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#28 O que se pensa pode ter dono?

com Fábio Pimentel de Carvalho · 5 de nov de 2020

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Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Apresentação do convidado (0:00)

Fábio Pimentel de Carvalho: [0:00] Prazer, prazer.

Eron Falbo: [0:03] Valeu mesmo. Se você puder explicar um pouquinho... O Fábio é um especialista em direitos autorais e propriedade intelectual. Você dá aula sobre isso? Está certo isso? Ou já deu?

Fábio Pimentel de Carvalho: [0:19] Está certo. A gente divide um pouquinho o que a gente aprende, e aprende também conforme a gente vai transmitindo o conhecimento. É um pouco de cada coisa. Acho que partilho muito daquela ideia de que a melhor forma de aprender é ensinar. Então a gente, quando ensina, acaba aprendendo bastante também. Mas é isso, sim. Acho que dizer especialista talvez seja muito, mas sou entusiasta, vamos dizer assim.

Eron Falbo: [0:49] Se você não é, quem é? Então não existe especialista.

Fábio Pimentel de Carvalho: [0:54] Eu sei que há muitos especialistas, mas eu sou um entusiasta da matéria. Algo que sempre me encantou muito é a área de direitos autorais, e tecnologia também. São temas que me desafiam diariamente, eu diria.

Como entrou na propriedade intelectual (0:55)

Eron Falbo: [1:09] E como você entrou nessa jornada de direitos autorais? Por que você entrou?

Fábio Pimentel de Carvalho: [1:16] Olha só, isso é uma história curiosa pelo seguinte: eu só conheci a área de propriedade intelectual porque eu fui demitido de um emprego, tá? Então, o que me aconteceu foi, eu trabalhava, eu era estagiário num grande escritório no Brasil, e em um dado momento ali, nesse grande escritório, eu recebi um aviso prévio, vamos dizer assim: olha, você tá terminando a faculdade e muito provavelmente a gente não vai ter espaço pra te atender esse ano, então você fica à vontade. E aí fui buscar outros espaços, fui buscar outras coisas. E foi curioso porque no primeiro momento eu fui para um processo seletivo numa grande empresa do varejo, a B2W, posso falar. E quando eu estava na fase já de contratação, de levar meus documentos e tal para o RH, aquela coisa toda, o meu telefone tocou, eu estava no centro do Rio de Janeiro, e aí um sujeito disse assim pra mim: olha, eu recebi o teu currículo aqui porque o pai da tua namorada joga tênis com o meu pai. E eu falei: caceta, que confusão. Nossa, que é o pai de quem com quem? Enfim, e aí eu falei: tá, mas e aí? Aí ele: olha, eu tenho um escritório de propriedade intelectual, você tem interesse em vir conversar comigo? E na época, Eron, não se ensinava propriedade intelectual nas faculdades. Não existia essa disciplina. E aí eu humildemente falei: olha, me desculpa, mas eu nem sei o que é a propriedade intelectual, já ouvi.

Eron Falbo: [2:52] Falar... Até hoje é um pouco... Não é tão difuso, né? Uma coisa que ainda é um pouco fechada, uma bolha pequena.

Fábio Pimentel de Carvalho: [3:00] Bastante. Já existe, felizmente, cursos nas graduações, nas universidades, que tratam do tema, mas ainda é um mercado, eu diria, bem fechado. Há muitos escritórios que são tradicionais, que têm mais de uma centena de anos, às vezes, de história de prática. Então não é tão difundido quanto outras searas do direito. Mas aí eu falei: olha, eu estou no centro da cidade, vou tomar um café aí, vamos lá para a gente conversar, a gente se conhecer. E aí não saí mais. Lá fiquei, lá conheci o tema, me apaixonei por ele, me aprofundei nesse tema. Depois fui para um outro escritório, onde eu passei quatro anos trabalhando com propriedade intelectual também. Uma coisa que eu posso dizer é que eu sempre tive muita sorte com os chefes que eu tive. Foram todos, alguns mais exigentes que os outros, mas eu aproveitei muito, aprendi muito com todos eles. E foram experiências muito ricas para mim, tanto nesse primeiro escritório que me abriu as portas para a propriedade intelectual, como depois nesse segundo, onde eu pude ali assentar, difundir a minha prática e me aprofundar um pouco mais e conhecer outros ramos. Porque quando você fala de propriedade intelectual, na verdade você tá falando de direito autoral, de marcas, patentes, segredos de negócio, é um ramo muito amplo.

Eron Falbo: [4:24] E indústrias diferentes.

Fábio Pimentel de Carvalho: [4:26] Sim, com certeza.

Eron Falbo: [4:27] A indústria da arte, a indústria da tecnologia.

Fábio Pimentel de Carvalho: [4:30] Exatamente. Quando você avança por um mercado específico, como você está dizendo, mercado de arte, de entretenimento, mercado de tecnologia, cada mercado desses é um novo mundo do ponto de vista de proteção de propriedade intelectual. Então parece que você está aprendendo de novo. Você olha para esse mercado e fala: como é que se protege o PI no mercado de entretenimento? E por aí vai. É um constante aprendizado, eu diria que você tem que conhecer muito.

Eron Falbo: [5:01] E tem que ser muito na prática mesmo, porque é muito difícil... Eu imagino que você, só aprendendo isso na escola, na universidade, vai aprender isso... Algumas diretrizes... Sim, é bem geral. Mas é uma coisa tão na prática... Claro. Eu imagino que você tem que ter essa experiência mesmo.

Fábio Pimentel de Carvalho: [5:25] É, conhecer o mercado é muito importante, tá? Porque cada mercado tem uma lógica própria de funcionamento. Então, eu posso dar dois exemplos aqui: eu trabalhei tanto para autores de obras escritas, grandes obras, novelistas, etc., e escritores, e trabalhei também para a indústria do funk. Então, você tem uma ideia... E cada...

Eron Falbo: [5:51] Você não pode falar de todos os seus clientes? Alguns você pode falar? Alguns que você já trabalhou?

Fábio Pimentel de Carvalho: [5:58] É, eu já tive a oportunidade de trabalhar pra família do Nelson Rodrigues, foram trabalhos bem bacanas. E eu trabalhei durante bastante tempo pro, hoje, um grande nome aí do funk no Brasil, que é o Dennis, o Dennis DJ. Um bom tempo para ele também.

Eron Falbo: [6:17] E qual a diferença quando você pode ou não pode falar? Talvez seja porque é cliente atual? Qual a diferença?

Fábio Pimentel de Carvalho: [6:24] O advogado, em geral, existe uma regra geral que é o que o advogado precisa manter, não é sigilo, mas é discrição sobre os temas. Então a gente evita, eu pelo menos tenho essa conduta, eu evito de maneira geral descrever os meus clientes pormenorizadamente ou, enfim, individualizá-los, porque nem todo mundo se sente confortável em que os outros saibam que ela tem um advogado ou que ela precisa de um advogado. Então, a gente procura mais por uma questão de discrição mesmo e de conforto do cliente.

