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Eron Falbo: [0:05] Alô, alô, pessoal. Boa noite. Sejam bem-vindos à live com o Ricardo Stambowsky. Para quem não conhece o querido Ricardo Stambowsky, é um cerimonialista de grandes eventos. Ele é aqui do Rio de Janeiro. Ele é autor do livro A Vida É Uma Festa. A sua família descende da aristocracia imperial brasileira, onde seu tetravô Visconde de Utinga já organizava festas para o nosso imperador Dom Pedro II. É uma coisa incrível, você está fazendo a mesma profissão que o seu tetravô.
Ricardo Stambowsky: [0:42] Eron, que engraçado isso, sabe? Porque eu me formei em Direito, depois eu fiz Jornalismo e cheguei até a ter um programa na televisão que chamava, assim, Rio Que Te Quero Rio. Era um programa no estilo do Amaury Júnior. Aliás, foi na mesma época que o Amaury Júnior também começou. E eu entrevistava nas festas, nos bares, nos restaurantes do Rio de Janeiro. E por isso fiz Jornalismo, porque havia necessidade de eu estar pelo menos inscrito na faculdade de Jornalismo. E eu terminei minha faculdade de Jornalismo também. Mas depois a vida me levou para organização de festas, principalmente festas de casamento. E é uma coincidência. Realmente, eu tive um antepassado meu, um tetravô, que era o bispo André de Utinga, que, quando Dom Pedro II, em 1859, visitou as províncias do norte e foi visitar Pernambuco, ele fez parte da comissão organizadora dos festejos e da estadia do casal imperial lá em Recife. E, inclusive, ele recebeu o título, depois, em agradecimento aos serviços que ele prestou ao casal imperial Dom Pedro II e Dona Teresa Cristina. É uma coincidência divertida, engraçada.
Eron Falbo: [2:03] E você descobriu isso depois de já ser cerimonialista? Como foi?
Ricardo Stambowsky: [2:10] Eu já sabia, eu sempre soube que ele tinha feito parte dessa comissão e teve assim uma atuação efetiva na organização dos eventos que marcaram a visita do Dom Pedro II a Recife em 1859. Mas vamos falar agora só do presente, né, Eron?
Eron Falbo: [2:33] Que nada! Vamos falar sobre o que você quiser. Esse espaço é seu. Para a gente te conhecer, para a gente poder entrar dentro da sua experiência e tirar uma inspiração para as nossas vidas. Dá para ver que você tem umas coisas na parede. Eu imagino que sua parede já está lotada de tanta coisa comprada em leilão.
Ricardo Stambowsky: [2:56] Eu gosto muito, eu frequento muito essas feirinhas de antiguidade. Fora isso, eu herdei muitas coisas dos meus pais, de tios, todo mundo na família sabe que eu gosto de coisas antigas. Então, eu fico sendo o herdeiro dessas coisas, porque os meus irmãos e meus primos não gostam muito desse tipo de coisa. Então, eu tenho muitas coisas da família e que eu vou comprando nas feirinhas. Leilão não é nem muito a minha área, não.
Eron Falbo: [3:30] Ah, não? Eu vou te dizer... Eu estou nessa mesma sintonia de família. Minha família adora coisa minimalista, moderna e tudo mais. E eu sou o cara das antiguidades. Mas eu estou numa febre de leilão. Acabei de mudar para o apartamento novo, que é três vezes maior do que o apartamento antigo que eu tinha. Então tem muito espaço para ocupar. Aí eu... Se eu tivesse que ir na Toc Stock comprar, ou tivesse que ir em antiquário ver tudo, ainda mais durante a pandemia, aí eu descobri leilão online. Estou comprando tudo para mobiliar minha casa e fiquei viciado. Até meu amigo...
Ricardo Stambowsky: [4:18] Os leilões estão muito bons, né? Você tem tido muito leilão e eu sei que tem vendido bem. Eu tenho amigos que têm comprado muito leilão e tenho amigos que têm vendido muito leilão. E todos os dois estão muito satisfeitos. Aproveitando a tinta, tomando um vinho tinto e brindando aqui a nossa saúde e desejando que o ano de 2021 seja um ano bem mais feliz do que foi 2020, não é?
Eron Falbo: [4:47] Um brinde, amém a tudo isso.
Ricardo Stambowsky: [4:50] Esse ano não foi muito gostoso, não. Brincando com você, mas eu aproveitei para fazer um ano assim de estudo, de pesquisa, de descansar, né? Porque os eventos desse ano, quase todos, foram transferidos para o ano que vem.
Eron Falbo: [5:11] Quem trabalha em eventos, músicos, né, artistas de performance, sofreram mais do que todo mundo, né, nesse ano, em termos profissionais.
Ricardo Stambowsky: [5:21] Né, claro. Eu trabalho muito com festa de casamento, então o setor de festas ficou realmente parado, porque é impossível você fazer um casamento nos tempos atuais, com máscara, com distanciamento, tudo isso. Todos os casamentos que tinham marcado para este ano foram jogados para o ano que vem. Eles, no início, foram jogados para março, abril, agora o pessoal já está protelando para junho, julho, com medo de abril estar muito cedo. Porque não se sabe ainda efetivamente quando é que nós vamos poder ter a vacina disponível, né? Então, a gente tá aqui no compasso de espera.
Eron Falbo: [6:14] Me diz uma coisa, Ricardo, você é conhecido, né? A gente tem alguns amigos em comum, e você acha que conhecia algumas pessoas da minha família também. Muita gente já me falou de você, que você é conhecido por ser um gentleman, um cavaleiro, uma pessoa de muito bom comportamento, pessoa que se importa com outras pessoas. É um grande prazer estar conversando com você. Me interesso muito porque eu gosto muito dessa coisa de família, genealogia também. Por que você gosta disso? Qual é o seu interesse nisso? O que te fez despertar esse interesse?
Ricardo Stambowsky: [6:52] É engraçado. Você sabe que, na minha família, meus pais não têm esse interesse por família, não. Isso foi uma coisa minha. Desde pequeno, eu gostava de saber. Eu perguntava aos meus avós sobre histórias da família, a família de minha mãe, de Pernambuco, de senhores de engenho. Então eu gostava de saber das histórias de engenho, como era, como não era, e a minha avó era muito boa contadora de histórias. Ela me enriquecia, cheia de histórias e de personagens daquela época, e que eu apreciava muito. A família do meu pai é de origem russa. Meus avós paternos vieram da Rússia, e a minha origem paterna vem de longe, vem lá da Rússia.
Eron Falbo: [7:44] E eram judeus? Só por curiosidade.
Ricardo Stambowsky: [7:47] Não tenho oportunidade de fazer tantas pesquisas, fica mais complicado. Mas a família da minha mãe, como é de Pernambuco, eu tenho mais acesso à pesquisa, a livros, e eu sempre tive esse interesse. É um interesse que nasceu comigo, não foi influenciado por ninguém. Engraçado isso, não é?
Eron Falbo: [8:09] Mas a família Stambowsky é uma família judia?
