Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.
Eron Falbo: [0:05] Alô, alô. Sejam bem-vindos à live com a Marli Gonçalves. Boa noite, Marli. Tudo bem?
Marli Gonçalves: [0:12] Boa noite, Eron. Boa noite a todos. Que bom estar com vocês todos aqui.
Eron Falbo: [0:19] Estamos aqui hoje à noite, pessoal, com a gloriosa Marli Gonçalves, que é uma jornalista há mais de 40 anos, já passou pelas maiores publicações do Brasil e continua hoje tão ativa quanto nunca. Escreve artigos, continua escrevendo artigos, no mínimo, semanalmente. Ela é editora do site Chumbo Gordo, mantém ainda seu blog pessoal e, na história dela, integrou o primeiro jornal feminista do país, Nós Mulheres, quando ela tinha 17 anos, se eu não me engano.
Marli Gonçalves: [0:51] Dezesseis.
Eron Falbo: [0:52] Dezesseis anos. Atua em consultoria de comunicação e gerenciamento de crise ao lado do jornalista Carlos Brickman, na Brickman Associados. É autora do livro Feminismo no Cotidiano, e ela, para calar a boca dos críticos de feminismo, é uma pessoa extremamente alegre e agradável, ao contrário do que certas pessoas acreditam sobre feministas. Não é isso?
Marli Gonçalves: [1:15] Mentira. Era mentira. Não é assim. Elas não são assim. Nós somos muito legais. Ah, é?
Eron Falbo: [1:23] Você está com um grupinho de amigos exclusivos aí que não saem muito de casa.
Marli Gonçalves: [1:30] Não, brincadeira que nada. Nossa, o meu grupo, as mulheres que eu conheço, são mulheres fantásticas, mulheres que fizeram e fazem muitas coisas todos os dias, importantes, sobreviventes, porque todas nós somos sobreviventes. Você não tem noção como é que é complicado.
Eron Falbo: [1:53] O que você está bebendo aí, Marli?
Marli Gonçalves: [1:55] Vou começar. Estava te esperando. Eu fiz uma homenagem especial à nossa entrevista. Eu vou tomar um lindo vinho Periquita para a gente poder continuar.
Eron Falbo: [2:09] E vamos falar das periquitas também, né?
Marli Gonçalves: [2:12] Eu estava esperando você.
Eron Falbo: [2:15] Ótimo, ótimo. Agora estou te esperando aqui para a gente brindar e iniciar uma conversa entre amigos.
Marli Gonçalves: [2:23] Muito bem. Também a todos que nos assistem, muita saúde e alegria para todos.
Eron Falbo: [2:31] Saúde, saúde.
Marli Gonçalves: [2:33] Isso é que é uma entrevista gostosa.
Eron Falbo: [2:37] Eu passei a última semana dando uma estudada em feminismo. Sempre foi um tema que eu gostei bastante porque, bom, é uma força que vem dominando, vamos dizer, o discurso, pelo menos, das pessoas nos bares, nos jantares, nas câmaras legislativas do mundo inteiro. Então, acho que é um tópico hoje em dia que qualquer intelectual, qualquer jornalista deveria estar por dentro. E o seu livro é sobre trazer o feminismo para o cotidiano, a tirada do topo da pirâmide e trazer para o dia a dia. Eu, infelizmente, não consegui ler seu livro antes da entrevista, mas se você puder brevemente dizer qual é a proposta, o que quer dizer no cotidiano e por que é importante.
Marli Gonçalves: [3:45] Deixa eu te contar, Eron. Eu fui convidada para escrever esse livro numa coleção da editora Contexto. A coleção se chama Cotidiano. Até o primeiro dessa coleção foi o Pondé com Filosofia no Cotidiano. O meu livro é o segundo, Feminismo no Cotidiano. E aqui a gente até pôs um subtítulo que é o sênior do que nós estamos conversando sobre a importância do entendimento da questão feminina, que é bom para mulheres e para homens também. Eron, não vai haver humanidade, não vai haver democracia, não vai haver harmonia enquanto homens e mulheres não se entenderem no que é mais básico. Nessa igualdade de gêneros que nós temos, na condição feminina que muitas vezes necessita...
Eron Falbo: [4:40] Mas a gente tem igualdade de gêneros? O que você propõe como igualdade de gênero?
Marli Gonçalves: [4:47] O que eu proponho é que nós paremos, acabemos, chega, final, stop, com essa sociedade machista que é a sociedade brasileira, infelizmente, ainda. E olha, isso eu te dou como exemplo a questão do feminicídio, por exemplo. Você já vê por aí que não é normal, um país como o nosso, todo gentil, não é o país das pessoas gentis? Nós somos o quinto país que mais mata mulheres apenas porque elas são mulheres, que é o feminicídio, que é a forma como...
Eron Falbo: [5:21] Mas, Marli, como é que a gente sabe que é apenas porque elas são mulheres?
Marli Gonçalves: [5:25] Ah, porque você vê, normalmente são os companheiros e os companheiros, questões de ciúme. Não é o assassinato de mulheres, que é uma diferença muito clara, Eron, entre assassinato de mulheres. Eu estou andando na rua, eu sou assaltada e eu sou morta. Isso é o assassinato de mulheres. O feminicídio trata de questões das mulheres. Por que elas são mulheres? É que elas são mortas. Boa crianças, se uma criança é mulher, é porque é mulher. É uma cirurgia importante para que se diferenciasse.
Eron Falbo: [6:01] Mas como a gente fica sabendo disso? Como a gente fica sabendo que é porque elas são mulheres? Porque, na verdade, nunca ouvi isso antes, então estou curioso.
Marli Gonçalves: [6:09] Isso é uma lei a partir de 2015, que é a Lei Maria da Penha, que deixou claro isso. A gente fica sabendo pela própria investigação. Se um namorado mata sua ex-namorada, sua ex-esposa, é obviamente por uma questão de relação pessoal, de que ela era mulher. É muito claro, as investigações são muito claras.
Eron Falbo: [6:34] Mas continua sendo que a maioria dos mortos são homens, a maioria dos presidiários são homens, a maioria dos moradores de rua são homens. O que eu quero dizer com isso é que, quando mulheres morrem em relacionamentos, a primeira coisa que eu diria não é porque... Vem uma mosca aqui. Não é porque são mulheres, mas porque são amantes. Porque homens também, quando mulheres assassinam homens, não acredito que é porque são homens, mas porque elas amavam eles.
Marli Gonçalves: [7:13] Sim, mas nunca foi necessário que houvesse um masculinismo, não é? Porque o problema da questão da violência contra a mulher é uma das coisas mais graves.
Eron Falbo: [7:27] Mas há um masculinismo, porque... Não, eu não acho que seja masculinismo, eu acho que... Veja os números!
Marli Gonçalves: [7:35] É só você ver os números que você vai entender o que eu estou falando.
Eron Falbo: [7:38] Não, mas os números de homens morrendo não é muito maior?
Marli Gonçalves: [7:41] Não, não é. Nós não somos o país que mais mata mulheres. Mas o país que mais homens mata mulheres.
Eron Falbo: [7:49] Uma coisa é a gente ser o país que mais mata mulheres, isso aí é uma coisa ruim mesmo. A gente tem que ver por que está acontecendo isso e a gente tem que endereçar. Eu só estou falando isso se é uma questão específica de mulheres. Eu estou falando, enquanto isso, os homens estão morrendo nas guerras. Aqui no Brasil, estão morrendo muito mais do que mulheres.
