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#31 O artista interior

com Maurício Branco · 16 de nov de 2020

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Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Apresentação de Maurício Branco (0:00)

Eron Falbo: [0:05] Boa noite! Alô, alô! Sejam bem-vindos para a live com Maurício Branco. Estamos aqui com Maurício Branco, ator de cinema, teatro e novelas da Globo, apresentador, diretor de documentários, produtor e empreendedor cultural. Maurício é de Brasília, cresceu junto com a galera de Brasília, como Renato Russo, a galera do Plebe Rude, etc. Alguns dos quais também são meus amigos. E também, depois que veio para o Rio, foi muito amigo do Cazuza, se eu não me engano. Conheci bem, mais amigo do Renato.

Maurício Branco: [0:45] Renato era mais meu amigo.

Eron Falbo: [0:48] Aí eu conheci o Maurício recentemente e a gente já esteve junto várias vezes e deu para ver que o Maurício... todo mundo que eu encontro na rua, a gente encontra junto, tem um carinho enorme pelo Maurício. Ele chega e alegra o ambiente imediatamente, as pessoas recebem ele e me recebem por ser amigo dele, por estar do lado dele. Então, assim, dá para ver que o carinho é enorme por você e transborda até para mim. Então eu te agradeço por tudo aí que a gente tem trocado nos últimos tempos, valeu mesmo. A gente se conhece realmente há pouco tempo pelo nível de carinho e identidade que a gente tem um pelo outro. A gente começou conversando sobre Brasília. A gente falou que os dois são de Brasília e o Maurício, quando morava em Brasília, assim como eu, quando morava em Brasília, a gente organizava festas de rock. Foi a primeira coisa que a gente se identificou. E isso começou na nossa amizade. Eu acho que a primeira coisa que eu vou te perguntar sobre isso, sobre Brasília. Você quer voltar para o tema que você estava falando antes ou não? Vamos lá.

Maurício Branco: [2:09] Beleza. Posso tirar o blazer porque eu botei esse blazer só para te receber.

Eron Falbo: [2:16] Eu também estou querendo tirar o meu.

Maurício Branco: [2:18] Você só recebe blazer.

Eron Falbo: [2:20] Depois eu tenho que explicar meu blazer.

Maurício Branco: [2:24] Para voltar aos tempos do rock and roll de Brasília: bom, eu nasci em Brasília, sou da primeira geração de Brasília. Graças a Deus, eu nasci no final dos anos 60. Então eu sou da primeira geração de Brasília. Brasília foi inaugurada nos anos 60, em 1960. Então eu tenho muito orgulho de ser da primeira geração de Brasília. E de ter tido uma infância feliz e ter estudado em colégios incríveis e de ter acompanhado principalmente toda uma história da música brasileira, porque a revolução do rock brasileiro, dentro da história da música brasileira, ela já está ali calcificada, vou usar essa palavra, já entrou ali como um dos capítulos da história do rock do Brasil.

Infância na primeira geração de Brasília (2:42)

Eron Falbo: [3:16] E como é que era essa parada lá no início, né? Porque eu acho que essas bandas que eram de Brasília hoje viraram do Brasil, né? São bandas, especialmente Legião Urbana, eu acho que é quase como se fosse os Beatles brasileiros, em nível de carinho, de universalidade, que toca todas as gerações, que o brasileiro pegou pra cima, até mais que os Mutantes, né? Talvez comparável só com o Roberto Carlos, mas o Roberto Carlos não é tão rock assim. Então, assim, no começo, como é que era, né? Porque, tipo, a gente vê como uma banda já formada, mas como é que era essa vibe, esse início do rock lá em Brasília, antes da fama?

Maurício Branco: [4:01] Aconteceu de uma forma meio de garagem, assim. As pessoas pegavam... Final dos anos 70, começo dos anos 80, nessa época ainda não tinha entrado nessa onda, mas 83, 84, Brasília não tinha nada para se fazer nessa época, realmente, não tinha telefone celular, não tinha internet, era cinema ou ir para o Foods ali na 110 Sul, para quem não conhece Brasília, a 110 tinha uma lanchonete perto de um cinema. Então, era como se fosse uma cidade interior, praticamente, e não tinha muita coisa para você fazer. Dá para ir para o cinema ou ficar na sua quadra, porque Brasília é dividida em quadras e é como se fosse um condomínio, só que são abertos. Então, esse movimento foi nascendo dessa juventude que ficava meio ociosa, de querer fazer alguma coisa, de que, sabe, lia-se muito. Você lia... Na minha casa, por exemplo, meu pai... era uma estante cheia de livros, então eu passava o dia inteiro ali, olhando para aqueles livros ali: Chico Buarque, várias coisas incríveis que o...

Cena de garagem do rock brasiliense (4:05)

Eron Falbo: [5:22] Chico... E é uma cidade sedentária, né? Porque não é que nem o Rio de Janeiro, que você sai, vai andando, passeando, vai comprar pão, não sei o quê. É uma cidade que, pô, para você ir para qualquer lugar, você precisa ir de carro. Então, você está sempre sentado, aí você lê mais mesmo, né? É até uma forma boa de educar as pessoas.

Maurício Branco: [5:43] E o que acontecia? A informação que chegava do exterior, que chegava para a juventude de Brasília, de fora, era ou através do cinema ou através de revistas, que naquela época também não tinha muita revista importada. Você tinha que encomendar na banca para conseguir revista tal, publicação, você tinha que comprar numa banca X. E então eram os filhos dos diplomatas.

Eron Falbo: [6:12] O Renato era filho de diplomata? Não lembro.

Maurício Branco: [6:15] O pai do Renato era funcionário do Banco do Brasil.

Eron Falbo: [6:19] Mas tinha alguém? Alguém das bandas lá era filho de diplomata?

Maurício Branco: [6:24] A maioria. O Dinho Ouro Preto era filho de diplomata. O Dado Villa-Lobos era filho de diplomata. O Bi Ribeiro, dos Paralamas, que também morou em Brasília, o pai dele também.

Eron Falbo: [6:34] Mas o Renato morou nos Estados Unidos, não morou? É que ele aprendeu inglês bem e tal.

Maurício Branco: [6:38] Parte da cultura do Renato veio também por causa desse tempo que ele ficou nos Estados Unidos. E os Estados Unidos é um país que a informação era uma coisa bem mais distribuída do que aqui. Bom, mas enfim, então era uma coisa meio de garagem. Então, esses jovens faziam o quê? Eles pegavam aquele equipamentozinho ali, iam para as partes, atrás das sobrelojas, sobrelojas são aquelas entre quadras, onde tem os comércios, as quadras, e ali eles faziam, tipo, plugavam ali o som e ficavam levando um som. E assim veio o Aborto Elétrico, né?

Eron Falbo: [7:21] Que é a primeira versão do Legião Urbana.

Maurício Branco: [7:24] O Aborto Elétrico foi quebrado em... Só foi uma cisão. Uma parte virou Capital Inicial, outra parte virou Legião Urbana.

Legião Urbana estoura e vira fama nacional (7:29)

Eron Falbo: [7:34] Não sabia, não sabia.

Maurício Branco: [7:36] Então teve essa coisa. E eu observava, porque meu pai fazia questão que nós participássemos, eu e minhas irmãs, das atividades culturais que a cidade apresentava. Tinha muita poesia, tinha um concerto chamado Cabeças, ali em Brasília, que era um sarau de poesias todos os domingos no parque, e era uma coisa muito legal, porque ali foi o primeiro contato que eu tive com a arte, que eu comecei a tomar um gosto pelo palco. Foi a primeira vez que eu subi num palco, era numa concha acústica, dentro do parque, esse parque que tem em Brasília, grande, que eu não sei qual é o nome hoje em dia, na época era Piton Farias, eu não sei qual é o nome hoje em dia do parque. Eu queria só mandar um beijo pro pessoal, meus amigos que estão entrando aí, que estão aqui acompanhando.

Eron Falbo: [8:25] Sejam bem-vindos. Se quiserem fazer perguntas, por favor, põe na caixinha, que vai entrando gente e às vezes fica congestionado. Por favor, põe na caixinha que a gente responde. Pois é.

Maurício Branco: [8:38] E aí, enfim, comecei a ver a arte através desses eventos que aconteciam em Brasília. Mas... Assim... Ninguém tinha pretensão de nada. Ninguém ali tinha pretensão de ficar famosos. Nem o Renato, porque eu não conheci o Renato direito ainda, mas conheci os outros músicos. Enfim, boa noite, boa noite, estou conseguindo ler os nomes direito.

Eron Falbo: [9:10] Pires Sácio.

Maurício Branco: [9:12] Pires. Mas, enfim, eu acompanhava o movimento. Só que, em 1984, a Legião estourou, a Legião Urbana estourou. E aí... Os olhos do Brasil se voltaram para Brasília, nessa coisa do rock'n'roll. Então a Legião estourou e as outras bandas, que eram a Plebe Rude, a Escola dos Escândalos, que era a minha banda favorita, junto com a Plebe, eram as minhas duas bandas favoritas, e todas elas tinham aquela coisa de rock contestador, sabe. Enfim, tinha uma chamada Detrito Federal, que era muito boa também.

