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Eron Falbo: [0:05] Sejam todos bem-vindos. A gente está aqui com o meu amigo Victor Metta, advogado tributarista, sócio de escritório, assessor político. Foi uma das poucas pessoas responsáveis pela campanha do presidente Jair Messias Bolsonaro. Depois foi assessor do ministro Abraham Weintraub. É assim que fala? Weintraub ou Weintraub?
Victor Metta: [0:23] Eles falam de dois jeitos. Tem um que fala Weintraub e outro que fala Weintraub, pra não dar confusão. Aí eles escrevem que o jeito mais simples é Weintraub.
Eron Falbo: [0:35] O Victor é um judeu ortodoxo, mais ou menos, piloto, grande intelectual e meu amigo de muitos anos. Muito feliz de te ter aqui. Quando eu comecei essa coisa de fazer lives, você foi uma das primeiras pessoas que eu pensei em chamar, porque você sabe que a gente já teve um milhão de papos, que a gente foi muito longe, muito, em coisas muito profundas mesmo. E a gente costumava fazer esses papos nossos, sempre fazer jantares e tudo mais com outros amigos. E a gente parecia um debate, que o pessoal ficava assistindo a gente conversar e todo mundo ficava calado.
Victor Metta: [1:21] Parecia, não era exatamente um debate, mas a gente estava meio que se encontrando nas ideias ainda.
Eron Falbo: [1:26] Claro, claro. E a gente sempre concordou muito. A gente sempre teve divergências, mas concordou bastante. Mas o que eu quero dizer é que os amigos ficavam fazendo perguntas e a gente ficava respondendo. A gente sempre teve essa coisa de conversas muito boas. Então é muito legal ter você aqui.
Victor Metta: [1:45] Conversar com você é interessante porque eu raramente sou dogmático na história, mas conversando com você eu me senti o dogmático. Porque eu vinha de um background conservador, eu vinha com uma linha conservadora, e você estava solto, você não tinha compromisso com nenhuma linha, exceto a razoabilidade, a racionalidade. Você estava aberto para discutir, e o pessoal que olhava a discussão não sabia de nada, nem de um lado, nem do outro, não estava tendo lupas, mas estava ficando legal.
Eron Falbo: [2:10] A maioria das pessoas são assim, são meio sem posicionamento certo, mas a minha missão mesmo é ter essa moderação, não escolher nenhum lado da cerca. Eu sei que isso é chamado de isentão hoje em dia, mas...
Victor Metta: [2:30] Não é o teu caso, não é o teu caso, é o caso de outras pessoas. Depois eu explico para você o que eu acho disso. Não é puxa-saquismo, não. Vamos tomar alguma coisinha?
Eron Falbo: [2:37] Vamos, vamos botar um whiskyzinho aqui. Estou já pronto, com gelinho. O que você está tomando aí?
Victor Metta: [2:45] Não é whisky, mas é bom.
Eron Falbo: [2:47] Um bourbon. Bota fé, cara, bota fé. Então, mas explica isso aí: por que você acha que eu não sou isentão e outras pessoas são?
Victor Metta: [2:58] Amém.
Eron Falbo: [3:04] Amém.
Victor Metta: [3:08] Porque você é um pensador livre, você não vem com nenhuma linha pré-travada, pré-configurada. Você tá ouvindo de várias fontes, você bebeu de várias fontes, você tá discutindo aberto. O isentão não é um cara isento. O isentão é um cara que tem lado, mas ele finge que é isento, entendeu? Então, por exemplo, o Amoêdo da vida. O protótipo do low energy. Esse cara, ele se coloca como todo lado da ciência, da verdade, da realidade, mas ele só puxa para um lado. Então ele não é um exemplo, ele é um isentão.
Eron Falbo: [3:43] Ele está usando, vamos dizer, uma máscara moderada e central para conquistar algumas pessoas, só que na verdade ele tem posicionamentos, ele tá na cama com algumas pessoas, é isso?
Victor Metta: [4:01] É, mais ou menos isso. Ele quer a todo custo mostrar que ele é razoável, normal, fora da questão política, que ele é livre, mas ele não é, ele tem lado. Então, se a gente fala em nome da ciência, mas ele só compartilha posts de ciência que vão pra um lado, pro outro não. Ele não é isento, ele não tá procurando, na verdade, ele já escolheu o lado dele. Ele tá querendo buscar alguma coisa pra compartilhar. Ele vai ver alguém falar um palavrão, ele vai falar que coisa feia. Agora quando o outro fala palavrão, ele fica curtindo. Ele escolhe um lado dele.
Eron Falbo: [4:33] Entendi, entendi. Dá pra ver pelas atitudes, pelas entrelinhas, qual que é o lado dele de verdade.
Victor Metta: [4:42] Tem um amigo meu que tem bastante sucesso no Twitter e ele dá umas armadilhas. Vai lá e posta alguma coisa lá de algum determinado foco, ele sabe que tem um pouquinho de política no meio, mas não muito, já aparece o pessoal na armadilha caindo imediatamente. O isentão, ele se desmascara fácil.
Eron Falbo: [5:02] É, cara, eu, assim...
Victor Metta: [5:03] Desculpa. Não, fala, fala.
Eron Falbo: [5:06] É, eu procuro, cara, assim, eu realmente não sou, vamos dizer, centralista, pelo contrário, né? Mas eu procuro ser a síntese, né? Eu procuro, como diziam sobre Arão, que o meu nome na verdade vem de Arão, o sumo sacerdote do povo israelita, dizia que o Arão era o cara conciliador, tinha duas pessoas com pontos de vista totalmente opostos e Arão conseguia juntar esses dois pontos de vista, e eu sempre me identifiquei com isso, né? Coincidentemente, meu nome é Eron, em hebraico, Aron. E eu me vejo... É, não coincidentemente. Mas eu realmente me vejo assim, porque eu vejo que o futuro mesmo é uma coisa, é uma síntese, né? O lado esquerdo e o lado direito vêm de uma maneira ou de outra pra se complementar. Eu concordo, vamos dizer, com a direita moderna, que a esquerda se tornou muito violenta, muito agressiva e foi longe demais em termos de dominar a academia, em termos de dominar a mídia. E eu acho que isso aconteceu parte por campanhas, vamos dizer, conscientes, por ativismo e tudo mais, mas muita parte também por natureza, pela natureza da coisa, o jeito que as coisas são. Até eu estava conversando com o Rasta, que é outro conservador, é muito legal que a gente está se tornando amigo. Justo sobre isso, sobre essa ideia de que a coisa evoluiu. Até indico o podcast que a gente fez juntos, tá no Spotify. E é até bom pra todo mundo saber aí que a gente vai lançar até essa conversa no Spotify depois. E, bom, até tem gente comentando aqui. Pessoal, se vocês puderem comentar coisas que vocês queiram que a gente comente, que a gente responda, que a gente interaja com vocês, põe na caixinha aí que tá embaixo com o ponto de interrogação. Então, a gente estava conversando sobre essa coisa do consciente versus natural, vamos dizer. Eu acredito que muito do poder que a esquerda adquiriu e tudo mais é natural, por causa da difusão da informação, tem muito mais informação disponível, muito mais gente burra, desinformada, ignorante, com acesso à informação, dando opinião, com poder, com voz.
Victor Metta: [8:03] Eles já tinham. Posso falar o que eu acho a respeito disso?
Eron Falbo: [8:06] Claro, claro.
Victor Metta: [8:07] A esquerda parte de um princípio de uma coisa que existe. A boa mentira não é inventada. Você não tira ela da sua cabeça, do nada, e inventa que o céu é preto, o céu é roxo. Você parte de uma verdade real, de uma situação real, e você dá uma extrapolada. O esquerdista pega injustiça e verdade, elas existem de verdade, elas são reais, ele não está inventando, e ele só extrapola e usa isso com o clima político. Então, o Saul Alinsky, que era o guru do Obama, por exemplo, ele falava: "The issue is never the issue, the issue is always the revolution." Então, quando a gente pensa nessas coisas, a gente está preocupado com o certo, o errado, coletivismo, individualismo, liberdade, estatismo. Agora o Rodrigo Maia da vida, sabe o que eu tô preocupado com isso? O cara tá querendo exercer poder. E pra um negócio desses, é muito fácil exercer pro lado da esquerda. O lado da esquerda é você, quem tem o poder em você, prometendo pras pessoas que você tá salvando o mundo.