Ricardo Stambowsky: [8:12] É uma família judia-russa. Os meus dois avós eram de uma cidadezinha da Rússia, uma cidade pequena do interior. E eles vieram antes da Primeira Guerra Mundial, antes da Revolução Russa. Eles vieram no início do século XX. Eles vieram e se casaram. Eles foram para a Bahia, para Salvador, e se casaram lá em Salvador. Meu pai e meus tios nasceram em Salvador. O papai é engenheiro, se formou na Faculdade de Engenharia da Bahia, depois veio para o Rio. E aqui ele conheceu minha mãe, que era de família pernambucana, mas também estava morando no Rio de Janeiro. E eu nasci no Rio de Janeiro.
Eron Falbo: [9:01] E você cresceu com alguma coisa da cultura judaica, ou eles não tinham muita... Foi curioso.
Ricardo Stambowsky: [9:09] O meu pai, quando se casou com a minha mãe, ele tinha 24 anos, mas ele já era órfão de mãe. A mãe dele morreu muito cedo. Ele tinha 15 anos, e o pai dele se casou de novo e ficou morando em Salvador. O papai veio morar no Rio, questão de trabalho. Então ele não tinha uma mãe e um pai perto dele. A mãe já tinha morrido, e o pai estava na Bahia, já casado novamente. Então a mamãe, como morava com a família dela, e era uma família toda muito católica, a mamãe estudou num colégio de freiras, a influência da mãe foi maior, do entorno, né? Tanto que o papai e a mamãe se casaram na igreja católica. O papai continuou judeu, não precisou se converter, isso é uma coisa que até hoje é assim. Eles se casaram na igreja Nossa Senhora da Glória, no Largo do Machado. Eles moravam em Laranjeiras e se casaram nessa igreja. E o papai, continuando a ser judeu, agora o casal prometia ao padre, durante o casamento, é que os filhos provenientes daquele casamento seriam educados.
Eron Falbo: [10:22] Entendi. Mas seu pai se identifica como judeu ou não?
Ricardo Stambowsky: [10:26] Foi batizado lá na mesma igreja, na igreja da Glória, no Largo do Machado. Os meus outros irmãos, que vieram mais tarde, aí já pegaram uma outra fase do papai e da mamãe, que eles não estavam muito ligados à religião, e eles não foram batizados para religião nenhuma. Depois, em adultos, o meu irmão do meio se batizou para casar na igreja com uma menina católica, mas depois ele se divorciou e casou com uma menina judia, e aí ele se converteu ao judaísmo, e ficou assim. Agora, eu tenho uma irmã que é católica, e católica praticante, ela vai à missa todos os domingos. A cultura judaica ficou uma coisa mais distante, mas o judeu não é apenas uma religião, é uma cultura, é uma raça, são as origens. Eu tenho tios, que são os irmãos do meu pai, que são casados com mulheres judias, minhas tias muito queridas, e eu sempre frequentei a casa deles e acompanhei as noites de jantares, as comemorações judaicas, a comida judaica, o borscht, o mamelingue, o gefilte fish, os pratos judaicos todos eu conheço. Essa parte cultural judaica ficou presente na minha vida.
Eron Falbo: [12:03] Outro cerimonialista que eu admiro bastante, que é muito próximo da nossa família, porque foi quem fez nosso casamento. Eu sou divorciado hoje, mas eu tive um casamento feito pelo Roberto Coen.
Ricardo Stambowsky: [12:15] Roberto Coen é um querido amigo. Ele começou a trabalhar muito na colônia judaica, mas hoje em dia ele se expandiu. No Rio de Janeiro ele tem um leque grande de clientes e é um excelente cerimonialista, muito competente.
Eron Falbo: [12:35] Muito querido mesmo. Voltando à coisa da genealogia: você tendo uma tetravó que trabalhou com eventos do Dom Pedro II, e você tendo entrado nisso também, o que você acha que esse requinte, vamos dizer, da aristocracia trouxe para a organização de festas hoje? O que você aprende com isso e o que você traz no seu trabalho com isso?
Ricardo Stambowsky: [13:05] Eu sou, assim, monarquista, né?
Eron Falbo: [13:16] Aqui, ó, olha a bandeira imperial aqui, soa demais.
Ricardo Stambowsky: [13:24] E acho que o Brasil, na época do Império, principalmente no período todo de Dom Pedro II, que foram muitos anos de governo, ele foi um excelente governante, e acho que foi um tempo áureo do Brasil em termos de economia internacional. A nossa marinha era maravilhosa. O Brasil funcionou muito bem na época do Pedro II, apenas com aquela mancha da escravatura, mas que nada tem
Eron Falbo: [13:58] a ver com a monarquia. A monarquia lutou contra isso.
Ricardo Stambowsky: [14:02] A lei que libertou os escravos. E a realeza...
Eron Falbo: [14:10] A realeza lutou contra a escravatura, né? Isso que muita gente não entende, que a gente vivia numa democracia, né? Que o imperador não podia fazer o que ele queria, e foram os senhores, os cafeicultores, né? Que inclusive depuseram o rei um ano depois da abolição, né?
Ricardo Stambowsky: [14:40] Mas é verdade, Eron. Você sabe que o próprio Dom Pedro I era completamente contra a escravatura. O Dom Pedro I já tentou, de várias maneiras, na época dele, acabar com a coisa dos escravos. O José Bonifácio de Andrada e Silva também era completamente contra a escravatura. Dom Pedro II era radicalmente contra a escravatura. A princesa Isabel libertou todos os escravos que ela conseguiu e pôde. E acobertou escravos fugidos. Quer dizer, a família imperial brasileira sempre foi contra a escravatura, e foi graças à interferência, principalmente da princesa Isabel, que conseguimos, finalmente, depois de muita luta, acabar com essa mancha terrível que era para o Brasil ter escravos. Eu acho que essa coisa toda dos reinados, dos impérios, essa sofisticação, ela se reflete nas festas até hoje. Você vê uma cerimônia de casamento, principalmente quando existe a cerimônia religiosa numa igreja, numa sinagoga ou em outro templo. As cerimônias são muito monárquicas. Até na religião, por exemplo, ortodoxa grega, russa, colocam coroas na cabeça dos noivos, do noivo, da noiva. A noiva não deixa de ser uma princesa, com uma tiara na cabeça, um véu, um vestido. Quer dizer, a cerimônia de casamento, embora hoje tenha se modernizado tudo, você vê as noivas todas tatuadas, modernas, cabelos coloridos, mas a essência ainda é a essência da grinalda, do véu, do bolo da noiva, do buquê.
Eron Falbo: [16:50] É engraçado, o que eu percebia...
Ricardo Stambowsky: [16:53] No casamento se faz muito presente, ó.