Eron Falbo: [9:56] Eu lembro dessa. Eu te falei que eu conheci o Felipe Seabra antes de saber da existência do Club Rouge, né? Porque eu gostava muito de Legião Urbana. O Felipe Seabra é o cantor do Club Rouge, quem não sabe. E a gente, pô, da mesma cena lá, no Rock Brasília, eu fiquei... Ele era tipo um mentor pra mim no começo, eu tinha 16, 17 anos. E conheci ele, só que nunca tinha ouvido falar de Club Rouge, então ele chegou cheio de áreas... Pô, sou do Flávio Ruggia.

Maurício Branco: [10:24] O Felipe encarava a coisa já totalmente, porque era um... De uma hora pra outra, quando a Legião estourou, todos viraram profissionais. Parou de ser aquela coisa de vamos fazer um showzinho ali, fazer um show num bar ali, não sei aonde. Virou uma coisa mais profissional, porque os olhos... A coisa virou pra Brasília. Então, começaram a ir para Brasília jornalistas em revistas especializadas de música para tentar entender esse fenômeno, porque as letras da Legião eram muito bem escritas.

Eron Falbo: [11:05] E também muito centradas em Brasília. Tem muitas referências à Brasília o tempo todo.

Maurício Branco: [11:09] Tocavam demais as pessoas. Então, as pessoas começaram a tentar entender que fenômeno era esse. E, para mim, era uma brincadeira, era uma grande brincadeira. Eu vi aquilo ali como uma brincadeira, porque eu não era músico, não tinha intenção de tocar, nunca tive. Tentei tocar na banda do Colégio Marista, mas foi um erro absoluto.

Eron Falbo: [11:35] Mas você tem projetos musicais, entendeu?

Maurício Branco: [11:38] Eu toquei trompete, trombone de vara, tuba, todos os instrumentos que você pode imaginar, mas eu nunca consegui me identificar exatamente.

Eron Falbo: [11:48] Mas, mais recentemente, você não fazia, se eu não me engano. Você mostrou alguma coisa, você fez alguma coisa mais recentemente que você cantou?

Maurício Branco: [12:00] Foi, eu fiz um show, esse show, mas isso foi de uma bagagem, quer dizer, eu não sou cantor, sou um ator que canta. Então, toda essa parte musical aí veio de aulas de música que eu fiz depois, que eu me tornei profissional, ator profissional, que eu comecei a estudar música porque eu vi que era uma coisa que, para a minha carreira, seria interessante, tanto que acabei fazendo um musical mais à frente, um grande musical conhecido, no começo dos anos 2000. Foi a primeira vez que eu tive um contato com um microfone de lapela, assim. Eu acho que, na verdade, desligavam o meu microfone. Eu acho que desligavam ele porque eu não... Mas eu comecei a estudar. E aí eu resolvi fazer esse musical. Já pulamos de Brasília, já demos uma pulada pro futuro. É isso mesmo?

Eron Falbo: [12:56] Não, mas a gente vai... é uma entrevista quântica, entendeu? Pode ir, voltar... É uma conversa, né? A gente tá num bar. Inclusive, o que você tá bebendo aí?

Maurício Branco: [13:08] Eu tô tomando um Chardonnay maravilhoso que eu ganhei de presente de um amigo meu que eu amo muito. Ele é um vinho argentino de uma cidade chamada Mendoza, que eu conheço, inclusive, e é meu presente. Um beijo. Ele deve estar me vendo aí, que eu vou dar um beijo enorme. Te amo muito, amigo. Muito obrigado pelo presente.

Eron Falbo: [13:29] Como a gente combinou também, totalmente.

Maurício Branco: [13:30] Você também está no estado. Ele pede a bebida com brilho. Pois é.

Eron Falbo: [13:41] Mas assim, a ideia da conversa é ficar totalmente à vontade. Eu sei que você já foi entrevistado um milhão de vezes, eu tô até super nervoso, porque você é apresentador de verdade. Eu tô aqui como charlatão, fazendo o melhor possível pra fingir que eu não tô suando. Mas você, que é apresentador de verdade, me deixa um pouquinho nervoso. Só que, cara, vamos fazer uma parada que a gente nunca fez antes, que é só conversar à vontade, entendeu? É, conta piada.

Aulas de canto e Rufus Wainwright (14:13)

Maurício Branco: [14:13] Claro. Bom, mas enfim, então eu comecei a fazer... Com a música foi isso. Eu comecei estudando. Aí, o Fernando Abreu, teu irmão, que é um... Não é Fernando o nome dele, não, esqueci o nome mesmo. Quando eu fui fazer uma aula de canto com ele, isso eu tinha, sei lá, uns 20 e poucos anos. Aí ele virou pra mim e falou assim: você tem certeza que quer ser cantor? Eu falei, eu não quero ser cantor. Aprender, eu saber cantar, colocar a minha voz num lugar confortável, pelo menos. Ele falou, ah, bom, mas ele se espantou quando ele falou: o que você quer cantar? Aí eu abri a partitura, só tinha...

Eron Falbo: [14:51] Música do que é difícil pra caramba.

Maurício Branco: [14:56] É o meu favorito, na verdade. Eu já sabia cantar muitas músicas dele, porque eu sempre gostei do Rufus também, né?

Eron Falbo: [15:02] O favorito do nosso amigo em comum, o Rufus. Na época, ele falou isso, sim. Ah, tá.

Maurício Branco: [15:13] Não sabia. Mas, enfim, eu comecei a me perguntar, na verdade, há tão pouco tempo, quando eu estava lúcido, estava para conversar. Mas, enfim...

Eron Falbo: [15:24] Isso foi uma das coisas que nos uniu, né, gente? Poucas pessoas no Brasil sabem quem é o Rufus Wainwright. E nós dois somos dois dos poucos brasileiros vivos, né? Ele não é tão velho...

Maurício Branco: [15:37] Não, mas... o Jô Soares é fã dele?

Eron Falbo: [15:41] Ah, sim, claro, mas eu estou dizendo assim: ele não é super conhecido no Brasil, porque nos Estados Unidos ele é ultraconhecido, mas a gente trocou uma ideia e os dois conheciam ele pessoalmente, tinham histórias com ele.

Maurício Branco: [15:55] Eu que apresentei o Jô Soares a ele, e o Jô Soares falou que estava meio nervoso para entrevistá-lo, não sabia mais o que dizer. Foi, e aí ele ia no programa do Jô no dia seguinte. E aí eu apresentei ao Jô o Rufus Wainwright, aí o Jô, que estava lá super nervoso, falou: 'Poxa, eu adorei' e tal... Enfim.

Eron Falbo: [16:22] Que legal.

Maurício Branco: [16:22] Foi a Bebel Gilberto que inventou essa história. A Bebel me ligou de Nova York, falou: 'Olha, tá indo um cantor americano pra aí, pro Rio, recebe ele.' Eu achei que era um velho, que ia chegar um velho, assim... Mas não tem problema, tem problema com o velho.

Eron Falbo: [16:35] Não tem problema com o velho. Só um disclaimer: não tem problema com os velhos.

Maurício Branco: [16:42] Não, não tem o menor problema com a idade. Quando eu tinha 22 anos, namorei uma mulher de 51. Então, pra mim, é uma coisa que não tem muito problema.

Eron Falbo: [16:54] Pode ser.

Maurício Branco: [16:55] É uma paradinha de vez em quando. Mas enfim, aí, Brasília... E aí, eu já estava com aquela vontade de mudar para o Rio de Janeiro, porque Brasília, para mim... eu sabia que eu queria trabalhar em televisão, eu queria fazer televisão, eu queria trabalhar em TV. E Brasília não me dava essa possibilidade. Então, depois que eu servi no exército, fiquei três meses no exército, na Bateria Antiaérea, no exército brasileiro. Fiquei lá para aprender a arrumar cama e ser gente, porque eu era...

Decisão de se mudar para o Rio (17:09)

Eron Falbo: [17:33] Muito fã de papai.

Maurício Branco: [17:35] Eu era muito fã de papai.

Eron Falbo: [17:37] É isso que falta para mim. Eu vou ver se o exército me aceita.

Maurício Branco: [17:40] Você era muito animadinho. Exatamente. Eu quero servir. Só que aí teve uma... Eu já fotografava aqui no Rio de.

Eron Falbo: [17:48] Janeiro com o modelo.

Maurício Branco: [17:49] Eles me chamavam muito. Está conseguindo acessar aí?

Eron Falbo: [17:51] Não.

Maurício Branco: [17:51] Está difícil?

Eron Falbo: [17:52] Não estou conseguindo. Foi mal. Desculpa o barulho.

Maurício Branco: [17:53] Eu pensei que era legal usar um bique. Você usa um bique?

Eron Falbo: [17:56] Eu estou quase voltando para o bique.

Maurício Branco: [17:58] Olha a facilidade.

