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Eron Falbo: [0:05] Sejam bem-vindos! Você caiu no alvo, eu sou Eron Falbo, e hoje vamos estar com Guilherme Isnard, mais conhecido pela banda Zero. Só que o Guilherme vai muito além desse número infinito. Ele é um poeta, praticamente um linguista, um romântico. Ele é um alquimista da música e das palavras. Então venham, juntem-se a nós, sentem-se ao redor da fogueira e vamos ouvir a sabedoria desse poderoso e nobre bardo. Como é que você está?
Guilherme Isnard: [0:44] Grato pelas suas gentis palavras. Bardo é bem como eu me defino. Você foi na veia.
Eron Falbo: [0:56] Eu te escutei um pouquinho e deu pra te conhecer um pouquinho. E, na verdade, é um grande privilégio te conhecer, cara, porque a gente nunca sabe onde a gente tá entrando, né, chamando gente pra essas conversas, né, tantas vezes por semana. E é uma grata surpresa a sua sensibilidade, a sua acuracidade com as palavras, com certos nuances. Você parece prestar bem atenção e se dedicar bastante para a sua arte de uma maneira que não é tão comum aqui no Brasil. Fiquei muito feliz de ter essa oportunidade de te conhecer.
Guilherme Isnard: [1:43] Eu que fico feliz de descobrir um cara tão jovem, tão culto, tão cultivado, tão preocupado com as palavras, com a genealogia, que são preocupações que eu sempre tive. E, na verdade, essas lives hoje viraram os antigos cafés filosóficos. É onde as pessoas que pensam, que gostam de conversar, se encontram. E a tristeza é que não podemos estar todos juntos, mas já já isso muda, já já. Eu vou te ver em algum lugar bacana, recebendo várias pessoas com plateia para poder assistir seus papos.
Eron Falbo: [2:26] Amém! E assim, também por um outro lado, a gente está aprendendo a se aproximar um pouco mais do mundo cibernético. Esse lado da pandemia, pelo menos, teve esse lado positivo, a gente se obrigou a fazer mais momentos com a família em vídeo. Eu lembro que fiz o aniversário do meu filho e tinha acabado de começar a pandemia, e estava todo mundo isolado mesmo, estava todo mundo morrendo de medo, e a gente fez o aniversário com vários computadores ligados, com todo mundo no Zoom. Foi um negócio bonito, entendeu?
Guilherme Isnard: [3:10] Nesse sábado, casou uma amiga minha em Nova York, e o casamento foi todo virtual, via Zoom, e foi emocionante. Tinha convidados do mundo inteiro, da América Latina, da América do Norte, da Ásia, da Europa. E não perdeu, claro que perde a coisa do contato físico, mas os discursos, a emoção dos noivos foi uma coisa maravilhosa. Estamos nos adaptando. Eu não vejo muito como isso muda no curto espaço de tempo. É uma falsa ideia que as pessoas têm que após a vacina tudo volta ao normal. Não, após a vacina isso ainda leva um tempo de observação de todas essas novas formalidades. E daí, daqui a um tempo, mais na frente, a gente pode estar junto e nos abraçarmos novamente.
Eron Falbo: [4:14] Exatamente. E por isso as pessoas têm que começar a absorver, a internalizar o fato de que essa é a vida e vamos ser felizes dessa forma. Eu estava lendo aqui a letra. Eu notei, eu transcrevi a sua música para poder entender melhor. Você fala, bom, o começo da música parece que você tá assim, pô, a gente tá num momento ruim, mas é quase um soneto de Shakespeare, né, que vai desenvolvendo e no final traz uma perspectiva que dá uma, como é que chama, uma virada pra esquerda, brusca, então no final você fala bem positivamente. Até eu ia te perguntar, você fala assim, eu tenho um segundo do tamanho do mundo, eu tenho minha teoria sobre o que significa isso, mas queria te perguntar, o que você quis dizer com isso?
Guilherme Isnard: [5:18] Isso é um pouco da realidade quântica, porque o passado, o presente e o futuro são dimensões sobrepostas. E a única coisa na minha concepção que explica a capacidade de um clarividente alcançar coisas que aconteceram no passado ou prever coisas que acontecerão no futuro é se passado, presente e futuro forem simultâneos, e essa pessoa tem, de alguma maneira, uma chave que permite que ela transite por essas dimensões. Então, um segundo do tamanho do mundo é um segundo onde cabe tudo, que é o agora. E é onde estão todas as possibilidades. Ou seja, a possibilidade não está amanhã, a possibilidade não está ontem, a possibilidade está agora. E a felicidade é esse momento diminuto. Esse segundo é o segundo da felicidade. Você falou de felicidade e a felicidade é esse segundo de presença de espírito e de observação.
Eron Falbo: [6:21] E o que eu senti disso, que eu achei lindo, que é justo, assim, essa virada, essa curva brusca para a esquerda da música, que você está dizendo, independente da gente estar vivendo esse mal, quando esse mal passar, ao nome da música, esse minuto contém todos os minutos, e se a gente olhar para dentro e conseguir pescar essa realidade quântica dentro de nós mesmos, a gente consegue ser feliz em qualquer mal, em qualquer situação. Aí você continua falando, e aqui cabe tudo o que você quiser, ou tudo o que quiser, eu acho. E isso é tipo assim, se você está confinado na sua casa, não se sinta tão mal, porque aqui, em termos quânticos, cabe tudo o que você quiser.