Eron Falbo: [9:07] O lado da esquerda é o que? Mas é essa parte que eu digo que é natural. Por que é tão fácil? Porque a esquerda usa de argumentos sentimentais, supostamente humanistas e, vamos dizer, superficialmente humanistas. Eu, sinceramente, acredito que os conservadores são muito mais preocupados de verdade com certas coisas humanistas, mas eu realmente não acredito que os conservadores tenham todas as respostas. Existem questões econômicas, existem questões de bem-estar social mesmo, que algumas ideias socialistas, vamos dizer, pelo menos, se não trouxeram uma solução, pelo menos trouxeram um alerta para problemas que estavam talvez sendo jogados debaixo do tapete durante tempo demais. Então, vamos dizer... Bom, desculpa, fala.
Victor Metta: [10:06] Não, não tem problema. É pontual nesse lado. Eu não considero o conservador o ápice ou a característica máxima do bem. O conservador não é um cara do bem e todo esquerdista é um cara do mal. Eu não vejo dessa forma. Eu vejo que o conservador é um cara normal.
Eron Falbo: [10:24] Respondendo até o Felipe, que está falando sobre isso agora.
Victor Metta: [10:29] É, depois eu vou ler isso aí, mas o bom e o ruim é a dicotomia que existe...
Eron Falbo: [10:33] Não, pode deixar, eu vou fixar aqui pra você ler depois.
Victor Metta: [10:36] Tá. Então é o seguinte, o conservador é um cara normal. Então, o Zé da Esquina, que tem uma padaria, que tem a vida dele, que quer ganhar, quer ter dinheiro, quer ter uma família, essas coisas tradicionais. Mas é um cara, eu vou chamar ele de cara de direita. Ele não quer se meter na vida de ninguém, ele não quer mandar na vida de ninguém, ele quer tocar as coisas dele, ele quer que o deixem em paz. Esse é um cara de direita. Da direita, existe um grupinho extremamente pequeno de pessoas que sabem que está rolando uma guerra, que tem gente que não aceita essa visão, que quer mandar na sua vida, que tem uma visão para o mundo. Esses caras são da direita engajada. E agora você tem a galera da esquerda. A galera da esquerda é totalmente engajada, porque a visão deles é a seguinte: eu sei o que é o ideal para o mundo, eu tenho uma visão de mundo, eu quero impor o poder político para criar esse tipo de coisa. Então, vou chutar, na minha cabeça, 80% da sociedade, o que é uma sociedade normal, são pessoas de direita, das quais 5% é engajado. De uma sociedade normal, 10, 15% é de esquerda, da qual 10, 15% é engajado. Então, fica desigual, porque eles realmente atuam naquilo que eles acreditam. Pensa o seguinte: o que faz um governo, um governador? Toda a estrutura está feita para ele intervir. O governo não é feito pra você chegar lá e começar: gente, vamos destruir essa pasta aqui, vamos acabar com esse departamento, vamos reduzir esse budget. Não, ao contrário, é feito pra você fazer cada vez mais. Então, a esquerda trabalha num viés de concentração de poder. Então, quem tá ligado com a esquerda não é só o cara que acredita naquilo, é o cara também que usa aquilo pra concentrar o poder dele pra outros fins.
Eron Falbo: [12:14] O Felipe, que é meu amigo também, que já foi convidado de live aqui, tá dizendo... Desculpa, mas acho... E, by the way, Felipe, por favor, da próxima vez põe no... Eu tô te dando preferência aí porque você já foi convidado, mas, por favor, põe na caixinha aí pra gente poder divulgar pro pessoal o seu comentário. Mas ele tá dizendo que existe um moralismo no argumento de vocês, como se existisse um lado bom e um lado ruim. Mas acho que o Victor acabou de falar que não é exatamente sobre isso, é sobre as forças... naturais, psicológicas que, vamos dizer, são consequências de um tipo de pensamento versus outro tipo de pensamento. Agora não sei como é que... Olha...
Victor Metta: [13:02] Eu vou te falar, eu não acho... Eu também estou tentando descobrir como desfixa. Eu não acho errado dizer que tem um lado bom e outro ruim, à medida que a desproporção da maldade e da bondade inteira é tão grande que não tem como não dizer isso aí. Vou dar um exemplo: a polícia é do bem. Eu não consigo dizer que todos os policiais só fazem o bem. Mas se eu comparar ela com o inimigo, o PCC, por exemplo, os caras são tão ruins, mas tão ruins, que eu vou ter que falar que um lado é bom e outro lado é do mal. Mais ou menos isso que eu faço entre os direitos humanos.
Eron Falbo: [13:37] É porque o bem e o mal não é absoluto. É como se fosse alto e baixo. Depende de quem você está comparando.
Victor Metta: [13:45] Exatamente. É política. Esse cara é bom ou esse cara é ruim? Eu falo: comparado com quem?
Eron Falbo: [13:50] Eu acho que isso, na verdade, é uma coisa muito infantil. As pessoas, muitas vezes, acreditam que o bem e o mal é uma coisa absoluta. Então, falam assim: Hitler é do mal. Mas depende do que você está comparando, né? Se você comparar com, vamos dizer, um cara que...
Victor Metta: [14:11] Essa pergunta fica difícil pra você agora.
Eron Falbo: [14:13] Não, não, mas eu fico confortável com esse exemplo porque eu adoro botar... vocês sabem que eu gosto de jogar para os extremos, né? Mas se você comparar com um cara, por exemplo, que é um sadista, um cara que gosta de ver a gente sofrer... Hitler tinha um argumento, ele acreditava que ele estava fazendo o bem, entendeu? Então, por exemplo, se você pegar um cara que é genocida, que eu não tenho exemplos históricos no momento, mas que tem um perfil psicológico que gosta de ver a gente sofrer... Em Hitler, por exemplo, a gente já sabe, por análises psicológicas, que ele realmente acreditava que estava salvando o povo germânico e coisas do tipo. Então aí, nisso, você vê: se você for em termos de intenção, Hitler tava tentando fazer o bem, versus outra pessoa que tava tentando fazer a gente sofrer pra se sentir bem com o sofrimento, entendeu? Mesmo assim, o cara que tá fazendo a gente sofrer, ainda pra ele, tá fazendo o bem na cabeça dele, né? Isso aí é outro assunto completamente diferente. Mas o que eu quero dizer com isso é que nunca é absoluto, né? O cara não tá fazendo mal, o cara tá lá achando que ele tá fazendo o bem, ele tá fazendo, porque todo mundo é um pouco utilitário, né? Todo mundo aceita, em certas circunstâncias, matar para se defender, então depende do argumento, né? Se o argumento do cara é: pô, tô salvando minha família, por isso que eu tô matando esse cara... aí, entendeu? A perspectiva muda um pouco, né?
Victor Metta: [15:43] É, mas na maior parte dos casos eles são tão mais simples, né? Eu acho que a principal diferença, eu vou falar: quando eu me encontrei com um cara de direita conservador, eu já tinha esse sentimento desde moleque, já tinha alguma aversão a esse negócio. Quando a pessoa falava de União Soviética, de Rússia, de comunismo, eu já não gostava daquilo. Era um negócio de liberdade, eu sempre gostei. Não gosto de encheção de saco, opressão, dor de cabeça, disso aí. Eu gosto de ficar livre, tranquilo. E aí, em 2001, eu conheci as ideias do Olavo de Carvalho. Aí eu me achei. Aí eu falei: pô, legal.
Eron Falbo: [16:18] Ah, isso é uma coisa... Tá dizendo.
Victor Metta: [16:20] Alguma coisa que faz sentido para mim.
Eron Falbo: [16:22] Uma coisa que eu queria te perguntar: como é que foi essa coisa de você virar aluno, discípulo, que seja, do Olavo de Carvalho? Qual é a sua relação com ele hoje?
