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#44 Sendo outros alguéns

com Kyara Jacob · 6 de jan de 2021

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Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Abertura e apresentação de Chiara Jacob (0:00)

Eron Falbo: [0:00] Alô, alô, pessoal. Boa noite. A gente vai começar a live com a Kyara Jacob. Kyara Jacob é uma atriz, produtora e diretora de cinema que estudou em Los Angeles. Ela é produtora executiva da Boa Ideia Entretenimento e cofundadora do Parto em Cena, companhia de artes cênicas. Tá certo? Tá aí?

Kyara Jacob: [0:20] Sim. O Parto em Cena, infelizmente, a gente não continuou os trabalhos, mas eu tive o prazer de estudar e trabalhar com pessoas incríveis nesse game.

Eron Falbo: [0:35] Bom, que bom. Bom saber, para atualizar o pessoal. Então, foi o Rones que apresentou a gente e imediatamente a gente conversou bastante. Você tem muito conteúdo e tem um carisma maravilhoso. Pessoa muito querida. Deu para ver até pelos comentários que foram postados na sua chamada, talvez uma das chamadas com mais comentários assim, de coração, vamos dizer.

Kyara Jacob: [1:07] Então, obrigada, queria te agradecer pelo convite. Eu nunca fiz uma live, então tenham paciência comigo. Não sei como funciona, sei que às vezes dá uns probleminhas, mas eu fico muito feliz. Eu vi também vários comentários, fiquei muito feliz, muito ansiosa também para esse papo. Tem muita gente que sempre fala: nossa, devia fazer uma live, falar um pouco da sua história, mas eu acabo sempre deixando para depois.

Eron Falbo: [1:38] É, então, você pode ficar tranquila que, assim, eu não assisto lives, então não sei como são as outras, mas essa aqui é bem tranquila, é um papo que nem a gente num restaurante, num bar, qualquer coisa assim, entre amigos, porque a gente tá aqui com outras pessoas assistindo, a gente faz interação com os amigos também. Então, se o pessoal quiser perguntar alguma coisa para a Kyara, é só colocar na caixinha aí, porque tem muita gente, então, se colocar no chat, não dá para ver. Mesmo comentários ou perguntas, por favor, coloquem na caixinha aí embaixo.

Kyara Jacob: [2:18] Deixa eu arrumar aqui, que eu tô sem tripé.

Eron Falbo: [2:23] Ah, tudo bem, tudo bem, fica calma. Bom, eu falei, fizeram uma pergunta indiscreta aí para você agora, mas se quiser perguntar, põe na caixinha que talvez eu pergunte. Então, aí o nosso objetivo aqui é relaxar, entendeu? Tipo, vamos ter uma conversa light. Mas só para inaugurar, vamos dizer, para o pessoal te conhecer um pouco melhor: você é atriz, produtora e diretora. Como que é essa coisa? O que você faz mais? O que você gosta mais? Como você se identifica mais?

De atriz a produtora por acaso (2:45)

Kyara Jacob: [3:02] Olha, eu sou formada como atriz, minha base é o teatro. Eu me formei em Los Angeles, pela Stella Adler Academy, e eu sempre quis ser atriz desde nova. Então, assim, sempre foi meu sonho, sempre foi meu foco. Mas, quando eu voltei para o Brasil, eu acabei entrando na produção meio que sem querer. Eu sou filha de produtora, minha mãe é produtora cultural. Vamos dizer, assim, que eu tenho um flair, né? Sempre tive uma facilidade com produção por ser filha dela. Assim, eu praticamente nasci no palco: ela estava fazendo o show, acho que era do Almir Sater, se não me engano, e aí estourou a bolsa, ou ela começou a ter contrações, e ela foi para o hospital. Então, assim, eu sempre tive essa coisa de produção. Sempre gostei de produção. Sempre gostei de resolver problema. Hoje em dia, não sei mais se realmente eu faço disso, mas eu sempre...

Bastidores e desafios da produção (3:56)

Eron Falbo: [4:03] Tive... Produção é muita dor de cabeça, né?

Kyara Jacob: [4:06] Muita, muita dor de cabeça.

Eron Falbo: [4:08] E ainda mais com a performática, né? Porque você pode ter mil coisas dando errado e você tem que continuar lá, né? The show must go on, né? Tem que continuar fazendo... E não tem.

Kyara Jacob: [4:21] Como você controla, né? Porque são pessoas, são equipamentos, são várias questões que podem...

Eron Falbo: [4:29] Especialmente as pessoas.

Kyara Jacob: [4:31] Mas tem que ter um equilíbrio, um raciocínio rápido. Eu puxei muito isso da minha mãe mesmo, vendo ela, porque mulher... eu sou de Cuiabá, Mato Grosso, então, naquela época, ela teve que se provar muito para as pessoas, e eu assisti isso muito novinha. Então, eu sempre tive isso. E aí, quando eu voltei ao Brasil, eu fundei o Parto em Cena, que era uma companhia de pesquisa e companhia cênica de atores, com o Alexandre Brito, que é um superdiretor, preparador de elenco aqui do Rio de Janeiro. E, na época, um amigo dele, um diretor brasileiro, mas que morava na França há muitos anos, veio fazer um longa, o Marcio da Rocha, e a gente foi fazer... Todo esse grupo que fazia pesquisa cênica, a gente foi fazer testes para esse filme. E aí eles tiveram um probleminha lá, e eu já fui toda intrometida, falei: cara, quer uma ajuda? Eu sei que eu saí aquele dia do ensaio com o diretor de fotografia, um francês, sobre a minha casa, que eles não tinham onde ficar, e ele...

Eron Falbo: [5:41] Ficou doendo, e esse é o trabalho de produtora, né? Tipo, o produtor tem que resolver...

Kyara Jacob: [5:47] Exatamente.

Eron Falbo: [5:48] Tem que ser babá, tem que ser psicóloga, tem que ser motorista...

