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#41 Doando dignidade

com Gê Buffara · 9 de dez de 2020

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Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Apresentação de Georgia Bufara (0:00)

Eron Falbo: [0:00] Fala, Geórgia.

Gê Buffara: [0:02] Tudo bom?

Eron Falbo: [0:04] Geórgia Buffara, Gê Buffara, trabalha com projetos sociais desde os 12 anos de idade. Trabalhou e direcionou sua vida ao terceiro setor, tendo trabalhado no projeto O Erê desde jovem. Ela se considera uma pessoa que tem por felicidade fazer alguém feliz. Está à frente do Bees of Love, um grupo de ação social com vaquinha online completamente voltado para ajudar as pessoas. Eu fui num evento seu, eu te falei antes no telefone, né? Sobre futurologia. E, na verdade, isso me impressionou bastante, porque eu, há uns anos já, senti aquela vontade de contribuir um pouquinho para o quadro social e qualquer coisa assim. E me impressiono quando as pessoas fazem alguma coisa fora do lugar comum, né? Você fez um evento que eu achei muito inspirador e que é uma coisa que você não vê, especialmente na sociedade do Rio de Janeiro, não é o que se vê. E isso ficou marcado mesmo. Eu sempre lembrei de você e agora você teve a generosidade de aceitar fazer uma live comigo e eu tô achando fantástico essa... A minha integração dentro das pessoas certas. Estou orgulhoso de mim mesmo por estar chegando a pessoas como você. E queria que você me dissesse o que te levou a organizar esse evento, por exemplo, para começar. Esse evento que eu fui era um evento com um especialista em futurologia. É o Brasil no ano de 2050, era isso?

Gê Buffara: [1:50] É, o mundo no ano de 2050. Foi super interessante. Primeiro, muito obrigada por ser, aliás, um brinde ao Tintim. Obrigada por você ter me convidado, que eu estou super honrada de receber esse convite, fazer essa live, poder estar com você falando de tanta coisa bacana, e é o que você falou, esses encontros, a gente se aproximar das pessoas certas, é muito bacana. Super obrigada pelo convite. Depois, por que eu fiz... Na verdade, quando eu crio esse movimento Bees of Love, que, na verdade, no começo, em 2018, era apenas um movimento da sociedade civil fazendo alguma coisa pela nossa cidade, pelo nosso país, acho que pelo mundo, que a sociedade civil tem muito poder, e acho que a gente tem que se juntar mesmo. Na verdade, como eu fiz voluntariado sempre na minha vida inteira, sempre estava engajada, de alguma maneira, em algumas coisas, a maneira das pessoas se juntarem e das pessoas contribuírem para o voluntariado, eu não concordo muito em você fazer almoço para a gente simplesmente estar juntos e você doar alguma coisa. Eu acho que tem que ter uma troca.

Origem do movimento Bee's of Love (2:21)

Eron Falbo: [3:07] É um pouco passivo, né? É um pouco assim...

Gê Buffara: [3:11] Eu acho que sempre quis, desde o minuto um, quando eu criei o Bees of Love, é fazer encontros culturais, encontros que dão prazer, sabe? Você não vai lá só para doar, você vai, pô, que bacana nesse evento. E quando a Gilza me convidou com as meninas lá para fazer esse evento supercultural, que elas bolaram tudo, e para o Bees of Love ser um parceiro deles, eu amei a ideia, porque o papo que você teve lá foi uma coisa fantástica, foi uma coisa maravilhosa.

Eron Falbo: [3:41] Inspiradora.

Gê Buffara: [3:42] Foi super bacana. E eu achei que tinha tudo a ver com Bees of Love, super bem organizado. E era uma coisa assim, desde então, sabe? Tudo que o Bees, todos os encontros que a gente promove, a gente sempre promove coisas para as pessoas estarem... Ah, não, vou lá para ajudar. Não, eu vou lá porque é bacana. Eu acho que o Rio tem muita falta disso, de programas bacanas para a gente se encontrar, para a gente ter, para a gente trocar ideias, para a gente... Tá toda hora agregando valores bacanas.

Eron Falbo: [4:16] Só fechar a porta aqui.

Gê Buffara: [4:18] E foi isso que me levou àquele evento, um evento maravilhoso, num lugar fantástico, pessoas maravilhosas, organização perfeita. Foi muito bacana.

Eron Falbo: [4:28] É, maravilha. Mas o objetivo daquele evento, em termos de ajudar o Bees of Love, era para investidores poderem se expor àquilo? Tinha alguma coisa assim?

Gê Buffara: [4:40] Não, eu acho que, na verdade, foi um conjunto de coisas. Foi um evento onde eles chamaram ele para falar. E aí os expositores também estavam... Também teve patrocinadores, que era uma maneira das pessoas mostrarem o seu trabalho, divulgarem o trabalho. E, no final, teve a grande arrecadação para a gente fazer o Solange, que foi muito legal. E aí...

Eron Falbo: [5:12] O que você está falando é um evento que normalmente seria um coquetel meio banal, chamando investidores e talvez falando sobre um projeto, um PowerPoint. Esse é o Bees of Love, a gente faz essas e essas ações sociais e ajuda a gente, etc. Não é uma coisa ruim, alguma coisa assim. Mas aí você propôs uma oferta cultural, você propôs uma... Uma troca no sentido de que estou aqui organizando um negócio legal que não está acontecendo, que se eu não organizasse, não estaria acontecendo. Acho que isso que é o principal. Não é que tem um monte de palestras sobre futurologia e vocês estavam fazendo mais uma e arrecadando dinheiro para o Bees of Love. Vocês eram a única palestra de futurologia que tinha na cidade. E eu também vi que você fez uma coisa no Teatro Municipal, com as cortinas, que precisava ser... Teatro Municipal também.

Restauração da cortina do Teatro Municipal (5:56)

Gê Buffara: [6:18] Foi outra coisa fantástica, exatamente. No Teatro Municipal, na verdade, o que aconteceu? Quando pega fogo o Museu Nacional no Rio, porque, na verdade, o Bees of Love, só para entender um pouquinho, o Bees of Love não tem uma linha, não é só a criança, só a saúde, só a cultura, é tudo que a gente vê necessidade que precisa. Então, a gente pode agir em várias áreas. Quando o Museu Nacional pega fogo no Rio e a gente tem aquela perda enorme no Rio de Janeiro, coisas que são irrecuperáveis, eu parei para pensar o que a gente faz pela cultura no Rio. O que a gente faz? Quando a gente viaja, a primeira coisa que a gente faz é que museu que vou, qual é a exposição que vou. E aqui no Rio a gente não tem o hábito de prestigiar os nossos próprios museus. Então, quando eu vi aquele museu pegar fogo e sendo tudo destruído, perdas irreparáveis para a nossa cidade, para o nosso país, parei para pensar há quanto tempo eu não levava os meus filhos ao museu, ao teatro municipal, tudo isso. E aí parei para pensar o que é o nosso símbolo de cultura no Rio de Janeiro. E, para mim, nada simboliza mais do que o teatro municipal.