Marli Gonçalves: [8:07] Eu não sei, eu não conheço.
Eron Falbo: [8:08] Não estão sendo, talvez, assassinadas por mulheres nos casamentos, né? Isso eu não tenho ideia nenhuma. Mas, assim, o que eu posso concordar com você é que, se a gente é o país que mais tem esse... Que mata mulheres nesse contexto que você falou, a gente claramente tem um problema. Será que é porque brasileiro é muito passional e muito quente, muito caloroso?
Marli Gonçalves: [8:34] E o que é pior, Eron, é que com a pandemia, as mulheres dentro de casa, essa convivência, a questão econômica séria como anda, tudo isso aumentou ainda mais o absurdo número de mulheres assassinadas. Eu tenho um dado aqui que foram mortas, no primeiro semestre no país, 648 mulheres vítimas de feminicídio. Portanto, são números precisos, foram feitas investigações, é feminicídio, não é assassinato de mulheres, elas não estavam andando na rua. É igual a questão do estupro, a gente precisa falar sobre todos esses assuntos. Mas voltando ao que eu falo do Feminismo no Cotidiano, o livro foi para mostrar o quanto o feminismo, Eron, e a todos que nos assistem, é simples.
Eron Falbo: [9:29] Estou te fazendo a pergunta não para te desafiar, mas para a gente poder entender e também para o público poder ficar na mesma página, porque acho que muitas mulheres que talvez não estudam feminismo, e muitos homens que, bom, porque são homens, têm menor inteligência, não conseguem acompanhar, e coisas do tipo, talvez não entenderia do mesmo jeito que algumas mulheres entendem. Você tá falando feminicídio e eu não tô entendendo exatamente por que o crime é porque elas são mulheres. Porque do jeito que eu vejo é: se você tem dois gays homens, dois homossexuais homens casando, e um mata o outro, ele não tá matando ele porque ele é homem, ele tá matando ele porque ele ama ele. Podia ser uma mulher, podia ser um avestruz, podia ser qualquer... Entendeu? O problema era por causa do relacionamento deles. O que eu não tô entendendo é como é que o feminicídio é determinado que é porque a pessoa é uma mulher.
Marli Gonçalves: [10:31] Porque a situação foi ficando tão grave, tão grave, que foi preciso fazer essa diferenciação. Primeiro, por conta das penas. As penas a que estão sujeitos os feminicidas. Tá certo? E porque era preciso diferenciar. Se você matar uma idosa que vive com você, é feminicídio. Você entende?
Eron Falbo: [10:55] Mas eu não entendi ainda por que é.
Marli Gonçalves: [10:58] Porque você está ligado a ela.
Eron Falbo: [11:00] Qual a diferença de você matar uma idosa e um idoso?
Marli Gonçalves: [11:03] É a ligação pessoal que você tem com essa pessoa.
Eron Falbo: [11:06] Mas por que é feminicídio? Por que não é homicídio familiar?
Marli Gonçalves: [11:12] É um homicídio. Sim, é um homicídio.
Eron Falbo: [11:15] Por que não é pessoal? Por que a palavra feminicídio? Qual a diferença de matar uma idosa e um idoso?
Marli Gonçalves: [11:21] Porque todas as questões que podem envolver essa morte são ligadas ao fato de ela ser mulher. As investigações e as penas são absolutamente mais claras. Hoje o homem não pode mais sair pela porta da frente quando é pego em flagrante. Tem toda uma questão de proteção necessária.
Eron Falbo: [11:43] Eu sei, mas isso foi por estatuto. O que eu estou tentando entender é de onde veio isso. Por que o nome é feminicídio?
Marli Gonçalves: [11:51] Porque ficou muito grave, Eron. Porque foi se agravando tanto a situação da violência contra a mulher que foi preciso que novas leis fossem criadas para que essa situação fosse delimitada, conhecida. Então, por exemplo, se eu te falo que 648 mulheres foram mortas no primeiro semestre por feminicídio...
Eron Falbo: [12:16] Não, mas Marli, você está falando por feminicídios, mas eu ainda não entendi o que é feminicídio. Qual a diferença entre masculinismo, qual a diferença entre você matar o idoso e idosa?
Marli Gonçalves: [12:26] Não, querido, o feminicídio é com relação às pessoas, a questão das relações pessoais.
Eron Falbo: [12:32] Então, mas eu tô falando, a relação pessoal eu tenho com o idoso, se tem um idoso que mora comigo que eu cuido dele, um homem masculino idoso, e eu assassino ele, e por que isso também não é grave? Por que isso não é uma estatística?
Marli Gonçalves: [12:47] Mas é claro que é grave!
Eron Falbo: [12:49] E qual a diferença? Qual a diferença da natureza entre um e o outro?
Marli Gonçalves: [12:53] É a diferença legal! É uma questão legal, querido!
Eron Falbo: [12:57] Mas isso é pós-fato. O legal se tornou assim, então como é que surgiu?
Marli Gonçalves: [13:02] Uma lei de 2015, aprimorando a lei Maria da Penha.
Eron Falbo: [13:08] Inclusive, vamos sair desse assunto, porque você tem tanta experiência com isso, que eu gostaria de entrar nas entranhas do sistema político e como que essas coisas acontecem. Por exemplo, essa Lei Maria da Penha. Como que é o processo? As feministas fazem lobby, vão pra rua e os políticos respondem. Como que é o processo de fazer uma mudança de lei pra beneficiar as mulheres?
Marli Gonçalves: [13:37] Coitadas de nós, se fôssemos depender de lobby, a gente estava frita, não tinha conseguido nada. Tem que ter muita luta. Porém, eu tenho 62 anos. Desde os 16 eu estou nessa batalha. E eu continuo falando das mesmas coisas de 50 anos atrás. As mulheres continuam ganhando menos em condições iguais. As mulheres continuam sofrendo violência. A questão do direito reprodutivo não é levada em conta. A gente tem dificuldade para tudo. Tudo tem que ter mobilização.
Eron Falbo: [14:12] Mas algumas coisas vocês conquistaram, né? O voto, vocês conquistaram algumas coisas. E a Lei Maria da Penha. Qual é o processo que faz isso acontecer?
Marli Gonçalves: [14:21] Sim, os escândalos, as mortes, o excesso de mortes e a visibilidade da questão feminina, que é o que estamos aqui, neste momento, conversando. É a visibilidade.
Eron Falbo: [14:35] E aí essa visibilidade cria uma pressão para os políticos reagirem?
Marli Gonçalves: [14:40] Sim, sim. Políticos e políticas. Cadê? Nós temos um número mínimo de mulheres nos parlamentos nos representando. Aí vêm os partidos e é criada uma lei de cotas. Nós não somos cotadinhas. Aí você vai ver o resultado, mulheres que foram candidatas e que nem elas próprias sabiam, por causa do fundo partidário. Então você cria monstrinhos, dizendo que você está ajudando a questão feminina. E não é assim, você tem que dar espaços, como esse que você está me dando, como as mulheres conquistam seu espaço nas suas atividades.
Eron Falbo: [15:17] Nesse caso, por exemplo, você conquistou, através de 40 anos de jornalismo, um espaço, quem sou eu, mas você conquistou não só aqui, mas em diversos outros lugares que você já cedeu entrevista, que eu passei aí também a semana inteira assistindo, tive esse privilégio. Mas uma coisa que eu vejo no movimento feminista moderno é muito choramingar para o governo, para outras pessoas darem a elas direitos, ou seja, uma busca por ser protegida por um fator externo, entendeu? Que isso me parece, na verdade, anti-feminista.
