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Eron Falbo: [0:05] Boa noite, pessoal. Hoje a gente vai fazer uma live com Itibere Muarrek, que é CEO da Yes News, da Contente. É um filósofo, um economista. Fala, Itibere.
Itibere Muarrek: [0:19] Alô, alô, Eron. Boa noite.
Eron Falbo: [0:22] Alô, alô. Boa noite.
Itibere Muarrek: [0:25] Boa noite a todos que já estão aí com você. Vamos juntos agora.
Eron Falbo: [0:31] Vamos juntos, vamos juntos. Como é que você está aí em São Paulo?
Itibere Muarrek: [0:34] Aqui, depois do apocalipse do calor que ia derreter o Brasil, queimar todo mundo, agora a gente tá debaixo da coberta, dormindo de edredom.
Eron Falbo: [0:46] Tá frio, né?
Itibere Muarrek: [0:47] Agora a gente tem que reclamar do frio mais alguns dias antes de voltar ao calor.
Eron Falbo: [0:53] Reclamar é comigo mesmo.
Itibere Muarrek: [0:55] Virou um estilo de vida, não é? Acho que hoje em dia está todo mundo muito louco, muito motivo para reclamar, muita besteira, mas tudo bem. Eu dei uma demonstração porque, de repente, desembestou de gente dos meus amigos dos Estados Unidos e Canadá, querendo passar a notícia das eleições de lá. Aí passou rapidinho aqui a quantidade de mensagem. Falei: não posso falar, não posso falar.
Eron Falbo: [1:24] Pô, obrigado. Quanta honra. Você pode chegar atrasado o quanto quiser. Não tem problema nenhum.
Itibere Muarrek: [1:29] Pá, né? As pessoas lá estão lá. Deixa eles buscarem lugar e voltam. Tá tensa. A coisa tá tensa.
Eron Falbo: [1:39] Então, deixa eu te apresentar um pouquinho. A gente tá aqui hoje com Itibere Muarrek, que é CEO da Contemper. É CEO da Yes News também. Neto de um dos últimos presidentes democráticos do Líbano.
Itibere Muarrek: [1:55] É...
Eron Falbo: [1:56] Não é do Líbano?
Itibere Muarrek: [1:59] Do Líbano, do Líbano.
Eron Falbo: [2:01] Ah, do Líbano, do Líbano. Economista, filósofo, e a gente se conheceu há pouco tempo, mas a gente se deu muito bem, muito rápido. A gente pensa numa frequência muito parecida. E temos trocado aí muitas ideias. Ele tem me ajudado muito aí nesse programa aqui que a gente tá fazendo agora. E é isso. Sejam muito bem-vindos, Itibere. Acho que a gente pode começar a falar um pouquinho de onde a gente se conheceu, para quebrar o gelo e até falar um pouco da empresa que a gente está montando.
Itibere Muarrek: [2:46] Sim, é muito bacana, porque você veio através de um dos investidores. Para o pessoal que está entrando, tem um projeto, uma startup que foi montada agora. Estruturei junto com o pessoal uma startup de mídia, de uma nova forma de fazer mídia, de fazer jornalismo, essencialmente. Essa ideia nasceu já faz um bom tempo, já passou por dois protótipos, dois testes. E agora a gente vê como fazer o fechamento e a ampliação dela. Nessa expansão, nessa finalização de expansão para a gente fazer uma nova mídia, o Mário Nogueira falou: 'Gente, eu conheço uma pessoa que é do meio, não apenas como investidor, mas como na parte cultural, na parte de conteúdo.' E, dessas, veio o Eron Falbo. Começamos a conversar e a empatia foi imediata, porque acho que é aí que entra uma das coisas que temos de começar a pensar, não só em termos de negócio, mas em relação à sociedade, à política. É o que chamamos de conexão que tem empatia, que tem algo para agregar. Ninguém mais faz nada sozinho. Você não tem que buscar o investimento ou o investidor, você tem que trazer o parceiro, você tem que trazer aquela pessoa que vai trazer também a inteligência das coisas.
Eron Falbo: [4:18] Por isso que eu adoro o termo self-made man, porque ninguém nunca foi self-made man, porque ninguém nunca se faz, porque você precisa de um sapateiro para fazer seu sapato, precisa de... Sempre precisa de gente trabalhando com você, etc. Eu acho que esse tipo de espírito é muito importante. E, nos nossos tempos, eu acho que rolou essa farsa um pouquinho, essa ingenuidade do peer-to-peer, de que as coisas iam se tornar de graça, se tornar uma coisa meio que orgânica, que as pessoas iam fazer juntos. E tudo bem, o coração disso era certo, era bonito, né? Que as pessoas iam fazer música internacionalmente ao mesmo tempo e não ia precisar mais de middleman pra nada, não ia precisar mais de intermediador pra nada. Só que eu acho que a gente tá vivendo hoje uma evolução desse pensamento. A gente entendeu que as coisas são feitas coletivamente, essas coisas são muito mais bonitas e muito mais verdadeiras. E, melhor, muito mais poderosas, que acho que é isso que a gente está aprendendo, que não é um desejo infantil, não é um desejo adolescente, mas é uma evolução, de fato, é um novo nível da consciência humana, da história humana, conseguir fazer essas coisas de forma internacional, de forma coletiva, de forma colaborativa, respeitosa.
Itibere Muarrek: [5:51] Porém, com uma dotação, as pessoas têm suas aptidões, as pessoas são diferenciadas, nós hierárquicos nessa história. Só que não é aquela hierarquia antiga, que é a evolução de cima para baixo, que constrói a hierarquia. Você conquista essa possibilidade, os graus hierárquicos. Você é promovido pelo grupo. Houve uma autoridade, no sentido bom da palavra, de você comandar o processo. Então, isso que você falou anteriormente é a primeira fase da abertura desse... Da promessa... Primeira fase da abertura digital a gente teve isso. Agora vale tudo, agora é tudo grátis, agora todo mundo tem direito a tudo, agora... Não, não é assim. Alguém tem que pagar conta, alguém tem que organizar, alguém tem que... Não é exatamente dar ordem, é dar as instruções para que as coisas funcionem corretamente. E acho que é esse processo que estamos recuperando agora.
