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#22 A alquimia das bebidas

com Marco de La Roche · 20 de out de 2020

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Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Abertura e apresentação do convidado (0:00)

Eron Falbo: [0:06] Boa noite, galera. Hoje a gente vai falar com o Marco de La Roche, especialista em Mixology. Fala, Marco!

Marco de La Roche: [0:15] Tudo bem?

Eron Falbo: [0:15] Beleza, cara?

Marco de La Roche: [0:17] Como é que você tá?

Eron Falbo: [0:18] Beleza, graças a Deus, cara.

Marco de La Roche: [0:21] Tudo certo.

Eron Falbo: [0:22] Tô tentando mostrar aqui meu bar amador.

Marco de La Roche: [0:28] Estamos aqui com os nossos barzinhos. Deixa eu ver o que você tem pra mim.

Eron Falbo: [0:33] Não tem muita coisa não, na verdade aqui também acaba muito, né? Porque a galera vem aqui em casa, você já viu, né? Aí acaba um, vai o outro...

Marco de La Roche: [0:44] O meu bar tá totalmente lacrado, né? Esse espaço que eu tô, a gente montou essa semana. As garrafas tão esperando aqui os meus amigos pra chegarem nos próximos dias.

Eron Falbo: [1:00] Mas você está fazendo uns Get Together em casa ou você está entocado? Como é que está?

Marco de La Roche: [1:06] Cara, eu passei quatro meses entocado no sítio, na Serra da Bocaina, e voltei um pouco atrasado. Então, assim, primeiro que eu não estou com essa sede de sair, como está todo mundo, que eu entendo, né? E eu também demorei para entender o que estava acontecendo na prática, assim, como é que é colocar máscara, como é que é colocar um tubo de álcool para tudo quanto é lado. Então agora eu já estou me protegendo.

Eron Falbo: [1:34] Então eu vou fazer uma introduçãozinha aí para todo mundo saber aí o que está acontecendo e aí a gente começa um bate-papo, pode ser?

Marco de La Roche: [1:48] Bora!

Eron Falbo: [1:50] Beleza, pessoal, sejam bem-vindos. A gente está aqui com o especialista em Mixology, o Marco de La Roche. Ele tem uma agência de consultoria sobre Mixology, que é o Drink Lab. Já fez mais de 800 palestras sobre Mixology. Ele é o editor do site Mixology News, ou seja, é um cara que entrou muito, muito fundo nesse assunto de Mixology. É um grande prazer ter você aqui com a gente hoje. É muito raro isso, porque esse assunto, tem gente que não sabe nem o que é, então saber tudo sobre o assunto é muito raro mesmo.

Marco de La Roche: [2:29] Eu estou trabalhando com o mercado de bebidas há 18 anos, e hoje essa coisa da coquetelaria passou a ser, para mim, muito mais cultura, história e vida, muito mais do que técnica, colecionar informações. Quero saber o que provei, o que gostei, de onde veio, quem fez. Então, acho que conversa muito com essa nova geração que está querendo ter um bar de verdade em casa.

Cultura e boom da coquetelaria (2:30)

Eron Falbo: [3:04] É como se fosse uma alquimia, você entender sobre os aromas, os sabores, os efeitos sensoriais que causam. Isso, na verdade, que me fez me interessar também pelo Mixology, foi recentemente. Eu queria até te falar assim, eu tenho assistido bastante vídeo seu no YouTube, e pô, dá pra ver, não sei se você já fez curso disso, mas você fez mais de 800 palestras, você se comunica tão bem, é uma pessoa generosa, calma, aberta, assim, pô, muito legal mesmo, e você foi super generoso e aberto também por ter aceitado esse convite, eu agradeço bastante.

Marco de La Roche: [3:49] Eu agradeço e queria complementar dizendo que, assim, embora a gente não se conheça pessoalmente, eu tenho acompanhado suas lives e é de uma riqueza incrível. As pessoas que você traz, me sinto honrado aqui e tenho aprendido muito no campo das ideias, da filosofia, que eu gosto tanto também.

