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Eron Falbo: [0:00] Fala, Falcão. Entrou aqui nosso convidado. Já vamos começar, que hoje tá rápido. Falcão, meu amigo aí já há alguns anos. A gente se conheceu quando eu era músico, quando eu levava mais a sério minha música.
Alexandre Falcão: [0:20] Quando gravou um álbum com o produtor do Bob Dylan, na Califórnia.
Eron Falbo: [0:28] Isso você tá dizendo, né?
Alexandre Falcão: [0:30] Álbum até hoje guardado a sete chaves. Mas o produtor do Bob Dylan foi o produtor do seu álbum. Você deve essa história pra gente.
Eron Falbo: [0:45] Valeu, valeu. Então, Falcão, vamos conversar com a poesia. Depois a gente fala um pouco sobre você. Pode ser?
Alexandre Falcão: [0:54] Pode ser. Depois eu quero te falar um pouco do cenário aqui. Tem a ver com o que você está falando, um grande homem. Eu vou dizer só no fim quem é o poeta.
Eron Falbo: [1:09] Ah, está bom.
Alexandre Falcão: [1:11] A Vida e o Barco. Andar e mais andar é a vida a bordo. Mal estude, apenas eu vou lendo. À noite, com a música, entretendo. Deito-me cedo e mais cedo acordo. Saudosíssimo, a pátria eu recordo, E pra consolo versos de fazendo, Desenho terras só aquela vendo, E para não chorar os lábios mordo. Enfim há de chegar, eu bem sei, Que o Brasil eu reveja jubiloso, E se outrora eu serví-lo, só pensei, Muito mais forte e muito mais zeloso. Para ainda mais serví-lo, voltarei, Até que nele encontre o último repouso. 14 de julho de 1887, Dom Pedro II. Como eu sei que você é um estudioso, um conhecedor das Casas Reais, um apreciador da história, da nobreza, da importância que tem para o mundo, eu quis fazer essa homenagem na partida. Chama-se...
Eron Falbo: [2:17] Funcionou.
Alexandre Falcão: [2:19] A Vida e o Barco.
Eron Falbo: [2:23] Tocante, funcionou, muito bom, obrigado aí pela lembrança. Falcão, se você puder falar um pouquinho, lembrando assim que o nosso programa Brasil Extraordinário, a gente está tentando... a gente não está atacando uma seção da sociedade, e que você faz e que você pode contribuir no seu canto. Isso aqui é uma coisa social geral da sociedade brasileira. Então, eu falo sobre você: de onde você vem, quem você é, mas além da profissão, por favor.
Alexandre Falcão: [2:54] Tá. Antes disso, eu queria falar disso aqui.
Eron Falbo: [2:58] Ok. Fica à vontade.
Alexandre Falcão: [2:59] Chama-se... É um quadro de 2004, feito aqui no Rio de Janeiro, uma aquarela, chamada Frota de Pesqueiros. É de um homem chamado Mário Beren, mineiro, uma das pessoas mais importantes para o desenvolvimento da energia elétrica no Brasil, foi um dos que viabilizou o pacto da hidrelétrica de Itaipu, a constituição da CEMIG, de Furnas, foi um dos primeiros presidentes da Eletrobras, um grande homem que eu admirei e de muita sensibilidade, que me deu de presente esse belo quadro aqui, essa aquarela desenhada...
Eron Falbo: [3:41] Mas ele não é o pintor, não? Ele é o cara que te deu?
Alexandre Falcão: [3:45] É, ele é pintor, mas a atividade dele é como engenheiro no setor de energia elétrica.
Eron Falbo: [3:50] Ah, foi ele que pintou? O cara que te deu o quadro foi ele que pintou?
Alexandre Falcão: [3:53] Foi ele que pintou.
Eron Falbo: [3:54] Ah, que legal.
Alexandre Falcão: [3:55] Era um amador, um grande pintor, mas era para ele, não era profissional. Agora, sobre a minha vida, eu sou jornalista de formação desde 1991, trabalhei muitos anos em redações, trabalhei no Globo, trabalhei no Estadão como repórter, editor e, também, durante um bom tempo, atuei na área de comunicação corporativa, na Insight Comunicação, da qual fui sócio, e estou agora focado num projeto, num think tank chamado Memória da Eletricidade, que produz conhecimento nessa área de energia. Cuidar da parte editorial, lançamento de livros. Estou preparando um livro agora interessante sobre a área nuclear, sobre outras formas de energia também. A gente está estudando. E eu desenvolvi, de uns 10 anos para cá, uma atividade como escritor. Já lancei cinco livros. O último é um livro de poemas, que é uma coletânea de 35 anos em que eu escrevi poesia. Uns 35 anos para cá, fiz uma coleta e lancei. Coelhos do Olhar, que é um livro autoral, e os outros são livros de trabalho.
Eron Falbo: [5:20] Esse é o que eu tenho.
Alexandre Falcão: [5:22] É, esse é um livro fantástico.
Eron Falbo: [5:25] É um livro que fala do amor, que fala da vida, que fala da...
Alexandre Falcão: [5:31] Solidão, que fala do mar, enfim, assunto. Então tenho esse lado do jornalista, tenho esse lado do escritor e desenvolvo muito esse lado poeta, que é hoje o que mais me entusiasma, o que mais me encanta. Acho que a arte tem um papel no mundo e, particularmente, no Brasil. Vejo a arte com duas vertentes. Ela é, ao mesmo tempo, gentil, delicada, amorosa, sensível, afaga a alma, afaga os teus pensamentos e, ao mesmo tempo, a arte é perplexa, atônita, te leva a pensar, te tira da zona de conforto, te faz enxergar o que às vezes a filosofia não percebe, a sutileza da subjetividade, o não racional. Então acho que a arte tem um papel nas suas várias formas, poesia, canto, dança, música. Enfim, todas as formas de arte são válidas e importantes. E eu acho que é um tamanho de conhecimento e de compreensão do mundo.