Eron Falbo: [7:03] E também não só a hierarquia, acho que vale mencionar, concordo cem por cento com a parte da hierarquia, mas vale mencionar também o ego. É uma apologia ao ego que estou fazendo. O ego, a gente vê psicologicamente, o ego serve para alguma coisa. Acho que a gente entrou numa lombra muito, vamos dizer, hippie, de vamos abandonar o ego e todo mundo se abraçar e fazer tudo de graça. Só que o ego tem uma função biológica, tem uma função psicológica muito importante, que é de defender, de tornar as coisas objetivas, de não deixar que as coisas entrem numa fantasia que não vai levar para nada. O ego vai lá e defende aquele projeto, aquelas pessoas que estão envolvidas, para ter certeza que aquilo vai gerar frutos verdadeiros, que realmente vai servir para alguma coisa prática.
Itibere Muarrek: [8:00] Você não ser dominado por ele não invalida o papel dele. Você não pode é deixar ele te dominar. Na verdade, acho que essa questão que a gente está tratando hoje em dia, a gente passou por um período de muita negação de tudo. É um certo niilismo coletivo. O mundo não dá mais, que humanidade é essa? Acho que a gente já está tendo esse refluxo. Está voltando uma certa normalidade em relação a determinados valores.
Eron Falbo: [8:38] Eu diria que não é exatamente que está voltando a uma normalidade, eu acho que a gente está alcançando uma síntese, porque a gente tinha talvez um cinismo sobre como as coisas deveriam ser, sei lá, nos anos 80, 90, com a revolução yuppie, com Wall Street, que as coisas são muito objetivas e é tudo sobre dinheiro, e se você é esperto mesmo, você tá ganhando dinheiro, e as pessoas que vão pra frente estão fazendo faculdade, é Harvard, é Yale, é não sei o quê. E depois a gente teve uma antítese a isso, que é essa coisa dos anos 2000, do começo dos anos 2010 também, que foi o Occupy Wall Street, que foi uma coisa tipo: pô, eu não vou, eu não sou assim, eu não quero ser assim, meu pai está errado. E acho que a gente está vivendo uma síntese disso, não acho que exatamente uma avó... Oi?
Itibere Muarrek: [9:44] Não, meu pai não, está todo mundo errado.
Eron Falbo: [9:47] Não, estou dizendo aquela geração que ocupou o Wall Street.
Itibere Muarrek: [9:52] Agora a gente está entrando, pelo menos, por um processo um pouco mais... Gostei disso que você falou. Na verdade, a gente está conseguindo fazer uma síntese das coisas e começar a trabalhar com um pouquinho de bom senso. Acho que até politicamente, o que a gente passa hoje em dia é reflexo disso. Se a gente está vivendo hoje esse embate absurdo, surreal, de dois grupos se matando, acho que também isso vai levar a uma grande... Um vai sintetizar o outro, na verdade, e a gente vai conseguir voltar a habitar e ter paz. Acho que isso é um processo.
Eron Falbo: [10:37] A gente passou por um exagero. E costuma ser assim, até na nossa própria vida, é assim que a gente costuma aprender. A gente tem uma evolução meio pendular: a gente peca para um lado e depois, para poder não ficar envergado, a gente peca para o outro lado, e depois a gente encontra mais ou menos o caminho do meio, reto.
Itibere Muarrek: [11:06] É uma boa analogia estar fazendo essa coisa pendular. Mas agora temos um processo, hoje em dia, que é essa maldita telinha. Maldita e bendita, também, os lados prós e os contras, tudo tem um lado pró e o seu contrário. Que é a digitalização de tudo, a possibilidade... O grande barato da revolução digital é que nos trouxe não apenas a comunicação aberta, mas dotou os meios de produção, democratizou o acesso aos meios de produção. Hoje em dia você pode ter acesso aos meios de produção de muitos elementos, na parte audiovisual, na parte comercial, até na parte de projeto. Você faz um desenho de um móvel, você faz esse desenho com uma pessoa da Islândia e manda imprimir em 3D aqui no seu bairro, se alguém tiver essa máquina.
Eron Falbo: [12:10] Itibere, deixa eu só te interromper rapidinho, porque uma pessoa chamada Benício pediu para mandar um abraço para a mãe dele, Paula Tejano. E como isso nunca aconteceu antes, e é uma pessoa honrando a mãe, a gente tem que fazer isso. Queria mandar um grande abraço para a dona Paula Tejano. A senhora tem um filho muito amoroso. E é isso aí.
Itibere Muarrek: [12:36] Aproveitar e mandar para mim.
Eron Falbo: [12:39] Eu também vou aproveitar para mandar para mim. Tânia Falbo, te amo muito, mãe. Mãe... Oi?
Itibere Muarrek: [12:50] Momento maternal do programa.
Eron Falbo: [12:54] Itibere, o que você está bebendo aí? A gente combinou o quê mesmo?
Itibere Muarrek: [12:59] Eu comecei, mas já parou. Eu comecei de indepensa. Eu tinha um White Horse, mas era o último shotzinho. E agora estou pegando um Glenfiddich, que eu abri um múltiplo.
Eron Falbo: [13:15] Muito bom. Pior que eu nem... Desculpa.
Itibere Muarrek: [13:21] Não, o que eu acho, o que a gente estava falando, é que essa abertura toda que a gente está recebendo de informação, primeiro, ela trouxe uma condição: o digital tem isso, ele pega e deixa todo mundo muito pasteurizado, ele coloca todo mundo como se todo mundo estivesse vivendo no mesmo lugar, dentro das mesmas condições, dentro das mesmas realidades. Ele traz uma falsa impressão de que o mundo está aqui do seu lado e o mundo não está aqui do seu lado. Costumo dizer: onde você vive? Onde você vive? É no teu bairro, na tua rua.
Eron Falbo: [14:11] Eu acho que esse ponto que você está fazendo, na verdade, é um dos pontos mais interessantes da modernidade, que é a dissonância cognitiva que acontece com o mundo digital, com a internet. Isso é uma coisa que muita gente especula, mas a gente não tem como saber ao certo, que é uma coisa totalmente inovadora, né? É de um nível... Porque antes a gente tinha telégrafo, tinha pombo-correio, o que for, sinal de fumaça, a gente tinha comunicação à distância, só que a gente não tinha... É isso que a gente tá fazendo agora, por exemplo. Para o nosso cérebro, se tivesse na minha frente, entendeu? Até certo ponto, óbvio, que eu não estou com a sua presença. Eu até gosto de estudar isso, eu estudo hipnose, eu estudo psicologia, e uma das coisas que eu acho muito interessante são os cues não verbais, como é que chama, as deixas que são dadas pelo corpo que são não verbais. Então o fato de que eu só estou vendo sua cabeça, por exemplo, gera uma distância cognitiva que o meu cérebro já lê que não é exatamente a mesma presença, mas já é tão perto de como se fosse a presença, que rola uma dissonância cognitiva que a gente não entende exatamente o que está acontecendo. Você está perto, só que você não está, entendeu? Tipo assim, a gente fica um pouquinho desconfortável. Rola uma coisa que eu acho que é um pouco...