Eron Falbo: [16:56] Que eu percebi é que, ainda eu mesmo casando... você tem ideia? O meu próprio casamento foi o primeiro casamento que eu fui na minha vida. Nunca tinha ido antes a um casamento. Quando eu casei, foi a primeira festa de casamento que eu fui. Então eu não tinha muito garoto. Eu casei com 29 anos, acho, 30, alguma coisa assim, mas não foi tão garoto assim. Mas é porque eu me mudei e vivi em muitos lugares do mundo. Então, quando meus amigos estavam casando ou tinha parentes casando, eu não estava morando no mesmo país. Então eu pulei muitos casamentos e acabou calhando de que meu casamento foi o primeiro que eu fui. Mas, uma coisa que eu percebi desde então, já tenho ido para alguns casamentos, deve ter ido para uns 10. Não foram tantos, nada perto de você. Mas eu percebi que, naquele momento do casamento, as pessoas se transformam totalmente. Elas viram pessoas que talvez nunca seriam ou nunca foram. Então elas se vestem de uma maneira totalmente diferente do que elas se vestiriam. Claro que todo mundo tenta adaptar aos seus gostos e tudo mais, mas é uma certa elevação. Naquela festa de casamento, você se eleva, você se coloca em uma posição de ritual, de concentração máxima, de contato com o divino, talvez, independente se você for religioso ou não. E na aristocracia isso é uma coisa que é feita meio que diariamente. Você tem roupas para cada ocasião, você tem... E cada ocasião tem uma cerimônia, um ritual, um arquétipo que você está preenchendo e participando. Eu acho que na sociedade comum, vamos dizer, dos plebeus, o casamento é uma das únicas, se não a única, oportunidade de entrar nesse ciclo arquetípico.
Ricardo Stambowsky: [19:09] Nesse mundo de brincar de príncipe e princesa. É isso, né? Que eu estava te falando, Eron. Toda noiva é uma princesa. Ela tem o dia da noiva, que é o dia de princesa, para ela se cuidar, para ela se vestir. Você vê que, na cerimônia do casamento, a dança dos noivos, eles dançam às vezes até uma valsa, que não há uma música, uma melodia mais imperial do que dançar uma valsa. O casamento remonta a essas tradições antigas, realmente. É interessante que você vê casamentos modernos, que toca funk, que a noiva está toda tatuada, o noivo também, os convidados com cabelos coloridos e tudo, mas com essas tradições presentes: da valsa dos noivos, do corte do bolo, da cerimônia do casamento, né, da bênção.
Eron Falbo: [20:07] Realmente muito interessante. E tem alguém falando... a Luciana, parece, tá dizendo que o microfone do Ricardo tá dando retorno. É bom, se você tiver fácil aí, um fone de ouvido, dá para você colocar aqui que melhora. Mas eu tô te ouvindo normal. Então, talvez... Luciano, eu aconselho você a colocar fone de ouvido, que eu acho que talvez não dê retorno. Mas alguém mais está ouvindo com retorno? Só para entender aí. Depois falem aí, por favor. Essa coisa me interessa muito, a coisa de ritos de passagem durante a vida, né? Porque hoje em dia, no mundo que a gente vive, praticamente só sobrou o casamento, né? No mundo ocidental comum só sobrou casamento, mas antigamente tinha vários, né? Quando você tinha, dentro do cristianismo, tinha uma série de eventos que marcavam, né?
Ricardo Stambowsky: [21:02] Mas continua tendo, no cristianismo. Você tem o batizado, que é um rito diferente, você tem os aniversários, você tem os aniversários de casamento, as bodas: de bodas de prata, de vinte e cinco anos, bodas de rubi, de 40 anos, você tem todos os aniversários. Na religião judaica, você tem o bar mitzvah, que é a maioridade do garoto, aos 13 anos, tem também o brit milá, a circuncisão. Tem a míssima da menina, tem várias cerimônias. E eu acho, sem puxar para a minha sardinha, que sou organizador de festas, eu acho que a vida tem que ser... Essas datas têm que ser comemoradas, porque é a história e a vida da gente. Então é muito gostoso você lembrar do dia do seu casamento, lembrar do dia do seu aniversário, 20 anos, ou como você fez, 30 anos. São datas que devem ser comemoradas. Cada um tem suas possibilidades, né?
Eron Falbo: [22:08] O que eu quis dizer com isso é que casamento é uma coisa que você faz pro público, né? E assim, festas religiosas e tudo mais, a gente acaba fazendo dentro de uma coisa mais fechada, da família ou da nossa própria religião. E antigamente era uma coisa da comunidade em que a gente vivia, todos esses ritos de passagem, era da comunidade em que a gente vivia. Eu sei que ainda existe, eu só tô dizendo que a importância disso não tá tão presente mais, e eu acho que o casamento ainda é a coisa mais poderosa, né, que a gente... Pelo menos, assim, do que eu vi, né? Quando eu vou pra casamento, eu sempre me emociono muito, é uma coisa muito forte.
Ricardo Stambowsky: [22:47] Eron, você vê, quer ver uma coisa que ainda existe, que é incrível? Festa de 15 anos de menina, né?
Eron Falbo: [22:54] É, debutante.
Ricardo Stambowsky: [22:56] As meninas supermodernas, superavançadas, superatuais, mas elas dançam com o pai, dançam com o avô, dançam com o padrinho.
Eron Falbo: [23:06] Tem os rituais.
Ricardo Stambowsky: [23:08] E fazem aquela festa grande, bonita. Tem muitas mães que às vezes me falam: Ricardo, vou caprichar na festa dos 15 anos, porque eu não sei se ela vai casar, não sei com quem vai casar. E aí, quando casar, já tem a outra família também a palpitar. Então eu vou caprichar nos 15 anos, que é uma festa que é toda nossa. Então continua tendo muita festa nos 15 anos. É uma coisa interessante essas tradições, né?
Eron Falbo: [23:36] Esse ponto de vista de querer controlar a festa é uma coisa que você...
Ricardo Stambowsky: [23:42] Deve ter... Você tem uma filhinha, né? Pequenininha, não é?
Eron Falbo: [23:45] Eu tenho. Tenho uma filhinha de quase dois anos.
Ricardo Stambowsky: [23:48] É, então ainda vai faltar os 15 anos dela. Eu possivelmente não vou poder estar mais.
Eron Falbo: [23:53] Fazendo festa, mas... Que isso, que isso.
Ricardo Stambowsky: [23:56] Vai ter uma festa dos 15 anos, porque essas coisas não acabam nunca. É só eterno. Vai ser sempre assim.
Eron Falbo: [24:03] E você também tem filhos, Ricardo?
Ricardo Stambowsky: [24:05] Não, eu não tenho filhos. Eu tô casado há 47 anos com a mesma mulher, com a Sueli, porque me casei em 73.
Eron Falbo: [24:13] E eu ouvi dizer muitas coisas boas dela também.
Ricardo Stambowsky: [24:16] Eu tenho uma cachorrinha, a Charlotte Elizabeth. Eu tenho uma cachorrinha que é como se fosse a nossa filhinha, uma filhinha que dá menos trabalho que filho, dá menos despesa que filho, mas é muito querida.
Eron Falbo: [24:29] Sua câmera tá balançando um pouco, não sei se talvez é alguma coisa...
Ricardo Stambowsky: [24:34] É aqui o vento, mas já melhorou.