Eron Falbo: [6:58] E tem uma questão, que eu também vivo isso no mercado financeiro, que é a gente ter um problema que a gente não pode falar muito do nosso currículo, tanto do nosso currículo quanto do outro. Porque quando a gente vai visitar um cliente novo, vai vender o peixe, falar alguma coisa assim, é meio difícil, né? A gente poderia falar, se eu falasse as coisas que eu tenho, talvez ia abrir portas, né, com muito mais facilidade.

Fábio Pimentel de Carvalho: [7:23] Quando a gente lida com questões sensíveis, como os direitos, o matrimônio, as liberdades, vamos dizer assim, é um ônus desse trabalho. Então, se você quer contar: olha, eu fiz tal trabalho para tal pessoa, aquilo ali, ao mesmo tempo que é muito bacana de você dizer, talvez para o cliente não seja tão bacana assim. Então, a gente tem que manter esse equilíbrio, é natural, é da profissão mesmo, faz parte das nossas atividades, com certeza.

ECAD e a história familiar (7:40)

Eron Falbo: [7:50] E você, não sei se eu te falei sobre isso, mas o meu avô, Edson Falbo, foi um dos fundadores, criadores, vamos dizer, construtores, do que fez o ECAD atual, né?

Fábio Pimentel de Carvalho: [8:03] Bacana.

Eron Falbo: [8:04] Você deve conhecer o pessoal do ECAD, deve trabalhar bastante com eles, né?

Fábio Pimentel de Carvalho: [8:08] Olha, hoje eu diria que bem menos, tá? Durante um tempo, tinha uma interação mais, enfim, frequente e diária com eles. O ECAD... acho que muita gente enxerga o papel do ECAD de uma maneira muito ruim, porque, obviamente, fiscalizar não é uma coisa popular.

Eron Falbo: [8:30] Você é o cara que cobra o cobrador de impostos.

Fábio Pimentel de Carvalho: [8:34] Exatamente, mas o ECAD tem um papel muito importante na estruturação dos direitos autorais no país e no próprio fomento, porque o titular de uma obra autoral precisa e merece a retribuição pelo aproveitamento econômico daquela obra. E o ECAD tem um papel fundamental nessa governança dos direitos autorais. Então, pode ser que não seja um órgão muito simpático, vamos dizer assim, e parte disso, né, Eron, se deve ao fato de que, infelizmente, no nosso país a gente ainda tem uma noção, por exemplo, de que o que está na internet é de graça. Se está na internet não tem dono, se está na internet é de graça.

Por que direitos autorais são justos (9:16)

Eron Falbo: [9:16] Mas eu queria entrar um pouco assim nesse questionamento, acho que sua opinião vai ser muito interessante. Por que direitos autorais são justos? Por que a pessoa merece receber? Porque eu acho assim, só para explicar a pergunta, a gente vive num mundo onde a gente tem isso como óbvio, mas é claro que isso foi fomentado pela indústria. A gente foi educado já a viver num mundo, a aceitar isso como um fato do universo.

Fábio Pimentel de Carvalho: [9:47] Claro.

Eron Falbo: [9:48] Mas eu te pergunto porque isso não foi sempre assim, até o século XVI não existia direitos autorais, então Sófocles não tinha direitos autorais, Platão não tinha, entendeu? Muita gente boa, e não ganhou nada.

Fábio Pimentel de Carvalho: [10:03] Não ganhou nada com as suas criações, né?

Eron Falbo: [10:05] Não, ganhou de um jeito ou de outro, mas não dessa forma que a gente ganha hoje, né?

Fábio Pimentel de Carvalho: [10:10] Com certeza, com certeza. Olha, eu posso te dizer o seguinte: a partir do momento em que se percebeu que a criação autoral tinha valor econômico, ou era economicamente apreciável, você tira aquilo, vamos chamar de uma vala comum, e torna aquilo um bem especial. A proteção que é dada, estou falando de criação ou ato simples, de maneira geral, se é por direito autoral, se é por propriedade de marca, por direito marcário, no caso de uma marca, obviamente, se é uma patente de um produto, de um processo, aí difere um pouco a razão pela qual é protegido. Mas o fato é o seguinte: as criações intelectuais merecem proteção porque delas descende um trabalho. E como qualquer outro trabalho, ele é, por regra, remunerado. Basta a gente pensar em qualquer indústria cujo bem final esteja protegido por direitos autorais. Vamos pensar, por exemplo, numa banda. Numa banda de música. Por trás do trabalho dos músicos tem uma indústria, tem um sem número de pessoas que trabalham para aquilo ali acontecer. Então, por mais que a gente ache, às vezes, que a retribuição não é justa, ou haja esse sentimento popular, como você falou, esse senso comum, que nem sempre a retribuição é justa, ela com certeza é devida, antes de mais nada, na minha opinião, porque descende de um trabalho. Então, a gente vive num regime em que o trabalho é presumidamente oneroso. O trabalho gratuito, o trabalho voluntário, ele é uma exceção a uma regra, que é a onerosidade da relação de trabalho. Então, sobretudo quando você tem uma obra autoral, você tem ali por trás dela um trabalho de dezenas, centenas de pessoas. Então, eu acho que essa é uma razão.

Eron Falbo: [12:05] É, mas aí você tem... Só para um contraponto, você tem um trabalho que foi realizado uma vez, e você tem uma repetição de remuneração, aí depende, está entrando em domínio público ou qualquer coisa, existe um tempo muito maior do que aquilo. Agora, quando você constrói um prédio, é a mesma coisa, você tem o trabalho uma vez, aí você tem aquele direito de vender, etc. Só que o prédio está ocupando um espaço físico, então existe uma escassez ali. Então, por causa da escassez, aquela pessoa que fez aquela melhoria e tudo tem aquela recompensa. Eu acho que o problema, talvez filosófico, da propriedade intelectual é que não existe uma escassez. Você pega um MP3, você copia e cola e você pode fazer isso sem ônus nenhum para o autor.

Fábio Pimentel de Carvalho: [13:01] Sem sombra nenhuma. Com certeza. Você tem razão. Tô te interrompendo, mas olha só. Vamos pensar o seguinte: a gente tá falando de escassez, então necessariamente eu tô falando de bens rivais. Você usa, eu não uso, por isso é escasso. A propriedade intelectual não pode ser vista como um bem imóvel. Ela é um bem de natureza imaterial, mas a natureza imaterial não exclui o direito de propriedade. Então, são questões distintas. O fato de não haver materialidade, tangibilidade na propriedade, não exclui dela a natureza de propriedade. Basta se dizer que as marcas são, por direito, bens móveis.

