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#50 O artista autêntico

com Marzio Fiorini · 19 de jan de 2021

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Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Abertura e apresentação do episódio (0:00)

Eron Falbo: [0:05] Sejam bem-vindos! Você entrou no Alvo. Eu sou o Eron Falbo e hoje a gente está com o Marzio Fiorini, artista plástico e designer de joias. Ele é dono da própria marca com o nome dele. Marzio mora em Petrópolis e é um defensor da cidade imperial. Marzio, seja bem-vindo. Fala, Marzio, tudo bem?

Marzio Fiorini: [0:28] Hello, tudo bem? Tudo bem, Eron?

Eron Falbo: [0:31] Tudo bem, graças a Deus. Está me ouvindo bem?

Marzio Fiorini: [0:34] Super bem, alto e claro. Você me ouve bem?

Eron Falbo: [0:37] Bom que eu te ouço bem, sim. Eu tinha entrado há pouco tempo e falaram que estava sem som, então...

Marzio Fiorini: [0:43] Depois que você entrou e saiu, aí eu também saí. Na realidade, eu estava com um problema na minha internet de casa, que a minha casa aqui não tem... Agora, essa semana chegou a fibra ótica, mas não instalaram ainda. Fiquei com medo, vim para a casa de uma amiga minha, que é minha colecionadora, e se você vir lá atrás, tem o quadro que você mostrou, que é um quadro dela.

Eron Falbo: [1:07] Que coincidência, caramba!

Marzio Fiorini: [1:09] E acabei de chegar aqui, há uns 15 minutos atrás, para me organizar.

Eron Falbo: [1:13] É lindo o quadro.

Marzio Fiorini: [1:15] É lindo esse quadro.

Eron Falbo: [1:16] Linda a moldura também, muito bom gosto.

Marzio Fiorini: [1:18] Obrigado.

Eron Falbo: [1:19] É isso, Marzio. Seja bem-vindo. É uma pessoa com tanto requinte, com tanta ousadia, vamos dizer, no mundo da moda, do design. É um grande prazer ter você aqui com a gente.

Marzio Fiorini: [1:37] Prazer é meu. Tudo pela arte.

Eron Falbo: [1:43] Você está em Petrópolis, né? Você mora em Petrópolis.

Vida dividida entre Petrópolis e Minas (1:45)

Marzio Fiorini: [1:47] Eu divido meu tempo entre Petrópolis e Simão Pereira, que é uma hora daqui, na realidade já é Minas Gerais, mas estou a uma hora de Petrópolis. Tenho umas terras por lá, tenho o meu ateliê lá, e lá tenho trabalhado, lá tenho encontrado o meu equilíbrio, digamos assim. Patrícia, vem cá. Olha essa Patrícia, minha querida amiga, minha colecionadora, que estava passando de fininho, invadi a casa dela. Esse é o Eron. Oi, Eron.

Eron Falbo: [2:19] Olá, Patrícia. Obrigado pela internet.

Marzio Fiorini: [2:23] Obrigado pela internet.

Eron Falbo: [2:27] Você já está no vinho aí? Vamos fazer um brinde.

Marzio Fiorini: [2:29] Já estou no vinho aqui, claro.

Eron Falbo: [2:31] Um brinde à nossa conversa.

Marzio Fiorini: [2:33] A nossa. Patrícia, obrigado, querida. Que bom. Patrícia Bastos é uma mulher incrível. Depois você tem que conhecer o trabalho dela. Ela é especializada em recuperação, restauração de mamas. Ela faz um trabalho lindo com o Instituto do Câncer, de mama. Incrível o trabalho dela, incrível.

Eron Falbo: [2:53] E vocês aí em Petrópolis têm uma comunidade de artistas? Como é que está essa cena aí em Petrópolis?

Marzio Fiorini: [3:00] Tem muitos artistas. Em 2019, fiz um evento chamado Sou Majestade de Arte, que fiz no Palácio da Princesa Isabel, na Casa da Princesa Isabel, que foi justamente para trazer à tona esse cenário da arte petropolitana, misturando. Na verdade, trouxe artistas de fora, artistas brasileiros consagrados e artistas petropolitanos. Alguns também consagrados, outros não. O mercado tem uma necessidade de fazer algumas coisas numa linha, não é? Só artistas consagrados, ou só artistas iniciantes, ou só isso ou aquilo. Eu já olho a arte como um todo. Acho que a arte não tem rótulo. Então, a minha curadoria foi desde um artista iniciante daqui até um superrenomado como o Luiz Aklan, que também é daqui. E foi o máximo. Foi uma reunião de pessoas bacanas. Eu queria ter feito a segunda edição em 2020, mas fui impedido.

Evento Sua Majestade de Arte (3:01)

Eron Falbo: [4:11] E como funciona exatamente? É tipo um evento aberto ao público, RSVP? Como é o formato?

Marzio Fiorini: [4:18] É um evento privado. Eu criei o evento, produzi o evento todo, tive o apoio da Família Imperial para abrir o Palácio da Princesa Isabel. Inclusive, descobri que a Princesa Isabel era uma artista incrível. Ela tem obras...

Descoberta das aquarelas da Princesa Isabel (4:30)

Eron Falbo: [4:35] Eu também não sabia dessa, vi isso no seu site, só que ainda não vi nenhuma obra dela.

Marzio Fiorini: [4:41] Nem eu, inclusive. Foi uma surpresa, foi um dia, porque durante os três, quatro meses que produzi o evento, eu, semanalmente, ia tomar um café com o Dom Pedro Carlos, que é quem cuida de todo o acervo e tudo isso. Inclusive, o escritório dele é no Palácio da Princesa. E um dia, a gente conversando, ele falou, porque a Princesa Isabel era artista plástica, você sabia? Eu falei, não, não sabia. Ele falou, ah, não, olha, ela fez coisas lindas, ela era uma excelente aquarelista. Eu falei, mas onde é que estão essas obras? Eu quero ver essas obras, eu posso ver essas obras? Ele falou, você quer? Eu falei, imagina se eu não quero! Então, ele gentilmente ligou para o Museu Imperial, organizou, porque as obras dela estão em dois acervos, o acervo do Museu Imperial e o acervo Grão-Pará, que é o acervo da família. E todos os dois acervos estão locados no Museu Imperial. Ele ligou para lá, pediu uma ajuda da historiadora, na época a pessoa responsável por todas as obras, e eles me receberam maravilhosamente bem. Ele gentilmente fez uma pré-seleção para eu escolher algumas obras. E eu fiquei encantado. Uma das aquarelas que ela tem, que é uma borboleta, é um deslumbramento. E eu escolhi a fase que ela pintou por volta dos 12, 13 anos de idade, porque depois ela evoluiu, teve mais aulas, teve aula com o Victor Meirelles, ela foi evoluindo. Mas eu gostei de usar essa fase, porque ela era uma adolescente. E realmente foi uma surpresa para todo mundo. Quer dizer... Desculpa, vamos para a resposta, por favor. Eu fui o mais ousado, porque misturei, além de ter misturado todos os artistas numa onda contemporânea, expus as obras dela junto, naquele salão magnífico, e funcionou muito bem. Fiquei muito feliz. E foi uma noite linda, uma noite de abertura linda, uma festa linda no jardim.