Eron Falbo: [18:00] Putz, nem me humilha assim, pô. Pra quem tá ouvindo: eu tô aqui com uma Ferrari dos isqueiros e não tô conseguindo.

Maurício Branco: [18:11] Pois é. Bom, enfim, eu acabei vindo pro Rio nessa leva, porque meu cunhado era de uma banda de rock de Brasília também. Ele era vocalista de uma banda chamada Finis Africae, uma banda super boa de Brasília. E eu acabei vindo nessa leva pro Rio de Janeiro e comecei a trabalhar com modelo, tal, tal, tal. Eu já trabalhava com modelo em Brasília. Tinha um shopping em Brasília, não sei se existe ainda, o Parque Shopping. Existe ainda ou não?

Eron Falbo: [18:40] Existe. Aí, ó, expandiu. Hoje em dia tá super nobre.

Maurício Branco: [18:45] Foi lá que eu comecei a minha carreira de modelo. Eu fazia os desfiles lá, desfilava lá.

Eron Falbo: [18:50] É mesmo? Que engraçado. Eu também cresci... É interessante essas coisas, tipo assim: gerações diferentes, mas a gente cresceu com as mesmas paradas, né?

Maurício Branco: [18:58] E as nossas paradas estavam do lado, né?

Eron Falbo: [19:01] Ah, é verdade. Você mora na 113?

Maurício Branco: [19:04] E eu da 300 e... É a Marielle que tá aqui de Brasília, não? Tem uma Marielle aqui. Será que é a Marielle que eu tô pensando ou não? Não sei.

Eron Falbo: [19:11] Não sei. Marielle, você é a Marielle que tá pensando?

Maurício Branco: [19:14] Você é a Marielle que eu tô pensando? A Marielle vocalista do Escola de Escândalo? Os dois tentando fumar. Olha o pessoal do fã-clube aqui, o pessoal do fã-clube da Eternidade já entrou, Eron. E o Alexandre Sermud, o pessoal da Legião. Gente, vem cá! Vou aproveitar pra fazer uma propaganda rápida aqui: os amigos meus estão lançando um livro sobre Brasília, a turma de Brasília. Porque eu, na verdade, eu que inventei o Gilbertinho... Inventei não, eu lancei o Gilbertinho.

Eron Falbo: [19:47] Conta essa história aí. Fala o que é o Gilbertinho e conta essa história, que eu vou adorar.

Maurício Branco: [19:51] O Gilbertinho é um centro comercial que tem em Brasília.

Eron Falbo: [19:54] Não, desculpa, desculpa, eu interrompi a propaganda. Eu acho que é legal a gente fazer a...

Maurício Branco: [19:59] Não, mas aí depois eu volto.

Eron Falbo: [20:00] Tem a ver, tem a ver. Falou mal, falou mal. Beleza.

Maurício Branco: [20:02] O Gilbertinho era um centro comercial em Brasília que estava micado, abandonado, assim, meio... Era um lugar que tinha uma parte dele meio micado. E o dono de uma... O cara construiu uma boate e a boate não vingou. Ele era o dono da boate gay de Brasília. E eu fazia festas punks na boate gay em Brasília.

Eron Falbo: [20:21] Caraca, já existia boate gay nos anos 80?

Maurício Branco: [20:24] Tinha, no Conic. Era no Conic.

Eron Falbo: [20:26] Ah, no Conic.

Maurício Branco: [20:27] Era incrível, a boate era incrível, era um lugar incrível. E no fim de semana era gay, e nos dias de semana eu fazia festas pra turma... pra turma que eles chamavam de turma dark. É engraçado falar isso, dark, né? Porque as pessoas só falavam: olha, bota assim, a festa é para punks, darks e afins.

Eron Falbo: [20:51] Então em Brasília eu boto fé que nos anos 80 gay e roqueiro era a mesma coisa, né? Tipo, boate gay era boate de roqueiro também, eu boto fé, não?

Maurício Branco: [21:01] Exatamente. É, mas enfim, eu fazia as festas e ganhava uma grana, era ótimo. Bom, mas enfim, esses amigos, o Ricardo Junqueira e o Nicolau, que eu não sei o sobrenome dele, esqueci, eles fotografaram todo esse... De 81 a 89, eles documentaram toda essa turma. Não foi só o rock, não, eles fotografavam as pessoas que estavam ali. Então, eles contribuíram, esse livro é histórico. Eles estão fazendo através de crowdfunding... Crowdfunding, me ajuda a falar, vai.

Eron Falbo: [21:32] Crowdfunding. Antes de você continuar, só porque eu tô morrendo de calor aqui, eu vou tirar essa minha jaqueta, mas só pra anunciar: eu botei em homenagem a você, porque eu tava fazendo minha mudança aqui, você sabe que eu tô de mudança, e achei esse blazer. Tô usando terno completo aqui, não vou te mostrar porque eu tô de cueca... não, mentira. Mas eu tô usando o terno completo aqui dos Julianos, que era a minha banda em Brasília, a gente fazia show três vezes por semana.

Maurício Branco: [22:06] É, eu vi a foto.

Eron Falbo: [22:07] Aí eu tenho aqui um alvo que a gente imitou o The Who, só que com as cores brasileiras, ao invés de cores britânicas. Estampamos no terno. Mas eu botei aqui só pra homenagear a Brasília, mas já vou tirar, porque tá foda de calor aqui no Rio de Janeiro.

Maurício Branco: [22:24] Olha, gente, olha a cueca dele, que ele tá mostrando.

Eron Falbo: [22:31] Aí do outro lado tem isso aqui, ó, só uma intervençãozinha rápida. Do outro lado tem o símbolo de Marte, que derruba a mentinha.

Maurício Branco: [22:40] Olha que legal.

Eron Falbo: [22:42] Foi mal. Eles estão falando do livro que estão fazendo crowdfunding no... Qual é o nome do... Catarse, é?

Maurício Branco: [22:49] Não, é Catarse, exatamente. E conta a história dessa turma de Brasília, de 81 a 89. Então é um livro... Eles estão pedindo apoio, porque não deve ter editora, porque... É impressionante como lançam livros de autoajuda de uma forma absurda. Eu nunca vi tanto livro de autoajuda na minha vida. Hoje em dia, você vai numa livraria e só tem livro de autoajuda. Acho legal ter autoajuda, ter pessoas escrevendo sobre autoajuda, mas é uma coisa que já está meio que dando uma... 80% da livraria hoje são de livros de autoajuda. Sabe? Eu, graças a Deus, tenho amigos, e quando eu quero uma autoajuda, eu vou lá, bebo uma cerveja, tomo um vinho, fico pensando na minha vida, ou então ligo pra minha psiquiatra, marco uma hora, eu vou lá e converso com ela, porque eu não tenho paciência pra isso. Mas, enfim. Então, eles estão lançando esse livro. E eu tô nesse livro. Com 15 anos. Tem uma foto minha com 15 anos. Minha irmã tá no livro. Tem várias pessoas. Vim pro Rio pra trabalhar como modelo. E meu pai não queria que eu fizesse isso. Meu pai falou: não, você tem que ficar em Brasília, você tem que trabalhar no Brasil. Eu queria que você seguisse uma carreira diplomática. Meu pai sempre quis que eu seguisse uma carreira diplomática. Desde quando a gente é nascido, que eu vi naquele livrinho de criança, ele falou: o que você quer que seu filho seja? Diplomata. E era uma coisa que eu deveria ter feito. Eu me arrependo um pouco disso.

Eron Falbo: [24:22] Por que isso? Por que isso?

Maurício Branco: [24:24] Porque eu conheci vários diplomatas depois.

Eron Falbo: [24:28] Você não ia ser você, pô.

Maurício Branco: [24:30] Eu conheci, por exemplo, o pai de uma amiga minha, que foi diplomata, embaixador do Brasil em Washington. E é um homem interessantíssimo, inteligente. E eu vi aquilo e falei: gente, por que eu não segui essa carreira? Porque eu acho que poderia... Mas, enfim, devaneei também. Enfim, comecei a trabalhar, comecei a fazer teatro, e vi que aquilo também...

Estreia como ator na Globo (24:51)

Eron Falbo: [24:55] Não, mas peraí, devaneei, sou muito bem-vindo. Fala mais sobre essa parada de diplomata. Por quê? Por que você se vê como diplomata?

Maurício Branco: [25:07] Bom, eu sou um excelente diplomata. Você quer que eu resolva conflitos?

Eron Falbo: [25:16] Conflitos internacionais, é comigo mesmo.

Maurício Branco: [25:18] Menos os meus, mas os dos outros eu resolvo muito bem. É sempre assim, né? Eu sou sagitariano, sou muito bom conselheiro, muito bom amigo, enfim. Mas eu achava que poderia... Tanto que eu não seguia carreira. Se eu quisesse realmente ser diplomata, eu teria ido em frente e seguido aquilo ali. Mas não foi a minha, não. Eu queria ser ator, eu queria me expressar, eu queria dar o meu recado, como eu acho que até hoje, eu só tenho 50 anos, eu acredito que eu vá conseguir ainda fazer alguma coisa com o que toca as pessoas.

