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#48 Criador de fantasias

com Sidharta Haus · 14 de jan de 2021

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Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Reencontro no Réveillon em Trancoso (0:00)

Eron Falbo: [0:00] Fala, querido Sidharta, tudo bem?

Sidharta Haus: [0:02] Tudo bom, meu rei? Beleza?

Eron Falbo: [0:04] Beleza, cara.

Sidharta Haus: [0:05] Aqui o Axé da Bahia pra todos.

Eron Falbo: [0:08] Pô, saudade, bicho. Como é que você tá?

Sidharta Haus: [0:12] Tô ótimo.

Eron Falbo: [0:13] Como é que estão as coisas aí?

Sidharta Haus: [0:14] Ah, lancei o site há uma semana. Já tô vendendo online, digitalmente, automático.

Eron Falbo: [0:21] Eu vi o site, tá bonito, tá muito bonito. Tem os modelos, pô, até fez negócio profissa pra caramba, cara.

Sidharta Haus: [0:27] E ó, que foi com uma picareta, hein? Imagina quando tiver uma retroescavadeira.

Eron Falbo: [0:34] Eu acabei de falar, você ouviu a introdução sua ou não?

Sidharta Haus: [0:41] A introdução eu não vi, porque eu estava procurando fora.

Eron Falbo: [0:46] Não, bota fé, bota fé. Acabei de falar que você é ambicioso pra caramba. O pessoal ali em Trancoso ainda está movimentado? Os turistas ainda estão colonizando? Como é que está?

Sidharta Haus: [0:59] Trancoso mudou a galera, né? Tem uma galera que vem passar o Réveillon, né? E 90% dessa galera vai embora dia 3. Daí só ficam os fortes. Uma galera que é mais em casa.

Eron Falbo: [1:12] Ou que não tem trabalho, né?

Sidharta Haus: [1:17] É, que não tem trabalho. Ou que ganha bem demais. Tem gente que aluga por um tempo.

Eron Falbo: [1:26] Você tá com a sua cerveja aí, ou não?

Sidharta Haus: [1:29] Tô com a minha cerveja aqui, ó. Tô ansioso aqui pra abrir ela.

Eron Falbo: [1:33] Então abre aí, bicho, abre aí. Vamos fazer um brinde a você ter me salvado. Eu conheci o Sidharta, pessoal, ali no Réveillon na pandemia, em Trancoso. É uma coisa maravilhosa, porque é muita gente disputando um pedaço de pão, né? Muita gente rica disputando pouca coisa. Então, foi uma experiência. Até eu conhecer o Sidharta era só perrengue, aí o Sidharta, ele tem a chave da cidade, ele me levou em todos os melhores lugares. Então, foi uma grande bênção ter conhecido o Sidharta. Eu o conheci, era 11 horas da noite, do dia 31 de janeiro, e eu não tinha ainda festa para ir. Então ele me salvou legal, que senão Trancoso teria sido uma outra experiência. E como é que é essa parada aí de você ter essa relação? Porque, pô, você me conheceu há pouco tempo, né? A gente ficou amigo muito rápido. Você tem essa relação com a galera, assim, tipo, com os turistas?

Sidharta Haus: [2:47] Eu sou crescido em Trancoso. Minha família tá aqui desde os anos 80. E sempre trabalhei com turismo. Quando eu tinha 12 anos de idade, eu criei um Orkut. Era o Aluga Sem Trancoso. E eu já ganhava minhas comissões, todo final de ano, etc. Então sempre tive uma relação com o turismo. Só parei um pouco quando eu fui pra faculdade, né? Que eu saí daqui, do ensino médio, e fui pra faculdade. Mas ainda ganhava dinheiro com isso, porque eu fiz o Facebook Aluga Sem Trancoso. E mesmo estando em João Pessoa, eu ficava alugando casa só pelo telefone, que não tinha BNB, não tinha booking, não tinha esses aplicativos. Então eu era um aplicativo.

Infância vendendo artesanato em Trancoso (3:00)

Eron Falbo: [3:25] Você falou desde os 12 anos?

Sidharta Haus: [3:28] Desde os meus 12 anos. Meu primeiro trabalho foi vender uns quadrinhos que eu fazia. Depois, eu tinha uns 9 anos, comecei a pegar os gnominhos. Minha mãe e os pais faziam gnominhos e bruxinhos.

Eron Falbo: [3:44] Eu pegava os gnominhos de jardim, aqueles carinhas de jardim?

Sidharta Haus: [3:47] É como se fossem menorzinhos, assim, com porta-incenso. Era porta-incenso, era bem bonitinho. Daí eu saía pra vender, assim, minha mãe me dava metade do que eu vendesse. Daí eu vi um argentino fazendo malabares com fogo. Olhei pro cara, assim, falei: caralho, o cara fez malabares com fogo ali, ganhou um monte de dinheiro. Pô, vou fazer isso, né? Daí cheguei em casa, eu fazia tênis, peguei umas bolinhas de tênis, eu tinha 10 anos de idade, e comecei a treinar sozinho em casa, com umas bolinhas de tênis e barbante, depois de uma loja da Verusca, uma loja de circuito antigamente, que era uma loja do circuito trance, era tipo Goa, Ibiza...

Eron Falbo: [4:29] Eu lembro dessa época.

Sidharta Haus: [4:30] Tranquilo. Então, tinha uma loja chamada Glow, que vendia artigos de trance. Eu fui lá e comprei um malabares de fogo e falei bem assim para o dono do lugar: olha, vou pegar esse malabares, vou ali, vou fazer um dinheiro e vou te pagar.

Eron Falbo: [4:48] Artigos de trance pra mim é tipo neon e sei lá, ácidas.

Sidharta Haus: [4:52] É exatamente isso, era tipo várias coisas neon, várias cangas, várias coisas da Índia, várias coisas de tabacaria, malabares, tudo neon colorido. Era uma temática, chamava Glow, era uma loja bem legal. Mas acabou essa onda.

Eron Falbo: [5:11] Aí, como é que foi essa onda de ser a capital do trance, e depois... Porque não tem mais, né?

Sidharta Haus: [5:16] Houve um boicote das pousadas, dos estabelecimentos da cidade, que começaram a pressionar para que esses eventos não acontecessem. E daí foi diminuindo, diminuindo, até se tornar quase inviável.

Fim das raves e festas trance (5:17)

Eron Falbo: [5:33] Mas eles não gostavam? Eles não gostavam do fato que vinha muita gente do mundo inteiro?