Marli Gonçalves: [16:01] As conquistas são reais, nós somos mais da metade da população, nós precisamos ser ouvidas, nós temos que ser ouvidas, tem de haver essa igualdade. Eu volto a te dizer, não haverá um país se essa igualdade não for considerada.
Eron Falbo: [16:18] A minha pergunta é: por que ser ouvida é mudar uma lei do governo? Por que ser ouvido não é pegar a Xuxa, a Beyoncé, essas mulheres que estão com influência e posição, e começarem a defender as mulheres? Por que é o governo que vai defender vocês e não vocês próprias?
Marli Gonçalves: [16:34] Querido, quem está te dizendo que a gente depende de governo? Ainda mais desse governo aí. Como assim depende do governo?
Eron Falbo: [16:40] Eu não estou te dizendo isso não. Eu estou falando o que me parece.
Marli Gonçalves: [16:44] Que foi preciso por causa do Código Penal. Até 1962, se a gente ficasse com a boquinha fechadinha, as mulheres tinham que pedir autorização para pensar para os seus maridos. E são conquistas que vocês, mais jovens, não têm noção do que foi importante essa briga que vem de muito tempo, do voto no começo do século passado, das primeiras ondas, das segundas ondas. Hoje nós estamos na terceira onda do feminismo. E hoje nós podemos falar muito mais de coisas que os homens não têm noção. Que sexualidade, não tem noção, desculpa, não tem. Direito ao aborto, que é fundamental.
Eron Falbo: [17:27] A gente não tem mesmo, com certeza não tem.
Marli Gonçalves: [17:29] Direito ao prazer. Hoje você tem a questão da sede sexual muito claramente colocada.
Eron Falbo: [17:36] A minha questão é só o seguinte: porque as mulheres são bem organizadas e as mulheres fazem as coisas muito bem-feitas, eu acredito que o feminismo tomou uma proporção muito grande. Mas eu acredito, por exemplo, no direito ao prazer, tem muito homem que também está sofrendo, ou seja, está sendo encaixotado de uma certa maneira socialmente, tanto os gays quanto os héteros, pessoas que são pressionadas a ser e a pensar de uma certa forma, só que o feminismo está defendendo as mulheres como se fosse uma questão de gênero. Para mim, por exemplo, eu não acredito que é uma questão de gênero, acredito que é uma questão de prazer. É uma questão que a gente deveria ser mais liberal e livre mentalmente sobre o prazer. Eu tenho uma amiga que eu entrevistei outro dia que o sonho dela é vender vibradores femininos que não parecem vibradores, então não é para botar um membro genital nas farmácias, mas ela quer vender esses liberadores para as mulheres se libertarem, né? Porque as mulheres, depois da era vitoriana e qualquer coisa assim, criaram... By the way, eu não acredito que é por uma sociedade patriarcal, mas muitas próprias mulheres criaram livros e livros educando mulheres a serem modestas e humildes, etc., e não buscarem o próprio prazer. Assim como homens foram estoicos, foram guerreiros e outras coisas, e criaram as próprias pressões sociais. E agora algumas mulheres são reprimidas, e eu acho que se beneficiariam, sim. Até eu me beneficiaria muito se as mulheres fossem mais abertas ao prazer. Você entende o que eu estou dizendo?
Marli Gonçalves: [19:18] Sim, entendo.
Eron Falbo: [19:18] O que eu estou propondo é que não é uma questão de gênero, é uma questão de prazer.
Marli Gonçalves: [19:22] Eu entendo, querido, mas o movimento feminista é um movimento político. Ele abrange muitas questões: trabalho, sexo, prazer, saúde, economia, tudo isso está no movimento feminista. Vocês têm que se organizar se vocês querem mais também, porque veja, eu tenho problemas, eu passei a minha vida inteira e passo diariamente por problemas, por ser, ter sido, estar e ser solteira e sem filhos. Uma decisão que eu tomei quando tinha 18 anos. E aí você é criado, você é citado, você é visto.
Eron Falbo: [19:57] Você é terrível, você sofreu pressão por isso.
Marli Gonçalves: [20:00] Você como cidadão de segunda classe, sabe? É muito difícil isso, isso é uma das questões. Olha, mas são centenas delas, a gente pode falar de centenas de assuntos. Não é uma questão de gênero. Porque, veja, o movimento gay está se organizando para conseguir...
Eron Falbo: [20:17] Sim, sim.
Marli Gonçalves: [20:17] Ninguém está querendo...
Eron Falbo: [20:18] Sabe qual é o problema disso tudo? Tem um problema bem claro sobre isso tudo: eu concordo que, pô, se as mulheres querem se defender, se organizem e... Entendeu? Influencie as leis, influencie as pessoas, fale sobre as coisas que são importantes para elas, usem pílula, façam aborto do jeito que querem, o que quiserem. O problema é que, no momento em que um homem começa a se organizar dessa forma, existe uma quebra social muito grande: derrubar essa organização não é tão bem visto, especialmente no mundo moderno, com universidades, vamos dizer, com a esquerda um pouco mais dominante do que a direita. Eu não concordo nem com a esquerda nem com a direita, mas eu não acho que um domínio político agressivo seja saudável para ninguém, nem para a esquerda nem para a direita. Mas, no momento em que existe uma sociedade intelectual que está derrubando os esforços de organização de certos grupos para favorecer outros grupos, porque esses são ditos desprivilegiados historicamente, isso causa um outro problema no futuro, que a gente já está começando a ver: a ascensão de líderes, vamos dizer, essencialmente vulgares, porém, às vezes, para algumas pessoas necessários, como Bolsonaro, como Trump, como Putin, Boris Johnson, que já não está tão assim.
Marli Gonçalves: [21:56] Todos os homens, hein? Tá vendo? Todos os homens.
Eron Falbo: [21:59] Sim, sim, todos os homens. Mas eu tô dizendo, isso é um push back, né? Tipo assim, de tantos anos, vamos dizer, de influência de desprivilegiados e minorias e tudo mais, aí certas pessoas que talvez não são tão desprivilegiadas, mas também são, porque assim, muitas pessoas falam, ah, brancos dominam a sociedade e qualquer coisa assim, mas ainda existe uma população enorme, a grande maioria dos brancos são desprivilegiados. Aí a gente pega uma pequena elite de brancos que são privilegiados e fala que brancos estão dominando. É um problema sério para os brancos que estão na rua, os brancos que estão desempregados, os brancos que não são estupradores. Eles não podem se defender, porque agora a sociedade inteira está caindo em cima deles por serem brancos. Não, a sociedade não permite.
Marli Gonçalves: [22:58] Você está exagerando. O que é importante é que os movimentos se organizem. Por exemplo, você está falando do movimento negro: a mulher negra... eu não sou negra, eu não posso falar como mulher negra, mas eu sei que a mulher negra é muito mais ainda oprimida. Então, é preciso um movimento de mulheres negras? É preciso, e eles existem e estão aí. É preciso que uma organização de mulheres negras consiga atrair mais outras mulheres negras? Sim, elas estão fazendo isso.
Eron Falbo: [23:27] Mas e o oposto? Todo mundo sabe, é auto-evidente que um movimento de homens brancos se organizando, todo...
Marli Gonçalves: [23:36] Mundo... Que homens brancos se organizando? Homens brancos se organizando me lembra a Ku Klux Klan, não é?
Eron Falbo: [23:42] É isso que eu estou falando. Mas é justo o que eu estou falando.
Marli Gonçalves: [23:46] Mas existe muitos homens brancos que estão desprivilegiados.