Eron Falbo: [26:00] E cara, eu acho que o mundo hoje em dia tá muito menos preto e branco, né? A gente não é mais só diplomata ou só ator, você mesmo, pô, é porque as pessoas te conhecem como ator, mas você é diretor de documentário, você é empreendedor cultural, você é um cara que articula negócios e coisas entre as pessoas de uma maneira muito profissional, muito competente. E eu acho que o mundo é uma... Existe isso em português? Uma ostra? The world is your oyster.

Maurício Branco: [26:32] Eu nunca procurei muito, eu nunca fui procurar, pedir emprego para trabalhar como ator. Eu nunca fui. Chegava lá na Globo e falava, olha, estou precisando. Eu cheguei umas cinco vezes e, depois disso, eu falei, chega. Então, assim, acho que eu sou conhecido, já fiz 12 novelas, então, a partir do momento que já me conhecem ali dentro. E todas as vezes que eu fui trabalhar, foi muito legal, tanto que, a minha volta, eu parei de fazer novela na Globo em 2001. E aí, a partir daí, eu fiquei, tipo, cinco... Não, depois eu fiz algumas participações, algumas novelas pequenas, tal, mas aí a Fernanda Lima me chamou para fazer o Amor e Sexo, em 2010. Porque a minha primeira novela foi um estrondo, foi tipo assim... Foi tipo o.

Eron Falbo: [27:29] Porque eu não sei nem onde achar esse arquivo de novela hoje em dia. Mas você começou como um personagem principal? Como é que foi essa...

Maurício Branco: [27:43] Não, eu levei um susto, porque me chamaram lá, fiz um teste pra uma minissérie chamada Anos Rebeldes. Achando que eu ia fazer de qualquer jeito a minissérie, e meu pai já querendo que eu fosse pra Washington. Pra ficar na casa do amigo dele em Washington, pra perfeiçoar meu inglês. Eu falei, a última tentativa, porque eu fazia um curso de teatro, e eu não estava muito feliz no curso de teatro. Eu ficava feliz só nas aulas de literatura dramática e quando falava sobre os encenadores. Mas aqueles exercícios teatrais me irritavam, sabe? Era uma coisa que eu não me... A consciência corporal que eu tinha... Você.

Eron Falbo: [28:25] Não gostava da técnica? Você gostava de uma parada mais...

Maurício Branco: [28:28] Não, eu gostava de aprender sobre os encenadores.

Eron Falbo: [28:32] O Stanislavski, Meyerhold... Só que não dá para se limitar, talvez. Não se limitar ao método.

Maurício Branco: [28:39] Não, eu não conseguia me soltar. Eu era ator, só que eu chegava... E não conseguia fazer a cena, entendeu? Vamos lá, agora a cena é essa aqui. Eu não conseguia realizar... Você ficava pensando demais, né?

Eron Falbo: [28:51] Ficava pensando demais sobre... Será que eu estou fazendo o método certo? Será que...

Maurício Branco: [28:56] Exatamente. Eu não conseguia chegar e alcançar uma... Conseguir me definir ali na coisa. E eu tive que aprender na marra, porque a Globo me contratou, o diretor Roberto Talma falou assim, eu fui chamado, fiz o teste de Prisão de Rebeldes, aí não passei. Eu falei, pai, agora eu quero viajar mesmo, eu quero ir pra Washington. Uma semana antes de eu embarcar, eles me ligam, a secretária do Roberto Talma, falando que tinha um papel pra mim numa novela, que ele queria conversar comigo. Eu achei que era um papel pequeno, que era um personagem pequeno. Quando eu cheguei lá, ele falou assim, olha só, eu tenho um personagem pra você, o personagem é esse aqui. Aí eu falei, quem? Aí tinha lá o Diogo, vem a sinopse e depois vem o perfil dos personagens. E tinha o Diogo, que era o personagem principal. Eu falei, quem é o Diogo? Ele falou, o Tarcísio Meira. Aí eu falei, e quem sou eu? Ele falou, é o Felipe, que era o filho do Diogo. Eu falei, eu vou ser filho do Tarcísio Meira? Falei, cara, eu não acredito nisso, assim.

Eron Falbo: [29:58] Pra mim, era gigante, né? O Tarcísio Meira era maior.

Maurício Branco: [30:03] Não, eu vi o cara na televisão desde criança, entendeu? Então eu falei... Aí, assim, eu passei uma semana com dor de barriga, mesmo, tipo, passando mal.

Eron Falbo: [30:16] Não era ressaca.

Maurício Branco: [30:17] Porque essa região da barriga é um chakra muito importante. É a região onde você bota algumas pessoas, pelo menos, eu sou um deles, que na hora do nervosismo, tudo bem, tudo pra cá. Então é aqui que você resolve a coisa. Eu não sei se falo muito sobre isso, enfim, posso só falar um pouquinho, mas é essa a questão. E eu fiquei uma semana mal, assim, e aí eu fui lá de novo, virei pro diretor e falei, olha só, você tem certeza que sou eu mesmo que você escolheu? Porque eu nunca fiz nada na minha vida. Ele falou assim, acredita na sua intuição, porque você vai, porque o personagem é seu. E o personagem foi escrito, na verdade, para o filho do Tarcísio Meira, para o Tarcisinho.

Eron Falbo: [31:03] Mas conta mais sobre esse sentimento de ser uma pessoa que está tentando. Eu já passei por isso na música também, mas conta sobre esse sentimento de você estar lá se arriscando. Seu pai não queria que você fizesse isso, seu pai queria que você fosse dentista ou alguma coisa normal. Não, eu sei, mas estou falando aqui, queria que fosse outra coisa. E você estava lá se arriscando, se colocando em jogo. Conta desse sentimento, assim, do momento que você sente, caramba, será que eu vou. E você não sabe ainda que você ganhou um papel, você não sabe se vai ser bem, se você vai bem ou não. Fala sobre esse momento, espiritualmente, sentimentalmente. Acho que muita gente nunca passou por isso.

Maurício Branco: [31:46] Não, é porque não é o seguinte, tem uma coisa, quando você é adolescente. Acho que é a fase mais insegura, que eu passei por isso. Eu nunca passei por isso. Se é adolescente, é uma coisa...

Eron Falbo: [32:03] É muito forte.

Maurício Branco: [32:04] É muito difícil ser adolescente, porque você não sabe o que vai...

Eron Falbo: [32:07] Ser da sua vida.

Maurício Branco: [32:09] Você tá num colégio, você não sabe o que vai ser da sua vida.

Eron Falbo: [32:11] Tem pressão de todo mundo, que você tem que ser alguém.

Maurício Branco: [32:16] Não, você não tem... Se você não tem uma referência... Por isso que muitos filhos de médicos são médicos, por isso que muitos filhos de advogados são advogados. Eles, por falta de... De ter um... De arriscar na vida... Coragem. Eu tive essa liberdade. Eu fui educado de uma forma que meu pai falava assim: olha só, ninguém se mete na vida de ninguém, eu não quero saber se você é interessado em homem, mulher, eu não quero saber de nada, eu quero que você seja uma pessoa legal. Você sabe que você tem caráter, e eu quero que você seja uma pessoa.

Eron Falbo: [32:49] Simples, que tenha... Legal, seu pai, não?

Maurício Branco: [32:52] Quero saber o que você vai fazer, mas ele forçou minha irmã a fazer economia. Acabou mudando, foi para história. E da história, acho que não é nem a caboclo, se mudou a vida.

Eron Falbo: [33:05] Ele é muito legal, liberado e flexível, só que ele forçou sua irmã a fazer economia.

Maurício Branco: [33:09] Foi pra Paris, foi lavar prato em Paris e casou. Hoje é uma produtora super importante, minha irmã é produtora de documentários franceses.

Eron Falbo: [33:17] É mesmo?

Maurício Branco: [33:18] É. Ela fez um documentário com o Karl Lagerfeld, super importante, super conhecido.

Eron Falbo: [33:24] Então tá no sangue. Seu pai que tava fugindo disso, ou seu pai também queria ser artista e tal?

Maurício Branco: [33:29] Não, meu pai era artista. Meu pai era poeta e ele tinha essa abertura. Ele deixava a gente ficar assistindo televisão até mais tarde. Meu pai não era muito rígido na questão de, tipo, vou levar você pro colégio, vou ficar ali em cima dos estudos. E isso acabou fazendo com que eu repetisse várias vezes de ano. E por aí foi. Fui convidado a me retirar do Marista. Embora eu tenha ganhado vários campeonatos como jogador de vôlei lá, ainda fui convidado a me retirar. Mas, tudo bem, a vida é assim, você vai levando porrada e aprendendo. E o Rio de Janeiro... Quando eu cheguei no Rio de Janeiro, Eron, eu cheguei numa época em que o rock brasileiro tava em polvorosa. O Cazuza tava arrebentando. O Barão Vermelho era tipo a banda que... E o Cazuza tava largando o Barão Vermelho nessa época. Eu tava numa boate em Ipanema, ali, sozinho, que nem você. Você chegou de Brasília todo chique, de terno, tudo bonito. Eu cheguei todo bonito também.