Eron Falbo: [6:47] Eu queria saber... Primeiro, vamos dar um oi para o pessoal que está chegando, que está começando agora. Meu pai já falou um monte de coisa boa sobre você.
Alexandre Falcão: [6:57] Uma pessoa incrível.
Eron Falbo: [6:59] Depois você dá uma olhada. Ele só está te elogiando aqui, já tem umas 10 linhas aqui de elogios.
Alexandre Falcão: [7:06] Olha, eu vou agora falar em público o que eu te falei em particular. O Heraldo, seu pai, é uma das pessoas mais sábias, mais delicadas, inteligentes para conversar, que eu conheci em toda a minha vida. Primeiro, foi num negócio: ele me contratou para escrever um livro sobre a história dos grandes hotéis do Brasil. Era um livro comemorativo do aniversário da ABIH, a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis. Nós fizemos um livro, uma seleção dos principais hotéis, e ficou um livro leve, gostoso, com histórias interessantes, detalhes desses grandes hotéis do Brasil todo. De lá fizemos uma amizade que ficou até hoje. É uma pessoa incrível, que adoro conversar.
Eron Falbo: [7:56] Obrigado, muito obrigado pelo carinho, como sempre. Deixa eu te perguntar, Falcão. Eu queria saber um pouquinho, para eu entender melhor, essa sua transição de lançar o seu próprio trabalho. Como foi isso para você, de sair do mundo mais corporativo para... Porque, imagina, gente, o pessoal que está assistindo aqui, todo mundo é um pouco artista, todo mundo, pelo menos, quer ser um pouco mais artista, mesmo grandes artistas querem ser. Então, talvez a gente pode inspirar um pouquinho com a sua história de como você saiu em público para começar a fazer isso.
Alexandre Falcão: [8:49] A minha história com a poesia, com a arte, tem a ver com exílio. Nós viemos morar aqui no Rio de Janeiro. Somos paraenses, de Belém do Pará, e viemos morar no Rio por conta do trabalho do meu pai, em 1984. Lá se vão 36 anos. E essa saudade, essa ausência, a distância da família, dos amigos, da história, das raízes da nossa terra, que é uma terra de uma cultura fabulosa, recém-descoberta, agora que estão descobrindo esse outro lado cultural da Amazônia e não só o aspecto ambiental, isso foi um belo material que me incentivou a escrever e direcionei para os versos, para a poesia, que gosto muito desde adolescente, faço os meus rascunhos. Então, diria que tem a ver com exílio. Mas nunca tinha publicado um livro com poemas. Há dois anos atrás, meu pai veio a falecer. Era um dos meus gurus, uma referência de homem para mim, de ser humano, de tudo. Eu o vendo, ele morto, parece que ele me falou em silêncio: 'Meu filho, não adie mais nada. Passa. Não adie.' Em silêncio, sem abrir a boca. Já tinha partido para o plano celestial. E eu fiquei com isso na cabeça. Eu disse: não, chega, é agora que eu vou fazer. Juntei e saí catando tudo o que escrevi nesses 35 anos e resolvi fazer um livro, que é uma coletânea desses poemas, que dividi em três blocos: uma parte de amores, uma parte mais de homenagem à família e tal, e uma parte de temas variados, entremeado com pensamentos também, que gosto bastante. Se você me permitir, separei um aqui, um poema do livro que acho que tem a ver com a nossa conversa.
Eron Falbo: [10:42] Um pouco... Ué, o que é isso, permitir? Por favor, se você nos honrar, nos presentear com uma recitação, será nossa honra.
Alexandre Falcão: [10:54] Chama-se Eus. Eus. Ando sozinho, acompanhado de mim mesmo. Solidão a dois, dupla face, da mesma alma feita de noite e dia e lua cheia. Deparo-me comigo. Sinto vontade de me abraçar, beijar, dizer palavras sem sentido, apenas para despertar o mar revolto represado no coração. Olhe o outro dentro de você. Sem perceber, estará rindo do silêncio sonoro, sussurros da alma tateada em si. Teu eu companheiro guarda teus segredos mais recônditos, escondidos dos olhos, nunca da mente. Desmente até a vírgula mal posta no vernáculo, dito em trance. Seja você, seja seu eu, seja o que seja, nunca haverá melhor conselheiro que os olhos diante do espelho. Chama-se eu, esse poema. É um pouco existencialista.
Eron Falbo: [11:54] Muito bom. É assim que eu gosto.
Alexandre Falcão: [12:00] É acreditar na vida, nas potencialidades. E foi bom você ter falado dessa história dos artistas anônimos, às vezes das capacidades escondidas que as pessoas têm em relação à arte e que, às vezes, por uma noção distorcida, que só vê a arte dos grandes artistas. Mas a arte não é só dos grandes artistas, você sabe disso. Aliás, os grandes artistas um dia foram anônimos e dependeram de outros artistas para produzir a sua arte. Eles não começaram a história, eles carregaram a história dentro deles e fizeram parte a partir dessa experiência coletiva. Então, acho interessante que as pessoas deixem fluir os seus talentos, que pode ser poesia, que pode ser canto, pode ser dança. Enfim, você tem variadas formas de expressar, mesmo que para públicos restritos, para a sua família, para os amigos. Eu acho que quanto mais você compartilha a arte e libera os seus talentos, mais você faz bem ao mundo.
