os licores e as próprias cervejas, de trigo dobrado, quatro vezes de trigo, para os dias de jejum. Porque eles eram obrigados a jejuar, mas...

Eron Falbo: [26:43] Não tinham... Para alimentar.

Deise Novakoski: [26:45] Mas não precisavam ficar sem beber. Então, eles faziam uma cerveja com quatro vezes a mesma quantidade de trigo. Por isso que você tem essas Tripel, Quadrupel, são essas cervejas que têm três vezes a mesma quantidade de trigo, de não sei o quê. E tudo isso vem da mão dos monges, sempre com alguma... Você vê que todas as cervejas têm algum símbolo religioso.

Eron Falbo: [27:13] Tudo isso.

Deise Novakoski: [27:15] Pode reparar.

Eron Falbo: [27:16] Especialmente as mais antigas.

Deise Novakoski: [27:18] É. As receitas mais antigas têm. As novas parecem mais clube de motoqueiro.

Eron Falbo: [27:28] As mais recentes são tudo clube de motoqueiro.

Deise Novakoski: [27:31] Porque ainda vem da escola americana. E a escola americana quebra todos os paradigmas da escola alemã. A escola alemã é tudo do tempo da igreja, do tempo do trigo, que não precisava ter nada. O trigo era todo destinado para a realeza, sabe? Então, a cevada era para o povo, um povão, porque cevada era um negócio assim, um grão muito duro que você não quebra, não faz outras coisas. Você não faz pão, você não faz biscoito.

Cerveja popular no Egito Antigo (28:06)

Eron Falbo: [28:09] Eu vi que, falando de povão, uma coisa muito interessante: no Egito antigo, supostamente, a cerveja já era uma coisa popular, todas as classes tinham acesso, uns 5 mil, 6 mil anos atrás. E a gente vê uma coisa que, mais recentemente, tipo esse movimento de cerveja hipster, é o que é mais caro. Mas a cerveja sempre foi uma coisa muito popular, e isso há 6 mil anos atrás já era um fato. Dizem que os escravos ganhavam cerveja como parte do pagamento... não é bem pagamento, porque é escravo, mas das provisões, como que chama, provisão. É tipo as coisas que eles precisam para sobreviver, o mínimo que eles precisam, parte disso é cerveja. As pessoas, basicamente, davam cerveja. Então, é um povo muito elevado intelectualmente, para saber que o ser humano precisa, psicologicamente, de relaxar a cabeça. E acho que isso é um ponto legal da gente conversar, que em sociedades mais conservadoras as pessoas são muito contra álcool, muito contra provisões... obrigado, Lu, as provisões dos escravos. Numa sociedade mais conservadora, as pessoas são muito contra o uso de drogas, uso de álcool. Nos Estados Unidos até tentaram proibir álcool durante um tempo. Só que tem esse lado de que, às vezes, as pessoas ficam muito rígidas e acabam perdendo produtividade, perdendo felicidade. E tem que ter um lado de caos na sua vida. Se você não tem um pouco de caos... que o álcool te permite isso. Uma forma, com medida, de você deixar o caos entrar na sua vida é através do álcool, que você pode dosar. Talvez com cocaína você não pode fazer isso com tanta facilidade, porque é uma droga que te leva do zero a cem muito rápido. O álcool você pode tomar doses pequenas, misturar com soda etc. Então você pode dosar o tanto de caos que está entrando na sua vida. Mas, se você não deixar nenhum caos entrar na sua vida, você vive uma vida funcional, robótica.

Deise Novakoski: [30:39] Olha, quem foi meu aluno e quem teve aula comigo sabe que eu digo que sem álcool não dá. A gente tem que ter alguma coisa para tirar o pé do chão. E a pandemia veio para provar isso mesmo. Ela não veio para provar isso, mas ela ajudou, ela auxiliou a provar que sem álcool não dá, nem por dentro nem por fora. A gente precisa de álcool para esterilizar por dentro e por fora. A vida é chata: você acorda e tem que, né? Você tem que escovar os dentes, você tem que fazer cocô, você tem que fazer xixi, porque você não levanta da cama com vontade, você está com vontade, mas você tem que ir lá. Não é que você esteja com preguiça de levantar para fazer xixi, mas você tem que. Porque o bom não seria se você fizesse por ali mesmo, mas você tem uma série de condutas, obrigações, que você tem que fazer daquela forma, daquele jeito, tudo você tem que. Você não pode ir assim, a galega. Então, eu digo que a vida é chata nesse aspecto da quantidade do que você tem que. E quando você se permite tomar um copo de vinho, relaxar, tomar uma dose de uísque, uma cerveja ou o que for, qualquer coisa que te tire um pouco dessa prisão moral que nós vivemos, porque nós vivemos uma prisão moral... quando a gente consegue dar uma relaxada moral, de repente até dá um... falar na cara do outro sem se preocupar se você está com mau hábito. Isso tudo te dá um pouco de felicidade. O que relaxa, isso te ajuda a soltar um pouco.