Eron Falbo: [24:37] Ah, tá bom, tá bom. E você tem assistido aquele seriado The Crown, não? Acho que é sua cara.
Ricardo Stambowsky: [24:44] Assisti O Crown, adorei. Agora estou vendo essa nova temporada, não estou gostando tanto. Não sei por quê, não estou assim...
Eron Falbo: [24:54] Não está engajado.
Ricardo Stambowsky: [24:55] Mas essa nova temporada estou achando mais fraca, mas estou assistindo. Agora, para mim, que curto muito história e já li muitas biografias de reis e rainhas do mundo inteiro, acrescenta muito pouco para mim, porque eu já sei aquilo tudo, né?
Eron Falbo: [25:18] Tudo que vai acontecer. Eu acho que é um deleite ver uma série que está trazendo um lado não só positivo, mas realista ao mesmo tempo. Porque, às vezes, raramente você vê a aristocracia ou a realeza sendo retratada de uma forma apologista, de uma forma positiva.
Ricardo Stambowsky: [25:42] Mas a família real inglesa não está gostando muito, não. Eu vi que a família real inglesa não admite estar assistindo, foram questionados se eles estariam assistindo. Eles disseram que, obviamente, não estão assistindo e não estão muito contentes. É porque aquilo é uma história, um filme.
Eron Falbo: [26:06] Claro, isso aí também é uma exposição da família.
Ricardo Stambowsky: [26:08] Não é a realidade real mesmo.
Eron Falbo: [26:11] Sim, mas todo filme é assim. Eu só digo assim, eles fizeram um esforço que é diferente. Como a gente vive num mundo republicano, que foi dominado por várias repúblicas no mundo inteiro, a gente vê muito mais filme denunciando a aristocracia, ridicularizando a aristocracia, do que fazer uma apologia. E esse seriado, você vê que é uma apologia. Eles estão falando, não é bem assim. A rainha Elizabeth II, Isabel II aqui no Brasil.
Ricardo Stambowsky: [26:41] É uma grande rainha.
Eron Falbo: [26:42] E ela é uma mulher poderosíssima. A gente acha que é uma figura fantoche que só gasta dinheiro. Pelo contrário, ela ganha dinheiro pela Inglaterra e é poderosíssima.
Ricardo Stambowsky: [26:55] Ela dá dinheiro para a Inglaterra. A família real inglesa dá muito lucro à Inglaterra. Os eventos todos da monarquia trazem muito, o turismo e tudo isso. Mas, falando de monarquia, você veja a quantidade de países superdesenvolvidos, países talvez fora dos Estados Unidos, a Inglaterra, a Dinamarca, a Noruega...
Eron Falbo: [27:23] O Japão.
Ricardo Stambowsky: [27:23] A Suécia, a Espanha, o Japão, a Tailândia, Mônaco. Você pode contar os menores? Mônaco, Liechtenstein, Luxemburgo, Holanda. Tudo são monarquias. Monarquias que funcionam muito bem. A Bélgica também. Monarquias que funcionam muito bem e que os povos têm muito orgulho de seus monarcas.
Eron Falbo: [27:49] Aí muita gente costuma dizer: mas o Brasil é muito grande. Aí tem o Canadá, tem a Austrália, que também funcionam em regimes monárquicos.
Ricardo Stambowsky: [27:59] Não, o Brasil funcionou muito bem.
Eron Falbo: [28:02] Exatamente, o próprio Brasil funcionou.
Ricardo Stambowsky: [28:04] Graças a Dom Pedro I e a Dom Pedro II, o Brasil tem esse tamanho que tem hoje. Porque você veja que a América espanhola, que aderiu logo de início ao modo republicano, se dividiu em vários pequenos países. E o Brasil, que ficou monárquico, conseguiu manter esse território gigantesco que temos, íntegro. Foi uma vitória do governo imperial, de proteger esse Brasil com essas dimensões continentais.
Eron Falbo: [28:51] E, Ricardo, você está há quanto tempo mesmo fazendo casamentos, fazendo eventos?
Ricardo Stambowsky: [28:56] Olha, o primeiro casamento que eu fiz foi em 1987. Então, já vão quase 40 anos. Foi o primeiro casamento que eu fiz, e é curioso, sabe, Eron? Foi o maior que eu fiz até hoje.
Eron Falbo: [29:21] É no Copacabana Palace que eu já ouvi falar?
Ricardo Stambowsky: [29:23] Foram 2.500 convidados. Era uma menina, Ana Cristina Alves, filha única. O pai dela era um homem muito importante; na época ele já tinha participado, ele era deputado. Ele era um homem que tinha mil facetas. Ele tinha amizades em todos os setores. A alta sociedade carioca prestigiava muito ele. O mundo do samba, as escolas de samba, todas prestigiavam muito ele. Ele apareceu em várias escolas de samba. E, fora isso, ele era político, ele era deputado. Então, era um homem com muito poder. E ele queria fazer um casamento importante para a filha única dele. E nessa época não tinha, não havia muito cerimonialismo. Havia a Helena Brito Cunha, que foi a pioneira aqui no Rio, que já fazia casamento. E, através de um amigo em comum, me apresentaram ao pai dessa noiva, o Ademar Alves. Ele conversou comigo e falou assim: Ricardo, você vive nesse mundo de festas, é um rapaz bem relacionado, que recebe, que frequenta, você vai poder me ajudar a fazer um casamento bonito para a minha filha? E eu me esmerei, me cerquei dos melhores profissionais que tinham na época, em termos de decorador, florista e tudo mais, e fizemos um casamento para 2.500 pessoas.
Eron Falbo: [30:56] Uau! Isso é o primeiro.
Ricardo Stambowsky: [30:57] Foi uma coisa fantástica. O Ibrahim Sued, que era o rei dos colunistas sociais na época, foi padrinho do casamento. O filhinho do Jorginho Guinle, que era criança, foi pajem. O governador, na época, era o Moreira Franco.
Eron Falbo: [31:16] Foi um casamento imperial, de proporções imperiais.
Ricardo Stambowsky: [31:21] Então eu comecei pelo mais difícil. Os outros todos foram muito mais fáceis depois.
Eron Falbo: [31:30] E como foi isso? Como ele confiou em você para fazer o seu primeiro evento? Você já tinha feito outro tipo de coisa similar?