Eron Falbo: [13:48] Eu sei, mas é assim que se tornou. Você está dando a definição da coisa. Eu estou perguntando por que isso se torna justo. Porque o que eu penso é o seguinte: eu, na verdade, não tenho resposta pra isso, não. Tipo, eu sou músico. Eu tenho composições e, pô, já ganhei dinheiro, pouquíssimo dinheiro com elas, mas já ganhei dinheiro mensal quando eu tava no Spotify, minhas músicas e tudo mais. E, assim, eu tenho até um, vamos dizer, um viés pra defender o outro lado. Mas eu também penso, por um outro ponto de vista, que a indústria da propriedade intelectual transformou o mundo cultural, uma coisa um pouco diferente do que era antes, entendeu? Hoje em dia, por causa dos direitos autorais, eu tô falando de música especificamente que eu conheço melhor, se dá muito valor pra novidade, né? Porque existem pessoas que retêm direitos autorais e precisam criar mais coisas que retêm direitos autorais, e as coisas que são do passado não geram tantas visualizações e coisas do tipo, ou entram no domínio público, etc. E eu acredito que isso gera uma limitação, vamos dizer, na cultura, que é de quantidade versus qualidade. Eu acredito, antes do século XVI, que eu acho que foi inventado o... os direitos autorais, existia uma preocupação muito grande com a imortalidade da obra. Então, fazer uma obra que era, por si só... Você não estava fazendo aquela obra porque você ia ganhar direitos autorais, etc. Você estava tentando competir com gerações passadas. E acho que criou um pouquinho desse vício, entendeu? Se você vê alguma coisa... Eu viajei demais?

Fábio Pimentel de Carvalho: [15:53] Não, não viajou não, mas isso fala muito sobre a forma como a sociedade é organizada e como a organização da sociedade vem mudando com o tempo. O que eu propus no início, a reflexão que eu propus, é a seguinte: será que o direito autoral não é reflexo de como a sociedade está organizada? E hoje a nossa sociedade é organizada em que sentido? No sentido do trabalho. Da ocupação, da circulação de bens e serviços, não é? Assim que a nossa economia de mercado é organizada, e por isso ela é de mercado. Então, os direitos autorais nada mais seguem do que uma tendência de uma organização social. E, como eu falei no início, a partir do momento que se percebeu que a criação intelectual tinha valor econômico, que ela podia ser economicamente apreciada, ou seja, a partir do momento que alguém percebeu que outrem estava disposto a pagar para usufruir daquilo ali, aquilo necessariamente tomou outro enquadramento.

Eron Falbo: [16:44] Você me deu um argumento que eu nunca nem tinha pensado nem ouvido antes, ver se eu entendi direito. É que, como a gente está dentro de um contexto capitalista, que a nossa sociedade é organizada com certos valores, aí dentro desse contexto se torna necessário e justo que propriedade intelectual seja tratada também como um valor. Até para ser fomentado e ser... Isso é um argumento que até eu dou, que é assim: se não houvessem direitos autorais, também ia haver muito menos profissionalismo dentro, assim, por um músico, por exemplo, ia ter muito menos motivação para se profissionalizar e melhorar a qualidade do trabalho, etc. E isso, dentro do contexto capitalista, eu acho que realmente você fez um ponto...

Fábio Pimentel de Carvalho: [17:35] Exatamente isso. É um bem, Eron, que tornou-se economicamente apreciável. Isso significa, na prática, que ele está dentro de uma atividade econômica organizada. Então, ele segue uma lógica que é a mesma lógica de qualquer outra atividade organizada, que é a lógica de circulação de capital. Ou seja, alguém é remunerado, e alguém recebe essa remuneração em troca de entregar um bem ou um serviço. E isso acaba fomentando a indústria. Isso não inibe a indústria. Agora, não vou nem entrar... Eu acho que há questões que são muito mais delicadas, porque, por exemplo, o artista ganha dinheiro com direitos autorais? Até ganha. Um ou outro ganha. Mas onde é que o artista ganha dinheiro? É fazendo show.

Como músicos ganham dinheiro hoje (18:18)

Eron Falbo: [18:24] Hoje em dia, mais do que nunca, né? Porque não tem mais o monopólio das gravadoras.

Fábio Pimentel de Carvalho: [18:28] Exatamente. É fazendo show. Então, o direito autoral (estamos falando especificamente do direito autoral de obras fonográficas, de músicas, etc.) tem assumido um papel muito interessante, porque não estamos mais sob a égide dos CDs. Hoje, com as plataformas de streaming... E até uma coisa que eu tenho repetido com alguma frequência, enfim, se alguém já está me ouvindo aí, com certeza já me ouviu dizer isso, que é o seguinte: o direito não é mais capaz de, sozinho, conformar as condutas humanas. O direito sozinho já não cumpre mais o papel de regular as condutas humanas. Há outras forças atuando, que são a economia, a sociedade, o comportamento social e a própria tecnologia. Essas quatro forças atuam para regular as condutas humanas. E por que eu estou dizendo isso? Se você olhar o que era, vamos lembrar do velho Napster lá atrás, juridicamente era pirataria. Era errado. Agora, economicamente era a forma mais barata de se ter acesso ao bem. Então, era racionalmente econômico. Então, beleza.

Pirataria e exemplos históricos (19:25)

Eron Falbo: [19:51] Tanto que teve a guerra da Metallica.

Fábio Pimentel de Carvalho: [19:54] Exato, exato. Tecnologicamente era uma maravilha. A tecnologia estava ali e entregava aquilo que ela se propunha entregar. E socialmente fazia muito sentido. Quem nunca entrou numa roda de conversa e puxou um papo? Eu baixei uma música. Toma aqui o CD, leva aqui o CD. Pô, bota aqui pra mim nesse CD, bota aqui pra mim nesse pendrive.

Eron Falbo: [20:13] E tem outro problema que eu acho que também é pouco explorado. Que às vezes é a falta de acesso que existe, né? Porque eu cresci no Brasil e eu sempre fui amante da música e tal, e gostava de músicas que não tinha pra vender, não existia pra vender, você não podia achar em lugar nenhum. Aí tinha até o Soulseek, que era uma evolução depois do Napster, o Soulseek era incrível, você achava qualquer coisa, você achava álbum obscuro ao vivo do Nick Drake, sei lá.

Fábio Pimentel de Carvalho: [20:41] Então, pode parecer um contrassenso o que eu vou dizer, mas às vezes a pirataria tem um papel de difusão na cultura.

Eron Falbo: [20:54] E de educação da economia também, né?

Fábio Pimentel de Carvalho: [20:56] Exatamente. Então, quer ver? Vamos dar um pouco de rumo aqui agora para ilustrar isso: PlayStation. Até falei com meus colegas de escritório recentemente sobre isso, estamos às vésperas do lançamento da quinta versão do PlayStation, o PlayStation 5, né? Se você olhar o PlayStation 1 e 2, o PlayStation 1 vendeu 104 milhões de unidades, o 2 vendeu 150 milhões de unidades. Sabe por que ele vendeu 104, 150 milhões de unidades? Porque tinha o CD pirateado. Então é assim: será que a Sony, vamos pensar aqui, será que a Sony, necessariamente, obviamente de maneira ingênua, permitiu a pirataria? Quer dizer, ela não tinha meios para inibir a pirataria? Evidentemente que ela tinha. Por que ela não inibiu a pirataria? Porque ela permitiu, ao não inibir a pirataria, que o PlayStation entrasse, por exemplo, em mercados emergentes.