Eron Falbo: [6:52] E que tipo de pessoas você convidou? Foi mais seus amigos, pessoal da sociedade do Rio? Quem era o público?

Marzio Fiorini: [6:59] Foram 500 convidados. Então, foi uma festa bastante importante com toda a sociedade petropolitana, com a sociedade carioca, porque, na realidade, qual foi a minha intenção de fazer isso? Petrópolis sempre foi um oásis de cultura, um oásis de sofisticação. E, quando digo sofisticação, é genuíno, aquela sofisticação genuína, porque é uma cidade que permite isso.

Resgatando o glamour histórico de Petrópolis (7:10)

Eron Falbo: [7:33] E a corte brasileira era aí.

Marzio Fiorini: [7:35] Exatamente.

Eron Falbo: [7:36] Até antes do Brasil ser independente, já era.

Marzio Fiorini: [7:39] Sim, e eu quis recuperar um pouco esse glamour. Porque acho que o mundo está tão pasteurizado, tão sem graça, tudo é igual, você vai a qualquer lugar do mundo, é igual. Acho que eu ainda pude, ainda tive, no final dos anos 1980, a oportunidade de ver o mundo um pouco glamourizado, no sentido de que você conseguia identificar as culturas. Você viajava para a França naquela época e tinha uma cultura visível, ia para a Itália e já mudava. Hoje em dia, você viaja e tem um pouco a impressão de que está no mesmo lugar, são as mesmas vitrines, o mesmo comportamento, e isso me incomoda um pouco. Então, não, me incomoda muito, para ser sincero.

Eron Falbo: [8:29] Às vezes, uns hipsters. Tem uma comunidade de hipsters em cada... Esses são os artistas produzindo toda a cultura, não é?

Marzio Fiorini: [8:37] Então, acho que busquei um pouco recuperar esse olhar. E como eu tive aqui uma infância e adolescência privilegiadas, com amigos que tinham casas aqui, amigos do Rio que subiam aos finais de semana, de São Paulo, que vinham passar as férias. Então, nesse evento, nessa abertura, nessa festa, eu consegui reunir todas essas pessoas que naquela época frequentavam a cidade. E foi uma emoção, muitas das minhas amigas que hoje moram em São Paulo, direto, elas vieram e iam visitar a cidade, curtir as ruas, visitar a casa que foi e se emocionavam. Foi um ato de amor para mim e para a cidade. Antes de qualquer coisa, sempre quando faço uma coisa, quando penso num projeto, quando tenho uma ideia, tenho que ter prazer em fazer aquilo. E, nesse caso, foi um prazer duplo, porque foi um presente que eu me dei e dei para a cidade.

Eron Falbo: [9:46] Maravilha, maravilha. Pior que eu preciso ainda visitar Petrópolis. Como é que está a situação agora em termos de lockdown? Dá para visitar o Museu Imperial?

Marzio Fiorini: [9:58] O museu eu não sei se já abriu, mas posso verificar para você. Mas a gente pode organizar uma visita para você fazer uma... O Maurício, que é o diretor, é um grande amigo. A gente pode organizar alguma coisa com ele.

Eron Falbo: [10:13] Seria fantástico.

Marzio Fiorini: [10:15] Sim, vou fazer com o maior prazer, Tiringa. Faça esse tour.

Eron Falbo: [10:19] Incrível. Eu quero ver essas pinturas da Princesa Isabel, por favor.

Marzio Fiorini: [10:24] Inclusive, às vezes, estão lá agora. Ficaram lá no Palácio. Então, elas estão lá.

Eron Falbo: [10:30] Marzio, me diz uma coisa: você, morando em Petrópolis, tendo esse amor pelo... vamos dizer, pelo que você chamou de glamour, essa sofisticação cultural mais tradicional, você se sente um pouco deslocado no Brasil moderno? Como é que você vê o Brasil moderno no geral?

Marzio Fiorini: [10:53] Na realidade, eu sou muito fácil, de adaptação fácil. Não tenho problema, para mim, em lugar nenhum do mundo, nunca tive. Quando chego, se me proponho a estar em algum lugar, me adapto ao que existe, à cultura. Nunca carrego comigo os meus desejos. Você, morando fora, já deve ter experimentado isso: muitas vezes, em alguns países que vivi ou que frequentava, encontrava brasileiros que tinham a necessidade de trazer o Brasil com eles. Eu nunca tive essa necessidade. Acho que, no momento em que você se propõe a sair de algum lugar da sua cultura e conhecer outra cultura, você tem que entrar naquela cultura. Às vezes, na minha casa de Barcelona, que foi o último lugar em que morei, de 2003 até o final de 2009, fazia algumas reuniões, algumas festas e tal, e às vezes via alguém mais fechado, ou alguém tentando trazer para aquele momento a cultura dele: 'ah, mas não tem isso' ou 'no Brasil isso aqui é a ONU'. Então acho que, para mim, voltar a Petrópolis depois de tantos anos... Fiquei sem viver aqui, os meus pais viviam aqui, eu vinha esporadicamente visitar, mas era uma visita de final de semana e muito rápida. Então, quando decidi, em 2019... Depois que me separei, no início de 2018, passei 2018 viajando, trabalhando: comecei expondo em Nova Iorque em março, terminei em Havana em dezembro e depois fiquei em Miami até fevereiro de 2019. Isso passando por Bruxelas, Paris, Teresina, Rio, fiz um Laicá. Quando voltei, já não tinha mais casa no Rio e resolvi subir a serra. Falei: Petrópolis me chama. E vim para cá. E foi uma delícia reencontrar os amigos da vida inteira, reconectar com todo mundo, e foi assim que tive essa ideia de fazer o Sua Majestade a Arte. Um dia, passeando pela Avenida Koeler, que para mim é uma das ruas mais bonitas do mundo... Tenho duas avenidas que são minhas favoritas: a Avenida Foch, em Paris, e a Avenida Koeler, em Petrópolis. E andando um dia ali naquela rua, falei que precisava trazer alguma coisa para cá e fazer alguma coisa na cidade para dividir com as pessoas essa beleza que tenho aqui, todo o dia a dia comigo. E foi aí que tive a ideia de fazer o Sua Majestade a Arte.