Eron Falbo: [7:32] É um dos melhores.

Gê Buffara: [7:34] Então, a gente entra no Teatro Municipal para ver o que o Teatro Municipal precisa, sem conhecer ninguém. E a gente descobre ali que estão quatro anos sem cortina e, por causa da cortina, que eu não sabia nem da importância, da grandiosidade que uma cortina tem, várias apresentações foram canceladas.

Eron Falbo: [7:53] Não podem, não tem estrutura para fazer certos tipos de apresentação, que incluem a abertura e o fechamento de cortina como parte da estrutura.

Gê Buffara: [8:04] Cortina, mas não tem aquela cortina boca de cena, aquela vermelha, bonita. Então, tem certas orquestras internacionais que se recusam.

Eron Falbo: [8:11] Exigem.

Gê Buffara: [8:12] E aí a gente entra para fazer a cortina, mas a gente entrou para fazer a cortina, na verdade, para pegar o patrocinador. Quando a gente vai em busca dos patrocinadores, os patrocinadores não davam tanta importância para o Teatro Municipal. Aí a gente pensou, então por que a gente não fazer um evento dentro do Teatro Municipal para mostrar a grandiosidade do Teatro Municipal, que algumas pessoas, lógico, sabem, mas muitas não sabiam. E acabou fazendo aquela loucura que foi em 56 dias, todos os músicos se doaram, foi um evento mais... Eu sempre digo, depois que eu fiz o Teatro Municipal, eu perdi o medo de qualquer coisa, porque aquilo ali foi uma loucura. Foi ter seis dias para montar aquilo, montar um evento no Theatro Municipal para o Theatro Municipal. A gente só teve 16 dias para vender 2.200 convites, e a casa lotou. E eu ficava imaginando, cara, fazer tudo isso. Imagina ninguém na plateia? Isso é uma catástrofe. E, no final, foi uma coisa de melhoria, de recuperação do movimento da sociedade civil toda. Não teve nada de politicagem, não teve nada de...

Eron Falbo: [9:25] É isso que é uma maravilha, eu quero muito falar sobre isso, mas acho que abriu uma brecha, isso aí a gente vai falar com certeza, que é o nosso assunto principal aqui, que a gente conversou antes no telefone, dá pra ver que a gente concorda perfeitamente sobre esse assunto. E é uma visão, eu acho que é uma pauta dos nossos tempos, uma coisa que realmente, na minha opinião, acho que na sua também, é um dos maiores problemas do Brasil, essa falta de empoderamento da sociedade civil. Mas já que a gente falou do teatro municipal, eu queria falar um pouquinho de um assunto que me interessa muito, que a gente fala sobre ações sociais, normalmente a gente pensa, no mundo moderno, a gente pensa em governo, a gente pensa em ONGs, a gente pensa em alimentar pessoas, que são coisas muito importantes, óbvio, também. Só que eu acho que a gente está deixando de lado muito a parte de caridade espiritual, a caridade da dignidade humana. Porque se você tem uma cidade que não tem um teatro... Com um certo nível, que você não consegue hospedar grandes orquestras, você está machucando a alma daquela cidade. Aquela cidade não está dentro de um circuito internacional de alta cultura, por exemplo, e em qualquer grande cidade do mundo existe abrir alta cultura para as massas. Existe todo tipo de ação social, como eu entrevistei muitas vezes... Alô? Deu uma...

Caridade espiritual versus caridade material (9:57)

Gê Buffara: [11:11] Deu uma travada geral aqui, espera aí.

Eron Falbo: [11:15] Tá bom.

Gê Buffara: [11:16] Fala.

Eron Falbo: [11:17] Eu acho que a gente, muitas vezes, especialmente com a mentalidade da esquerda... a mentalidade da esquerda é muito de impostos e o governo tomar conta da população como um pai. E aí, quando você pensa assim, você sempre pensa na base da pirâmide, em alimentar as pessoas, que é óbvio que é muito importante. Mas se você não dá dignidade para as pessoas, se não dá cultura para as pessoas, em termos de as pessoas se inserirem numa história da humanidade como um todo, herdarem a própria cultura deles, herdarem a cultura da humanidade em si... O que eu quero dizer com isso? É tipo, o brasileiro ouvir Villa-Lobos, ouvir Carlos Gomes, entender que a gente tem uma herança cultural de grande impacto mundial, e entender isso na prática, na pele. Se você não dá isso para a pessoa, a pessoa come para nada, né? Porque ela vive uma vida de sobrevivência e não tem essa dignidade que leva ela a se elevar e buscar coisas melhores na vida. Então, às vezes, ela não busca um emprego, ela não busca alguma coisa, porque ela não tem dignidade pessoal. Então, se você não fizer as duas coisas juntas, se deixar de lado o Museu Nacional, por exemplo, até ele queimar, o que você vai ter é uma civilização pobre. Não pobre só economicamente, porque também pobre economicamente, mas você vai ter uma civilização que não gosta de si própria, que é o que a gente vê no Brasil hoje em dia. O brasileiro se odeia como brasileiro, né? Infelizmente, você vê isso. Até o futebol que a gente tinha, até o 7x1, a gente não tem mais. Então, é esse o assunto que eu queria abordar com você. Dentro da sua carreira, que você está fazendo há muitos anos, e tem uma experiência muito mais vasta do que eu e muitas pessoas nisso: o que você acha dessa contrapartida? Até que ponto a gente deve calibrar isso? O que é essa dignidade pessoal que você pode dar para as pessoas, dando uma palestra de futurologia, dando uma cortina para o Teatro Municipal, versus ajudar as pessoas a comerem, a sobreviverem?

Dignidade e sabedoria aprendidas nas comunidades (13:08)

