Publications

#3 Hábitos e rotinas dos mestres

com Dr. Carlos Eduardo Brito · 14 de mai de 2020

rss.comSpotifyApple PodcastsAmazon MusicDeezerYouTubeYouTube (só áudio)

Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Abertura e apresentação do convidado (0:00)

Dr. Carlos Eduardo Brito: [0:05] Alô, meu amigo, deixa eu ajeitar aí.

Eron Falbo: [0:08] Olá, Dr. Eduardo, tudo bem?

Dr. Carlos Eduardo Brito: [0:10] Tudo bem.

Eron Falbo: [0:12] Beleza, seja bem-vindo.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [0:14] Obrigado, é um prazer estar tendo esse bate-papo aí com você.

Eron Falbo: [0:20] Então, você acha que uma boa maneira de começar é, de repente, se você não se incomodar de se apresentar, falar um pouquinho do seu currículo aí, de onde você já passou e tudo mais? Acho que pode ser uma forma legal.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [0:34] Eu, como eu falo, operário da psicologia. Eu comecei a psicologia, me formei em 1979, uma época que aqui no Brasil praticamente não tinha muita gente exercitando a profissão, a gente não tinha internet e tudo tinha que a gente buscar lá fora ou inventar, literalmente, por deduções. Então foi muito interessante que a terapia cognitiva comportamental, quando eu estava exercendo, eu não sabia que estava fazendo parte da história. Hoje eu faço parte do pioneirismo, um dos pioneiros, eu e Leane Falcone e outros colegas, como pioneiros da terapia cognitiva comportamental no Brasil. E dali foram várias experiências, formação ampliando, juntando um pouco da neurociência, da psicologia positiva. Sempre a gente tratou muito, a psicologia começou muito, isso é um dado importante, até hoje, até o ano de 2000, ela sempre cuidava da doença. Todas as teorias, todas as abordagens, elas vinham com o objetivo de tratar a doença. E ela esqueceu que ela tinha outra missão, que era tratar a felicidade, tratar o bem-estar...

Eron Falbo: [2:08] Melhorar, né?

Dr. Carlos Eduardo Brito: [2:09] Melhorar a situação. Exatamente. Então aí surgiu um pouco a ideia desses cinco pilares, que juntou a psicologia positiva com a neurociência, que é exatamente como que a gente pode, o que realmente é comprovadamente, significativamente, cientificamente comprovado que pode aumentar a performance de uma pessoa, gerando bem-estar para ela e mais felicidade. É aquela ideia como a gente falou. Mas hoje a gente basicamente ia conversar um pouco sobre habitografia, não era isso, Eron? Hábitos, como é que a gente constrói? A habitografia é a capacidade de construção de hábitos positivos. Então também é uma coisa interessante a gente entender, por exemplo, o que é um hábito. Eu costumo dizer o seguinte, que toda resposta, todo comportamento que é repetidamente gratificado, com o tempo ele acaba se tornando um hábito. Esse é o padrão do cérebro funcionar. Por exemplo, vamos imaginar um homem que chega hoje do trabalho, teve um dia bastante estressante no trabalho, com pressão, o chefe perdeu um prazo no trabalho, chega em casa com estresse elevado, ele fica ruminativo, se pode perder o emprego ou não, e aquilo aumenta o estresse dele, e ele tem a opção de, de repente, na geladeira comer alguma coisa, ou no bar buscar um drink, ou meditar, ou sair para correr. Dependendo da escolha dele, com a repetição, ele vai tornar aquilo hábito. Então, se ele escolheu ir para o bar e tomar um drink, ele repete isso uma vez, duas, três, dez, oito, quinze, no final, ele tem um hábito. Então, o hábito...

O que é um hábito (2:39)

Eron Falbo: [4:14] As primeiras vezes são inocentes, você está falando. É uma escolha inocente. Uma vez que você cria aquele padrão repetitivo, aí ele...

Dr. Carlos Eduardo Brito: [4:24] Ele acaba. Por quê? Porque o cérebro, isso é muito interessante. Ele foi desenhado para formar hábitos. Os nossos hábitos ficam no cérebro reptiliano. O gânglio da base, uma parte profunda que é responsável por respostas automáticas, respostas instintivas. Consequentemente, essas respostas têm um custo energético menor. Então, meus hábitos, quando eu formo um hábito, eu não preciso mais fazer um processo todo cognitivo de reestruturação de pensamento.

Eron Falbo: [5:03] A gente costuma pensar, na sociedade geral, que não é todo mundo que pensa em hackear os hábitos. A gente costuma pensar, normalmente, em maus hábitos. Quando a gente pensa em hábitos, a gente pensa em maus hábitos.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [5:20] Exatamente.

Eron Falbo: [5:21] A gente não pensa que, na verdade, o cérebro está fazendo isso pelo nosso bem. Ele está fazendo isso para encurtar caminho. Quanto mais hábitos a gente tiver...

Dr. Carlos Eduardo Brito: [5:31] Essa é a função do hábito. A função do hábito é economizar energia, é trazer segurança psicológica e coerência. Essas, evolutivamente, são as três razões que nós criamos os hábitos. Para economizar nossa energia, para nos tranquilizar e também para ter uma coerência de outras situações, previsão de como nós nos comportaremos. Então, não tem agora. A questão seguinte, que nós temos e vamos fazer hábito, é o shaping, é a maneira como ele funciona. A questão é se esses hábitos são positivos ou não, se eles são funcionais ou desfuncionais para a gente. Essa é a questão, são bons ou maus hábitos?

Eron Falbo: [6:19] Eu só achei interessante começar do ponto de partida de que o cérebro não criou isso de uma forma viciosa, porque como a sociedade está acostumada a olhar para isso como maus hábitos, como é que eu quebro meus maus hábitos? A gente está falando, por que eu tenho hábito? Por que eu não faço tudo conscientemente? Por que eu não escolho a cada detalhe do meu dia? Só que aí a gente não para pra pensar que na verdade os hábitos estão lá pra... Aí depois disso a gente vê. Ah, tá bom. Então os hábitos estão lá pra ajudar a gente. A gente pode criar bons hábitos. Mas também a gente tem que começar a entender, porque é um processo automático da mente, né? Às vezes a mente cria o que a gente interpreta como maus hábitos também. E a gente pode atacar isso também. Mas eu só acho importante ter essa...