Chegada à cena do rock carioca (34:16)

Eron Falbo: [34:38] Alienado, né?

Maurício Branco: [34:39] Muito moderno, porque ser de Brasília nos anos 80 era muito chique. Era assim: ah, ele vem do rock de Brasília. Porque o rock de Brasília realmente abriu uma porta para os brasilienses, para o Brasil inteiro, principalmente aqui no Rio de Janeiro, que tinha curiosidade para conhecer a gente. Então quem era de Brasília disparava para ouvir. O Caetano Veloso falou: nossa, você é muito elegante, de onde você é? Eu falei: de Brasília. Ele falou: como é essa sociedade, por que as pessoas escrevem essas letras? Como é que vocês conseguem fazer isso? Eu falei: olha só, eu tenho 17 anos, eu não entendo nada disso.

Eron Falbo: [35:18] Isso não é oficial, eu não estou representando Brasília, desculpa. Fale, como é, o agente.

Maurício Branco: [35:24] André Moraes, olha só, temos outro conterrâneo nosso aqui, deixa eu só falar. O André Moraes é um produtor musical muito importante, Jerome. Ele fez vários filmes. O pai dele é um cineasta de Brasília. Maravilhoso.

Eron Falbo: [35:42] Seja bem-vindo, André. Eu também sou de Brasília. Todo mundo aqui é de Brasília. Praticamente todo mundo está assistindo de Brasília.

Maurício Branco: [35:48] André tinha uma banda chamada Os Cristianos. O nome da banda dele era Os Cristianos.

Eron Falbo: [35:53] Quem, eu? A minha banda?

Maurício Branco: [35:56] Não era os Cristianos?

Eron Falbo: [35:56] Não, Os Julianos. Os Julianos, falha. Foi inclusive, coincidentemente, baseado no imperador Juliano, que era contra os cristãos. Mas, André, seja bem-vindo. E, cara, eu ia te perguntar sobre Brasília, porque as pessoas realmente ficam maravilhadas com essa loucura de Brasília. E te digo mais: não é só Brasília, tem a galera de Brasília, especialmente da escola americana, a galera filha de diplomata, é um nível de alienação tão grande... Eu estudei a minha vida inteira na escola americana, a gente sai da estratosfera. Brasília, você sabe disso muito bem, você anda por Brasília e não tem referência de nada. Não tem coisa baiana, não tem coisa greco-romana. É uma arquitetura totalmente nova, né? Uma arquitetura comunista, branca, concreto. Você não cresce se sentindo que você tá fazendo parte de um resto do mundo. Você tá flutuando.

Maurício Branco: [37:03] É uma cidade única, e eu tenho muito orgulho disso. E outro dia... Tem um cara que faz um negócio no Facebook, tipo contando a história de Brasília. Mostra foto, tem fotos históricas e tal. E tem muitas pirâmides em Brasília, muitas casas em forma de pirâmide. Tem uma ligação aí, tem um buraco aí que liga o Egito à Brasília.

Eron Falbo: [37:27] Não, mas se você vir a cidade... Aquenáton, acho que é o nome do... É um faraó egípcio que era o único faraó monoteísta. Isso é igual a Brasília.

Maurício Branco: [37:43] Aquenáton. O Lodum fez a música do Tutancâmon. Aquenáton.

Eron Falbo: [37:50] Aquenáton. Eu falei exatamente Aquenáton.

Maurício Branco: [37:56] Brasília foi a Bahia Cultura.

Eron Falbo: [38:01] Supostamente Brasília é baseado nisso e tem várias comparações, a distância entre os lugares, não sei o quê. Então rola isso mesmo. Pois é, a Brasília mística.

Maurício Branco: [38:13] Eu tenho muito orgulho de Brasília por causa disso, porque eu senti a única... Quando eu fui para o Peru, embora Lima fosse uma cidade que tem mar... Quando eu fui filmar numa ilha, foi o meu segundo documentário. Quando eu fiz o meu segundo documentário, que era sobre uma peruana, hoje uma senhora, ela tem 80 anos, ela foi relações públicas do Estúdio 54, que foi a maior discoteca do mundo, nos anos 70. E os meus dois primeiros documentários, os temas eram disco. O primeiro foi Rio, Anos 70, que é a chegada da discoteca no Rio de Janeiro.

Documentários sobre a era disco no Rio (38:30)

Eron Falbo: [38:53] E por que isso? Por que esse tema disco?

Maurício Branco: [38:57] Porque foi uma forma de eu exorcizar... Na época, nos anos 70, eu tinha 7 anos de idade, quando a disco chegou mesmo ao Brasil, com Os Embalos de Sábado à Noite, aquele filme do John Travolta. Eu tinha 7 anos de idade e só podia imaginar, só podia ir em matinê, mas mesmo assim...

Eron Falbo: [39:19] Você não tinha tanto o desejo, você gostava tanto daquela parada que ficou com aquela coisa...

Maurício Branco: [39:25] Exatamente, exatamente. Mesmo assim, eu ia com a minha irmã e nós ganhávamos os concursos de dança nas discotecas, nas matinês. Mas eu queria a noite, o que era a noite. E quando a novela Dancing Days estreou, aí a febre, a coisa disco tomou conta do Brasil inteiro. E a TV Globo foi responsável por manter essa coisa. Então o documentário vem desde o começo dos anos 70, quando aquela turma que passou pela ditadura, os perseguidos políticos, aquela coisa toda... Quando eles chegaram nos anos 70, eles falaram assim: olha, cansamos de brigar, cansamos de tudo, agora a gente quer dançar. Então o documentário conta a história dessa turma aqui do Rio de Janeiro que fez tudo isso acontecer. No teatro, na TV, com a novela, com as trupes, o Trouxa Samboni, que era o grupo que a Regina Casé tinha, junto com o Milton Vasco Pereira e com o Evandro Mesquita, com a Patrícia Travasso. Eles deram um pé na porta, eles mudaram o ritmo do Brasil. É um movimento que parece ser...

Eron Falbo: [40:46] Uma.

Maurício Branco: [40:47] Coisa que vem de fora, meio americanizado, mas ajudou as pessoas a se libertarem, a saírem daquela onda de guerra que vinha dos anos 60, 64, 68, tudo isso. Foi quando eu vi, primeiramente, na sua live, por exemplo, com o Ricardo Amaral, você falou do Rio. Ele falou da Era de Ouro do Rio de Janeiro, então essa foi a época de ouro do Rio de Janeiro. E ele contribuiu bastante, porque fez o Papagaio Disco Clube. Ele, na verdade, o Ricardo Amaral, ele popularizou, porque é o seguinte: eram só clubes fechados. A primeira disco do Rio veio através disso. Era só convite? Não, só entrava VIP, era só quem tinha o cartão.

Eron Falbo: [41:38] Ah, entendi, é tipo um clube privado.

Maurício Branco: [41:42] É, o primeiro foi privê, foi o Regis.

Eron Falbo: [41:43] Aqui em Londres tem muito isso até hoje, e aqui no Brasil não tem coisa assim.

Maurício Branco: [41:48] É perto da sua casa, é naquele hotel que fica na esquina da Princesa Isabel.

Eron Falbo: [41:52] Aham. Pô, não fala pra todo mundo onde é. Eu tenho muitos seguidores que adorariam vir aqui e me assassinar, as coisas que eu falo.

Maurício Branco: [42:01] Ninguém vai saber, o Rio de Janeiro é tão grande que ninguém vai saber.

Eron Falbo: [42:05] Eu tô brincando, ninguém nem sabe quem eu sou.

Maurício Branco: [42:08] Pois é, mas ele democratizou a discoteca, o Ricardo Amaral democratizou a discoteca. Então, a coisa... Ah, foi ele que...

Eron Falbo: [42:17] Fez essa gafe de... elitizado com Members Only, aí ele deixou todo mundo entrar.

Maurício Branco: [42:24] E acabou com a parada. Foi o seguinte: a Regine's abriu o primeiro clube em 75. Em 76, o Nelson Motta abriu uma discoteca no Shopping da Gávea, e o Shopping da Gávea era um esqueleto, não tinha nada, eles estavam construindo o shopping, e o dono incorporador, o Sérgio Dourado, queria fazer alguma coisa para divulgar o shopping. Então, deu um espaço para o Nelson Motta abrir uma discoteca. E ele fez o Dancing Days, em 76. O nome é Frenetic Dancing Days Disco Club.

Eron Falbo: [42:59] Você que claramente ainda está em círculos muito elitizados de artistas, de músicos, etc. Por que você acha que esse tipo de coisa perdeu a importância? Com o Amaral eu até falei um pouco sobre isso. Na sua opinião, por que hoje em dia as coisas são tão mais abertas e as pessoas que são, vamos dizer, artistas, você não vê mais na rua, você não vê mais em lugares, etc.? Qual é o seu feeling?