Eron Falbo: [23:49] Como é que eles vão se defender?
Marli Gonçalves: [23:51] Querido, se você é um branco, você vai pro movimento gay, se você quiser. Você vai pro movimento... Ué, mas você não foi gay.
Eron Falbo: [23:57] Você foi um homem heterossexual. E desprivilegiada.
Marli Gonçalves: [24:01] E o que você está precisando? Qual é a sua função?
Eron Falbo: [24:04] Eu estou bem. Eu estou falando sobre política. Eu estou bem, graças a Deus, e tenho muita gratidão pela sociedade patriarcal que a gente teve historicamente e nos deu essa capacidade de falar livremente, de conversar sobre os assuntos, de mulheres se organizarem, de negros se organizarem, de gays se organizarem. Eu adoro isso, adoro essa sociedade liberal que a gente vive. Eu só tô dizendo que, se continuar numa opressão de supostos classes privilegiadas, que não é uma classe privilegiada... Os brancos não são uma classe, entendeu? Os ricos são uma classe. Os brancos são uma cor de pele. E essa cor de pele tem muita gente na rua, muita gente nas drogas, muita gente se ferrando. E eles estão sendo, vamos dizer, colocados contra a parede e desprivilegiados por serem brancos, entendeu?
Marli Gonçalves: [24:58] Você podia criar uma ONG.
Eron Falbo: [25:01] Não podia, porque eles criaram o Ku Klux Klan.
Marli Gonçalves: [25:05] Não, é uma coisa, outra coisa. Não confunda isso, pelo amor de Deus, Eron. Quando o movimento feminista aqui no Brasil começou a se consolidar, isso foi por volta de 1975, a primeira vez. Foi quando, inclusive, eu conheci o movimento, o Ano Internacional da Mulher, instituído pela ONU. Olha, quando a gente começou na luta... Deixa eu até te contar, que eu até peguei para mostrar para vocês: o Nós Mulheres era um jornal da imprensa nanica. Nós fomos uma batalha, isso aqui é uma batalha, isso aqui foi uma briga, junto, no meio de uma ditadura terrível, com perseguição, com toda sorte de problemas que nós tivemos. Aí conseguimos muitas vitórias a partir desse momento. Eu não vou te dizer que nesses 50 anos nada aconteceu, não aconteceu, isso é visível. Agora, você não imagina o que foi já de início as relações. Você já nasceu dela, você já é de outra geração. A dificuldade, o embate, a mulher querendo ir trabalhar, a mulher precisando trabalhar em determinado momento, quando se precisou, quando a economia mostrou que sem ela no mercado de trabalho, sem sua força de trabalho, nada ocorreria. Todas essas coisas, as rodas, elas se movimentam de acordo com o samba.
Eron Falbo: [26:36] Eu quero te mostrar uma coisa aqui que acho que você vai gostar, uma coisa que eu vi ontem. Mas, bom, enquanto eu procuro aqui, deixa eu só te dizer uma coisa. Porque, assim, uma das razões que eu tô questionando certas coisas que você tá falando não é porque eu te questiono, só pra deixar claro. É porque eu acredito, acima de tudo, em equilíbrio, em uma justiça que tá acima até dos nossos tempos. Então, assim, enquanto eu cresci com essa... Injúria, vamos dizer, com o sentimento de injúria de ver pobres na rua, de ver negros desprivilegiados, de ver mulheres sendo, às vezes, maltratadas por homens machistas e coisas do tipo. Então, eu senti isso muito no coração e eu te aplaudo. Na verdade, quem sou eu? Porque você passou uma vida inteira lutando por coisas que te diziam respeito pessoalmente, mas não só você. Então, você libertou, você lutou por muitas pessoas, e eu acho que isso não só eu, como todas as mulheres aqui assistindo, ouvindo a gente, e muitos homens que adoram, como eu adoro, essa beleza de poder ter mais mulheres como... Qual o nome dela? Elizabeth, da Orgulho e Preconceito, da Jane Austen. O livro da Jane Austen, Orgulho e Preconceito, tem uma mulher que lê muitos livros e é maravilhosa, e ela se apaixona pelo Mr. Darcy, porque o Mr. Darcy é a única pessoa que consegue ver ela pelo valor que ela realmente tem como pessoa, além de ser mulher. Eu não digo acima de ser mulher, porque se ela não fosse mulher, o Mr. Darcy não ia gostar dela. Porque, afinal, ele é homem heterossexual. Mas eu tô dizendo, graças a Deus, a gente tá numa sociedade onde a gente tem mais dessas mulheres, onde nós, homens que valorizamos esse tipo de coisa, podemos ter a companhia de vocês. Podemos habitar esse mundo onde existem Mr. Darcy... Esqueci o nome da mulher, porque tem um pouquinho de machismo.
Marli Gonçalves: [28:55] Eron, na realidade, muitas morreram e tombam todos os dias nessa briga. Nós temos heroínas que fizeram nossa história, fizeram a história também ao lado dos homens. A gente só precisa de reconhecimento. É muito claro isso. Porque muitas vezes, um homem e uma mulher, o homem é reconhecido e a mulher é esquecida em um canto.
Eron Falbo: [29:19] Isso é muito horroroso. Historicamente, isso foi verdade mesmo. Os grandes líderes e até as mulheres que participavam da grande cúpula de liderança não eram simplesmente reconhecidas. Mas eu achei essa foto aqui de uma mulher no começo do século 20, indo de patinete para o trabalho.
Marli Gonçalves: [29:41] Que bárbaro, que bárbaro.
Eron Falbo: [29:42] Imagina, 1916.
Marli Gonçalves: [29:44] Que bárbaro, hein, bárbaro. Eu aqui, com 12 anos, estava em cima de uma motocross. Para desistir da minha família.
Eron Falbo: [29:54] Marli, você tem um feminismo muito saudável, que eu acho que é, porque você coloca, vamos dizer, imita a não agressão do feminismo. Você coloca como se fosse: não, a gente está aqui pacificamente lutando pelos nossos melhores interesses, e muitos homens também estão, e são bons também, e também gostam da gente, porque muito do feminismo, especialmente da terceira onda, é extremamente agressivo, das universidades modernas, e é um feminismo castrador. Eu sinto isso como homem, estou te falando assim, a ponto de, às vezes, ser paralisante, você estudar em ciências humanas, em faculdade, por exemplo, porque às vezes você não consegue colocar suas opiniões sinceras e honestas. Por exemplo, você está vendo o jeito que eu me visto? Eu sou acusado de ser bolsonarista por causa do jeito que eu me visto.
Marli Gonçalves: [30:56] Que bonito, hein? Olha, tudo elegante, gente. Muito legal. Eu não diria jamais isso.
Eron Falbo: [31:00] E já fui diversas vezes acusado. E eu nem voto, porque eu sou monarquista. Eu não voto, eu boicoto o voto. E eu acredito que o Bolsonaro é um ser humano vulgar e com baixa cultura. Ao mesmo tempo, eu gosto da política econômica do Paulo Guedes e tudo mais. E pra mim é um assunto complexo, então eu não tô falando nem uma coisa nem outra. Mas eu tô dizendo, eu tô longe de ser um bolsonarista.
Marli Gonçalves: [31:30] Se você estivesse com alguma coisinha verde e amarela, eu até diria que você é Bolsonaro. Mas é que é branco, bonitão. Aí não dá, mas jamais diria isso de você. Jamais. Diria até que você era mais ligado ao João Dória.