Eron Falbo: [32:52] Eu acho que uma sociedade madura... Desculpa, entrei logo no seu 'então', termina o seu 'então', que eu acho que você ia chegar a uma conclusão boa.

Deise Novakoski: [33:04] Mas eu acho que é exatamente isso. Então, quando a gente começa a cobrar de nós mesmos uma retidão tão... aí você levanta, você olha, você pensa, você pensa, você pensa, o cara explode, vira essa sociedade americana hipócrita, que, ai, eles estão todos certinhos, eles estão todos... aí fica fudendo o filho e escondendo no porão, fazendo sacanagem com não sei quem, matando, dando tiroteio não sei aonde, sabe? Porque explode em outro lugar, cara. Explode. Para mim é hipocrisia, né?

Ilha dos Prazeres e filosofia de Platão (33:45)

Eron Falbo: [33:47] A necessidade vai sair em algum lugar: ou você sai aos poucos, ou você sai tudo de uma vez pela sombra, pelo lugar que ninguém está vendo, e é o lugar mais perigoso. Isso me lembra a história do Pinóquio, a Ilha dos Prazeres do Pinóquio. Na história do Pinóquio tem aquele momento onde o Pinóquio e os amiguinhos dele, quando ele está se achando, ele sai e vai para a Ilha dos Prazeres, onde ele pode fazer o que ele quiser. E assim, o mundo é muito feito disso: ou você tem que ser o fantoche da sociedade, fazer tudo que todo mundo quer, ou você vai para a Ilha dos Prazeres. Então, você fica nessa dualidade, tipo, eu trabalho de oito às oito e eu sou certinho, aí depois eu vou para o bar e enlouqueço, porque a sociedade inglesa é muito assim. Na Inglaterra, pessoal, você vai pra Camden Town, duas horas da manhã, você vê sangue nas ruas, sabe? Você literalmente vê... Porque a galera tá tão soltando aquela sombra, né? Aquele caos. E essa coisa do Pinóquio, a sociedade julga achando que jovem é alcoólatra. Jovem não é alcoólatra, jovem não quer responsabilidade. Jovem está fugindo da responsabilidade, e a sociedade não está educando esse jovem a receber a responsabilidade de uma forma saudável, e a largar ela também. E a largar a responsabilidade nos momentos certos também, porque a gente tem que saber o começo, meio e fim do... Diga, diga.

Deise Novakoski: [35:27] Eu acho esse rito de passagem muito importante, e os pais, os familiares, encrencam demais nessa hora, sabe? E não conseguem fazer isso, não conseguem tentar beber com seus adolescentes, com seus jovens, né? E acaba dando cada mês de meia danada nessa fase. Os jovens vão para a rua, começam a beber, e aquilo demora muito mais a passar do que deveria, porque é natural. É natural, e os jovens deveriam aprender a beber em casa como eles aprendem a comer, a se vestir, a se comportar à mesa. Exatamente.

Eron Falbo: [36:14] Platão fala sobre isso, nas Leis de Platão, ele escreve que o único problema dos espartanos, porque os espartanos tinham uma sociedade totalmente rígida e disciplinada. Aí diz o Estranho de Atenas, que é um dos personagens das Leis de Platão, que faz o papel de Sócrates nesse livro. Então, seria um grande filósofo, um cara iluminado nesse livro. Ele fala o seguinte: os espartanos aprendem, desde o primeiro dia da vida deles, a se sustentar, a conseguir aguentar a dor. Só que eles não sabem aguentar o prazer. Se eles beberem um gole de vinho, eles vão fazer merda. Então, você pode chicotear eles, que eles vão manter o caráter. Você pode cortar fora um braço deles, que eles vão manter o caráter. Mas dá um gole de vinho pra eles, que eles vão falar tudo de errado, vão entregar a mãe. Porque eles não estão acostumados a aguentar o prazer. Então, Platão alerta que a educação é tanto você aguentar a dor quanto você aguentar o prazer. E assim você é uma pessoa que consegue manter o caráter em todas as situações. E a nossa sociedade não tem essa coisa de saber aguentar o prazer. A gente ainda arquiva, joga na sombra o prazer, como se fosse algo indesejável, o que é bizarro.