Sidharta Haus: [5:38] Não, porque eles estavam transformando o Trancoso. Você tem que pensar que, por exemplo, o Alto de Trancoso foi construído por um grupo português há 20 anos. O Club Med e o Terra Vista... As pessoas não percebem, mas Trancoso tem um dos campos de golfe, um dos melhores da América Latina. Acontece uma etapa do Mundial de golfe aqui do lado, em Trancoso. Essas pessoas que vieram para cá nos anos 80 e tinham muito dinheiro, e compraram muitas terras, etc., começaram a desenvolver um turismo mais elitizado, que era uma tentativa de preservar também, porque quando você tem terrenos maiores, os terrenos maiores têm menos casas. Então você acaba preservando, tem menos gente, a demografia que você vai desenvolvendo da cidade. Só que, já que eles não eram donos de tudo, tem certas famílias que eram fazendeiros, etc., que acabaram... Pegavam...

Eron Falbo: [6:43] O dinheiro, eu estou com o reino.

Sidharta Haus: [6:44] Não, não, não.

Eron Falbo: [6:46] Ah, não, o contrário.

Sidharta Haus: [6:47] Estou falando do mercado imobiliário aqui da cidade. Essas famílias da cidade que moravam aqui, etc., eles meio que venderam suas fazendas e fizeram loteamentos menores. Então, tem uma cidade de Trancoso que as pessoas não conhecem, que é fora do centro, etc. São vários bairros que se desenvolveram de 2000 para cá, porque em 2000 veio o asfalto. E o asfalto não conectou com Porto Seguro, e sim conectou a gente com a BR, com Eunápolis. Então, o fluxo das pessoas... Elas vinham de Belmonte, de Itabela, de Itabuna, de cidades que eram rurais, que não eram, obviamente, de maioria evangélica, essas populações, e elas vieram de 2000 para cá. Tanto que há uma distinção claramente religiosa entre ambos.

Especulação imobiliária e crescimento urbano (6:48)

Eron Falbo: [7:36] Mas o que você está falando é que essa população nova acabou com as festas?

Sidharta Haus: [7:42] Não, não, não. O que acabou com as festas foram as pousadas mesmo, as pousadas e os hotéis que se incomodavam. Porque o cara aluga em Trancoso e ele quer... 'Eu vou trocar de cerveja, vou pegar aqui uma... Botar a cerveja pra congelar, vou pegar outra que tá aqui na geladeira, que já esquentou.' As pousadas iniciais... Porque, tipo, a pessoa faz uma festa que dura 24 horas, porque rave pressupõe que a festa não acaba quando amanhece. O lance da rave é 24 horas, pra ser rave tem que ter mais de 24 horas.

Eron Falbo: [8:29] E a galera não consome muito também, né? A galera leva as próprias coisas.

Sidharta Haus: [8:33] Não, não, não. Não é esse o problema, entendeu? O problema mesmo é que essas pessoas que vinham antigamente, elas vinham pra cá, alugavam casas, tinham campings na cidade, tinham muitos campings. E os campings foram virando pousada. E o público de pousada é um público diferente: é uma família, é uma galera que vem pra dormir, que tá descansada, de férias. Então, se você for pensar assim, vinha mil pessoas por ano para as redes, duas mil pessoas, cinco mil pessoas por ano para as redes, certo? O ano todo vêm cem mil pessoas que não vêm para a rede. E essas cem mil pessoas que vêm todo ano, que não vêm para a rede, elas começaram a criar todo um mercado hoteleiro em Trancoso. Trancoso tem milhares de pousadas, tem vilas, hotéis. O pessoal tem que ir no Maps e dar uma olhada, você vê a quantidade de piscinas, de mansões que tem ao redor, você fala: onde é que moram todas essas pessoas? As pessoas não moram aqui, elas alugam as casas, fazem as casas e deixam no Airbnb, no Booking, com o caseiro tomando conta, etc., o gerente administrando, e só vêm pra cá passar 10 dias no ano. E o resto do tempo, essas casas ficam recebendo a burguesia paulista, o pessoal carioca, o pessoal do agronegócio, do Mato Grosso. Esse ano, já que a economia estava muito mais voltada para o agronegócio, com o dólar tão valorizado, o público de Trancoso... Eu diria que 40% a 60% do público deste ano veio do Centro-Oeste. Então, em Trancoso, isso é o que as pessoas têm que entender de uma cidade turística de elite: não importa se está em crise, se as pessoas não estão ganhando dinheiro, numa cidade turística de elite, quem está ganhando dinheiro vai estar lá. Então, está todo mundo não ganhando dinheiro, mas quem está ganhando dinheiro vai para Trancoso, vai estar lá, e vai... Sempre vai ter gente. E ainda mais que, de uns 10 anos para cá, começou uma cultura de casamentos. Então, Trancoso deixou de ser uma cidade de temporada e passou a ser uma cidade onde as pessoas vêm fazer matrimônio. Então, todo fim de semana vêm de 300 a 400 pessoas fazer casamento aqui. E esse número já chegou a ser maior, só que houve um boicote também, de algumas pousadas que não se sentiam tão beneficiadas com isso, que começaram a impedir que rolassem casamentos no Quadrado, com festas que durassem horas, etc. Então, tipo assim, o El Gordo e o Cacau, eles faziam 60% dos casamentos. Ano retrasado, eles foram proibidos de fazer esses casamentos. Então... Bem antes da pandemia, tem um curso meu que passou por uma crise, que foi uma crise na baixa temporada, porque mais de 60% dos casamentos foram cancelados. E cada casamento vai, no mínimo, 200 pessoas. Tem casamentos de 500, 600 pessoas. Teve um casamento de 15 milhões que tinha 1.500 convidados. Emprega muito gente também, né? Emprega, por favor. Aqui, ó.

Casamentos viram nova economia local (10:38)

Eron Falbo: [12:08] É uma felicidade.

Sidharta Haus: [12:10] Apesar que me acerteja.

Eron Falbo: [12:12] Ah, bota e ferro! Um brinde, um brinde! Um brinde ao futuro de Trancoso, ao futuro do Recuputeiros.

Sidharta Haus: [12:17] É, mermão, cerveja ótima! Eu tô tomando uma colorada. Olha o charutão na boca dela, olha o charutão.