Guilherme Isnard: [7:18] Exatamente, percepção perfeita, porque na verdade a realidade é uma coisa que você cria na sua cabeça. Existem vários estudos a respeito da capacidade do cérebro de processar a informação visual. E a maioria deles concorda que o cérebro processa apenas 30% da informação que ele recebe e preenche os hiatos com construções baseadas nos seus programas de vivência. E isso equivale a dizer que 70% da realidade é uma construção do seu cérebro. Se você constrói isso positivamente, independente de onde você esteja, do que você esteja vivendo, você é capaz de conseguir o que você quiser. Cabe tudo. Então eu acredito fielmente nisso, que o seu desejo é a semente do que você consegue.
Eron Falbo: [8:23] É, e isso que você tá falando é como se fosse uma síntese da ciência e daquela coisa New Age, tipo O Segredo, né, que você cria a sua própria realidade, mas você tá se baseando na neurociência, que de fato, né, o que a gente pelo menos conscientemente foca, a gente tem, como você falou, 70% de realidade nublada, e o cérebro precisa make sense, o cérebro precisa preencher aquilo para poder criar uma narrativa que você consegue aceitar. E esse 70% é muito preenchido pelas suas crenças, pelas suas programações e coisas do tipo. E eu acho que, meu amigo, esse tipo de música, assim, independente de se as pessoas prestem atenção na letra ou não, acho que contribuem, né, tipo assim, se isso tá no nosso espaço de mídia, espaço midiático, né, nessa estratosfera ou mídiasfera, quanto mais músicas com esse tipo de mensagem, que não é só positivo, porque às vezes a gente faz mensagens positivas piegas. Você começa a música como: eu reconheço sua dor, eu reconheço que você está num momento ruim, e te digo as coisas que você sempre ouviu, para você ficar calmo, aí depois você pula para uma realidade quântica. É como se fosse um cortejo que você faz na letra, que é genial.
Guilherme Isnard: [10:06] Eu não descreveria melhor, Eron. A minha composição... Desculpe te interromper, mas eu fiquei emocionado.
Eron Falbo: [10:17] Diga isso, por favor.
Guilherme Isnard: [10:19] A minha composição... Primeiro, eu considero a minha missão transformar a vida das pessoas através da música. Eu não tenho nada contra a música entretenimento, não tenho nada contra a música diversão. Eu tenho algo contra esse tipo de música dominar a mídia mainstream, tradicional, porque eu acho que tem espaço para tudo. Então eu me dedico a escrever canções edificantes porque eu tenho o foco, o objetivo, a missão de tocar as pessoas com a minha canção e, a partir daí, elas sejam transportadas para um outro patamar de sensibilidade, de percepção, de visão mesmo de mundo. E o que acontece é que você só consegue fazer isso porque tudo meu é muito intuitivo, sou uma pessoa autodidata em tudo que faço na minha vida, meu conhecimento é através do empirismo, e o que acredito é que se você deixa um espaço para a pessoa se colocar na sua canção... Um crítico escreveu assim: essas músicas do Guilherme, você nunca sabe para quem e com quem ele está falando, sobre o que ele está falando, e isso eu considero uma qualidade, porque se você deixa um espaço para a pessoa entrar na sua música e se apropriar daquela música como se ela fosse dela e desenvolver a imaginação através daqueles versos, como você fez, você vai chegar onde eu quero.
Eron Falbo: [11:56] Desculpa, isso me lembra... você talvez reconheça, é uma letra do Leonard Cohen, que ele fala: there's a crack in everything, that's where the light gets in. É tipo assim: tem algo quebrado em tudo, e é nesse quebrado que a luz entra. Então, eu leio isso como: você não pode preencher o total, você tem que ser perfeito, você tem que permitir, você tem que expor esse crack, esse quebrado que você tem.
Guilherme Isnard: [12:42] Essa fresta. Uma outra maneira de dizer isso é que o divino só se manifesta no imponderável. Então, se você está certo de tudo, se tudo está fechado... O homem faz planos e Deus ri, que é um ditado judaico que eu adoro. Tem uma música com esse nome que ainda irei lançar. Porque quando você fecha, aquilo fica estanque, fica hermético e pronto, e aí é difícil que você consiga atingir a tantos. Você vai atingir quem comunga daquela tua verdade, daquela tua realidade. Mas quando você deixa a fresta, entra uma luz que vai tocar um monte de gente diferente. Agora você falou coisas perfeitas aí. Essa canção foi composta durante o confinamento, mas ela não é confinada a ele, eu não me canso de repetir, porque as pessoas falam: mas você vai lançar agora, a música vai ficar presa, datada. Eu falo: não, cara, o que não falta na nossa vida são males. A gente está enfrentando aí duzentos mil males, o Covid é um deles só. O que estou falando é assim: está na sua mão promover a transformação. Enquanto você ficar sentado aí no seu lugar, nada vai acontecer. A felicidade está onde você quiser que ela esteja. E por aí vai.
Eron Falbo: [14:19] Eu acho que é heróico você poder escrever uma obra com um título que tem a palavra mão.
Guilherme Isnard: [14:27] A sua saúde, meu querido. Sim.
Eron Falbo: [14:29] Ah, obrigado. Inclusive, antes da gente fazer nosso brinde, deixa eu só ter certeza se tá tudo certo aqui com a internet, porque tá congelando um pouquinho aqui a imagem. Já volto. Vamos brindar. O que você tá bebendo aí?
Guilherme Isnard: [14:44] Eu tô tomando um rosêzinho chileno. Foi muito engraçado, porque eu cheguei na minha lua de mel com essa ex-esposa, meu último casamento, mãe dos meus filhos coreanos, ela é sul-coreana. Nós fomos passar a lua de mel em Paris, e aí o meu irmão que mora lá nos levou num café, que era o Café des Arts, era uma tarde de sol europeia. Aí eu pedi um rosé, aí o cara falou: olha, eu tenho um chileno ótimo. Eu falei: meu amigo, eu tô em Paris, você vai me oferecer um rosé chileno? Esse eu bebo lá no...