Ricardo Stambowsky: [31:46] Eu tinha. O que acontece é o seguinte, Eron. A minha família, a minha mãe e o meu pai, recebiam muito. Eles moravam em uma casa muito grande no bairro do Cosme Velho, aqui do Rio de Janeiro, e eles faziam muitas festas, recebiam muito. Então, eu fui acostumado sempre com casa cheia, com meus pais recebendo. Depois me casei com a Sueli, que também é filha do Alberto Tigriani, que é uma pessoa casada com a Terezinha, que foi nesse Brasil, nesse... que a Terezinha morava, e que era um casal também que recebia muito. Porque o Alberto também era um grande anfitrião, um grande gourmet. E eu e a Sueli, casados, recebíamos sem parar, dávamos muitas festas, era uma época muito alegre no Rio de Janeiro, nos anos 1980, final dos anos 1970 e 1980. Era uma época de muita alegria, de muita festa, de muita comemoração. Então, eu tinha muita experiência disso. E depois, em 1984, eu fui junto com um amigo meu, o Luiz Celso Andrade, em Minas, na cidade de Juiz de Fora, fizemos uma danceteria. Esse meu amigo tinha uma fábrica em Juiz de Fora, uma fábrica de tecidos, que estava fechada, mas era um prédio lindo, no estilo inglês, no centro da cidade, uma construção de 1910, muito bonita, e estava fechada. E eu e o Luiz Celso montamos uma danceteria dentro da fábrica, que passou a se chamar Factory, que começou, em 1984, com o show do Lulu Santos, que era o máximo na época. Fizemos shows lá com todo mundo, Maria, Lobão, Kid Abelha, todo mundo se apresentou naquela casa, todo mundo que fazia sucesso na época, Titãs... E fazíamos muitas festas. Fazíamos festas de Halloween, festas de São João, festas de Réveillon, bailes de carnaval. Fizemos o baile oficial da cidade de Juiz de Fora, com a presença do rei Momo, do prefeito, tudo isso. Então, tive também essa experiência durante dois anos das festas da Factory. Isso tudo vai dando bagagem à gente. A história da minha vida é uma história de festa, muita festa, e eu aprendi muito.
Eron Falbo: [34:14] Fala um pouco do seu livro. Eu não tive a oportunidade, infelizmente, de ler o seu livro.
Ricardo Stambowsky: [34:19] O meu livro, infelizmente, eu até adoraria te dar um exemplar do livro, mas o livro está esgotado, ele acabou. É coisa boa. Eu escrevi em 2010, então lá se vão dez anos. Quem teve a ideia de fazer o livro foi o Fabiano Nideralva. Ele é o dono dessa revista Inesquecível Casamento, e ele tem uma editora, a 3R Studios. Ele teve a ideia, me incentivou, e nós fizemos o livro, eu contando a minha experiência. A vida é uma festa, não é? Até é engraçado que, depois disso, mais recentemente, o Amaldi Júnior escreveu um livro também com o mesmo título, A Vida é uma Festa, mas eu escrevi primeiro. Então, nesse livro eu conto as festas que eu fiz, as minhas experiências, conto um pouco a história da minha carreira como cerimonialista. Foi muito gratificante fazer o livro, muito legal me recordar. Já estaria na época de fazer outro livro, porque, nesses últimos 10 anos, muita coisa aconteceu. Mas acho que isso não vai acontecer, não. Dá muito trabalho. Você tem que se dedicar mesmo. Não está nos meus planos agora fazer outro livro, não.
Eron Falbo: [35:48] E qual para você é a trajetória de um cerimonialista? Porque vejo que você começou com uma festa maior, que você já fez, mas, durante os anos... Se alguém quisesse ser cerimonialista, o que você diria para alguém que está começando, em termos do que você aprendeu, os passos, as diferentes fases, e o que buscar?
Ricardo Stambowsky: [36:11] Olha, hoje em dia as coisas mudaram. Hoje em dia existem muitos cursos para ser cerimonialista. O próprio Roberto Corrêa dá vários cursos para ser cerimonialista. Eu, durante mais de dez anos, fui professor na cadeira de eventos na Estácio de Sá, na Faculdade Estácio de Sá, em um curso de design de interiores, mas que tinha uma cadeira que era evento e eu administrava. Tive muitos alunos que hoje em dia são decoradores de festa, que são cerimonialistas, que foram meus alunos da Estácio de Sá. Hoje em dia existem muitos cursos, muitos cursos inclusive online. Com essa coisa da internet, você tem muitos cursos para o pessoal aprender. Hoje em dia é muito mais fácil. Naquela época não havia, havia muito pouca coisa, pouca comunicação sobre o assunto.
Eron Falbo: [37:09] Existem muitos cursos, mas você está sendo modesto. Quero dizer, tem certamente coisas aí que não estão nos cursos ou estão de outras formas no curso. Mas o que eu acho mais interessante, além da técnica, é algumas nuances que a gente talvez perceba, que a gente acha ou percebe que ninguém deve ter percebido também. A gente fala: 'Pô, eu percebi tal coisa e isso me fez um melhor cerimonialista.' Tem alguma coisa que te vem à sua mente que você percebeu que é essencial para uma festa boa?
Ricardo Stambowsky: [37:53] O Eron, acho que só é bom se a gente trabalhar e fizer o que a gente gosta. Trabalhando com o que a gente gosta, o trabalho deixa de ser trabalho. Então, passa a ser uma coisa prazerosa. Primeiro que tudo, a pessoa tem de gostar. Tem de gostar do movimento dos eventos, da organização de eventos. Tem de ser uma coisa que a pessoa curta, tem de curtir muito. Tem que ter paixão. Cada festa que eu organizo, cada cliente, geralmente ficam meus amigos, porque eu embarco de corpo e alma naquele evento. São muitas reuniões, a gente conversa muito, troca ideias e discute todos os ângulos. O ângulo dos custos, que é muito importante, os sonhos que a pessoa tem, tentar realizar os sonhos que o anfitrião tem para aquela festa. É muito importante você fazer com prazer e com total dedicação. A festa é um trabalho para o cliente. Mas o cliente tem em mente que vai receber os amigos dele. Então, ele quer para os amigos dele o melhor. Ele quer oferecer para os amigos dele o melhor, o melhor que ele puder. Melhor bebida, melhor comida, melhor música, melhor ambiente, melhor clima de refrigeração, maior conforto. Quer dizer, é importante você estar atendendo o cliente e os convidados diferentes. Por isso que a gente, quando vai... A primeira coisa que tem que ter em mente na hora que vai organizar um evento é quem são os convidados, que faixa etária, que tipo de pessoas são elas, qual é o estilo dessas pessoas. É tentar criar um evento, criar uma festa que se encaixe com aquelas pessoas, para que a maioria delas, pelo menos, saia de lá muito feliz. Evidentemente que, numa festa de casamento, você tem uma variedade muito grande de convidados. Você tem pessoas de 80 anos, 90 anos e de todas as idades. Você tem pessoas de todos os níveis financeiros, desde a pessoa mais rica até o patrão, às vezes, do noivo, o patrão da noiva, e tem também os funcionários, tem pessoas humildes. Então, você tem de tentar fazer um evento para que todos saiam felizes. Essa é uma arte de início, mas é possível você ter tudo. Um exemplo para você ver: uma coisa que é um momento muito prazeroso, por exemplo, de uma festa, é o momento em que a gente vai provar os docinhos que a gente vai escolher para fazer a famosa mesa de doce. Muitas vezes, a noiva diz assim: 'Ricardo, eu não gosto de doce de ovos.' Ou, então, ela diz: 'Eu não gosto de doces que levem amêndoas.' E eu alerto ela: 'Olha, você possivelmente vai ser quem menos vai comer de docinho na sua festa, em que você vai estar ocupada vendo, dançando e fotografando. Você pense nos seus convidados.' Haverá de ter muitos convidados que gostam de doces de ovos, outros que gostam de doces que levam amêndoas e outros que gostam de doces que levam chocolate. Então, vamos procurar fazer uma mesa variada para que todos os convidados encontrem nela um doce que eles gostem. E assim se aplica tudo. Você tem que pensar naquele convidado que não come carne, naquele convidado que, por motivos às vezes religiosos, não come, sei lá, frutos do mar, ou os alérgicos, ou agora os que são vegetarianos, os veganos. Então, você tem que pensar em todo mundo. Você tem que ter um prato neutro, uma massa que possa atender aos veganos, aos vegetarianos. Você tem que ter opções para agradar a todo mundo. A mesma coisa com a seleção musical no casamento. Você tem que agradar desde as crianças até as pessoas de idade. Então, você não pode ter só um tipo de som. A noiva só gosta de punk. Não pode, porque a festa não é só para ela, é para todos os convidados. Então, a gente tem que tentar agradar a todos. Esses são os cuidados que o cerimonialista deve tomar para que a festa seja um sucesso, que todo mundo saia elogiando e satisfeito.