Eron Falbo: [12:28] Ah, fera, fera, eu gosto! Eu não tô fumando hoje, porque senão eu vou ficar muito cansado. Mas, cara, deixa eu te perguntar uma coisa: você, cara, a gente se conheceu numa situação mais inusitada do mundo, depois a gente virou amigo muito rapidamente. Isso é normal? Como é que é a sua experiência com os turistas, interação com a galera? Você nasceu em Trancoso? Não lembro.

Vendas e a arte de ler pessoas (12:40)

Sidharta Haus: [12:51] Minha mãe ficou grávida aqui. Ela tinha fugido de casa aos 17 anos e ido para o Amazonas. Então, quando ela ficou grávida em Trancoso, ela quis me ter em Alter do Chão, no Amazonas. E ela fez o pré-natal em Porto Seguro, foi subindo no litoral bem devagar, e quando chegou em Natal, ela estava lá de férias, eu nasci, porque o pré-natal do médico de Porto Seguro estava errado. Eu nasci em Natal, eu não conheço Natal. Toda vez que eu ia para Natal, porque eu estudei 7 anos em João Pessoa, na Federal, então toda vez que eu ia para Natal, eu parava em Pipa e ficava em Pipa, não chegava em Natal. Até o fim da minha viagem, eu voltava para estudar em João Pessoa, para os meus estudos. Então é uma cidade que eu não conheço, que eu não tenho muita ligação, assim, porque eu tenho parentes lá.

Eron Falbo: [13:44] Eu sempre vou para Natal, eu também tenho parentes lá e conheci bem o Natal.

Sidharta Haus: [13:48] Eu tô desejando essa viagem pra muito tempo, entendeu?

Eron Falbo: [13:51] Bora junto, bora marcar.

Sidharta Haus: [13:53] Vamos marcar, vamos marcar junto.

Eron Falbo: [13:56] Mas, cara, me conta essa sua relação com os turistas. Você cria essa proximidade, que eu fiquei impressionado, porque a gente ficou muito próximo, muito rápido, né? A gente teve uma troca de ideias, uma sintonia muito legal.

Sidharta Haus: [14:10] Eu tenho 29 anos, vou fazer 30 esse ano. Eu trabalho com vendas há 20 anos. E quando a gente trabalha com vendas, assim, eu sou de uma família de vendedores, então a gente aprende a ler as pessoas. Ler as expressões corporais, os trejeitos, características do olhar, etc. E a gente desenvolve uma habilidade, assim, de saber na primeira vez se a pessoa é interessante ou ela não é. Se ela é uma pessoa sagaz, inteligente. Se ela é uma pessoa bobona, se ela tá só muito estressada ou se ela tá em busca de se encontrar ainda, etc. Você consegue ler essas pessoas?

Eron Falbo: [14:57] Aí você conseguiu ler que eu tava perdidaço e você foi me salvar nisso.

Sidharta Haus: [15:03] Eu li que você era verdadeiro. Então eu olhei pra você e falei: nossa, ele é verdadeiro. E eu gosto de pessoas verdadeiras. Pessoas que pensam, que dizem, que falam, que fazem. Eu gosto de pessoa de ação. Então...

Eron Falbo: [15:20] Eu vi que você é uma pessoa...

Sidharta Haus: [15:22] De ação, então... Viramos amigos.

Eron Falbo: [15:26] Fera, fera. Mas então você faz isso, você vai vendendo, né? Para o pessoal que não conhece o Sidharta, os nossos amigos, os nossos seguidores, que eu não gosto muito dessa palavra, mas nem todo mundo é amigo. Mas o pessoal que está assistindo aí, está ouvindo a gente no podcast, o Sidharta Haus, ele é um vendedor, ele é um artesão, na verdade, que cria suas pulseiras e planta árvores.

Ecopulseiras e a meta de plantar árvores (15:53)

Sidharta Haus: [15:53] Quantas árvores?

Eron Falbo: [15:53] Três árvores. Eu falei três, mas eu não lembro se é três.

Sidharta Haus: [15:56] Dez, dez, dez.

Eron Falbo: [15:56] Dez árvores? Caraca, errei na introdução. Vou ter que retificar isso aí.

Sidharta Haus: [16:04] Eu, quando eu tive ideia, era uma pulseira, uma árvore. Só que, quando eu fiz mil mudas, eu vi que não era tão difícil, e se eu pudesse agregar um pouco mais de valor na minha pulseira, eu poderia fazer mais árvores, e isso ia poder fazer eu alcançar os números astronômicos que eu precisei alcançar um dia. E, para isso, eu precisaria escalonar.

Eron Falbo: [16:25] Saquei. Então eu falei três árvores, porque para mim três árvores já é muita coisa. Eu nunca plantei uma árvore, é uma das coisas que eu não fiz. Eu tenho uma daquelas caixinhas. Não sei se já viu aquele sistemazinho que você pode plantar hortas. Sabe, tem seis hortas, você põe uma água e você não precisa botar água durante o mês inteiro. Eu fudi até isso, não tô conseguindo fazer as plantinhas crescerem. Então assim, eu não tenho ideia de quão difícil é plantar uma árvore. Pra mim, três árvores já era tipo... Mas cada pulseira que ele vende, ele tem um bastão que... Você já deu o nome pro bastão?

Sidharta Haus: [17:10] Não, é um painel, né? Eu chamo ele de Takap. Takap é uma arma indígena. Ela é um pedaço de madeira com uma curva, uma ponta mais pesada que a outra, e que era usado para execução. A pessoa abaixava a cabeça e levava na nuca.

Eron Falbo: [17:34] Então ele tem essa parada aí que é onde ele carrega as pulseiras dele, e ele não deixa de viver a vida dele. Ele carrega as pulseiras dele para todo lugar que ele vai. E ele trabalha e vive ao mesmo tempo, não é não, Sidharta?

Custo de vida altíssimo em Trancoso (17:48)

Sidharta Haus: [17:48] É lógico, eu tenho que... Pra todo...

Eron Falbo: [17:50] Lugar que você vai, você vende, ele é viciado em venda, né? Então, toda oportunidade que ele tem, ele dá uma venda. Se ele tá se sentindo um pouco deprimido, tem que vender um pouquinho aqui.