Gê Buffara: [13:46] Não, olha só, acho que você está certíssimo. Acho que muita gente não sabe, por exemplo, eu mesma não sabia que o Teatro Municipal abre a R$ 1,00 todos os espetáculos deles para as pessoas, para todo mundo ir. Então, é uma coisa super mal divulgada. Quando faço o evento no Teatro Municipal, vou conversar com o pipoqueiro, com o jornaleiro que estava ali há muito tempo, para eu saber a história, que estavam 40 anos ali, 30 anos ali, que viram aquela Praça do Lido. Antigamente, a Praça do Lido era cinema, era a concentração de todos os cinemas do Rio de Janeiro, era o glamour de lá. E eles me contando aquilo tudo... Acho que, na verdade, o povo que não tem cultura não sabe nem cuidar da cidade. O povo sem cultura não cuida do patrimônio da cidade. Então, acho que a dignidade... Aprendi, na verdade, com esse meu movimento de solidariedade ao outro, com esse tempo que faço voluntariado, que nas comunidades as pessoas se preocupam com o outro. O pessoal da comunidade chama a gente que mora no asfalto de "gente do asfalto", gente de fora. Quando eles começam a falar comigo, é que o pessoal de fora não entende o pessoal de dentro. Mas o pessoal de dentro se ajuda muito mais. Eles não precisam saber o nome do vizinho para levar um prato de comida. Eles não precisam saber o nome do vizinho para mandar um remédio. Aqui a gente não quer nem saber do vizinho, normalmente o vizinho xinga a gente porque fez barulho na festa, não sei o quê. Isso foi uma grande lição que eu trouxe de lá de dentro para aqui de fora, porque eu acho que a gente realmente tem que começar a ter isso. E eu acho que ter isso é dar dignidade, é olhar as pessoas invisíveis, né? Porque, na verdade, quando a gente vive no nosso mundo, graças a Deus a gente tem tudo, a gente começa a não enxergar certas pessoas tão importantes para a gente, como um lixeiro, como um morador... Nem todo morador de rua é cracudo. Os lixeiros são pessoas incríveis, que falam coisas incríveis para você. Então, a nossa sociedade não respeita essas pessoas que dão serviços para a gente, que fazem coisas para a gente de uma maneira extraordinária. Então, dar dignidade, sim, todos nós temos direito à dignidade, né? E a gente começar a olhar em volta da gente, ao redor da gente, porque normalmente é "não, eu tenho uma vida boa, não sei o que tá bom, qual é a festa"... Eu não sou contra isso, não. Eu acho que a gente pode beber o nosso vinho maravilhoso. Igual uma vez, eu fui, tava chovendo, eu fui entregar cobertor, e um amigo meu falou... e eu tava preocupada. O problema não é tomar o vinho, dá tempo de você tomar o seu vinho, mas também dá tempo de você olhar para o outro. Eu acho que a gente olhar para o outro, independente da nossa situação, isso é muito importante. Dar dignidade a uma criança que, no morro, o ídolo dele, lógico, é o cara que está com a arma maior, mas é porque, se ele tiver a oportunidade de voltar para a comunidade dele com uma medalha no peito, de algum esporte que ele esteja fazendo, um violão que é caro, um violino que é caro... Eles não têm nem a oportunidade. Existe a educação musical, como é que você falou, sabe?

Eron Falbo: [17:24] A gente, como sociedade civil, independente da classe, tem uma troca, tem uma comunicação, tem uma certa irmandade por ser de uma mesma sociedade geral. Então, como você falou, conversando com os pipoqueiros, só de você conversar com eles, você dá uma certa perspectiva diferente, você dá uma dignidade para eles, porque muita gente esnoba eles e coisas do tipo. E também a gente vê essa coisa que começou com o marxismo, de guerra de classes, que pode até ter... eu não concordo, mas sei que tem gente que acredita e tudo mais. Muitas vezes isso, dentro da nossa sociedade, trouxe uma alienação, tipo assim: eu sou de uma, você é de outra, aí cada um não se conversa. Mas pessoas que conseguem transcender isso sabem muito bem que existe uma comunicação, e a gente tá falando a mesma língua. E só porque você tem, vamos dizer, certos privilégios, ou porque você nasceu com acesso à melhor educação e você ganha melhor, etc., não significa que você não tenha o que aprender com alguma pessoa de uma outra classe. Você tem o que doar que não seja financeiro, e eles têm o que doar para você também que não seja financeiro, que é respeito, que é admiração, pode ser, né? E se você cria essa guerra entre classes, você tira muito essa oportunidade dessa troca, que tem tanta energia, tanta coisa para ser vivida ali, que, na verdade, é isso que integra a sociedade. Porque, no momento que você não tem essa comunicação, que você não tem essas conversas que surgem na rua e esse respeito mútuo, etc., você tem só suspeita um do outro. Aí um quer fazer mais crime, o outro quer construir fortalezas maiores para se proteger, e fica essa coisa: eles e nós, a gente mora aqui, e tem as pessoas de fora e as pessoas de dentro.

Gê Buffara: [19:36] Eu acho que a gente aprende muito nos livros. A cultura, a educação, a gente pode aprender nos livros, mas sabedoria a gente aprende com os mais humildes, sem dúvida nenhuma. Eu não tenho a menor dúvida de que a grande sabedoria eu aprendo em cada dizer, em cada coisa, na simplicidade das pessoas. Todo mundo é ser humano, esse negócio de... Uma vez eu falei num evento, até que me deram, foi o primeiro, do Bees of Love, e eu, num agradecimento, falei uma coisa que eu falo toda hora para todo mundo: se a gente está num andar de cima, a gente tem a obrigação de mandar o elevador para o andar de baixo, sabe? Eu acho isso uma das coisas que a gente... Não é abrir mão, sabe assim? Não, não é fácil. Por que não vai abrir mão de tudo? Não, eu acho que você pode ter todo o conforto, mas por que não abrir mão de um pouquinho disso? Se todo mundo der um pouquinho só, eu acho que vai fazer a diferença. A gente acabou de fazer uma coisa que eu acho que é um dos maiores símbolos e vai ficar muito marcante, eu acho, no Instituto Bisa Blanco. Há três anos, antes de eu estar no instituto, eu conheci um morador de rua, um catador de latinhas, o seu Sérgio. E o seu Sérgio nunca me pediu esmola na vida, ele sempre me pedia um emprego. "Eu quero um emprego, eu quero um emprego", e ele catava latinhas. E ele nunca... Enfim, resumindo a história, há uns três meses atrás, a gente conseguiu dar uma casa para ele, a gente conseguiu dar um emprego para ele, e agora a gente conseguiu botar todos os dentes na boca dele, através da doutora Marta Faissol. A gente botou os dentes na boca dele.

Seu Sérgio, o catador de latinhas (20:54)

Eron Falbo: [21:20] Fala de novo o nome da doutora, para a gente...

Gê Buffara: [21:22] Doutora Marta Faissol. Marta Faissol, filha do doutor Olímpio Faissol, que foi um grande dentista, e ela se superando a cada dia, maravilhosa. Ela, no minuto um que eu liguei para ela... ela é minha amiga, a Marta, pessoal, e ela sempre quis me ajudar, mas trabalha muito. E no minuto um que eu falei que eu queria muito dar os dentes para ele, ela fez um tratamento na boca dele, onde foram cinco cirurgias, cinco cirurgiões, foi uma coisa assim. Ele tinha o queixo para frente, sabe, aquele maxilar. Então, assim, não foi uma coisa...

Eron Falbo: [21:54] Problemas estruturais.

Gê Buffara: [21:56] De fazer, e ela deu tudo. Enfim, imagina anos sem dente na boca, esse seu Sérgio, que é literalmente um amigo meu de rua. Quando ele foi na primeira entrevista de emprego dele, que ele conseguiu, eu falei para ele: eu vou com você. Porque, você já imaginou, a gente, na primeira entrevista de emprego, fala com o pai, com a mãe, com o amigo: "poxa, vou na minha primeira..." Ele não tinha com quem falar. E ele, por acaso, me encontrou aqui na rua, e sentou no chão e começou a chorar. "Você vai comigo?" Eu falei: "vou, eu vou com você na sua primeira entrevista de emprego." Então, eu acho que isso é dignidade, sabe? Isso não é talvez...