Eron Falbo: [42:58] Perfeito. Ricardo, voltando um pouquinho agora para o começo da nossa conversa sobre genealogia: o que você pensa que traz para você esse estudo de genealogia? O que você ganha com isso? De onde vem seu prazer nisso?
Ricardo Stambowsky: [43:15] Eu acho muito engraçado, porque sempre me interessei por meus antepassados, saber o nome deles, saber o que eles faziam, o que eles eram. Peguei fotografias para ver como eram os rostos. Tenho uma coleção enorme de fotografias antigas da família, justamente por isso, porque todo mundo que tinha foi me dando, me dando, me dando. Então, tenho muitas fotografias. Tenho alguns quadros, alguns retratos a óleo. Também tenho, inclusive, do Visconde do Tinga, da Viscondesa, vários outros parentes. Ninguém quer, né? Eu quero. Então, deu tudo para mim. E as pessoas dizem assim: 'Ricardo, o que você ganha com isso?' Eu não me interesso... Eu gostaria que eles tivessem me deixado uma boa herança, tivessem me deixado um bom dinheiro. Eu falo: 'Gente, mas...' Que não serve.
Eron Falbo: [44:01] Para nada o dinheiro.
Ricardo Stambowsky: [44:02] Eu não estou pensando nisso. Eu estou trabalhando para ganhar o dinheiro e para ter as coisas que a gente gosta. A herança, quando vem, é um plus, que bom, mas nem sempre. Mas eu não me interesso pela genealogia para me vangloriar: 'O meu antepassado foi um barão.' Isso não é motivo de vanglória.
Eron Falbo: [44:22] É motivo de responsabilidade. Mas, Ricardo...
Ricardo Stambowsky: [44:30] A história da França, da Inglaterra, dos países orientais... A gente estuda a história da nossa família. Eu acho muito interessante, eu gosto. É uma coisa que...
Eron Falbo: [44:39] Contrário de ser motivo de se vangloriar, muito pelo contrário, é motivo de ter uma grande responsabilidade pelas suas ações, pela sua conduta, o jeito que você... Assim que eu vejo herança. Meu pai faleceu recentemente, faz um mês e pouco. E no falecimento dele, o jeito que eu percebi o falecimento dele é que eu recebi uma tocha de um grande homem que agora faleceu e me deixou uma herança não financeira, embora isso também há de acontecer, mas existe uma herança de caráter, herança de história familiar que você agora está colocando nos seus ombros: de você honrar essa família...
Ricardo Stambowsky: [45:28] De você honrar, ser correto, ser honesto, ser direito, honrar aquele nome.
Eron Falbo: [45:35] É claro, porque se seu bisavô tinha uma dívida, você não vai herdar essa dívida, mas se ele fez coisas boas, você sempre vai herdar. Você vai herdar o bom nome, você vai herdar os feitos, a lembrança, você vai herdar, talvez, objetos importantes da família dele. Mas, quando são coisas ruins, a gente nunca herda, né? É muito fácil você dizer adeus pra coisa ruim e falar: 'Não era eu', e dane-se. Mas, assim, você pode ter um antepassado que foi terrível, mas fez um grande ato. Todo mundo vai sempre lembrar do grande ato, é isso que você vai herdar de fato, né? Então, herança é sempre uma coisa boa.
Ricardo Stambowsky: [46:17] A gente tem que se lembrar das boas coisas, né? Os bons exemplos, né? Os maus exemplos a gente chuta pra longe, né?
Eron Falbo: [46:26] Claro, graças a Deus a gente vive num mundo hoje em dia que... Bom, por um lado ruim, a gente meio que jogou fora as tradições. Mas, por um lado bom, a gente dá uma oportunidade para as pessoas que nasceram e tiveram pais que, de repente, não tiveram uma conduta ideal, para poder começarem de novo e não serem julgados. Antigamente, a pessoa era muito julgada por quem eram os pais. Antigamente, se você tinha pais que eram criminosos, você vivia duas gerações até você limpar o nome dessa família.
Ricardo Stambowsky: [47:02] Mas ainda é, você ainda tem. Tem nomes que ficam marcados na história. Você vê assim, na história do mundo, tem nomes que, quando você lembra... Deve ser difícil você carregar o sobrenome do malfeitor da humanidade. Deve ser brincadeira.
Eron Falbo: [47:27] Claro, claro. Tanto que você não vê muita...
Ricardo Stambowsky: [47:29] Não é tão ruim na família.
Eron Falbo: [47:31] Você não vê a família Hitler andando por aí?
Ricardo Stambowsky: [47:35] Imaginou que barra pesada? Você ser descendente do Hitler? Você ser descendente de um tirano desses?
Eron Falbo: [47:42] Não, mas isso...
Ricardo Stambowsky: [47:43] A história da humanidade, né?
Eron Falbo: [47:45] Esse lado é o lado mais extremo, né? Quando é o lado público. É, sim, sim.
Ricardo Stambowsky: [47:51] Como é ter passado assim tão ruim e você ser uma pessoa muito boa, né? Graças a Deus, não tem nada ruim com a outra.
Eron Falbo: [47:57] É, o que eu tô dizendo em termos de herdar coisas boas é que, no mundo de hoje, que as pessoas jogaram fora as tradições, a gente pode escolher herdar as coisas boas, entendeu? Porque a maioria das pessoas não está interessada em herança, né? Tô falando cultural, né? Todo mundo tá interessado em herança...
Ricardo Stambowsky: [48:14] Herança financeira, tá todo mundo interessado, né?
Eron Falbo: [48:17] É, mas a gente, eu e você...
Ricardo Stambowsky: [48:19] Ninguém abre mão, né?
Eron Falbo: [48:21] A gente tá interessado em cultural.