Eron Falbo: [31:45] Minha família até que era amiga dele, infelizmente, mas estou totalmente fora também. Fechar o Estado de São Paulo para ganhar votos, não acho que é uma coisa de uma pessoa honesta.
Marli Gonçalves: [31:59] Mas vocês também estudariam bem. Eu estudei com o João. Nós fizemos a faculdade juntos. Eu fiz FAAP, e ele também é formado na FAAP. O João, sim.
Eron Falbo: [32:10] Então, o meu pai era muito amigo dele. Eu fui hoje na casa do meu pai buscar... meu pai faleceu faz um mês e meio. Obrigado. Outro dia a gente conversa sobre isso, mas foi uma coisa boa, ele estava sofrendo muito. Fui lá buscar pertences dele e achei hoje mesmo um álbum de fotos só dele e do João Dória, num churrasco. Coincidentemente, viu o que você estava falando?
Marli Gonçalves: [32:40] Tá vendo? Tô com certeza que todo mundo que está nos assistindo aí concorda comigo, que não diríamos... Imagina, o que tem a ver com o bolsonarismo? Você não falou nenhuma bobagem, você não falou nenhuma ignorância, você é super educado, você visivelmente tem boa criação, eu realmente jamais diria, mas eu tenho certeza que o povo vai concordar, que se fosse para você ser mais ligado, seria o João Dória, até por hábito, por coisa, nada a ver, porque eu sou ligado. Pode ser. Não é nada ruim isso, não. Entendeu? O João é uma pessoa muito inteligente, fez grandes coisas.
Eron Falbo: [33:19] Eu já estive na casa dele e tudo mais, mas eu era criança e não tive a oportunidade de conversar com ele. Então, eu confesso que eu falo mal dele. Até peço desculpas, João, se você estiver assistindo ou se você ouvir em algum momento, porque as nossas famílias realmente eram muito próximas. O meu tio Eron é extremamente amigo do pai do João. E cumpro as desculpas de antemão, mas eu julgo ele como um político, e todo político está exposto: quando você se coloca pro jogo, pra ser governador de um estado, você está se colocando pro jogo pra ser criticado e tudo mais. Então, qualquer palavra que eu já falei é sobre ações políticas que eu não entendo, que realmente te digo que eu tô em outro patamar, mas só isso.
Marli Gonçalves: [34:08] Mas, se me permite, eu acho que seria um excelente entrevistado seu, falando super sério. Falando legal, porque realmente é uma questão de pensamento, de contato, de entender. Nossa, perfeito.
Eron Falbo: [34:20] Ah, que legal, que legal. Boa dica. E você já conversou com ele sobre essa coisa de feminismo ou alguma coisa assim?
Marli Gonçalves: [34:27] Não, não, não, João, eu tive contato durante muito tempo com ele. Ultimamente não, mas sei que ele vai pensar muito parecido. Não sei se publicamente, porque uma coisa... a gente não pode falar o que pensa, sabe?
Eron Falbo: [34:40] Muitas vezes, não é? E às vezes a gente tem que ser, pelo menos temporariamente na política, temporariamente o oposto do que a gente seria, para conquistar certos passos.
Marli Gonçalves: [34:52] Eu, como jornalista, sou de oposição já por nascença. Então eu não tenho partido, não sou do A ou do B. Me sinto muito à vontade de falar de tudo o que eu acho ruim. Tudo o que eu acho ruim.
Eron Falbo: [35:05] E você não se considera de esquerda?
Marli Gonçalves: [35:08] Querida, eu sou de esquerda, mas eu não sou militante de esquerda. Não, pelo amor de Deus. Até eu acho...
Eron Falbo: [35:16] Marxista.
Marli Gonçalves: [35:17] Eu não aguento ver. Eu entendo tudo de marxismo, estudei. Eu tenho amigos comunistas maravilhosos ligados ao Partido Comunista do Brasil, especialmente. Agora, quando as pessoas me acusam, eu sou acusada, imagina, qualquer coisa que eu escrevo contra o Bolsonaro eu viro uma comunistazinha, comunistazinha. É assim que é chamado, comunistazinha.
Eron Falbo: [35:38] Eu acho que isso é muito errado em ambos os lados. Mas isso é política, né? Política sempre foi isso. Desde Roma Antiga, você pega Marco Antônio lutando contra o Otaviano, e inventava história e acusava sobre absurdos, etc. Então, eu acho que também a gente exagera um pouco em escolher lados.
Marli Gonçalves: [36:02] Lado? Não existe mais isso.
Eron Falbo: [36:04] Isso é o político que tem que fazer. Você não concorda? Político tem que escolher lado para tentar manipular as massas. Mas intelectual escolher lado, eu acho uma pequenez muito grande.
Marli Gonçalves: [36:16] Não existe coisa mais ultrapassada que essa história de esquerda e direita.
Eron Falbo: [36:22] Para mim é muito claro que o que existe é alguns protocolos, algumas campanhas. Posições de esquerda são relevantes e devem ser levadas em consideração, e a gente deve votar em pessoas que defendem elas. E algumas de direita, por causa da dominância extrema da esquerda nos últimos anos, foram obscurecidas e foram deixadas de lado e precisam voltar à tona na discussão. E precisa haver fórum para hospedar essas discussões. E agora, no momento que você, como universitário, fala: 'não, eu sou de esquerda, e qualquer pessoa vestida de terno aqui é bolsonarista', aí eu vou lá linchar a pessoa, você vai perder muita cultura, né? Porque existem muitas pessoas de terno que usaram terno por causa de uma certa cultura.
Marli Gonçalves: [37:17] Que são comunistas. Que não é um problema nenhum ser comunista, mas eu já tenho tanto apetrecho, né? Eu já sou libertária, feminista, solteira, meio exótica, já passo por tudo, né? Só faltava ainda ser comunista. Então eu falo pra pessoa: vai estudar, quando você entender o que é comunismo, você volta aqui.
Eron Falbo: [37:42] Pode fazer uma pergunta um pouco indiscreta, talvez, que não se faz, mas acho que tem a ver com a nossa conversa. Você é heterossexual? Você tem identidade de gênero? Não, eu sou heterossexual.
Marli Gonçalves: [37:55] Eu sou heterossexual, viu? Você não vai... Eu brinquei até na minha última crônica: eu machuquei o pé, virei o pé atravessando a rua aqui, e tal. Fui ao hospital ver se estava tudo certo, me receitaram um anti-inflamatório sublingual. Eu brinquei que, nessa pandemia, foi a coisa mais erótica.
Eron Falbo: [38:20] Sublingual, quando a gente está falando de sexualidade, parece bem sexy.
Marli Gonçalves: [38:25] Não é uma coisa erótica? Você levanta a língua e fica lá, para você ter uma ideia de como está a situação. Mas eu sou hétero, assim, querido.
Eron Falbo: [38:37] E como é que está a sua situação social? Você está saindo de casa? Como é que você está?
Marli Gonçalves: [38:42] Eu estou saindo absolutamente só quando necessário. O que quer dizer? Ir ao mercado, eu vivo sozinha, preciso fazer as coisas, ir ao médico, dentista, buscar meu irmão e passear. Sempre em lugares absolutamente vazios, sem aglomeração, sem nada.
Eron Falbo: [39:01] Eu já ia te convidar para tomar um vinho ali no Ash Café para a gente continuar essa conversa.
Marli Gonçalves: [39:06] Vamos lá, vamos lá, aqui perto de casa, estou aqui do lado. Você, quando vier em São Paulo, se você não falar comigo, eu vou ficar muito brava. É verdade, é verdade.