Eron Falbo: [13:05] Na minha opinião, essa é uma questão que a gente pode entrar na sociedade, não só brasileira, mas na sociedade de todos os países do mundo. Que depois do iluminismo, depois do industrialismo, a gente começou a se especializar, começou a fazer testes de aptidão, começou o ser humano a se especificar, né? Ele tem que se definir perante a sociedade de uma maneira ou de outra, e a gente perdeu muito da universalidade, né? Do ser humano como completo, alguém que pode ser ao mesmo tempo um engenheiro e um pintor, né? Como era Leonardo da Vinci, né? Isso era uma coisa comum no mundo antigo. Inclusive o termo universidade, né, que a gente usa hoje pras coisas mais específicas do planeta, vem de quê? Sim, o universal. Então, o currículo de educação clássica era de abrir a mente, de se expandir, de ser mais e não ser menos, e não se especificar. Inclusive, o termo arte, que é uma tradução do grego techne, que é a versão em latim do grego techne, que significa técnica, na verdade. Tudo na Grécia Antiga era arte. Você faz uma cadeira, era arte. Qualquer coisa tem a arte de ser contador. Foi num tempo medieval que isso começou a se separar. O que era arte, em termos transcendentais, em termos decorativos, o que você puder imaginar, e outras coisas, ofícios. E uma coisa separou da outra. Mas lembrando que no início não eram separadas essas coisas, então uma pessoa que estava construindo uma cadeira se via tão importante quanto uma pessoa que estava pintando um quadro, então ele se colocava naquela cadeira, ele transcendia aquela cadeira o máximo possível para ser uma obra que inspirasse, que compunha o ambiente de uma forma a elevar a alma humana. Então, esse é o tema, acho, que as pessoas se veem muito. Aí eu queria convidar os nossos amigos aqui presentes. Aqueles que não se veem como artistas, começarem a se ver como artistas, porque o ser humano não é separado do cérebro esquerdo, do cérebro direito, né? O hemisfério esquerdo e o hemisfério direito, humanas e exatas. A gente tem os dois cérebros, todo ser humano tem os dois hemisférios. Então, como que a gente inspira, como que a gente passa a ser mais artista?
Alexandre Falcão: [16:06] Eu acho interessante, você colocou, bem interessante, Eron. Eu vou te dar um exemplo, que eu acho que é uma história bem conhecida, para você ver a potência que a arte tem. No início do século XIX, 1810, 1820, existia na Inglaterra uma mulher chamada Mary Shelley. Casou com poeta, por isso que o sobrenome é Shelley. Gostava muito de escrever, mas você sabe que naquela época as mulheres não podiam escrever ou podiam lançar um livro sem assinar, by a lady, ou que um homem assinasse por ela. Ela escreveu um livro dos 16 aos 18 anos. Esse livro foi lançado aos 18 anos, com o prefácio do marido, do Shelley. Virou um clássico da literatura inglesa, e hoje um clássico do mundo, que é o Frankenstein. A Mary Shelley escreveu Frankenstein, dos 16 aos 18 anos. Não pôde assinar, porque era mulher. Prefaciado pelo marido. Todo mundo achava que ele tinha escrito o livro. E, antes dele morrer, ele anunciou para toda a intelectualidade inglesa, para toda a.
Eron Falbo: [17:19] Sociedade, que ela tinha escrito o livro.
Alexandre Falcão: [17:21] Aí eu te pergunto como é que uma garota de 16 anos, morando em Londres, 1810, 1815, da periferia de Londres... Tudo bem, o pai tinha uma livraria, o pai era intelectual, facilitou, é verdade. Mas, com 16 anos, 18 anos, você escreveu Frankenstein. Não tem uma explicação racional. Você não pode dizer que ela fez... A academia, ela estudou, ela conversou, ela leu uma biblioteca inteira, não. Então, você vê uns talentos assim, por exemplo, o pianista José Carlos Martins, que agora está, inclusive, com dificuldades motoras e tal. Eu vi o filme dele e fiquei impressionado. O cara com cinco anos tocava clássicos, completo, com um virtuoso, com uma performance de uma riqueza. E como é que você vai entender isso? Então, aí me leva a crer, observando esses fenômenos, que são fenômenos, que a arte não é racional. A inteligência vem depois. A arte se coloca entre a ideia e a verdade. Porque a ideia eu vejo como um estalo, como um insight, como uma observação do tempo. Quando isso é aceito por um determinado público, por menor que seja, se torna uma verdade, aceita por aquela plateia, vamos dizer assim. A arte está no meio disso tudo, porque ela não se racionaliza. Ela tem uma perplexidade, ela te leva ao pensamento sem ser um pensamento elaborado. E é teu, é uma pulsação que tem em você. Se você me perguntar por que você escreveu o poema... Quando eu escrevi meus primeiros poemas, eu não tinha lido nada a respeito. Eu não conhecia nenhum poeta. Eu lia os poetas da escola, que o colégio me mostrava. Mas, se você me perguntar se eu tinha uma base acadêmica, se eu tinha lido os grandes poetas do mundo brasileiro, não. E eu me preocupava, me hesitava um pouquinho, porque eu pensava, mas eu não conheço métrica, eu não conheço, sabe, eu não sei fazer um soneto com toda a técnica, eu não tenho as técnicas, será que eu devo fazê-lo? Aí eu fui perdendo a vergonha, escrevendo, escrevendo, escrevendo, escrevendo, escrevendo, escrevendo, escrevendo, assim, foram mais de 300. Tem um aprendizado que é empírico e, claro, você tem que estudar. Eu lia, depois faz, poetas, conheci.