Maurício Branco: [43:31] Acho que um dos fatores é que o Rio de Janeiro era uma cidade bem menor. A Zona Sul carioca era uma coisa muito pequena. O Leblon, por exemplo, hoje em dia... Eu mudei pra cá, pro Leblon, em 88, vim de Brasília direto pra cá. Era um lugar pequeno, não tinha nada, tinha a Pescaria Guanabara, o Real Astoria e mais nada. E tinha também alguns bares, mas todos frequentados por pequenas turmas, assim. O próprio Ricardo falou do Antônio, era um bar que tinha aqui na Bartolomeu Mitre, que é perto da minha casa.

Eron Falbo: [44:10] Que também era do Amaral, não?

Maurício Branco: [44:13] Não, o Antônio não era do Amaral.

Eron Falbo: [44:15] Ah não? Não é o que a galera falou também.

Maurício Branco: [44:16] Mas o Amaral frequentava.

Eron Falbo: [44:19] Já existia o Empório? Não... Ah, não, agora tem 38 anos. 38 anos, eu tô... Não, mas já existia, mas ninguém ia, né?

Maurício Branco: [44:29] Não, não, mas isso assim, eu tô falando dos anos...

Eron Falbo: [44:33] Eu sei, anos 70.

Maurício Branco: [44:34] Então, mas era bem menor. A cidade era bem menor. Mas, mesmo assim, existia... Sabe quantas discotecas tinham no Rio de Janeiro? Duzentas.

Eron Falbo: [44:44] Caraca, parece Beirute.

Maurício Branco: [44:47] Tinham 200 lugares pra você escolher pra ir dançar.

Eron Falbo: [44:51] Falando em Beirute, você lembra do Beirute em Brasília, não?

Maurício Branco: [44:56] Conheci.

Eron Falbo: [44:56] Renato Russo ia muito.

Maurício Branco: [44:58] É, o Renato... Na verdade, é o que eu tô falando, que quando a Legião estourou... Você conheceu ele no Rio, não? Eu fiquei amigo do Renato no Rio de Janeiro, em 89.

Eron Falbo: [45:09] Então você nunca sentou pra tomar uma cerveja com ele no Beirute?

Maurício Branco: [45:12] Não, principalmente porque, quando conheci o Renato, ele já estava com problemas com bebida, e bebia pouquíssimo na minha presença. É que ele não sabia beber, quer dizer, não sabia não, tinha um problema com isso, e ele, quando bebia, bebia, tomava, bebia e ia em frente. E ele roubava os amigos disso. Isso era uma coisa muito nobre dele, uma atitude muito nobre, de você saber que você tem um problema e não ficar alugando, ligando pra pessoa, falando: 'Ó, tô aqui.' Então, ele poupava os amigos. Ele era uma pessoa tão legal e com um coração tão bom, assim, que eu acho que, até passando por um problema, ele tinha noção de que tinha que preservar os amigos. Posso pegar mais um pouco de vinho?

Eron Falbo: [46:05] Que isso, por favor.

Maurício Branco: [46:06] Agora vai todo mundo ver de comer.

Eron Falbo: [46:09] Vamos lá! Eu tô já na terceira taça aqui, como assim pegar mais?

Maurício Branco: [46:16] Não, porque eu tava no cooler ali, na minha geladeira pequena.

Eron Falbo: [46:21] Ah, aquela da Brastemp, lindinha ali. Essa é maravilhosa, a melhor coisa que a Brastemp já fez na vida.

Maurício Branco: [46:30] Pois é, aqui em casa a gente tem a Salva-Pátria. Mas enfim, aí eu fiz esse documentário em 1970, depois eu fiz esse sobre a Carmen D'Alessio, e produzi um filme sobre uma senhora de 80 anos, que é octacampeã mundial master. Ela é mãe de uma jornalista chamada Cora Rónai. É a mais difícil, aquela que você...

Eron Falbo: [47:00] Aquele que é difícil de verdade.

Maurício Branco: [47:04] Ela tem 90 anos hoje, 93 anos. Ela já ganhou oito vezes o título mundial. E ela é mãe da Cora Rónai, daquela jornalista Cora Rónai. Não sei se você conhece. Uma jornalista super importante. Foi casada com... Ai, meu Deus, a falta de memória... Millôr Fernandes.

Eron Falbo: [47:22] Como eu te falei, eu não sabia nem o que era Plebe Rude, cara. Sou meio alienado. Voltando nesse assunto alienado de Brasília, que... eu falei pra você, pô, conheci o Felipe Seabra, não sabia nem o que era o Plebe Rude, que foi uma vergonha. Não falei isso pra me gabar, não, falei isso pra mostrar o nível de alienação que eu tinha, né? Eu conheci ele antes de saber o que era o Plebe Rude, depois eu dei uma pesquisada, né? Conheci Aborto Elétrico, etc. Mas em Brasília...

Maurício Branco: [47:51] A Plebe Rude era uma banda muito potente, assim: o baterista era bom, Felipe Seabra era um puta músico, o André Miller, que era o baixista da banda, era poderoso, e o Felipe Seabra dividia o vocal com o Ameba, a gente chamava ele de Ameba, o Jandro.

Eron Falbo: [48:10] E só um parênteses, só pra dizer assim: pô, falei no começo, o Felipe Seabra, pô, me ensinou muita coisa, ele foi muito carinhoso comigo. Primeiro momento que eu conheci ele, ele foi generoso comigo, conversou comigo a noite inteira e tal. Foi muito legal. E queria dizer, que nem você falou, ele é um cara criativo, assim, num nível master. Ele criava de repente, sabe? Ele pegava o violão e ficava fazendo rimas. Tipo, porra, é tipo repentista, né? Mas ele é um cara do rock, punk rock, né? Punk rock você não precisa de coisas complexas. Você fala lá, lá, lá, entendeu? Mas não é todo mundo que conhece esse lado que ele tem, porra, um vasto vocabulário e capacidade criativa. Ele tinha até uma música que eu adoro sobre o porteiro da escola americana, que ele estuda na escola americana também. É lindíssimo, ele tocou na reunião dos alunos. Então, só queria me salvar, porque eu falei assim como se eu estivesse zoando, mas, na verdade, eu sou muito grato e tenho ele como pessoa muito querida. Ele sempre me ajudou, sempre foi muito generoso comigo.

Maurício Branco: [49:21] Eu tenho uma coisa chamada dom, porque o meu pai percebeu que eu ia ser ator com três anos de idade. Eu tinha três anos, só. Então, ele viu ali que eu era um artista. Por isso que ele abriu, ele me deixou totalmente à vontade para eu... Ele não queria. Ele queria que eu fizesse uma faculdade, mas nunca... Ele chegou e me botou em checkmate: "Olha só, se você não fizer tal coisa..." Mas ele realmente, quando ele falou para eu ir para os Estados Unidos para aperfeiçoar meu inglês, ele falou: "Meu filho, eu não sei mais o que fazer, porque você já está com 18 anos." Não, eu estava com 21 já. E ele já estava vendo que eu ia ganhar, um caso perdido. Ele falou: "Não sei o que vai acontecer com você." Minhas irmãs já fazendo faculdade, e eu ali perdido num curso de teatro, que ele via que eu não estava empolgado. Aí eu falei: "Pai, cancela a viagem para os Estados Unidos, porque eu assinei um contrato com a Globo." "É o que você vai fazer?" Eu falei: "É a novela das oito." Aí ele: "E o que você estava fazendo na novela das oito?" Eu falei: "Você é filho da Cezumira." Aí ele pirou mais ainda.

Eron Falbo: [50:34] Ele estava esperando, vou levar o cafezinho aí.

Maurício Branco: [50:38] Não, e ele ficou muito orgulhoso. Ele ficou muito orgulhoso, porque meu personagem fez muito sucesso. A Betty Faria, que fazia o papel da minha mãe na novela, me ajudou muito para eu triunfar, para eu conseguir... Conseguiu?

Eron Falbo: [50:54] Não, presta o bico aí! Manda o bico, joga o bico!

Maurício Branco: [51:07] Ele ficou muito feliz quando ele viu que eu estava fazendo e que eu estava fazendo bem, sabe? E quando eu acabei a minha primeira novela, eu fui trabalhar com a Bia Lessa, que era uma diretora de teatro que na época estava... Ela ainda é uma super diretora de teatro, ainda tem um nome conhecido no mundo inteiro. A Bia me levou para a Alemanha para fazer teatro. Então eu conheci a Europa fazendo teatro. Eu fiz meu primeiro filme em Praga como ator. Eu fiquei um mês em Praga filmando, e com um elenco incrível. Foi quando eu fiquei muito amigo da Gabriela Duarte, que é uma grande amiga minha, e nós ficamos muito amigos. E foi quando eu fiquei amigo do Mauro Lima, que é meu diretor favorito brasileiro, adoro o Mauro, que dirigiu 'Meu Nome Não É Johnny'.

Eron Falbo: [51:56] Eu não via, porque eu sou ignorante.

Maurício Branco: [52:00] Pra caramba, mas você morava em Budapeste, Nova Iorque, Londres. Você tá fora do Brasil, então dá pra entender.