Eron Falbo: [21:55] É uma das coisas que eu penso: as empresas e os artistas, as entidades, vamos dizer, têm que ter essa sensibilidade para o que você mencionou, que é a do benefício para a sociedade e o benefício para a economia. Então, se uma coisa é mais eficiente economicamente, é mais benéfica socialmente, as empresas e as entidades no geral precisam ter essa sensibilidade, porque senão elas vão ser engolidas e vão perder a vez, como as gravadoras de música perderam, né? A Universal, a Sony, a EMI, a Warner.

Fábio Pimentel de Carvalho: [22:31] Se você olhasse esse mercado há 20 anos atrás, você não diria que as grandes gravadoras perderiam espaço como o governo.

Eron Falbo: [22:41] É impossível. E perderam pra quem? Perderam pra Spotify, perderam pra iTunes, pra Amazon, que são distribuidoras digitais que se inovaram tecnologicamente. Eles podiam muito bem ter feito isso se eles tivessem tido essa sensibilidade, né? Exatamente.

Fábio Pimentel de Carvalho: [22:58] Então, para e pensa: a música mudou? Claro, o músico vai responder que sim, mas pro leigo, a música mudou? Não. O que aconteceu? O suporte mudou.

Eron Falbo: [23:10] E o músico, infelizmente, perdeu muito com isso, né? Porque antigamente, com o monopólio das gravadoras, o músico era rei, né? Era o jogador de futebol. Entendeu? Na época do Led Zeppelin, eles tinham o poder hoje do Neymar, né?

Fábio Pimentel de Carvalho: [23:27] Claro, claro. Ditavam ordem, ditavam tendências, ditavam a esperança das pessoas. Posso dizer que há muitas bandas de música aí que ditavam um momento de alegria, de esperança das pessoas. Enfim, o suporte muda, mas a arte não muda. É claro, hoje a gente tem outros tipos de música que dão outros estilos que são proeminentes, que têm um público aí mais cativo.

Eron Falbo: [23:54] Mas o que muita gente não sabe, que eu acho que vale falar nessa nossa conversa, porque esse é o assunto, é que os músicos estão ganhando muito, muito menos do que ganhavam antes, e é um percentual muito menor. Teve até o caso da Taylor Swift processando o Spotify por não achar justo o tanto que está ganhando. Mas, só para explicar isso: by the way, eu sou formado em music business, então por isso que eu tenho, vamos dizer, um pouquinho de conhecimento sobre o funcionamento da indústria em si. E o que aconteceu foi que tinha quatro grandes gravadoras, né? E depois viraram três grandes gravadoras por aí, a maior foi comprada, e isso tinha um monopólio na indústria. Então eles faziam tudo, desde a produção da música até a distribuição da música, tinham contratos todos amarrados com as lojas e tudo mais. Então você pegava uma pessoa qualquer e falava: eu vou fazer isso. E nos anos 80 isso...

Fábio Pimentel de Carvalho: [25:01] Estourou, era o auge da... Claro. Aí você tinha entrado nas rádios e era sua música que tocava. Então, o mercado está mudando muito rápido, e a tecnologia tem um papel muito importante nisso. Ela é um catalisador da mudança do mercado. Então, hoje, quando a gente fala de uma plataforma de streaming, por exemplo, qual é a primeira coisa que vem à nossa cabeça? É o preço justo. Quando você olha o volume de conteúdo que existe numa plataforma dessas versus o preço que você paga, isso é uma mudança de paradigma na forma de contratar e, por natureza, licenciar direitos autorais. Então, hoje você imagina: você vende uma obra, como era no passado, por uma tiragem de 100 mil CDs, ok. Como é que a gente estima hoje qual é o meu público numa plataforma de streaming? Então, o mundo está mudando muito rápido nesse sentido também.

Eron Falbo: [25:57] Uma outra coisa que eu percebi também, que é uma diferença dos direitos autorais na indústria de filmes e de música: na indústria de filmes existia o monopólio, mas não era tão grave quanto era na indústria musical. Aí o que aconteceu? Alguém como a Netflix, por exemplo, e a Amazon, eles estão produzindo filmes e estão sendo grandes produtores de filmes também. Por que o Spotify não tá produzindo, pelo menos até onde eu sei, até recentemente não tava produzindo música? Porque pra existir, o Spotify teve que deitar na cama com as três grandes gravadoras pra comprar o back catalogue deles e provavelmente fazer um acordo de que eles não seriam produtores de música. Então, provavelmente isso vai mudar, porque eu sei que o Spotify tá crescendo pra caramba e tá... E aí ela ganha...

Fábio Pimentel de Carvalho: [26:53] Uma posição dominante nas negociações, né?

Eron Falbo: [26:56] É, exatamente. Com esse crescimento, ela vira um player que é maior do que o Big 3, né? E aí eu acho que, finalmente, os músicos vão começar a receber de novo. Eu tô falando pelos direitos autorais. Porque a razão que eles não recebem hoje, quem tá recebendo é as gravadoras. E as gravadoras estão indo à falência. Então elas tão pagando, a última pessoa que elas pagam são os músicos.

Fábio Pimentel de Carvalho: [27:17] São os músicos, com certeza. As plataformas de streaming de vídeo descobriram que podem ser estúdios. Então, essa cadeia produtiva também está sofrendo alterações. E, como eu disse, a tecnologia tem sido um grande catalisador para que isso aconteça.

Eron Falbo: [27:35] E foi muito bom. Você vê, o Netflix tem umas produções maravilhosas, você vê que isso é muito bom. Eu percebo essa força de que é bom a produção e a distribuição estarem no mesmo lugar, porque você faz a obra inteira com tudo já direcionado, com o público já selecionado, etc. Então, isso torna a produção mais robusta, mais profissional.

Fábio Pimentel de Carvalho: [28:01] Mais profissional, é verdade. Então, eu acho que esse movimento que está sendo catalisado pela tecnologia ainda tem muito a evoluir. Eu acho que a gente está experimentando os primeiros efeitos disso. E aí a gente estende essa fala para praticamente tudo o que a gente está vendo acontecendo no mundo. Hoje, essa semana, anteontem, a Califórnia, depois de um baita debate popular se motoristas de Uber e Lyft deveriam ser empregados ou não, o povo decidiu, soberano, que não. Foi uma grande derrota para os sindicatos. Aconteceu ontem. Por que eu estou dizendo isso? Mais uma vez, a tecnologia está catalisando a mudança nas relações de trabalho. A noção do trabalhador clássico... E isso impacta uma rede de proteção social que é centenária ou bicentenária em alguns países, essa rede de proteção social está ruindo. E isso tem um outro reflexo que é interessante: quando você olha a Covid, o assunto do momento, todo mundo agora é especialista em Covid, eu inclusive.