Deise Novakoski: [37:42] E ainda, mais um tempo antes de Platão, quando os pré-socráticos se reuniam, faziam os banquetes, os bacanais, que chamavam essas reuniões. Os bacanais acabaram se transformando nesse sentido que nós temos hoje por uma razão absurda, porque eles se reuniam, conversavam a respeito da sociedade, do que estava se transformando ali, e analisavam. Então, as pessoas que tinham capacidade de beber melhor do que aquelas que não tinham, aquelas que faziam alguma coisa que era condenável ou não, discutiam coisas assim de comportamento da sociedade, e depois abriam as portas para entrarem as mulheres e as crianças. Essas reuniões eram chamadas de bacanais e eram regadas a vinho.

Eron Falbo: [38:57] O vinho é um pouco alucinógeno. Eu ouvi dizer também, eu não sei se dá para saber isso, mas supostamente eles misturavam um pouquinho de alguma planta, alguma coisa que tinha o mesmo princípio ativo do LSD.

Deise Novakoski: [39:12] Isso eu nunca li. Eu já li muito sobre filosofia, eu até já trabalhei num livro sobre vinho e filosofia, mas eu nunca li. Eu já li sobre umas pedras que eles colocavam nos copos para não ficarem embriagados. Já houve um tempo em que se preocupavam com a questão da embriaguez. Dizem que Baco é um deus do vinho porque ele não se embriagava. Ele bebia à larga e jamais se embriagava.

Eron Falbo: [39:46] E coincidentemente que você está falando desses bacanais, no Simpósio, no Banquete de Platão, que é um dos Diálogos de Platão, justo a grande mensagem é que Sócrates tem lá uma mesa de vários amigos bebendo juntos, e Sócrates bebe mais que todo mundo e é o único que não se embriaga, e continua o dia dele normal, não dorme, mas dá oito da manhã ele vai pra feira e faz a feira e faz as obrigações dele, sem embriagar. Eu acho que essa mensagem que você tá dando de Baco, eu acho que é a síntese, porque a gente tem aquilo que eu tava falando da Ilha dos Prazeres de Pinóquio, aquele grande medo do prazer e fugir dessa coisa, achando que tudo vai te levar ao demônio e ao mal, e você vai se embriagar e vai perder todos os estribeiros. E a antítese disso seria você estar totalmente rígido numa sociedade disciplinada, que você não bebe nada, etc. Eu acho que a síntese dos dois é você ultrapassar, você ser capaz de ser disciplinado e ser capaz de ter a Ilha dos Prazeres, com consciência, que é o Sócrates, o Baco que você está falando, o Dionísio.

Deise Novakoski: [41:11] É, mas você é capaz de se divertir, de repetir, bebendo, se embriagando, mas não perdendo essa moral que é sua. Uma vez que você toma uma taça de vinho e já não consegue mais ser você e soltar o lixo que está dentro de você, alguma coisa tá errada aí, né?

Limites, alcoolismo e disciplina heroica (41:37)

Eron Falbo: [41:40] A gente tem que beber água, né? Aí a gente tem que aprender, né? Aprender os nossos limites e expandir os limites. Porque acho que muita gente, no momento que vê o limite, aí ela para ali e fala: não, esse é o meu limite. Mas os nossos limites podem ser expandidos, né? Eu tenho muitos amigos, né, que são de Alcoólicos Anônimos e tal, e eu não julgo, porque, cara, cada um tem seu momento de vida, etc. Mas eu acho isso errado em termos espirituais. Desculpa dizer isso, eu sei que tem muita gente que se encontra nisso, mas eu estou dizendo porque a gente não está nessa vida para aceitar limites. A gente está nessa vida para expandir os limites, para ser maiores, para aguentar mais. Então, no momento que você vê esse limite, você... Oi?

Deise Novakoski: [42:20] O alcoolismo é uma doença. O alcoolismo é diferente, ele é uma doença. Então, é mais ou menos... Muito mais ou menos, tá? É como uma pessoa que é alérgica a um pimentão, é uma pessoa que é alérgica a uma abobrinha, alérgica ao chocolate. Então, uma coisa é você respeitar o seu limite, e outra coisa é você não poder. Você não pode, porque você...