Eron Falbo: [52:10] Vou mandar só um beijão para a Tarsia Gonzalez, que está aqui assistindo. Beijão. Obrigado por vir aqui.

Maurício Branco: [52:15] Oi, Tarsia.

Eron Falbo: [52:17] Tarsia, Tarsia. Só para avisar que a gente tem mais cinco minutos para... Estou achando impressionante que ninguém fez pergunta, porque a conversa está tão boa que...

Maurício Branco: [52:26] Não, tiveram...

Eron Falbo: [52:29] Não, mas não fizeram na caixinha, então não souberam...

Maurício Branco: [52:33] Eu falo tanto também que eu acho que as pessoas não têm nem tempo de...

Eron Falbo: [52:37] Não, porque a conversa está interessante. Mas nos últimos cinco minutos que a gente tem... Eu acho que isso que você está falando, na verdade, é uma parada muito, muito inspiradora, o que você está falando, porque muita gente quer ser ator, quer ser... muita coisa que não se permite ser. Estava até conversando com uma amiga recentemente sobre isso, como a gente demora, às vezes algumas pessoas demoram, você não, você desde pequeno já se jogou aí e se tornou, e foi, né, e o mundo te abençoou, né, de muita

Maurício Branco: [53:12] Sorte, eu acredito. Desculpa, por favor.

Eron Falbo: [53:16] Por favor, não, claro, eu acredito.

Maurício Branco: [53:18] Que eu acredito que eu fui mal aproveitado aí. Eu acho que eu poderia ter sido mais bem aproveitado, entende? Mas eu acho que Deus conservou a minha cara, pra falar assim, já que não estão aproveitando ele, eu vou conservar ele mais um pouquinho pra poderem aproveitá-lo daqui a um tempo.

Deslumbramento com a fama e paródias musicais (53:33)

Eron Falbo: [53:43] E olha, amanhã eu vou fazer live com o Dr. Raul Soares.

Maurício Branco: [53:45] Tem duas perguntas aí. Tem duas perguntas.

Eron Falbo: [53:49] Não, mas estou falando na caixinha. A galera tem que ser disciplinada, entendeu? Não tem que perguntar... E as paródias, Maurício? Já cantou hoje ou não?

Maurício Branco: [54:02] Não, não. As paródias, pois é, isso é uma coisa que realmente... Bom, outra coisa que aconteceu na minha vida, que foi eu descobrir que eu fazia versões bem. Então eu começava a cantar isso em mesa de bar, as pessoas ficavam vendo eu cantando em mesa de bar e ficavam completamente tipo 'poxa, que legal', mas eram músicas picantes, não era uma coisa que eu achava que, se eu fizesse um show, as pessoas iam entender e iam gostar. Aí fiz uma primeira tentativa em 2002, fazendo Uma Noite em Branco, que foi um show que eu produzi com uma pirotecnia, tinha toda uma pirotecnia, não sei mais o quê, na estreia deu tudo errado, mas mesmo assim eu tive uma boa crítica, porque o crítico entendeu a minha proposta. Eu acho que, graças a Deus, a nossa imprensa não se vendeu completamente. Tanto que eu tenho grandes amigos na imprensa até hoje, pessoas que não estão fazendo nada, mas eles querem dar uma nota, falar alguma coisa de mim. Eu acho que isso me sustentou.

Eron Falbo: [55:13] Ou seja, você está dizendo que ainda existe um pouquinho de carinho, não só interesses políticos.

Maurício Branco: [55:18] Eu acho que existem pessoas que acreditam.

Eron Falbo: [55:20] Entendi. Que ainda tem um pouquinho de autenticidade, você está dizendo.

Maurício Branco: [55:24] O nosso meio é muito difícil. A sobrevivência... Muita gente... Eu já te falei da minha idade. Eu tenho 30 anos de carreira. Eu vi muita gente começar como eu comecei e simplesmente sumir depois. Desaparecer de você mudar.

Eron Falbo: [55:42] Mas aí é isso que eu fiquei impressionado com você. Fiquei impressionado com você, eu te falei isso no começo: o tanto que pessoas de todos os níveis possíveis não só sabem quem você é, como te tratam como um rei, como um príncipe, como um amigo querido, tudo ao mesmo tempo, com intimidade e, ao mesmo tempo, com respeito, com admiração. Isso eu fiquei impressionado mesmo.

Maurício Branco: [56:06] Pois é, mas eu vou te falar por quê: eu nunca mudei, eu nunca deixei de ser eu mesmo. Porque as pessoas acham que, quando você está fazendo uma novela das oito, ou qualquer coisa, ou quando você aparece numa matéria no jornal, ou quando você está ali em voga, tem gente que muda. Eu já vi muito isso, as pessoas mudam, elas viram, elas acham que estão num pedestal. Eu, no começo, me deslumbrei, sim. Rolou uma deslumbrada de eu ficar e falar: pô, você começa a ser bem tratado de um dia para o outro, todo mundo começa a te receber bem nos lugares, todo mundo começa a querer te oferecer tudo, você vai no restaurante, o cara não deixa você pagar a conta, o dono fala: não, é cortesia da casa. Então você começa a achar que você tem que ser bem tratado, você acha que você é Deus. E ninguém é Deus, entendeu?

Eron Falbo: [57:04] Pelo contrário, se você está nessa posição, você tem uma responsabilidade maior de tratar as pessoas com delicadeza, com elegância, com cordialidade.

Maurício Branco: [57:14] Pois é, eu não mudei. Eu me deslumbrei. Fiquei deslumbrado.

Eron Falbo: [57:20] Durante um tempo?

Maurício Branco: [57:22] Foi, foi. Graças a Deus durou pouco. Mas eu entrava na loja, achava que todos os vendedores tinham que me tratar bem, achava que eu tinha que ser reconhecido. Porque é uma coisa muito louca, era o poder que a televisão tinha, hoje é a internet que tem também. Você comentou que ninguém vê novela, né? Eu virei para o meu sobrinho e falei... Você viu que eu fiz um programa no Multishow? Eu fiz um programa no Multishow que fez muito sucesso, chamado Só Se For a Três, em que eu entrevistava os casais num táxi. E esse programa me trouxe essa popularidade.

Eron Falbo: [57:56] Quero ver isso. Tá no YouTube, não?

Maurício Branco: [58:00] Tem no YouTube, tem no YouTube.

Eron Falbo: [58:02] Porra, quero muito ver isso. Galera, procurem no YouTube aí.

Maurício Branco: [58:06] Tem no Globo Play também.

Eron Falbo: [58:08] Qual é o nome mesmo? Amor a Três?

Maurício Branco: [58:10] Só Se For a Três.

Eron Falbo: [58:11] Só Se For a Três.

Maurício Branco: [58:12] Só Se For a Três. Só Se For a Três.

Eron Falbo: [58:15] Então, pegando esse gancho de se deslumbrar, não se deslumbrar, ter medo de fazer, mas fazer mesmo assim, para a gente terminar com uma mensagem positiva: dá uma mensagem para a galera que era que nem você, com 17 anos, 18 anos, 20 anos, 21 anos, com aquela insegurança, uma mensagem que vai englobar esse processo que você passou.

Carreira de ator hoje e mensagem final (58:36)

Maurício Branco: [58:44] Eu acho que no momento atual do Brasil... não vou falar de política, porque eu não falo de política, é um assunto que eu não gosto de falar. Mas, enfim, acho que no momento assim... Ah, eu quero ser ator. Às vezes tem um amigo meu de 35 anos que fala assim: eu quero ser ator. O cara tem uma carreira sólida como advogado e quer ser ator. Eu falo: olha só, não faz isso, não vira ator, não queira virar ator. As pessoas podem ver a Laura Cardoso, que começou mais velha. O Raul Cortez fez a primeira novela dele com 42 anos. Mas não é mais a mesma época. A nossa carreira aqui no Brasil tá muito difícil. Então, assim, só se você realmente tiver nascido pra isso. Aí você vai, procura, trabalha, começa a produzir as suas coisas. Isso é fundamental, você produzir, se autoproduzir, porque eu me mantive dessa forma. Quando eu vi que ninguém mais me chamava, eu falei: então eu vou correr, eu vou pra luta, vou começar a dirigir documentários. Ganhei dois prêmios internacionais com isso. E comecei a virar apresentador. Você tem que se reinventar o tempo inteiro. Não que isso seja ruim, mas, num momento em que as TVs agora estão demitindo os atores... Antigamente você tinha contratos de 10 anos, eu fui contratado durante 5 anos, tive vários contratos longos, hoje em dia os contratos são por obra. Então, se você quer ter filhos e sustentar uma casa e quiser ter uma vida... Eu não tenho filhos, então pra mim tá confortável. Agora, se você quiser levar uma vida... procura outra profissão, porque tá barra pesada o negócio. Também parece. É, mas eu tô aqui, sabe? I still here. Eu tô aqui e não vou parar de lutar. Eu vou lutar até quando eu estiver velho. Se eu chegar lá, se eu ficar com 90 anos, eu vou estar... me chamou para fazer novela, eu vou lá e faço, peça de teatro, eu vou lá e faço, porque eu nasci para isso. Eu estou aqui para isso.