Kyara Jacob: [5:53] É o purinho, é o verdadeiro purinho que tem que fazer de tudo. E aí foi assim que começou, eu acabei ajudando... Depois desse trabalho, eu acabei sendo indicada pela própria equipe para outros projetos. E eu tive muita sorte que eu encontrei pessoas incríveis no meu caminho que foram me ensinando. Eu estou há pouco tempo na produção. Na verdade, eu estou na produção desde 2016.

Eron Falbo: [6:18] E o ramo de produção é muito, vamos dizer, fechado no sentido de que é quem conhece quem, não é uma coisa que você tem... Claro, você pode ter currículo, pode até ter, mas, no geral, você trabalha com pessoas que você sempre trabalhou e cria essa confiança dentro da indústria.

Kyara Jacob: [6:40] Sim, mas também tem a questão dos projetos. Na realidade, você não precisa ser contratado para ser um produtor, você pode se produzir. Eu acho isso muito importante hoje em dia, principalmente para atores. Uma das coisas que me fez também focar na produção foi que eu teria a possibilidade de me produzir, porque realmente existe... Hoje em dia eu nem falo mais, nem gosto de falar assim, tem a panelinha, que chato. Eu entendo hoje em dia, porque assim...

Eron Falbo: [7:11] É, positivo também. E também, quando você tá produzindo alguma coisa, você tem que aprender. Tipo assim, é toda uma química, né? Que você desenvolve com várias pessoas. É tipo uma constelação de pessoas que tá ali, tá fixa e tá funcionando, né? Você tira uma coisa e embola tudo, né? Você vai explicar pra uma nova pessoa como é que funciona. Vai explicar que, pô, certos atores têm certos problemas mentais. Então, eles têm que falar com eles de uma certa maneira, né?

Kyara Jacob: [7:40] Exatamente. É como se fosse uma banda, né? Uma banda precisa estar muito bem sintonizada para poder tocar uma música. O set de filmagem é exatamente igual. Se a luz não estiver alinhada com a câmera e o áudio, vai dar algum problema. Então, assim, eu entendo essa questão das pessoas gostarem de trabalhar sempre com a mesma equipe, porque já tem essa confiança, exatamente. Não tem tempo. É muito delicado e é muito estressante um set de filmagem, porque tem toda uma questão de iluminação, de tempo. Quando você paga um set de filmagem para tentar resolver alguma coisa, você perde muito dinheiro. E fazer cinema no Brasil é muito caro, então não tem como. Você tem que ir bem preparado. Eu acho que é isso, essa questão da panelinha. Mas é o que a gente estava falando. Então, acabei indo para esse lado, porque eu acho que todo mundo precisa se produzir hoje em dia, sabe? Não existe mais essa, só os grandes produtores. Hoje em dia, a gente tem recursos e possibilidades de estar produzindo os próprios projetos. Eu acho que isso é muito legal e muito importante, até para a gente ter outros tipos de conteúdo.

Eron Falbo: [9:00] Claro, só porque eu tô um pouco com sede. Você tá com o seu drink aí pra gente brindar e começar? O que você tá bebendo aí?

Pausa para brinde com coquetéis (9:03)

Kyara Jacob: [9:10] Gintônica.

Eron Falbo: [9:11] A gente combinou que a gente ia fazer coquetéis, aí eu me dediquei. Eu tô prometendo pro meu amigo Marco Della Roche, que foi entrevistada aqui no nosso programa também, que eu ia fazer, começar a ser um mixologista amador em casa. Aí eu tomei essa oportunidade pra fazer alguma coisa um pouco mais elaborada.

Kyara Jacob: [9:35] Tchim, tchim. Esse é um ótimo hábito, né, de hobby. Aliás, hábito não é um bom hábito, não. Mas é um bom hobby. Pra fazer drinks, eu gosto. Eu gosto de fazer alquimia ali. Tem um pézinho na cachaça.

Eron Falbo: [9:54] E diz uma coisa, eu sei que você estudou na Stella Adler School, a Stella Adler é a segunda, vamos dizer, a maior, vamos dizer, fundadora, inventora do method acting, né? Depois do Lee Strasberg, né? Que veio, vamos dizer, cronologicamente veio depois dele, mas que é considerada que o method acting não ia ser o method acting sem ela.

Method acting: Strasberg e Stella Adler (9:57)

Kyara Jacob: [10:23] Na verdade, desculpa, porque eu também estudei no Lee Strasberg. Na realidade, eu fui para Los Angeles com 17 anos para estudar no Lee Strasberg. Eu sempre fui apaixonada por cinema, principalmente cinema clássico, do meu pai, da minha avó. Então, eu sempre gostei muito de filmes clássicos. Sempre gostei muito de Doris Day, Marilyn Monroe e tal. Eu sempre amei Marilyn Monroe. Os filmes dela, enfim. E ela estudou com Lee Strasberg, né? Na realidade, Lee Strasberg foi uma grande figura na vida da Marilyn. Se eu não me engano, a família dele é quem tem os direitos dela, porque ela ainda não tinha família, então...

Eron Falbo: [11:06] Não é a Anna Freud? Porque a Anna Freud era a guru da Marilyn Monroe, que manipulava a família Freud. Você sabe dessa história? Eram os psicólogos da Marilyn Monroe. No final, a Marilyn Monroe se matou e foi um escândalo muito grande para a psicanálise. Mas isso é uma outra história. Conta a sua.