Victor Metta: [16:34] Como é que é isso... Eu acho que foi muito legal, porque eu vivi uma fase histórica, digamos, em que, quando eu comecei a ter as minhas ideias, eu não tinha com quem falar. Então, assim, até 98, 99, 2000, eu não sabia muito bem que ideia desenvolver. Eu tinha um viés e não sabia como que ele era. Em 2001, um amigo meu chegou pra mim e falou: cara, você já leu tal cara, tal pessoa? Eu falei: não, nunca li. Entra num site chamado Mídia Sem Máscara. E eu olhei, fiquei maravilhado. Falei: caraca, tá explicando as coisas que eu sempre quis saber. E eu comecei a ver que começou a surgir uma série de pessoas, e o site escrevia dois artigos por dia, era só isso. Começou a surgir uma série de pessoas que foram desenvolvendo ideias, foram trazendo ideias de fora. A internet, não vou dizer que tava no começo, mas não tava no nível que tá hoje, você não tinha celular, e as coisas começaram a se espalhar. E vários caras que hoje são famosos na mídia começaram nesse site. Rodrigo Constantino, Renato Azevedo, muitos outros caras que hoje você vê e que representam várias linhas da direita, de um jeito ou de outro, eles nasceram lá. E o Olavo sempre escrevia, um artigo no Diário do Comércio, acho, no Globo também escrevia na época, e por aí vai, em que ele fazia essa análise da coisa, mas na época ele não era visto como o cara da direita, ele era visto como um filósofo, ele explicava as coisas. Com o tempo, eu nunca propriamente fiz o COF, o Curso Online de Filosofia, então não sei se posso me chamar de aluno dele, apesar de já ter 19 anos lendo tudo o que ele escreve. E quando as pessoas começam a saber quem ele é, em 2018, quando o presidente é eleito, eu já tinha lido boa parte, praticamente todos os livros dele, e o pessoal conhecia ele por meio de posts de rede social. E aí é uma coisa interessante, porque o Olavo que eles conhecem é aquele cara que vai, xinga o cara, toma naquele lugar. Mas o Olavo que eu conheci é pelos livros, é pelos artigos. E pra mim, ele é tipo o midi-artist, sabe? Chega mais cedo, tem que ver o cara.
Eron Falbo: [18:33] E ele não xinga nos livros não?
Victor Metta: [18:36] Ele não xinga na vida real e não xinga nos livros. E quando ele usa um palavrão, eventualmente, aqui e acolá, é num sentido mais estilístico. Aí eu tive a oportunidade de conhecê-lo de verdade em 2019, eu fui lá pra Virgínia, foi legal pra caramba. Fui uma semana lá com ele, ele recebe todo mundo, ele é um cara super simples, conversando sobre política, realidade, Brasil. E eu ia te falar, tudo que a gente tá vendo agora, modéstia à parte, a gente identificou.
Eron Falbo: [19:01] Eu conheço muito pouco do trabalho do Olavo de Carvalho. Eu vejo o que as pessoas falam e eu conheço alguma coisa. Então já vi algumas palestras dele que eu vejo que ele é, vamos dizer, muito mais eclético do que as pessoas sabem. Ele é um dos poucos acadêmicos que estão dispostos a estudar astrologia e misticismo e, ao mesmo tempo, ciência política e matemática.
Victor Metta: [19:33] Teve uma rodada por aí, né? Ele era um cara que era jornalista, ganhava pouco, tinha bastante filho, estava todo quebrado de grana, acho que está até hoje. A única coisa que mudou desse tempo é que ele não é mais jornalista, mas todo o resto ele sempre teve, quebrado de grana e cheio de filho. E ele começou a se procurar, então ele chegou até a entrar na tariqa, que é um grupo de estudos, digamos, muçulmano. Estudou espiritismo, que eu saiba. Estudou esoterismos, de todas as linhas. Estudou astrologia, mas com viés científico. Foi estudando, foi estudando, foi estudando. Acho que, com 40 anos de idade, ele falou que achava que era a maior falha editorial do Brasil, porque escrevia, escrevia e achava que ninguém lia. Com 58 anos de idade, e pouco tempo depois, a partir de 2000 e pouco, ele começou a bombar. E eu vi isso, eu vi um Brasil que não tinha direita, um Brasil que você não conseguia defender ideias conservadoras. Quando eu falava que existia ideia comunista, o cara achava que eu era comunista. Quando eu falava de liberalismo, o senhor não sabia o que eu estava querendo dizer. Então, de repente, começou a surgir. Hoje, as palavras que a gente falava internamente são lugar comum. Então, eu vivenciei essa época toda e vi a coroação dela, digamos, não da melhor forma, que foi a eleição de um presidente. Então, desde 2001, eu vi que não existia direita, fui trabalhando até, conversando com...
Eron Falbo: [20:58] Você virou um ativista da direita, né? Você virou alguém que estava querendo defender a direita e, inclusive, por isso que... Mas antes da gente entrar na campanha do Jair Messias Bolsonaro, que, para quem nunca ouviu falar, é o presidente da República atual, a gente vamos se manter um pouquinho mais no lado que a gente vai ter que voltar para o lado. A gente vai ter que achar outra oportunidade. Já estamos aqui, então vamos lá. Você sabe que você foi a primeira pessoa do planeta Terra que me falou sobre o Olavo de Carvalho. Naquela época que a gente se conheceu, a gente conversava bastante. Você sabe que eu era muito mais interessado em misticismo, em história, Grécia Antiga e coisas do tipo. Mas realmente o que eu vejo do Olavo pessoalmente é que ele tem muitas influências parecidas com as minhas. Tipo assim, ele se interessou ao longo da carreira dele de intelectual. É claro que aparentemente ele lê bem mais que eu. Eu sou muito mais charlatão e superficial do que ele, mas ele parece se interessar por coisas similares ao que me interessa. Eu realmente confesso que eu não li os livros dele, e não necessariamente pretendo ler. Eu gosto de conhecer. Ele hoje é uma figura política que está falando. Ele tomou para si a missão de ajudar a direita. Tomou. E eu acho que boa parte do que as pessoas conhecem da interface Olavo de Carvalho é esse ativismo político, que então ele escolhe as palavras... mas...
Victor Metta: [22:54] Na verdade, inclusive, quem vê os posts dele vê ele xingar a direita constantemente. Ele fala várias vezes: "essa direita que tem aí é pior que a esquerda." Ele fala umas coisas assim, por quê?
Eron Falbo: [23:04] É, mas Victor, isso eu já vi, sim, mas eu tô falando: as pessoas no geral conhecem ele pela regurgitação da esquerda, que escolhe certas coisas que ele fala publicamente a dedo para mostrar uma certa imagem.
Victor Metta: [23:21] É verdade.
Eron Falbo: [23:22] Então ele, como é uma pessoa desbocada, não esconde isso. Então é fácil você fazer uma edição do material dele para transformar no que você quiser, basicamente.
Victor Metta: [23:36] É que o Olavo que as pessoas conheceram, ele parou de escrever artigos. Ele escrevia artigos para o Diário do Comércio, como é que era na época do Urcuti? Ele começava a desenvolver as ideias, via as coisas, começava a fazer o que ele chamava de diário filosófico. Ia escrevendo. E, de repente, numa semana, ele consolidava aquilo num artigo. O artigo era magistral. E todos os livros dele, praticamente, na maioria, são consolidações desses artigos. Você começa a ler os livros dele da década de 90, O Imbecil Coletivo e por aí vai, e você fala: cara, o cara está falando do Brasil de hoje. Então, a política é um dos aspectos da literatura dele, nem o principal. Tanto que ele não pode ser chamado de ideólogo. Ele nunca deu uma visão do que ele acha que o mundo deveria ser. Ele só discorre sobre valores, fala de ideias. Ele trabalha muito na clave analítica. É uma coisa que as pessoas não conseguem entender muito bem. Quando eu converso com as pessoas sobre uma série de assuntos, elas já partem do princípio que eu estou tomando posição.