Eron Falbo: [13:41] E como você vê o futuro de Petrópolis? Eu vi no seu site que você se preocupa bastante com o turismo internacional, com elevar a cidade, trazer de volta um pouco dessa vida, porque a cidade, quando você visita, tem museus e tem uma arquitetura muito bonita, só que me parece que está faltando um pouco de movimentação.

Futuro cultural e turismo em Petrópolis (13:42)

Marzio Fiorini: [14:04] Eu acho que o petropolitano ainda não entendeu o que ele tem aqui. Infelizmente, talvez quando você tem um olhar mais apurado, um olhar de fora para dentro, você consiga identificar detalhes e qualidades que as pessoas que estão aqui no dia a dia não percebem. É isso que tento: trazer à tona essa atenção para essa cidade que tem uma qualidade de vida incrível, um clima delicioso, é perto de tudo, é muito fácil de locomoção, você tem estradas boas, você vai para o Rio, você vai para Minas. Acho que o meu olhar e o meu gosto pela cidade fazem isso, fazem com que eu trabalhe em prol de uma campanha: venha para Petrópolis, venha conhecer, vai ser petropolitano, valoriza o que você tem, passa a conhecer o que você tem, que é tão bom. Porque eu me sinto aqui vivendo numa cidade pequena no sul da França, por exemplo. Tenho todas as vantagens que eu teria vivendo numa cidade pequena no sul da França.

Eron Falbo: [15:18] Uma das coisas que eu sinto é que a gente, no Brasil, acho que muito por causa do golpe militar contra a monarquia que instalou a república, depois foi feito muito esforço para apagar uma memória do Brasil imperial. Então acho que muita coisa que a gente tem do Brasil imperial foi deixado para trás, foi esquecido.

Marzio Fiorini: [15:42] E muita coisa não. Eu acho que hoje, se a gente tem resquícios de cultura, de arquitetura, num sentido importante, é graças a Dom Pedro II. Tudo o que ele trouxe, tudo o que ele fez, o primeiro mecenas, o primeiro a patrocinar artistas, ele entendia isso. E eu fiz toda essa equalização quando fiz esse evento. Falei: poxa, aqui a gente tem tudo isso no nosso astral, é só trazer um pouco para cá, para a realidade atual, e quem sabe isso não funciona.

Eron Falbo: [16:25] E o que você sugeriria, como uma pessoa fomentadora de cultura? O que você acha que é o futuro da cidade? O que a gente pode fazer para melhorar esse quadro, para conscientizar o brasileiro da importância?

Marzio Fiorini: [16:40] Ter um quadro político que realmente entenda onde estão. Porque, até então, não vi nenhum político aqui, nunca, na realidade. Não tenho lembrança de ter visto alguém que realmente tivesse esse olhar para a cidade, como se tivesse uma pérola no Brasil, e vamos trazer o melhor para cá. Não vejo isso. Infelizmente, a gente tem talvez interesses, não sei quais são, mas adoraria ver alguém realmente empenhado em trazer essa vida cultural e inteligente de novo para Petrópolis.

Eron Falbo: [17:26] Mas você acha que você organizou um evento maravilhoso? Você acha que a sociedade não poderia se emancipar, não poderia tomar as rédeas dessa... nessa empreitada?

Marzio Fiorini: [17:39] De certa forma, eu fiz isso. E eu trouxe comigo muitos empresários que têm esse olhar, até porque é por isso que eu pude fazer. Então eles me ajudaram, colaboraram, patrocinaram. A Patrícia mesmo foi uma das patrocinadoras. Então eu tive joalherias, a Epibliste, cerimonialistas... Desculpa, não vou lembrar de todo mundo agora, mas tive a ajuda e a colaboração de muitas... A Villancing, que é uma confeitaria de família... Muitas pessoas me ajudaram e colaboraram com o evento, senão não poderia ter feito. Mesmo assim, tive que fazer um aporte de dinheiro para poder acontecer. Agora, acho que isso existe, mas tem que existir mais. E é claro que, com esse ano... Comecei o movimento em 2019 e esse ano interrompeu. Seria o ano para continuar, porque as pessoas, todo mundo... Cada vez que posto... Tenho um Instagram, Sua Majestade a Arte, além do meu, em que sempre posto algumas coisas. Essa semana passada comecei a postar algumas fotos que ainda não tinha postado, e todo mundo falava: 'vamos ter outro evento, que bom, vamos fazer outra vez'. Eu falei: vou adorar. E quem sabe esse ano a gente não consegue? Se não conseguir esse, no máximo em 2022, vamos tentar.

Eron Falbo: [19:04] Por favor, me convide aqui. Adoraria estar presente.

Marzio Fiorini: [19:07] Está convidadíssimo. Está intimado a vir fazer o tour e conhecer bem a cidade.

Origem das joias de borracha (19:10)

Eron Falbo: [19:14] Marzio, você está fazendo 20 anos agora, de você ter iniciado esse conceito de joias em borracha, de você ter feito a primeira coleção em 2001. Eu queria entender como é que começou essa coisa. Você falou, numa entrevista, que teve um sonho, mas eu queria entender um pouco além disso, que é: de onde vem, dentro de você, essa, vamos dizer, ousadia de trabalhar com um material totalmente diferente? Você fez algo antes, a ver com esse tipo de coisa? Como foi o começo desse processo?