Ricardo Stambowsky: [48:24] Se eu conversasse com os meus amigos e tudo, mesmo na família, vejo que a maior parte das pessoas não sabe, no máximo, o nome dos avós. Às vezes, do bisavô. Daí para trás, a pessoa não sabe. Essas personagens foram pessoas que tiveram uma vida, não tiveram uma vida importante, mas tiveram cada uma a sua vida, e cada vida tem a sua importância. Na época, essas pessoas ficam esquecidas, ficam completamente esquecidas. Eu acho tão bom que eu me lembro, eu sei quem é meu tetravô, meu quinto-avô, eu acho que essa minha lembrança eu mantenho eles um pouco vivos. Porque eu acho que tem coisa verdadeira, dizem que a gente vive enquanto alguém se lembrar da gente.
Eron Falbo: [49:18] E, Ricardo, você também vai permanecer vivo. E você também fica mais vivo por isso, entendeu? Porque você, conhecendo as suas origens, você conhece mais sobre você, porque, afinal, essas pessoas foram as pessoas que ensinaram as pessoas que te ensinaram.
Ricardo Stambowsky: [49:35] É uma tradição cultural, né? A gente aprende com os pais da gente, os pais da gente aprenderam com os pais deles, e assim vai indo.
Eron Falbo: [49:44] Mesmo que a gente não tenha consciência.
Ricardo Stambowsky: [49:45] Até os tempos mais longínquos, né? Até Adão e Eva. Foi um ensinando, passando para o outro, passando para o outro.
Eron Falbo: [49:53] Exatamente.
Ricardo Stambowsky: [49:54] As histórias percorrem gerações e gerações e gerações.
Eron Falbo: [49:58] Tem uma história muito interessante. Eu tenho um bisavô, Francesco Falbo, que veio da Itália, que era dono de circo e escritor, e ele abandonou... O meu avô, Edson Falbo, quando ele tinha 18 anos. E meu avô abandonou a minha mãe quando ela tinha 14 anos. Então, eles não tiveram muito tempo juntos, nas gerações. Só que eu li um livro do meu bisavô Francesco Falbo, e ele é muito parecido comigo. Eu não tenho contato nenhum com ele, entendeu? Mas alguma coisa passa.
Ricardo Stambowsky: [50:38] Isso é coisa genética, né, Kiko? Tem o DNA, o famoso DNA que está na gente. Nós temos aqui, no corpo da gente, partículas de todos esses antepassados nossos, um pedacinho de cada um deles. E isso eu acho muito curioso, muito interessante, e gosto. É uma diversão que eu tenho. É um hobby, como eu falei para você, Benito. É um hobby que eu tenho, que me dá muito prazer. Eu curto muito. E a gente termina se aproximando de outras pessoas que devem ter o mesmo gosto, e aí a gente troca ideias, e é muito interessante. Muitas pessoas me ligam, genealogistas que estão escrevendo livros, pedindo informações. Muito honrado de dar algumas informações. É muito legal, muito.
Eron Falbo: [51:34] Interessante que você estudou bastante, as pessoas sabem disso, né? Que você retém a informação da sua família, e você, então, é o sucessor, o carregador da tocha da sua família.
Ricardo Stambowsky: [51:46] Porque ninguém mais esquiva, eu sou o neto mais velho por parte de mãe.
Eron Falbo: [51:51] Por parte de pai? Ah, que legal!
Ricardo Stambowsky: [51:53] Sou o neto mais velho. Então, é mais responsabilidade ainda. Mas a família, por parte de mãe... Minha mãe só tinha uma irmã que morreu mocinha e não chegou a se casar. Mas, por parte de pai, eu tenho muitos primos. Hoje, é uma pena que você não tenha muito... Aliás, agora, com a internet, tenho mantido contato com muitos primos que moram em outros estados, a família em Pernambuco me procura, e a gente bate papo pelo WhatsApp, pela internet, e isso está muito interessante. Porque, para você se reunir fisicamente, hoje em dia está muito complicado. Não estou falando hoje em dia por causa da pandemia, não. Hoje em dia é coisa de vida moderna, que você não tem muito tempo para fazer reuniões de família e se ver. Mas a internet está aproximando muito, está aproximando muito as pessoas. Eu estou em contato com vários primos que eu tinha perdido contato através da internet. Muito interessante. Estou gostando muito.
Eron Falbo: [53:00] E você também gosta de descobrir primos? Tipo, entrar em contato, procurar no Facebook, esse tipo de coisa?
Ricardo Stambowsky: [53:07] Ah, gente, eu faço parte de vários grupos que estudam geografia, sobre história, sobre prédios históricos, fazendas antigas, engenhos de Pernambuco.
Eron Falbo: [53:20] Eu também faço tudo isso.
Ricardo Stambowsky: [53:23] O mundo da internet é fascinante.
Eron Falbo: [53:27] A gente tem que trocar figurinha, Ricardo. Eu quero te convidar para vir jantar aqui em casa.
Ricardo Stambowsky: [53:32] Depois do live, olha aí. Vamos ficar amigos, né, Eron?
Eron Falbo: [53:37] Eu quero que você me ensine todas as manhas que você aprendeu aí para estudar genealogia.
Ricardo Stambowsky: [53:46] Eu quero ter a maior proximidade com você e com o maior prazer.
Eron Falbo: [53:49] Você já fez aquele teste de DNA e procurou as origens através de...
Ricardo Stambowsky: [53:54] Não, eu não fiz não, você fez?
Eron Falbo: [53:55] Eu fiz, é muito legal, muito legal.
Ricardo Stambowsky: [53:58] E deu muita coisa interessante?
Eron Falbo: [53:59] Tipo assim, eu sou 14% irlandês e ninguém na família sabe. Porque 14% é bastante coisa.
Ricardo Stambowsky: [54:07] Algum irlandês ajudou aí pela sua família?
Eron Falbo: [54:09] Algum irlandês bem forte, porque 14% é muita coisa.
Ricardo Stambowsky: [54:15] É uma mistura enorme, porque meus avós são russos.
Eron Falbo: [54:22] São de polos diferentes?
Ricardo Stambowsky: [54:23] A maioria veio de Portugal, mas também tem gente que veio da Itália. Tenho antepassados indígenas.
Eron Falbo: [54:32] Você é igual a Dom Pedro I.
Ricardo Stambowsky: [54:34] Uma índia que era tabajara, Muirubi, que é uma história conhecida na genealogia pernambucana. A Muirubi, o pai dela salvou um português. Ela se apaixonou por ele, pediu pelo português para o pai, o pai o tirou do caldeirão, eles se casaram e tiveram muitos filhos. A mistura de raças aqui é uma característica do Brasil. Não existe família que não tenha sangue negro, sangue índio, sangue branco, sangue judeu...
Eron Falbo: [55:20] Sangue... E é uma coisa que a gente deve se orgulhar.
Ricardo Stambowsky: [55:23] ...que é uma família católica de Portugal, uma via, tem muitos cristãos novos, que eram judeus convertidos.
Eron Falbo: [55:30] Com certeza.
Ricardo Stambowsky: [55:31] Converteram na época da Inquisição e que vinham para o Brasil por isso. Então é uma misturada muito grande e é isso que faz a nossa nacionalidade, essa multiplicidade de origens. Nós temos origens italianas, francesas, japonesas, tem tudo aqui no Brasil.