Eron Falbo: [19:42] Aí você vai aprimorando, você vai aprimorando a sua, vamos dizer, em inglês, fine tuning, esculpindo os detalhes da sua técnica. O que você falou, apesar de eu concordar que tem um certo gênero sequer, um certo o quê que não se toca na arte, ao mesmo tempo eu sou mais escola de inspiração para todos. Eu acho que o ser humano, vamos dizer que hoje não se pensa como artista, ele usa isso como uma objeção. Tipo assim, eu não vou fazer arte porque eu não sou Mozart. Eu tenho 40 anos de idade e até hoje não sei cantar, como é que você cantou? Então eu acho que também vale a pena, enquanto existe sim a magia da arte e tudo mais, também é interessante lembrar da parte mais de suor da arte, né? Que é assim, Mozart escrevia a sinfonia com 6 anos de idade, mas estava lá o Leopold Mozart com a varinha batendo na mão dele, sempre que ele errava, desde os três anos de idade, entendeu? E ele tava lá, aperfeiçoando a técnica, ele queria ser que nem o pai dele, que era um pianista, que era um bom pianista. E existe isso na arte, existe ambiente, existe... Eu, por exemplo, quando eu morava em Londres, estava lá imerso naquele cenário artístico. Estava em Dalston também, em Hackney, que a Vogue Itália chamou de The coolest place on Earth, o lugar mais da pesada, sei lá qual que é o lugar mais fera do planeta. E por lá tinha diretores de cinema, tinha... Você ia em shows toda noite, que você via a sua banda favorita, que você... Pô, essa banda é a melhor banda que eu já vi na minha vida. E no dia seguinte, você não lembrava do nome, porque você já tava em outros shows. Então, assim, você tava imerso nessa coisa. E aí, óbvio que você produz mais, né? Você tá lá... A Mary Shelley, que nem você falou, ela era muita amiga do Lord Byron. Ela tava lá na aristocracia inglesa, né? Tinha muitos bons amigos, vamos dizer. Então, eu não estou discordando com o que você está falando, concordo plenamente com o que você está falando, só estou dizendo que para a gente inspirar, para permitir que as pessoas produzam arte e saiam do armário como artistas, eu acho que vale lembrar que é para qualquer pessoa. Se você quiser aprender piano como Mozart, você tem que botar o dobro de horas que ele colocou, porque ele começou muito cedo. Ele começou com 3, 4 anos de idade e já estava tocando piano, então é uma questão asiática, né? E você viu os videozinhos que a gente vê da galera tocando com 5 anos de idade, né? Então, só isso que eu queria adicionar, entendeu?
Alexandre Falcão: [23:07] Eu concordo com você, eu concordo com você. Existe um talento inato, eu não nego isso. Mozart é único. Beethoven é único, Shakespeare é único, Nelson Rodrigues é único. Existe um talento inato, mas eles tiveram a coragem, eu concordo muito com você, de desenvolver o seu talento. O fato de você não ser o Nelson Rodrigues, não ser o Mozart, não ser o Beethoven, não ser o Shakespeare, não te impede de produzir arte com o teu talento e que tenha um significado para o mundo. Porque, às vezes, eu acho que a gente pensa em mudar o mundo, seja para que lado for, sempre pensando no macro. As pessoas esquecem que o seu micro-mundo, se você somar todos os micro-mundos do mundo, você tem um mundo. Se você conseguir fazer um trabalho artístico que mobilize, que encante, inspire o seu pequeno mundo, os seus amigos, a sua família, as pessoas próximas, para mim você já está fazendo uma revolução cultural fantástica. Você já está dimensionando as pessoas para outro patamar do seu pequeno universo. Eu até te peço permissão, que tem um trecho aqui, um poema belíssimo do Mário Quintana, que é metalinguagem. Eu falo o que é o poema, o que é a poesia. Vamos lá. Os poemas.
Eron Falbo: [24:29] Mas só um parêntese antes de você começar. Aqui estão falando... A Sílvia está falando aqui que, Alexandre, você faz poesia com amor. Elas são belas. Eu só queria te dar um elogio que, realmente, as suas poesias, apesar de você ter começado tarde nisso, eu gosto muito de poesia, então eu leio muitos poetas, até o marido da Mary Shelley. Gosto bastante. E você tem uma maturidade na poesia, dá para ver que você não está tentando chamar a atenção, você está realmente buscando, as suas palavras buscam um lugar da alma. Elas não estão trazendo para você os olhos. Acho que isso é um grau de maturidade poética muito avançado.
Alexandre Falcão: [25:18] Obrigado. Obrigado a Sílvia, minha prima querida lá de Belém, que é uma incentivadora de primeira ordem. Aliás, muitos que estão aqui, estou vendo, são amigos queridos, pessoas que eu não seria o que sou, digamos assim, como poeta, sem esse universo. Não acredito na arte individualizada. Até os gênios é que questiono, porque os gênios não foram gênios sem a história anterior. Os gênios não foram gênios sem convivência, aprendizado, interlocução com pessoas que estavam antes. Todos nós temos fontes de saber e eu tenho várias, e uma em particular, que já faleceu há alguns anos, minha avó materna, Laura, que viveu até os 101 anos, que me ensinou quase tudo de arte. Aprendi a ler com ela José de Alencar, Jorge Amado, literatura internacional. Ela me mostrava isso. E sempre num conceito em que ela diz o seguinte: 'Meu filho, você nunca saberá. Esse é um projeto eterno. Você será sempre um projeto. Você nunca será uma vida plena.' E ainda diz o seguinte: 'Eu não tenho tempo para tristeza.' Isso com 99 anos: 'Eu não tenho tempo para tristeza.' Ela não tinha a melancolia como fonte de inspiração dela. Então, a tua arte é coletiva. Como os gregos dizem, é uma egrégora. Você junta pessoas com quem você tem uma afinidade, até mental, e elas te influenciam o tempo todo e você vai gerando isso.
Eron Falbo: [27:02] É uma constelação, você faz parte de uma constelação, um contexto. Até costumo dizer assim, Bob Dylan, por exemplo, ele mesmo falou isso numa entrevista recentemente. Ele falou, pô, a gente estava nos anos 60. Eu não tenho ideia de como ele recita uma parte de uma música dele. Antigamente, eu saberia se estava... Ele falou, eu não tenho ideia de como escrever essas palavras. A gente estava num contexto muito louco, entendeu? Inspiração e pessoas, aí ele cita quem estava lá junto com ele. O poeta Allen Ginsberg fazia turnê com ele. Então, pô, é isso, a gente...
Alexandre Falcão: [27:44] Eu não sei se você leu, era Só Garotos, da Patti Smith e do Robert, que era o marido, amigo...
Eron Falbo: [27:53] Eu leio alguma coisa.
Alexandre Falcão: [27:56] Nova York, anos 60, 70. Esse povo se instruiu com Andy Warhol, conviveu com Bob Dylan, conviveu com o rock, com os grandes poetas do rock and roll. A Nova Iorque daquela época era um caldeirão cultural. Ninguém passava incólume por Nova Iorque nos anos 60, 70. Era transformador. E eles souberam aproveitar, o Robert, no caso da fotografia e das artes, digamos, plásticas, e a Patti, com a sua poesia, com a sua arte.