Eron Falbo: [24:33] Mas olha, vou te perguntar uma coisa como alguém que é um especialista, vamos dizer, que conhece o Olavo e o trabalho dele há 19 anos, vou te fazer uma pergunta, né? Porque eu vejo ele como ideólogo, no tal sentido, aí eu queria que você explicasse para mim como ele não é. Por exemplo, eu vejo que ele vê a esquerda como uma coisa muito mais consolidada, muito mais consciente do que eu, de fato, acredito que seja. Então acho que ele dá muito crédito para a esquerda, quando, na verdade, boa parte da coisa é, vamos dizer, muita gente que é de esquerda é meio que formante passivo, sabe?
Victor Metta: [25:13] Tem bons aspectos do que você falou. A primeira coisa que ele fala é a seguinte: quem é de esquerda, quem colabora com a esquerda, quem acredita... Quem acredita na esquerda? Ninguém. Lenin chamava o esquerdismo de doença infantil do comunismo. Quem acredita naquele troço? Ninguém. É uma forma de adquirir poder, é uma forma muito interessante. Ele mesmo militou na esquerda, só saiu da luta armada, escondia os caras, levava arma para eles, fazia o diabo. Ele estava, na época, amigo do Rui Falcão, do José Dirceu, era amigo desses caras. Eles pegavam um E junto, fazia esse tipo de coisa. E ele falou que ele saiu o dia que, depois de fazer mil serviços pros caras, os caras mandaram ele justiçar um colega, ou seja, matar um cara. Ele falou: pô, isso não é pra mim, e saiu fora. Em segundo lugar, o Olavo trata a esquerda hoje como um... nada. Ele não acha que ela é o grande problema. Eu concordo com isso. O trabalho que eu tive no MEC, dos grupos que a gente tinha que lutar contra, a esquerda era o mais fraco, mas visível. A esquerda não me incomoda, mas era o mais vistoso. O problema hoje é bem diferente, que eles chamam de globalistas, metacapitalistas. Hoje eles usam a esquerda como tropa de choque deles. A esquerda não é mais relevante.
Eron Falbo: [26:31] Só que mesmo isso, mesmo os globalistas e tudo mais, eles não são tão, vamos dizer, concisos e tão unidos quanto pode parecer. Eu sei que o Olavo, o jeito que dá a entender pelo jeito que ele fala, não é exatamente o que ele pensa de fato. Vamos dizer, é o que a gente está falando agora. Eles se odeiam e lutam contra o outro. Eles derrubam uns aos outros e é clássico da esquerda.
Victor Metta: [27:01] O terrorismo é a mesma coisa. O Hamas e o Hezbollah estão unidos no ódio a Israel. Eles não são combinados. Provavelmente, se puder...
Eron Falbo: [27:09] Então o que ele está falando, para a gente clarificar aqui para o público, que eu acho que é uma visão até interessante... Ele tá falando que é como se fosse um meme, não um meme que a gente tá acostumado a ouvir, mas um meme de Richard Dawkins, que é uma ideia que virou um organismo vivo, né? Que é tipo, ela age por si só, ela tem certas regras, é uma egrégora, uma forma de funcionar. E a gente precisa entender como ela funciona para combater ela, mas não significa que existe um conluio ou uma mesa redonda onde todo mundo se encontra. Não, existem várias diferenças. Sim, isso existe também nos terroristas, de vez em quando eles se juntam em uma festinha sem álcool, os terroristas, os muçulmanos se juntam em uma festinha sem álcool, que já é muito estranho, já dá para suspeitar de alguém que faz uma festinha sem álcool. É complicado confiar no resultado de uma festinha assim, mas eles se juntam, conversam, mas depois isso se dilui, outra pessoa se junta e vai contra isso. É o organismo...
Victor Metta: [28:28] Não é uma combinação. Eles têm algumas características muito interessantes que eu admiro bastante. Uma que eu repito bastante é o centralismo democrático. E eu falo disso constantemente. Por exemplo, eu não gosto do Partido Novo, mas eu admiro algumas coisas da estrutura deles. Eu não gosto, odeio a esquerda, realmente acho que ela é mal encarnada nesse mundo, mas eu acho que tem coisas que a gente tem que aprender com eles. Eu também não gosto de aranha, mas acho que tem coisa que a gente tem que aprender com elas.
Eron Falbo: [28:55] Tem coisa para contribuir.
Victor Metta: [28:57] O centralismo democrático é essencial. Significa o seguinte: da porta para dentro a gente se mata, da porta para fora a gente é amigo. E a gente colabora e segue a linha que foi definida. Qualquer estrutura bem organizada é isso. O que o Olavo fala sobre a esquerda? A primeira coisa, como ele faz uma análise científica, ele fala o seguinte: vamos definir quem é ator e quem é palco, porque as pessoas confundem as duas coisas. O que é um ator político ou um ator histórico, um personagem histórico? A Rússia? Palco. As coisas acontecem na Rússia. Já serviu um grupo, já serviu outro. Porque o que classifica um ator é a continuidade. Você pode dizer que as forças armadas são um ator? Não, porque elas mudam de comando. A maçonaria é um ator?
Eron Falbo: [29:41] Não, desculpa, não é não. Eu sei, o próprio Olavo fala isso, mas eu sei por experiência própria que a maçonaria não é à toa, mas dá o seu argumento, vamos...
Victor Metta: [29:51] Não, tudo bem, seguindo a linha. A lógica a deixar era que, enquanto o grupo maior... Não me refiro só à maçonaria brasileira, mas eles têm uma linha de passagem, eles têm uma sucessão, eles têm um alinhamento de interesses que transcende a vida dos seus membros.
Eron Falbo: [30:06] Mas não, eles inclusive têm no estatuto e têm regras muito claras contra esse tipo de coisa. Inclusive, eu acho que o maior argumento para isso é que historicamente muitas maçonarias, muitas lojas foram inimigas mortais de outras lojas. Então, sei lá, durante a Revolução Francesa grandes maçons eram pró-revolução, outros grandes maçons eram totalmente contra. Agora, em outros momentos, por exemplo, contra o nazismo, porque Hitler proibiu a maçonaria, eles eram como qualquer organismo, igual a Rússia não se protegeria de alguém que declarou guerra contra ela mesma?
Victor Metta: [30:53] Os maçons são tão grandes que eles estão geralmente dos dois lados de todo conflito.
Eron Falbo: [30:57] Eu acho isso uma injustiça da direita brasileira contra a maçonaria. Eu entendo todas as críticas que tem com a maçonaria, inclusive a maçonaria moderna é muito diferente da maçonaria de Dom Pedro I. Degringolou muito e a coisa perdeu muito poder e talvez eles abriram as pernas de muitas maneiras, como qualquer instituição que está falindo. Como qualquer instituição que um dia teve poder e esteve no centro do mundo e hoje em dia meio que fringe, marginal. Comparado com outras maiores instituições. Mas eu, por ter participado pessoalmente da maçonaria, eu gosto de ser justo, entendeu? Eu não estou defendendo nenhum lado e eu realmente gosto da minha própria perspectiva.
Victor Metta: [32:02] Eu não tenho nenhuma visão sobre a maçonaria, nem um pouquinho a respeito dela, só especificamente o que é, só passar o conceito, né? Ou seja, o movimento comunista... O nome dele já é "movimento comunista", ele tá sempre em movimento. Houve uma época que eles defendiam algumas coisas, hoje eles defendem outras. Meu, ano passado os caras defendiam fronteiras abertas. Esse ano virou fronteiras fechadas. Você percebe o quanto eles mudam de posição rápido? Na época do Che Guevara, do Lenin, os caras eram anti-gays.
Eron Falbo: [32:36] Você é parte daquele grupo Acorda Brasil do deputado Luiz Felipe de Orleans e Bragança. Pô, deveria ser muito legal. Eles mandam umas coisas tipo isso. Mandam notícias que às 23h59 tem uma notícia X. Aí, meia-noite, da mesma fonte, tem uma notícia oposta.