Kyara Jacob: [11:33] Na verdade, o que acontece... vamos lá. Tem muitas confusões sobre esse assunto. Na realidade, a gente precisa voltar lá em 1890, mais ou menos, com Stanislavski, que foi um teatrólogo, autor e diretor russo, que começou a questionar por que, na faculdade, todos os setores, todas as matérias tinham treinamento. Por exemplo, os atletas estão sempre treinando, eles não estão só na partida. Um jogador de futebol não vai, de repente, jogar futebol todos os dias. E todas as áreas da arte tinham treinamento, mas no teatro não existia esse hábito, não tinha um treinamento. Acreditava-se muito na inspiração, né? Ai, nossa, estou inspirada hoje, vai descer aqui o espírito da imaginação e vou atuar. Então ele começou a questionar muito isso, se juntou com várias pessoas, fez vários experimentos e criou um sistema que é conhecido como sistema Stanislavski. Inclusive, quem tem vontade de ser ator deve ler, a gente brinca que é a tríade dos livros dele: A Minha Vida na Arte, A Preparação do Ator e A Construção do Personagem. São livros excelentes. Inclusive, Chaplin fala que A Preparação do Ator é um livro que, meu Deus, todo mundo deveria ler, não somente quem está na arte, no teatro. É um livro realmente muito bom, vale a pena a leitura. E ele criou esse sistema baseado nas ações físicas, na imaginação, no espírito interior dos atores, e foi disseminando isso, fazendo vários e vários... e o...

Origem do sistema Stanislavski (11:59)

Eron Falbo: [13:39] O lance dele é que nem o Maurício... Eu já ia falar isso agora, o que o Maurício falou: é a memória emotiva, você vai ver, porque é uma coisa até que vai...

Kyara Jacob: [13:48] A memória emotiva. Entra no Strasberg, porque o que aconteceu: esse sistema começou a se espalhar... Olha.

Eron Falbo: [14:01] Lá que o Maurício é ator de Stanislavski, ator do método Stanislavski, o Maurício.

Kyara Jacob: [14:10] Ah, tá, legal. Então é porque essa coisa da memória emotiva ficou mais famosa com o Strasberg.

Eron Falbo: [14:20] O Strasberg.

Kyara Jacob: [14:23] A grande confusão é exatamente essa. O Stanislavski, ele sim, falou sobre isso no trabalho dele. E quando o pupilo dele foi para Nova York, deu um workshop para alguns jovens atores que criaram o Group Theatre, que depois veio a ser o que é hoje o Actors Studio, do qual faziam parte Elia Kazan, Cheryl Crawford... Enfim, uma turma que depois, cada um, veio a ter as suas próprias formas de atuação.

Eron Falbo: [14:53] O Paul Newman, o James Dean, essa galera estudava com o Strasberg.

Kyara Jacob: [14:57] Não, isso veio depois. O pupilo de Stanislavski deu um workshop para um grupo pequeno de pessoas. E o Strasberg, a Stella, todos...

Eron Falbo: [15:06] Não, o que eu estou dizendo é que o Elia Kazan, essa galera, também estudaram na escola do Strasberg.

Kyara Jacob: [15:11] Sim, sim.

Eron Falbo: [15:11] O Paul Newman, o James Dean, que depois foram fazer filmes juntos.

Kyara Jacob: [15:19] Porque depois que o pupilo foi e deu esse workshop, eles criaram o Group Theatre e começaram a fazer vários espetáculos, e muitos artistas da época começaram a buscar esse método. E assim, é até interessante que o Strasberg tinha lá o grupo dele, de alunos, mas eu acho que eram uns 30, 40 alunos. Mas eles tinham também a plateia, então as pessoas podiam ir assistir. E a Marilyn Monroe criou muitos alvoroços, porque ela ia disfarçada assistir às aulas do Strasberg, e é por isso que o método ficou tão famoso, ficou assim uma...

Eron Falbo: [16:00] Então vamos tentar entrar, porque, vamos dizer, se a gente quiser saber sobre method acting, tem vários vídeos no YouTube e tal. Vamos tentar: eu quero saber a sua perspectiva do que você viveu, por exemplo, por que você escolheu method acting, por que você acha que é relevante hoje em dia, entendeu? Porque, sinceramente, da minha parte, eu acho que nenhum dos meus atores favoritos não é Method Actor... Todos os atores que eu gosto, assim, tipo Daniel Day-Lewis, Robert De Niro, James Dean, Paul Newman, que é talvez o meu favorito, entre Paul Newman e Daniel Day-Lewis, cara, essa galera do Method Acting é ferrenha, né? Então eu quero saber: por que você pessoalmente se apaixonou por isso? E qual a relevância disso no mundo de hoje, no Brasil? O que você já viveu disso?

Kyara Jacob: [16:59] Olha, eu fui, sem saber... Eu fui pra lá com 17 anos pra estudar no Lee Strasberg, porque eu sabia que tinha essa ligação com o Pacino, com o Robert De Niro, que também são atores que eu adoro, com o Marlon Brando. Também muito apaixonada por Um Bonde Chamado Desejo, The Waterfront. Enfim, eu sempre gostei muito. Então, eu comecei a estudar.

Eron Falbo: [17:25] I could have been somebody.

Kyara Jacob: [17:26] Oi?

Eron Falbo: [17:27] I could have been somebody. É, mas eu não tinha noção do...

Kyara Jacob: [17:31] Que era o método. E assim, por isso que existem muitas concepções e muita confusão em cima do método, porque criou muito mito em cima disso, entendeu? E o que aconteceu: na minha vivência, eu fui pra lá porque eu entendia que era um método de atuação consagrado, que todos, é o que você falou, todos os meus principais atores tinham estudado. E eu fui. Existem dois tipos de programa lá: um que você faz a partir dos 18 anos, que é o conservatório mesmo, e tem um para os teens, que seria para os adolescentes. E eu cheguei com 17, eu deveria ter começado com os adolescentes, mas eu já fui direto para o palco. E isso é muito delicado, porque aí que vem a questão da memória emotiva. O Strasberg era o diretor artístico do Actors Studio, e ele começou a fazer várias experiências e adaptações no sistema. Por isso que virou o método, que daí foi o método dele. Inclusive, tem algumas coisas que ele mudou. É muito parecido com o sistema, mas tem algumas coisas que foram criações dele. Por exemplo, o relaxamento: as nossas aulas, qualquer aula que a gente fosse ter, tinha um mínimo de quatro horas de duração. As duas primeiras horas eram somente para relaxamento e exercícios de imaginação. Só depois disso que a gente ia fazer estudo de cena, ensaio e tudo mais.