Eron Falbo: [4:11] Então, obrigado pelo convite. Muito obrigado, muito obrigado. Realmente significa muito esse elogio. Muito obrigado. Então, a gente continuando, falando sobre fazer drinks, fazer festinhas em casa, esse tipo de coisa, é uma coisa que é o momento, o momento para isso. Eu acho que, independente da pandemia, já era uma coisa que estava sendo desenvolvida pelo YouTube, porque tem muito vídeo explicando como é que faz as coisas, e de todo lugar do mundo, em todas as línguas, tem esse tipo de coisa. Então está difundindo muito, vamos dizer, conhecimento que antigamente era uma coisa bem técnica, além de lojas que você pode pedir coisa e chega em casa para você preparar e tudo mais. Então, assim, hoje acho que a gente pode, para o pessoal que provavelmente está interessado nisso, falar um pouquinho sobre essa questão de fazer drinks em casa, como preparar, quais são os ingredientes, o que tem acontecido. Inclusive, eu queria chamar o pessoal para fazer perguntas e botar no ponto de interrogação na caixinha, porque, às vezes, quando tem muita gente, não dá para acompanhar as perguntas aqui. Então, se você puder falar um pouquinho sobre o que você tem visto, o que as pessoas têm falado para você sobre o cenário da pandemia e sobre drinks, e suas ideias a respeito disso.

Marco de La Roche: [5:48] Cara, a gente está vivendo, e não foi só a pandemia, ela forçou a gente a não ter o bartender na nossa mão, mas a gente viu uma crescente enorme pelo interesse, pela procura da coquetelaria, porque é como se a gente tivesse expandido tanto o campo da cerveja, do vinho, do café, e as pessoas querem experimentar isso também nos coquetéis. E se você for pensar, você tem uma imensidão para conhecer. Então, assim, a gente já via o interesse do consumidor final em ser o seu próprio bartender por um dia, e mais, ser o bartender por seus amigos na sua casa. Então, realmente, isso já é um interesse, tanto que a gente está vendo aí a profissão do bartender e a coquetelaria chegando em lugares que a gente não podia imaginar. Então, realmente, é um momento único. A gente nunca viveu uma qualidade de técnica, de produto, de sabor, de bares, de entretenimento tão grande quanto a gente tem hoje. Então, eu acho que é a hora realmente para quem gosta de sabores e de coquetelaria para começar a comprar uma coisinha ou outra, botar na sua casa e ir experimentando.

Eron Falbo: [7:10] Você não acha que a arte de Mixology ainda está um pouco precária no Brasil? Eu sinto que eu vou para muito bar que até é de qualidade, vamos dizer, que é caro, que é elegante, qualquer coisa assim, e os drinks são mais ou menos. O que você acha disso? Tá melhorando? Como é que é comparado com outros países que você já viu?

Marco de La Roche: [7:32] Olha, a coquetelaria em si, ela é europeia e americana, né? Então a gente tá falando de bares e culturas que têm séculos, né? A gente começou de fato a pisar na coquetelaria em 1950, com uma grande evolução na década de 80, e agora esse boom que a gente tá tendo em 2010 até hoje. Então é tão natural a gente não ser a ponta do processo todo, como o Japão ser a melhor seleção de futebol do mundo. É natural, e não quer dizer que as pessoas não estejam apaixonadas, igual, mas a gente tem hoje... Eu imagino que talvez só a Austrália pode se comparar com o Brasil no Hemisfério Sul. A gente tem hoje aqui bares de altíssimo nível e a gente avançou. Talvez só, como Taiwan, nos últimos 10 anos, só o Brasil e Taiwan, no meu entendimento, evoluíram tanto na coquetelaria.

Eron Falbo: [8:40] Que coisa, eu nunca imaginaria... Taiwan, um drink made in Taiwan.

Marco de La Roche: [8:45] Tem bares incríveis, Singapura.

Eron Falbo: [8:49] Eu tô percebendo, eu fui recentemente pra Tailândia, tá crescendo muito essa coisa de nightlife nesses lugares. O pessoal parece que acordou pra vida boa, né? Começaram a sair à noite, não sei o quê. Antes eu acho que eles eram mais tradicionais. O que você tá bebendo aí? Você já tá bebendo alguma coisa ou não?

Marco de La Roche: [9:09] Cara, eu comecei aqui enquanto eu tava te esperando, né? Falei: vou fazer uma esquenta. Você gosta de Negroni?