Uber, Covid e o papel do Estado (28:12)

Eron Falbo: [29:10] Ninguém é mais que eu, desculpa.

Fábio Pimentel de Carvalho: [29:14] É um assunto que instiga muito a gente, né? Mas por que eu estou dizendo isso? Isso a Mariana Mazzucato já sustenta desde 2014, mas o fato é o seguinte: o Estado sempre é visto como aquele cara pesado, que atravanca tudo, e o empreendedor é o cara que leva o mundo para frente. Agora, quando a gente está numa situação como a situação econômica que a Covid trouxe, quem é que está segurando a economia? São os Estados, são os governos.

Eron Falbo: [29:44] Mas eu particularmente acho que é uma das razões que o Covid tá desse jeito, porque o Estado tá ganhando de novo uma posição, entendeu?

Fábio Pimentel de Carvalho: [29:53] Claro, ele tá reassumindo o protagonismo, né?

Eron Falbo: [29:56] É uma das motivações que eu acredito que houve tanta falcatrua nessa coisa, no jeito que foram divulgadas as informações, né? Os exageros que foram... Eu acredito que o Estado, como organismo, como meme de Richard Dawkins, o Deus do Estado falou: pô, não vou deixar isso acontecer, vamos usar isso aí para fazer o Estado ganhar mais poder, para o Estado ser um player de novo na vida da sociedade. Porque realmente, como você falou, as pessoas já estavam falando: pô, pra que o Estado tá aqui?

Fábio Pimentel de Carvalho: [30:27] Claro, é isso, exatamente. Algo que a gente tinha como uma verdade, que é o Estado perdeu protagonismo, o Estado só aparece quando é para atrapalhar, é para trazer burocracia, é para não sei o quê. Enfim, o Estado ganhou um papel de protagonismo agora de novo. Então, tudo aquilo que a gente vinha ouvindo nos últimos 20, 30 anos, especialmente com a redemocratização mundo afora, os regimes totalitários que foram caindo, e essa nova, vamos chamar de democracia, que acho que é outro debate aí para horas, mas, enfim, essa nova ordem que vem se instalando, a gente vê o quê? Que havia um movimento que abarca, por exemplo, as privatizações no início da década de 90 e etc., de dar mais autonomia para o setor privado, de entregar atividades importantes para o setor privado. E aí, qual era o discurso? Tratar do público somente aquilo que é estratégico para um país, saúde, educação, e a gente vê que esse modelo não deu muito certo. E tem outros agentes, por isso que eu estou falando tanto da tecnologia, tem outros agentes que estão catalisando mudanças na sociedade até aquele estado, como eu mencionei há pouco, da rede de proteção social. Ele está ruindo. Por um lado, nesse ponto de Covid, nesse momento crítico de Covid, ele segura algumas atividades econômicas importantes, mas, do ponto de vista da rede de proteção social, de onde se incluem os direitos trabalhistas...

Eron Falbo: [32:02] Não está sendo tão eficiente quanto a sociedade privada.

Fábio Pimentel de Carvalho: [32:07] Exatamente. Então, o que a gente vê desse movimento? Há uma mudança muito intensa na forma como o capital circula, são vários livros já best-sellers, o próprio Capital mesmo que sugere isso, outros como o Jeremy Rifkin, ele tem uma série de livros falando sobre novos movimentos econômicos, a sociedade que ele diz que vai chegar ao custo marginal zero, e que acho que é uma verdade, tende a acontecer, mas a gente vive uma mudança de paradigma muito intensa, que está, sobretudo, apoiada numa lógica que é: as pessoas cada vez menos querem ser donas e cada vez mais querem ter acesso. Eu estava lendo aqui outro dia sobre uma nova visão da juventude que nasceu nos anos 2000, entre 2000 e 2005, que agora está com 15 anos de idade mais ou menos, que eles já enxergam o carro como um meio de transporte, não como um veículo de identidade.

Economia do acesso e carros autônomos (32:40)

Eron Falbo: [33:16] Eu, como morei em Londres quatro anos, já me acostumei a usar transporte público. Aí depois foi inventado o Uber, aí eu simplesmente não comprei mais carro. Para mim é muito melhor.

Fábio Pimentel de Carvalho: [33:29] E como é que a indústria automotiva vai se comportar nesse meio do caminho? E aí eu trago uma outra reflexão: a gente tem uma indústria automotiva que precisa, porque é uma indústria que sustenta boa parte da economia, que gera muitos empregos. A gente tem empregos de tecnologia voando nisso aí também, o debate dos carros autônomos está na ordem do dia. E, ao mesmo tempo, a gente tem grandes players no mercado de tecnologia, como a IBM é um exemplo, que decidiu abandonar o estudo de algumas tecnologias como reconhecimento facial. A IBM falou: cara, esse negócio não é muito bom, é meio polêmico, não é tão eficiente quanto parece, eu vou abandonar. Então, não adianta, imagina, a gente está investindo, a indústria está investindo na pesquisa e desenvolvimento de carros que conduzam sozinhos, sem os motoristas. Ao mesmo tempo, a gente tem uma geração que olha para o carro e fala: isso é só um meio de transporte, isso não me traz identidade, isso não mostra quem eu sou socialmente, isso não tem valor social para mim. Será que essas coisas vão convergir ou vão divergir? E, mais uma vez, a tecnologia tem um papel central nesses debates. A gente viu aí, recentemente, Trump versus TikTok. O governo americano tomou uma posição muito dura contra... Não estou dizendo com razão ou sem razão, mas, enfim, foi uma posição muito dura. Você chegar para um player do tamanho do TikTok e dizer: você tem X meses ou você se vende para um americano ou você está fora do que é 10% do seu mercado. São 100 milhões de americanos usando o TikTok. Então, você chega num ponto e fala: qual é a relação que nós queremos que os nossos governos tenham com a tecnologia?

Guerra tecnológica entre EUA e China (34:42)

Eron Falbo: [35:11] É, mas assim, só botando um outro ponto que eu acho que também vai ampliar mais ainda, vamos dizer, o big picture que a gente está criando, que eu acho que a gente está indo bem, está indo longe, vamos dizer assim, no entendimento das forças da economia. Eu acho que um ponto que muita gente não para para pensar, que eu acho que é importante colocar, é da importância da hegemonia cultural dos grandes poderes. Ou seja, essa guerra que está acontecendo entre China e Estados Unidos, desde o trade wars, como chama a guerra comercial? Esqueci como é em português. O trade wars entre Estados Unidos e China. Existe uma importância muito grande que talvez a sociedade, o ser humano comum, o cidadão, não consegue ter o acesso para enxergar, que é assim: se houver um domínio econômico de qualquer um desses dois poderes, vai haver uma difusão cultural pelo resto do mundo daquela cultura. Uma, dos Estados Unidos, por um lado, sendo aquela cultura, vamos dizer, liberal ocidental, a outra da China, que é uma cultura um pouco mais rígida, pós-comunista, vamos dizer.