Exercícios de relaxamento e memória sensorial (19:04)

Eron Falbo: [19:10] E como é que eram esses exercícios de imaginação? Dá um exemplo de como, na prática, funcionava. Tinha coisas tipo aspectos de meditação, esse tipo de coisa?

Kyara Jacob: [19:23] Tem, tem. Eu acho que teatro, em geral, é muito terapêutico. Um professor meu falava: teatro não é terapia, mas é terapêutico. Então tem que ter um certo cuidado. Nos exercícios de relaxamento, você deve pegar uma cadeira que não seja confortável, de preferência aquelas cadeiras sem... Gente, eu tô balançando aqui porque eu tô sem tripé. John, você ainda está na outra sala? Eu sei que você tá assistindo, se puder me traz um tripé, por favor, meu querido, amado, obrigada. Então, aquelas cadeiras de festa, gente, que sai, sabe, essas de ferro. Tinha aquelas cadeiras de pés.

Eron Falbo: [20:08] Maravilha.

Kyara Jacob: [20:09] Bem ruim de se sentar. Você senta na ponta dela de uma forma...

Eron Falbo: [20:15] Aquelas de bar, está falando?

Kyara Jacob: [20:18] É, de bar.

Eron Falbo: [20:19] Aquelas de boteco, aquelas da escola. Aquelas que abrem.

Kyara Jacob: [20:23] Isso, exatamente.

Eron Falbo: [20:25] A gente sabe aqui no Brasil.

Kyara Jacob: [20:27] Você senta na ponta dessa cadeira de uma forma não confortável, e aí é uma forma de isometria, você vai... Olá, viu? Ele está assistindo. Você fez uma gambiarra aqui para mim, gente. Cinema é assim, a gente trabalha improvisado. Eita!

Eron Falbo: [20:52] Cinema é independente, a gente está fazendo aqui cinema independente.

Kyara Jacob: [20:55] Mas até o cinema não é independente, vou te falar. Galera de cinema se vira bem em qualquer coisa.

Eron Falbo: [21:03] Com certeza, com certeza.

Kyara Jacob: [21:06] Então assim, esse relaxamento é uma forma de isometria. O que é isometria? A ideia é você isolar o seu pensamento e os movimentos para uma parte do seu corpo. Então, você começa com os dedos. Você começa com o dedinho, você vai para o outro dedo, aí você vai na mão, aí você vai... Demora pra...

Eron Falbo: [21:34] Você ganhar consciência, né? Cê vai ganhar a consciência da tensão do corpo.

Kyara Jacob: [21:40] Desculpa, o quê? Coitona.

Eron Falbo: [21:42] Cê vai ganhar a consciência da tensão do corpo, tipo assim, seu dedinho mindinho, às vezes cê não tinha noção de que ele tava tenso, mas se cê focar lá, cê vai ver, pô, ele tá tenso, e só de você jogar a luz naquele lugar, ele se acalma, né? Perfeito.

Kyara Jacob: [22:00] Exatamente isso. Esse é o conceito. E é uma forma de meditação, né? Você tá quase que num mantra, só que de uma forma diferente: você não tá só respirando, você tá se movimentando. E aí também entra a parte da memória, que foi o que você tava falando, que é da memória... Na verdade, são duas coisas que tem no método, que é a memória afetiva e a memória sensorial, né? Ele acredita que nós temos memórias, os nossos músculos têm memória. Então, qualquer coisa que já aconteceu na sua vida está armazenada no seu corpo. Se você está dirigindo no trânsito, alguém te fechou, você ficou nervoso, e aquilo já está no seu corpo, por anos. Então, a ideia do relaxamento é você liberar essas tensões e... Para você não.

Eron Falbo: [22:57] Formar, para você poder ter controle, né? Para não te atacar, tipo assim: uma memória que você não tá querendo, você tá atuando, aí você quer fazer uma atuação de alguém que é muito forte, só que aí você tem aquela memória corporal, como é que você falou? Memória de quê? Lembra? Olha só, aí eu vou te dar um tique de pessoa fraca. Você está fazendo um papel de uma pessoa forte e um tique de uma pessoa fraca no meio da cena. Se você tiver mais relaxado, de repente você consegue ter, que nem o Viktor Frankl. Viktor Frankl é um psicólogo que fala que é bom você ter uma janela maior de resposta, que é aí que você controla, que você tem mais livre-arbítrio, né? Entre o estímulo e a resposta, né? Tipo assim, você como ator tem que controlar as suas ações, né? Essa é a resposta, e o estímulo é a contracena, né? Alguém tá contracenando com você, gritou com você, aí você tem que ter esse controle pra poder dar a resposta correta, né? O personagem, você tem que entregar o personagem, e não os seus problemas, né? E não a sua outra persona, né?

Kyara Jacob: [24:13] Sim. E toda essa preparação, doutor, todo esse relaxamento depois dos exercícios de imaginação, é exatamente pra você aprender a acessar as ferramentas que você precisa. Mas o relaxamento vem muito pra você liberar todas as tensões do seu corpo, pra você estar realmente livre pra deixar o personagem fluir. Depois do relaxamento tem a memória emotiva e a sensorial. Na verdade, eu até falei errado, são duas coisas diferentes. A emotiva é que ele acreditava muito que os seus traumas pessoais eram muito bons para os seus personagens. Então, a gente fazia muito exercício de imaginação e de regressão. Isso, inclusive, eu nunca falei nem pra minha família, mas é um fato interessante que aconteceu comigo. A gente tinha uma professora que era psicóloga também, então ela conduzia exercícios um pouco mais profundos. E a questão do método, que existe muita confusão sobre isso, é porque se criou quase que um status de celebridade para o Strasberg. Quase...

Atores que se perderam no papel (24:45)

Eron Falbo: [25:34] Ele é como se fosse um deus do teatro, não é?

Kyara Jacob: [25:39] É. E como criou tudo isso, então começou... Muita gente ia procurar, mas as pessoas começavam o conservatório e paravam no meio. E, realmente, se você não tiver um acompanhamento, que tem exercícios que você não é indicado para fazer sozinho, você pode ter alguma...