Dr. Carlos Eduardo Brito: [7:11] Exatamente, sem julgamento, o caminho que ele encontrou e que trouxe, por exemplo, um alívio da dor, o alívio da dor emocional que ele pudesse estar sentindo, se encontrou inicialmente na bebida, aquele comportamento vai ser reforçado e ele vai buscar de novo. Entendeu? Então, isso não tem julgamento, foi o que ele se deparou. Pode ser que outra pessoa não encontre isso ali e vai encontrar na geladeira, num doce gostoso. Outro, como falei, pode ser meditando. É assim que vai criando os hábitos. Agora, é claro que tudo tem um custo, evidentemente. Nosso organismo se adapta a tudo, na realidade. Nós temos uma capacidade de adaptabilidade muito grande, mas pagamos um preço. Então, só para a gente falar em hábito, em função do hábito, tem uma pesquisa que mostra que, 50% no nosso dia, nós passamos com o nosso cérebro no piloto automático ligado. Isso significa que eu estou dirigindo, pensando em outra coisa. Eu posso estar conversando com alguém, pensando em outra preocupação. E agora, na pandemia, esse piloto automático foi desligado. Isso é interessante, uma experiência meio única. De certa forma, todo mundo teve que ampliar o seu olhar, teve tempo, para olhar para várias coisas. Alguns para suas sombras, outros para suas potencializações, outros viram isso como oportunidade de crescimento, outros estão vendo como alguma ameaça, porque existe, é fato, mas enfim. Isso variou muito de como cada um lida, de como cada um interpreta.

Piloto automático e pandemia (7:54)

Eron Falbo: [8:59] Mas é uma oportunidade, independente do jeito que cada um interpreta. A oportunidade abriu uma janela nova, que muitos teóricos costumam dizer: você está caminhando para o trabalho no mesmo caminho, troca de caminho uma vez, isso ajuda a expandir a mente. Agora a sociedade inteira trocou o caminho junto, então a gente está aí com essa oportunidade de interpretar isso de uma forma positiva, de uma forma que aumente, que adicione.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [9:35] Sim, sim, o que aconteceu, exatamente esse desligamento do piloto automático, favoreceu o seu olhar para outras coisas que a gente automaticamente não tinha tempo de olhar. Então, também a gente tem que lembrar que houve um aumento do índice de divórcio na China. Os relacionamentos que não estavam bons ficaram às vezes piores, em alguns casos. Por outro lado, pessoas definiram metas, renovaram metas, descobriram prazeres diferentes. Então, sem dúvida que é uma oportunidade, mas depende muito também do nosso olhar. Qual é o nosso olhar? Também costumo dizer que a gente tem que ter um olhar um pouco empático nesse momento com a gente, porque a gente está surfando uma onda gigante. Vamos dizer assim, porque é algo que ninguém nunca tinha vivenciado, experimentado, não tinha se planejado, simplesmente vamos desligar a luz agora, e desligou a luz em momentos de vida diferente para cada pessoa. Cada pessoa estava em um momento diferente, alguns mais estruturados, outros menos estruturados. Então, realmente, é uma desligante. Então, a gente tem que ter, acima de tudo, autocompaixão. Com nós, com esse momento, acho que não adianta cobrar-se demais, criar expectativas exageradas, porque é um momento que a gente também tem que ter uma certa flexibilidade.

Eron Falbo: [11:22] E, no geral, é bom isso, essa flexibilidade, porque às vezes a gente se pressiona demais e não se dá o tempo para se adaptar, para se acostumar com aquelas novas demandas. Inclusive, isso é uma coisa que a gente tá vivendo agora, né? Que agora, todo mundo foi obrigado a desacelerar, né? Porque eu lembro eu mesmo, na minha própria vida, eu tava naquela coisa assim, pô, tem que fazer uma decisão. Aí a gente tem aquela pressão pra ser uma pessoa decisiva, né? Então, aí você pensa, pô, tô fazendo certo, tô sendo uma pessoa decisiva. Então, faço uma decisão e depois vem, não, vou ter que fazer outra decisão. Aí eu penso que eu tô indo bem, porque eu tô fazendo várias decisões e rápido, né? Então, tô sendo decisivo. Mas aí depois quando você vai olhar pra trás, pô, onde eu tô? O que aconteceu? Onde eu me coloquei? Agora na quarentena, pô, tô tendo essa oportunidade maravilhosa de entrar pra dentro assim de mim mesmo e questionar, né? Essas escolhas que eu tenho feito, será que são saudáveis? Será que são eu? Será que são o que eu quero pro meu futuro?

Dr. Carlos Eduardo Brito: [12:33] Sim. Funcionar com o piloto automático desligado é uma outra vida, é uma outra realidade. As nossas referências todas, por exemplo, de tempo, de sistematização de tempo, agora é a hora do almoço, agora é o café, acorda tal hora, trabalho de tal hora, tal hora, vejo isso, leio isso, foi tudo... Esse planejamento todo, de certa forma, desapareceu. Então muitos dos nossos hábitos como referências também foram modificados. O interessante é exatamente o seguinte, nós estamos, sem dúvida, muitos reclamando de muitas coisas, ouvi de muita gente. Mas na hora da gente voltar também vai ser difícil, isso é o que é interessante. Como o organismo tem essa capacidade de adaptabilidade, muito do que estamos fazendo hoje, agora, estamos nos adaptando. É só uma coisa interessante, tem uma teoria que diz que todo comportamento que for repetido durante, por exemplo, 21 dias, de forma regular e gratificada, ele tende a formar um hábito. Isso é uma coisa interessante, foi baseada numa pesquisa com a amputação de órgãos. Os seres humanos que sofreram a amputação, por exemplo, de um braço, aquele órgão existe no cérebro dele até 21 dias. A conexão ainda se permanece, apesar do braço não estar lá.