Sidharta Haus: [18:04] Então, Trancoso é uma cidade... é muito caro, né? Existem pouco nenhum trabalho remunerado que faça com que você tenha uma perspectiva de crescimento. Porque você pode ter que ganhar muito, só que você gasta muito no seu custo de vida. Então não adianta você ganhar muito. Você tem que ganhar extraordinariamente. Você tem que ter, por exemplo, eu para poder conseguir comprar terreno em Trancoso e expandir meu territóriozinho aqui nessa cidade, em vez de morar de aluguel, por exemplo. Eu trabalho com tudo. Eu sou produtor de eventos. Eu trabalho com a HALT, trabalho com essas empresas que vêm fazer festas aqui, tento dar um arredor de refúgios durante o ano, ajudar com o que posso. Porque as festas só acontecem no verão, né? Eu fico aqui o ano todo. Então, o ano todo, com a necessidade de mim, eu sempre estou aqui. E eu também trabalho com turismo. Eu alugo casas. Eu vendo terrenos, etc. Além de vender minhas pulseiras, porque se eu só vender minhas pulseiras, ou só vender terrenos, ou só organizar as produções de eventos, você não consegue ter uma vida construtiva.

Eron Falbo: [19:22] Entendi.

Sidharta Haus: [19:22] Uma coisa é sobreviver. Claro, claro.

Eron Falbo: [19:28] Mas os preços para os locais, assim, não tem lugares que vocês conhecem e os turistas não conhecem? Não tem umas coisas assim, não? Tipo em Cuba?

Sidharta Haus: [19:41] Não, não, não, não tem isso. Tem alguns lugares que oferecem um desconto, 10, 20% de desconto para os locais, como se fosse um cartão fidelidade, que todo mundo tem na cidade grande, né? Cartãozinho da farmácia, cartãozinho do... Aqui tem alguns lugares que oferecem, mas não são todos. E se você quer ser bem atendido, quer qualidade, quer conforto, você tem que pagar o mesmo preço que o turista. Entendeu? Você tem que ir e pagar o mesmo preço que o turista. Eu saí com a minha namorada, fui no La Torre e comi uma lagosta lá de 125 reais, um prato individual.

Eron Falbo: [20:21] Porém é um ano inteiro isso.

Sidharta Haus: [20:24] E é um ano inteiro isso. E geralmente, quando acaba o verão, eles aumentam o preço.

Eron Falbo: [20:29] Ah, pra poder sustentar o resto do ano, aumenta o preço, por quê?

Sidharta Haus: [20:32] Eles aumentam o preço e, quando chega o próximo verão, eles não abaixam.

Eron Falbo: [20:38] Ah, saquei.

Sidharta Haus: [20:39] Então, há uma inflação gradual de Trancoso que parece não ter fim.

Eron Falbo: [20:45] É verdade, porque...

Sidharta Haus: [20:46] Há cinco anos atrás, eu pagava R$5,00 numa corrida. Se eu pedisse pro cara, sei lá, buscasse uma coisa pra mim, eu pagava R$10,00 numa corrida. Hoje eu pedi pro cara, eu não queria sair de casa, pedi pro cara ir buscar uma cerveja pra mim no mercado. Eu paguei R$30,00.

Eron Falbo: [21:04] Caraca, pô. Que vacilo.

Sidharta Haus: [21:08] É, cara.

Eron Falbo: [21:10] Então vamos falar pra galera ajudar aí, vamos falar seu site, pra todo mundo sustentar suas lagostas, sustentar sua cerveja, pra serem buscadas por você.

Sidharta Haus: [21:23] O grande lance é fazer muita coisa, pra você ter o mínimo de churras de vez, entendeu? Eu ainda não tenho.

Eron Falbo: [21:29] Claro, claro, porra. É, isso é o mínimo, é o mínimo.

Sidharta Haus: [21:33] Você não tem esse helicóptero, como é?

Eron Falbo: [21:35] Que você vive sem helicóptero?

Sidharta Haus: [21:36] Eu não tenho helicóptero, entendeu? Como é que eu vou sair daqui pra poder curtir um litoral paulista ou ir até Natal sem uma BMW F800? Então, pra isso, eu preciso trabalhar muito, entendeu? E as pessoas do Brasil precisam trabalhar muito, precisam empreender e, principalmente, precisam agregar o valor aos produtos que produzem. Aí tem que pensar num Brasil que venda menos commodities, venda mais produtos industrializados, que produza mais tecnologia, que produza mais itens de consumo completos, para poder a gente ter uma classe média. O Brasil precisa de uma classe média. Tem muita gente pobre no Brasil.

Eron Falbo: [22:23] É, cara, a minha impressão de Trancoso... eu não entendi, na verdade. Eu cresci sempre ouvindo falar de Trancoso, né? Era sempre os meus amigos mais pro lado dos playboys, né. Eu era mais alternativo, do rock e tal, não ia muito pra Trancoso. Bom, eu nunca fui. A primeira vez que eu fui pra Trancoso foi agora, no final do ano. Então, cara, eu não tinha ideia do que que era. Tanto que eu esperava, pô, eu imaginava que ia ter o Uber, sabe? Que eu ia usar o aplicativo Uber. E apareceu...

Sidharta Haus: [22:53] Não, teve uma época em que abriram... Algumas pessoas pegaram o Uber em Trancoso, daí os caras abriam o aplicativo do Uber, a pessoa pedia a corrida, e quando o cara chegava, ele falava simplesmente: "O preço do aplicativo não vale, ah, tô ligando." Era só pra poder fazer o cliente chegar nele.

Eron Falbo: [23:24] Você tá na Bahia, né?

Sidharta Haus: [23:26] É, daí lógico que os aplicativos começaram a boicotar as pessoas, então isso não deu certo, né? Não deu certo.

Eron Falbo: [23:32] Ah, saquei.

Sidharta Haus: [23:33] Aqui não foi nem tipo algo...

Eron Falbo: [23:35] A galera não conseguia entrar no eixo.

Sidharta Haus: [23:38] Exatamente. Pedi pro cara comprar duas cervejas pra mim e paguei 30 reais.

Eron Falbo: [23:45] Mas é uma loucura, cara. É uma discrepância muito grande, né? Entre os turistas que vão pra aí e as pessoas que moram aí o ano inteiro. Tipo, é uma... Não, não.

Sidharta Haus: [23:54] É caro pra todo mundo. É caro pra todo mundo.

Eron Falbo: [23:56] Não, eu tô dizendo que, tipo, a galera que mora aí, tipo, o estilo de vida, né, o que as pessoas ganham e tudo mais, é muito diferente. Então, pra poder conseguir sobreviver, quando os turistas vêm, eles têm que atacar, tem que cobrar o que eles querem. Não dá pra cobrar o preço do Uber, né, pô?