Eron Falbo: [25:59] Você pode se suicidar, que nem o Heath Ledger, que nem a Marilyn Monroe, né?

Kyara Jacob: [26:03] Exatamente. O Heath Ledger, na verdade, o que se fala é que ele enlouqueceu. O próprio Jack Nixon deu uma entrevista falando que o alertou pra ele não entrar...

Eron Falbo: [26:18] No Coringa?

Kyara Jacob: [26:19] Oi?

Eron Falbo: [26:20] No papel do Coringa ou em outro papel?

Kyara Jacob: [26:22] No papel do Coringa, que o Jack Nixon fez o Coringa.

Eron Falbo: [26:25] Que foi muito intenso aquele, foi muito intenso. Só pra galera acompanhar, entendeu? Tipo, o method acting é uma parada que antigamente era muito mais popular, né? Hoje em dia ainda é popular, mas tem um monte de outras coisas, né? Só que o Heath Ledger, que é, que fez o Coringa do Christopher Nolan, né? Do diretor Christopher Nolan, que é do Batman Begins, né? E ele fez o Coringa no The Dark Knight, The Dark Knight Rises, né? Alguma coisa assim.

Kyara Jacob: [26:58] Peraí que eu tô na sala de edição aqui, eu não sei como apagar isso.

Eron Falbo: [27:02] Então, só pra terminar, qual é a relevância do... Porque esse papel do Coringa... Tudo bem que o Joaquin Phoenix, no papel do Coringa moderno, que também é o Matthew Hector, o Joaquin Phoenix, então acho que os dois são muito bons exemplos de hoje em dia para a pessoa comum que assiste cinema no mundo moderno. Matthew Hector é o Coringa, você nunca viu, o próprio Jared Leto, que também fez o Coringa naquele outro filme que eu esqueci, Suicide Squad, eu acho que é o nome. Suicide Squad, sim. Ele fez Coringa também. Então, os três Coringas modernos, que foram tidos como grandes, intensas atuações, performances de entrega, de beirando a loucura, eram três grandes method actors. Três exemplos de method actors, só para a galera se sintonizar.

Kyara Jacob: [28:13] É uma forma de atuação. Existem muitas formas de atuação hoje em dia. E o método acting, na verdade, o método acting vem derivado do Stanislavski, que foi a altura de como era a atuação antigamente. Porque antigamente era tudo muito lúdico, muito dramático, e o sistema Stanislavski trouxe a naturalidade. E é muito interessante também isso, Quando eles começaram a fazer experimentos com esse sistema, essa nova proposta de atuação, eles percebiam que não funcionava muito bem nas peças de teatro da época. E aí eles começaram a explorar as peças de Tchaikovsky também, o último, o grande, um dos maiores autores de teatro da história. E eles começaram a ver que ali estava fazendo mais sentido E também a forma de abordar o texto também mudou muito. E realmente o método foi o que fez ficar mais famoso no mundo todo essa nova forma de atuação. E hoje em dia eu acho que não é tão falado, Stanislavski deixou muito claro que era para usar o sistema como uma forma de desenvolvimento do ator, uma forma de desenvolvimento da atuação. É uma ferramenta, mas você não deveria ficar escravo daquilo. Tanto que, a gente até falou isso no começo, a ruptura entre Strasberg e Stella Adler foi exatamente o entendimento e a interpretação do sistema Stanislavski. Porque muita gente, como muitos atores, começaram a ficar loucos, porque o Strasberg, ele usava a memória emotiva e sensorial, então fazia regressões, fazia vários exercícios que, se você não tivesse um acompanhamento de algum professor, de algum... Você... Poderia ter um... Eu esqueci a palavra, mas... Poderia ter um desequilíbrio, um surto emocional. E aí começou a ter muitos problemas, muitas denúncias, e aí a Stella Adler decidiu ir para Paris estudar com Stanislavs. A Stella Adler foi a única americana.

Eron Falbo: [30:44] Que estudou com Stanislavs.

Kyara Jacob: [30:47] O Liz Schwarzenegger nunca estudou com Stanislavski, ele estudou com o pupilo do Stanislavski.

Eron Falbo: [30:51] Cara, eu tô adorando que você claramente não é, assim, uma pessoa que não prestou atenção nas aulas, pelo contrário, dá pra ver que você não parou aí e fez muita pesquisa e sabe vários detalhes. E, assim, na verdade, a gente não tinha conversado sobre matter acting antes, né? Então, tipo, eu adoro matter acting e o... Tipo assim, eu tô encantado, pra usar a palavra que alguém aqui usou, que você sabe tanto de meterecting, sabe? Tipo, uma coisa é você estudar na escola celebra, né? Não, eu sei que você estuda, mas porra, sabe quantas pessoas que estudaram na escola era que eu já conversei que, entendeu? Eu sabia mais. Eu sou tipo... Eu sou um amador, né?

Escolhendo entre métodos de atuação (31:06)

Kyara Jacob: [31:37] É que existe uma rixinha. Lá era muito engraçado. Existe uma rixa de quem é...

Eron Falbo: [31:44] Eu ouvi os dois, então eu ouvia.

Kyara Jacob: [31:47] Muita coisa no Strasberg, muita coisa no Stella, e eu fiquei muito confusa.

Eron Falbo: [31:51] E no final você escolheu a Stella? Porque quando você fala, você fala da Stella Adler.

Kyara Jacob: [31:58] É porque foi onde eu finalizei. Eu fiz um ano de Strasberg, eram dois anos de conservatório, eu fiz um ano, e depois eu fui para a Stella Adler. Na realidade, eu fui para a Stella Adler porque um amigo meu, que é russo, que estudava comigo, ele tinha saído do Strasberg porque ele não aguentou o tranco, digamos assim, ele achava que era um método que não combinava com ele. Porque eu acho que é muito isso, a atuação. Para mim, não tem um melhor método. O Strasberg, a Stella Adler, eu acho que são ferramentas diferentes. Se eu for fazer um Coringa, talvez com o Strasberg, porque a gente já teve bastante exemplos aí que não deu muito certo. Mas se eu fosse fazer alguma coisa mais dramática, uma coisa mais visceral, uma coisa assim que tivesse essa necessidade de busca dentro de mim, eu usaria a Stella Adler.