Eron Falbo: [39:15] Vamos marcar. Eu esqueci que você estava em São Paulo. Para mim, todo mundo é do Rio aqui. Eu estou conhecendo tanta gente aqui que eu esqueço.
Marli Gonçalves: [39:23] Mas você vem para o SESC daqui, que é meu vizinho.
Eron Falbo: [39:27] Ah, tem aí?
Marli Gonçalves: [39:28] Sim, na Lorena. Eu chego rapidinho. Daqui que começou.
Eron Falbo: [39:32] Era o Jardins, na Lorena?
Marli Gonçalves: [39:34] É, lá na Lorena.
Eron Falbo: [39:36] Que é praticamente a mesma coisa que o Leblon. Devia ter um portal saindo do Leblon e indo para o Jardins, que é a mesma galera, né?
Marli Gonçalves: [39:43] Eu tô aqui, eu tô nele. Deixa eu te falar, eu gosto de um charuto também, tá?
Eron Falbo: [39:48] É mesmo?
Marli Gonçalves: [39:49] Então já traz um bom charuto. Aproveita e traga um bom charuto.
Eron Falbo: [39:53] Você sabe da campanha do Edward Bernays? Edward Bernays era sobrinho do Sigmund Freud, né?
Marli Gonçalves: [40:00] Sim.
Eron Falbo: [40:00] Ele estudou psicologia com a Anna Freud, né? E ele é o pai do PR, né? Que é entre assessoria de imprensa e relações públicas. E ele, acho que não lembro bem de que época, mas era na época da primeira onda, se não me engano, eu não sei exatamente as datas do feminismo, mas era na época das passeatas em Paris, em Londres, buscando o sufrágio.
Marli Gonçalves: [40:36] Primeira onda.
Eron Falbo: [40:38] Então, ele foi pra Lucky Strike, que era cliente dele, baseado em Freud, e sugeriu que no final da passeata em busca do sufrágio, as mulheres tirassem do bolso um Lucky Strike e colocassem na boca, porque assim eles iam conquistar todo o público feminino. Aí isso era baseado em quê? Era baseado na obsessão por falo, que Freud julgava que as mulheres tinham. Olha só que bizarro. Então o Edward Bernays pegava, eu tô falando isso porque você falou do charuto.
Marli Gonçalves: [41:19] Isso.
Eron Falbo: [41:21] By the way, não é ser machista nem feminista. Existem padrões mentais da psique humana que são reforçados. E, bom, alguns, obviamente, têm a ver com o genital biológico e a influência disso e etc e tal, e outros por reforço social, né, consequência dessas coisas biológicas. Então, eu não tô dizendo isso pra falar mal de mulher de maneira nenhuma. Eu tô dizendo isso pra... Olha, tô me defendendo das outras feministas que vão ouvir, não é de você, não. Então, olha que bonito isso: o Edward Bernays, que é o sobrinho do Freud, usou, vamos dizer, o fato de que ele sabe um pouquinho de psicologia para usar as mulheres, para vender cigarros para a Lucky Strike, mas que no fundo foi um grande statement de liberdade das mulheres, de estarem fumando e dominando o falo com a boca. Publicamente.
Marli Gonçalves: [42:28] Marqueteiro. Marqueteiro bom, né?
Eron Falbo: [42:30] Genial.
Marli Gonçalves: [42:31] Ao mesmo tempo, no começo dos anos 70, teve um cigarro que se chamava Chanceler, que era muito masculino e que era 'o fino que satisfaz'. Está vendo? Dentro dessa história aí, isso é bom para homens.
Eron Falbo: [42:48] Para homens como eu, que não sou tão privilegiado. Foi famosa.
Marli Gonçalves: [42:56] Pedrinho Aguinaga, um dos maiores modelos que o país já teve, era o modelo dessa campanha. Era chanceler, "o fino que satisfaz". Foi essa coisa assim ligada, né? O marketing usa muito mulheres. No meu livro, por exemplo, tem um capítulo meio mais morado, há uma propaganda que tinha na televisão, ultimamente sumiu, que era "mulheres fortes transpiram", era uma propaganda do Rexona. E aí botava umas mulheres, sabe aquelas...
Eron Falbo: [43:28] Que você briga de feminista?
Marli Gonçalves: [43:30] Aí deve ser feminista, porque é uma mania.
Eron Falbo: [43:33] Deve ser caminhoneiro.
Marli Gonçalves: [43:34] Que toda feminista tem que ser grossa, tem que ter pelo.
Eron Falbo: [43:39] Lésbica, caminhoneira.
Marli Gonçalves: [43:40] Gente, eu tenho pelo onde eu quiser, eu faço o que eu quiser, eu sou como eu quiser. Mas não é uma coisa, tudo se generaliza.
Eron Falbo: [43:48] E eu não tenho pelo onde eu quiser, tá?
Marli Gonçalves: [43:51] Tá vendo? Entendeu? Então eu até dedico um capítulo, porque a mulher na propaganda hoje está muito melhor. Mas a mulher na propaganda, ela vendia cerveja pelada. Era não. Você vê propaganda de carro, agora que as mulheres estão fazendo propaganda de carro.
Eron Falbo: [44:19] É, mas sabe uma coisa que eu gosto muito? Tipo assim, eu concordo que as propagandas da Brahma... Tipo, é ridicularizando a mulher, na verdade. Desculpa, mas deixa eu dizer uma coisa: isso tá ridicularizando o homem, né, mais que a mulher, porque se o homem vai comprar mais cerveja por causa daquele tipo de propaganda, o que tá mal na fita é o homem.
Marli Gonçalves: [44:38] O homem, mas sempre quem tá bom...
Eron Falbo: [44:40] Na fita, então, tá certo, tá certo. Mas se as mulheres podem ganhar uma grana extra dando um comercialzinho banal, aí tá bom para as mulheres e ruim para os homens, entendeu?
Marli Gonçalves: [44:50] Querido, é isso. Claro, mas cada uma faz o que quer. Lembra que a gente conversou, por exemplo?
Eron Falbo: [44:56] Mas não é feminista de terceira onda, Marli, desculpa. Não, você tem que conversar muito. Você tem que, ao invés de fazer palestra para mim, que já estou concordando com você 100%, fazer palestra para as feministas de terceira onda aí, que odeiam homens muitas vezes.
Marli Gonçalves: [45:10] Pois é.
Eron Falbo: [45:11] Que pressionam os homens. Homens tão sofrendo em termos psicológicos, de buscar mais terapia do que nunca buscaram.
Marli Gonçalves: [45:21] Olha!
Eron Falbo: [45:22] Tá havendo um problema. Eu tô falando que eu cresci, vamos dizer, colocado contra a parede pela terceira onda, né? E eu sempre fui uma pessoa muito aberta, intelectualmente aberta, e tava disposto a ouvir. Se uma patricinha sabe de vestidinho, não sei o que, começasse a falar de política, eu sorria. Eu ainda sorrio. Eu falo: pô, eu adoro a caixa quebrando, entendeu? A caixa se desfazendo na minha mão, adoro isso. Então, pra mim, sempre foi uma beleza isso. E por isso que eu fico puto quando me chamam de bolsonarista. Tipo, as pessoas parecem que não gostam mais de coisas fora da caixa. Não gostam de coisas que estão transcendendo, que são, né... Se você fosse ver Jean-Paul Sartre aqui conversando, ele é um homem de extrema elegância, ele ia ser acusado de ser bolsonarista.