Sidharta Haus: [24:17] É, o custo de vida é muito alto, entendeu? O Uber é um trabalho subvalorizado, sabe? O próprio motorista de Uber que trabalha na capital, o cara fica o dia inteiro, 12, 13 horas trabalhando no dia, e ele não ganha. Ele só tá sobrevivendo.

Eron Falbo: [24:41] E em Trancoso ele não ia sobreviver, né? Porque os preços são muito mais caros, ele não ia nem sobreviver.

Sidharta Haus: [24:46] Ele não ia pagar nem aluguel.

Eron Falbo: [24:48] Você lembra onde eu tava ficando aí na casa da dona Sinead? Eu queria mandar um beijo pra dona Sinead. Me tratou impecavelmente aí na minha estadia.

Sidharta Haus: [24:59] Nossa, fez um bolinho pro café da manhã gigantesco, inclusive.

Eron Falbo: [25:04] Maravilhosa a dona Sinead. Recomendo a casa da dona Sinead. Paguei o dobro porque ela me fez um desconto maravilhoso. Mas lembra a distância de onde era lá até o quadrado? Era tipo walking distance. Dá pra ir com 15 minutos andando.

Sidharta Haus: [25:21] Aquilo ali é considerado um lugar bem longe do centro.

Eron Falbo: [25:25] Bom, mas em standards de cidade comum, aquilo lá ia custar em Uber R$10, R$15. E toda vez me cobravam R$50 pra ir lá, pelo menos, né? Aí você custa em outro horário.

Sidharta Haus: [25:39] Corrida mínima padrão pra turista, R$50. Corrida mínima padrão pra pessoal nativo, R$40. Uma corrida no meio da cidade, que num Uber em São Paulo custaria R$5. Eu fiquei impressionado. Eu fui para São Paulo no ano passado e eu me lembro que eu estava lá no Alto de Pinheiros, daí eu pegava um Uber para Oscar Freire e não dava 10 reais. E eu pensava, nossa, se fosse o meu custo, eu tinha pagado 150.

Diferença entre turistas e nativos (25:56)

Eron Falbo: [26:09] Sidharta, fala um pouquinho do que você acha que é a sua perspectiva única, o que você vê, porque, como você falou, você tem muita sensibilidade de perceber as pessoas, você sabe a diferença entre você e as pessoas que vão aí visitar. Claro que tem todo tipo de pessoa que vai visitar, tem padrão, mas tem pessoas que aparecem, pessoas interessantes, diferentes. Mas como você se vê diante dessas pessoas? Qual é a sua visão? Como você vê essas pessoas? Você entende o que eu estou perguntando?

Sidharta Haus: [26:47] Então, eu sou o que, digamos, aqui na Bahia, não tem como chamar, nativo. Eu cresci aqui. Quando eu era criança, tinha 1.200 habitantes. E hoje em dia tem 17 mil. Então eu vi a cidade crescendo, etc. Eu tenho uma relação pessoal com a cidade, eu me sinto parte da cidade, porque eu tenho um compromisso em fazer a cidade continuar prosperando, ter uma cidade com educação, limpa. E a gente vai trabalhando, às vezes, no individual, na nossa casa, etc. Por exemplo, aqui na minha rua eu fiz um jardim, dos dois lados da rua. Então, sempre incentivar os meus vizinhos também a fazerem jardins nas suas casas. Então, a gente vai dando um exemplo pessoal e etc. E os turistas são só pessoas que não vão ficar aqui para sempre. Então, as pessoas vão embora. A única diferença para a gente que está aqui é que tem as pessoas que ficam e as pessoas que vão embora. Então, as pessoas que vão embora podem voltar. E a gente vive essa relação. A gente cria várias grandes amizades que a gente só se encontra, às vezes, uma, duas, três vezes a cada dez anos. Amizades extraordinárias, onde a gente para tudo que está fazendo e vai encontrar outra pessoa e vai dar um rolê. Para a gente que mora aqui, a gente também tem os amigos passageiros. Eles vêm e vão. E também é legal sair daqui. Tem épocas que chove em Trancoso, não é? Eu amo sair daqui quando chove. Daí as amizades e as conexões que faço aqui em Trancoso durante o ano, muitas vezes acabo encontrando, sei lá, estou lá na Faria Lima, encontro uma pessoa que conheci em Trancoso, daí vou lá para Maresias, encontro uma pessoa que conheci em Trancoso. Então, em todo lugar, por Trancoso ser um lugar de conexão. É muito distante, é diferente de uma cidade turística que é perto de uma capital, é uma cidade distante. Então, para a pessoa chegar aqui, ela tem que ter muito merecimento, ela tem que ter corrido atrás. Então aqui é nivelado por cima. Trancoso é nivelado por cima, porque é difícil chegar aqui, e as pessoas têm preguiça. Ó, tá dando delay. Afasta o microfone, eu acho... É, eu não tô falando nada, não. Não, é que eu tava escutando a minha voz.

Eron Falbo: [29:47] Ah, tá. Ué, eu não sei o que que dá pra fazer.

Sidharta Haus: [29:52] É afastar muito o fone do fone.

Eron Falbo: [29:55] Não dá, tá no lugar fixo.

Sidharta Haus: [30:00] Então, Trancoso, por ser mais distante, acontece que as pessoas têm mais dificuldades, a passagem é mais cara, a pessoa não vai vir passar um fim de semana. Ela vai querer passar, no mínimo, três dias. Então é uma viagem muito mais planejada. Tem muita gente que não tem muito dinheiro, então essa pessoa fica um ano planejando, depois de um ano pagando esse rolê. Ela vem pra cá pra fazer outra coisa.

Eron Falbo: [30:36] Você está falando uma coisa muito profunda, porque, como eu comecei a fazer minha desculpa, que eu nunca tinha ido para Trancoso, que eram os meus amigos playboys e tudo, mas agora você me fez uma reflexão que me fez pensar que talvez eu estava sendo preguiçoso, porque muitas vezes a gente vê as pessoas curtindo a vida e fazendo coisas especiais, como escalar uma montanha, e a coisa mais fácil do mundo é a gente julgar essas pessoas, falando: as pessoas não são tão espertas como eu, elas estão lá perdendo tempo escalando uma montanha. Só que as pessoas que estão escalando uma montanha estão vendo uma paisagem que você não tem ideia do que é. Então, isso que você está falando é uma coisa que me fez repensar essa própria coisa que eu acabei de falar, que eu retiro, porque de fato tem pessoas maravilhosas em Trancoso. Quando eu tive o privilégio, em dezembro, de estar com vocês, eu conheci gente muito do bem, o contrário de playboys e tudo mais, e eu acho que eu falava isso como uma desculpa, e eu percebi isso agora, porque você está falando que é um lugar difícil de chegar, então, graças a Deus, eu cheguei, e espero voltar. Mas continua essa reflexão: onde você está indo com isso? Em termos espirituais, em termos filosóficos, o que é esse Trancoso difícil de chegar?