Itibere Muarrek: [15:53] A gente está aprendendo. Isso é a realidade, né?
Eron Falbo: [15:57] É. E esse fato está gerando um monte de coisa: a questão do fake news, a questão das redes sociais e o jeito que as pessoas estão reagindo a isso, e o fato de que o Bolsonaro ganhou as eleições, entendeu? Isso tudo tem a ver com essa questão, tem a ver com ter realidades cibernéticas e realidades regionais, locais. E eu acho que, inclusive, é uma coisa que eu sou praticamente ativista a favor, que eu sou parlamentarista, acredito em representação regional, acredito que o ser humano tenha capacidade de eleger um representante regional e não tem a capacidade de eleger um representante estatal, entendeu? E isso é a minha crença pessoal, e eu acho que isso está sendo exposto pela era digital, pela era da informação. Por quê? Porque a gente está percebendo o tanto de loucura que está acontecendo, o tanto de informação errada e o tanto de opiniões loucas que estão sendo geradas pela internet, e estão dos dois lados, sem nem querer defender um lado versus o outro. A gente está começando a ficar óbvio. Agora que a gente está na era da fake news... O que é a era da fake news? A gente está reconhecendo que existe fake news. Porque fake news sempre existiu. A mídia mainstream sempre foi, de uma forma ou outra, fake news.
Itibere Muarrek: [17:36] Na verdade, eu acho que a gente não tem novidade nenhuma de nada que a gente está vivendo. Eu acho que a novidade é o volume de informação. E a diferença é que, antes da era digital, fake news, antes de você escrever no seu grupo, na sua rede social, a sua rede social era a praça que você frequentava. E, antes, os boatos não ficavam, as mentiras não ficavam registradas em texto, em imagens, em memes. A rigor, se você for pensar na quantidade de matéria tendenciosa, quando você faz uma matéria jornalística e usa uma foto antiga, mas você gosta da cara esquisita, você usa uma imagem que você quer da pessoa com quem você quer falar, e você escolhe uma imagem que tenha a ver com o significado, com o sentido que você quer dar na matéria, isso é fake.
Eron Falbo: [18:28] Claro, claro. Mas é isso que eu estou tentando chegar: que fake news sempre foi. Toda news... E o ser humano precisa acordar, precisa se amadurecer, entendeu? A população precisa amadurecer e entender que esse é o fato. Porque eu lembro crescendo que me mostravam alguma coisa da Veja e falavam como se fosse a Bíblia. Falavam: pô, mas isso aqui tá escrito na Veja. E pra mim era meio óbvio que a Veja era escrita por seres humanos e eles estavam interpretando. Cada história é interpretação. Então você vai lá e fala: não, os 300 espartanos ganharam dos milhares de persas na Batalha de Termópilas. Não, cara, isso muito provavelmente não rolou, porque Heródoto era grego, então ele escreveu do ponto de vista grego. E a gente precisa entender isso. Quando que a gente vai acordar pra entender que tudo que é escrito é interpretativo? Não é uma questão de quem tá escrevendo, de onde tá vindo, entendeu? Que a gente ainda tá com essa obsessão da fonte. Tipo, como é que chama? A corte da fake news, CPI da fake news, como é que chama? Esqueci o nome disso. É que a galera está tentando caçar as bruxas, porque o fake news é uma coisa inédita e todo o resto é verdade, exceto certas coisas...
Itibere Muarrek: [19:58] Aliás, como limite, esse problema de você tentar achar, exerciar e colocar parâmetros em tudo, você entra numa armadilha. Se você pegar, por exemplo, o nosso ex-presidente, o Lula, ele falou em uma entrevista...
Eron Falbo: [20:20] Espera aí, nosso ex-presidente não, seu ex-presidente, desculpa.
Itibere Muarrek: [20:24] Não, infelizmente é o Patrotão, assim como depois a gente teve a Anta, que foi nossa também. E agora a gente... Sem palavras. Infelizmente, tem a gente... Obrigado.
Eron Falbo: [20:37] Mas eu falei isso porque eu não aceito a República como um governo legítimo, mas isso é outro assunto.
Itibere Muarrek: [20:46] Você lembra dele? Ele falou, e todo mundo achou lindo, quando ele falou que ia para fora e inventava um monte de número para vender o Brasil. Quando você faz isso, isso é fake. Se você tem a quantidade de coisas, de empresas e governos, o nosso currículo, se você for ver, é fake. Ninguém se importa com os defeitos. Então, logo, você nunca tem algo realmente verdadeiro.
Eron Falbo: [21:15] Claro.
Itibere Muarrek: [21:16] Então a gente tem um limite se a gente começa a ter um certo problema para estabelecer. Acho que o grande problema do fake news que a gente discute hoje em dia não é tanto o fake news em si, é a ausência de grupos, de mídia, de grupos de inteligência, de universidade, de grupos sociais e institucionais dispostos a defender e fazerem a verdade prevalecer.
Eron Falbo: [21:43] É isso. Desculpa.
Itibere Muarrek: [21:46] A ausência desse tipo de condição.