Eron Falbo: [22:34] Exatamente, porque você, com essa energia, talvez dê uma coisa para ele que, se você desse um milhão de dólares, ele ia torrar, ele ia morrer. Se desse um milhão de dólares, não ia servir para nada. Só que você deu uma credibilidade para ele, você deu um espírito, você deu uma força para ele poder ser quem ele precisa ser.

Gê Buffara: [22:55] Eu, na verdade, encontrei ele sem querer na rua e, quando cheguei em casa, eu tinha um almoço para ir com o meu marido. Cheguei e falei assim para o meu marido: "olha, eu não vou no almoço, não, porque eu vou ali com o meu amigo morador de rua, catador de latinhas, ele vai fazer entrevista." Aí meu marido falou: "você está maluca, né? Você está maluca, sabe?" Então, são coisas que, assim, não é fácil, não é tudo, não. Não é tudo...

Eron Falbo: [23:17] É isso que eu ia te perguntar.

Gê Buffara: [23:21] Que aquela prioridade era máxima.

Eron Falbo: [23:22] Sim, aí você cancela tudo.

Gê Buffara: [23:24] Não voltaria. Um almoço, uma reunião com os amigos, eu podia chegar atrasada, tudo bem, mas aquele momento, que era um domingo, em frente ao hotel Pestana, eu tinha que estar lá, não sei o quê. E eu falei: gente, tem milhões de outras ocasiões, mas aquele momento... Então, certas prioridades, da gente poder dar dignidade a um outro, é muito importante. E quando esse seu Sérgio recebe os dentes, foi uma das coisas mais bonitas que eu vivi na minha vida. Ele recebeu os dentes na cadeira da dentista da doutora Marga Faissol, ele me olhou, ficou mudo, não falou uma palavra, mas me olhava com uma profundidade de agradecimento. Então, assim, o Instituto BizaLove não gastou um tostão, foi só conexões, entendeu? Então, eu acho que é só conexão, a gente conhece tanta gente, não é? Então, por que não conectar tudo?

Eron Falbo: [24:19] Está todo mundo disposto a ajudar, você deve descobrir isso fazendo. Eu também faço ações sociais de vez em quando, sempre gostaria de fazer bem mais. Mas quando você para para buscar a ajuda das pessoas, você vê que as pessoas são muito mais dispostas, né? Tipo assim, eu trabalho com gestão de patrimônio, então tenho clientes que são bilionários e cuido de muitas coisas para eles, no sentido de, ah, tem investimentos novos, não tem. Só que uma das maiores demandas que existem nesse mercado, nesse mundo de gestão de patrimônio, é cuidar da caridade, porque todo mundo quer fazer mais do que está fazendo, e não tem ninguém fazendo a gestão por eles. Tipo assim, eu fui visitar o Sr. Elie Horn no escritório dele em São Paulo, da Cyrela. Ele tem o escritório de administração da fortuna da família dele de um lado, à esquerda, e no lado direito tem um só para administrar a caridade, de tanto que ele está envolvido em caridade. Então, assim, a gente que quer fazer essas coisas... Oi?

Filantropia entre gestores de grandes fortunas (24:37)

Gê Buffara: [25:29] Ele é um exemplo, né?

Eron Falbo: [25:30] É, ele é fantástico, é uma pessoa assim que, bom, vive por isso mesmo, então é bem inspirador. Mas o que eu quero dizer é que a gente que faz esse tipo de coisa, faz projetos, e você especialmente, precisa lembrar disso, né, que dá para integrar as pessoas, dá para chamar elas, as pessoas estão prontas, elas querem participar. Então, vamos fazer mais disso. Eu acabei de mudar para o Rio de Janeiro, mas por favor, conte com o meu apoio, de qualquer maneira que eu puder ajudar.

Gê Buffara: [25:58] Você precisa de tudo. E assim, na verdade, o que é mais interessante é que, quando eu entrei para fazer esse movimento, não entrei tipo mega organizada, foi uma coisa super caseira, foi de coração, chamando as amigas: não vamos sentar no sofá, vamos fazer a nossa parte e tal. De repente, o negócio foi tomando vulto, porque é exatamente isso, as pessoas querem ajudar. E quando a gente criou o BizaLove, a gente começou com obras, porque queria ter um começo, um meio e um fim, para poder até apresentar as contas. Porque, assim, contas a pessoa não precisa pedir, a gente, quem faz, tem que apresentar automaticamente, na verdade. Então, a gente começou com o BizaLove só com obras. A gente não queria assistencialismo, porque precisava prestar contas. E o que falta nesse país também é prestação de contas de tudo. Você faz as coisas, por que não mostrar: olha, está aqui, sabe? É uma transparência natural, isso não é uma exigência, isso deveria ser natural, né? E assim, o BizaLove começou a crescer, na verdade, porque a gente, naturalmente, acaba uma coisa e mostra, como se... é natural, né? Quando a gente compra um ar-condicionado, você vai na loja, paga e recebe a nota fiscal. Por que não fazer uma caridade e receber o que você fez com aquele dinheiro, né? As pessoas não precisam...

Transparência e o lado sombrio da caridade (26:34)

Eron Falbo: [27:17] É bom pra própria caridade, né? Porque a caridade ganha mais credibilidade. As caridades... assim, muitas vezes me ligam aqui, de caridades. Aí eu atendo: 'Olá, eu sou...', vou contar aqui, que foi outro dia. Aí começo a falar: gente, é isso, eu trabalho com vendas, a primeira coisa é você não ligar e falar sem perguntar 'você tá podendo falar?', porque, tipo, eu posso estar no meio de uma reunião. Então, se você quer a minha caridade, mostra transparência, toma certos cuidados. Porque só porque você tá fazendo caridade não quer dizer que todo mundo, entendeu, vai abrir as pernas pra você, entendeu? É isso que eu tô falando: é mostrar seriedade.

Gê Buffara: [28:04] Verdade, assim, é uma coisa séria, é uma coisa, sabe, é respeito pelo outro que tá confiando em você. E, assim, obrigada por acreditar, sabe, é muito difícil alguém acreditar, o Brasil tá desacreditado de tudo. Então, quando eu resolvo fazer assim... quantas pessoas, né? Existem ONGs maravilhosas, existem trabalhos maravilhosos, muito mais antigos, muito mais sólidos, com histórias lindas, mas, assim, o nosso é total. Quando a gente faz o BizaLove, esse nome também, eu acho super bacana, porque quando você ajuda, quando você entra no BizaLove, você automaticamente se torna uma abelha. Então, assim, você não faz uma doação e fica por isso mesmo, não, você faz parte de uma colmeia. E essa ideia de estarmos todos juntos não é meu, não é seu.