Marzio Fiorini: [19:58] Eu sou um artista que sempre olha para um material com um olhar diferente. Nunca penso naquele material; sempre gosto de dar destinação diferente aos materiais. A borracha entrou na minha vida lá atrás, nos anos 1978, em que fiz uma coleção de jeans. Tinha uma marca chamada Emporio Fiorini, que era uma marca de moda, de roupa: fazia masculino, feminino, sportswear, tinha uma linha também haute couture. E eu tive um insight, falei: quero ter... Nessa época eu já viajava muito, já tinha contato com todas as coleções, eu via tudo. Eu era o mascote de uma agência no Rio que organizava, na época, viagens para os estilistas. Então eu era o mascote da época, eu tinha vinte e poucos anos e comecei a viajar com eles. A gente fazia Paris, fazia Firenze, fazia Milão, fazia Nova Iorque, a gente fazia um tour. E, numa dessas viagens, vi coisas muito interessantes, coloridas e tal, e começaram a mexer com a minha criatividade. Voltei e falei que queria fazer uma coleção jeans, com os botões todos coloridos. E aí não tinha isso na nossa... A gente tinha uma época que não tinha nada: não tinha tecido, não tinha aviamentos, não tinha acabamentos, era complicado. Você via tudo, tinha criatividade, mas não tinha a possibilidade de execução se você não tivesse uma criatividade para transformar. E aí, na minha dificuldade de não encontrar os botões, resolvi pedir a um amigo que tinha trazido para o Brasil essa técnica da borracha, mas era para aplicar em etiquetas de sapato, capas de agenda e tal. Falei para ele: William, queria que você fizesse um botão para mim. Ele falou: ah, mas não é possível e tal. Bom, eu tanto insisti que desenhei três botões. Falei: faz o molde. Ele fez os moldes, deu certo e ficou incrível. Tanto que fiz as camisetas, as camisas, mas mandava junto um pacotinho com botões extras, porque imaginei, né? Borracha vai passar, vai grudar, vai colar, vai estragar, se alguém não quiser tomar cuidado, vai ter que ter. Isso foi um sucesso e tal, passou. Anos depois, que eu já não tinha mais a moda, as roupas, eu não fazia mais a confecção, comecei a pensar no que voltar a fazer, porque sempre tive essa necessidade de me expandir e de atuar em várias áreas da arte. Nunca fui aquele artista que só fazia moda, ou só fazia música, ou só fazia joia, ou só pintava. Sempre fiz tudo, e isso foi um problema, entre aspas, naquela época, em determinado momento, porque as pessoas não estavam acostumadas com alguém múltiplo. O artista sempre tinha um dom: ou era pintor, ou cantor, ou estilista, enfim. E eu sempre gostei de experimentar as coisas. Então, entre uma coisa e outra, eu fazia música, eu voltava para a confecção, eu ia para a joalheria. Então, um dia eu falei: bom, tenho que me centrar agora em alguma coisa. Comecei a fazer joias, mas no sentido de comprar joias antigas, desmontar, fazer peças únicas. Fiz a primeira apresentação dessa coleção em São Paulo, foi um sucesso, vendi tudo. Mas depois falei que precisava passar para um outro patamar: quero abranger o meu mercado, quero expandir, quero encontrar pessoas, quero tocar pessoas no mundo. Com essa coleção pequena, vou demorar para chegar lá. Como gosto de tudo muito rápido, e objetivo, eu tenho pressa, falei: bom, tenho que pensar nisso. E aí eu sonhei, literalmente, eu sonhei. Eu acordei um dia, eu estava em Petrópolis até, eu já não morava mais aqui, dormi aqui, acordei e falei para a minha mãe: vou fazer joias de borracha. E ela, já acostumada com a minha criatividade, só olhou para mim e falou assim: o que seria isso? Falei: bom, ainda não sei, mas vou descobrir. E eu passei... Isso foi em 98, passei dois anos, 98, 99, desenvolvendo, criando, até que lancei a primeira coleção em janeiro de 2001, que hoje, esse mês de janeiro, faz 20 anos. E aí nasceu o conceito das joias de borracha, que foi uma surpresa para o mercado, uma surpresa para a imprensa. As pessoas da imprensa receberam muito bem, mas teve uma certa resistência no início, falando: mas o que é isso, joias de borracha? Eu nunca ouvi falar. Eu falei: claro que você nunca ouviu falar, porque é novo, eu acabei de criar isso. E aí: mas por que é joia? Eu falei: pois é joia, porque para mim uma joia não é simplesmente um objeto que tem algum valor agregado — que hoje em dia é agregado, mas se você colocar lá atrás, se estava numa ilha, se tinha um cipó e uma concha e você cortava e pendurava no pescoço, era uma joia, concorda?

Significado e sustentabilidade da joia (24:53)

Eron Falbo: [25:26] Sim, em diferentes culturas, muita coisa com materiais totalmente diferentes do que a gente está acostumado. Acabou que a gente deu muita importância a pedras preciosas e o valor é...

Marzio Fiorini: [25:42] Agregado, você passa a ser importante, passou a ser importante, mas acho que não tenho esse limite. Tanto que a mulher que sempre usou as minhas joias é uma mulher destemida, é uma mulher que não tem essa preocupação de estar com alguma coisa que custou muito caro, sabe? Porque essa mulher é uma mulher que mistura um colar meu com um brilhante. Eu tive colares meus já no red carpet. Com as mulheres chegando, produzidas, você via literalmente que a produção delas era partindo de um colar. A irmã do Ethan Hawke usou no red carpet um look incrível com colar meu vermelho, foi o máximo. E não fui eu que cheguei até ela, não conheço ela. Ela comprou em algum lugar, na época eu distribuía no mundo inteiro, e usou. Então, para mim, aquilo foi... Agora, essa mulher entendeu tudo. Porque esse é o grande barato, você saber misturar, você não precisa ir em uma grife e gastar milhões de dólares para estar investido. Não tem isso, não existe isso.

Eron Falbo: [26:56] E também a expressão é uma coisa muito importante, porque se você pensa só no material que é feito... É assim, tipo, você pega uma coisa feia, que é feita de ouro, ou uma coisa sem bom gosto, uma coisa brega, feita de ouro, não vai ter valor nenhum, mas aí você pega uma coisa de borracha com altíssimo calibre, feita com design estético muito apurado, você justo está como se fosse promovendo a alma versus o corpo, né? Você está dizendo assim, dane-se a qualidade do corpo, vamos pensar no conteúdo, na forma de expressão.

Marzio Fiorini: [27:39] Exatamente isso, é assim que eu penso, eu acho que é assim que a gente tem que agir, e eu acho que mais do que nunca, nessa transformação do mundo que o universo está proporcionando, está promovendo essa mudança global, vai ter que haver uma mudança de comportamento e uma mudança de entendimento. Porque se você não entender que realmente o nosso mundo tem que ser mais sustentável, tem que ser mais coerente, o que você vai deixar para os seus filhos? Essa necessidade de você chegar mais perto da natureza, isso tudo tem que haver uma visão do universo e mostrar para a gente que isso é necessário.