Eron Falbo: [42:47] Eu entendo esse argumento dele, mas eu sinceramente entendo isso e vejo mais como fases da vida. Eu entendo que em certas fases da vida a gente não tem a estrutura psicológica para aguentar certas tentações, certas influências na nossa vida, mas, como o Luigi Borgia, o grande estrategista político, fazia, por exemplo, a gente virasse e te falasse: veneno. Veneno é uma coisa que você pode beber ou não pode beber? Aí depende de quanto você está acostumado a beber, porque o Luigi Borgia tomava microdosagem de veneno e se disciplinava para o corpo aguentar veneno. Aí por quê? Aí ele podia beber veneno com os inimigos dele e ele não morria, os inimigos dele morriam. Então, o que eu quero dizer é que, no momento que a gente taxa alguma coisa como isso é uma limitação absoluta nossa, tudo bem, é tipo veneno. Pode até ser, e é bom em termos... Psicológicos, pra gente não fazer merda, pra gente não ultrapassar os nossos limites, entendeu? Eu não recomendo a ninguém beber veneno, e eu recomendo a pessoas que se sentem alcoólatras a entrarem em Alcoólicos Anônimos, a endireitarem a vida e tudo mais. Só que, ao mesmo tempo, existe um ultrapassar heróico disso tudo, que é a microdosagem, você aprender heroicamente a dominar a sua psique, entendeu? Eu não acredito que exista limites, eu acho que o termo doença é uma coisa que, desculpa discordar, mas é minha opinião sincera, eu acredito que doença é um termo que a gente inventou, e é moderno, antigamente não tinha essa conotação, vamos dizer, tão absoluta. E eu sei que muita gente vai me xingar por estar falando isso, que vão dizer que é porque você não entende, mas eu tenho muitos alcoólatras na família, eu já passei por muitos momentos de escuridão, eu mesmo, na minha própria vida, entendeu? E eu achava que eu tinha problemas, entendeu? Eu achava que eu tinha que ir pra reabilitação, que eu tinha que ir pra Alcoólicos Anônimos, que só assim, ou até religião, ou qualquer coisa assim, e só assim eu seria salvo. E em certos momentos eu até fui. E eu fui salvo. A vida é muito dinâmica, e o ser humano é capaz, na minha opinião, de transcender a si mesmo e as próprias definições de doença, de horóscopo, de qualquer coisa que a gente acha que a gente sabe sobre nós mesmos.

Deise Novakoski: [45:21] Eu não tenho esse conhecimento tão grande de alcoolismo, nem de nada disso, mas eu frequentei o AA por conta da minha profissão mesmo, sabe? Eu queria saber o que eu estava fazendo, e se eu, por acaso, estaria influenciando alguém, e se eu poderia reconhecer um alcoólatra, o que eu poderia fazer. Eu tinha essa preocupação, tanto que eu jamais ofereci bebidas. Eu esperei sempre que me pedissem. Eu nunca ofereci: mais um? Você quer mais um? Eu tenho ainda umas coisas, mais um?

Eron Falbo: [46:14] Eu ofereço demais até, mas você está me ensinando uma coisa agora, realmente. Porque, apesar de tudo que eu falei, acho que a gente tem que se preocupar com o próximo, porque, às vezes, o próximo está na Ilha dos Prazeres, ele é o Pinóquio, ele está viajando, ele está perdido. Às vezes, a gente tem que ir lá retirá-lo. Para jogar na barriga da baleia.

Deise Novakoski: [46:35] Porque ele bebia e dizia assim: eu sou o João Ubaldo Ribeiro. Ele ficava chapado e dizia que era o João Ubaldo Ribeiro. Eu nunca discordei dele, eu sempre concordava, e ficava conversando com ele como se ele fosse o João Ubaldo Ribeiro. E eu fingia que estava acreditando, sabe? E ele ia lá toda noite me contar o próximo livro. Você imagina, eu não sei nem se ele está vivo, mas imagina que prazer ele devia ter de achar que estava enganando alguém. De repente, aquela mulher ali nem deve ler nada, trabalha muito, deve ser uma louca. Eu digo que sou o João Ubaldo Ribeiro, conto o livro. Naquele momento, ele era o João Ubaldo Ribeiro, então era uma pessoa que acreditava nele. Então, as pessoas são malucas, cada uma tem uma fantasia, tem uma doidice na cabeça. O que sou eu para desfazer a loucura do outro? Eu ali trabalhando num restaurante, num balcão.

Eron Falbo: [47:42] De bar... Mesmo trabalhando como bartender, você nunca ofereceu bebida? Isso aí tem que ter disciplina, hein?

Deise Novakoski: [47:52] Não, eu sempre ficava esperando a pessoa pedir.

Eron Falbo: [47:56] Muita ética, parabéns.