Trancoso e o descobrimento do Brasil (32:06)

Sidharta Haus: [32:15] O Trancoso é uma cidade que, apesar de ser... Por exemplo, onde começou o Brasil? Os portugueses chegaram aqui. Esse litoral aqui do sul da Bahia se chama Costa do Descobrimento, porque as pessoas falam: não, chegou em Trancoso; não, chegou em Porto Seguro; não, chegou em Cabrália. Tudo isso fica na Costa do Descobrimento. Os portugueses vieram pra cá com uma armada, eram umas 16 naus, umas 10 caravelas. Vieram com uma galera, eles não pararam aqui, não, eles pararam em tudo, eles vieram para todas as costas, pararam em todos os lugares, fizeram um mapeamento, uma investigação, de onde é que eu estou, sabe, entender onde chegaram etc. E chamaram essa região aqui de Porto Seguro, porque tem um recife, tem uma baía protegida, onde dá pra ancorar os barcos, e rola uma tempestade e os barcos ficam quietinhos lá. E por isso é um lugar especial.

Eron Falbo: [33:38] É, eu sinto assim, o que eu sinto quando você diz isso é que essa coisa de descobrir Trancoso, né? Tipo assim, os primórdios... A gente chegou em Porto Seguro, como vamos dizer, como sociedade ocidental, a gente criou um país gigantesco, o maior país da América do Sul, um dos maiores do mundo. E muitas pessoas não conhecem os próprios primórdios, não conseguiram chegar em Trancoso, não conseguiram chegar nessa, talvez, natureza calma e serena, nessa bênção que a gente tem, que é o Brasil, e às vezes não tem essa paciência.

Sidharta Haus: [34:18] O Brasil é muito, mas é imenso. Trancoso é o lugar onde o Brasil nasceu. Tem a terceira igreja mais antiga, construída pelos jesuítas. Ela tem um padrão único, uma arquitetura única, construída com óleo de baleia, paredes grossas, uma coisa antiga que está até hoje lá de pé. Tem todo um lugar de paraíso litorâneo. Só que o Brasil não é só Trancoso ou só praia. Por exemplo, temos aqui a Chapada dos Veadeiros, Alto Paraíso, São Jorge, são lugares... Lá é o paraíso das cachoeiras, tem 300 cachoeiras, de todo jeito, pra cima, pra baixo, de um lado pro outro. A gente tem Alter do Chão, que é uma praia no maior rio do mundo, é uma praia de água doce, uma coisa de louco. Daí você vai pro norte da Bahia, já tem praia onde você vê o sol nascer no mar, como se a gente estivesse no Pacífico. Ali, Península de Maraú, um negócio de louco. E as pessoas, às vezes, gastam muito dinheiro viajando pra fora do Brasil. Por exemplo, minha irmã foi pra Europa, viajou todinho. Eu só viajei ao Brasil. Eu vou pra Europa um dia, mas, nesse momento, tenho tanta coisa pra fazer no Brasil, tanto lugar ainda pra conhecer. Eu ainda tenho que inaugurar... Acabei de criar uma marca aí, agora, sem ter que passar a pandemia, vou rodar o Brasil. Cada capital que eu chegar vai ter uma loja da Eco Torceiras, algum lugar vendendo a minha marca. Porque eu não quero plantar uma árvore, eu quero plantar um milhão de árvores. Quero dar um exemplo, escalonar: se o hippie plantar um milhão de árvores, a Vale tem que plantar um bilhão. É escalonar a força, entendeu? Porque as pessoas ficam pensando muito no problema: ah, o aquecimento, a poluição. E a gente tem que pensar na solução, e não só pensar na solução, como tomar uma atitude, uma ação, pra poder resolver esse problema. Porque o mundo é cheio de problemas. Ganha dinheiro quem chega com as soluções, no momento certo, na hora certa. E tem o engajamento, tem a força de correr atrás, de fazer isso acontecer.

Eron Falbo: [37:02] E você faz isso desde os 12 anos. É incrível assim a sua autodeterminação, a energia que você tem e o seu otimismo, né, de estar fazendo tanta coisa diferente, de estar tão vicioso. Eu até falei na minha introdução que você é descendente do Sr. Pereira, do... Qual é o nome do barão? Meu bisavô.

Sidharta Haus: [37:24] Meu bisavô é o Sr. Pereira. Ele era chefe do local.

Eron Falbo: [37:29] Exatamente. E você tem essa onda empreendedora, ambiciosa, visionária, você acha que você tirou da família? De onde você tirou isso?

Sidharta Haus: [37:41] Da minha família... Os meus pais eram contra a cultura. Meu pai tem 10 irmãos, minha mãe tem 5. Os dois eram tipo... Contra a cultura mesmo. Meu pai estudou na faculdade, estudou direito, etc. Mas... Está dando um super delay, eu acho. Pra mim não está dando.

Eron Falbo: [38:14] Tenta ignorar, porque acho que a conversa... Você está me ouvindo enquanto eu falo?

Sidharta Haus: [38:19] Não. Então talvez seja só eu, né?

Eron Falbo: [38:23] Eu tô te ouvindo. Eu vou tentar desconectar meu fone e conectar de novo, pera aí. Bom, pode dar tudo errado, mas pera aí.

Sidharta Haus: [38:32] Melhorou?

Eron Falbo: [38:35] Alô?

Sidharta Haus: [38:35] Pra mim, olha, eu ainda me escuto, mas me escuto menos.

Eron Falbo: [38:40] Ah, então beleza, mas continua falando da sua família, então.