Eron Falbo: [28:31] Essa sustentabilidade, acho que muita gente também, na mesma obsessão que as pessoas têm por ouro, por exemplo, que é pelo material, eu acho que em termos de sustentabilidade, a gente também está muito obcecado pelo material, pela natureza, e é talvez não tão... Que tudo bem, é importante também, mas a gente talvez não está se importando tanto com a sustentabilidade cultural, a sustentabilidade... Como você estava falando, a cidade de Petrópolis está sendo deixada para trás, que é uma herança cultural importantíssima brasileira, e a gente não está levando isso para frente. Se continuar desse jeito, o nosso museu nacional, que foi... Teve um incêndio, que era o Palácio...

Marzio Fiorini: [29:21] Não, era um museu de história natural, não foi?

Eron Falbo: [29:25] Alguma coisa que você não lembra exatamente, porque eu não estou morando no Brasil.

Marzio Fiorini: [29:29] Foi no parque do centro da cidade.

Eron Falbo: [29:33] Mas era um palácio imperial, né?

Marzio Fiorini: [29:36] Era um palácio imperial.

Eron Falbo: [29:40] Então, justo isso. Esse tipo de coisa, sustentabilidade também. Se a gente simplesmente deixar de lembrar ou deixar de cuidar das coisas, a gente perde elas. Do mesmo jeito que a gente perde árvores e baleias.

Marzio Fiorini: [29:57] Você sabe o que eu acho que está faltando? Bom senso e equilíbrio. Eu acho que está tudo muito... Então, falta o bom senso, falta o equilíbrio. Eu acho que o mundo está precisando de equilíbrio. Isso que você acabou de falar, para mim, é nada mais do que equilíbrio. Você pode ter tudo, mas desde que você tenha... É como a nossa alimentação, você não pode comer de tudo. Você não precisa ter compulsão em comer só pão, ou só carne, ou só legumes. Não, é um equilíbrio. Acho que, na vida, para a gente ter, no mundo atual, daqui para frente, para a gente ter um resultado, tem que ter equilíbrio. E a gente não está tendo uma demonstração muito grande de equilíbrio. É tudo muito... E isso, para mim, o mato, a floresta, a minha redescoberta do mundo rural, que aconteceu de sete anos para cá, oito anos vai fazer agora, me mudou a vida, me mudou a cabeça. Um lugar que você pode se reconectar com a natureza e ficar tranquilo, não ouvir um barulho, plantar e comer, tudo ao seu tempo, você tem inspiração para ler, você tem inspiração para escrever, você tem inspiração para pintar, tem inspiração para viver, porque está tudo muito afoito. E eu não gosto de nada, nunca gostei de nada disso, e isso me tira um pouco do sério. Então, quando eu redescobri esse lado meu, que eu já tinha, porque meu avô paterno mineiro era fazendeiro, em Minas, isso me... Voltar para ali, para essa região rural e para ter um contato de novo com isso tudo, me deu um restart, sabe? E é isso que eu quero para a minha vida.

Redescoberta da vida rural sustentável (30:47)

Eron Falbo: [31:55] Como eu estava te falando antes na nossa conversa, eu também tenho grandes planos de voltar para o campo. Eu sempre, desde pequeno, cresci frequentando fazenda. Eu faço aula de equitação, então gosto muito de cavalo. Então também tenho esse plano. Você tinha me falado que você tem uma... Você está pensando em se mudar, né? Você está querendo fazer uma coisa mais permanente para a fazenda.

Marzio Fiorini: [32:22] O meu projeto é um projeto de arte sustentável, que venho trabalhando nele. Já vinha na minha cabeça esses anos, não sabia exatamente como ia fazer, e durante a pandemia me vi lá, isolado, trabalhando e vivendo um dia a dia mais do que um mês, porque geralmente passava 15 dias, passava uma semana, nunca ficava um mês direto. E quando eu me entendi lá mais de um mês direto e comecei a perceber que eu não queria sair, eu falei, isso aqui é a vida que eu quero. Eu tenho aeroportos perto, eu tenho cidades perto, eu posso fazer a minha vida normalmente e ter esse privilégio de estar no meio da natureza e criar e receber as pessoas. Então eu comecei a pensar num projeto. E aí veio um grande amigo meu de infância, que é o Walter Bretts, que a gente, inclusive, está fazendo um trabalho a quatro mãos, coisa que achei que não era possível para dois artistas. Ele é um cientista, um pesquisador, morou nos Estados Unidos a vida inteira, da Universidade de Michigan, em Nova Iorque, um cara genial e é artista plástico também. E aí a gente se reencontrou, porque ele voltou para o Brasil, e a gente começou a conversar sobre isso, e um dia a gente falou, vamos fazer um trabalho juntos? Eu falei, como é que seria isso? Bom, eu sei lá, essa brincadeira, a gente deu asas a ela e virou uma série de 10 obras, que a gente acabou agora, semana passada. E numa experiência, que até tem uns vídeos no meu... No meu Instagram, que as pessoas falaram, como é que você pinta junto? Eu falei, não sei, mas a gente fala assim, bom, você vai por lá, eu vou por aqui, ok. Vamos usar que cores? Eu falei, vou usar essa, vou usar essa. E a gente consegue fazer algo que é harmônico e que no final a gente olha e fala assim, não sei nem mais o que você fez, o que eu fiz, porque a gente acaba... É claro que tem um traço diferente, se você conhece o meu traço e o traço dele, você vai identificar. Mas as obras ficaram tão harmônicas, foi uma experiência tão incrível. E isso tudo é parte desse projeto da arte sustentável. Ele está comigo nesse projeto e a gente vai... Estamos tocando, vamos ver agora o que a gente consegue fazer nos próximos meses. Eu tenho... Construções também, parei para estudar permacultura, parei para estudar construções sustentáveis, porque quero fazer tudo autossuficiente.

Eron Falbo: [34:53] A gente falando, eu lembrei do Walden, um livro do Henry David Thoreau, que expressa muito essa coisa do isolamento, de sair do ruído da grande cidade, ir para o campo. O que você vê que é a importância desse isolamento para o artista dentro da sua obra, dentro do que você faz, dentro da sua inspiração, da sua criatividade? Como que é essa diferença entre ser um artista urbano e ser um artista isolado no campo? Quando digo isolado, digo de uma maneira positiva, de uma maneira consciente e proposital.