Formação de hábitos: 21 e 40 dias (13:27)

Eron Falbo: [14:13] Sabe que um outro fato interessante, só uma adição para isso que você falou, que, como você sabe, eu estudo muita coisa antiga, filosofia antiga, estoicismo, essa coisa toda. E isso é uma coisa em várias culturas diferentes, essa coisa de criação de hábito é uma sabedoria que se tinha. E mais, a razão... está escrito na Bíblia que Moisés subiu na montanha 40 dias. O que os comentaristas dizem, e Jesus ficou, não lembro se era 40 dias também, mas pode ser 40 dias no deserto. Porque a ideia disso, os comentaristas dizem, é que ele precisa entrar dentro de si e criar um vínculo com aquela coisa que ele está fazendo. E dizem que a gente pode usar isso, esses 40 dias, para criar melhores hábitos. Então, não era 21 dias, mas esse número 40 é uma coisa muito recorrente dentro da filosofia antiga, culturas antigas.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [15:26] Isso é uma boa notícia, e faz sentido com o que eu falei no início. Ou seja, o organismo precisa, depois ele resiste, ele cria uma demanda, uma energia inicial para você instalar um determinado comportamento, mas depois que esse comportamento é instalado, fica fácil. Então, aquela coisa: se eu não gosto de ginástica, hierarquizo, vou um pouquinho de cada vez, repetidamente, chega depois do vigésimo primeiro dia, vai ficar um pouco mais fácil. É como tirar um carro da inércia: quando ele está rodando, ele fica mais leve. O hábito funciona dessa maneira. E assim, só que é uma das coisas importantes, a gente estava falando em habilidades mentais e emocionais para adquirir hábitos positivos, uma delas é a gente identificar os sabotadores mentais. Muitas vezes a gente não muda o comportamento, não consegue mudar, porque tem um monte de sabotadores ali. Por exemplo, uma pessoa que esteja fazendo dieta e teve um dia difícil no trabalho, ela chega em casa e fala: "Poxa, hoje eu mereço sair da minha dieta, porque eu tive um dia tão difícil, então eu mereço comer essa torta." Ela está sabotando, sem que ela perceba, inconscientemente, os objetivos dela, que é não se alimentar de forma inadequada. Mas vai ser só hoje. Ela começa a ter vários pensamentos, crenças, que parecem fazer sentido, mas que acabam de impedir que ela se engaje, para ter um engajamento e um novo comportamento, né?

Eron Falbo: [17:14] Vê se eu entendi direito. Na verdade, antes de eu falar, porque senão a gente nunca vai parar, porque tem gente fazendo pergunta e tem gente fazendo comentário: estou falando para você abaixar um pouquinho a câmera, porque não dá para te ver por completo. Aí, o Lucas Calde falou isso?

Dr. Carlos Eduardo Brito: [17:35] Está melhor assim? Deve estar, né?

Eron Falbo: [17:37] Tá melhor, tá melhor, tá melhor. Bom, tem muitos comentários aqui. Fizeram uma pergunta agora, vamos ver. Mas por que as pessoas insistem em voltar a trabalhar achando que tudo vai ser o mesmo? Medo do novo? Negação?

Voltar ao automático e adaptação hedônica (17:46)

Dr. Carlos Eduardo Brito: [18:04] A negação pode existir também, mas, na realidade, o nosso cérebro automático, o hábito, ele é tão forte que é assim: vocês já me perguntaram, será que realmente nós vamos aprender, vai ser diferente? Claro que eu espero que seja diferente, que a gente possa aprender, e acredito que vai ser diferente para algumas pessoas, mas que muitas, ou a grande maioria, o cérebro automático vai voltar àquele estado inicial, sim, porque também é uma tendência neurológica do cérebro.

Eron Falbo: [18:43] Tem conexões neurais mais fortes, mais estabelecidas.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [18:46] Adaptação hedônica. Alguma coisa boa acontece, nosso cérebro reage com a felicidade, que aumenta durante um tempo. Depois ela volta aos níveis anteriores. Quando alguma coisa ruim acontece, nosso nível de felicidade abaixa, ficamos mais infelizes, mas depois de um tempo nosso nível de infelicidade volta ao patamar inicial. Então tem um mecanismo regulador chamado adaptação hedônica, que funciona dessa maneira. Por isso que as pessoas, por exemplo, milionárias, ricas, se habituam um pouco com aquilo, não se torna tão fascinante quando a gente se habitua com aquilo.

Eron Falbo: [19:30] Essa "hedônico" está dizendo, só para esclarecer pro público que pode ser leigo: é que a gente sente um certo prazer, hedônico, do grego "prazer", que a gente se acostumou a ter prazer, uma recompensa prazerosa daquele processo, e o cérebro...

Dr. Carlos Eduardo Brito: [19:53] Depois que você é recompensado, exatamente. Depois de um tempo que você é recompensado, o cérebro volta aos níveis iniciais da recompensa. O nível de prazer acaba se adequando.

Eron Falbo: [20:05] Eu já sei que aquilo ali me dá prazer, então por que arriscar? Por que arriscar numa coisa nova que às vezes dá prazer, às vezes não?

Dr. Carlos Eduardo Brito: [20:15] É exatamente o estado de se adaptar àquilo, e aquilo não gerar mais aquela sensação nova de prazer. Eu acabo me acostumando com aquilo, fico tão adaptado àquilo que aquilo já não consegue mais produzir tanta dopamina.

Eron Falbo: [20:41] Mas qual é a boa notícia? A Simone está perguntando aqui: a gente não pode tornar a mudança mais definitiva?

Dr. Carlos Eduardo Brito: [20:49] Pode. A gente pode tornar uma mudança mais definitiva, com habilidades, com processos. Por exemplo, com relação a esse fato, não. Com relação a tanta tristeza quanto a essa felicidade hedônica, essa felicidade do prazer, o mecanismo regulador é esse: eu vou ficar mais feliz durante um tempo, mas passa; eu vou ficar triste durante um tempo, mas passa. Esse é o fato, esse mecanismo é regulador por si só dessa forma. Ninguém fica feliz o tempo todo, com prazer o tempo todo, tem que haver um equilíbrio desses sistemas: do sistema dopaminérgico, serotoninérgico e o sistema da ocitocina. O sistema da dopamina está ligado ao prazer, à realização. O sistema da serotonina, à ameaça, à proteção. E a ocitocina, à regulação da conexão, do amor, do compartilhamento. Então, na realidade, a gente tem que ter um equilíbrio entre esses três funcionamentos, esses três elementos, mas a gente pode trabalhá-los. Por exemplo, quando a gente está muito ansioso e o sistema serotoninérgico está ativado, eu posso fazer uma meditação em que eu estimule meu estado compassivo, estimule minha generosidade, estimule minha autocompaixão. Quando eu faço isso, estimulo essas conexões, eu acalmo o meu cérebro que está ansioso, a parte do meu cérebro que funciona com medo, com ameaça. Então a gente pode, sem dúvida, melhorar a atenção. A atenção é um músculo que eu preciso, de certa forma, treinar para ele ficar forte. A atenção é o que monta...