Eron Falbo: [28:31] Poesia e música, né? Ela faz muito boa a poesia barra música dela.
Alexandre Falcão: [28:36] Exatamente. Mas deixa só para você ver uma conceituação linda do que é a poesia. Os poemas. Os poemas são pássaros que chegam, não se sabe de onde, e pousam no livro que lês. Quando fechas o livro, eles alçam o voo, como de um alçapão. Eles não têm pouso nem porto. Alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias, e o maravilhado espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti." Mario Quintana.
Eron Falbo: [29:18] Boa.
Alexandre Falcão: [29:19] Segundo olhar. A simplicidade dele, explicar algo tão profundo, tão complexo, tão rico, com palavras que ele catou.
Eron Falbo: [29:31] Isso me lembrou, na verdade, uma coisa que eu tenho estudado bastante ultimamente, que é a arte da analogia. Os gregos antigos tinham isso como uma coisa que os filósofos, nas escolas de filosofia, ensinavam muito. Inclusive o termo razão, que a gente tem hoje como uma coisa mais de cálculo, de ser frio. O termo razão, que em grego é logos, do latim ratio, trouxe uma coisa mais prática, mais de cálculo mesmo. Mas na versão grega era um conceito que tinha tudo a ver, ou só a ver, com analogia. Ou seja, você ter razão, você olhar para a natureza e ser capaz de observar como os pássaros são como os poemas. E isso não tem nada a ver com a racionalidade hoje em dia. Olha que interessante: a racionalidade era justo isso, você poder olhar para uma coisa e ver como ela era outra, como ela era análoga a outra coisa. E você aprendia a arte de ver isso, a arte de transformar. Como que um pastor de ovelhas é igual a um líder? Por isso que os contos antigos e tudo são muito assim, né? Daí que saiu a arte, dessa capacidade de você comparar uma coisa e ver outra coisa nisso. Então, quem lê a Bíblia, por exemplo, em termos que nem os cientistas modernos leem, em termos de análise, analíticos do que parece ser falado, está tirando essa racionalidade suprema, que é de extrair daquilo um paralelo pra qualquer coisa, né? Então, eu acho que eu tô pegando esse poema aí, tipo, extrapolando pra um assunto legal. Eu tenho estudado isso muito ultimamente, eu acho que falta isso na gente hoje em dia: aprender a ver as coisas analogicamente.
Alexandre Falcão: [31:54] Eu acho que o grande ensinamento da arte em relação à linguagem, pegando o gancho do que você acabou de falar, é você entender o silêncio. Nós temos uma necessidade muito grande de verbalizar, de explicar tudo com o dicionário, de entender tudo com as ideias funcionais, com as palavras. E, quando você percebe a arte, conhece a arte, você começa a entender o que existe entre as palavras, entre as letras, entre as verdades. Ou seja, o silêncio que é sonoro, mas é silêncio, que se expressa na arte e que te faz enxergar aquilo que o teu pensamento, a tua ideia, a tua racionalidade, o teu dicionário, a tua linguagem verbal não consegue perceber muitas vezes. Por que a poesia, especificamente? Porque a poesia te dá um grau de liberdade, de brincar com as palavras, de dar sentidos variados às palavras. O sol não é sol, a lua não é lua, a estrela não é estrela, o mar não é mar, o mar é mais do que isso, o sol é mais do que aquilo. Acho que isso é um grande ensinamento, que para mim é filosofia do pensamento, é uma forma de compreender o mundo por um pensamento que chamo de pensamento silencioso, subjetivo, delicado, entre essas coisas, e não o contexto pronto que você lê literalmente aquilo que está escrito. Eu até separei para você aqui um trecho que tem a ver com os sentidos variados que as palavras têm. Chama-se "Sol e Lua Cheia". "O sol vestido de noite, cantou a lua, penumbra de um amor feito de estrelas e brilho do olhar. Noite, teu encanto engana até o sol, que inebriado tira seu manto de nuvens e com ouro de sua luz apaga-se diante do luar. Vem, lua, desnuda teus mistérios para me tirar do céreo. Deitado na areia, olhos fixos no teu brilho sem rosto, sem corpo, apenas o deserto que meu coração desenhou. O sol é maior, mais distante, imponente, amante. Apenas diante do teu soco, range os dentes, até parar a dor. Louco, não fala, grita o silêncio que a lua deixou ele soltar." Então é um pouco o valor do silêncio e dos sentidos outros, das palavras que corriqueiramente têm um sentido, digamos assim, literal, dicionalizado.
Eron Falbo: [34:36] Esse é seu?
Alexandre Falcão: [34:37] Esse é meu, é. Ah, tá.
Eron Falbo: [34:41] Estão perguntando aqui onde encontra mais, no seu Instagram, né? Se te seguir aí, você publica.
Alexandre Falcão: [34:53] Ou Alexandre Falcão. A minha plataforma de arte é uma página aberta, onde a gente posta semanalmente, com a ajuda da Danielle, nossa parceira comum, grande artista, uma pessoa que é uma brisa para a gente, porque tem essa percepção grande da arte. A gente posta lá poesias, crônicas, pensamentos, toda semana, e ali tem como acessar, como saber para poder adquirir o livro.
Eron Falbo: [35:21] Bom, o pessoal aqui, muitos elogios aí a vocês, suas palavras.
Alexandre Falcão: [35:28] Obrigado.
Eron Falbo: [35:29] Depois você dá uma olhada aqui.
Alexandre Falcão: [35:30] Te mando... Me manda.
Eron Falbo: [35:34] Aí minha mãe tá dizendo exatamente: cuide do seu quintal, porque ele faz parte do seu jardim.
Alexandre Falcão: [35:40] Acabou, eu gostei. Tá bonito. Você tem uma família de artistas, de pessoas sensíveis.
Eron Falbo: [35:48] É, são todos artistas. Ninguém admite, incluindo eu, mas a gente é artista mesmo. De uma maneira ou de outra, somos.