Victor Metta: [33:01] Porque eles são um movimento, e eles estão vinculados aos seus objetivos, e tudo isso é meio. Então, se hoje eles falam pra você botar uma máscara, e outro dia, ó, vamos lá, tem leis falando que era proibido você cobrir o rosto pra entrar numa loja. E agora, você nunca viu? Em São Paulo tem isso aqui, ó: proibido entrar aqui com capacete ou qualquer coisa que cubra o rosto. Do lado: use máscara. As coisas mudam. Quando você muda a conduta de uma pessoa uma vez, subverte a realidade, a natureza dela; é muito mais fácil fazer uma segunda vez, e uma terceira, e uma quarta, e uma quinta. E todo mundo sabe dos estudos de Pavlov, né? Lembra o Ivan Pavlov, do estímulo condicionado?
Eron Falbo: [33:37] Lembro, lembro.
Victor Metta: [33:37] Ele ia lá, dava uma carnezinha e tocava a sineta. Aí o cachorro começava a salivar. Ele fazia isso tantas vezes que o cachorro começava a salivar em antecipação. Ele tocava a sineta, o cachorro ia falar: opa, vai vir comida. Começava a salivar.
Eron Falbo: [33:52] É, eu com o celular, toco o celular e já fico paranoico, estressado. Quem tá me ligando?
Victor Metta: [34:00] Mas ninguém sabe que, na verdade, ele foi contratado pelo Stalin para fazer a continuidade do trabalho. Isso poucas pessoas sabem. E, nessa hora, ele começou a desenvolver outras linhas. Ele começou a dar uma dissonância no cachorro. Então, ele tocava a sineta e, em vez de dar carne, dar comida, ele dava uma bronca no cachorro. Ou ele tocava a sineta e dava carne. Aí, na vez seguinte, ele tocava a sineta e jogava um banho de água fria no cachorro. Aí, ó, pegou esse cachorro, ele perdeu a capacidade de aprender. Ele começou a inverter as coisas, porque ele ficou tentando buscar sentido. E na tentativa de buscar sentido, ele começou a inverter. Então, quem vinha fazer carinho nele, ele mordia. E quem vinha bater nele, ele se deixava acariciar. É exatamente as pessoas hoje. A gente tá vendo isso contraditório o tempo todo. É uma post que eu fiz hoje no Twitter. De manhã eu tava conversando com o empresário e o cara tava preocupado que alguém próximo a ele fez algum ilícito tributário e que isso poderia gerar uma responsabilidade penal dele. Ou seja, o empresário hoje tá cagado de medo de tomar processo criminal. E o bandido? O bandido tá sendo solto a baseada. O STJ soltou todos em uma sequência. Todo mundo que tem filho menor. Todo mundo que tem filho deficiente.
Eron Falbo: [35:18] Eu vejo isso muito, cara, muita gente assim, especialmente artistas, vamos dizer, galera cultural, né, que cai muito mais, que é muito mais vulnerável ao discurso da esquerda, vamos dizer, não necessariamente esquerdista consciente, porque muitos dizem que não são, né, mas eles são muito mais vulneráveis ao discurso esquerdo. E como eu vim, né, eu já fui músico muitos anos, como você sabe, eu tenho muitos amigos que são assim, né, então... Oi?
Victor Metta: [35:47] Eu ainda ouço você.
Eron Falbo: [35:49] Obrigado. Você é uma das poucas pessoas tipo sei lá Frank Sinatra que ninguém mais escuta. Mas obrigado pela honraria. Mas inclusive está disponível no Spotify. Não ganho nada com isso. Mas muita gente, já perdi muito. Sabe que agora eu sou solteiro. Então gostaria de anunciar isso publicamente, pra todo mundo saber. Mas, pô, já perdi muitas, vamos dizer, possibilidades amorosas, né? Por ser, sei lá, por me vestir de terno, que é uma coisa que... Então, pô, as pessoas imediatamente me identificam, pô, me chamam de bolsominion, sendo que eu nem voto, né? Pô, eu sou uma pessoa que boicota o voto há muitos anos por não acreditar que seja uma coisa que realmente acontece da maneira que é divulgada acontecer. Além de se mostrar que isso... Você...
Victor Metta: [36:52] Acha que o voto é mal contabilizado, não contabilizado, mexido?
Eron Falbo: [36:57] Entre outras coisas. Eu não acho isso porque não tenho informação suficiente para alegar isso. O que eu realmente acho é que a gente como povo está numa camada da sociedade que a gente não tem acesso à informação para fazer esse tipo de decisão, sobretudo no presidencialismo. Porque no parlamentarismo, pelo menos, você vota no parlamentar, que você está mais ou menos por dentro do que está acontecendo regionalmente. E aquele parlamentar vota por você numa assembleia maior. Dentro do presidencialismo, você está votando numa pessoa que está muito além do seu alcance intelectual, do seu alcance de informação. Você não tem informação suficiente para fazer uma decisão daquelas. Platão fala sobre isso, que esse é um grande problema da democracia, que é uma arena de demagogia, é um solo fértil para a demagogia, que você pode pegar pessoas que são ignorantes e alimentar para elas discursos que elas não vão saber contradizer, que elas não vão saber sair daquela armadilha e, por isso, vão entrar numa onda e isso, na verdade, é tudo isso que a gente está conversando.
Victor Metta: [38:17] A democracia é populista, cara. É uma desgraça.
Eron Falbo: [38:21] E por isso eu boicoto, porque eu realmente boicoto, porque eu acredito que é um sinal de humildade você entender que eu não sou, vamos dizer, alguém sem educação. Graças a Deus eu tive o privilégio de sempre estar em boas escolas, universidades e cursos, e ter amigos como você e esse tipo de coisa. Então, se eu sou uma pessoa que consigo, sendo honesto, olhar para a democracia e dizer, com toda a sinceridade do mundo, eu não tenho informação suficiente para decidir entre até Haddad e Bolsonaro. Porque, na verdade, se eu botasse uma arma na minha cabeça e falasse: você tem que escolher entre Haddad e Bolsonaro, a única razão que eu escolheria Bolsonaro é porque o slogan do Haddad era Haddad é Lula. E não é porque eu odeio o Lula, porque também não tenho informação suficiente para odiar o Lula, apesar de ter uma tendência de achar que ele realmente é totalitário e coisas do tipo. Mas eu nunca poderia, em princípio, votar num líder que não é líder, que na verdade é um seguidor. Então, no momento que um líder do país coloca que ele é seguidor de outra pessoa, e isso desqualifica ele como líder.
Victor Metta: [39:42] Cara, as pessoas são executoras ou elas são formuladoras? Raramente você funde na mesma pessoa essa visão. Acho que talvez o Stalin foi um cara que fundiu as duas.
Eron Falbo: [39:57] Tá elogiando o Stalin?
Victor Metta: [39:59] Não tô elogiando, tô fazendo uma discussão analítica. Lembra que eu falei? Essa aula que eu tô defendendo, eu faço discussão analítica, eu tô analisando, tô dizendo.
Eron Falbo: [40:07] Agora está registrado que você defendeu o Stalin, e eu vou divulgar isso como meme. Stalin.
Victor Metta: [40:15] Então, o Stalin e o Napoleão, com certeza. Mas o Obama, você acha que o Obama era um formulador de alguma coisa? Porque ele seguia, ele só repetia o que obrigou a outras pessoas. Eu acho que o Dória é um cara que perguntava: Dória, quais são suas influências? Ele falou, não tenho. Por que não tem? Ele só não sabe quem são. Uma parte das pessoas segue filósofos que...
Eron Falbo: [40:35] Ele nunca ouviu falar.
Victor Metta: [40:36] Esse é o negócio. Então, o cara segue a ideia do John Stuart Mill e ele nunca ouviu falar de John Stuart Mill, mas ele é o utilitarista.
Eron Falbo: [40:43] Inclusive, é o problema, né? Porque se ele tivesse, muitas vezes, lido a fundo do John Stuart Mill, ia perceber que o John Stuart Mill, pô, às vezes, o próprio John Stuart Mill não ia concordar com ele mesmo, ele tava expondo... Vou contar um.