Eron Falbo: [33:00] Eu tô chutando isso, vê se você acha que tem a ver. Tipo assim, eu vejo um Daniel Day-Lewis, por exemplo. Eu vejo que o Daniel Day-Lewis, na vida real, ele é um cara maduro. Ele é um cara que alcançou uma espécie de evolução espiritual. Dá pra ver nas entrevistas, dá pra ver na própria atuação dele. Enquanto o Heath Ledger, por exemplo, que Deus o tenha, mas dá pra ver que ele era muito mais entregue de uma maneira reckless. E isso eu acho que é o perigo. Você entrar numa correnteza de energia, que é um personagem como o Coringa, e você não ter maturidade para encarar aquela força, tipo o Super-Homem parando um trem, entendeu? Você vai ser atropelado por aquela correnteza e você vai ser levado. E aquilo vai te levar. Aí depois você volta para a sua vida normal, e você é o Coringa, sacou? Como é que você vai...

Kyara Jacob: [34:07] O Daniel Day-Lewis, na verdade, ele é o melhor exemplo de method actor. Se você for comparar ele com os atores, digamos assim, do nível dele, ele fez poucos filmes e todos muito maravilhosos.

Eron Falbo: [34:22] Fala um filme ruim do Daniel Day-Lewis.

Kyara Jacob: [34:24] Oi?

Eron Falbo: [34:25] Fala um filme ruim do Daniel Day-Lewis.

Kyara Jacob: [34:27] Não tem. Ele sempre foi o ápice. Por exemplo, quando ele fez Meu Pé Esquerdo, ele ficou os meses de preparação todo na cadeira de rodas. Ele fazia as pessoas darem comida pra ele. Ele viveu aquele personagem.

Eron Falbo: [34:41] Cara, incrível. Adoro ele. Adoro ele demais.

Kyara Jacob: [34:45] Ele ganhou o Oscar por esse filme.

Eron Falbo: [34:47] Mas posso perguntar uma coisa? Desculpa, porque a gente tem pouco tempo agora e eu não quero deixar o tempo passar sem perguntar isso. Eu vi numa entrevista você falando que você é boazinha, que você é uma pessoa super do bem, e que você gosta de fazer papéis de vilãs, porque não é quem você é. Naturalmente, você gosta de vivenciar esse outro lado, essa coisa de ter essa oportunidade de ser alguém que você não é. Primeiro assim, porque essa entrevista que eu vi é um pouco mais antiga, mas hoje em dia você pensa assim também, você continua gostando dessa exploração de outras personas, de coisas que você, com a sua consciência, não consegue acessar?

Papéis de vilã e lado sombrio (35:02)

Kyara Jacob: [35:42] Com certeza. A questão do vilão é que, gente, é muito legal ser vilão. Imagina, tipo assim, a ação... Eu sempre quis ser atriz de filme de ação. Quando assisti Tomb Raider com a Angelina Jolie, eu só me imaginava a diversão que eu ia ter fazendo aquelas cenas lá pra todo mundo. E depois, quando eu fui estudar teatro, eu achei muito interessante a forma que a gente precisa se despir de todos os nossos preconceitos. Assim, se você for fazer um serial killer, você não pode falar assim, caralho... Desculpa, Paulo, para uma esposa.

Eron Falbo: [36:22] Você pode falar caralho. Vou falar também: caralho, caralho, caralho. Aí eu ganhei.

Kyara Jacob: [36:25] Você não pode julgar e falar assim, nossa, essa pessoa é um monstro. O serial killer acha que ele tá perfeitamente maravilhoso, fazendo o certo, e é isso aí, a pessoa tem que mover. Então, você não pode chegar e falar assim, nossa, você tem que... É tão pouco perigoso, mas pensar como um serial killer e falar assim, nossa, por quê? Entendeu? Então, eu acho interessante a busca, até um pouco, um autoconhecimento, assim, até onde eu conseguiria me imaginar como eu agiria.

Eron Falbo: [36:54] Mas essa curiosidade mórbida, você não acha que vem assim, tipo assim, todo mundo reprime o criminoso interno, né? Todo mundo reprime o coringa interno e gosta de apresentar pro mundo a boazinha, a gente boa, etc. Será que a gente não tem esse desejo de viver? Porque eu não gosto de boate, não gosto de bar, não gosto de aglomeração, nem fora do Covid-19. Eu gosto de ficar em casa, lendo, jogando xadrez sozinho. Por mim, eu ia ser mais egocêntrico do que eu já apareço. Só que eu gosto de ir pra bar e tudo mais porque, tipo, tô me contradizendo, mas tô dizendo, eu gosto de entrar em contato com o caos, né? Porque eu acho que é saudável a gente não deixar debaixo do tapete o coringa interno, entendeu? A gente deixar ele brincar, às vezes, um pouquinho. Porque se não deixa ele brincar um pouquinho, aí a gente vira o Heath Ledger. Quando entra nele e fala, caraca, é isso que eu tava querendo, aí você se casa com aquele personagem. E você não precisa ser ator pra ter esse problema. Por isso que as pessoas têm problema com drogas, por isso que as pessoas têm problema com alcoolismo, com amor. Às vezes as pessoas são muito passionais e fazem crimes de paixão, entendeu? E coisa do tipo, porque naquela coisa que deu aquela vazão, aquela corrente de loucura, né? Por que que virou loucura? Porque aquela parada tava debaixo do tapete. O que você acha disso? Você acha que tem a ver? Eu tô falando alguma coisa certa? Com você mesmo e suas vilãs e coisas do tipo, se abre.