Isolamento natureza e conexão com animais (35:20)

Marzio Fiorini: [35:42] Mas você sabe que antes de ser um artista no campo, nessa área rural, se isolando e pensando no que você vai criar, porque realmente é essa a imagem que você faz, acho que todos nós precisamos desse tempo para nos conectarmos com nós mesmos. Acho que isso é importante para qualquer equilíbrio e para qualquer profissão que você tenha. Acho que é a condição básica para nós, seres humanos, termos uma vida saudável. Claro que tenho uma percepção diferente, talvez utilize essa percepção e essa oportunidade de estar lá no meio do mato sozinho de uma forma diferente, mas acho que todo mundo que experimenta isso... e para muitas pessoas isso é algo que não existe: olhar para o inseto, olhar para uma coisa, ter um macaco na sua janela. De repente, várias vezes me aconteceram coisas assim. Eu estava um dia sentado, sozinho, estava meio frio, tinha acendido a lareira, estava tomando vinho, estava lendo um negócio, escrevendo um negócio. Já tinha fechado a casa quase toda, mas aí ficou um pouco de calor e abri umas portas das minhas varandas. Cara, de repente entrou um pássaro, mas tão grande, tão grande. Eu tomei um susto. Aquele negócio começou a bater na sala. Falei: o que vou fazer? Vou conversar com ele. Tenho que conversar com ele. Falei: calma. E ele, numa das batidas, caiu perto da lareira, e uma das minhas cachorras estava ali antes, eu tinha deixado um cobertor para ela. Olhei para ele e falei: olha só, eu vou te salvar. Você fica quieto. E quem disser para mim que um animal não entende o que você está falando, não entende nada desse universo que está vivendo, está enganado. Porque eles entendem tudo, eles sacam tudo. E cada vez que você está mais lá, você começa a perceber isso. E você começa a perceber que você faz parte daquilo. Então, quando eu conversei com ele e olhei para ele, Eron, ele não se mexeu mais. Ele ficou com as asas assim, ele era desse tamanho enorme, com as asas assim. Eu falei: olha, vou pegar esse cobertor, vou jogar em cima de você e vou te tirar daí. Ele não se mexeu, cara. Eu joguei o cobertor, ele não se mexeu. Eu peguei ele, abracei ele, ele era grande. Eu realmente falei, cara... Peguei ele assim, fui para fora e joguei ele, e ele saiu voando. Depois, claro, eu larguei o vinho, tomei uma dose de uísque para dar uma acalmada, porque eu fiquei estressado. Mas foi uma experiência, porque eu falei: ele me entendeu. Então, cara, isso é bacanérrimo, sabe? Você está nesse habitat, porque eu estou no habitat deles, não são eles que estão no meu. Eu estou no habitat deles.

Eron Falbo: [38:45] Só que para você poder entrar nessa sintonia, você tem que sair um pouquinho dessa coisa humana. Porque, na verdade, eu quero dizer o seguinte: é dentro das cidades que a gente está se isolando, a gente está se isolando da natureza.

Marzio Fiorini: [39:03] Todos estão se isolando de tudo. É por isso que eu te falei, muitas pessoas não têm ideia, têm medo de um mosquito, têm medo de uma mosca, têm medo de uma barata.

Eron Falbo: [39:12] É, mas é isso que eu estou falando. A gente aqui dentro da cidade, conversando com o cavalo, a gente não tem muito essa conexão porque a gente está isolado, então os animais ignoram a gente.

Marzio Fiorini: [39:25] Mas já é um passo. Quando você monta, quando você tem um cachorro, quando você tem esse amor, porque eu tenho um amor por esses animais, eu morro por eles. Eu sofro, sim, eu sofro desesperadamente, sabe? Eu fico enlouquecido. Já me aconteceram tantas coisas que a gente precisaria de umas três, quatro horas aqui para eu te contar as histórias que já me aconteceram lá com os meus cachorros, sabe? É uma loucura. Muitas vezes eu tive que sair correndo de algum lugar porque não achava veterinário. O veterinário estava inviável, o cachorro estava passando mal, não tinha ninguém para levar. Sabe essas coisas? Eu tive que ser chamado assim, tinha acabado de voltar. E as pessoas são muito despreparadas, têm alguns alarmes falsos: seu cachorro foi mordido por uma cobra, está inchado, cara, o que você faz? Você sai desesperado. Eu saí como uma bala, nunca cheguei lá tão rápido. Depois descobri que, quando cheguei no veterinário, não era cobra, mas os sintomas eram muito parecidos.

Eron Falbo: [40:26] É, o que eu senti quando você falou do pássaro, que você primeiro chegou ali na fazenda e aí, depois de um tempo, você foi...

Marzio Fiorini: [40:36] A Karen tá falando que salvou um cachorro no Ano Novo, que maravilha. Tem gente fazendo um monte de coisa. Me desculpa, porque se eu for lendo não consigo responder...

Eron Falbo: [40:44] Mas, gente, é bom até dizer: se alguém quiser mandar alguma pergunta, algum comentário, põe na caixinha de perguntas que a gente consegue ver melhor, e eu consigo colocar aqui para todo mundo ver depois.

Marzio Fiorini: [40:56] A Karen, minha querida, está morando em Bali. Ela salvou um cachorro em Bali? Cara, que saudade de você em Bali. E ela fazia, na minha casa, às vezes em Barcelona, todos os quitutes do Fernando Andrea. Meu Deus, era uma delícia aquilo. Nunca vou me esquecer disso.

Eron Falbo: [41:14] Era um privilégio, cara. De repente, agora a gente pode até responder umas perguntas aqui, porque agora a gente tem mais uns dez minutos. Estão perguntando se você tem planos para criar uma nova coleção de joias. Falou que lançou uma recentemente.

Marzio Fiorini: [41:31] Não, eu tenho feito outras coisas esses últimos anos. Em 2013 eu desisti de comercializá-las, e elas fazem parte, desde então, da minha obra. Então, quando eu faço uma exposição, elas sempre me acompanham. Às vezes eu fiz alguma coisa, uma exposição e tal, e tenho alguns clientes que me ligam, que pedem, e eu envio. E tenho feito, nesses últimos anos, algumas colaborações com algumas marcas. Fiz uma coleção para a Key Design, uma coleção masculina. Fiz um trabalho para uma ONG em Beirute, que cuida de mulheres abusadas, violentadas, tanto do Líbano como da Síria. Fui para lá lançar, foi uma delícia de trabalho, foi uma experiência incrível. Aliás, o país é maravilhoso. Fiz para São Paulo, para aquele novo empreendimento Matarazzo, fiz um lançamento para eles, eles fizeram em Cannes umas pulseiras, eu criei essas pulseiras para o evento deles. Essas coisas eu adoro fazer. E coleções mesmo eu nunca mais fiz nada novo, fiz umas reedições, fiz uma coleção de art bags também, agora recentemente com a BFF. Estou pensando, sim, em fazer alguma coisa, mas quero fazer algo ainda mais sustentável. Ainda não cheguei lá, porque as minhas joias, a minha borracha é reciclável e não tenho perda, então ela já é sustentável. Tanto que ganhei um prêmio em Londres, em 2011, justamente pelo design e sustentabilidade. Estou trabalhando com uma gente no Chile que está me levando para fazer umas consultorias também nessa linha de design em borracha, mas sempre nessa linha da sustentabilidade, que é isso que me interessa. Estou estudando uma maneira de criar uma pequena coleção cápsula nesse segmento. Mas, se alguém quer alguma coisa, se precisa de alguma obra minha, alguma peça minha, se tinha, perdeu, quer de novo, isso acontece. Então, mandem um direct e eu vou atender com o maior prazer do mundo.