Eron Falbo: [28:57] Uma fraternidade.

Gê Buffara: [28:58] Todos nós, entendeu? É aquela palavra africana que eu amo, Ubuntu: eu sou o que nós somos. Então, assim, eu acho que esse patamar mundial que a gente tem, eu não digo que é só na cidade, no Brasil, não, eu acho que a dor do outro, de uma maneira indireta, um dia vai afetar você.

Eron Falbo: [29:18] Claro, claro, exatamente. É um egoísmo consciente, né? Isso é uma coisa que eu queria até entrar, acho que agora abriu a brecha. Que é que existe... nas caridades existe o lado negro, né? Existem pessoas se aproveitando de instituições sociais e tudo mais. Então, quando você tá ligando pra alguém, você tá pedindo a confiança daquela pessoa, porque a norma e o esperado do ser humano defensivo é que você não vai usar da melhor maneira possível, ele não vai ver onde você está gastando. Então é natural que ele duvide de você. E isso ainda mais se você pensar na teoria de Jung da sombra, do lado da sombra. Tipo assim, o único jeito de você fazer o bem, de fato, é você integrar a sombra, entender que você tem esse lado mau. E o que significa isso? Se eu entendo que eu tenho um lado mau, quando eu for ligar para alguém pedir dinheiro, eu vou falar: olha só, deixa eu te explicar, gente, é totalmente transparente, porque eu entendo que tem muitas pessoas que roubam, etc. Você fala isso de uma boa forma, eu entendo, o mundo é assim, você não precisa fingir que não é assim. Então, vamos integrar essa sombra pra fazer o bem que a gente conseguir fazer. Eu sei que eu sou do mal, eu sei que eu sou egoísta, eu sei que eu não sou altruísta de verdade, tem tudo isso. Então, como que a gente integra essa sombra? O que significa isso? Que nem você tá falando, você tá falando em ver o mundo e a ação social como bom pra mim. Como que a gente pode parar de falar discursinho de Disney, né, tipo 'vamos fazer o bem', e começar a ter um discurso integrando a sombra, falando: ó, o mundo é mau, tem mal mesmo, mas o que a gente pode melhorar sendo inteligente, ajudando as pessoas, os moradores de rua, a gente vai ter um Rio de Janeiro mais bonito. Não tendo moradores de rua, etc., você vai se beneficiar, porque você não vai andar em Copacabana e vai ser um pesadelo, entendeu? Então, por que não falar isso? Por que as pessoas têm tanto problema em falar isso?

Gê Buffara: [31:21] E o que você falou, eu não me importo nem um minuto. Eu já fui várias vezes, inclusive nessa pandemia, quando a gente foi dar os medicamentos para o hospital. Teve um questionamento grande em cima do Instituto sobre como você vai comprar medicamento para um hospital, sendo que o Instituto não pode comprar medicamento. É um medicamento totalmente hospitalar que o Hospital Pedro Ernesto estava precisando, e vieram os procuradores agressivamente questionando. Eu não me incomodo, é o que eu falei para...

Eron Falbo: [31:50] O procurador, porque, assim, o governo tentando dominar o negócio...

Gê Buffara: [31:55] Hã?

Eron Falbo: [31:56] O governo tentando dominar.

Gê Buffara: [31:58] Não, pra mim não tem problema nenhum. Pode entrar o governador, o presidente, o prefeito, qualquer um pode questionar, e eu acho que tem todo o direito do mundo, no momento que a gente está vivendo, de uma grande roubalheira. Não é problema nenhum, mas tem que vir com educação, com respeito. Porque eu tenho toda a documentação, a gente é totalmente transparente, mas não me coloque no patamar de todo mundo, não coloque o instituto no patamar de todo mundo. E aí eles vieram, eu fiquei muito assustada, porque foi a primeira vez que eu fui questionada agressivamente, né? Foram vários procuradores me procurando, e não sei o quê. Lógico que meu marido falou que isso era uma maluquice, não sei o quê. Mas eu falei: não, é nessa hora que tem que ter garra e força, porque não é fácil. Vários momentos dá vontade de desistir, dá vontade de falar que país é esse, eu tô fazendo a coisa certa e ainda tão querendo me derrubar. Sinceramente, não é muita alegria, é muita garra e muito choro por trás, porque questionar não é problema nenhum, pedir papéis está tudo certo, mas não pode vir com ofensas, cara. E essa dignidade, é isso que eu digo, que às vezes... Uma vez me botaram numa mesa para fazer uma palestra, que eu nem sei por que eu estava lá, com o pessoal da procuradoria, e aí veio também uma pessoa assim. Eu falei: gente, é por isso que a sociedade civil, às vezes, se retrai, porque a gente perde força de lutar, de ter que ficar o tempo todo provando que você está bem, entendeu? E aí que entra que a gente não pode desistir, porque a gente tem que se unir cada vez mais.

Estado totalitário e dependência do governo (33:42)

Eron Falbo: [33:44] Isso entra numa outra coisa política que eu estou vendo aqui no Brasil, que é um problema muito, muito sério: o Estado controlando tantos aspectos, controlando toda a cultura do Brasil. Mesmo se você for o Walter Salles, herdeiro de uma grande fortuna, ele usa a Lei Rouanet para fazer filme. A cultura do Brasil é baseada no governo, a gente está dependente do governo. Agora a gente entra no assunto da emancipação da sociedade civil, mas o Brasil tem uma dependência muito anormal, muito diferente de outros países do mundo, de expectativa de que o governo resolva as coisas e faça as coisas funcionarem para eles. Então aí entra, por exemplo, um procurador que impediu um projeto seu, porque o governo tem que controlar certas coisas. Quando começa isso, como você falou, a sociedade começa a ficar cansada, porque quando tenta, é atropelada, e aí ela se retrai de novo. Se retrai e se separa. E isso é justamente o que um Estado totalitário quer que a sociedade faça, porque eu acredito que o governo brasileiro é um Estado totalitário. Só que a gente tem uma fachada de democracia, e por isso não parece tanto assim. Mas em termos do jeito que o governo funciona no Brasil, funciona como Estado totalitário. Então os tentáculos do governo estão em todo o âmbito social e a sociedade está totalmente dividida. Se você chega aqui no Rio de Janeiro, você encontra pessoas maravilhosas, só que tá todo mundo, cada um na sua casa, separado, e todo mundo morrendo de medo de fazer alguma coisa por si só. Isso é um diagnóstico, né? Eu morei mais de dez anos fora do Brasil, cheguei recentemente ao Brasil, e estou observando como está funcionando. E eu te pergunto, você que está aqui trabalhando nisso, lutando contra esse tipo de coisa: como você vê o futuro? Como é que a gente consegue emancipar essa sociedade brasileira do governo?