Alexandre Falcão: [35:57] Com certeza, com certeza. Aqui tem muitos amigos queridos que me ensinam sempre.
Eron Falbo: [36:05] Eu quero ver se tem alguma pergunta pra gente aqui, porque acho que tem.
Alexandre Falcão: [36:11] Jasmine, Rose, nossa, muita gente bacana, querida.
Eron Falbo: [36:15] Pessoal, só queria lembrar vocês que isso aqui é uma conversa entre todos nós, por favor. Eu sei que a gente às vezes começa a viajar aqui na nossa filosofia, mas, por favor, façam perguntas, comentários, intervenções, que a gente está aqui juntos.
Alexandre Falcão: [36:32] Posso fazer uma homenagem às mulheres agora? Porque eu acho que a gente está precisando de uma... Pode, vamos lá, enquanto.
Eron Falbo: [36:37] Eu acho boa uma pergunta aqui.
Alexandre Falcão: [36:39] É?
Eron Falbo: [36:40] Vai.
Alexandre Falcão: [36:41] Diga aí.
Eron Falbo: [36:43] Não, você vai... Desculpa.
Alexandre Falcão: [36:45] Motivo, motivo. Depois eu digo de quem é. Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre, nem sou triste, sou poeta. Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento. Atravesso noites e dias no vento. Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, não sei, não sei. Não sei se fico ou passo. Sei que canto e a canção é tudo, tem sangue eterno a asa ritmada, e um dia sei que estarei mudo, mais nada. Poesia, Motivo, da Cecília Meireles. É um dos poemas mais lindos que eu já li na minha vida, esse poema da Cecília Meireles. Porque é de uma profundidade para você assimilar as coisas, sem a necessidade de grandes explicações. Você sente, você percebe. A nossa sensibilidade sensorial é uma forma de aprendizado também, tanto quanto intelectualmente. Por isso que o livro que lancei, o único até agora de poema, chama-se Poemas do Olhar. Eu descobri na minha caminhada, Heraldo, que o olhar é o meu sentido mais apurado. Eu aprendo com o olhar. Eu conheço as pessoas pelo olhar, eu enxergo, eu vejo o mundo essencialmente pelo olhar. Então, as observações do olhar, para mim, são geradoras de coesão, muito mais do que o papo, o olfato e os outros sentidos que a gente usa, que a gente tem.
Eron Falbo: [38:29] E você acha que cada pessoa tem, sei lá, um sentido mais apurado, mais sensível?
Alexandre Falcão: [38:38] Eu acredito. Você já observou que algumas pessoas gostam de ouvir, de escutar. A gente até chama de sábios, ouvem muito. Outros são até verborrágicos, falam, falam. Tem uma necessidade. Se, por um lado, incomoda, é uma forma de apreender a pessoa que fala muito, porque ela está falando para ela, não para o outro. Ela está, primeiro, falando para ela. Existem pessoas que usam o olfato de uma forma... Chefes de cozinha fazem pratos incríveis por aí. Mais do que a receita que está pronta na cabeça, é o compacto, a capacidade de discernir o doce. Então eu acho que cada um tem o paladar. A gente está tomando vinho. Vinho é essencialmente a bebida...
Eron Falbo: [39:25] É a arte.
Alexandre Falcão: [39:26] É a arte. É a arte degustativa.
Eron Falbo: [39:31] Olha só, estou fazendo uma pergunta aqui que acho que vai dar pano para a manga, olha só. Como despertar nas crianças... O Manuel Santino Nascimento. Como despertar nas crianças e jovens o prazer da poesia?
Alexandre Falcão: [39:46] Ótima pergunta, Manuel. Um grande primo lá de Belém, uma pessoa culta, um grande homem. Aprendo muito com ele. Eu acho que, como é que a criança vai ter esse interesse pela poesia? Primeiro, antes da escola, a família. Acho que as famílias precisam ter muita responsabilidade sobre aquilo que mostram para os seus filhos, muito mais do que questões morais. Não vou entrar nesse método, não é esse o nosso papo, mas o conhecimento, a arte, o interesse pela arte, para mim, começa em casa. Não pelo que você diga, mas pelo que você faz. Então, o exemplo dos teus pais, dos teus tios, dos teus avós, eles são marcantes, são laços eternos, são percepções que você carrega a vida toda. O segundo plano é escola. Eu estudei lá em Belém, no Colégio Marista, a minha vida toda, e é uma base que eu jamais vou esquecer, porque você é incentivado a conhecer os autores, você é incentivado a conhecer a arte. Então, isso é uma outra base. E terceiro, desmistificar a poesia. Um dos lançamentos do meu livro, que fiz lá em Belém, uma prima minha, a Vana, que é diretora de uma escola. Não sei se ela está assistindo aqui. Ela disse que está ali. Ela é diretora de uma escola municipal do interior do Pará, uma cidade chamada Ananindeua, colada em Belém, como se fosse Rio e Niterói. E fizeram uma semana de arte lá e me convidaram para falar do livro. E eu queria fazer uma coisa interativa. Convidei as crianças para declamarem. Eu achei que ninguém ia querer. Com um ginásio, com 200 pessoas, eu tive que selecionar, porque era tanta criança querendo ler. E a declamação era tão linda, porque era pura. Não era uma declamação técnica que ela aprendeu porque ouviu algum poeta. Era uma declamação da alma dele, e ficou linda. Eu mostrei para eles, até me dispus a fazer um laboratório de poesia, a gente vai marcar, para desmistificar, porque a imagem que a gente tem da poesia ainda é a da poesia rococó, clássica, que tem seu valor, que ela é rica, não estou questionando isso, mas que é de difícil compreensão. Só que você tem vários poemas, inclusive para crianças, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, que fizeram poemas para crianças. Vinícius de Moraes.
Eron Falbo: [42:13] Oscar Wilde escrevia muito para criança.