Eron Falbo: [15:25] Deve ser até caro o chileno lá em Paris, né?
Guilherme Isnard: [15:27] Com certeza! Mais caro que o francês, né?
Eron Falbo: [15:31] Eu estou bebendo um francês aqui, eu nem tinha visto. Sua família francesa, a sua saúde, a nossa saúde, a saúde de todos que estão nos assistindo aqui.
Guilherme Isnard: [15:42] Obrigado, obrigado. Brinde a todos vocês. Obrigado pela audiência.
Eron Falbo: [15:47] Não é bom. Eu quase nunca tomo rosê, então... A razão que eu gosto muito dessa coisa: primeiro assim, tipo, você, cara, você sabe que eu sou músico também, né? A gente conversou um pouquinho.
Guilherme Isnard: [15:58] Foi uma novidade, eu achei legal.
Eron Falbo: [16:01] E cara, tipo assim, eu quase não ouço música. Pra mim, até os 27 anos mais ou menos, a gente é super empolgado pra escutar uma música nova; depende da pessoa, mas no geral, pelo menos pra mim foi assim, eu vejo outras pessoas sendo assim também. E hoje, cara, eu não vou em busca de música que eu não já ouvi antes, entendeu? Cara, meio que porque, quando possível, é Bach e Mozart, o resto é mais ou menos... É funcional, né? Depende do momento. Mas o benefício que eu mais tenho dessas conversas que eu tô tendo com as pessoas, de fazer tantas e etc., é que eu tenho, à grata surpresa, o privilégio de conhecer coisas que eu nunca teria conhecido, incluindo vinho rosê, que eu nunca bebo.
Guilherme Isnard: [16:55] Eu vou te falar o porquê do rosê: todas as grandes propriedades do vinho estão na casca. Aí as pessoas ignorantes, que não têm conhecimento vinífero, acreditam erradamente que o vinho tinto é feito de uva vermelha e que o vinho branco é feito de uva branca. Não é assim. Embora exista vinho branco feito de uva branca, o que determina a cor do vinho é a presença da casca no processo de fermentação. Então o vinho branco você faz só com o bago da uva, e o vinho tinto você tem a casca no processo. Os fenóis, os flavonoides, tudo isso está na casca do vinho. O vinho branco, por não conter a casca, eu o considero indigesto. Embora ele seja refrescante, seja muito prazeroso de tomar, se eu tomo mais de duas taças de vinho branco, já tenho um desconforto estomacal. O rosê é quase um branco, só que a casca dá uma passadinha; eu gosto de acreditar que ele já tem aquele benefício digestivo do tinto. Por isso que, no calor, eu gosto de tomar o rosê.
Eron Falbo: [18:23] Ótima explicação, é bom saber que você gosta de vinho tanto assim também. Eu adoro vinho, infelizmente eu não tive...
Guilherme Isnard: [18:33] Sei.
Eron Falbo: [18:33] Lá, o tempo ou o interesse profundo o suficiente para me aprofundar em termos de ser enólogo. Ainda dá tempo, vamos dizer, mas eu adoro e gosto. Enófilo, pode ser.
Guilherme Isnard: [18:48] É, o enófilo é o cara que estuda a parada.
Eron Falbo: [18:51] Eu sei que você é estudioso. Eu sou ambicioso, então o que eu gostaria de ser é enófilo mesmo. Já sou enófilo, já sou. Mas é bom saber, a gente sabe que tipo de... Eu fumo charuto, por exemplo. Praticamente todo mundo que fuma charuto tem um lugar no meu coração. Todo mundo que gosta de vinho tem lugar no meu coração. E eu vi que sua filha te liga todo dia pra rezar o Pai Nosso, e isso, vindo de alguém que é da música, especialmente da cena dos anos 80, e conseguiu sobreviver o suficiente pra rezar o Pai Nosso todo dia, é uma coisa bonita, uma coisa que mostra uma espiritualidade, mas não uma espiritualidade new age, uma espiritualidade tradicional. E não é todo mundo que tem coragem de se conectar com esse tipo de coisa hoje em dia. Então isso tudo me faz te admirar mais.
Guilherme Isnard: [19:46] Normalmente ela interromperia essa live, porque esse é o horário que ela me liga antes de dormir pra rezar, mas eu tenho a felicidade de estar com os meus filhos aqui comigo no Rio de Janeiro de férias. Então hoje ela não vai me interromper. Mas eu sou transreligioso, entendeu, Eron? Eu não compro um pacote fechado, dogmático de religião. Eu acredito que as religiões são idiomas que determinados grupos, principalmente os da elite, estabelecem para se comunicar com Deus de acordo com as necessidades sócio, geográficas, políticas, econômicas de um determinado momento. Então eu acredito num Deus único, poderoso, criador do céu e da terra, e converso com Ele direto, mas eu sou uma pessoa que tem o prazer na disciplina da prática religiosa. Então eu gosto de ter um momento dedicado, além daquele da oração, do despertar, do agradecimento noturno. E para botar os meus filhos nessa vibe, eu musiquei o Pai Nosso. Então todo dia de noite a gente canta... Pai Nosso, que estás no céu, santificado seja o vosso nome. E é uma musiquinha que eu inventei, uma melodia. E aí, quando a gente acaba de estarmos juntos em alguma celebração, que se canta o Pai Nosso às vezes numa igreja católica, às vezes numa igreja presbiteriana, que é a igreja da mãe coreana, ou às vezes em um outro lugar qualquer que as pessoas cantam com uma melodia da liturgia do local, elas falam: 'Pô, estão cantando errado, papai.' Aí eu tenho que explicar: 'Não, filha, essa é a musiquinha que o papai criou pra gente, essa é nossa, tá?'