Coragem como caminho de emancipação (35:37)

Gê Buffara: [35:55] Eu, sinceramente, digo que a palavra é coragem. Coragem. Porque o procurador não me impediu de fazer meu projeto. O prefeito, que foi lá fotografar uma obra minha no hospital, foi lá fotografar a obra do prefeito, onde ele não tinha dado nada. E eu cheguei para a prefeitura e falei: aqui vocês não vão fotografar nada. Eu acho assim, ter coragem, porque quem não deve não teme, a grande verdade é essa. E eu acho que a maioria das pessoas... Não desistir, porque, na verdade, cansa, você se expõe de uma maneira horrível. E assim, ter coragem, a gente não desistir, porque o mal no Brasil é muito bem organizado, eles têm coragem, têm cara de pau, fazem tudo, e muita gente fica de braços cruzados. Eu acho que chegou a hora do chega, do basta. E assim, ter coragem de enfrentar, porque, quando eu dou os medicamentos pro Pedro e Ernesto lá e eu tenho todas as notas, por que um procurador vai me acuar? Qual o motivo? Qual o poder que ele tem que eu não tenho? Eu tenho muito mais poder se eu tô com a sociedade subiu, se eu tô com as notas fiscais. Então, ter essa coragem de peitar. Ao seu redor, vão falar: não, você não vai se expor, pra que isso? Realmente, foram três dias chorando, de comprar o blefe, né?

Eron Falbo: [37:21] Você comprou o blefe, porque o governo tá blefando. O governo precisa da sociedade. Então, o governo que chega fazendo bullying contra a própria sociedade, ele tá blefando. Porque se a sociedade falar não, já era o governo.

Gê Buffara: [37:38] Então é isso. Acho que o grande lance é... Na verdade, a sociedade precisa da sociedade. A gente precisa da gente unida, entendeu? Porque a praça é nossa, o hospital é nosso, o país é nosso, não são deles. Então, acho que é essa coragem, um pouquinho de coragem, sabe? Tem muito bem.

Eron Falbo: [37:58] A gente que deixou. É a nossa responsabilidade também. Se o Museu Nacional queimou, é a gente que deixou, é a gente que ficou quieto. A gente que não foi, a gente que não viu as instalações, não checou o nosso próprio patrimônio, a nossa propriedade. Deixou na mão de terceirizar para um sistema ineficiente, e todo mundo sabe que governos são ineficientes. Em qualquer lugar do mundo, governos são ineficientes. Essa coisa keynesiana de governos totalmente eficientes, todo mundo viu que nos anos 70 foi por água abaixo, que não funciona mais, não economiza desse jeito. Então a gente ainda está com essa mentalidade no Brasil e precisa sair disso. Agora, você falou que concorda que precisa de coragem, assim como Schindler precisou de muita coragem para salvar judeus na lista de Schindler. Você viu Breaking Bad? É um professor, não lembro se de universidade ou de escola, que é uma pessoa relativamente boa, mas, quando colocado com uma corda no pescoço, pensa: eu não vou deixar nada para os meus filhos, estou com câncer, etc. No começo, ele se propõe a fazer uma coisa que não faria antes, que é produzir drogas, mas aos poucos foi piorando, piorando, até virar um assassino brutal, e coisas do tipo. E isso acontece na sociedade. Hitler, quando entrou no poder, não começou dizendo: eu vou matar judeus. Ele começou dizendo: olha só, tem um problema com os judeus. Daqui a pouco, as pessoas estavam aceitando coisas que jamais aceitariam fazer, e o povo, um olhando para o outro, estava todo mundo anestesiado. Então a gente tem que entender que isso é um processo psicológico válido, real, que acontece. E se a gente acha que não tá acontecendo no Brasil, a gente tá dormindo, entendeu? Porque o Brasil tá anestesiado, anestesiado para a própria dignidade, né? Como é que a gente pode se permitir viver num país que a gente odeia em quase todos os termos possíveis, né? A gente se odeia como cidadão brasileiro, a gente odeia o governo, a gente odeia tudo que aconteceu nos últimos anos, a gente odeia tudo o que significa ser brasileiro. Infelizmente. É claro que a gente tem coisas boas, e é justo nisso que a gente tem que se concentrar, é justo nisso que a gente tem que acordar essa chama. Se a gente é de um lugar, a gente tem que se orgulhar de ser desse lugar. Se eu não me orgulho, como que a gente vai passar a se orgulhar? O que a gente tem que fazer para passar a se orgulhar?

Gê Buffara: [40:37] É isso. Eu acho que, na verdade, eu fui feita desse material, porque todo mundo é feito do material que vai cultivando a gente enquanto a gente vai crescendo como ser humano. Contando rapidamente: meus pais são alemães, e eu tive um avô que escondeu uma família inteira num sótão de casa. Ele foi pego, foi descoberto pela polícia, foi pego com a família dele e foi para a solitária, e quase morreu. Ele teve a coragem de botar a família inteira de judeus dentro da casa dele, então ele foi um corajoso. Ele foi um corajoso. Quando ele vai para a solitária e morre de fome, minha avó foi outra corajosa, porque, como ela não podia levar comida, ela levava o bombom maior que podia caber na boca, e, na hora de beijar, passava o bombom para a boca dele. E ele sobreviveu. Na verdade, o que acontece? Eu acho que, em qualquer situação que a gente possa viver e enfrentar, a vida não é fácil para ninguém. Então, a coragem desse homem, catador de latinha, é não pedir esmola, pedir um emprego, porque é o que ele falou. Todos os amigos dele, os moradores de rua, falavam para ele o tempo todo: você vai ganhar muito mais dinheiro pedindo esmola do que carregando 60 quilos de latinha na escola para ganhar 30 reais.

Eron Falbo: [42:05] Manter sua dignidade não é fácil, não é confortável.

Gê Buffara: [42:08] Ter coragem, assim... Meu pai, quando veio para o Brasil, casou com a minha mãe aqui. Ele falou para mim: vocês têm que amar o Brasil, a terra que acolheu a gente. Então eu fui feita disso, de pessoas lutadoras, pessoas que amavam o país, pessoas corretas, pessoas que mostravam nota para tudo. Eu acho que isso tudo me fez, hoje, amar meu país, ter coragem. Entendeu? Então o futuro está nas nossas mãos. Você me perguntou qual o futuro: o futuro, se a gente tiver coragem de se unir, igual o mal é unido, eu acho que o futuro está nas nossas mãos. Agora, com gente covarde não dá nem para conversar, vamos combinar? Eu não consigo nem conversar com gente covarde. Então é difícil.