Alexandre Falcão: [42:17] Eu lia para a minha filha, para ela dormir, esses poemas, ela ficaria encantada. Eu mesmo acreditava. Estou lendo Clarice Lispector para uma criança de seis anos. Estou lendo Drummond, estou lendo Vinícius, poemas belos, perfeitamente assimilados para uma criança de seis, oito, dez, doze anos. Eu acho que esse é o caminho, família, escola, e desmistificação do que é a poesia. O que é engraçado, só para fechar, as pessoas não conseguem associar a poesia a outros modos de arte. Eu sempre digo para as pessoas: o que é poesia? Como é que você vê a poesia? Você conhece poesia? A pessoa diz que não conhece. Você gosta de música? Gosto de música. Você ouve que tipo de música? Gosto de samba. Isso é poesia. A letra que está sendo musicada, que foi musicada, é um poema. De várias vertentes. Estou falando de uma forma geral, mas aquilo é uma poesia. O que você fez com o teu álbum musical que o produtor do Bob Dylan fez para você, a produção, aquilo é poesia. O que você fez é poesia, só que você musicou. Você acrescentou ao seu poema o que o poeta não acrescenta, que é a melodia, as notas...
Eron Falbo: [43:28] Mas olha só, cá entre nós, a poesia sempre foi o meu ponto de partida. Já que a gente já está bebendo um pouquinho, vamos entrar nesse assunto. A poesia sempre foi o meu ponto de partida e eu até falava isso, era a minha bandeira. Quando eu era músico, inclusive assim, de novo, você sabe que eu sou um amante do mundo antigo, do mundo clássico, eu volto sempre nessa tecla, porque eu vejo que no mundo antigo a gente ainda via o ser humano como um ser integral, como a gente tocou no assunto mais cedo. E no mundo antigo, poesia inclusive era musicada, tinha, em certo momento, não existia uma separação entre música e poesia, entre o lírico e a melodia, vamos dizer. Então assim, eu entrei na música com esse objetivo, eu gostava só de poesia e eu não era músico, não sei se você sabe isso sobre mim, eu aprendi música na marra, né? Até entrou aí meu amigo Filipe, que foi da minha primeira banda. Filipe Vieira, grande amigo. Um abraço pra você. E ele sabe muito bem aí que o meu primeiro show que eu fiz de música, eu tava gritando totalmente fora do tom e minha guitarra desplugou na segunda música e eu toquei o show inteiro sem guitarra. Então ele estava lá no palco comigo e assim, eu fui aprendendo a cantar para poder musicar minhas coisinhas. Inclusive, eu te convido a fazer a mesma coisa, a começar a musicar essas coisinhas.
Alexandre Falcão: [45:22] É uma experiência, né?
Eron Falbo: [45:24] É, que bom.
Alexandre Falcão: [45:26] Para parceiros, até para um primo meu que é músico.
Eron Falbo: [45:29] Não, mas estou falando de você, você cantar, você entrar no jogo. É justo isso que estou falando. Eu também não tenho talento, entendeu? Eu tirei lá de... Isso foi grande coisa, mas alguma coisa eu tirei de muito longe.
Alexandre Falcão: [45:51] Você pode fazer um sarau com você de música e poesia. Você tocando os clássicos do rock, do blues, do folk que você conhece muito, e a gente entremear isso com poesia.
Eron Falbo: [46:05] Ah, muito legal, muito legal. Você já viu aqui no Rio, eu esqueci o nome dele agora, mas tem um cara que é professor de filosofia, que faz uma coisa assim que eu achei extraordinária. Ele pega uns artistas de jazz e declama poesia, fala sobre filosofia poeticamente com artistas de jazz por trás.
Alexandre Falcão: [46:30] Meu Deus!
Eron Falbo: [46:31] Fazendo intervenção. Foi uma das coisas mais fantásticas que eu vi ao vivo, acho que em toda a minha vida. Eu achei superior aos poetas beatnik, que eu adoro os poetas beatnik, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, etc. O cara, porque ele mete o Foucault, o Nietzsche no meio, só que de uma maneira poética. É bizarro, é tudo que você pode querer como intelectual sensível, vamos dizer.
Alexandre Falcão: [47:04] Invocação beatnik. Eu te disse que eu tinha duas surpresas: uma era o Pedro II, e a outra eu vou te mostrar agora, de Carlos Drummond de Andrade. Chama-se 'A Bunda'. Que engraçada, presta atenção: 'A bunda, que engraçada, está sempre sorrindo, nunca é trágico, não lhe importa o que vai, pela frente do corpo a bunda basta-se, existe algo mais? Talvez os seios. Ora, murmura a bunda, estes garotos ainda lhes falta muito que estudar. A bunda são duas luas gêmeas em rotundo meneio. Anda por si na cadência mimosa, no milagre de ser duas em uma plenamente. A bunda se diverte por conta própria e ama. Na cama agita-se montanhas. O volume se desce, ondas batendo numa praia infinita. Lá vai sorrindo a bunda, vai feliz, na carícia de ser e balançar, esferas harmoniosas sobre o caos, a bunda é a bunda, redonda.' Carlos Drummond de Andrade. Escolhido um dos 100 melhores poemas brasileiros de todos os tempos. O cara conseguiu falar, fez um poema brilhante, usando, claro, um pouco a metáfora de algo que você não pensava, você concorda? Você imagina o Drummond escrevendo sobre a bunda?
Eron Falbo: [48:36] Não imaginava mesmo, não. Mas isso aí é tirar onda, né? Você pega qualquer coisa aí que eu faço um poema.
Alexandre Falcão: [48:46] É um pouco beatnik, né?
Eron Falbo: [48:50] Então, a pergunta, olha só, do Manuel: com a instantaneidade da internet, o estilo japonês dos poemas breves e sintéticos, o haiku, acho que ele está falando que os poemas instantâneos estariam mais próximos da juventude. Ah, sim, acho que é a pergunta que ele está fazendo, se isso estaria mais próximo da juventude. Alguma coisa mais...