Sidharta Haus: [38:44] Então, meus pais, eles eram tipo hippies. Meu pai abandonou a faculdade de Direito e foi com minha mãe viajar pelo Brasil, e conheceram o Brasil todo. Foram do Maranhão ao Rio Grande do Sul. Foram todas as cidades, todos os litorais, todas as capitais. Na época do Collor, que estava todo mundo sem dinheiro, quebrado, meus pais vendiam ouro e prata. Eles faziam brincos, colares de ouro e prata. Então, eles só vendiam em dólar. Então, quando todo mundo estava quebrado, meu pai estava no Copacabana Palace. Eles saíam e vendiam para os gringos. E eles nunca quiseram ter nada. Tiveram a oportunidade de comprar casa no quadrado, mas nunca compraram nada. Eu fui a primeira pessoa da família a correr atrás e falar: vamos comprar o terreno. Eu já tenho 17 anos quando a gente comprou o terreno.

Eron Falbo: [39:38] Eles eram mais nômades. Eles não queriam fazer raiz.

Sidharta Haus: [39:43] Eu me lembro, já morei em todas as casas de Trancoso. Eu chego na casa, já sei onde é o banheiro, em todas as casas de Trancoso eu já morei. Porque as casas mais antigas, principalmente, meus pais mudavam a cada seis meses. Impressionante. A cada seis meses eu estava com uma jerica, que é o carrinho de mão, levando minhas coisas para um lugar novo. Então... Eu tenho essa perspectiva mais de, tipo... Eu gosto de plantar, eu gosto de... E quando a gente planta uma árvore, ela demora pra crescer.

Eron Falbo: [40:20] É, mas é isso que eu tô tentando entender, sabe?

Sidharta Haus: [40:22] O lugar, a casa é mais difícil.

Eron Falbo: [40:24] Porque, cara, isso é uma visão muito madura. Você tem uma visão muito madura do mundo, de dar o exemplo, de ser proativo, de fazer acontecer, de ter essa energia própria, essa emanação própria que você tem. Esse carisma que você tem, isso tudo é muito maduro, é isso que eu tava tentando entender, de onde você tirou isso, sabe? Se seus pais não eram assim... seus pais já eram empreendedores, né?

Sidharta Haus: [40:54] Eu acho que eu sempre tirei a convicção. Quando eu ia me formar no EMAG, eu estudei sete anos na Federal, desde o ensino médio, no eletrônico, e o ensino médio já direciona o aprendizado para o superior. E eu entrei no programa de intercâmbio pra poder me formar no MIT, porque eu sabia que eu tinha chance de ir pra lá, nesse curso específico, porque eu sou bom de exatas, etc. E eu me dediquei muito, muito, muito mesmo, tipo 12 horas por dia, durante dois anos seguidos, pra poder ser o melhor aluno da área. E fui classificado. E tiraram a Dilma e cortaram essa verba da educação, e eu não pude ir pra lá. Eu tranquei o curso pra não perder a vaga e fui fazer outra coisa. E a primeira coisa que apareceu pra eu fazer foi o Festival do Crunch, que é um produtor de festival, ele faz um festival todo ano há mais de 20 anos, lá no Goiás. E eu mandei uma mensagem pra ele falando assim: tô indo aí trabalhar. E ele me respondeu: pode vir. E eu comprei uma passagem pra Brasília e fiquei uns 10 dias em Brasília até o dia do festival, e fui pra Cocauzinho, que é uns 100km de Brasília, pro festival. E lá, em três dias, a gente chegou, colocou umas coisas, criou umas artes, cortou umas madeiras, empilhou uns negócios, checou umas luzes, e, de repente, a gente criou o mundo da fantasia. A gente criou uma outra realidade, um universo paralelo, no meio do nada. A gente pegou uma fazenda que tinha uma lagoa e, de repente, aquele lugar era um festival. Era um lugar que estava pronto pra receber 5 mil pessoas durante três dias, elas confortáveis, curtindo uma balada que não para nunca, etc. E ali eu tive a percepção do que o ser humano realiza. Ele produz. A gente chega num lugar... Qual é o poder do ser humano? O poder do ser humano é transformar. E a gente transforma as coisas através da ação, da atitude, no mundo real. A gente pega a madeira, serra a madeira, encaixa a madeira, a madeira vira uma porta, vira uma janela, vira uma mesa, entendeu? Porque a gente fez a transformação no mundo real. A gente saiu da imaginação e colocou na prática. E quando eu fiz aquele festival, em três dias, num lugar com 20 pessoas, a gente construiu um lugar pra receber 5 mil. E as 5 mil ficaram felizes. E você olhava em volta e falava: nossa, eu que fiz isso, o cara precisava estar curtindo, precisava estar feliz, precisava estar pulando, ela está extravasando, ela está conhecendo novas pessoas. E eu me apaixonei por essa questão de relações, inter-relações, etc. E...

Do festival Krantz à criação de mundos (41:11)

Eron Falbo: [44:03] É, me parece que você... O que você viu na prática, quando você viu esse festival sendo criado, você testemunhou o ser humano criando quase magicamente um mundo do zero. Uma coisa que estava lá e era natureza, o ser humano interveio e fez um mundo, fez uma realidade nova, uma realidade intencional e não acidental.

Sidharta Haus: [44:37] Exatamente. O mundo é cheio de acidentes. O mundo só tem essa população de 8 bilhões de pessoas por um acidente. Um cara lá estava estudando um fungozinho, e o fungozinho contaminou uma amostra, e as bactérias lá da amostra morreram. E o cara foi lá com isso, ele tentou entender por quê e descobriu a penicilina. E a penicilina fez com que a nossa população dobrasse de tamanho, porque as pessoas não morrem mais por bactérias, porque a gente mata elas. E foi um acidente, né? Mas foi o acidente causado por alguém que estava fazendo alguma coisa. Então, por exemplo, eu pretendo ser, depois que eu virar Eco Poceiras, e plantar milhões de árvores, etc. Talvez não plantar milhões de árvores, mas plantar pelo menos umas 100 mil. Depois que eu plantar umas 100 mil árvores com Eco Poceiras, eu vou voltar ao meu trabalho de produção de festival. E por mais que a produção de festival seja uma coisa aleatória, assim, né? Eu sei que eu consigo criar uma magia, passar uma informação, desenvolver um ideal com produção de festival. Então, depois que eu plantar minhas primeiras 100 mil árvores, eu vou focar numa coisa que eu vi que eu era muito bom, que é a produção de festival. E eu vou produzir festival pra transformar as pessoas em empreendedores, pra transformar as pessoas em pessoas mais capazes, mais conscientes, que pensam na sustentabilidade, que pensam na soberania, que pensam nos seus filhos, nos seus netos, nos seus bisnetos, no que eles querem pra humanidade, numa perspectiva de futuro, numa perspectiva que talvez nós, que temos e tivemos, vamos ter que criar a nossa Arca de Noé pra tirar a nossa vida, a nossa genética, essa vida que a gente só conhece como nossa vida. Então, a vida só tem a nós, no universo até o momento. Então, eu acho que a gente, como seres conscientes, sencientes, temos a obrigação de preservar a vida, de conseguir fazer com que essa vida domine o universo, que ela vá lá transformar a pedrinha em Marte, lá na próxima estrela, saca? Que a gente... Veja coisas que ninguém nunca viu. A maior realização do ser humano é chegar a um lugar que ninguém nunca pisou. E a gente já pisou na Terra inteira. Então a gente tem que começar a pisar em outros lugares.