Eron Falbo: [42:59] E as pessoas muitas vezes confundem patriotismo com nacionalismo. Tudo bem que são duas palavras que podem ser a mesma coisa, dependendo de como você vê. Mas existe uma coisa de você entender que você está fisicamente presente em um lugar, em um momento histórico, e você não está em outro lugar. Você está aqui, e esse é o seu lugar, e você tem que cuidar da sua casa. Um exemplo disso é a galera indo para um show de rock e ficar filmando o show, e não assistindo ao show de rock. Não estar presente onde você está presente. Você está naquele momento, mas não está depois, quando vai assistir no seu vídeo, inclusive que ninguém assiste esse vídeo depois, são outras pessoas que assistem. Então a questão não é esse patriotismo, esse amor. Dane-se o nome da parada, dane-se quem fez ou qualquer coisa, mas alguém fez, alguém construiu. Existe uma história, existem grandes músicos, existem grandes pintores, grandes escultores que habitaram essa mesma terra, e você está herdando, você está andando nas mesmas ruas que essas pessoas, né? E por isso, aquilo é você, de uma certa forma, entendeu? Sua psique foi construída daquela matéria-prima, né? Então é uma questão de sentir a brisa na sua cara, né? Parar de pensar no passado e no futuro e sentir o que tá acontecendo agora. E o que tá acontecendo agora é esse quadro completo. A gente, infelizmente, está vivendo nesse momento de muita informação, todo mundo vivendo vidas abstratas e tudo mais, e não estão... Estão questionando o que é nacionalismo, o que é patriotismo. Tudo bem, isso também é saudável, também tem seu valor. Mas, cara, cuide dos seus tempos, do que você está fazendo. Se você não cuidar, ninguém mais vai cuidar. Tem esse problema muito sério: quem vai fazer? Alguém vai fazer por você? Não, o governo não vai fazer por você. A gente já viu isso.

Gê Buffara: [45:06] É, vai fazer. Eu acho que, no fundo, são as nossas escolhas que fazem. A gente tem o poder das escolhas o tempo todo na nossa vida. Eu acho que essa pandemia, inclusive, veio para nos mostrar que a gente tem que se reinventar toda hora, a cada minuto, senão o fluxo da paranoia, do medo, arrasta a gente para lugares que não são legais. A gente tem que estar nessa adaptação constante. E eu acho que viver o momento, igual você falou: ter um show e não curtir aquilo, aquele momento, realmente não dá.

Eron Falbo: [45:46] Isso me leva a outro assunto que eu acho que tem tudo a ver com caridade, e acho que você vai me ajudar a entender melhor isso: a ideia de arrumar o próprio quarto antes de mudar o mundo. Muita gente hoje em dia, especialmente universitários e jovens, está muito preocupada com o meio ambiente, com a África, com as baleias, cada época tem um foco diferente. Só que, quando você olha para o que eles mesmos fazem, eles maltratam os próprios pais, não organizam o próprio quarto, literalmente. Então eu acho que caridade, isso para mim é muito importante, tem a ver com aquela coisa de integrar a sombra também. Caridade não é uma coisa para inglês ver. Caridade não é uma coisa para outras pessoas. Caridade é uma coisa que te eleva, e você está se construindo ao fazer, ao aprender a fazer. Você viu o exemplo: o cara lá que não queria caridade, ele queria emprego. O filósofo medieval Maimônides fala que essa é a maior forma de caridade. Ele lista dez formas de caridade, e a maior é dar um emprego. Por quê? Porque você retém a dignidade máxima da pessoa, porque a pessoa está sendo uma parceira na caridade junto com você. E isso tem um valor. Se você é uma pessoa que dá dinheiro e se sente super feliz, você está dando caridade para você mesmo, porque você tá se sentindo super feliz. Então você não tá pensando no que é melhor para ela, porque, se você pensasse, talvez não desse o dinheiro. Talvez desse um emprego.

Arrumar o quarto antes de ajudar (45:50)

Gê Buffara: [47:38] Olha só, esse rapaz, esse seu Sérgio, o que aconteceu? Ele teve um emprego e vai receber o primeiro salário agora, dia 7 de dezembro. E até o dia 7 de dezembro, como ele teve que parar para fazer os dentes, ele não podia catar latinha, a gente deu as compras dele, tudo isso. E a frase dele, juntando com o que você falou... Ele foi tão fofo, virou para mim e falou assim: mês que vem, a partir do dia 7, eu vou ter o meu salário, a senhora não vai precisar me dar mais nada, eu vou poder pagar minhas contas. Ele estava tão feliz com o empoderamento dele. É uma coisa, é dignidade absoluta, isso.

Eron Falbo: [48:23] Imagina a sua felicidade de poder ajudar isso.

Gê Buffara: [48:27] Porque isso aí, isso que estou falando é um marco na minha vida, independente do Bees Up Love, é um marco assim, é indescritível. Eu não consigo nem explicar o que eu sinto a cada vez que eu vejo. E aí todo mundo me pergunta, e depois, será que ele vai dar valor? Olha só, primeiro, ele está sendo o melhor funcionário do lugar. Ele está super feliz. E mesmo que dê tudo errado, mesmo que ele não... A minha parte eu fiz, eu dei oportunidade para ele, né?

Eron Falbo: [48:57] Claro. O que ele faz é cada um...

Gê Buffara: [49:00] A gente também recebe certas oportunidades que a gente também não perde.

Eron Falbo: [49:04] Que a gente estraga. E também que a gente joga fora, que a gente faz besteira.

Gê Buffara: [49:09] Mas eu juro por Deus, o que eu digo, eu acho que em todo mangue tem uma flor. É o que o meu amigo Francisco sempre me fala. Quando o sol brilha, ele brilha no mangue, nas pessoas mais miúdas, brilha no campo de golfe, brilha nos jardins, brilha nas pessoas que estão bem-vindas, brilha pra... Então, assim, a luz é pra todos, né? A gente tem que espalhar essa luz. Então, assim, quando ele me fala que ele não vai precisar, com todo orgulho, isso é fantástico, isso é o que move o meu... isso é a minha gasolina, entendeu? Pra eu continuar. Mesmo que venha procurador questionar, que duvidar, é isso que me dá coragem pra continuar, entendeu? Porque eu vou te falar uma coisa, tem vários momentos que eu fico triste, que eu fico: cara, o que eu tô fazendo? Sabe? Que mundo é esse? Que país é esse? Que tipo de pessoa são essas? Mas isso é que me dá gasolina pra eu ter coragem. Porque ter coragem o tempo todo não é fácil.

Eron Falbo: [50:14] É de novo aquele abraçar o egoísmo. Tipo assim, eu me sinto bem com isso e é isso a minha gasolina. Então, se isso vai me fazer sentir melhor, vamos promover isso. Galera, vocês vão se sentir bem. Dando dinheiro, vocês se sentem bem, mas acompanhando a vida de alguém, transformando a vida das pessoas, dando atenção para as pessoas, dando energia de vida para as pessoas, você vai se sentir muito melhor. Pode ter certeza. Então, busque esse prazer.

Gê Buffara: [50:40] Que eu tenho, olha, quem me conhece sabe, eu gosto de surpreender. Então, às vezes, eu recebo notícias, eu começo a fazer ações. Por exemplo, esse dia do dentista que eu fui lá com ele, às oito e meia da manhã, nove e meia da manhã, parecia que eu tinha tomado duas garrafas de vinho da melhor qualidade, que eu estava embriagada de felicidade, é uma sensação...