Marli Gonçalves: [46:19] Pelo amor de Deus, mantenha a sua elegância, não vá nessa. Entenda que a gente, quando começa os movimentos, quando começa a luta, como todo adolescente, é sempre muito mais rigoroso. Em determinados momentos, é necessário uma luta específica, ser mais rigorosa. Mas isso não é... Você vai entender aos poucos: o feminismo é um movimento político. Essas coisas que você está vendo, várias manifestações um pouco mais pesadas, muitas vezes... são pessoais. São pessoais e são para chamar atenção. A mulher não está na imprensa, Eron.
Eron Falbo: [46:56] São políticos, muitas vezes.
Marli Gonçalves: [46:57] São plataformas políticas. A mulher só está na imprensa quando é assassinada. É igual índio. Eu sou jornalista, sei como é que se tratava isso no jornal, no grande jornal. Melhor índio morto do que índio bom.
Eron Falbo: [47:14] Bom, mas a gente vai ver em breve como teve essa ascensão muito rápida e dominante de, vamos dizer, defender os pobres oprimidos, com todo respeito aos pobres oprimidos que precisam ser defendidos. Daqui a pouco, os brancos e tudo que a gente falou, que existem milhões e milhões pelo mundo de pessoas, existem ricos que perderam tudo, que hoje estão na desgraça total, que estão sendo abandonados, deviam ter ONGs, concordo com você, defendendo essas pessoas também, mas a gente infelizmente vai ter que esperar até eles virarem os pobres oprimidos, porque daqui a pouco quem vai estar na mídia vão ser as mulheres, vão ser os gays, vão ser os negros, e já é assim, desculpa, mas já está virando, e estão na mídia mainstream, mas isso é dominante, e daqui a pouco o pobre oprimido vai ser essas outras pessoas que estão sendo esquecidas hoje em dia, e vai ter um equilíbrio. Então eu concordo com você que não é tão dramático assim, a gente não precisa fazer guerras sobre isso e tudo mais, mas também as pessoas de esquerda precisam entender por que o Trump, o Bolsonaro e o Putin estão sendo eleitos. Precisa entender por que existe essa ascensão. Então, a gente tem que ser mais razoável, menos agressivo, dar mais vazão à liberdade de expressão.
Marli Gonçalves: [48:44] Agora, irmão, o problema também é: um país onde a educação está abaixo da terra a três dedos. Um país que não liga para a educação, um país que não educa seus filhos, um país que não educa sua população, um país que não dá esse suporte. Então, tudo parece radical. E esse politicamente correto, que parece bonito, às vezes a pessoa nem pensa isso. Mas por que é politicamente correto? Ou você vai seguir um líder? Seguir líder, gente. Quem conhece alguém de direita mesmo? Você, desculpa, você se coloca claramente como monarquista. Você conhece monarquistas, você pode não aceitar o que ele está falando, mas ele estudou, ele sabe o que está falando. O diálogo é um diálogo claro, é um diálogo correto. Eu conheço pessoas maravilhosas, da direita, da esquerda.
Eron Falbo: [49:40] Aberto no sentido de que eu quero ouvir qual que é a sua queixa, eu quero ouvir qual que é a sua oposição, porque eu não quero acreditar numa mentira, então eu tô aqui pra ouvir a sua posição. Você hoje, Marli, me deu uma aula, porque assim, eu me preparei pra me posicionar como homem. Eu não tô falando como masculino, estou falando eu como um ser humano que nasceu biologicamente homem e me identifiquei sexualmente como homem, e etc e tal, identidade de gênero, sexual, tudo que você quiser, como homem. E eu sofri bullying, entendeu? De mulheres. Eu não estou reclamando disso porque eu sou homem.
Marli Gonçalves: [50:23] E homens não reclamam.
Eron Falbo: [50:26] Não, não é que homens não reclamam. É que indivíduos, seres humanos com força e independência pessoal, não precisam recorrer a terceiras entidades para se defenderem. Então eu estou me defendendo eu mesmo no próprio programa. Só que eu achei que você ia ser muito mais difícil do que você é. Aí você tá meio desarmando com a sua cordialidade, com seus sorrisos e com a sua flexibilidade, que eu acho que é isso que falta, não em feministas. Falta isso no mundo moderno. Falta isso nos universitários modernos, nos jovens modernos, que eles não querem a verdade, eles não querem se transcender, se melhorar. Eles estão tão inseguros que eles querem se colocar de uma forma absoluta, e a única coisa que eles querem é isso: eles querem mostrar que eles sabem alguma coisa, quando na verdade eles leram uma passagem ou outra sobre algum assunto.
Marli Gonçalves: [51:22] Fica uma coisa muito chata. Eu até brinco, porque falo assim: gente, como é que a direita não reage de ser chamada com esse Bolsonaro? Bolsonaro não é de direita. Bolsonaro é apenas um ignorante, é um tosco, como você falou.
Eron Falbo: [51:36] Ele é tão populista quanto Lula.
Marli Gonçalves: [51:37] Ele nunca estudou. Durante 28 anos no Congresso que eu acompanhei, não fez uma coisa que preste. Foi um acidente de percurso e a gente está pagando por isso.
Eron Falbo: [51:49] Eu não acho que foi um acidente pessoal, é só um adendo. Eu acredito que foi, vamos dizer, uma resposta aos exageros da esquerda neomarxista. Sinceramente, eu sei que muita gente vê isso como bolsonarismo, mas eu vejo claramente que a socialdemocracia brasileira, junto com o comunismo brasileiro, junto com a esquerda brasileira, é bem extremista. Cadê a esquerda?
Marli Gonçalves: [52:22] Quem que é a esquerda brasileira? Você não vai me falar que é o Lula, né?
Eron Falbo: [52:25] Não, também é claro que é o Lula. É o Lula e outras pessoas. E Paulo Freire e intelectuais.
Marli Gonçalves: [52:32] Desculpa, Paulo Freire, você tem que entender que foi um dos maiores educadores desse país. Eu posso falar porque alfabetizei em favelas com o método Paulo Freire.
Eron Falbo: [52:43] Mas você tem uma concepção de educação diferente da minha.
Marli Gonçalves: [52:46] Esquerda.
Eron Falbo: [52:48] Mas a gente não precisa entrar nesse assunto que eu acredito que a gente vai...
Marli Gonçalves: [52:52] Eu só não aceitei o Lula de esquerda, sabe?
Eron Falbo: [52:55] Ah, não, mas ele é um demagogo. O Lula, eu não acredito que ele é um intelectual de esquerda. Ele é um representante fantástico do movimento. Então, assim, eu concordo com você que ele não é uma representação fidedigna de uma esquerda intelectual, concordo plenamente. Acontece que a esquerda intelectual sim foi vagarosamente dominando o país, aos poucos, e hoje em dia chegou a um ponto que, quando digo que é demasiado, não estou dizendo nem questão de entrar nos detalhes do que eu acredito... É só questão de equilíbrio e de abertura para outras possibilidades.
Marli Gonçalves: [53:37] Você colocou o Fernando Henrique Cardoso nessa lista?
Eron Falbo: [53:43] Coloco. Porque ele já tá mais válido, né?
Marli Gonçalves: [53:47] É, mas foi um grande governo, né?
Eron Falbo: [53:49] Sim, sim, mas eu coloco nessa lista. Mas eu não tô julgando bons ou maus governos, porque isso a gente tem que entrar em detalhes que não é a nossa praia.
Marli Gonçalves: [54:01] Aí não é o momento, nós não combinamos o encontro pra isso.