Eron Falbo: [55:55] Isso é uma coisa que a gente deve se orgulhar, é dessa nascença que veio também do império de miscigenação, que era uma agenda, era um programa da realeza brasileira. Dom João VI já queria fazer uma raça superior de índios, brancos e africanos.
Ricardo Stambowsky: [56:21] O governo segundo falava tupi correntemente. Conhecia a língua tupi correntemente. Os portugueses tiveram filhos com os índios, com as índias, com os negros. A miscigenação foi desde o início. O povo brasileiro é miscigenado de todas essas raças que contribuíram para formar o brasileiro. Então, o Brasil é um país muito especial nesse sentido, né?
Eron Falbo: [56:54] Com certeza. E é muito avant-garde, né? É muito progressista nesse sentido, né? Porque como que você tem, no final do século XVIII, uma família real, que é o Dom João VI, já pensando em miscigenação de raças, né? Enquanto todo mundo tava tentando criar separações, que demoraria 200 anos.
Ricardo Stambowsky: [57:16] A gente estava falando do Império Brasileiro, dos nobres brasileiros, dos titulares brasileiros. Você veja que a maior parte dos títulos nobiliários dos brasileiros são de nomes indígenas. O meu próprio, até, passado, meu ascendente, de Utinga. Utinga é uma palavra indígena. E barão de Piranxi, barão de Caiará.
Eron Falbo: [57:40] Exatamente, exatamente. E não foi os direitos humanos que fez isso. Não foi o pessoal de hoje em dia que está pedindo direitos iguais que fez isso. Foi o Dom Pedro I, Dom Pedro II.
Ricardo Stambowsky: [57:54] A maior parte dos títulos eram por nomes indígenas.
Eron Falbo: [57:58] Que é uma coisa muito bonita. Está honrando o povo nativo que estava nessa terra. Ricardo, a gente tem mais cinco minutos aqui. Eu queria te fazer uma última pergunta sobre a arte de ser anfitrião, de ser a pessoa responsável por prover o prazer, prover o bem-estar das pessoas. Me fala um pouquinho sobre essa responsabilidade. Lembro que a gente falou de você ser um descendente de um visconde e como isso traz uma responsabilidade. Como é que é isso para você estar nessa posição de prover e qual é essa responsabilidade?
Ricardo Stambowsky: [58:46] Olha, quando faço uma festa, é uma responsabilidade muito grande. As pessoas pensam em festa no lado fútil, no lado da música, da dança, da bebida, mas é muita responsabilidade, porque tem pessoas que podem passar mal na festa, podem ter problemas de saúde. Já tive vários casos de pessoas que se machucaram. As meninas, às vezes, tiram os sapatos no meio da festa para dançar descalças, de motu próprio. Já tive gente tendo problema de coração, desmaiando. Já tive noiva desmaiando no altar. Tem problemas de saúde. Eventualmente, graças a Deus, não é uma coisa muito comum, às vezes acontece uma briga. Uma pessoa que era alérgica e comeu alguma coisa que teve uma reação de saúde desagradável. Outro que bebeu demais e entrou em um estado grave, pessoas com estado comatoso. Então, é muita responsabilidade você estar na festa, mas você, como organizador, tem de estar atento, atento, para estar preparado para qualquer eventualidade. E são coisas que têm de ser resolvidas naquela exata hora. Você não pode deixar para depois, não tem no dia seguinte, tem de ser resolvido naquele momento. Então, são os imprevistos que acontecem, até do tempo, né? A ventania, já tive festa que teve furacão, ventania que arrancou os toldos, já teve festa que choveu a cântaros, que alagou tudo. Então, tudo pode acontecer, né? Tudo pode acontecer. Então, você tem que estar muito atento, muito treinado, você tem que ter uma equipe muito bem treinada, que conheça você...
Eron Falbo: [1:00:49] Que você... E cortou seu som, Ricardo. Não tô conseguindo te ouvir mais. Ricardo, não te ouço mais. Pessoal, tá ouvindo, Ricardo? Não te ouço mais. Agora foi, agora voltou, agora voltou. Voltou, voltou. Desculpa.
Ricardo Stambowsky: [1:01:09] É importante que você esteja muito atento, porque os imprevistos acontecem e você tem obrigação de resolver.
Eron Falbo: [1:01:19] E isso para a vida, então, a gente leva que uma pessoa, vamos dizer, que tem responsabilidade sobre o bem-estar de outras pessoas, ela se coloca nessa posição de estar atento. Isso não é para qualquer um. Eu imagino que esse trabalho de cerimonialista é um trabalho de altíssimo estresse, e você tem que ter essa disposição de estar servindo, de estar agradando, de estar preocupado com outras pessoas. E eu acho que é uma coisa que eu gostaria de passar para as pessoas que estão nos assistindo, as pessoas que estão ouvindo depois no podcast, é essa preocupação com os outros. E eu acho que isso é a essência da nossa bandeira imperial, que está por trás da aristocracia brasileira.
Ricardo Stambowsky: [1:02:07] Maravilha! E o Império Brasileiro, viva Dom...
Eron Falbo: [1:02:10] Pedro II! Viva, viva, viva, viva! E é isso, a grande aristocracia vem do grego aristos kratos, que é o poder, a influência dos melhores, aristos é os melhores. Aí, o que significa ser os melhores? Não é ser os mais ricos, nem ser os mais educados até, é ser as pessoas que estão se colocando na posição de provedores, se preocupando com outras pessoas, se elas estão se machucando, se elas estão bem, se elas estão tendo tudo que elas...
Ricardo Stambowsky: [1:02:42] Cuidando, cuidando, cuidando dos outros.
Eron Falbo: [1:02:45] Exatamente, cuidando dos outros.
Ricardo Stambowsky: [1:02:47] A gente cuida da gente, de quem está em volta e de quem a gente possa alcançar. Mas é isso, já estamos acabando. Antes de acabar, eu gostei muito de participar dessa live, vamos ficar amigos forever. Agora, agradecer a todos os amigos que acompanharam aqui a nossa live. Eu já vi o nome de vários, eu não vou citar, não. Talvez tenha alguém que você não viu.
Eron Falbo: [1:03:20] Talvez você não viu alguém. Eu agradeço muito a sua presença, a sua cordialidade, as suas boas maneiras. Eu sei que você trabalhou sua vida inteira para estar nesse momento com essa elegância, esse refinamento. Então, agradeço cada momento aí que você se dedicou e se tornou esse cavaleiro que você é. Muito obrigado por tudo. Obrigado a todos pela presença. E depois ouçam ali no podcast e procurem Ricardo Stambowsky no Instagram para fazer sua festa, qualquer tipo de festa. Ele tem experiência maior do que a grande maioria. E tá com essa boa vontade pra tornar você um bom anfitrião.
Ricardo Stambowsky: [1:04:10] Muito obrigado. Um abração pra você.
Eron Falbo: [1:04:13] Um abração. Boa noite. Tudo de bom.
No Alvo com Eron Falbo · episódio #39 · todos os episódios