Kyara Jacob: [38:50] Eu acho que também. Onde há luz, há sombra: todo mundo tem um lado bom e um lado ruim. Eu sou boazinha, mas também nem tanto, também tenho o meu lado sombrio. Mas eu acho...

Eron Falbo: [39:06] Não parece, tá? Não parece a pessoa... Ah, eu tenho.

Kyara Jacob: [39:09] Não queria conhecer. Brincadeira. Mas, assim, eu acho que é muito interessante você sair um pouco de você, sabe? Você poder se permitir ter outra coisa. E você tá fazendo aquilo sem machucar, matar ou cometer algum crime. Eu acho que é o melhor dos mundos você poder extravasar todas as suas raivas, todas as suas angústias, entendeu? Eu gosto muito de pesquisar e construir personagens, assim, não só no método acting, mas em muitas outras formas de atuação, de métodos, não sei nem como falam, mas de formas de atuação. Você faz um diário, você cria uma história para o seu personagem. Ninguém vai saber, ninguém do público, mas quem faz brilhantemente isso é o... Ai, meu Deus, Michael Douglas. Ele escreve, acho que, 200 páginas, tipo, pira, assim, ele escreve um livro sobre a vida da pessoa. E eu sempre achei isso muito interessante. Então, meus personagens têm signo, têm, sabe? Isso daí, nessa parte, já vai um.

Construção de personagem e storytelling (40:15)

Eron Falbo: [40:24] Um pouco do... Você tá falando, tipo, tem que fazer um backstory, né? Porque a gente, no cinema, só vê as cenas do arco narrativo, né, do arco dramático, que é o que é interessante, o que capta a atenção do público. Isso é técnica de storytelling, né? Então, assim, no cinema, poucas pessoas param pra pensar nisso, mas a gente só tá vendo ali a história do herói, a gente tá vendo ali os sete plots que existem no mundo, só que, pra pessoa poder, pro ator poder entrar em contato com aquele personagem, ele precisa saber mais do que aquilo, senão vira superficial, vira filme do Vin Diesel, né?

Kyara Jacob: [41:09] Com certeza, e até para o ator, ou, na verdade, para o personagem, fazer aquilo que ele está fazendo tem um motivo. A gente estuda muito isso, que existe um superobjetivo, geralmente é alguma coisa assim como ser amado, ser aceitado, ser validado, sabe? É um superobjetivo da vida da pessoa, que geralmente tem a ver com a criança. Então, tem todo um trabalho.

Eron Falbo: [41:39] Ah, entendi. E os atores, dá para ver que você estuda, ou talvez não, mas eu sinto que você estudou um pouco de psicologia, alguma coisa assim, para poder se basear, basear nessas teorias. Porque de onde você vai tirar como funciona a mente humana? Porque, tipo assim, Stanislavski estudou muito, e todos os grandes, Liszt, Weisner, Estelar, essa galera aí vinha de uma escola de estudar psicanálise, psicologia, neurociência. Você tem um pezinho nisso? Como é que é, esposa?

Kyara Jacob: [42:20] Eu acho que se eu não fosse para as artes... Eu amo a natureza humana, a psicologia, eu sempre gostei muito, sempre estudei muito. E eu acho que o teatro é um estudo da natureza humana, né? Você tá ali observando. Eu acho que teatro tinha que ser ensinado na escola, assim, não, tipo, ah, é extracurricular, não, tinha que ser ensinado, porque... Você pode perceber, qualquer criança que vai no psicólogo, que é meio tímida, a pessoa já tá lá, o psicólogo já coloca no teatro, porque vai se soltar, vai saber lidar melhor com as pessoas, falar, se relacionar com as pessoas. Mas eu acho que não é só isso, essa coisa de perder a timidez, mas você também aprender a não julgar, porque você precisa não julgar.

Eron Falbo: [43:03] É um amadurecimento de inteligência emocional.

Kyara Jacob: [43:08] Exatamente. E eu acho que o teatro é muito isso, é um estudo da natureza humana, do comportamento humano. Você precisa entender o porquê que aquela pessoa... Por que ela tá agindo dessa forma? Porque, assim, por exemplo, você vai falar eu te amo, você pode falar eu te amo em diversos tons, com raiva, com desenho, com... Entende? Então tem que ter alguma coerência ali: por que ela tá falando nesse tom? Então, assim, o ator tem esse trabalho de entender esse personagem, qual é esse superobjetivo da vida do personagem. E os miniobjetivos, que cada cena também tem um objetivo: eu quero te convencer de alguma coisa, esse é o meu objetivo na cena. Mas eu quero te convencer de alguma coisa na cena para me servir ao meu maior objetivo, que é ser validada, entendeu? Então, tem várias camadas...

Eron Falbo: [43:53] É, que é para poder servir o objetivo do arco narrativo. Porque, às vezes, eu vejo muito ator errando porque eles entram muito no que eles acham que é o personagem e esquecem do que o personagem precisa mostrar. Aí tem cenas irrelevantes, que no storytelling é matar a história, né? Tipo assim, eu estudo muito storytelling, e um dos melhores livros é Story, acho que é o Robert McKee, o nome do cara. Cara, esse aí ele fala: você tem que ter beats, a história tem que ter beats, e nenhum beat pode estar fora do arco narrativo, do arco dramático, não sei como é que fala em português. Porque, se tiver, aí aquela parada é... Eu não lembro agora quem diz, mas é tipo: arte não é... Uma obra não é... Uma obra terminada não é quando não tem mais nada que você pode adicionar, é quando não tem mais nada que você pode tirar. Tipo assim, o David de Michelangelo é tipo, se você tirar mais alguma coisa de lá, aí ia perder a obra. Então você tem que conseguir tirar as coisas ruins, né? Tipo, as coisas que não são relevantes.