Dopamina, serotonina e ocitocina (21:23)

Eron Falbo: [22:50] Vê se eu tô certo, assim: a gente, pra tentar, vamos dizer, simplificar o processo, a gente cria hábitos. Até a Mônica tava perguntando aí se manias também, né? Eu acho que a resposta é que manias é outro nome pra hábitos, né? São hábitos que estão engrenados aí, que a gente tá muito acostumado a fazer.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [23:13] Pode ser um sinônimo.

Eron Falbo: [23:16] Aí explica, vê se eu tô certo: a gente, por fazer a escolha, começa a fazer uma ação, e por fazer essa mesma escolha diversas vezes, regularmente, a gente cria certas conexões neurais, né? Nosso cérebro se acostuma a fazer a coisa daquela maneira e cria um corta caminho, né? Então vou fazer mais inconscientemente aquele processo.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [23:42] Eles se tornam inconscientes nesse processo e se tornam mais automáticos nesse processo. Aí ele virou um hábito.

Eron Falbo: [23:49] Aí virou... beleza, virou um hábito. Aí tem uma recompensa, tem um...

Dr. Carlos Eduardo Brito: [23:57] Que o...

Eron Falbo: [23:59] O quê? O quê?

Dr. Carlos Eduardo Brito: [24:00] A recompensa, nesse caso, pra mim, a necessidade é a eulogia.

Eron Falbo: [24:24] Entendi, é relativa à necessidade.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [24:26] Exatamente, a necessidade tem que estar linkada à gratificação, ao tipo de gratificação que você recebe.

Como mudar um mau hábito (24:28)

Eron Falbo: [24:34] Então vamos tentar resumir. Você cria um hábito, depois de fazer isso diversas vezes, você cria a conexão neural, você cria o hábito. Agora, para você, como a Simone estava falando, criar um hábito melhor... Eu estou com esse hábito aqui, está instalado aqui na minha mente. Está certo que precisa criar conexões mais fortes? Precisa fazer regularmente outras coisas para substituir aquela coisa? Como é que funciona?

Dr. Carlos Eduardo Brito: [25:01] Sim, veja bem. Um hábito, teoricamente, ele inicialmente é invisível, porque ele está com esse automatismo muito alto. Então a primeira coisa, eu tenho que identificar e tornar esse meu hábito menos invisível. E eu faço isso com minha atenção. Eu olho e aumento o meu nível de consciência sobre o meu hábito. Meu hábito antigo é aquele que eu quero mudar.

Eron Falbo: [25:27] Tira do inconsciente, tira do inconsciente.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [25:30] Exatamente, eu olho e trago ele mais consciente. Vejo quais são os sabotadores que possam estar mantendo esses hábitos inadequados, né? Quais são os contadores?

Eron Falbo: [25:41] Porque afinal, o que sustenta o hábito é o fato de que ele tá inconsciente, senão não é hábito, né? Se ele tá consciente, ele não é hábito, ele é uma escolha, né?

Dr. Carlos Eduardo Brito: [25:49] É, sim, sim.

Eron Falbo: [25:50] Tá certo isso?

Dr. Carlos Eduardo Brito: [25:52] Exatamente.

Eron Falbo: [25:53] Então o fato cê traz atenção pro hábito, pro mal hábito, né, pro vício, que a gente pode dizer, trazendo atenção cê tá trazendo consciência pra ele, por isso tá.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [26:07] Essa é uma colocação bem importante, a gente dá uma parada, que é o que é uma resposta e o que é uma reação. A reação é inconsciente ao hábito. Uma resposta não é uma coisa inconsciente, é uma escolha. Eu costumo dizer que entre o estímulo e uma resposta existe um espaço. Nesse espaço reside o seu poder de escolha. Na sua escolha existe o seu desenvolvimento e sua liberdade interior. Eu só ganho liberdade interior quando eu escolho. Enquanto eu estiver no automático, na realidade, eu não tenho ainda liberdade interior. Eu estou programado por conexões, por experiências, e sempre dizendo o seguinte, eu estou programado porque precisei ser programado. Em algum momento, esse hábito foi fundamental para me proteger ou para me equilibrar. Não é que eu escolhi, como eu falei, fazer isso. Não é bem assim. Mas o meu objetivo é que eu torne isso uma escolha. Por isso o treino da atenção, por isso que tem algumas habilidades interiores que têm que ser treinadas para chegar a isso.

Eron Falbo: [27:28] É, mas relembrando que muita gente pensa no mundo moderno que a ideia, então, é a gente ser consciente o tempo todo, voltando àquela coisa do início. Não é a ideia a gente querer ser consciente o tempo todo, senão a gente vai perder muito tempo. Mas é eliminar os maus hábitos, trazendo consciência para os maus hábitos, para poder depois criar bons hábitos, que pode jogar no inconsciente os bons hábitos.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [27:55] Não tem problema. Sim, se eu entro numa agenda de tentar eliminar um mau hábito ou criar um novo hábito positivo, eu tenho um processo, eu tenho algumas habilidades que eu preciso treinar. Como eu falei, entre elas é ter mais consciência, mais clareza, treinar mais atenção, não deixar o hábito se tornar tão automático, perceber quais são os sabotadores mentais desse hábito, lembrar que eu tenho que fazer, por exemplo, o que me faz fazer ginástica quando, na realidade, eu não tenho o hábito e não gosto de fazer. É muito importante e necessário que eu encontre uma necessidade para que eu possa realizar esse comportamento. Entendeu? Então, se eu vou lá sem nenhum sentido, se eu vou lá sem nenhum propósito, sem nenhum entendimento do que eu ganho com aquilo ali. Eu tenho que estar respondendo para mim, ou seja, aquela ideia, necessidade, gatilho, resposta, reforço, hábito. Então, para que eu possa ter engajamento no exercício físico, eu tenho que entender o que eu ganho.