Eron Falbo: [21:50] É, mas olha só, eu acho que uma contracorrente... Eu estava até falando com o meu amigo que, bom, não vou expor ele aqui publicamente, mas eu estou aqui na casa dele, fazendo live na casa dele, porque eu me mudei hoje e estou sem internet em casa. Então, é por isso até que eu não divulguei tanto, mas está dando bastante gente, graças a Deus. Mas eu tava falando com ele que uma contracorrente desse problema que existe de mainstream media, de o que é verdade e o que é falso, é justo o que a gente tá fazendo agora, que é o que Platão falava. O que Platão falava? Existe uma coisa chamada Sétima Carta de Platão, que, se você estudar filologia, os grandes filólogos... Eu não sei te dizer o argumento hoje em dia, mais porque eu não sou platonista faz muito tempo, mas a Sétima Carta de Platão, os filólogos dizem, é a única carta de Platão que é fidedigna, que eles dizem que podem botar a mão no fogo que essa carta de Platão é verdadeira. E nessa carta de Platão, Platão fala: eu nunca escrevi a minha opinião, aqueles que acreditam que eu escrevo... Porque hoje em dia a gente pensa que filosofia é Immanuel Kant, que escreve o Aristóteles, que escreve o Organon, e depois conta qual é a opinião dele depois que ele estabeleceu todos os parâmetros do que ele está falando. Só que Platão falou: não foi isso que eu fiz, eu escrevi diálogos na voz de um Sócrates. Quando você analisa no grego original, você vê que ele não fala o Sócrates, você fala um Sócrates, um possível Sócrates. É muito interessante isso. Então, o que Platão está dizendo com isso? Que a verdade, a sabedoria verdadeira, está no diálogo, entendeu? Está na dialética, está na construção de ideias, e não no oferecimento de ideias, que é assim que sempre foi o mainstream media. O mainstream media foi o artigo, o headline: tal coisa aconteceu, não aconteceu porra nenhuma, não aconteceu essa parada, entendeu? Isso é uma interpretação. Então, se você olha a Veja e você recebe isso, você está recebendo uma coisa que eu não vou falar para ser indelicado, mas você está sendo manipulado. Você entende?
Itibere Muarrek: [24:31] Vou pegar essa deixa, porque o que você falou agora é perfeito como gancho para sintetizar uma discussão que tive hoje com um parceirão meu, que fica em Toronto. A gente estava conversando sobre as informações das eleições lá, que ele estava passando coisas que a gente quase não tem acesso aqui, e ele fuça a partir de lá. E ele falou: olha o que está acontecendo nos Estados Unidos e tal. Começamos a conversar, e eu falei: mas e essa mídia? E começamos a discutir as mídias de lá, o papel que cada uma teve, como é que eles, os americanos barra canadenses, consideram o Wall Street Journal, o New York Times, qual é, para eles, o valor delas. E, nisso, nós entramos no Huffington Post, que, durante um tempo, foi um respiro na parte de mídia. Começamos a olhar, ele falou: entra. Entrei, e entrei no Huffington Post e no HuffPost Brasil. No HuffPost Brasil, a gente abriu o editorial. E o editorial fala, com orgulho: nós acreditamos que nossa função é contar histórias. Opa! Sua função não é contar histórias.
Eron Falbo: [25:45] Teoricamente.
Itibere Muarrek: [25:46] Não é contar histórias. É, no limite, narrar fatos. É trazer o fato sobre outros pontos de vista de outras pessoas.
Eron Falbo: [25:58] Mas eu gosto que eles estão falando dessa linguagem, entendeu? Porque agora o ser humano está começando a entender que é tudo uma história. É tudo uma história. Tudo que a gente entende como história da humanidade, como fatos, como tudo, é storytelling. Você tá tentando engajar a atenção de uma pessoa, e se você não tem uma arca narrativa, a pessoa não vai ficar engajada, e a pessoa vai parar de ouvir a parada, entendeu? Vai parar de entender. Por isso que, voltando ao que eu tava defendendo, isso que a gente tá fazendo agora é o futuro, é o futuro da humanidade, de uma maneira muito bonita, muito tipo além do que eu acho que as pessoas ainda conseguem enxergar. Por quê? Porque essa coisa de artigos e fato e tudo mais, isso é old news. Isso é arca narrativa e isso é entretenimento. A sabedoria tá no diálogo, entendeu? Então, tipo assim, as coisas que são reveladas nessa conversa, Eron Falbo e Itibere Muarrek, as coisas que são reveladas não são fatos, entendeu? Não são fatos. As coisas que estão lá são sabedoria, mas a sabedoria está lá entre os dois, na coisa que a gente está construindo juntos. Não é alguém, como a gente está acostumado a lidar, até as universidades que a gente criou. Qual é o nome do cara que fica na frente dos alunos? É professor. Sabe de onde vem a palavra professor? Vem de professor da fé, porque no início... Universidades eram centros de discussão, e tinha que ter alguém, um representante da Igreja Católica, que professava a fé, se o diálogo ficasse muito aberto, vamos dizer. Então tinha alguém que ficava num palanque, rolava um diálogo, e esse professor cuidava para que a coisa não ficasse verdadeira demais, entendeu? Então, o professor, a pessoa que nos ensina hoje na universidade, que a gente tanto vangloria, é o professor da fé. É um cara de cima para baixo que tá professando a fé, daquela academia que a gente vê tanto que a esquerda dominou em muitos lugares, etc. O problema não é que a esquerda tá dominando isso. O problema é o negócio inteiro. O problema foi a incepção da coisa, e o jeito que é feito.
Itibere Muarrek: [28:33] Mas o formato que funcionava antes tinha a ver com a própria estrutura política e econômica. Hoje em dia não tem mais.
Eron Falbo: [28:40] Claro. Exatamente. Mas a gente herdou isso.
Itibere Muarrek: [28:44] Mas aí, de qualquer forma, a gente volta num processo que é assim: vamos fazer o que a gente estava falando no começo, a síntese. Se, de alguma forma, o que a gente está fazendo aqui é o futuro, e não é o futuro porque ele está na mão quase de um monopólio, onde essa ferramenta, a partir da gente, a gente atinge todo mundo, não é isso? Porque hoje, a partir da gente, a gente atinge redes de relacionamento onde essas pessoas referenciam o que estão ouvindo, e eles passam através, eles referendam o que estão ouvindo para os outros. Então, tem uma validação sistemática de um para o outro. Isso que acho que tem um grande barato é que as pessoas perderam um pouco a noção do que é o novo. O novo não é você impor a narrativa, é você proporcionar o diálogo. O diálogo é feito, como a gente está fazendo, a partir de ambientes menores. Ele vai ser amplificado a partir de como as pessoas vão referenciar essa conversa. Isso é um lado muito bacana que a gente está passando hoje em dia. Mas aí entra aquilo, o cuidado que a gente tem de ter, que é valorizar os fatos, as ocorrências, de uma forma um pouco mais cuidadosa, um pouco menos tentar tratar as coisas de acordo com o que a gente vê e realmente vive. Volta para aquilo: isso aqui proporciona que você imagina que consegue se conectar com o mundo inteiro, entender o mundo inteiro. Não, a gente não consegue.