Fábio Pimentel de Carvalho: [36:26] Sim, com certeza.

Eron Falbo: [36:28] Então, isso também entra no cálculo da tecnologia, da economia, da razão que as pessoas fazem certas decisões. Porque a gente continua investindo em indústria bélica, porque no final das contas tem que ter uma pressão, porque se você diminui essa pressão, é uma guerra fria eterna.

Fábio Pimentel de Carvalho: [36:53] Eterna, parece mesmo. Se você for parar para pensar, os Estados Unidos dominaram a indústria de tecnologia nos últimos 50 anos. Isso é um fato. E agora, existem outros agentes no mercado. A gente fala muito da China, mas a Índia também é um bom exemplo disso. É um país que nos últimos 20 anos bancarializou 80% da sua população. É um país que as pessoas não tinham conta bancária. Paga-se conta na Índia com SMS, em muitos países da África também. Mas por que eu digo isso? Existem outros players agora que estão surgindo com tecnologia de ponta, ou seja, altamente competitivos, extremamente competitivos no preço, e a gente pode entrar também num debate gigantesco de por que eles são competitivos no preço, qual é a conjuntura interna que permite que eles tenham um preço externo competitivo, mas o fato é o seguinte: eles estão aí, eles estão batendo na porta. E naturalmente o governo americano quer assegurar uma posição que foi dele nos últimos 50 anos. Qualquer um de nós, se tivesse uma posição de hegemonia ou de liderança, vamos dizer assim, o que quer que seja na vida, nos últimos 50 anos, ele ia querer manter isso. É natural.

Eron Falbo: [38:07] Mas não só eu acho que é natural, eu concordo, mas eu acho que é diferente, por exemplo, do Metallica. Porque o Metallica estava tentando parar a roda do tempo, sabe? Eu acho que a manutenção da hegemonia cultural americana é um pouco mais, vamos dizer, é uma questão realmente de guerra, a diferença de uma guerra. Se você tem uma cidade-estado lutando com outra cidade-estado, se uma ganhar, a outra pode ser aniquilada culturalmente, pode ser esquecida historicamente. Então não é só uma questão econômica, e nem só tecnológica. E assim a gente entende o boicote do TikTok, o boicote da Huawei, que houve anteriormente também, porque eles estão tentando impedir que a China tenha o cacife para expandir os tentáculos pelo mundo que eles já estão fazendo.

Fábio Pimentel de Carvalho: [39:05] Sim, estão fazendo. Eu fico muito impactado, de certa forma, em pensar como esse debate vai se transpor para o Brasil. Porque o Brasil sempre teve uma tradição de política exterior de harmonia. A verdade é essa. Sempre foi um país que evitou polarizações, um país que é marcado por polarizações em discussões internacionais. E o que a gente tem visto na prática é uma postura um pouco diferente do Brasil nesse sentido. O Brasil tem mudado a forma como se posiciona em muitos debates internacionais. Agora, definir um padrão tecnológico para algo, por exemplo, como 5G, que vai mudar drasticamente a forma como o brasileiro se relaciona com a tecnologia e a experiência que ele tem na tecnologia, é um debate muito delicado e muito sério. Então, para a gente simplesmente reduzir isso a 'se essa tecnologia vem do país, eu não aceito', muitas oportunidades de produção, de produtividade, podem ser perdidas com essa visão.

Eron Falbo: [40:11] E essa lógica é usada, né?

Fábio Pimentel de Carvalho: [40:14] Exatamente.

Eron Falbo: [40:15] Isso é usado pelos países. Mas, ao mesmo tempo, se você tomar só... Eu também, de novo, não tenho nenhuma posição a respeito disso, porque acho que é uma questão tão complexa, que foge até da capacidade de uma pessoa, isso é uma coisa que a gente tem que rezar e esperar que dê certo, porque não se sabe o que vai realmente acontecer, o mundo está tão dinâmico e fluido, mas assim, eu vejo que a gente sabe com certeza, e acho que isso é uma coisa positiva da sociedade atual brasileira que acordou um pouquinho em relação a isso, é que a gente não pode só deitar e rolar. A gente não pode só deixar a coisa acontecer, porque o trade é bom. Depois, aos poucos, você vai perdendo o poder. Isso aconteceu com os grandes bancos e as nações no século XIX, no século XVIII. As nações começaram a usar o dinheiro financeiramente mal, assim como Portugal e Espanha, com mercantilismo e tudo mais. E foram à falência, porque não souberam fazer gestão financeira, e os grandes bancos começaram a crescer cada vez mais porque as nações deviam dinheiro através de títulos e tudo mais para os grandes bancos. Então isso aleijou as nações. Isso nem digo se é bom ou ruim, não sou contra, não estou falando de conspiração.

Padrões tecnológicos e o futuro (41:41)

Fábio Pimentel de Carvalho: [41:41] Por trás de uma guerra de capital, que ela é constante, é natural, uma guerra de troca de riquezas e de capital, hoje a gente com certeza caminha como nunca antes caminhou, talvez, por uma guerra de padrões tecnológicos. Se a gente olhar lá atrás as discussões sobre as bitolas, ali no início do século XIX mais ou menos, as bitolas dos trilhos dos trens e a largura das bitolas, que tiveram um papel estratégico na defesa de muitos países na Segunda Guerra, e até na Primeira, de certa forma, também, porque era uma maneira de se evitar que trens estrangeiros circulassem num determinado território, se você altera a largura da bitola, isso fica inviabilizado. Hoje, a gente continua vivendo, mas com outras, vamos dizer assim, com outras armas, mas há uma guerra, e ela, sim, é mais acentuada, de padrões tecnológicos. Então, quando a gente fala de uma nova tecnologia de comunicação, isso tem um papel estratégico, aí eu posso falar na defesa nacional, no desenvolvimento econômico, na forma como cada um vai tomar serviços públicos também, porque os serviços públicos não estão imunes a esse desenvolvimento tecnológico, pelo contrário, os serviços públicos muitas vezes acabam tendo que trazer o desenvolvimento tecnológico para o seu âmago, para a sua essência, para dar à sociedade respostas que a sociedade às vezes já cobra há muito tempo. Então, esses novos padrões tecnológicos vão definir como as pessoas vão se organizar como sociedade. Então, a gente está vivendo um momento hoje que, se a gente conseguir fazer exercício, dar um passo para fora do planeta e olhar de fora, o que a gente tem hoje? Uma organização nova do trabalho, que aí a gente está falando tanto de novas relações, como a gente falou da Uber há pouco, como a gente está falando sobre uma nova forma de trabalhar. Eu faço parte de um escritório de advocacia, por exemplo, que trabalha no mundo inteiro. Então, tem gente em São Paulo, tem gente no Rio de Janeiro, tem gente aqui em Portugal. Então, a forma como a gente vê, a XP mesmo, a XP recentemente reconheceu e estruturou o seu modelo de Work From Anywhere. Então, a forma como a organização do trabalho e a forma como se trabalha está mudando muito rápido e está mudando agora.