Eron Falbo: [29:11] É por isso que as pessoas pagam academia tantos meses e não vão, porque elas têm uma ideia de que eu estou vendo na sociedade, as pessoas estão malhando, deveria estar malhando, só que elas não internalizaram a importância disso, elas não sentem o prazer naquilo, então elas vão lá e pagam academia, só que acabam não indo, porque não criam o hábito de ir.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [29:37] Sim, e não criou o hábito porque não encontrou uma necessidade. Porque muitas vezes, você sabe que o hábito pode ser criado na força. Parar de fumar, você foi a um epidemiologista, às vezes, se continuar, você vai morrer, o cara joga o cigarro fora e nunca mais fuma. Às vezes, você encontra uma necessidade emergencial e isso pode fazer com que você freie o seu comportamento, mas normalmente não é assim que funciona.

Eron Falbo: [30:07] Mas a gente pode, como é que se chama, simular essa urgência, não pode, não é? Com meditação, com auto-hipnose, esse tipo de coisa.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [30:19] Sim, você pode se ver como você estaria fazendo esse mesmo mau hábito daqui a cinco anos, como você estará daqui a cinco anos. Então você tenta levar e imaginar daqui a cinco anos o que você estaria dizendo para você se você não tivesse mudado ainda aquele mau hábito? É uma técnica interessante que pode levar a um ponto de reflexão maior. Como eu falei também, aí envolve o controle inibitório do cérebro, que é uma das coisas também, uma estratégia muito importante. O que é controle inibitório do cérebro? É que o cérebro não se torna tão imediatista, hoje, dentro desse mundo em que a gente fica apertando botão, todo esse mundo tecnológico e muito rápido, nós treinamos essa parte muito imediata do nosso cérebro. Então, às vezes, falta controle inibitório. Ou seja, é difícil eu resistir a algo interessante naquele momento. É difícil eu priorizar o que eu preciso. Então eu tenho a maior tendência, muitas vezes tem até o teste do marshmallow que foi feito, não sei se você sabe sobre como é, que é muito interessante, que foram pesquisadas essas crianças dos 4, 5 anos até os 30 anos. E aos 30 anos foram verificar a diferença entre aqueles que conseguiram não comer o marshmallow e ganhar o segundo marshmallow por isso, porque controlaram à vontade durante 15 minutos. E os que comeram imediatamente o marshmallow, consequentemente, não conseguiram o segundo marshmallow. E aos 30 anos, tinha uma diferença bem significante em várias coisas, como relacionamento, ou seja, aqueles que tinham poder inibitório do cérebro, tinham relacionamentos mais profundos, empregos mais estáveis, não tinham ocorrência por agressão, uso ou dependência de tóxico na delegacia, tinha às vezes poupança, casa própria, tinha um diferencial de desempenho de uma forma geral nos relacionamentos.

Controle inibitório e teste do marshmallow (30:35)

Eron Falbo: [32:37] E isso lá no início, desde criancinha já estava meio que direcionado.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [32:45] Exatamente, mas a ideia era essa. Eu posso melhorar o impulso, o controle inibitório? Como que eu posso treinar isso? Então se eu, na escola, em criança, ao invés só da matemática, eu ensino a criança a ter o controle inibitório do cérebro dela, talvez esteja dando a ela uma pedra de ouro. Entendeu? Essa é um pouco a ideia, de você levar essas habilidades mentais para que muitas pessoas, professores, pais, possam saber como utilizar para os seus filhos, entendeu?

Eron Falbo: [33:25] Isso entra um pouquinho no nosso assunto aqui do Brasileiros Extraordinários, de como a gente pode usar essas técnicas da terapia cognitiva comportamental, da psicologia, da neurolinguística, o que for, para, vamos dizer, fazer mudanças significativas sociais, uma coisa além do indivíduo. A gente vê, por exemplo, que um dos obstáculos para isso é justo o que você acabou de falar, que as escolas, elas são desenhadas no nosso mundo para indoutrinar, de certa forma, para a pessoa virar um profissional mais focado, mais disciplinado, um profissional, e não um ser humano, não uma pessoa saudável emocionalmente. E não só emocionalmente, claro que esse é nosso assunto, mas se for ver, não ensina sobre imposto de renda na escola, não ensina coisas básicas da vida.

Educação: competição e cooperação (33:46)

Dr. Carlos Eduardo Brito: [34:34] O que você está falando é algo muito interessante, que eu chamo isso do viés darwiniano. A nossa sociedade pegou o viés darwiniano e disse que os mais fortes sobreviverão. Então, a nossa educação foi muito mais competitiva do que cooperativa. Então, nosso cérebro da oxitocina, da conexão, do amor, do compartilhamento, ele não foi tão estimulado, tão exercitado quanto o cérebro dopaminérgico da competição, da realização. Agora, hoje, em Harvard, uma das perguntas que faz o indivíduo entrar para lá é quem você é no seu bairro? Quem você é para a estrutura do seu bairro, do seu condomínio? O que você já fez em prol de alguém? Ou seja, é a valorização do cérebro da compaixão do ser humano, do ser que nós somos descendentes. Na nossa evolução, nós somos descendentes daqueles seres humanos que compartilharam a caça, que criaram juntos os filhos. Aqueles que não fizeram isso se extinguiram.

Eron Falbo: [35:51] Ou seja, é contraditório a Darwin. O que nos fez sobreviver, na verdade, não foi... Você ama ser mais forte, mais empático, trabalhar juntos.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [36:04] Foi bom você falar isso. Mas, na realidade, para fazer justiça a Darwin, ele também fala, numa outra lei dele, que as sociedades mais cooperativas serão as que sobreviverão. Então, ele dá uma outra dica, só que ela não foi tão capitalizada pela imprensa, pela sociedade. Mas ele diz que a sociedade...