Kyara Jacob: [45:15] Uma das coisas que eu estudei foi... É um método também, mas chama Lucid Body. A gente estuda essa... É um livro, e a gente estuda não só o livro, mas a gente tem aulas de corpo e movimento baseadas nessa proposta. E a gente chama de via negativa, que é você, exatamente isso, você tem um bloco de mármore, você vai tirando, você vai tirando o que não te serve, e ali surge uma grande... Ah, legal... Obra, enfim. E é muito legal esse Lucid Body, porque ele... Agora, porque falou método, já confundo. Mas esse conceito eu estudei no Estrelada. E ele brinca muito com arquétipos, com chakras. Então, é muito legal. Também tem essa visão psicológica.

Eron Falbo: [46:16] É um guiar, né?

Kyara Jacob: [46:17] Através do movimento e corpo. E é muito legal.

Eron Falbo: [46:23] A gente está acabando o nosso tempo, a gente tem três minutos, então vamos fazer os avisos paroquiais. Kyara, de novo, é uma coisa que você mencionou que eu adoro isso. Eu estou até com um pinzinho aqui que eu botei em sua homenagem, da persona. Persona em latim é face. Que faces você pode ter. No method acting, você mergulha em uma face diferente. Na verdade, eu vivi sempre a minha vida assim, mas isso é outro papo, depois a gente conversa mais sobre isso. Mas o que eu queria dizer é que o que você mencionou devia ser parte do currículo escolar. Não sei se você sabe isso, mas na Grécia Antiga, em Atenas, para você poder votar, é claro que tinha um monte de problemas, os escravos não votavam, as mulheres não votavam, tinha um monte de problema. Então, também foda-se a polícia politicamente correta. Mas em Atenas Antiga, para você poder votar, ou seja, para você poder exercer sua liberdade e participar da polis, que era uma das polis mais poderosas da antiguidade e mais cultas, era Los Angeles da época, ou Londres, que eu prefiro. Mas para você poder entrar nesse jogo, você tinha que servir o teatro e o exército. Você tinha que passar, eu não lembro quantos anos era, tipo três anos no exército, um ano no teatro, alguma coisa assim, você tinha que servir o teatro, entendeu? Então era uma parada da nação. E eu acho que isso é tão profundo, porque, assim, como é que você vai internalizar qual é a cultura do seu povo? E quando eu digo cultura do seu povo, não digo só tipo o Guarani, entendeu? Também é isso, mas é tipo... são os princípios, né? Tipo, como é que você vai internalizar o stand for, né? Por que você não é argentino? Por que você é brasileiro? Entendeu? Como é que você vai entender isso? É participando das grandes obras, dos grandes clássicos, fisicamente e pessoalmente estando presente naquela coisa. Então, não só eu acho que deveria ser parte do currículo escolar, porque eu sou contra escolas, mas eu acho que deveria ser uma obrigação como ser humano, entendeu? E hoje em dia eu acho que, além das nações, no mundo globalizado, né? Globalismo e globalização são muito diferentes. A gente deveria, inclusive, participar das grandes obras da humanidade, porque a gente tem que transcender. Eu não acredito em não ter mais nações, tem que ter as nações, mas também entender quem é Shakespeare. Imagina um brasileiro não ensinar Shakespeare, ele não sabe o que é o ser humano.

Teatro como experiência transcendental (46:24)

Kyara Jacob: [49:48] E são essas grandes obras que trazem perspectivas da humanidade, da história e tudo mais. E é uma pena que o teatro não é valorizado hoje em dia. Então, não deixem de ir ao teatro, gente. Sei que, às vezes, é muito mais fácil na Netflix, ali, no conforto de casa, mas é uma experiência, é uma vivência. Eu não tenho uma pessoa que eu levei ao teatro que foi reclamando e não voltou a agradecer. Eu juro, assim, eu sou bem chata, eu sou aquela cara, vamos comigo, por favor, eu faço a pessoa aí, porque eu sei que vai ter uma mudança.

Eron Falbo: [50:28] Não, uma transformação. Sim, eu tô com você. É mais do que o cinema, porque tem pessoas ali, né? Tem pessoas com o coração pulsando, suando do seu lado, né? Isso não tem como você replicar através de tecnologia, né? Pelo menos até onde a gente sabe, até agora não tem, né? Então eu não sou nem hippie nesse sentido, mas, na prática, não tem. Na prática, você não vê alguém replicando isso, né?

Kyara Jacob: [50:59] Sim. E a energia que tem no teatro, você realmente tá vivendo aquilo, você é parte daquilo, é uma coisa... que até ela não vai conseguir. Quem nunca foi ao teatro precisa até entender isso. Se você se sente parte de um filme que te cativou, no teatro eu acho que a experiência é três vezes maior. É muito mais do que aquilo na energia, sabe? Do lugar, a atmosfera. É uma experiência, eu acho, transcendental.

Eron Falbo: [51:35] Eu acho que uma comparação interessante, que eu já até fiz essa comparação, é tipo assim, quando você pensa em ir para a igreja, entendeu? Tipo assim, quando você pensa, pô, eu vou para um templo, qualquer que seja a sua religião, sinagoga, mesquita, quando você pensa na ideia de fazer isso, você não sente, tipo, super empolgado, eu quero, sabe? Tipo, você prefere, vis-à-vis do teatro, você fala, pô, prefiro assistir um filme, apertar o botão aqui, ver a história e esquecer do meu trabalho. Você não pensa que é super empolgante, é muito raro você... de fato, ir para uma igreja, ir para uma sinagoga, para uma mesquita, um templo, qualquer coisa, e não se sentir bem de ter comparecido, de ter estado lá, de ter estado presente. Então, eu acho que a mesma experiência de conexão espiritual que você tem, de repente, numa comunidade, numa igreja, qualquer coisa, no teatro você tem com a humanidade, e até com Deus ou qualquer coisa que você acredite, porque aquilo está sendo representado. Aquela... Ué, você caiu? Bom, se você não voltar, eu vou terminar. Aquela energia, aquela conexão, tudo mais está sendo representado. E naquele momento, se você não estivesse presente naquele lugar, naquele momento, com aquela energia, você não ia participar daquela eternidade, daquele momento.

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