Eron Falbo: [47:38] Sidharta, muita gente te acusou de ser hippie aqui no chat, e eu não te vejo como hippie de jeito nenhum. Eu te vejo como um industrialista do século XIX, um magnata, aqueles caras que encontravam petróleo e faziam as coisas acontecerem, criavam novas cidades e coisas do tipo, porque eu já conheci muito hippie na minha vida. Eu acredito, só que você é de Trancoso. Você é de Trancoso, você cresceu fazendo bico, fazendo coisas diferentes pra crescer, pra ganhar o seu próprio território, o seu próprio domínio, vamos dizer. Mas, cara, eu te vejo com um pensamento... Porque, pô, hippie, na minha opinião, é mais uma galera que fica reclamando, né? Que nem você falou, reclamando dos males que acontecem. Mas, cara, você tem uma visão positiva da humanidade, de construção?

Hippies, empreendedorismo e legado (47:39)

Sidharta Haus: [48:33] Eu vou te mandar um negócio, assim, por exemplo, só um adendo: é porque os hippies são uma coisa dos anos 70. Os hippies são uma contracultura. Existia um estado de guerra militarista no mundo, as pessoas tinham medo do apocalipse global, de cair bomba atômica pra todo lado, e uma galera chegou e falou: não, paz e amor, vamos nos abraçar, vamos viver em comunidade. Era o extremo tentando salvar a humanidade de si própria. Isso são os hippies. Os hippies são os movimentos lá contra a guerra do Vietnã. O Steve Jobs, ele é hippie. O Steve Jobs era um hippie até o fim da vida. Porque o hippie é contracultura. Ele foi lá e queria criar a porra do melhor celular, melhor iPhone, iPod. Ele queria criar o melhor daquele produto que podia existir: a excelência. As pessoas confundem os micobres com hippies. Que o micobre é uma pessoa que aprendeu a fazer alguma coisinha com arte, ele pega algo da natureza, um fio de cobre, enrola, bota uma florzinha e vende por R$10. Esse cara não é rico, ele é um artesão de rua. Ele é reflexo de uma sociedade pouco desenvolvida no capitalismo. Porque o artesão de rua lá de Madrid, ele trabalha com prata. Os malucos, tem uns malucos de BR que trabalham só com ouro. Tem um hippie lá do quadrado que tem duas roupas e ele faz uma bolsa e vende por 5 mil reais. Uma bolsa. E ele vende quando ele quer, faz quando ele quer, é uma arte única dele lá. Então uma coisa é igual. Eu não me considero. Eu me considero filho de. Meus pais eram. Eu geralmente o.

Eron Falbo: [51:14] É assim que eu te vejo também. Eu te vejo como um sucessor de hippies, mas eu te vejo com uma mentalidade bem...

Sidharta Haus: [51:21] No futuro vão falar o que a gente é, vão falar que aqueles caras eram os beatniks. Não é a gente que intitula a gente, são os ascendentes, é uma coisa que vem do macro. Eu acredito que é foda pensar em estados nacionais, mas a gente vive num mundo desigual. Então, num mundo desigual, a gente precisa pensar nos estados nacionais. Eu sou brasileiro, eu quero o melhor para o Brasil. Porque eu sou cidadão brasileiro, eu fiz juramento à bandeira lá. Então, eu quero o melhor para o meu país. E, no momento, eu planto árvore enquanto as pessoas cortam.

Eron Falbo: [52:14] É incrível isso.

Sidharta Haus: [52:15] Eu conto, e ela produzindo, mas a gente faz o que pode.

Eron Falbo: [52:19] Mas, cara, você tá aí, você tá fazendo, você tá realmente fazendo. Eu vi, eu testemunhei de primeira mão, você tá na rua, você tá com um sorrisão na cara, enquanto as pessoas estão lá, às vezes transgredindo, às vezes estuprando sua terra, não todo mundo, obviamente, mas você entende, você olha ali, você faz sua parte, porque é isso que você pode fazer, né? Então, Sidharta, cara, infelizmente acabou o nosso tempo, mas eu queria te agradecer muito por estar comigo. A gente vai continuar conversando, desenvolvendo isso. Eu sei que, apesar de já estar trabalhando desde os 12 anos, você está no começo da sua trajetória. Aí o mundo ainda vai ouvir falar de você. Entre no site ecopulseiras.com.br, qual que é?

Sidharta Haus: [53:07] Exatamente, ecopulseiras. Vai no Instagram agora, ecopulseiras. Segue o meu Instagram. E a ideia é dar o exemplo. Sabe como é que a gente reclama bonito? A gente reclama dando exemplo. A gente não fala, ah, você tá fazendo errado, você tá fazendo ruim. Não, você faz melhor. A pessoa se sente mal, você trata ela bem. Então, ensina ela, porque a pessoa não sabe, ela não aprendeu ainda o que é viver em sociedade, o que é viver em comunidade. Transmitir os conhecimentos, criar um conhecimento coletivo, criar uma ideia de um mundo melhor, de um mundo para todos, de um mundo que dure. Porque, no momento, a gente está ainda tentando criar um mundo que dure, porque, do jeito que está, o mundo não vai durar muito.

Eron Falbo: [54:02] Incrível, Sidharta. Muito obrigado, eu aprendi muito com você. E espero que todo mundo tenha escutado isso direitinho e, né, vamos começar a fazer exemplo um pro outro. E ecopulseiras.com.br, compre pulseiras hoje mesmo. É isso, valeu, cara.

Sidharta Haus: [54:22] Boa noite.

Eron Falbo: [54:23] Boa noite. Tudo de bom.

Sidharta Haus: [54:24] Axé pra tudo.

No Alvo com Eron Falbo · episódio #48 · todos os episódios