Eron Falbo: [36:26] Desculpa.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [36:27] Ele diz isso, que as sociedades que cooperam, elas terão maior...

Eron Falbo: [36:33] Isso é um outro ponto que é muito importante. O que a gente foca? A sociedade focou nessa parte de Darwin. É a mesma coisa de Isaac Newton. Poucas pessoas sabem disso, mas Isaac Newton, 98% da obra dele é sobre ocultismo, é sobre religião comparada, sobre mitologia. E a gente só conhece 2% da obra dele, que é sobre física. E a gente culpa Isaac Newton por toda a física. Ele próprio não acreditava nisso. E é a mesma coisa que você falou de Darwin. A gente culpa Darwin por ser essa coisa competitiva, não sei o quê, mas Darwin falou. Darwin falou, tá falado, mas ele não falou só isso. Ele falou também da empatia, da cooperação.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [37:17] Sim, exatamente. E, por algum motivo, não interessava.

Eron Falbo: [37:22] Não interessa o sistema econômico.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [37:26] Exatamente.

Eron Falbo: [37:27] O industrialismo, essa coisa toda, que a gente não precisa entrar.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [37:32] Mas a história não é não.

Eron Falbo: [37:35] Eu ia, se permitirem, ver umas perguntas aqui.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [37:41] Podemos ver que as pessoas estão querendo saber.

Felicidade, flow e desempenho (37:43)

Eron Falbo: [37:46] A pergunta é carregada aqui. Vamos lá, Rivaldo Menezes está perguntando: e a felicidade eudaimônica, como se relaciona à hedônica? Eudaimonia, do grego, felicidade; hedônica, prazer.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [38:03] Eudaimônica, nós falamos em felicidade sustentável. É a felicidade que não está baseada no exterior, e sim em processos mais internos. É um pouco assim, essa felicidade ainda é descalça, ela é simples, ela não precisa de fatores externos. É quando você cultiva a sua autocompaixão, o seu bem-estar, você cultiva valores que não estão diretamente ligados a nada externo. Então é esse tipo de felicidade. Mas uma não invalida a outra, entendeu? Você pode ter felicidade hedônica, sim, entendeu? Você pode ter propósito, sentido, que também está aí nessa felicidade, que é ver mais do que a si próprio. Quando você tem um sentido e um propósito, é quando você estimula exatamente algo que não é só para você. O propósito é algo maior do que você incluir outras pessoas, benefício para outras pessoas. Então, esse também é um outro tipo de felicidade. E uma não invalida a outra, isso que é interessante. A felicidade pela performance, quando eu tenho um talento e eu consigo gravitar em torno desse talento e usá-lo, isso traz engajamento e traz flow. Que é uma das coisas que o cérebro mais gosta, é estar nesse estado de flow. É quando eu estou fazendo algo muito bem feito, que eu não sinto a hora passar, eu me perco, eu fico inconsciente naquele momento, naquele processo. Então é outro tipo de bem-estar, de felicidade também. Uma não é excludente da outra, são mecanismos diferentes.

Eron Falbo: [40:01] Só uma curiosidade rápida, você sabe, assim, neurologicamente, se o estado de flow... Acabei de ter essa pergunta: se tem alguma conexão com DMT, com glândula pineal?

Dr. Carlos Eduardo Brito: [40:16] Ele provavelmente está naquele estado meio hipnótico, em que os sensores não estão ativos, estão todos canalizados, direcionados apenas para um ponto. Então, na realidade, é ali um estado perto do REM, ondas cerebrais muito baixas, que estão naquele momento de realização e satisfação plena. Deve ter dopamina também, porque é muito interessante. Isso foi uma pesquisa com os pintores, porque eles relatavam um prazer enorme quando estavam pintando quadros e depois guardavam, e não era para vender. Mas o processo, na realidade, era extremamente cativante para eles. Eles entraram num estado que foi denominado estado de flow, um estado de absorção, de perda de sentido, de prazer enorme. Quem é pintor, por exemplo, deve saber do que estou falando. Ou mesmo, por exemplo, eu atendendo pacientes, às vezes eu entro em estado de flow. Tem um desafio e você está gravitando em torno das suas habilidades, você pode ter flow. Então, flow não é só para um Pavarotti. Para um contador também, não é? O contador também pode ter flow. Quando ele acerta e fecha aquilo ali, tudo complicado, ele fala: meu Deus... Então, isso é interessante, desde que o talento dele seja aquele.

Eron Falbo: [41:56] A Renata, que é pintora, parece, está falando que, ao pintar, acontece exatamente isso.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [42:01] Que bom, Renata, que você não deixou eu falar, confirmou o que eu estava falando.

Eron Falbo: [42:09] Que bom. Vamos ver outra pergunta aqui. Olha só, a Mônica falando: que pessoa bacana, viu, Erão? Parabéns, amiga minha.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [42:19] Ah, sua amiga.

Eron Falbo: [42:20] Obrigado, Mônica. Te elogio.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [42:22] Obrigado.

Eron Falbo: [42:24] A Flávia tá perguntando se isso vai ficar gravado. Olha só, o último live que eu fiz, não consegui gravar. Eu botei em encerrar e não dei opção pra gravar. Então, se Deus quiser, vai ficar gravado, mas eu realmente não posso garantir. A Rosária tá perguntando: é possível ser feliz sozinho? Isso eu acho que é uma música do Tom Jobim, né?

Dr. Carlos Eduardo Brito: [42:50] É uma música do Tom, né? Eu acho que sim. Eu acho que a gente pode ser feliz sozinho, sim. Mas são escolhas, na realidade. Acho que você não tem um modelo rígido, fixo. Agora, o ser humano é um ser gregário, ele tem, muitas vezes, necessidade. O que a gente tem que saber é se isso é uma escolha ou é uma reação emocional de medo de eu me envolver. Essa é a diferença, entendeu? Sabe? Onde é realmente uma escolha, por N motivos que o indivíduo pode chegar a essa conclusão, ou às vezes é apenas se livrar de um medo, de uma dificuldade, entendeu? E aí talvez isso vai ter um preço um pouco na frente, mais tarde.