Victor Metta: [40:54] Negócio engraçado pra você. Uma vez, um cara chegou pra mim, começou a me perguntar um assunto super bastidor de Brasília, num negócio que eu tava vivendo, e... Eu cheguei pra ele, olhei e falei: cara, precisa de uns minutos aí pra te explicar isso aí. Você quer realmente saber? Ele falou: não, não quero saber, eu só quero que você me diga. Foi basicamente o que ele quis dizer. Me dá uma resposta aí, vai, eu vi no jornal e eu quero que você me diga alguma coisa a respeito. Eu falei: ah, então eu não vou perder meu tempo, obrigado. Ele quer uma resposta fácil. Uma parte das vezes as pessoas querem uma resposta fácil pro assunto, que é difícil, cara.
Eron Falbo: [41:25] Que é o problema da democracia. Não, eu sei, mas eu tô dizendo: o problema da democracia é que você tá dando muito poder para a maioria das pessoas, e ainda mais muita informação, que é difícil de gerir. Tanto que eu fiz um curso recentemente de assessoria de campanha política com... esqueci o nome dos caras, mas era um cara do Partido Democrata e outro do Partido Republicano americano. Um era o responsável pela campanha do Trump, outro era o responsável pela campanha do Obama. Então era gente gigante. E eles falam: cara, você vai fazer uma campanha presidencial, você tem que ter um slogan muito simples e prático, ou seja, uma coisa que você defende.
Victor Metta: [42:15] Por quê?
Eron Falbo: [42:15] Porque as pessoas não conseguem digerir uma coisa mais complexa que isso.
Victor Metta: [42:18] Exatamente.
Eron Falbo: [42:19] Então, como é que você pode basear uma gestão de um país infinitamente mais complexo do que uma empresa? Por exemplo, imagina a Petrobras falando para os funcionários deles: a nossa missão é X, e só X. Mentira, eles têm um milhão de missões, etc. Eu tenho uma resposta para você.
Victor Metta: [42:47] Eu tenho uma resposta. Vamos lá, isso se chama wisdom of the masses, né? Então a gente percebe, depois de algumas experiências ditatoriais que deram muito certo ou deram muito errado, porque o melhor regime do mundo é uma boa ditadura e o pior regime do mundo é uma má ditadura. Sem dúvida quanto a isso. A democracia é a escolha pela mediocridade. Mas você sabe que as pessoas, quando você bota a massa para decidir alguma coisa, elas dificilmente vão para o extremo. Então elas não jogam nem para um extremo nem para o outro, como se fosse aquele dito, que duas democracias nunca entraram em guerra. Então é uma escolha pela mediocridade, mas é uma escolha consciente. As pessoas tendem a ir para o centro do debate. Você tende a fugir um pouco desse extremismo. Entretanto, tem uma outra coisa para ser dita. Essa ideia de que a gente fala, de que o povo, a voz do povo e tudo mais, a gente não pode acreditar nisso aí. Quem trabalhou um pouquinho em campanha vê que há mil outras ferramentas. É que nem dizer que o povo gosta de beber coca. O povo foi ensinado a beber coca numa campanha muito bem feita.
Eron Falbo: [43:50] Claro, claro.
Victor Metta: [43:51] Então aí é mais ou menos a mesma coisa. Você tem ótimas pessoas que não têm dinheiro e não têm condições, porque não têm um projeto político para juntar o dinheiro necessário para fazer o que precisam. Se você consegue dar dinheiro para esses caras, você... não pode. A prova disso é verdade.
Eron Falbo: [44:08] Sim, sim. Aí você está entrando nas lacunas de informação que o povo tem. Então eu concordo com você, inclusive o judaísmo é baseado nisso, num espírito democrático de que, no momento de dúvida, o povo sempre vai... Tanto que, na Torre de Babel, Deus não pôde destruir... Na Bíblia, Deus não pôde destruir a Torre de Babel. Por quê? Porque a humanidade tava unida, a humanidade tava construindo a Torre de Babel juntos. Então o que Deus teve que fazer? Teve que inventar várias línguas pra desunir a humanidade, pra poder destruir a Torre de Babel.
Victor Metta: [44:46] É o princípio da medida por medida, né? Ou seja, Deus não castiga a gente, Deus dá consequência dos nossos atos. Uma coisa importante é a gente distinguir entre punição e consequência. Então, se o cara tá sem cinto no carro e um guarda vai e multa ele, isso é uma punição. Agora, se o carro bate e o cara se machuca sem cinto, isso é consequência. O que Deus faz com a gente, a gente acha que é punição, mas é consequência. Ele não quer o nosso mal, não quer nos castigar.
Eron Falbo: [45:12] É isso que eu ia falar, morrendo de medo de a gente entrar no judaísmo e cair num buraco sem fim de perplexidade. Mas você sabe que a gente é capaz de ir longe nesse assunto. Todo dia a gente faz uma live só sobre isso, pra gente ver até onde a gente chega. Mas vamos falar um pouquinho sobre a campanha do Bolsonaro. Conta um pouquinho da sua história. Como é que você começou com isso? Quem te chamou? E qual foi sua participação? O que eu gostaria de saber, principalmente, é o que a visão pública é, e o que, na verdade, é, entendeu? Tá, vamos lá.
Victor Metta: [45:58] Em 2015, eu já tinha certeza que o Bolsonaro ia ser o próximo presidente do Brasil. Eu olhava pro cara e eu percebia isso. E eu tive certeza absoluta naquele discurso do Ustra. Quando todo mundo falou: olha, o cara tá acabado, agora ele se ferrou, eu falei: nessa hora ele foi contra um cânone máximo da política, e o povo tava querendo isso. Porque eu sei que o povo oscila, né? Depois de uma Dilma, você pode ter um Bolsonaro. Depois de um Obama, você tem um Trump. Depois de um Menem, você tem um De la Rúa. Depois de um presidente espalhafatoso, você tem um bundão. Depois de um bundão, você tem um espalhafatoso.
Eron Falbo: [46:32] Ciclos.
Victor Metta: [46:33] Ciclos. Identifiquei esse ciclo. Em 2016, um amigo meu liga e fala assim: cara, você gosta do Bolsonaro? Eu falei: pô, cara, gosto. Pô, então, eu conheci ele na balada, o Eduardo Bolsonaro, é um amigo que vem aqui em casa, eu vou te apresentar pro pai dele. Falei: caceta, que legal, vou, não vou perder por nada. Fui lá, conheci, foi um encontro com empresários, foi interessantíssimo. E é interessante notar que boa parte dos empresários torceu para o cara.
Eron Falbo: [46:59] Para o Eduardo ou para o Jair Messias?
Victor Metta: [47:03] Para o Jair Messias. Alguns dias depois, foi a vez do Dória, e os empresários adoraram ele, ficaram... E a impressão que eu tive foi a seguinte: nossa, um cara... Tava de gel, né, pô? É, o cara mais verdadeiro, chucro e cru que eu já vi, né? Mas ele era exatamente aquilo que você estava vendo. E o outro cara era um bonequinho de plástico, que falava tudo conforme um script, tudo um homem falso.
Eron Falbo: [47:31] Que nem eu.
Victor Metta: [47:32] Não, você é um cara, você é um beijo. E aí, beleza. E eu olhei pro Bolsonaro e falei: meu, o cara vai chegar lá de um jeito ou de outro, eu quero que ele chegue bem, porque aparentemente ele tá chegando sem estrutura e vai chegar mal. Ele vai chegar sem assessoria, sem entorno, tudo mais. Tinha pessoas no entorno que eu gosto, obviamente, mas precisa de muito mais se você é presidente da república, né? E aí eu comecei a chegar pro Eduardo e falar: pô, Eduardo, a gente tem que montar alguma coisa, tem que estruturar alguma coisa e tal, tudo mais, e ele sempre resistente a apoio, né? E aí marcava pra conversar e falava uma série de coisas. Uma vez eu cheguei pra ele e falei assim: Eduardo, você tem quatro mil amigos? A gente tava almoçando. Ele falou: não. Eu falei: então você não vai governar, você tem que ter base, cara, você tem que ter estrutura. Mas eles nunca gostaram muito desse tipo de coisa. Eles acreditam mais no voluntarismo, sabe? É uma pessoa, é uma comissão. Eu só acredito em grupos e estruturas, não acredito em pessoas. E aí, lá pelo finalzinho de 2017, eu já estava percebendo... Você está dizendo a.