Eron Falbo: [21:44] E pior que eu vou te revelar uma coisa, porque eu achei que eu ia revelar coisas suas que nunca foram reveladas, mas você está tirando de mim coisas que nunca foram reveladas. Toda sexta-feira à noite, nós, judeus, cantamos. Isso também é uma prática judaica muito comum, né? Você musicar, praticamente tudo musicado, né? Até dentro da sinagoga.
Guilherme Isnard: [22:09] Os hazans têm a minha admiração. Eu tinha o tecladista da minha banda, judeu, Alfred Hayati, fui em vários bar mitzvahs, Rosh Hashaná, adoro as celebrações judaicas, e os cantores na sinagoga são uma coisa de louco.
Eron Falbo: [22:30] Se você for para uma... Especialmente sefaradi, eu sou sefaradi... Mas é verdade que a chazanut, a arte de cantar em sinagoga, vamos dizer, é mantida com muito mais tradição, pelo menos pelos judeus espanhóis, os judeus sefaradis. Toda sexta-feira a gente levanta o copo de vinho e fala... Et cetera. Senão vai santificar nosso vinho aqui demais.
Guilherme Isnard: [23:06] É, mas é uma boa vibe essa. Curtir, depois você me ensina isso daí.
Eron Falbo: [23:12] Bote fé, bote fé, mas é muito bom ter isso.
Guilherme Isnard: [23:14] Se um goi puder rezar essa oração pra santificar o vinho, eu tô dentro.
Eron Falbo: [23:23] Vamos fazer isso junto, com certeza. Inclusive, se o senhor estiver saindo de casa, eu te chamo para um Shabat aqui em casa, uma refeição de Shabat, um jantar. A gente conversa sobre todas essas coisas.
Guilherme Isnard: [23:37] Com muito prazer. Eu desenhei muito para confecções que eram no Bom Retiro, em São Paulo, e aí eu tenho muita intimidade com a comida judaica. Muito kreplach, gefilte fish, burekas, gosto muito de fígado, todas essas coisas, eu caio dentro. Pode convidar, eu saio de casa, tomo as precauções e estou dentro. Sou bom garfo.
Eron Falbo: [24:03] Ótimo, ótimo. Vou te convidar, vou te convidar. Quem tiver aí no clipe, me lembra disso.
Guilherme Isnard: [24:10] Deixa eu só te falar mais uma coisa com relação... Ih, agora me perdi. O que era que eu ia falar?
Eron Falbo: [24:19] Bom, enquanto você lembra, eu vou vendo aqui pra gente incluir nossos amigos aqui que estão com a gente. Só lembrando, galera: se vocês quiserem fazer perguntas... já vi que uma galera fez pergunta, põe na caixinha de perguntas aqui, no ponto de interrogação. Muita gente já fez. Eu acho que foi a live com mais perguntas, na verdade, que eu já fiz. Então, galera...
Guilherme Isnard: [24:43] Eu tenho uma vida muito misteriosa.
Eron Falbo: [24:49] Vamos lá, vamos lá. A gente entrou muito aí na religião, vamos sair um pouco da religião e ir para o David Bowie. Amo o David Bowie, e às vezes conecto você ao estilo dele. Já te falaram? Eu não sei o que quer dizer isso, mas vai lá.
Guilherme Isnard: [25:05] É, alguém já me falou que eu, de certa maneira, tenho ali uma identificação com o Bowie. Assim, qualquer pessoa que começou a cantar nos anos 80 tem Bowie assim como um deus.
Eron Falbo: [25:20] Assim como o Bowie tinha o Dylan, né?
Guilherme Isnard: [25:24] É, mas assim, estranhamente, porque Dylan e Paul McCartney são dois mitos na nossa classe musical, né? Então, assim, todo músico endeusa Dylan e Paul McCartney. O meu Beatle preferido é George Harrison e eu tenho uma pirra com o Paul McCartney, que eu acho ele mó coxinha. E eu nunca aturei a voz do Dylan, então eu me afastei da obra poética do Dylan, e foi um grande erro. Eu só fui descobrir Dylan com prazer palatável e falei: cara, que cara incrível, quando o Bryan Ferry, que é outro cara que eu admiro, gravou um disco chamado Dylanesque. Se você não ouviu ainda, eu recomendo fortemente, porque ele interpreta da maneira dele os maiores sucessos do Bob Dylan. E aí eu consegui entrar no mundo do Bob Dylan. Mas Bowie tem um estilo que, na verdade, ele se inspirou ou foi inspirado por um grande cara, que é o cara que é o bamba, o ovo total, que é o Scott Walker. Scott Walker dos Walker Brothers, que faleceu ano passado. E que é um cara inacreditável, se você ouvir, por exemplo, o Night Flight dos Walker Brothers, você vai entender o que eu tô falando. O último, o disco póstumo do Bowie, o Lazarus, se você ouvir as canções do Lazarus e comparar com o Night Flight, você vai entender o que eu tô falando. E os Walker Brothers, que era uma banda dos anos 60, inglesa, que cantava música romântica e tal, com voz de barítono e tal. Quando ele foi pra carreira solo dele, ele começou a cantar com uma voz muito incômoda. E as pessoas perguntaram: mas por que você tá cantando nesse registro? Ele falou: cara, porque a voz de barítono é muito confortável, as pessoas se deixam levar pela voz e esquecem do conteúdo.
Eron Falbo: [27:49] É hipnótica, né?
Guilherme Isnard: [27:50] Eu canto com essa voz pra obrigar as pessoas a prestarem atenção no que eu tô dizendo.