Eron Falbo: [9:15] Eu gosto de Negroni. Eu tô tomando uma variação.

Preparando um Negroni e sua história (9:18)

Marco de La Roche: [9:20] Diga.

Eron Falbo: [9:21] Não, eu gosto mais de Old Fashioned, assim, que pra mim é do mesmo planeta, né? Mas eu gosto mais do Old Fashioned.

Marco de La Roche: [9:30] Sim. Então, eu tô fazendo uma variação do Negroni, que é um clássico que fez 100 anos ano passado. E com rum envelhecido. Então ele chama Kingston, que é rum envelhecido, Campari e um vermute tinto, essa garrafinha bonitinha que eu abri hoje. Eu falei: hoje é um dia especial, vou abrir. E é o vermute de Camboriú.

Eron Falbo: [9:57] E você acha que, com essa onda de politicamente correto, eles vão ter que mudar o nome do Negroni?

Marco de La Roche: [10:02] Cara, a gente tem que falar com o Conde Negroni, né?

Eron Falbo: [10:07] Qual é a história do Conde Negroni?

Marco de La Roche: [10:10] Na verdade, a coquetelaria é feita de lendas. E há de quem vier destronar alguma lenda, porque é incrível, maravilhoso, que a gente possa contar várias histórias que ninguém sabe se foi de fato. Mas uma delas é que o Conde Negroni, em 1919, na Itália, ele preparou o primeiro Negroni, que é uma variação de um outro clássico, que é o Americano, que é uma mistura simples de vermute e Campari. Então, assim, a coquetelaria é como se ela tivesse nascido de dois lugares: ou os cítricos e adocicados, os sours, ou então os amargos. E aí ela foi, como um gremlin, se multiplicando sem fim. A gente tem muitas variações hoje.

Eron Falbo: [11:02] É, eu vejo muita coisa. O que eu não gosto, quando eu vou em alguns restaurantes, é quando todos os coquetéis não têm os tradicionais, sabe? Eles inventaram um nome pra tudo. É legal um ou outro, mas quando é todos assim, você fica com preguiça. Tipo, você fala o nome lá, você sabe mais ou menos qual que você quer. Agora ficar estudando o cardápio inteiro é complicado.

Marco de La Roche: [11:26] Gente, as pessoas, que nem provar, a história elas olham, viu? Eu morei no Rio de Janeiro de 2002 a 2005, e eu fiz mais de 100 cartas de coquetéis nesse período. Todo mundo queria tomar drinks novos. Ninguém queria tomar drink clássico, ninguém queria tomar Negroni, ninguém queria tomar Old Fashioned. Era só drink novo que o pessoal queria tomar. E hoje a gente vê exatamente o movimento contrário: eu quero tomar um drink que tem uma história, que fez 100 anos, que alguém tomou 50 anos atrás e que voltou por causa disso. Então isso é muito legal, porque a cultura está chegando firme com o consumo, e isso é incrível e só faz bem para a gente.

Eron Falbo: [12:14] É muito legal. Eu vou fazer, ainda não estou com o meu drink aqui, então eu queria fazer ao vivo, vou narrar para o pessoal que vai ouvir no podcast depois. Lembrando todo mundo que isso aqui vai ser lançado, opa, lançado no Spotify, em todos os canais favoritos de podcast. Eu vou botar um absinto pra gente.

Absinto e o álcool como remédio ancestral (12:21)

Marco de La Roche: [12:35] Aqui? Porque eu vi essa garrafinha aí, eu falei: eu conheço esse produto.

Eron Falbo: [12:42] É incrível, sabia? Você gosta? É bom, porque eu não entendo muito, não é? Mas é bom saber.

Marco de La Roche: [12:49] Que é bom, que eu tenho aqui, ó: você tá com o absinto verde.

Eron Falbo: [12:54] Deles? Eu tenho o copinho do Van Gogh aqui, ó. E o preparadorzinho aqui. Olha, eu vou fazer do jeito que eu aprendi a fazer, depois você me corrige.

Marco de La Roche: [13:09] O importante é você fazer feliz e se divertindo.