Deise Novakoski: [47:59] Sempre, sempre. Eu sempre ficava aguardando a pessoa pedir mais um drinque, carta de vinhos. Se a senhora me recomenda, eu recomendava, mas quando não me pedia, eu nunca ofereci. Eu tinha essa questão, meu manual de não dividir culpa.

Ética no bar e despedida (48:19)

Eron Falbo: [48:26] Deise, você concorda que, trabalhando na noite, você acaba tendo que ter mais disso? Porque, se você não tiver esses princípios, essas coisas, você acaba degringolando, você acaba se perdendo também só trabalhando na noite.

Deise Novakoski: [48:43] Com toda certeza. Eu acho que sim. Bem antes da pandemia, lógico, eu vi um cara saindo de um bar, também muito conhecido, e o cara estava em pantarecos. Eu jamais deixei um cliente meu sair do balcão assim, pau de campo, sabe? Se ele estivesse assim, na situação, eu agarrava a chave do carro, em primeiro lugar. Se ele tivesse com a chave do carro na mão, eu agarrava. Se ele tivesse deixado com o manobrista, eu saía do bar, pegava a chave do carro dele. Jamais deixei ninguém, na minha vez, sair bêbado dirigindo. Jamais.

Eron Falbo: [49:22] Deise, eu quero sair com você, Deise. Primeiro, nosso papo, é claro que uma hora vai ser pouco demais para a gente, porque já acabou o nosso tempo, a gente tem cinco minutos só. Mas a gente tem que marcar de ir para o Ash Café, alguma coisa, beber, conversar, estender, até porque você vai me salvar de mim mesmo.

Deise Novakoski: [49:45] A vacina vai chegar, hein?

Eron Falbo: [49:48] Ah, isso aí é só... Só Deus e a Pfizer, sabe? Tipo... Eu não tô muito interessado nisso, não, na verdade. Eu continuo minha vida... Bom, de novo, eu não quero exagerar nas coisas politicamente incorretas que eu vou dizer. Hoje eu vou reservar essa pra uma próxima. Então, eu só digo que seria ótimo.

Deise Novakoski: [50:17] Você vai chamar uma pra gente sair dela?

Eron Falbo: [50:20] Claro, tá bom.

Deise Novakoski: [50:22] Uma vez eu mandei um cliente meu... ele tinha separado da mulher, e eu não sabia pra onde ele estava morando, eu só sabia do endereço antigo. Aí eu mandei ele pro endereço antigo, onde ele estava separado. Eles voltaram.

Eron Falbo: [50:39] É mesmo? Caramba, que história.

Deise Novakoski: [50:41] Eu provoquei uma revolução.

Eron Falbo: [50:42] Ele chegou lá de boom, ele falou as verdades, ele se abriu.

Deise Novakoski: [50:48] Ele chegou com vergonha e a mulher disse que não morava mais aqui. Eu também não sei onde eu posso mandar, porque eu não posso mandar ele.

Eron Falbo: [50:56] Aí ela acolheu, cuidou dele.

Deise Novakoski: [50:59] Ela falou assim: mas você, que trabalha no bar, está cuidando dele, eu, ex-mulher, não vou cuidar? Ela ficou com vergonha, acolheu e eles se reconciliaram.

Eron Falbo: [51:10] Maravilha, maravilha.

Deise Novakoski: [51:11] As flores lindíssimas.

Eron Falbo: [51:14] Caramba, que história bonita.

Deise Novakoski: [51:17] Bacana, né?

Eron Falbo: [51:18] Maravilha! Deise, você é uma mulher completa que trabalha na noite, você reconhece o valor do dia, você promove a bebida, promove o beber e o prazer, ao mesmo tempo você alerta sobre as dificuldades, sobre os perigos. Você cuida das pessoas. Então, sinceramente, é um grande prazer ter tido essa conversa com você, ter tido esse momento com você. Espero que a gente tenha vários outros. Fiquei feliz que você mora no Rio para a gente poder se conhecer.

Deise Novakoski: [51:51] Muito obrigado.

Eron Falbo: [51:52] Muito obrigado por ter aceitado o convite.

Deise Novakoski: [51:55] Obrigada a você. Você é linda e dez. Beijão na sua família.

Eron Falbo: [52:00] Valeu, pra você também. Tudo de bom, tudo de bom a todos. Boa noite e bebam vinho e misturem com soda.

Deise Novakoski: [52:09] Isso aí. Beijão pra todo mundo que nos prestigiou, gente. Foi bom demais.

Eron Falbo: [52:14] Valeu. Beijo. Tchau, tchau.

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