Eron Falbo: [27:56] É hipnótico, cara. E essa coisa do barítono, o Leonard Cohen é muito assim, né? Ele faz uma parada bem hipnótica. E o Led Zeppelin, apesar de fazer essa coisa de boy band, de cantar assim lá nas alturas, eles eram ocultistas, estudavam muito formas de feitiço, hipnose dentro da música. E isso é uma coisa que eu gosto muito. O Jimmy Page, principalmente, mas os outros entraram na onda, né, com seu sinalzinho lá. O Jimmy Page era um mago ali, né? Ele, inclusive, é da mesma fraternidade que eu sou, a mesma do Paulo Coelho e do Raul Seixas. Mas voltando ao assunto do David Bowie, eu vi essa ligação David Bowie e Bryan Ferry, você começou, e também a sua história do New Romantics, você deve ter começado no glam rock, né? Com grande influência, não? Você usava maquiagem, como é que era?
Guilherme Isnard: [29:00] Eu usava maquiagem, usava muita bijuteria, muito brilho, mas isso daí...
Eron Falbo: [29:06] Óculos escuros da mãe, né, que eu uso.
Guilherme Isnard: [29:10] Mas isso por conta da minha visão de show business, porque venho da moda. Embora eu tenha sempre tido uma proximidade com o universo musical, toquei muita roda de fogueira em Búzios com a Ângela Ro Ro, com o Hyldon, com o Sérgio Magrão, do 14 Bis e do Terço. Eu participei muito desse momento buziano dos anos 70, de fogueira na praia e fazer um som. E a minha primeira banda foi no ginásio com o Lobão, aos 15 anos de idade. A gente fez o Grêmio Recreativo Nádegas de Vagá. Só que o Lobão foi direto do ginásio para a música e eu fui para a moda. Eu fazia muita viagem de moda e meus colegas estilistas da época, dos anos 1980, viajavam para fazer pesquisa de prateleira e de vitrine. E eu sempre preferi fazer atualização cultural. Eu falei assim: primeiro que é um puta saco você ficar revirando prateleira, depois que todo mundo ia atrás das mesmas coisas. Falei: em vez de fazer isso, vou ver os shows, vou ver os filmes, vou ver as peças e vou entender para onde está andando a cabeça dessas pessoas e vou criar minhas coleções com essa visão, quando eu voltava para o Brasil e ia aos shows. Eu tive muito problema no começo da minha carreira em São Paulo, porque todo o pessoal da música ou era do universo punk, ou tinha um pensamento filosófico ligado ao punk, ou socialmente orbitava o universo punk. E eu era um estilista, entre aspas, burguês, bonito, bem vestido, que viajava, que namorava modelo. Então sofri bullying. E meu nome era Isnard, então o Kid Vinil, meu querido Kid Vinil... Você.
Eron Falbo: [31:16] Tinha todas as caixinhas esticadas pro bullying, né, do resto da galera.
Guilherme Isnard: [31:21] Todas. E ainda tinha o sobrenome. O Kid Vinil, antes de falecer, nós fizemos muitos shows juntos, era um amigo muito querido.
Eron Falbo: [31:30] Conheci ele muito.
Guilherme Isnard: [31:31] Ele falou: 'Guilherme, o rock underground paulistano não te curtia porque diziam que você era herdeiro das Lojas Isnard.' As Lojas Isnard, para quem não conhece, eram um grande magazine, como a Sears, como a Mesbla, em São Paulo, só que eu não tinha nada a ver com aquele Isnard economicamente falando. Somos primos, mas eu não sou daquele... Meu pai... esse ramo... a família Isnard é pequena, tem... A gente até falou rapidamente sobre isso. Você gostaria de falar mais sobre isso?
Eron Falbo: [32:08] Claro, por favor.
Guilherme Isnard: [32:09] Só para não atrapalhar a sua entrevista.
Eron Falbo: [32:11] Eu falo pra cacete. É uma conversa, por favor. Quando eu quiser falar pra cacete, eu falo também, porque eu sou egocêntrico, então...
Guilherme Isnard: [32:23] Egocêntrico e autêntico, porque assume isso. Normalmente, os egocêntricos falam: 'Não, não, eu não sou egocêntrico.' Já gostei. E aí a nossa família remonta à fundação do Estado Franco. Carlos Magno, quando resolveu unificar a França e defender as fronteiras, ele chegou para cada dono de terras nos limites do...
Eron Falbo: [32:55] Os condes, os duques.
Guilherme Isnard: [32:59] Na verdade, isso precede os títulos nobiliares.
Eron Falbo: [33:03] As organizações, entendi.
Guilherme Isnard: [33:05] E ele falou: 'Olha, se você defender aqui esse limite do reino, eu te nomei cavaleiro do reino, Chevalier de Rouen.' O primeiro título da minha família é de Chevalier de Rouen. O nosso brasão são três lises invertidos sobre fundo azul. Azul é a cor da nobreza, o lis é a marca da França. O lis invertido eu não entendo de heráldica o suficiente e nem me aprofundei para saber exatamente do que se trata. Mas o castelo dos Isnard de Burdon é nos Pirineus, na rota de invasão de Aníbal, onde Aníbal passou com os elefantes e escandalizou a Europa toda, porque foi um feito extraordinário. E, na verdade, o sobrenome tem origem bárbara, porque algumas vertentes dizem que vem de Eisenhardt, que seria gelo duro, outras versões dizem que vem de Eishardt, que seria coração de gelo.