Eron Falbo: [13:16] Mas eu gostaria de fazer de uma maneira mais profissional, então, por favor. Vamos lá, para quem não está assistindo: obviamente eu estou com um copinho e botei um. Como é que chama esse bicho que põe? Tem nome disso? Não. E se essa...

Marco de La Roche: [13:37] Essa técnica chama... a luz? Que é você ter em cima do cubo de açúcar.

Eron Falbo: [13:45] Agora estou botando o absinto no cubo de açúcar. E só um pouquinho, porque depois vai entrar água. Eu gosto de queimar um pouco de açúcar para dar uma... Eu sei que isso aí é, vamos dizer, controverso, não é todo mundo que faz isso.

Marco de La Roche: [14:08] Eu acho que ele ajuda a diluição e o ritual fica mais bonito.

Eron Falbo: [14:15] Agora eu queimei aqui o açúcar e estou botando um pouquinho de água gelada pra ver se gera aquela cor bonita do... Tem que botar devagar, né, pra gerar aquela... Qual é o nome disso? Também não sei, cara. Essa coisa meio opaca, né? Sim, sim.

Marco de La Roche: [14:40] Tá indo bem, tá indo bem.

Eron Falbo: [14:43] É porque tá sendo filmada e eu funciono bem sob pressão, então... Ficou mais ou menos a cor, mas vamos lá.

Marco de La Roche: [14:56] Vê como é que tá de sabor pra você, se tá legal. O absinto é uma bebida super controversa, rica em história e a gente perdeu um pouquinho do gosto pelos... Saúde.

Eron Falbo: [15:14] Saúde, saúde.

Marco de La Roche: [15:16] Pelos anisados, né?

Eron Falbo: [15:19] É. Então, pelo que eu entendo da história do absinto, no século XIX era uma bebida mais barata, e atraiu os artistas e boêmios e tudo mais a tomarem isso porque era mais acessível do que as bebidas mais caras. Você já viu alguma coisa sobre isso?

Marco de La Roche: [15:48] Eu nunca cheguei a ver nada sobre ele ser mais barato, até fico surpreso. Mas é por conta do próprio processo, né? A produção tinha uma bebida mais elitizada, né? Vamos dizer assim.

Eron Falbo: [16:04] Eu acho que isso aconteceu depois de Oscar Wilde e essa galera na França, né? Beber muito nos bares boêmios e tudo mais. Acho que talvez o que aconteceu foi que depois foi se tornando mais elitizado, que gerou uma moda por trás. E em termos de...

Marco de La Roche: [16:27] O legal é que as bebidas, a gente hoje vive um momento em que a coquetelaria é entretenimento, as pessoas bebem pelo prazer. A gente desenvolveu isso muito bem dos anos 50 para frente. Mas, essencialmente, o álcool foi o melhor remédio da humanidade. Ele foi o condutor das ervas, das especiarias, que tantos povos acreditavam que iam curar a gente dos males, já que a gente não tinha uma drogaria em cada quarteirão. Então, o nosso gosto pelo álcool vem muito por aí.

Eron Falbo: [17:03] Em inglês é até chamado de spirits, os destilados. Vamos explorar um pouquinho essa arte de fazer em casa, os drinks. Porque uma das coisas que me dão um pouco de preguiça são os ingredientes frescos. Tem que ter limão, tem que ter essas coisas prontas. O que você recomenda para um iniciante servir os amigos e tudo mais para começar?

Montando um bar em casa (17:18)

Marco de La Roche: [17:35] Cara, eu acho que assim... É como eu disse, a gente tem dois caminhos principais, que são os sours e os amargos. E tem os secos também, mas se você não quer ir para uma linha de frutas frescas, refrescante, você pode ir para uma linha de coquetelaria de garrafas. Por exemplo, eu fiz agora aqui um Kingston, que eu tenho uma garrafa de rum envelhecido, eu tenho uma garrafa de Campari, ficam na minha prateleira, e a minha garrafa de vermute, ela fica na minha geladeira, que é um vinho fortificado. Então eu posso ter esses produtos por um mês, dois meses, por conta do vermute. Eu iria para uma linha de destilados de qualidade. Então começa comprando um uísque que você gosta, um gin, uma cachaça, uma vodka. E aí entra com alguns licores. Principalmente o licor de laranja, que ajuda em muitos coquetéis. Pode entrar com licor de ervas, por exemplo.