Eron Falbo: [1:00:57] Você não tem escolha.

Maurício Branco: [1:00:58] A minha mensagem é: se você realmente nasceu ator, e você acha que você é ator, começa se autoproduzindo e vai nesse crescendo. Eu tive sorte, eu fui lá, fiz um teste e entrei na novela das oito. Mas era outra época, eram os anos 90, era o Star System, ele funcionava de uma outra forma. Hoje em dia é totalmente diferente. Mas eu vejo coisas, fenômenos aí. Essa Lexa, essa cantora, por exemplo, pra quem quer cantar: a menina foi lá, eu tenho certeza que essa aí batalhou, a hora que ela trabalhava em padaria, a menina foi lá, lutou e conseguiu. Ela não teve nem a vida que eu tive, porque eu era filhinho de papai em Brasília, não fazia nada.

Eron Falbo: [1:01:44] Quem não era, né?

Maurício Branco: [1:01:46] Pois é. Não, mas aí, quando eu cheguei no Rio de Janeiro, eu fui ver aquela favela, porque no Brasil você fica escondido, a pobreza, você não vê a pobreza.

Eron Falbo: [1:01:55] Cara, olha só, eu queria te agradecer por ter sido tão franco, porque, assim, eu te coloquei numa posição de sabatina, de mandar uma mensagem tipo miss mundo, tipo: eu queria agradecer à minha mãe, pais do mundo. Só que você mandou uma realidade muito verdadeira, muito honesta sobre a indústria, sobre negócios, no mundo do entretenimento, sobretudo o talento. O lado do talento hoje em dia.

Maurício Branco: [1:02:30] Nós não estamos num momento bom. No mundo das artes, infelizmente, não estamos num momento bom. Mas nós, artistas, que estamos aqui, já em cima dessa bancada, nós vamos lutar até o final, nós não vamos desistir, entendeu? Eu vou continuar fazendo o meu show, As Bíblias São de Júpiter, em que eu faço as paródias, e vou continuar fazendo. Algumas cidades rejeitaram o show, já falando que era uma entrada do governo novo, que eles não iam gostar, mas eu acho isso uma bobagem, acredito que o artista tenha essa função de levar a felicidade para as pessoas. Eu acho que isso depende de política. Nós dependemos, sim, de uma política que favoreça o nosso trabalho. Isso não quer dizer que a gente vai roubar dinheiro. A Lei Rouanet não dá dinheiro para a gente, isso é uma mentira. A Lei Rouanet ajuda uma empresa a dar dinheiro para a gente, a Lei Rouanet não dá dinheiro. De vez em quando eu recebo umas mensagens: e aí, só a mamata acabou? Eu falei: não, minha mamata continua. Porque eu tô aqui há 30 anos lutando, eu construí durante 30 anos o que eu tenho, sabe? Então a minha mamata é a minha própria mamata, entendeu?

Eron Falbo: [1:03:53] Bom, aos meus amigos que estão assistindo aí, eu queria só reiterar o livro aí do Catarse pra gente ajudar. Qual é o nome do livro mesmo? Desculpa.

Maurício Branco: [1:04:04] Procurem lá, é www.catarse. Eu não me lembro do resto, desculpa, mas é porque eu recebi ontem a mensagem, então é uma coisa muito recente. Mas é um livro que está sendo feito em Brasília sobre essa geração de 81 a 89, ou seja, um documento histórico muito importante sobre a geração, sobre os jovens dos anos 80 em Brasília. Então, colaborem. Ricardo Junqueira, procurem Ricardo Junqueira no Facebook, que tem lá o livro dele, e Catarse, exatamente. Tem uma foto minha com 15 anos.

Eron Falbo: [1:04:37] Irritado.

Maurício Branco: [1:04:40] Tem todas as bandas, tem a Legião Urbana, pra quem gosta do rock, tem lá todas as bandas de rock, a turma dos anos 80, o Gilbertinho, fotos do Gilbertinho dos anos 80. Então o documento pra quem é de Brasília é muito importante, e pra quem não é também, pra conhecer como esse fenômeno de Brasília aconteceu.

Agradecimentos e encerramento da live (1:04:50)

Eron Falbo: [1:04:58] Bom, queria mandar um beijão para os amigos de Brasília e te agradecer pela sua presença. Vamos fazer outras lives, vamos fazer projetos juntos. Então as pessoas estão só começando a ver a gente nessa sinergia, tenho certeza. Mas muito obrigado por esse início oficial e público nosso. E bom, te deixo à vontade também para que seus amigos estão aí.

Maurício Branco: [1:05:22] A gente quer agradecer a todo mundo que está aqui. Pós-view, olha, tem um amigo aqui, só tem uns amigos meus aqui, diz: 'o rei da Zoom é ótimo.' A Zoom era uma boate que tinha em São Conrado, que fazia festas elétricas também, era uma coisa super misturada, era incrível. Não, mas é porque eu tenho muitos anos de noite no Rio. Quando você fala de noite...

Eron Falbo: [1:05:48] Eu sei.

Maurício Branco: [1:05:49] Quanto tempo nós temos aí, Eron?

Eron Falbo: [1:05:51] E você chega sombrando na mesa do nada.

Maurício Branco: [1:05:54] Quanto tempo nós temos, Eron?

Eron Falbo: [1:05:59] Não, a gente já acabou o nosso tempo. A gente precisa até cortar um pouco da conversa pra poder botar no podcast.

Maurício Branco: [1:06:09] Ah, tá ok. Não, eu só queria falar que você é uma grande aquisição pro Rio de Janeiro. Como o Ricardo Amaral te abençoou, você é uma grande aquisição também para a gente. Muito obrigado por vir para cá, por se interessar por um artista, tanto como eu, como por qualquer outro que você vai entrevistar.

Eron Falbo: [1:06:29] Quem sou eu?

Maurício Branco: [1:06:29] E dizer para você que seja bem-vindo. Sabe, me lembro que aí começa uma grande amizade. Seja muito bem-vindo ao Rio de Janeiro. E obrigado pelo seu interesse.

Eron Falbo: [1:06:46] Valeu, Maurício. Quero dizer, quem sou eu?

Maurício Branco: [1:06:48] Eu... Meu sotaque de Brasília até voltou. Diga.

Eron Falbo: [1:06:53] Cara, você foi uma pessoa, tipo, achado, talvez, assim, com certeza, top 3. É difícil rankear pessoas, mas, pô, você, nesse ano, na minha vida, porque, pô, é difícil chegar numa cidade nova, né? Mas você realmente foi super gentil comigo, super cordial. E, cara, com certeza a gente vai fazer muita coisa juntos. E é isso, cara. Eu não quero falar muito porque vai ser visto. Tudo que a gente vai fazer vai ser publicado, entendeu? Então eu não gosto de prometer porque são palavras vazias, entendeu? Eu vou mostrar e vamos juntos mostrar o que a gente vai fazer junto, com certeza.

Maurício Branco: [1:07:36] Ok. Muito obrigado, gente. Muito obrigado, Cristiano Navarro. Navarro, essa aí é a companheira. Ela tá sempre junto.

Eron Falbo: [1:07:43] Ela fez até uma pergunta pra mim, depois, Cristiano, me perguntem pessoalmente que eu te respondo. Eu não queria...

Maurício Branco: [1:07:49] Eu tô falando que você é um candangão lindo. Ele é bonito mesmo.

Eron Falbo: [1:07:54] Já falou sobre minhas partes íntimas aí. Ele tava super enganado.

Maurício Branco: [1:07:57] Ele falou isso? Você falou isso? O que que ele falou das partes íntimas?

Eron Falbo: [1:08:02] Ele falou que...

Maurício Branco: [1:08:03] Ele falou que ele se comporta, pelo amor de Deus.

Eron Falbo: [1:08:06] Que eu devo ter partes íntimas bem abençoadas, mas todo mundo sabe que não.

Maurício Branco: [1:08:12] Pelo amor de Deus! Alguém se comporta, pelo amor de Deus! Gente, muito obrigado, André. Todo mundo que estava aqui acompanhando. Pessoal de Brasília, eu amo Brasília, minha cidade favorita. Vitor Camarotti, Vitor Camarotti sempre nesse aí também, esse é incrível. Esse você vai me entrevistar. É um músico de Pernambuco, de Recife. Maravilhoso.

Eron Falbo: [1:08:36] Eu vi a live com ele, é maravilhoso.

Maurício Branco: [1:08:38] É incrível. Bárbara, tudo bem, Bárbara? Gente, olha só, um beijo grande. Tô me despedindo aqui, que o nosso tempo tá acabando.

Eron Falbo: [1:08:48] Tchau, tchau, gente. Adoro vocês, adoro você, Maurício, tudo de bom. Beijão, boa noite. Eu também. Valeu.

Maurício Branco: [1:08:54] Beijo, por Deus.

No Alvo com Eron Falbo · episódio #31 · todos os episódios