Eron Falbo: [30:27] Sim, exatamente. É por isso que sou a favor da representatividade regional.
Itibere Muarrek: [30:32] É, e por isso que acho que todo poder tem que ser local. Eu sou ultraliberal no sentido de que quero um Estado central muito pequeno, mas quero um Estado local muito bacana. É o tal do conceito de localização: o local se comunica com o resto, o local tem que ser focado. E aí a gente entra numa outra coisa, que é um problema contemporâneo, que a gente fala que é o esvaziamento da política. E o esvaziamento da política, especialmente no Brasil, se dá pelo fato de que a gente não vive mais o local. Hoje, se você vier aqui para um paulistano que se acha extremamente bem informado, que se acha superconectado, que sabe tudo o que está acontecendo no mundo, você pergunta: o que está acontecendo na sua prefeitura? O que aconteceu esse ano aqui dentro? O que está para ser votado? O susto é tão grande. Reformaram toda a praça do Anhangabaú, projeto medonho. Enfim, aquilo foi feito, durante um ano e meio foi feita a reforma. O paulistano só percebeu que a reforma foi feita quando aquilo foi terminado e inaugurado. Então, a gente tem um problema muito grave: como é que ele não sabia o que estava sendo feito em um dos principais espaços públicos da cidade?
Eron Falbo: [31:56] É uma loucura, uma loucura.
Itibere Muarrek: [31:58] Então, assim, ele não sabe o que é feito aqui. As pessoas não sabem. Por quê? Porque o poder decisório, a verba, a autonomia não fica mais na casa, fica numa parte para cima. E aí a gente volta naquilo: você vive aonde? Você não vive no Brasil? Você não vive no mundo? Ah, eu sou do planeta. Ah, minha filha, dá licença, você fumou, eu também quero. Você vive aonde? Você vive na sua rua? Você vive no seu clube? Você vive na praia que você vai? Você vive na padaria, você vive onde você sente e troca.
Eron Falbo: [32:39] Até meu amigo falou sobre isso, mas não é justamente o contrário? Porque eu estava falando, o mundo está vivendo uma revolução onde, pela primeira vez na história, a gente pode viver o que Platão sugeriu. A gente pode ver podcasts, a gente pode ver lives no Instagram do mundo inteiro, e a gente pode participar de diálogos que a gente não tinha acesso antes. Então, a razão que o mainstream media virou o mainstream media foi por causa de um fetiche de querer participar de coisas que a gente não tinha acesso antes. E o primeiro formato que isso foi capaz foi um formato de faraó egípcio, que está alguém lá no topo da pirâmide, alimentando os escravos lá de cima, com a informação que ele tinha para alimentar. E isso era uma alimentação tecnológica. Agora, pela tecnologia, a gente tem a capacidade de ouvir intimamente. Imagina, eu e você conversando, a gente pode conversar, tomar um uísque juntos, pode ficar dez horas conversando juntos. Agora tem, pô, 94 pessoas aí ouvindo a gente conversar intimamente, eu e você. Só que não é um discurso que a gente tá professando. Isso aqui tá sendo improvisado. Isso aqui tá acontecendo. É vida real. E as pessoas tão aqui com a gente, tão aqui participando junto com a gente. Então, ele até me falou: não tem uma coisa, uma corrente contrária? Bom, ele falou, não existe uma corrente contrária que é de superficialidade. Todo mundo viciado em imagem, viciado em Instagram, né? Com milhões de curtidas, de seguidores, etc. Existe isso. Óbvio que existe essa parte também, né? Porque a gente é ser humano e a gente tem os dois lados. Mas o lado bonito é que a gente, pela primeira vez nessa história da humanidade, a gente é capaz de participar de realidades remotas, privilegiadas, porém disponíveis aqui, acessíveis.
Itibere Muarrek: [34:42] Porém, você realiza isso que a gente está fazendo no seu cotidiano, no seu dia a dia, nas suas condições reais. Eu costumo dizer o seguinte: virtual, a gente vive em ambientes virtuais. Virtual vem de virtu. Virtu vem de virtude, é potência. Virtual é potencial. Potencialmente, a gente está criando aqui uma relação, um monte de conexão, um monte de condições de realizar coisas. O que vai ser fora disso, a gente vai realizar.
Eron Falbo: [35:29] Isso com certeza. O ponto que eu estava fazendo não era em contrapartida ao que você está falando do regional ser o mais importante. Isso continua, e eu acho que sempre vai ser: o nosso microcosmos sempre vai ser o lugar onde a gente reina, de fato. O que eu estou dizendo é só que, em vez de conhecimento, que era o que a gente estava obcecado antes, que é a idade da informação, a gente vai passar para a idade da sabedoria. Que é a idade de, em vez de você ter dados e estar sendo alimentado de dados, você vai ser alimentado de entrelinhas. Por quê? Porque você está agora imune, porque agora a gente está na era da fake news, você está defensivo a tudo. Então, como você está defensivo a tudo, você não está mais recebendo aquele estupro do mainstream media que antes existia, você não está mais recebendo isso sorrindo. Agora você tá puto. Quando você vê a Globo falando números muito exagerados de mortes de Covid, e você vê lá no portal da transparência dos cartórios, tipo, 10% dos números que a Globo tá expressando, você fica puto. Antes você não ficava puto porque você não tinha outra informação, só tinha aquela. Então você ficava feliz de ser estuprado.
Itibere Muarrek: [36:53] E aí entra um exercício bacana nisso, que é o seguinte: as pessoas vão atrás. Hoje nós temos meios de exercitar nossa proatividade. Não há desculpa para que a gente não pratique a proatividade.
Eron Falbo: [37:09] Exatamente.
Itibere Muarrek: [37:11] Não há desculpa para que a gente não vá atrás da informação e procure melhorar a nossa própria condição. Esse é um outro ponto muito bacana: a gente sai da era da passividade. Até a mídia, anteriormente, era aquela coisa estática, parada, onde eles falavam, você escutava e continuava na tua vida. Agora você interage, como a gente está fazendo agora. A gente conversando, já teve gente que até mandou... Já mandamos até lembrança para a senhora mãe.