Alexandre Falcão: [49:19] Eu acho que é um bom caminho pelo aspecto visual, porque essa poesia está muito associada também a desenhos animados orientais japoneses. E esses desenhos têm tido uma grande penetração entre a juventude, porque são desenhos diferentes, são histórias mais sofisticadas, às vezes delicadas, poemas adultos, muito bem elaborados. Então, acho que é um poema de acesso interessante, porque... Concorda? Evita a compreensão, estimula o interesse, sem ser uma coisa piegas, barata, assim, o valor artístico e tal. Eu vi uma euforia aqui, não sei se você olhou, sobre um fonte, do Coriolano Gato. É um jornalista amigo, querido, fomos sócios e tal.
Eron Falbo: [50:09] E ele falou?
Alexandre Falcão: [50:11] Uma pergunta difícil: a poesia nasce da nostalgia ou da tristeza? Qual é a sua técnica? A alegria motiva a sua poesia? Interessante, porque... Às vezes, você tem a ideia de que a melancolia, a tristeza, a nostalgia são deprimentes. Claro, existem algumas que são pesadas, que são aqueles existencialismos fortes, que te colocam contra a parede, que desmistificam, que puxam, arrancam o teu fígado. Você tem essa corrente de pensamento, que é o problema. Mas a melancolia, a tristeza, a nostalgia, elas podem gerar belos poemas não só pela linguagem, mas pela filosofia que está, pela mensagem, pela compreensão do que é isso. Uma vez vi um psicanalista com uma afirmativa interessantíssima: ele falou que o melhor remédio para a angústia é a narrativa. Você quer ajudar alguém angustiado? Deixe ele falar, deixe ele se expor, deixe ele verbalizar. E a arte, às vezes, verbaliza pelo angustiado, às vezes mostra de uma forma sutil aquilo que está lá dentro dele. Só que a minha preferência é um poema mais gentil, amoroso.
Eron Falbo: [51:26] Mas você gosta de Bukowski?
Alexandre Falcão: [51:27] Sim, eu gosto de Bukowski. O Bukowski que disse...
Eron Falbo: [51:35] Ele é totalmente intervencionista. Nas suas emoções, ele te invade totalmente.
Alexandre Falcão: [51:41] Mas como leitura, é claro, tem que ler. O Paulisto, fantástico. O cara escreveu, somando todas as coisas, é claro: 'Nossa pequena agonia é estúpida e fútil, mas sinto que os nossos sonhos não são.' Olha o que o cara escreveu, coisa bonita, profunda e rasgante. Rasgante. Ele desconstrói, ele vai fundo. Tem que ler, é claro.
Eron Falbo: [52:05] Estuprador da poesia. A Virginia está falando, Alexandre: para você, nos tempos atuais, a necessidade maior é calar ou falar? Aí você está falando que, de repente, você deixa a outra pessoa falar, ou deixa a pessoa ter a narrativa. Então, por esse modo, seria calar.
Alexandre Falcão: [52:24] Eu vou te dar um exemplo, Eron. Eu fiz esse livro de uma forma independente, eu não tive editora. Eu tirei do próprio bolso, uma experiência de coragem, vamos dizer assim, que eu vou fazer. E eu resolvi fazer lançamento. Eu fiz em Belém, no interior do Pará, onde a família da minha mãe mora, no Rio de Janeiro, e em Brasília. Em todos eles eu fiz saraus. Eu convidei as pessoas para declamarem poemas do livro, todos, sem exceção. O que eu queria fazer? Quebrar barreiras. Pessoas que nunca tinham declamado um poema em toda a sua vida. Eu digo: mas como? A pessoa conhece música, ela já cantou, ela já dançou, até na escola, mas nunca declamou um poema.
Eron Falbo: [53:09] Já foi no karaokê, mas nunca declamou o poema.
Alexandre Falcão: [53:14] Então foi uma experiência fantástica dessa interlocução entre as pessoas, de quebrar essas barreiras e de mostrar...
Eron Falbo: [53:22] Isso é muito bom, é muito bom.
Alexandre Falcão: [53:23] Que a arte é acessível.
Eron Falbo: [53:25] A gente já está acabando aqui o nosso horário. Só para a gente terminar, sem resumir o que a gente falou hoje aqui, eu acho que a gente falou muito sobre... Pra mim, a mensagem principal, né, o BBB, você concorda? É que todos nós somos poetas, todos nós somos cantores, todos nós somos pintores, dançarinos, porque a gente tem essa capacidade, a gente tem esse potencial dentro de nós. Nem todos nós precisamos fazer todas essas coisas, e não precisamos fazer melhor do que o Michael Jordan, ou seja, quem for. Só que a gente tem uma obrigação, eu acredito, de fazer, de uma maneira ou de outra, se expressar, adicionar para o mundo, adicionar para a polifonia, como o C.S. Lewis dizia, adicionar para a sinfonia que está acontecendo no universo. Está rolando uma sinfonia e a gente pode contribuir com o triângulo, a gente pode contribuir com o que for, cada um no seu sistema, no seu microcosmo. E acho que isso, só essa vontade, essa vontade de presenciar a arte, de participar da arte, transforma qualquer sociedade, inclusive a nossa, que está num caos total, e está todo mundo desfocando, como o meu amigo Ricardo Abreu, que está aí, já foi um dos nossos convidados, falou, que o Brasil precisa de menos política e mais arte. Então, ou seja, num mundo onde o Caetano Veloso, Gilberto Gil e tudo mais começou a ser visto como seres políticos, cadê a arte? Então, é isso. E você, o que você achou que foi a mensagem da nossa conversa e o que a gente deixa? Tem 30 segundos.
Alexandre Falcão: [55:28] A mensagem para mim é: poetize-se. Todos podemos nos poetizar. E tenho certeza que a poesia vai engrandecer você em qualquer circunstância. Por mais que você não tenha técnica, rima e métrica, você tem coração e história.
Eron Falbo: [55:48] Valeu, Alexandre. Muito bom estar com você hoje. Muito obrigado por me ouvir.
No Alvo com Eron Falbo · episódio #5 · todos os episódios