Eron Falbo: [43:52] É só uma boa oportunidade para saber disso. A gente te encontra, então, no Instagram? No seu Instagram?

Marzio Fiorini: [43:59] No Instagram, arroba marziofiorini. Me sigam lá, me mandem direct, respondo sempre. Tenho alguns Instagrams, mas esse é o meu principal. Tenho o Sr. Majestade Arte, tenho o Marzio Fiorini Brands também, que também funciona muito bem. Estou à disposição, com muito prazer.

Abandonando a produção em massa (44:18)

Eron Falbo: [44:18] E essa nova coleção sustentável que você está planejando, ou está com vontade de fazer, você pensa em comercializar também ou vai ser uma coisa mais artística?

Marzio Fiorini: [44:30] Não, penso em comercializar, mas, de uma forma, não quero mais o que tinha antes, pelo menos se tiver que tomar conta de tudo como tinha que tomar. Não quero ter a necessidade de estar em três países na mesma semana, praticamente, fazendo todas as feiras, acompanhando 50 mil distribuidores. Eu tinha 15 países me distribuindo. Na realidade, no final, eu estava trabalhando para 15 pessoas. Não eram eles mais que distribuíam para mim, eu que trabalhava para eles. Então, minha vida virou um inferno. Eu era um burocrata. Falei: não sou um burocrata, sou um artista. Então, paguei um preço por isso, porque poderia estar numa outra situação muito mais confortável se tivesse levado essa história, mas bati o pé e falei: não, eu sou artista e vou voltar a ser artista. E alguns ficaram muito chateados comigo, porque diziam que dependiam da minha produção, porque tinham X anos. Eu falei: olha, mas amanhã, se vocês resolvem fechar a empresa de vocês, vocês fazem assim comigo e eu tenho que arrumar outro. Então, eu realmente optei em fazer isso, e foi uma das melhores decisões que eu tomei na minha vida.

Eron Falbo: [45:41] Posso imaginar, posso imaginar. É, eu acho que muita gente continua nesse caminho, né?

Marzio Fiorini: [45:47] Ser artista não é fácil.

Eron Falbo: [45:49] Se você tá num caminho assim de muito bem-sucedido, com muita movimentação, tem muita tentação pra você continuar, né? Você tem dinheiro, você tem atenção, você está saindo na imprensa, você tem poder, você tem uma série de coisas aí, que você tem que ter muita disciplina, muito caráter, para conseguir colocar isso de lado e viver uma vida mais Walden, ir para sua fazenda e conversar com o parça.

Marzio Fiorini: [46:23] E você vai se descobrindo de uma outra maneira também, sabe? Você vai descobrindo que aquilo tudo... Eu acho muito legal, eu adoro fazer, sempre adorei. Eu nunca fiz nada sem prazer, nada. Eu podia ficar numa feira quatro dias falando cinco idiomas ao mesmo tempo, com 50 mil pessoas ao meu redor, porque no dia seguinte eu não sabia nem onde mais eu estava. Já me aconteceu de saltar de um táxi, porque a minha assistente, em Paris, onde ela não falava francês, eu dei o endereço para ela e caí no táxi, meio desmaiado, só vendo o táxi passar. Quando eu cheguei e saltei, não era a minha rua, não era a minha casa. Falei: mas onde é que a gente está? Isso acontecia porque era exaustivo. Imagina, você responde: um vem e fala inglês com você, o outro vem em francês, o outro vem em italiano, o outro vem em espanhol. Quando você vê, cara, você está tonto. E você tem que dar conta daquilo. Você passa um, dois, três, quatro dias fazendo isso. Eu falei: cara, não quero isso mais para a minha vida. Isso não é arte, é outra coisa. Vender é bacana, é gostoso, eu posso fazer, mas fazer isso como uma necessidade, e repetitivamente, não dá. Então, eu fiquei muito feliz de ter.

Eron Falbo: [47:40] Feito essa... E a realização tem que estar bem clara, né? Tipo assim, de onde está vindo a realização, que talvez no início desse processo todo tinha uma realização de você, sei lá, estar conhecendo diferentes culturas ou distribuindo sua arte, que é um conceito novo, etc., para tantas pessoas, etc., aí chega um momento que talvez fique repetitivo, redundante, e você fica um pouco mais cansado.

Marzio Fiorini: [48:10] Nesse ínterim, tiveram muitos episódios desagradáveis, porque fui muito copiado na época, tive de brigar com muita gente grande. Cheguei a invadir uma feira em Paris com um oficial de justiça e busquei busca e apreensão. É uma coisa que não queria para a minha vida. Falei: para que vou fazer isso? Mas as pessoas provocavam. Hoje, quando vejo uma cópia, e tem um monte de cópias, até do meu design mesmo... Há algumas pessoas que dizem que fazem as joias de borracha e é o meu design, e eu não ligo. Para mim, isso hoje é um privilégio, sabe? Ter alguém que copie alguma coisa que eu fiz há 15, 20 anos, sei lá. Mas naquela época eu estava começando, era o meu bebê. Ver alguém te copiando era um desespero. Eu ficava... Porque eu gastava muita energia com esse tipo de briga, eu não queria mais isso. Eu falei: não quero isso.

Eron Falbo: [49:12] É porque tudo tem um preço. Acho que as pessoas que têm, vamos dizer, uma certa inveja, elas talvez não param para pensar que você está pagando um preço também, essa coisa toda de enfrentar esses males, essas dificuldades todas. É o preço de ser renomado, de ter fama.

Marzio Fiorini: [49:28] E, engraçado, quando eu criei as Joias de Borracha eu não tinha as facilidades que existem hoje. Hoje você resolve fazer um molde, eu desenho, eu tenho uma máquina de CNC que cria, que lê, que faz o molde, e sai pronto. Naquela época, tive que inventar o processo de fazer um molde. Por isso que demorei dois anos para fazer a primeira coleção, até entender como eu poderia chegar àquela primeira peça.