Eron Falbo: [44:16] E eu acho que é uma solução, assim, porque a gente falou de uma tensão, né? A gente deixou uma tensão no ar, assim, dessa guerra fria que existe entre Índia, China e os Estados Unidos, e as coisas que vão surgindo. Mas, assim, eu acho que um lado positivo, que eu acho que você acabou de revelar, é que a tecnologia por si só, por natureza, é sempre eficiente. Então, ela sempre busca caminhos para se tornar mais eficiente, como a IBM desistindo de fazer facial recognition, e outra pessoa vem e faz. Aí tem outra coisa, e isso talvez é uma resposta para o problema da hegemonia cultural que a gente estava falando, que talvez vai se tornar uma coisa do passado. E o que vai ser do futuro mesmo vai ser os padrões de como lidar com tecnologia e como usar na sociedade essa tecnologia. Tanto que, por exemplo, eu acho que os primeiros países a adotarem modelos, por exemplo, de blockchain nos governos, no sistema de votos, no sistema de decisões governamentais e tudo mais, os primeiros países a conseguirem fazer isso vão ser os países do futuro, porque eles vão conseguir sustentar governos eficientes, governos capazes. A palavra tecnologia vem do grego tékhne, que significa capacidade, basicamente. Logos da capacidade. A tecnologia sempre vai estar do lado, vamos dizer, do benefício, da eficiência, do que funciona. Eu acho que isso é o lado positivo.

Fábio Pimentel de Carvalho: [45:46] Eu acho que ela tem um lado que vai determinar os próximos passos das pessoas. Hoje a gente vive um paradigma que é o das tecnologias da informação e comunicação, das TIC. Mas a gente já começa a dar passos para uma superação de paradigma socioeconômico, que é uma conversa, nem sempre pacífica, mas muito interessante, entre a tecnologia e a medicina. Acho que o próximo passo que a gente tem para enfrentar, o próximo passo para a sociedade, é como a gente coloca a tecnologia a favor do nosso bem-estar. Hoje, as indústrias farmacêuticas, para muito além de pesquisarem novos medicamentos... E por que eu estou dizendo isso? Porque o mercado já está, vou dizer, saturado, entre aspas, de remédios para as doenças comuns. Já existe um remédio muito bom para dor de cabeça, para dor no corpo, para não sei o quê. Então, qual o passo agora para as indústrias farmacêuticas? É investigar a genética dos pacientes para entender geneticamente como aquela doença se forma no teu organismo, se você está propenso ou não, e como a indústria farmacêutica pode atuar produzindo novos fármacos que ataquem a inconformidade ou a deformidade genética, para impedir que aquela doença se desenvolva no teu organismo. Então, a gente está mudando para um novo paradigma. E aí você falou das moedas, dos bitcoins, das criptomoedas, e uma coisa que eu tenho visto que eu acho muito interessante é justamente esse debate do descolamento entre o Estado e a moeda, que

Criptomoedas e comércio eletrônico (47:07)

Eron Falbo: [47:23] É uma expressão do Estado, e as

Fábio Pimentel de Carvalho: [47:26] Moedas, que são as criptomoedas, que estão descoladas do Estado.

Eron Falbo: [47:30] Pela primeira vez na história, a sociedade está com o câmbio.

Fábio Pimentel de Carvalho: [47:35] Com o sistema financeiro na mão. E a gente viu um movimento dos governos mundo afora fazendo o quê? A Alemanha, essa semana mesmo, escolheu uma criptomoeda e disse: essa vai ser a criptomoeda oficial alemã. Então, a gente está vendo os governos... Cara, se eu perco o sistema financeiro...

Eron Falbo: [47:52] Estão tentando competir com isso.

Fábio Pimentel de Carvalho: [47:55] Exato. Então, assim, ver quantas mudanças, quantas transformações que a gente está vivendo ao mesmo tempo na sociedade, e a gente está tendo que lidar com isso no meio de um ambiente em que cada um está tendo que se transformar. A verdade é essa. A gente está em um ambiente de reclusão, de guarda domiciliar e de cautelas, a gente está tendo que se transformar. E, ao mesmo tempo, o mundo está se transformando. A forma como a gente trabalha, a forma como a gente se relaciona, a forma como a gente compra. O comércio eletrônico nunca vendeu tanto. A gente vê aí, a Amazon teve resultados no último trimestre como nunca teve, enquanto outras atividades econômicas estão no fundo do poço. Então, aí você pensa, um comércio eletrônico... Eu vi aqui no outro dia, o Mercado Livre começou uma operação de aeronaves. Então você imagina, qual é o tamanho...

Eron Falbo: [48:49] Eles não fazem nem o site deles direito, o site deles é horrível.

Fábio Pimentel de Carvalho: [48:53] Pois é, então assim, você vê, qual é o tamanho de uma operação dessas que o cara consegue sustentar um regime de aeronaves? Olha o tamanho dessa operação logística. Então a gente pensa, o site é um queixo duro, é feio, a usabilidade talvez não seja boa. Mas o comércio eletrônico está tão aquecido, tanto a gente comprando pela internet, que eles botaram de pé uma operação aérea para melhorar a logística. Então, assim, o que está acontecendo? O que está acontecendo no mundo? Tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. E como é que a gente fica no meio disso tudo? Para onde a gente atira? A gente compra Bitcoin? A gente repensa o nosso trabalho? A gente chega pro nosso patrão e fala: pô, eu queria trabalhar de casa, tá todo mundo trabalhando de casa, não quero mais o escritório.

Indivíduo, sociedade e responsabilidade (49:27)

Eron Falbo: [49:42] Eu vejo assim, filosoficamente, existe uma tendência, na minha opinião, que é clara: historicamente, o Estado cada vez mais saindo do retrato, da equação, ou seja, a sociedade crescendo e ficando cada vez mais independente do Estado, agindo totalmente por si só, e o indivíduo versus a sociedade também se empoderando cada vez mais. A gente vê essa tendência histórica desde a Babilônia, dessas duas coisas: a sociedade versus Estado e o indivíduo versus a sociedade. Então acho que a única resposta que eu daria, na minha humilde opinião, sobre isso, é que a gente como indivíduo tem que tomar responsabilidade por ser indivíduo, e a gente como sociedade tem que tomar responsabilidade por ser sociedade. Ou seja, não buscar tanto Lei Rouanet, buscar investidores, não buscar tanto empregos para solucionar sua vida, mas buscar seus empreendimentos pessoais e ver sua carreira como o centro do seu microcosmo, e não alguma empresa, não algum papai que vai te coroar, que vai te ungir como alguém especial e vai te colocar na dele. Então, o que eu diria para os ouvintes é o que eu faço, é a essa conclusão que eu cheguei mesmo. Eu tenho que tomar responsabilidade por ser um ser nesse mundo, e tem consequências disso, você tem que... Por esses benefícios todos que a gente ganha da sociedade tecnológica, do mundo que a gente vive.