Eron Falbo: [34:04] Olha, o fato de que você tem não só um sobrenome, vamos dizer, germânico-nórdico, e uma flor-de-lis, é claro que sua família é uma das primeiras realmente a entrar no sistema nobiliárquico franco. Por quê? Porque poucas famílias preservaram nomes germânicos. E aquelas que preservaram não entraram com a flor-de-lis. É um dos primeiros símbolos da nobreza franca. Então, assim, isso pra mim... eu estudei um pouco de heráldica, não o suficiente pra te dizer qual é o significado da flor-de-lis de cabeça para baixo. É de cabeça para baixo que você falou?
Guilherme Isnard: [34:58] É.
Eron Falbo: [34:59] Mas isso é muito interessante, o seu nome é claramente...
Guilherme Isnard: [35:05] Depois eu te mando uma foto da Chevalier do meu bisavô, que passou para o meu avô, que passou para o meu pai e hoje ele está comigo. Está destruído, por isso eu não uso, eu não quero reformar, porque é uma coisa de família, mas uma hora vou fazer a minha.
Eron Falbo: [35:26] É tão bonito essa coisa que a França, apesar de ter tido a Revolução Francesa e ser uma república, infelizmente, hoje...
Guilherme Isnard: [35:38] Em dia... Decapitaram vários títulos.
Eron Falbo: [35:41] Ah, essa? Pô, que honra! Que honra estar dentro de uma das...
Guilherme Isnard: [35:45] Pessoas. E aí, alguns deles, quer dizer, esses da loja Isnard, porque tem alguns Isnard no Brasil, eu tenho vários primos. E alguns vieram, os Isnard que faziam selaria, coches, eles vieram com o Dom João VI, fugindo de Napoleão. Então, tem...
Eron Falbo: [36:06] Deixaram eles haver navios.
Guilherme Isnard: [36:08] Então tem Isnard aqui que vem desde o descobrimento. O meu pai veio no pós-guerra. E Isnard são grandes fabricantes de órgão. Tem igrejas, catedrais do Midi que têm órgãos Isnard operantes até hoje, da Idade Média. É uma família interessante, de perfumistas, de fabricantes de órgão. É bacana, eu curto.
Eron Falbo: [36:39] Guilherme, antes da gente botar todo mundo pra dormir, porque eu tenho certeza que só eu e você se interessa por esse tipo de coisa, vamos conversar. Quando você vier jantar aqui em casa, a gente fica até de madrugada falando sobre os detalhes da família. Vamos tentar ver, porque tem realmente muita pergunta.
Guilherme Isnard: [36:59] Ah, eu quero responder todas.
Eron Falbo: [37:02] Não, é impossível, mas vamos tentar algumas aqui. Deixa eu ver aqui qual que é uma interessante. Também tem algumas aqui que... Uma coisa que vale a pena mencionar: tem muitas aqui, gente, que o Guilherme já respondeu no YouTube. Eu recomendo o site www.youtube.com. Lá você pode encontrar várias entrevistas com o Guilherme, barra Banda Zero também. Isso é um ótimo momento aí. Fala os seus links enquanto eu escolho uma pergunta. Fala onde encontrar suas coisas e tudo.
Guilherme Isnard: [37:38] Então eu vou precisar do seguinte. É importante, hoje em dia, nesse mundo virtual, que o artista tenha relevância. Para você ver, o Zero tem lá 4 mil e poucos seguidores. Eu preciso de 10 mil para poder fazer como o Eron, que ele empurra para cima no Story. Então eu peço encarecidamente que vocês sigam lá Guilherme Isnard Zero, porque isso dá para a gente ferramentas de interação. A mesma coisa no YouTube: quando você segue o canal, você facilita a vida do artista. E como hoje em dia tudo é digital, é chato... Eu nunca fiquei pedindo: 'ah, me segue', 'ah, me curte', 'ah, clica no sininho'. Mas hoje é preciso, infelizmente. Então eu conto com vocês: Banda Zero, youtube.com barra Banda Zero, e no Instagram, Guilherme Isnard Zero. Se vocês puderem, essa sua audiência maravilhosa, se puder me dar uma colher de chá também, eu vou ficar felizão.
Eron Falbo: [38:45] É, eu costumo trabalhar mais com chicote do que com a cenoura, entendeu? Eu falo: galera, se vocês não forem curtir o Banda Zero, vocês podem me descurtir. Parem de me ouvir agora, entendeu? Eu não preciso de vocês.
Guilherme Isnard: [39:01] No nosso jantar, você vai me ensinar essa técnica.
Eron Falbo: [39:05] Eu tô brincando, o que é isso? Eu não sei quem sou eu. Por favor, não me discriminem.
Guilherme Isnard: [39:10] Qual a importância da língua portuguesa na minha música?
Eron Falbo: [39:13] Qual a importância da língua em português na sua música? Essa foi a pergunta.
Guilherme Isnard: [39:17] Eu costumo dizer o seguinte: que o Zero faz rock brasileiro, e o rock é um ritmo anglo-saxão. Mas por que a gente faz rock brasileiro? Porque o italiano faz rock em inglês, o japonês faz rock em inglês, o francês faz rock em inglês. Talvez o argentino faça rock em espanhol, o espanhol faz rock em espanhol, e o Brasil encontrou um jeito de fazer rock em português. E o Portugal também. E por que eu vou falar que isso é especial? Porque a língua portuguesa é uma língua paroxítona. É muito fácil você fazer rock and roll dentro da métrica e do ritmo quando você rima na última sílaba. Quando você rima na penúltima sílaba, brasileiro, já complica. E eu tenho orgulho de fazer parte de uma geração de compositores que conseguiu encontrar um caminho poético em língua portuguesa para o rock and roll. Cazuza, Renato Russo, que, no meu aniversário, antes de morrer, me deu um disco do Leonard Cohen de presente de aniversário, que eu guardei com muito carinho.
Eron Falbo: [40:33] Qual? Você lembra?