Eron Falbo: [50:58] Nada é mais feliz que isso, né? É o sentimento de ser como Deus. A Kabbalah ensina que o objetivo da existência é você ser como Deus, você se elevar a ponto de agir como Deus. E o que Deus seria, nesse caso, seria o provedor absoluto. Não falta nada para Deus. Deus é luz pura e só está doando, doando, doando. Então, se você consegue pegar um pouquinho dessa onda e surfar um pouquinho dessa onda de, tipo, você ser parceiro de Deus em doação, não tem nada mais poderoso, nada mais prazeroso, nada mais divino do que esse processo. E quanto mais você doar, sem tirar a dignidade da pessoa, quanto mais doar, né? Porque, tipo assim, tudo bem, se você não tem tempo, dá dinheiro, ótimo, tá fazendo o que você pode fazer. Mas quanto mais você fizer, mais você tá dando, mais você tá transformando, mais você tá contribuindo.

Gê Buffara: [51:55] E aí eu fui perguntar pra ele, o mais legal foi o seguinte: quando ele botou um dente, eu falei, qual o seu sonho com dente? O que você sonha em comer, né? Porque, vamos combinar, você sem dente e com dente? E ele falou: amendoim. A gente já parou pra pensar o valor de comer um amendoim?

Eron Falbo: [52:11] Exatamente, exatamente.

Gê Buffara: [52:12] É, é sensacional isso, enfim.

Eron Falbo: [52:15] Alguém me disse um dia: você acha que você é pobre? Quanto que você daria pelo seu olho direito? Tipo assim, quanto que você receberia se alguém te pagasse 10 milhões de dólares, você daria pelo seu olho direito? Então você tem 10 milhões de dólares aqui, entendeu? Você tá usando o valor de 10 milhões de dólares. Pensa o tanto que você tem, se você parar pra refletir o quanto vale um pôr do sol. Essas coisas valem também, eu sei que uma pessoa que tá passando fome ou qualquer coisa, mas essas coisas têm que ser ditas, e têm que ser ditas pras pessoas que estão passando fome também, porque todos nós somos gratos pelo mesmo pôr do sol, e as pessoas podem crescer.

Gê Buffara: [53:03] O olho que deu um tiro no meu peito, né? Você sabe que eu sofri um acidente, fiquei seis meses cega. Então, eu perdi a visão. Perdi a visão quando eu tinha 18 anos de idade. Eu sei o valor do olho. Porque nascer cega é uma coisa, você perder a visão é outra.

Eron Falbo: [53:19] Então você é mais rica ainda, porque... Olha só. Olha o que Deus fez com você. Te deu o privilégio de saber mais ainda o seu valor, entendeu? Porque você pode olhar pra trás e falar, pô, eu passei um tempo... Que droga. Mas não, o seu olho vale mais ainda. Você tem mais olhos.

Gê Buffara: [53:34] Me deu mais olhos depois disso. Me deu muito mais visão. Nossa, aumentou minha visão maravilhosamente.

Como apoiar o Bee's of Love (53:43)

Eron Falbo: [53:43] Mas olha, a gente tá chegando no final da nossa hora, que eu tenho esse compromisso com o público de uma hora. E bom, dá pra gente continuar, né? Dá, dá. Muito. Mas eu gostaria de a gente falar um pouquinho, só para deixar registrado, como entrar em contato com você, o seu trabalho. Esse trabalho que você está fazendo, é no final do ano agora, de arrecadar doações para comida. Bom, você fala... Não lembro exatamente o que você me falou agora há pouco, mas a gente entrou em tanta filosofia que eu saí do estômago e agora estou na alma.

Gê Buffara: [54:24] Não, na verdade, assim, pra entrar em contato com a gente no Bees of Love, o site do Bees of Love, www.beesoflove.com.br Tem muitas informações, tem a maioria das informações, tudo que vocês quiserem tem lá. Pode se cadastrar, pode doar. A nossa campanha de Natal, na verdade, é o Natal encantado da fome. Porque acho que esse ano representou muito a fome. A fome está aumentando, já triplicou a fome, né? Mata-se, morre-se muita gente de fome, muito mais do que o Covid. A fome é um fato. Então a gente resolveu esse ano focar todo o nosso Natal na fome. Então a gente está tentando... A primeira meta de 6 toneladas de comida a gente já alcançou A segunda meta de 10 toneladas a gente também alcançou A terceira são 15 toneladas e a última são 20 toneladas Então, quem quiser acessar, ouve o Instagram no Visa Blanc ou no site, que tem todas as informações. E, cara, super, super obrigada. Eu amei o papo. Sabe? Delicioso. Eu comi... Eu sei que, cara, uma hora de cenão, porque menina aguenta muito. Mas vamos combinar, independente de live, a gente sentar e tomar uma... Com certeza. Tomar uma... Porque eu amei. É muito assustador. Adorei, adorei.

Eron Falbo: [55:36] É... Maravilha.

Gê Buffara: [55:37] Muito obrigada por você me ter convidado pra...

Eron Falbo: [55:41] É isso, é uma grande honra ter esses papos. Eu acho que esse é o papo mais importante que existe. Então é mais importante que política ou qualquer outra coisa que eu possa conversar. Então eu que agradeço pelos seus anos de serviço a você mesma e a sociedade civil brasileira. E conte comigo pra fazer qualquer coisa.

Gê Buffara: [56:02] Zangão, você vai virar um zangão, com certeza. Sacada Palmeiras, todo mundo.

Eron Falbo: [56:07] Pode ter certeza.

Gê Buffara: [56:09] É, tá bom?

Eron Falbo: [56:11] Pode ter certeza. Então é bizoflove.com, é isso?

Gê Buffara: [56:15] Bizoflove.com.br.

Eron Falbo: [56:17] Tá bom. E para terminar, a gente manda essa mensagem, eu mando pessoalmente para todos os meus amigos que estão assistindo, para ajudar essa instituição, essa mulher maravilhosa que está fazendo tão bem para tantas pessoas. E lembrarem sempre, enquanto a gente está ajudando o estômago, dando comida e tudo mais, que a gente sempre lembre da parte da dignidade, da parte da cultura, da parte da espiritualidade das pessoas, muito além da religião, a ver mais com a pessoa ter uma energia de vida, sendo capaz de buscar emprego, sendo capaz de viver e se amar, e amar a família, etc. Então, acho que essa é a mensagem da nossa conversa. E, mais uma vez, obrigado. Boa noite a todos. E vamos continuar em contato.

Gê Buffara: [57:12] Muito obrigada, gente. Olha, todos juntos, de mãos dadas. Um bom tour. A gente só é se a gente se juntar. Juntos, realmente, somos mais fortes. Beijo. Obrigada.

Eron Falbo: [57:25] Valeu, Gê. Super prazer. Tudo de bom. Tchau, tchau.

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