Eron Falbo: [43:39] Olha só, a Carol tá perguntando uma coisa que eu acho que é um bom tema pra gente entrar agora no finalzinho da nossa live, que é sobre a quarentena, né? Como que a gente pode, mais especificamente pra quarentena, voltando, no começo a gente falou um pouco sobre isso, na prática mesmo, né? Vamos falar sobre nossa vida individual, né? A gente acorda, como que a gente faz pra ter um dia mais produtivo, isso tudo que a gente falou aqui agora, como é que a gente encapsula, né? Pra tomar uma pílula agora, pra sair desses últimos 15 minutos e ter uma vida um pouco mais produtiva.

Rotina prática na quarentena (43:45)

Dr. Carlos Eduardo Brito: [44:18] É, Eron, veja bem, não vai ter como ter uma receita de bolo já que os fatores são todos muito pessoais, né? Qual é a minha necessidade? Eu tenho que me perguntar, entendeu? Quais são os meus talentos, quais são os... Por exemplo, eu descobri cada vez mais que ler e estudar é algo que me leva a florescer também. Então, quando estou aprendendo, quando estou fazendo algo que estou aprendendo, que eu não sabia e que passei a saber, e que faz sentido eu ver a aplicabilidade daquilo, é extremamente prazeroso para mim. Então, eu dedico um tempo a isso. Eu estou trabalhando também, fazendo o que eu gosto, que é o meu trabalho que está sendo feito por vídeo. Também toma tempo. Foquei mais na minha família, mais na minha filha, fiquei mais perto dela, das necessidades dela, me comuniquei mais com ela. Foi um tempo que talvez eu não tivesse para fazer isso, embora eu tenha outras duas filhas que eu não possa ver, mas a que está perto de mim eu fiz isso. Então é exatamente...

Eron Falbo: [45:34] Eu ia te perguntar assim, porque a gente falou que o tema dessa live é tanto hábitos quanto rotina, né?

Dr. Carlos Eduardo Brito: [45:41] Então...

Eron Falbo: [45:43] Você que trabalha, que consegue trabalhar à distância, vamos dizer, regularmente, mas não é todo mundo que está na mesma situação. Então, às vezes, como que a gente consegue se inserir dentro de uma rotina usando a tecnologia dos hábitos que a gente aprendeu, que a gente conversou hoje? Para poder, de repente, criar uma rotina mais saudável e não deixar espaço para aquela depressão, para aqueles pensamentos viciosos, para aquela perda de tempo e coisas do tipo.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [46:16] Dentro do cardápio meu, daquilo que me interessa, que eu gosto, eu tenho que escolher algumas coisas, como exercício, quanto tempo que eu posso me dedicar a esse exercício, como se fosse uma grande pizza, e você vai tentar fazer uma programação dentro, colocando sempre fatores que te dão prazer, fatores que são necessários para que você possa fazer, como às vezes se atualizar, estudar um pouco, evitar de ficar o tempo todo falando e vendo coronavírus na televisão, por exemplo, maçante de forma excessiva, isso realmente acaba criando uma inibição, uma diminuição de energia, treinar seu otimismo também, por exemplo, fazer uma listinha de cinco coisas que aconteceram hoje e que eu tenho chance para agradecer e tenho chance para dizer que foram positivas para mim. Então, nesse momento de quarentena, o que é, sabe? Fulano se recuperou, eu estou bem, o dia foi bonito, meu filho falou, gritou do quarto, que me amava. Então, quais são os motivos que eu tenho para desenvolver o meu otimismo, desenvolver a minha resiliência? Eu tenho que lembrar que esse momento é um momento também de compaixão, de autocompaixão. Não adianta se obrigar a uma rotina, a uma alta produção, e não cair, não ficar à deriva. Buscar o meio termo entre essas duas coisas é importante. Então é exatamente um pouco você procurar ver as coisas que você gosta, tentar incluí-las de uma forma flexível, trabalhar também a sua mente de uma forma mais otimista, criando esperança que isso vai passar, que as coisas depois a gente vai resolver, de acordo com elas aparecerem. Não adianta eu ficar catastrofizando ou antecipando situações perigosas que podem não acontecer ou que ainda não aconteceram, para agora, que isso aumenta a minha ansiedade, daqui a pouco gera desânimo e gera depressão. Eu não posso morder algumas iscas, eu tenho que ficar atento para não morder algumas armadilhas mentais. Agora, o processo é isso, é buscar um pouco o que te dá prazer, o que te beneficia, aquilo que você quer fazer, quais são os ganhos, o que você ganha ao fazer ginástica todo dia.

Eron Falbo: [49:01] Lembrar disso.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [49:02] Lembrar. Eu tenho que listar os ganhos, depois hierarquizar. Não vou começar fazendo meia hora de esteira. Sabe, faço 5 minutos, 10. Em mais 10, no dia seguinte... Porque cria o...

Eron Falbo: [49:16] Hábito, não importa se é 5 ou 10 minutos...

Dr. Carlos Eduardo Brito: [49:19] Exatamente.

Eron Falbo: [49:20] Uma hora, não importa o hábito.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [49:22] Esse é o truque. O truque é repetição, é repetição. Esse é o truque. Diluição de exigência, hierarquização, gratificação, porque eu fiz. Eu realmente comecei a bater palma para mim, comemorando.

Eron Falbo: [49:35] Foi assim, na verdade, nas nossas conversas, como você sabe, que eu, na quarentena, criei minha própria rotina. Eu foquei conscientemente, deliberadamente, criei uma rotina. Eu pensei assim: o que eu preciso para começar o dia bem? Entendeu? Aí o XYZ está até no meu Stories aí, para quem quiser olhar depois.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [50:06] E é muito boa, uma agenda muito legal. Vários exercícios, exercícios mentais.

Eron Falbo: [50:15] Mas usando como exemplo, só para de repente demonstrar como isso funciona, a gente pensa primeiro o que a gente gostaria de fazer e não a intensidade, não se fosse 5 minutos ou se fosse meia hora, não o ideal, mas que hábito eu quero ter? Eu quero ter o hábito de correr? Sai de casa! Isso é uma coisa que eu percebi, que mudou a minha vida. O processo de colocar o sapato é mais difícil do que correr. Se você se acostumar com colocar o sapato, aí já tá 80% do trabalho feito.