Guilherme Isnard: [40:34] Of a Lady's Man, como é que era? Lady's Man, eu não lembro direito.
Eron Falbo: [40:39] Ballad of a Lady's Man é a música, né? Talvez esteja no Old Skin for a New Testament, alguma coisa assim.
Guilherme Isnard: [40:48] Não, não é esse. Peraí, já, já eu vou lembrar, desculpa. É menos que o arquivo...
Eron Falbo: [40:52] Não, que isso, por acaso, pô, não tem que lembrar o nome do disco, desculpa.
Guilherme Isnard: [40:56] Mas tem uma música que eu adoro, que ele fala: 'Ô meu amor, você tá reclamando que eu falei, que você disse que eu tenho meus olhos tristes, mas eu vou te dizer que a sua beleza também já não é a mesma', alguma coisa assim. Mas, enfim, é a conquista de... Conseguir botar tanto conteúdo filosófico, existencial, político dentro do rock brasileiro dos anos 1980 foi um esforço hercúleo. E quando a gente viu a geração dos anos 1990 vir cantando em inglês, mesmo que a gente tenha achado bacana que bandas como Sepultura e outras quisessem e conseguissem alcançar uma repercussão internacional, a gente ficou, de certa maneira, magoado.
Eron Falbo: [41:54] Decepcionado, porque estava tendo uma evolução, estava tendo uma construção ali do rock brasileiro.
Guilherme Isnard: [42:00] Isso, exatamente. E não foi fácil, porque, pô, é uma tarefa difícil. Eu, por exemplo, agora... Onde eu estava?
Eron Falbo: [42:08] Porque isso não continuou, não vejo grandes poetas. Quer dizer, na verdade, até vejo, mas não vejo que se desenvolveram, que entraram, que desenvolveram carreiras.
Guilherme Isnard: [42:19] É porque, para você poetizar, se não existe esse verbo, eu criei agora, para você poetizar numa língua que não é a sua natal, você precisa ter um conhecimento profundo de gramática, de semiótica, de léxico, de etimologia, porque você precisa... Não é só a palavra, é a conotação, é a denotação, são muitas ferramentas que você precisa dominar para escrever poesia em uma língua que não é a sua nativa. Porque você tem que criar imagens, e para você criar imagens fica complicado. Estou te dizendo isso porque ultimamente me arrisquei a fazer versões. Meu amigo Edu Falaschi resolveu me premiar com o amor dele por uma das minhas canções, uma das canções do Zero, que é Quimeras, e falou que pretende gravá-la e tal. Então, como ele tem um público maravilhoso internacional, eu me arvorei a transcrever Quimeras para o inglês. Pô, meu, é uma parada muito difícil você manter o sentido da letra dentro daquela métrica. É muito suor. E também fiz uma versão de 'Quando Esse Mal Passar' para o inglês. É muito suor. Talvez por isso a parada não tenha vingado. Mas, de qualquer maneira, as conquistas do rock dos anos 1980, a gente inverteu o paradigma radiofônico. A gente mudou de 80% de dominação de música estrangeira contra 20% de música nacional para 80% de dominação de música nacional. Tudo bem que era rock, mas esses 80% poderiam ser fatiados por todos os gêneros que iam continuar bacanas. Infelizmente, não é isso que a gente vê hoje. Perdemos terreno.
Eron Falbo: [44:30] É verdade, infelizmente, essa é uma verdade. Mas voltando ao assunto da língua portuguesa e a questão do que eu falei no início, que você é um bardo, acho que tem uma coisa que você vai poder dissertar sobre, que é a conexão da poesia com a melodia, com a música. Você, numa entrevista, falou da importância da sonoridade, de sotaques, você consegue identificar... Mesmo que você não consiga identificar a cidade, você consegue identificar essa pessoa do Nordeste, você consegue até identificar essa pessoa de um lugar praiano ou não. Eu sei que você pensa muito sobre isso, então eu queria ouvir a sua sabedoria sobre esse assunto.
Guilherme Isnard: [45:17] Sabedoria não, é só observação, experiência, vivência. Na verdade, cada palavra tem a sua própria música e seu próprio ritmo. O ritmo é ditado pelas sílabas, a melodia é ditada pela tonicidade, pela acentuação. Então, compor para mim é sempre um pouco jogar as palavras e ver como elas se encadeiam. E, às vezes, eu troco uma palavra pela outra, mesmo que sacrifique determinado sentido, em benefício da melodia. Fernando Pessoa fala uma coisa que é lapidar, que a canção, a letra de música, é a poesia ajudada. E de fato é, e eu nunca me considerei poeta e nunca me considerei cantor, por isso eu me julgava um bardo, porque eu achava que era um cara que era porta-voz das minhas ideias.
Eron Falbo: [46:18] E justo os rapsódios, os bardos antigos da Grécia Antiga... Era uma questão religiosa, não era, como a gente vê hoje, uma coisa secular, funcional. Era um transe em que se entrava para poder... Inclusive, Homero começa falando: ó, Musas. Começa a Ilíada, a Odisseia, falando: ó, Musas. E outra coisa que acho que é muito legal de botar nessa conversa é que, relativamente recentemente, nos pelo menos 30 mil anos de história humana que a gente tem, a gente começou a ler poesia sem musicar, porque até os rapsódios, até os bardos medievais, não existia poesia sem música, sem melodia e tudo mais. Eu atribuo o fato de que a gente inventou a escrita, que é uma loucura, que é, vamos dizer, a pior invenção desde o Instagram, a escrita em si, mas antigamente a poesia não era divorciada da melodia, né? E hoje em dia as pessoas têm essa abstração mental bizarra de ler uma poesia, que eu, como um vampiro de mais de 10 mil anos, até hoje não consigo engolir essa ideia.