Eron Falbo: [48:25] Família, a família Bolsonaro?
Victor Metta: [48:27] Qualquer grupo, qualquer estrutura que seja, mas ninguém chega sozinho em lugar nenhum. Você até corre um pouco na frente, mas você não chega. E aí, final de 2017, eu já percebi que não tinha nada acontecendo e comecei a me mexer para a coisa acontecer. Comecei a descobrir quem era a pessoa que estava organizando as coisas para ele, descobri a menina, pessoa sem experiência na política também. E um belo dia me ligou o Eduardo e falou: você queria dar uma ajudada, né? Pô, então conversa com as meninas Tau e tal, que elas vão te ajudar. Aí eu falei: beleza. Encontrei com elas, comecei a conversar. E aí: o que a gente é? Não, a gente é... Eu falei: a gente? É a gente que tá organizando o estado de São Paulo inteiro? Caceta! Não pode ser! Não tem mais ninguém? Não tem alguém que manja de política? Alguém que sabe do que tá fazendo? Não, não tem. Eu falei: é brincadeira, velho, não pode ser uma coisa dessa.
Eron Falbo: [49:12] Então não tinha o Roger Stone? No Bolsonaro não tinha o Roger Stone?
Victor Metta: [49:16] Não tinha um Roger Stone, não tinha ninguém, não tinha nada. Estava uma desgraça. Eles não tinham ninguém no Estado de São Paulo organizando uma estrutura. Eles não acreditam em estrutura. São avessos a isso, num certo sentido, além de política.
Eron Falbo: [49:30] Quem é avesso a isso? A família Bolsonaro?
Victor Metta: [49:33] Sim, curta é isso. E aí eu comecei a ver que não tinha ninguém organizando estrutura partidária, que não tinha ninguém organizando os cabos eleitorais, ninguém organizando lista de nominatas, que eram os candidatos que a gente ia lançar. E uma hora eu percebi que faltava um mês para lançar o prazo de nominata e não tinha ninguém fazendo. Você fala: caraca, velho, eu acho que é com a gente. E aí eu comecei a pegar e ligar para os deputados, que hoje são deputados, mas gente na raça. Eu não tinha nem o cargo plenamente definido ainda. Eu tive que pegar o avião para Brasília com o meu bolso. E bati na porta dele, ficava esperando horas para eles atenderem naquele lugar horroroso que chamam de favelão, que é onde ficam os gabinetes mais feios dos deputados, e falei: cara, a gente está organizando um partido, por favor, eu preciso que você me dê um cargo para eu conseguir fazer alguma coisa, né? As pessoas estão falando com quem? Com o Victor. De quê? E aí eu comecei a fazer erros e acertos. Então, naquele momento, eu chamei todo mundo na sala de reunião do meu escritório. Eu comecei a chamar as pessoas para o partido. Eu tive gratas surpresas com o Luiz Felipe, por exemplo, que estava no Novo nessa época.
Eron Falbo: [50:36] E também o Frota.
Victor Metta: [50:38] Também o Frota, cara. Vou te falar o quê? Eu dizia, né? Eu, que ninguém me dava missão, eu falava, eu queria fazer o partido daqui até aqui, do Príncipe até o Frota. Eu queria estender essa linha do que era a direita. E foi um erro brutal, né? Chamamos a Joyce, chamamos o Frota. Em um mês, a gente, sem experiência nenhuma, ligando na raça. A gente escreveu lá Bolsonaro Artista, viu os nomes no Google e começamos a fazer ligação. A gente fechou 200 candidatos do partido. Nós tínhamos 26. Tinham três pessoas para tocar o estado de São Paulo inteiro. No final, eu acabei me afastando do escritório para conseguir tocar esse ano, porque eu vi que ninguém estava fazendo nada de campanha, nada. Todo mundo estava tocando sua própria campanha. Ninguém estava tocando a campanha do homem ou partido de superação.
Eron Falbo: [51:21] E uma coisa que eu gostaria de dizer, assim, por te conhecer pessoalmente, é que acho que vale esse reconhecimento que talvez você, não sei se você já teve publicamente, mas é que eu sei que você fez isso às custas pessoais. Então você largou seu próprio escritório de advocacia e ninguém... vamos dizer que você tinha salário e tudo mais, você era tesoureiro do PSL. Você não era tesoureiro do PSL?
Victor Metta: [51:52] Eu era tesoureiro do PSL, mas nunca tive salário.
Eron Falbo: [51:54] Não, eu sei. Então, você nunca teve salário, pior ainda. Mas eu tô dizendo, tipo, independente disso, mas com o ministro você ganhou alguma coisa, mas isso é irrisório perto do que você ganhava com seus escritórios, seus clientes e tudo mais. Então, pra deixar registrado, o Victor Metta aqui, meu amigo. Então, claro, eu também tô me vangloriando por ser seu amigo, mas... ele deixou tudo de lado por ativismo político, por realmente acreditar que o Brasil precisava de uma mudança, precisava de uma voz diferente. Ele deixou de lado o ganha-pão dele, e ele tem uma família grande, linda, a família que eu tive o privilégio de estar junto várias vezes, espero que a gente esteja junto em breve de novo. E, cara, não é fácil isso pra ninguém. Tipo, eu sei como é que é isso, você ter que ter o seu ganha-pão todo mês e sustentar sua família. E você deixou isso de lado pra ser ativista político e realmente fazer uma diferença no Brasil, e continua com esse mesmo espírito. Só queria deixar isso registrado.
Victor Metta: [53:07] Obrigado, amigo. Não foi um caminho smooth, tá? Dia sim, dia não, eu queria largar. Mas... não tem problema, é muito duro, você tinha que lutar contra os inimigos e também contra a desorganização. Teve uma reunião lá na SBT uma vez, o pessoal da SBT perguntou ao presidente, que na época era candidato: o que a gente fala sobre questão de entrevistas, matérias? É comigo mesmo. E quem que a gente fala sobre o Zé Veiga? É comigo mesmo. Aí uma hora os caras começaram a chorar: e quem que cuida da tua parte de agenda? É comigo. O presidente comprava as passagens pelo celular, ele mesmo. Você entendeu o nível da chinelagem? Porque o termo é esse, chinelagem. E no começo eu achava interessante, marcante e tal, depois eu comecei a odiar isso, odiar, odiar. Porque isso dá um peso violento em torno das pessoas em volta, né?
Eron Falbo: [54:01] Claro, aquela equipe.
Victor Metta: [54:02] É, você começa a se ferrar, a correr atrás.
Eron Falbo: [54:04] Porque ele provavelmente não soube, ou tem alguma coisa que não soube delegar, não soube criar equipe, não soube...
Victor Metta: [54:14] Não delega, não delega. Ele não tem a cultura organizacional. Mas é uma pessoa de boa índole, bom coração, uma pessoa que eu olhei e falei: pô, é esse aí, vamos ajudar.
Eron Falbo: [54:23] Até porque na política a gente não escolhe, isso é outro problema da democracia, inclusive. E, by the way, deixa eu deixar registrado também que eu não sou contra a democracia. Eu também, assim como o Churchill... O Churchill era um monarquista que defendia muito o espírito democrático. Eu sou assim também. Eu acredito em monarquia constitucional parlamentarista. Mas eu vejo que esse é um dos grandes problemas: que a gente não está escolhendo entre todos os cidadãos, a gente está escolhendo entre as pessoas que têm possibilidades políticas. Então a gente está escolhendo entre o Haddad e o Bolsonaro, a gente não está... Entendeu? Então, na hora de criticar o Bolsonaro, tem que considerar a alternativa.