Vencer a inércia e os vícios (50:28)

Dr. Carlos Eduardo Brito: [50:59] Vencer a resistência, a inércia, é mais difícil do que depois que começa. Isso que é interessante, que você vai tendo surpresas, entendeu? Isso que é interessante.

Eron Falbo: [51:10] Aí o quê? Aí você começa fazendo cinco minutos, vamos fazer cinco minutos de corrida, daqui a pouco você sente prazer. Entra a coisa hedônica, né? E você sente, eu não sei qual é, porque eu não sou psicólogo, mas serotonina, imagina, você sente aquela coisa.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [51:25] É endorfina isso, serotonina, sendo estimulada.

Eron Falbo: [51:32] Você perpetua aquele hábito, aquele comportamento. Mas o que você não quer fazer é colocar o sapato, você não quer colocar roupa de ginástica, você não quer sair de casa. É isso que é o difícil. Isso é o mais fácil, na verdade.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [51:45] E aí entra um pouco, eu sei que é difícil o que eu vou falar, mas que é aquilo que eu falei, que entra assim um pouco eu escolho. O cérebro tem também uma tendência: quando você coloca muita dúvida, muita possibilidade para ele, ele tem mais dificuldade em decidir. Quando você fala, amanhã eu vou e não tenho escolha, já bota lá o sapato, a roupa, quando você acordar, você vai olhar para ela? Isso tudo já ajuda. Não tenho escolha. Eu vou. Não tenho outra alternativa. Isso é interessante também...

Eron Falbo: [52:20] Tirar a escolha.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [52:22] Tirar a escolha dele. Se isso acabasse, só sobraria isso. E é o que eu vou fazer. Isso está muito ligado também a pessoas dependentes que têm fissura. Fissura por álcool, pela droga, aquilo passa. Se ele resistir àquele momento ali, aquilo, como uma onda, passa, decresce. Então eu escolho o que não tem, que eu não vou usar, que eu não vou fazer, essa é a minha escolha. Não tem negócio que aí o cérebro imediatamente corta esse desejo, essa necessidade.

Eron Falbo: [52:53] E isso vale para amores perdidos? Isso vale para qualquer tipo de vício, né?

Dr. Carlos Eduardo Brito: [53:01] Sim, qualquer tipo.

Eron Falbo: [53:02] Jogos, compras... Ah, eu estou no Instagram demais!

Dr. Carlos Eduardo Brito: [53:06] Live não conta, né?

Eron Falbo: [53:11] Live é uma coisa boa, porque você não tá ali vendo a vida dos outros, você tá vendo conteúdo, tá escolhendo. Live, por quê? Porque chega no Instagram, quando você tá no meio do live, chega um monte de notificação, aí você quer apertar a notificação e sair do live pra poder ir ver. Eu sou meio viciado, mas o live é a coisa que eu tô escolhendo, é ficar aqui e assistir. Tô querendo hipnotizar todo mundo.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [53:39] Mas há esse vício, sim. O vício da internet, o vício hoje de estar conectado, é um vício...

Eron Falbo: [53:48] Eu só estou trazendo isso porque a gente fala muito sobre isso, porque na sociedade a gente fala sobre as substâncias, que é o óbvio, mas também a gente tem vício de Instagram, tem vício de falar, tipo... São vícios.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [54:09] Vícios, às vezes, até de amor tóxico, por exemplo. Pessoas que são viciadas em amor tóxico, por exemplo. Então é a mesma coisa, às vezes você trata dessa mesma maneira, sabendo que precisa de um certo esforço, de um certo afastamento, que no início vem ansiedade, no início o cérebro sente a vontade, mas depois ele busca uma adaptação. Eu preciso só resistir um pouco a isso e criar também motivação. Quais são as coisas que fazem com que eu me afaste dessa pessoa? Quais são as três necessidades importantes para mim? É o mesmo processo que serve para tudo, isso que é interessante.

Eron Falbo: [54:56] Eu aprendi no misticismo, na Kabbalah, por exemplo, que tem uma técnica de você aumentar a importância da coisa. É a mesma coisa que você está falando, só que com outras palavras. Você mentaliza aquela coisa que você quer e aumenta a importância daquela coisa. Tipo assim, por que eu não tô indo pra academia? Porque você não acha importante, no final, né? Pra você ainda não é importante. Então, como que eu paro ali e aumento a importância daquela coisa na minha vida? Por que eu tô comendo chocolate demais e não tô me exercitando? Porque é mais importante pra mim, se você parar pra pensar, é mais importante pra mim comer o chocolate.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [55:34] Entendeu?

Eron Falbo: [55:34] Como que eu aumento a importância? Aí você começa meio que, pô, será que eu sou tão superficial assim? Mas... de repente a gente erra.

Dr. Carlos Eduardo Brito: [55:44] Ou está automático, aquela coisa. Porque chocolate aliviou a ansiedade, foi mais rápido, está ali mais perto, entendeu? Gasta menos energia, o cérebro já conhece esse caminho, entra naquele processo que a gente falou. Então, na realidade, nós somos um conjunto de hábitos. A questão é se nossos hábitos são adaptativos, funcionais ou não. Mas, no fundo, nós somos um conjunto de hábitos. Porque, por isso, a gente repete, repete, pode ser um bom hábito, um excelente hábito, mas ele é um hábito. De qualquer forma, ele é um hábito. E aí ele vai gastar menos energia e vai ficar ali instalado.

Eron Falbo: [56:34] Doutor, a gente tem mais uns dois minutos aqui, então vou deixar uma mensagem final. O que a gente vai deixar? O que a gente vai aprender hoje para amanhã acordar melhor, fazer um dia melhor, uma rotina melhor, começar a criar hábitos melhores?

Dr. Carlos Eduardo Brito: [56:54] Gente, esse é só para a gente terminar esses dois minutos e lembrar um pouquinho que a gente não falou de hábitos mentais, né? Tudo aquilo que nós treinamos na nossa mente, nós acabamos ficando muito bons. A gente fica tão bom que, por exemplo, se eu treinar raiva, eu fico muito bom em sentir raiva e acabo sentindo raiva de qualquer coisa.

No Alvo com Eron Falbo · episódio #3 · todos os episódios