Guilherme Isnard: [48:01] Olha que louco! Eu li muito pouca poesia, eu li muita prosa. Alguns amigos me chamam de Visconde Sabugosa, porque eu não sofri bullying só no rock paulistano, sofri bullying também no ensino médio, porque com esse nome, Guillaume Achille Isnard, eu virei Guillaume Achille Fechecler de Catupiry, de maionese, sendo que Catupiry é Tupi, não é francês. Enfim, minha vida foi difícil na academia, e eu me refugiava nas bibliotecas, e lia por prateleiras. E, por exemplo, tenho dificuldade em compor poeticamente com essa visão abstrata da língua. Minhas canções todas contam histórias. Eu sou um proexista, sei lá, Henrique, agora Fernando. Mas as minhas canções são narrativas. Eu não consigo escrever, por exemplo, como o Djavan, entendeu? Zabelim, zumbindo, essas coisas, eu não consigo. Não está em mim.
Eron Falbo: [49:25] Poesia pura, né? Poesia pura.
Guilherme Isnard: [49:27] E nunca me considerei um poeta. Eu só fui me considerar um poeta no dia em que minha amiga atriz, Thalma de Freitas, me ligou e falou: poxa, Guilherme, que legal, eu faço parte de uma newsletter circular de poesia, e todo dia alguém manda uma poesia para a gente discutir. Hoje eu recebi a letra de uma música sua. Eu falei: opa, se alguém está me mandando letra minha num grupo de poesia, deve ser porque, de alguma maneira... Vitória! De alguma maneira, me tornei um poeta. Hoje em dia já me reconheço como poeta, já me reconheço como cantor, mas sempre através dos olhos dos outros. Eu nunca tive essa... E essa é a melhor ordem.
Eron Falbo: [50:14] Se você se reconhece antes do público, você está com algum problema muito sério que precisa corrigir antes de ter público. Porque é o público que te coroa. O rei que se coroa é um tirano. Então, o povo tem que te aclamar. Então, você é um poeta aclamado pelo povo e, por isso, você é um rei.
Guilherme Isnard: [50:39] Menos, menos!
Eron Falbo: [50:42] Eu estou dizendo, pô, você... A gente, infelizmente, acabou o nosso horário, porque a gente tem um compromisso com uma hora de live, de transmissão. É, exatamente. Então, eu só queria dizer, galera... Vamos fazer um beat. Vamos fazer, com certeza.
Guilherme Isnard: [51:01] A gente tem a sua, Terol.
Eron Falbo: [51:03] Eu pretendo fazer um best of, tipo assim, até fazer um painel, pegar a galera e jogar todo mundo no caldeirão, entendeu?
Guilherme Isnard: [51:11] Vê aqui que... Adorei o papo, adoraria ter respondido mais perguntas, fico triste de deixar tanta gente sem resposta, mas estou muito feliz de bater esse papo contigo. Você é um camarada muito simpático, atencioso, ligado, sintonizado, e essas são qualidades que, quando a gente encontra na juventude (eu vou arriscar aí que você não tem 30 anos), a gente fica feliz, porque...
Eron Falbo: [51:38] Eu tenho 35, mas ok.
Guilherme Isnard: [51:40] Não, mas está bem na foto.
Eron Falbo: [51:42] Obrigado.
Guilherme Isnard: [51:43] Aí eu vou te dizer que quando a gente encontra isso na juventude, a gente esquece, porque a gente vive hoje um gap geracional que nunca houve. Até hoje, os filhos ouviam as músicas que os pais ouviam, conheciam a arte e a cultura que os pais escutavam. Hoje em dia, é completamente dissociado. Hoje em dia, essa facilidade de internet, você vai dar um esporro no seu filho e ele fala: "não, não, não, eu fui no Google, vi que não é nada disso, você está errado." E aí, por conta disso, hoje em dia nunca houve uma distância tão grande. Quando vejo um cara jovem como você tão ligado em tantas coisas tão importantes e primordiais para a cultura e até mesmo para um ser humano, eu fico feliz pra caramba. Pode me chamar quando você quiser. Vou estar sempre à disposição de bater esse papo contigo. E vamos nos encontrar fora disso para fazer aquele chapéu que eu vou curtir também.
Eron Falbo: [52:43] Guilherme, você foi um achado na minha vida. Graças a Deus, a gente está junto.
Guilherme Isnard: [52:48] Vamos agradecer ao Maurício Branco, que fez esse link.
Eron Falbo: [52:50] Vamos agradecer. Vou até botar um coração branco aqui no chat.
Guilherme Isnard: [52:56] Você é um cara sensacional, meu chapa, que eu conheço desde menino, porque eu sou amigo das irmãs mais velhas dele. Mas ele é um puta cara bacana. Adoro sair com ele. É um cara pra cima, sempre astral. E eu agradeço muito você ter me apresentado, Eron. Grande cara. Valeu, Maurício.
Eron Falbo: [53:20] Maurício, eu não achei um coração branco, eu pus uma bola.
Guilherme Isnard: [53:24] Levantou a bola do Maurício.
Eron Falbo: [53:29] Então, gente, muito obrigado, Guilherme. Sinceramente, você é um cara incrível mesmo, incrível mesmo. Você falou que o nosso tempo acabou, mas graças a Deus, esse segundo é do tamanho do mundo e cabe tudo o que quiser. Gente, boa noite, ouçam a música Quando Esse Mal Passar, do Guilherme Isnard. Todas as plataformas! Um beijo pra todo mundo, boa noite! Boa noite, obrigado!
Guilherme Isnard: [53:59] Obrigado, Eron!
Eron Falbo: [54:00] Valeu, beijão!
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