Eron Falbo: [49:55] Hoje em dia, você pode fazer até em impressora 3D.

Marzio Fiorini: [49:58] Não gosto. A impressora 3D não te dá... Ela é muito importante, sim, ela funciona, sim, mas para o meu trabalho é para fazer uma peça piloto, para entender se aquele volume que eu quero realmente está perfeito. Mas eu tenho uma percepção muito aguçada das dimensões. Então, quando imagino 0,01 milímetro, sei o que quero. Não preciso fazer uma peça piloto em 3D para saber se está bom ou se não está. Vou direto e mando ver, já faço a peça. Mas isso foi agora, de alguns poucos anos para cá. No final do meu trabalho, quando comecei as últimas coleções que fiz, já tive essa oportunidade de trabalhar com esse maquinário, que hoje está muito melhor ainda. Mas, 20 anos atrás, meu querido, ralei para entender como eu poderia criar essas peças.

Eron Falbo: [50:53] Estou botando outra pergunta aqui, acho que talvez seja a última que a gente vai fazer. O que você fazia antes de ser artista? Já teve um emprego comum?

Primeiros empregos antes de virar artista (50:56)

Marzio Fiorini: [51:03] Olha, eu nasci artista, sempre fui artista, sempre soube que queria ser artista. E o único trabalho que tive... Aliás, não minto, tive dois trabalhos na minha vida. Um trabalho que foi de corretor de imóveis, eu tinha 18 anos de idade, 17 para 18.

Eron Falbo: [51:23] De quê, desculpa?

Marzio Fiorini: [51:24] Comecei de corretor de imóveis. Fui trabalhar como assistente e um dia me disseram assim: olha, você não pode atender o telefone. Falei: está bom. Um dia o corretor não aparece, eu estou lá, vou atender o telefone. Atendi o telefone e, claro, fui encontrar com a cliente, fui mostrar a casa e tal, que depois deu uma confusão danada, mas vendi a casa. Então a pessoa ficou encantada, falou assim: mas esse garoto é incrível, não sei o quê, ele sabe tudo, ele sabe de arquitetura, ele conhece e tal. E aí me colocaram e falaram: bom, Marzio, a partir de hoje você pode ser corretor. Mas fiz isso por um ano, porque logo em seguida um amigo meu resolveu fazer uma loja da Company, que na época era o auge da moda no Brasil, a Companhia dos Pés, fez em Petrópolis. Fui trabalhar com ele, fui gerenciar e dirigir as lojas, que no final virei um supervisor. Trabalhei seis anos, mas eu tinha o lado burocrático, sim, mas ali descobri os meus dons. Eu fazia os desfiles, eu criava os desfiles, eu criava as vitrines, eu fazia sempre em conjunto com o designer, que era o Mauro Taubman, que era um gênio, que foi um prazer trabalhar com ele. E depois Patrícia Vieira, que era também uma criadora, é uma criadora até hoje, ela tem uma marca, é minha amiga até hoje. Então foi uma delícia fazer esse movimento, mas ali, seis anos depois, eu entendi que aquilo tudo que eu estava fazendo eu precisava fazer para mim de uma forma completamente autêntica, uma forma artística. Daí eu pedi demissão e comecei a trabalhar sozinho e nunca mais tive nenhum emprego, sempre fui eu, eu e eu.

Eron Falbo: [53:23] Maravilha, então de corretor de imóveis até um artista na sua fazenda, totalmente autêntico.

Marzio Fiorini: [53:33] Um ano no máximo, nem isso.

Eron Falbo: [53:36] Não, mas eu tô dizendo assim, você acha que começou sua vida... Desculpa, dei uma cortada aí, acho que a gente... Bom, mas eu acho que você começou a sua vida... Está me ouvindo?

Marzio Fiorini: [53:49] Estou, estou.

Eron Falbo: [53:50] Eu acho que você começou a sua vida nesse mundo mais burocrático. É assim que eu estou vendo. E aos poucos foi se descobrindo, se deslanchando.

Marzio Fiorini: [53:59] Na realidade, eu já sabia. Eu sempre soube o que eu queria. Eu sempre soube.

Eron Falbo: [54:03] Mas você foi aos poucos abandonando o lado burocrático e ficando cada vez mais autêntico, cada vez mais artista puro.

Marzio Fiorini: [54:10] O lado burocrático, na realidade, ele entrou na minha vida por conta da arte. Porque, para você administrar alguma coisa, para você fazer alguma coisa que eu gosto de fazer, você tem um lado burocrático. Então, eu sempre me meto nas coisas. Por exemplo, fazer um Sua Majestade a Arte tem um lado burocrático, mas eu tiro de letra. O que eu não gosto e não quero é ter aquela obrigação de fazer o que fazia, de ter os 15 distribuidores, de ter aquela obrigação de fazer duas coleções anuais ou mais, ou ter que atender aquelas feiras todas. Isso é uma burocracia que não me interessa. Agora, fazer algo esporádico, que me dá um prazer enorme, que vou chamar um fulano e um ciclano para me ajudar naquelas coisas que não gosto de fazer, o resto é de letra, não tem problema. Agora, que sempre fui artista desde criança e que sempre quis fazer arte, isso eu não tenho dúvida. Isso era o meu gol, eu sabia que eu podia.

Eron Falbo: [55:16] A gente vai ficar esperando suas novas coleções, seus novos eventos, suas telas.

Marzio Fiorini: [55:24] E esse projeto com arte sustentável que eu vou fazer lá em Minas, que faço questão que você venha para conhecer. Espero que no segundo semestre eu já tenha alguma coisa em movimento.

Eron Falbo: [55:36] Eu adoraria, adoraria muito ir para o campo, a gente andar a cavalo, conhecer seu ateliê.

Marzio Fiorini: [55:42] Vai ser um prazer, vai ser um prazer enorme, de verdade.

Eron Falbo: [55:45] Então, Marzio, muito obrigado. Muito obrigado por aceitar o meu convite. Obrigado por essa conversa maravilhosa.

Marzio Fiorini: [55:50] Eu que agradeço e estou à sua disposição. Vamos falar a hora que você quiser.

Eron Falbo: [55:55] Igualmente. Tudo de bom, então. Todo mundo, tchau. Boa noite. Obrigado a todos.

Marzio Fiorini: [56:01] Tchau. Boa noite. Obrigado.

Eron Falbo: [56:03] Boa noite.

No Alvo com Eron Falbo · episódio #50 · todos os episódios