Fábio Pimentel de Carvalho: [51:23] Hoje... Sim, o que eu vou entregar, né? O que eu vou entregar de volta? Qual é o meu papel no mundo?

Eron Falbo: [51:27] Exatamente.

Fábio Pimentel de Carvalho: [51:28] O que eu vou trazer? Eu tenho visto... Claro, tem um lado triste nessa pandemia, evidente, não preciso comentar, mas eu tenho tentado, até pessoalmente, transformar isso no máximo de oportunidades que eu posso, e é isso que eu tenho dito a todos, enfim, com quem eu converso. É um momento muito propício para a gente fazer reflexões e mudar aquilo que a gente acha que é importante, para entregar coisas melhores para nós mesmos, para a sociedade, enfim. Eu acho que a mudança de uma sociedade começa em cada um. Eu passei quatro anos trabalhando num governo, numa cidade de quase 7 milhões de pessoas, e o que eu posso dizer dessa experiência, primeiro, é que a esmagadora maioria das pessoas é honesta. É honesta, é trabalhadora.

Eron Falbo: [52:14] É o sistema que é ineficiente.

Fábio Pimentel de Carvalho: [52:17] O servidor público, em geral, trabalha muito, ele segura um rojão gigante, grave. É um fardo pesadíssimo. Eu tive a oportunidade de trabalhar com profissionais brilhantes no governo, brilhantes, e eu dizia a eles, eu falava: cara, se você estivesse na iniciativa privada, eu estaria rico. Então, assim, eu ficava olhando, eu brincava com eles assim, mas é verdade. Vocês são tão competentes no que vocês fazem, que se vocês levassem essa expertise para o mercado privado, vocês iam crescer muito. Mas graças a Deus que eles estão no público. Porque é graças a eles... Graças a.

Eron Falbo: [52:51] Deus que alguém está, né?

Fábio Pimentel de Carvalho: [52:52] Exatamente. Então, eu acho que a gente tem uma oportunidade muito grande, enquanto sociedade, de otimizar, se a gente for parar para pensar, o próprio regime de trabalho, de teletrabalho etc. Cara, antes da pandemia era impensável. A maioria das organizações era altamente resistente a essa conversa que a gente está tendo aqui. Era altamente resistente a isso. Não tinha nisso algo que era contraproducente, não producente. E aí, quer dizer, vem um fator externo e muda essa lógica. Então, é um bom momento para a gente mudar várias lógicas na nossa vida.

Eron Falbo: [53:35] E Fábio, agora, desculpa, infelizmente acabou o nosso tempo. A gente tem um pano eterno pra manga, a gente pode falar sobre muita coisa. Eu procuro não fazer lives repetidas, na verdade eu fiz só uma vez live repetida. Mas eu gostaria muito de te convidar de novo pra gente conversar sobre outras coisas, porque eu acho que a gente tem muita coisa que a gente nem começou a explorar. Mas eu queria te agradecer imensamente pela sua participação. Para mim foi uma lição, uma aula, eu aprendi muito com essa conversa. E espero que o pessoal assista e divulgue, todo mundo que estiver assistindo gostou. A gente vai lançar isso depois em podcast no Spotify, que é a tecnologia do momento.

Fábio Pimentel de Carvalho: [54:24] É a tecnologia, é verdade. Bacana.

Eron Falbo: [54:29] Então é isso, brigadão, e vamos nos manter em contato. Quando eu for para Portugal, eu te procuro aí, com certeza.

Fábio Pimentel de Carvalho: [54:35] Vai ser um prazer, claro, vai ser um prazer. Eu que agradeço pelo seu convite. Foi um prazer ter essa conversa tão produtiva com você. Obrigado a todos que assistiram ao nosso papo também. Estou super à disposição aqui na minha rede social para a gente trocar mais ideias também, quem quiser me seguir lá, eu sigo de volta. Enfim, vai ser um prazer enorme.

Eron Falbo: [54:55] Antes da gente terminar, vamos só falar um pouco da sua empresa, dizer o que você está fazendo no momento, para a gente poder falar se tem site, para o pessoal poder saber onde te encontrar. Pode ser?

Fábio Pimentel de Carvalho: [55:08] Ah, sim, claro. Bom, eu hoje sou sócio de um escritório de advocacia. O nosso escritório está formalmente sediado em São Paulo, mas eu diria que ele é a primeira organização jurídica baseada numa lógica que é o remote first, que o meu sócio João Amaral, que deve estar assistindo a gente aí, sempre fala. Mas é o seguinte: nós hoje atuamos de maneira remota preferencialmente, como o nome sugere, e atuamos na área empresarial, tudo relacionado a soluções jurídicas para o mercado empresarial é essencialmente o que nós fazemos. Nós temos um corpo técnico que é formado basicamente por executivos de formação jurídica, então a maior parte dos nossos sócios, das pessoas que trabalham conosco, tiveram passagens em empresas, então conhecem o lado de lá, vamos chamar assim, da mesa de reunião, têm essa vivência executiva e agregam a sua formação jurídica a isso. A gente gosta muito de trabalhar com players de tecnologia, essa é a área que eu lidero no escritório, a vertical de data privacy, privacidade de dados, tecnologia e negócios digitais, e a gente costuma abraçar o cliente e dar a ele assessoria do ponto de vista da operação da empresa dele. Então, a gente trabalha na área cível, na área trabalhista, na área societária. E é isso.

Eron Falbo: [56:33] Como adaptar os sistemas operacionais da empresa de uma forma tecnológica, como fazer isso se tornar automatização.

Fábio Pimentel de Carvalho: [56:41] Também. A gente entrega tecnologia. Nós somos parceiros dos nossos clientes, então as questões jurídicas que eles têm são nossas questões jurídicas, e a gente trata como problemas nossos, sempre com esse olhar empresarial. Nem sempre o advogado entrega ao cliente um olhar empresarial, às vezes ele só entrega um olhar jurídico, e o olhar jurídico, às vezes, não é muito prático. Então, a gente entrega uma solução jurídica com um viés prático. E o nosso site é o www.jamaral.com.br. Eu estou no LinkedIn também, quem quiser me adicionar lá, a gente troca uma ideia, vai ser um prazer. Obrigado pelo seu tempo, foi ótimo estar aqui.

Eron Falbo: [57:19] Valeu, obrigado a você.

Fábio Pimentel de Carvalho: [57:21] Tudo de bom, boa noite.

Eron Falbo: [57:22] Tchau, tchau. Abração, abração.

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