Eron Falbo: [37:40] Dona Paula Tejano.
Itibere Muarrek: [37:42] Você pode ouvir a observação. Essa possibilidade de a gente sair daqui, ou do que a gente está falando, à pessoa, em tempo real, confirmar se a informação é verdadeira ou não, isso é muito bacana. Então a gente sai do comodismo, da via única que as mídias anteriormente colocavam, que era... Vai começar o Jornal Nacional, o jornal não sei de onde, ele fala, você ouve e toca a tua vida, você não interage.
Eron Falbo: [38:09] Exatamente, exatamente. E acho que isso está gerando na população uma coisa que acho incrível, que é o seguinte: é o amadurecimento da população. E está rolando um pânico geral, está todo mundo morrendo de medo. Está denunciando fake news. E onde a gente vai encontrar a nossa notícia de verdade? Está rolando um medo, um desespero de ficar sozinho. Porque antes eu podia confiar na Veja, e agora eu não posso confiar na Veja. A primeira reação é que a Veja mudou. A segunda reação é que a Veja sempre foi assim, eu que mudei, eu que sou uma pessoa superior. É que nem uma criança que está caminhando com o pai, dando a mão, um bebezinho, e o pai está ensinando a criança a andar, e para a criança poder andar o pai tem que largar a mão da criança, e obviamente a criança cai muitas vezes, então ela morre de medo de cair. Agora, em algum momento da história dessa relação do pai e do filho, ele vai largar a mão da criança, e vai rolar um pânico: caraca, eu vou cair! Mas logo depois, quando ele entender que consegue andar, rola um êxtase, um entusiasmo que a gente nunca viu, que eu acho, na minha opinião profética, que a humanidade nunca sentiu antes e vai sentir depois que passar esse desespero de ter perdido o papai do mainstream media. Eu acho que a gente vai gerar uma euforia...
Itibere Muarrek: [39:39] Eu só faço um corte: principalmente o pessoal dos grandes centros e do ocidente. Estamos aqui aprendendo, estamos em um processo histórico muito adiantado em relação à maior parte do mundo. Mas acho que a analogia é essa, a gente está aprendendo a andar. Eu fiz um curso de expansão com a ANAPUT agora, faz pouco tempo, e o curso era voltado para a comunicação política e pesquisa. Entrei nesse curso, para mim foi muito rico, porque tínhamos um painel com 30 pessoas, majoritariamente o pessoal lá era progressista. E o assunto, para entender a fake news, entrou esse assunto, como a gente está conversando agora. Teve uma aula que foi dedicada a fake news, entender como é que se processa a fake news. E, como o pessoal lá majoritariamente era progressista, o assunto descambou automaticamente para uma crítica ao governo, a uma crítica ao WhatsApp, a uma crítica tal da...
Eron Falbo: [40:49] Eles estavam dando resistência ao novo, né?
Itibere Muarrek: [40:54] Não, uma resistência ao novo, e eles colocaram todas essas ocorrências do outro lado. E aí eu falei: pera aí, estamos aqui debatendo, acho que todo mundo aqui tem que ter... O fato é o seguinte: se você não tem um contraditório, você não tem uma versão, você não tem uma verdade. O contraditório é o que cria a condição de você fazer síntese. Sem contraditório, você não tem um.
Eron Falbo: [41:25] E também da definição da coisa. A escrita é o contraste do preto no branco. Como é que você vai ter uma revelação de alguma coisa se você não tem um contraste? Você tem uma folha em branco, se você escrever em branco, você não vai revelar nada. E uma coisa que eu adoro é imagina um homem justo numa ilha deserta: como é que você sabe que ele é justo?
Itibere Muarrek: [41:53] Exatamente, é bem isso. Se você não tem o outro lado, se você não tem alguém pra colocar o contraponto, você não tem um, você tem um delírio. E, no meio da discussão, eu me irritei um pouco, porque eu tentei falar: gente, mas... Espera aí, eu comecei a colocar dos dois lados o que a gente tinha antes, para mostrar que o que a gente está tendo é uma reação. A gente está tendo do mesmo, se não trocado. E o entendimento do que está se dando vai dar para a gente aceitar esse condicionante para tentar fazer alguma coisa. E, numa dessas, alguém pegou e falou: meu, você está dizendo que nós estamos errados? O que quero dizer é que vocês não estão certos. É a mesma coisa.
Eron Falbo: [42:46] Não está certo, não está errado. Como é aquela citação da Dilma?
Itibere Muarrek: [42:50] Você não está vendo o que era antes, a reação que isso era. Enquanto você não fizesse essa conta inversa para tentar achar, entender a ocorrência, o seu pensamento está pela metade. Pela metade, você não tem o pensamento.
Eron Falbo: [43:12] É uma das minhas críticas à direita do Brasil, porque a maioria dos meus amigos com quem consigo ter conversas mais longas são mais voltados para a direita. Mas a minha crítica, às vezes, é a intolerância demasiada que existe com a esquerda. Você precisa do contraponto, você precisa dessa cutucada.
Itibere Muarrek: [43:34] Eu nunca fui de esquerda, eu sempre fui considerado... até nas faculdades que eu frequentei me chamavam de liberal, ultraliberal, etc. Na PUC me chamavam de ultraliberal. Mas eu participei e ajudei o PT. Antes, ajudei o Ciro Gomes.
Eron Falbo: [43:53] Pô, isso aí você não admite em público, cara.