Victor Metta: [55:07] Digo mais, o fato da gente estar escolhendo entre essas duas pessoas fala muito mais sobre a gente do que sobre eles. Quando você vê, por exemplo, quem sobrou para São Paulo, quem são as pessoas que estiveram interessadas em gerir São Paulo, você fala muito sobre São Paulo. A gente colocou a cidade numa arapuca, numa ratoeira, que eu não acho que seria bom, por exemplo, para um cara como o Luiz Felipe assumir. É um lugar pra encerrar a carreira, é um lugar pra começar, é um lugar que você tá dependente do Estado. Não é um lugar que você tá livre pra fazer suas políticas, só se for pro lixo. O lixo faz. Uma coisa boa é mais difícil de fazer. No final das contas, se você não tá muito fã da democracia, e eu também tenho mil críticas a ela, eu vou te dar uma boa notícia. Jesus! Não, a democracia acabou, cara. Acabou. A democracia virou um simulacro, virou um fetiche, e virou uma estrutura, uma superestrutura burocrática, só. Ela não serve para representar a vontade do povo, muito pelo contrário, ela serve para calar a boca do povo. Antigamente, você tinha um rei, e se você não gostava dele, você podia matar ele. Podia, moralmente. Então, você era um zumbador, um idiota, um lixo, e você matava ele. Depois que eles desconvenceram você que ele era Deus, você podia fazer o que você quisesse com ele. Ele não tinha legitimidade. E o fiscal do ICMS, você se sentia livre para matar ele também, porque ele era um ladrão. Se você pudesse, você matava. Hoje em dia, eles têm legitimidade. Legitimidade. Porque você pode fazer parte desse jogo, se você quiser. Você pode prestar um concurso, você pode se eleger político. Então você fala: não, não posso fazer, não posso montar a fiscal do ICMS. O negócio, eu não estou advogando que você faça isso, obviamente. Mas nem intuindo, nem apologiando, nem nada. Mas tá sugerindo: o governo atual, os governos atuais, é que eles contam com esse suposto consentimento, com essa legitimidade. Então isso permite que eles façam o que eles querem, e ninguém vira e fala: isso é ilegítimo, vou lutar contra você. Ele diz que tá do lado da massa, que ele é o representante eleito.
Eron Falbo: [57:10] Bom, eu tenho mil coisas a dizer sobre isso, mas vamos tentar falar um pouquinho mais sobre a história da campanha em si, tá acabando o tempo, né? Se você puder continuar.
Victor Metta: [57:22] Ó, vou te contar uma coisa interessante: não teve uma campanha. O que a gente teve foi uma sequência de viagens, caótica, sem organização. Campanha significa quando você tem uma mensagem para um público específico, com um pessoal de marketing, com uma organização, com uma coisa por trás, com uma ideia.
Eron Falbo: [57:41] E quem bancou isso? Quem bancou essas coisas? Quem bancou marketing digital?
Victor Metta: [57:45] A campanha foi feita uns seis anos antes. Ele estava seis anos antes de queremos ser presidente, estava seis anos antes rodando no Brasil, falando com as pessoas. Quem trabalha antes não precisa trabalhar depois. Tem aquele cara que surge hoje e fala: não, agora eu vou ser prefeito. Tudo bem, meu amigo, quem sabe quem é você? É bom você botar bastante dinheiro, é bom você fazer uma campanha bem organizada. O Bolsonaro já estava rodando, ele já estava no imaginário popular, ele já estava fazendo trabalho na internet, então não teve campanha. O valor gasto da campanha, acho que foi 2 milhões de reais, se não me engano. O PSL de São Paulo, acho que foi 200 paus. Não tinha dinheiro. Isso de doações da galera, eu peguei, botei aqui, pedi pra cada um, me requinha. Não teve propriamente uma campanha. A gente gastava as coisas do bolso. E tudo dentro da lei e tudo mais, a gente ia ficar alertando as pessoas, agradecia, ajudava os candidatos. Tudo isso contribuiu. Quem é que faz a campanha? Os candidatos fazem a campanha. Você pega lá a sua chapa de 200 candidatos, porque esses caras estão fazendo a campanha do presidente, esses caras estão fazendo a campanha dos deputados, do senador. Todo mundo se dobrando. E teve um movimento fortíssimo. Quando eu fiquei sabendo quanto a gente elegeu, eu não acreditei. Eu esperava metade disso, metade. A gente elegeu 15 estaduais, 10 federais e um senador. Tivemos participação, ajudamos. Sabe que por dois dias a gente não ia ter ninguém desses eleito, né? Nem o Eduardo, nem a Joyce, nem o Frota, nem o Príncipe, nem ninguém, porque o partido estava com um bloqueio na justiça. A gente teve que pegar lá, fazer mil esquemas, correr com a ação, advogado, pagar a multa, fazer o diabo a quatro. Foi uma correria, senhor Eduardo. Eu lembro que o major Olímpio chorava quando saiu eliminado. Ele não ia concorrer, ele chorava. Teve mil coisas assim.
Eron Falbo: [59:34] Por que o Príncipe não foi vice-presidente? Qual que é a verdade sobre isso?
Victor Metta: [59:38] Quer saber mesmo? Isso é pesado. Nunca falei isso antes em público, mas eu vou falar agora, e aí, bora. Na minha humilde visão, foi um golpe do Bebianno. Eu não vi isso acontecer, no certo sentido. O Príncipe era o cara que o presidente estava querendo escolher.
Eron Falbo: [1:00:00] Que é o certo, né?
Victor Metta: [1:00:03] É o certo. Era um cara correto, um cara bom e tudo mais, mas eles não tinham muita interação, e tal. O Bebianno e o outro lá, eles estavam sempre correndo em volta, sempre falando com todo mundo que estava na frente, quem que é os outros. E começaram... o próprio Príncipe falou isso aí, os caras ficavam pedindo, eu juro, a fidelidade, porque a gente se estressou com eles. Aí foram falar com a Janaína, a gente se estressou com eles. Mas eles iam ferrando cada um dos candidatos porque, no final, o Bebianno queria ser o candidato. O Bebianno queria ser. Eu tava participando e via as cagadas que eles faziam com os outros possíveis candidatos. Tentaram ferrar com o Mourão. No dia seguinte que eles colocaram no placar o Mourão, eles tentaram ferrar. Com mais tempo, e não gravado, eu tinha... contaria com muito mais detalhes isso aí que eu vi acontecer. Mas o Bebianno não era o cara que ele queria ser, visto que ele ia atirando um atrás do outro para sobrar ele. Ele sabe exatamente como o presidente ia reagir quando estava pressionado. Então eu vi esse tipo de coisa acontecer na minha frente, estava junto, e bem... muito mal.
Eron Falbo: [1:01:03] Mas tudo bem, né? Bom, eu concordo. Você sabe que eu sou ultra fã do Luiz Felipe de Orleans Bragança. Eu acredito que ele é realmente uma pessoa que, como você, na verdade se sacrificou, porque ele se expôs de uma forma que a família nunca tinha feito. Então ele é filho do Dom Eudes, que é uma pessoa com o mesmo tipo de característica, que sempre protegeu o resto da família, sempre tentou direcionar. Inclusive, eu acho que o sucessor de Dom Pedro II mesmo é o Dom Eudes, e depois o nosso príncipe Luiz Felipe de Orleans Bragança. Então é muito legal ver, numa live que eu estou fazendo, quem sou eu: sou um Zé Ninguém de lugar nenhum. Mas eu tenho esse grande privilégio de estar com pessoas de ver mais longe por estar em pé no ombro de gigantes. E acabou o nosso tempo hoje, mas eu queria te intimar para a gente fazer uma parte 2 dessa conversa, que acho que tem muita coisa ainda para explorar, sobretudo sobre a história da campanha e tudo mais. Muito obrigado pela abertura. Obrigado por aceitar o convite. Obrigado por ser meu amigo há tantos anos. E por favor, venha para o Rio de Janeiro para a gente juntar as crianças. Eu sou sócio de um bom clube aqui onde elas podem brincar. E vai ser muito legal.
Victor Metta: [1:02:38] Valeu, cara. Obrigadão. Tamo junto. Enquanto você quiser.
Eron Falbo: [1:02:42] Valeu, Victor. A gente se fala. Boa noite. Tudo de bom. Shabbat shalom.
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