Eron Falbo: [54:04] Quando a gente beber vinho juntos em São Paulo, no Excafé, a gente entra nos detalhes disso. Mas o que eu quero dizer é simplesmente que houve o pêndulo. Eu jogo tênis, por exemplo. Eu recentemente cheguei em segundo lugar no campeonato. Eu fiquei muito impressionado comigo mesmo, mas eu nunca tinha feito isso antes. Aí o que aconteceu? Já que eu cheguei em segundo lugar no campeonato, eu comecei a me achar. Aí eu comecei a jogar de uma forma meio descuidada, entendeu? Então eu acho que em qualquer dominância de uma certa ideologia, de uma certa vertente, começa a haver deslizes, começa a haver corrupção inerente à própria dominância. Quando você vê assim, eu acho o bolchevismo uma das piores coisas que aconteceu com a humanidade, depois a gente pode conversar sobre isso, mas o bolchevismo no começo até tinha um pouquinho de ideologia passional, mas o que virou o bolchevismo claramente foi uma máfia corrupta, babaca, homicida e tudo que você pode dizer de mal, entendeu? Então, eu tô dizendo, eu não gostava nem disso, mas o que virou depois... Então, é um exemplo, tipo assim: quando você domina demais, você perde, é o problema do monopólio, né? É o problema do governo brasileiro. O governo brasileiro é totalitário, então tem impostos demais. Então, o governo brasileiro controla, não em termos de censura, mas controla quem ganha verba pra cultura, quem vai ganhar verba pra isso, pra aquilo. E o que acontece é que os tentáculos estão... Aí o que acontece? É monopólio. Então, aí relaxa. Então, a gente tem... Para cada R$10 gasto, um é usado, entendeu? Então, é isso que aconteceu, acredito, com o centro-esquerda e esquerda brasileira. Depois do regime militar, que estava certo de cair, houve uma dominância completa do centro-esquerda e da esquerda dentro do governo. Sarney e Collor?
Marli Gonçalves: [56:18] Sarney e Collor?
Eron Falbo: [56:19] Sarney e Collor? Pelo amor de Deus! Não, eles são a favor de TFP, de tradição, família e propriedade. Mas em termos econômicos, são de esquerda. Em termos de política social, etc., são de esquerda. Então, assim, também essa coisa de esquerda e direita é difícil. A gente tem que definir.
Marli Gonçalves: [56:38] Acho que a gente tem que resumir.
Eron Falbo: [56:40] Mas são da mesma cúpula, é isso que eu quero dizer. São da mesma galera. Um ajuda o outro, etc. E é isso que causou o monopólio, entendeu? E é a resposta disso ao Bolsonaro, que é uma pessoa que era um marginal dessa cúpula, que todo mundo marginalizava, até que, de repente, com razão, por ele não ser competente na área dele, etc. Mas era alguém que estava disponível e foi a resposta, entendeu?
Marli Gonçalves: [57:07] Se Deus quiser, logo voltará. O que a gente tem que chegar à nossa conclusão é que as ideologias, elas se perdem mesmo. Você mesmo deu vários exemplos de todos os lados. Vem a boa vontade. É isso que a gente tem que tomar cuidado. E sempre nesses movimentos que cuidam de comportamento, a gente pode estreitar muito mais as relações. Eu falo com você, que é monarquista, e você fala comigo, que sou de esquerda. A gente não vai se matar. Nós temos muitas coisas em comum. Nós vamos sempre poder conversar.
Eron Falbo: [57:41] Contanto que a gente seja razoável, que a gente seja como as pessoas eram, pelo menos intelectualmente, no século XIX, que era um humanismo liberalista.
Marli Gonçalves: [57:49] Eu te respeito.
Eron Falbo: [57:51] Exatamente, eu te respeito como um ser. Antes de você ser mulher, antes de você ser brasileira, antes de você ser católica, não sei que religião, você não deve ser de religião nenhuma, como... Todas? Você é de todas?
Marli Gonçalves: [58:06] Todas.
Eron Falbo: [58:07] Todas ou nenhuma?
Marli Gonçalves: [58:08] Todas, é todas.
Eron Falbo: [58:10] Tá certo. E eu respeito isso também. E respeito a sua posição política, porque eu sei que eu não tenho todas as respostas. Então, se eu não tenho você do outro lado da conversa, aonde estão as respostas? Entendeu? Se você acredita que monarquia é ridículo, como é que eu vou me proteger de mim mesmo? Das minhas próprias loucuras? Como é que eu vou me proteger dos meus exageros? Dos meus extremismos? As pessoas hoje em dia não estão pensando nisso. Elas estão pensando: deixa eu me proteger dos outros, porque os outros estão errados e eu estou certo.
Marli Gonçalves: [58:46] Esse é o problema. Isso é uma coisa muito importante da gente falar. Desde o começo, mesmo quando eu escrevi o livro, como eu escrevo, eu não escrevo para os iniciados. Eu escrevo porque eu quero puxar você, eu quero que você entenda melhor de feminismo. Eu quero você do meu lado.
Eron Falbo: [59:05] Você quer contribuir para o diálogo.
Marli Gonçalves: [59:07] Eu quero todas essas mais de 100 pessoas que estão entrando na nossa conversa, que elas entendam. Eu não quero afastar você. E talvez essa crítica que você faça é porque os grupos continuam se fechando. A esquerda continua falando com ela própria. Ela se fecha. Então é sempre com os seus iguais. Eu quero falar com mais gente. Eu quero entender o que você está falando. Eu quero entender o que o outro está falando. Eu quero saber o que você está pensando em fazer. Eu quero ver o futuro. Eu quero saber como é que foi o passado. Eu quero poder ter a liberdade de escolher os meus passos. E passos que não param. Só param quando você morre. Entendeu? Você pode mudar de opinião e por que não?
Eron Falbo: [59:57] As suas palavras são as minhas palavras e assim acabou nosso horário porque a gente tem compromisso com o podcast, infelizmente. Mas, ao mesmo tempo, foi perfeito. A gente fez um diálogo bonito aqui entre amigos que acabaram de se conhecer. Mas, claramente, a gente vai ter uma amizade vitalícia, se Deus quiser. Ou se todos os deuses e não deuses quiserem.
Marli Gonçalves: [1:00:21] Se acompanhando, né? Vamos nos acompanhar. Vamos fazer as coisas.
Eron Falbo: [1:00:25] Vamos nos acompanhar. Com certeza. Eu queria te agradecer imensamente, não só pelas suas décadas de trabalho sincero. Eu digo pelo bem da humanidade, não pelo bem das mulheres, porque eu não acredito que se você está defendendo feminismo, você está fazendo pelas mulheres. Eu acredito que você está fazendo porque você vê um desequilíbrio, um problema que todos nós nos beneficiaríamos se a gente resolvesse, se endereçasse, etc. Então eu quero te agradecer pessoalmente por ser de uma geração diferente da sua e ter dado os esforços que você contribuiu para a sociedade. E quero dizer, em um nível menos épico e dramático, obrigado por aceitar esse convite e ser minha nova amiga.
Marli Gonçalves: [1:01:16] Ei, saúde! Não é saúde, querido?
Eron Falbo: [1:01:20] Muito obrigada.
Marli Gonçalves: [1:01:21] Muito obrigada a todos que ouviram.
Eron Falbo: [1:01:24] Boa noite, tudo de bom. Tchau, tchau.
Marli Gonçalves: [1:01:26] Boa noite, boa noite.
No Alvo com Eron Falbo · episódio #40 · todos os episódios