Itibere Muarrek: [43:56] É? É... Falando na rede de religião, parece absurdo, mas não, antes era o que a gente tinha. De certa forma, a esquerda soube cooptar como sendo o lado mais moderno do Brasil, que vinha de uma ditadura, um regime militar. Ela soube trazer, ela fez a constituinte, ela teve a capacidade de fazer um pouco do novo num país que é extremamente injusto. Quando veio a tal da reeleição, eu falei que isso aqui é surreal, não se faz isso, ainda mais fazer uma reeleição com benefício próprio. Eu saí fora, ajudei o SIGO, a campanha aqui de São Paulo. Eu sempre me meti muito em política. Saí de lá e fazia a quinta palestra na USP. Lá eu conheci o Hildo Sauer, que depois foi diretor da Petrobras. Ele me chamou e eu ajudei a fazer campanha do PT, escrever plano de governo, Genoíno e Lula. Puta vida, tudo o que a gente faz nessa vida, né? Depois fica uma coisa e você fala... uau! Mas depois também, né, virar engenheiro de obra pronta? Depois é fácil falar, mas quando você tá ali é complicado. Mas ajudei. Então, por quê? Porque eu sempre acreditei que, se você trabalha com ideias e com gente disposta a construir algo, é até interessante você estar com um contraponto permanente. Você melhora. Então, é interessante você... você poder fazer isso. E, no entanto, eu não tenho problema em falar, inclusive, meu último voto, que foi uma coisa a partir do Novo, depois eu acabei votando no Corroes, no Bolsonaro que está aí, fazer o quê, estamos aí. Mas eu não tenho esse problema, eu acho que, na verdade, eu nunca me arrependi de voto nenhum. Eu sempre tentei construir alguma coisa a partir deles e ajudar. Eu acho que o que falta... Tem duas coisas muito importantes que o brasileiro, em geral, precisa aprender. A primeira é que o governo não vai fazer nada pela gente, nenhum, você não deve ter essa esperança. Isso sou meio americano, sabe? Não pergunte o que fazer por você, o que você pode fazer por ele? Porque eu acho que é aqui que a gente resolve. É na sociedade civil que você leva a demanda.
Eron Falbo: [46:30] Isso a gente é muito sincronizado nisso. Eu acho que, se eu tivesse algum slogan, se eu tivesse alguma coisa que eu... tipo assim, põe uma arma na minha cabeça e fala o que você defende, fala uma coisa que você defende... se eu tivesse que falar, um slogan que eu tenho é que a sociedade, especialmente no Brasil, precisa se emancipar do governo. O nível de dependência que a sociedade brasileira tem do governo é simplesmente não só fora do normal, como é uma coisa claramente... é uma dinâmica claramente viciada e... como é que se diz? Sei lá, por falta de uma outra palavra, psicopata. É uma coisa... é uma psicopatia, pode-se dizer isso. É uma desordem psicológica que rola entre o povo brasileiro e o governo. O povo brasileiro é tão dependente do governo que um diretor, o Walter Salles, filho de banqueiros, bilionários, né, ele usa Lei Rouanet pra fazer um filme. É isso aí, Rafael Vianna: síndrome paternalista. Mas eu acho que é pior que isso, eu não acho que o governo é tão paternalista assim, eu acho que a sociedade tem que se responsabilizar, porque quando você fala paternalista é culpa do pai, né, paternalista. Acho que é síndrome de infantilista, entendeu? É síndrome da gente estar viciado em... deixa eu tentar chamar eles de volta... em voltar para o papai e pedir ajuda. Então, a gente que tem que começar a organizar, nós mesmos, eu e você, Rafael Vianna, organizar os investidores do Rio de Janeiro e começar a botar ópera no teatro nacional, entendeu? Ou teatro municipal aqui do Rio de Janeiro. Como é que não tem ópera no Rio de Janeiro? Não faz sentido nenhum. Tô tentando ver se o Itibere entra aí. Vocês continuam me ouvindo? Entendeu, Rafael Viana? É nossa... é nossa prerrogativa, é nossa responsabilidade. Não é do governo, não é uma... não é uma análise que a gente tem que fazer: ah, o governo é paternalista, o governo é assim, assado. É uma questão de... tipo, é uma dinâmica viciosa. Como é que você vai sair da casa da sua mãe se sua mãe fica te pagando tudo e você fica aceitando, entendeu? E não é nem sobre aceitar, na verdade, porque você pode até aceitar, é sobre como você aceita. Você aceita, muitas vezes, de uma forma com a expectativa de que você sempre vai ter aquilo, entendeu? Você aceita porque você quer se manter aleijado, você quer se manter mimado, você quer se manter debaixo da asa. Então, a emancipação não é uma revolta, que nem os adolescentes acham que é, que é você fugir da casa da mãe. A emancipação é você simplesmente começar a gostar de fazer as coisas que você deveria estar fazendo. Como Platão diz, a educação é você simplesmente parar de gostar de coisas ruins e gostar de coisas boas. Então, significa o quê? A sociedade brasileira tem que começar a gostar de fazer a coisa por elas mesmas, nós mesmos. Nós, a sociedade brasileira, temos que investir e fazer teatro nós mesmos. E aí, Itibere, deu certo aí, estar de volta?
Itibere Muarrek: [50:15] Tive um prosaico, um problema de atualização de software que deixou isso aqui. Eu deixei automático. Fora de hora, eu tive que... deu pânico, desculpa.
Eron Falbo: [50:28] Tudo bem. Então, eu estava só terminando que... nem lembro mais agora, mas esquece. Mas, de qualquer jeito, a gente acabou o nosso tempo, infelizmente. Vamos só falar um pouquinho do que é o Yes News, só para deixar no ar, para a gente, de repente, fazer uma outra conversa e conversar um pouco mais sobre isso. Se você puder explicar brevemente qual é a ideia da nossa empresa juntos, Yes News, e como que a gente vai revolucionar o mundo.
Itibere Muarrek: [50:57] A ideia é essa mesmo, a gente sempre tem que pensar nisso, em tentar revolucionar o mundo, ao menos o mundo que a gente vive. Acho isso muito bacana, a gente tentar fazer a diferença onde a gente vive. O Yes News é um projeto editorial que é baseado numa plataforma de produção cooperativa de conteúdo, onde a gente vai convidar editores e jornalistas e conteudistas em geral para escreverem determinadas editorias, determinadas revistas ou jornais, dentro de um foco de uma linha editorial bacana, aberta, porém dentro de um código de ética e conduta bem definida. Ela vai ter uma linha liberal, sim, mas essencialmente movida na essência do que sempre foi o jornalismo, que é ser ante qualquer tipo de governo, qualquer tipo de Estado que tente ser usurpador. A mídia, em geral, o papel do jornal... Thomas Jefferson falava uma coisa muito bacana na carta de fundação do governo americano nos Estados Unidos: entre a democracia e a imprensa livre, opto pela imprensa livre, se tiver que fazer uma escolha. Democracia não significa muita coisa se não tiver uma sociedade livre, uma república forte. Basicamente, ela é uma forma... imprensa livre é outra coisa. Ela te possibilita que todo mundo desenvolva seu potencial. É do tipo de que a gente estava falando, não é, Eron? Pede a informação, discuta e cria novas formas de avanço com os temas para a realidade. Então, quando a gente baseou o Yes News, o Yes News vai trabalhar, a gente vai convidar editores para formarem revistas, editorias, jornais para tratar diversos assuntos, e todo mundo vai trabalhar sobre uma newsroom, uma sala de redação virtual, e todo mundo que participar vai poder trocar a informação e construir junto as mídias. Inicialmente, a mídia vai ser focada muito em São Paulo, porque a gente sempre tenta focar primeiro no grupo de... o crescimento tem que ser orgânico. Então, vai ser um jornal de São Paulo para o mundo, de São Paulo interage, e depois a gente vai ampliar para outras praças, como o Rio de Janeiro, naturalmente, que é outra praça importante, aqui do Brasil. Mas vai ser um jornal que vai tentar trazer a localidade, trazer os assuntos locais e relevantes, que a gente tem que...
Eron Falbo: [53:51] O jeito que eu vejo é assim: vejo o Yes News como um hub central, uma empresa séria, uma plataforma, vamos dizer, que oferece tecnologia, oferece ferramentas, oferece local, oferece distribuição, oferece marketing, oferece todo tipo de coisa para empoderar o criador de conteúdo local, para ganhar o editor ou escritor ou o jornalista, o blogueiro, o que for, o criador de conteúdo de diversos tipos, que seja curado, que seja editado profissionalmente. Empoderar esse local para poder ter uma voz que hoje é obscurecida pela demasiada centralidade da notícia em qualquer lugar do mundo. No Brasil, em qualquer lugar do mundo, há notícias para poder vender mais, ainda mais porque tem problema de... antes eram grandes conglomerados de mídia, hoje estão virando, se estão falindo e tudo mais, estão precisando ficar cada vez mais centralizados. E o Yes News está dando uma resposta para isso, uma resposta de como curar essa ferida.
Itibere Muarrek: [55:09] Uma de nossas missões, objetivos da companhia Yes News, é organizar os conteúdos para distribuir de uma forma massiva, para criar economia de escala, para viabilizar e pagar bem quem puder trabalhar sobre esse guarda-chuva.
Eron Falbo: [55:27] Perfeito.
Itibere Muarrek: [55:28] O fundamental é a gente criar essa escala, criar essa massa crítica e em conexão direta com o público leitor. É cortar essa intermediação.
Eron Falbo: [55:37] E o endereço do site é yes.news, né? É Y-E-S ponto N-E-W-S, é isso?
Itibere Muarrek: [55:45] É, Y-E-S ponto N-E-W-S. Mas ainda o que está no ar é um protótipo, né?
Eron Falbo: [55:53] Sim, vamos trabalhar nisso. Em breve, em um mês ou dois, a gente deve estar começando a lançar.
Itibere Muarrek: [56:03] Exatamente, exatamente.
Eron Falbo: [56:06] Itiberê, foi um grande prazer te ter no nosso programa. Nosso, meu, né? Se bem que é nosso, é o meu e o seu.
Itibere Muarrek: [56:17] Eu me acostumei a acompanhar os seus programas, gosto pra caramba. Tanto é que eu alerto, até passando. Olha, se você precisar de gente, tem um pessoal muito bacana pra fazer papo. Eu gosto, gostei pra caramba. Então, pra mim, é muito bacana estar aqui. Legal mesmo. Legal mesmo. E vamos lá.
Eron Falbo: [56:38] A nossa conversa, Itiberê, foi exatamente o porquê que eu criei essa ideia, esse programa. A gente planejou falar sobre N coisas e a gente não falou sobre nenhuma delas. Só que a gente falou sobre um monte de coisa muito mais interessante e é para isso que a gente está aqui, para ser surpreendido e para sintetizar a nossa conversa, para fazer a síntese de tudo que a gente sabe da nossa vida.
Itibere Muarrek: [57:08] Engraçado, porque furou toda a pauta. A pauta foi esquecida completamente. Acho que esse bate-papo acabou tomando a direção natural das coisas. E aí volta. É para isso que a gente está fazendo tudo hoje em dia. É justamente esse tipo de comunicação, esse tipo de conexão que vai nortear. Acho que cria empatia, cria possibilidade.
Eron Falbo: [57:41] Autenticidade.
Itibere Muarrek: [57:43] É uma autenticidade.
Eron Falbo: [57:43] É uma autenticidade. Então, para terminar, só queria lembrar a todo mundo que isso aqui vai virar podcast em breve. Todos os episódios aqui do que a gente faz depois viram podcast. Então, por favor, deem uma força ali no Spotify. Eu estou investindo bastante que as pessoas possam ouvir essas conversas depois. Então, para a gente poder transformar isso em podcast, as pessoas poderem ouvir no caminho para o trabalho. E poderem participar de outras formas, as pessoas que não puderam estar aqui com a gente hoje. Então, por favor, deem uma força lá no Spotify, aperta o Seguir, visualize todas, baixem, para a gente poder fazer essa parada crescer e convidar a gente cada vez melhor, como a gente tem feito com o Itiberê Muarrek hoje. E espero que a gente faça de novo, Itiberê, porque acho que tem muito assunto aí que a gente não alcançou ainda.
Itibere Muarrek: [58:39] Na próxima vez, vamos tentar ter uma pausa.
Eron Falbo: [58:42] Eu não acho. Acho que assim está ótimo. E vamos ver onde a gente consegue chegar.
Itibere Muarrek: [58:48] É isso aí. Daí a gente falou: vamos lá, vai ser legal. A gente está acompanhando a eleição americana. Vamos, vamos. Uau!
Eron Falbo: [59:01] Deixa aí. Foi ótimo. Valeu, Itibere.
Itibere Muarrek: [59:07] Obrigadão para quem ficou aqui, fortificou e ouviu. Espero que tenham gostado. E vamos que vamos, né? Obrigado, cara.
Eron Falbo: [59:16] Valeu, cara. Grande beijo pra você. Boa noite. Beijo pra dona Paula Tejano mais uma vez. E a gente se vê aí, ou em São Paulo ou aqui no Rio.
Itibere Muarrek: [59:26] Bacana. Boa noite.
Eron Falbo: [59:28] Valeu. Um abração.
Itibere Muarrek: [59:29] Valeu.
Eron Falbo: [59:29] Boa noite.
No Alvo com Eron Falbo · episódio #26 · todos os episódios