Eron Falbo: [18:49] Com a Trôzinho ali.

Marco de La Roche: [18:51] Com a Trôzinho, sim. E aí, com essa pequena variedade, você já consegue começar a desenhar alguns coquetéis, estudar. Por exemplo, você pode fazer um White Lady. Passa no supermercado, compra um limãozinho, você faz um gin, pode fazer um Tom... Bom, partiu de gin, açúcar e, desculpa, destilado, açúcar e limão, você tem aí uma dezena de coquetéis para experimentar completamente diferentes. Você tem uma garrafa de Campari, você faz desde um Negroni até um Garibaldi para momentos diferentes. E aí, ao topo, você vai acrescentando... Não adianta comprar tudo de uma vez, assim, pronto, tem um bar. Aí você se perde. Compra uma garrafinha, brinca um pouquinho, entra no Mixology News, que é o meu portal, tem muitas receitas lá, e depois você compra outra. O legal é ir curtindo o aprendizado.

Eron Falbo: [19:53] E você fala sobre isso no Mixology News? Você fala sobre, vamos dizer, dicas de iniciantes? Tem uma outra, assim, que é para... para gente que não é expert, que não tem todos os ingredientes, esse tipo de coisa?

Marco de La Roche: [20:10] Pois é, o meu trabalho mesmo é mais focado para bartenders profissionais. Mas, por exemplo, eu tenho o Mixology News, que é o site que eu disse, lá a gente tem mais de 800 receitas. Além de conteúdos diários de coquetelaria, que se você é realmente fã do negócio, você passa a ler um conteúdo por dia e vai aprendendo, vai se interessando. Por exemplo, eu tenho um amigo meu, jornalista Ricardo, ele mandou um recado para mim no WhatsApp hoje porque ele leu um conteúdo que a gente fez sobre o Tuxedo número 2. É um drink de 1900, que leva gin, leva vermute branco, e ele estava em dúvida se ele podia trocar o absinto por uma garrafa de araque que ele tinha. E eu falei, claro, experimenta. Ou seja, a pessoa já vai fazer um coquetel novo, que tem uma história nova, por conta de ter adquirido uma informação no dia. Não precisa fazer um curso gigantesco de 600 horas e virar o expert, sabe? Vai curtindo a caminhada. Eu acho que essa é a principal dica que eu dou. Compre uns utensílios, comece a comprar uma coqueteleira, um dosador.

Eron Falbo: [21:32] Eu acho que as pessoas no geral estão começando a voltar a ter saudade dos rituais, né? Tipo, eu gosto de ouvir vinil, que é aquele ritual de você tirar o disco da capa e colocar ali e botar. As pessoas estão começando a querer coisas menos enlatadas, porque acho que a gente exagerou muito no mundo enlatado, no mundo em que as coisas já estão prontas e tudo mais, está gerando uma reação contrária. Acho que Mixology faz muito parte desse universo, de você ser mais sofisticado, apurar mais as coisas. Eu estava até falando para você no telefone antes, que eu sempre fui assim, muito fã de beber com os amigos da boemia e tudo mais. Só que, quando a gente é mais novo, a gente quer, primeiro, mais barato, porque não tem dinheiro, e também quer ficar bêbado, então toma cerveja para caramba, toma gin, no máximo gin-tônica, e qualquer coisa assim pura. Aí, quando a gente vai crescendo, acho que a gente vai criando uma vontade.

Rituais, juventude e mitos da ressaca (21:42)

Marco de La Roche: [22:46] Eu tenho.

Eron Falbo: [22:52] Muita vergonha de ter sido jovem também.

Marco de La Roche: [22:58] Feliz que as pessoas saibam de tomar essas coisas, porque elas lembram do que fizeram.

Eron Falbo: [23:07] Não, que isso, que isso! E drink é isso, né, cara? Drink você vai experimentando. A coisa ruim é que a pessoa tem que saber muito sobre isso, senão vai misturando as coisas e a ressaca vai ficando pior, né? Porque cê pega um drink, cê experimenta outro, aí cê tá misturando um monte... Como é que é isso? Você que entende, assim, da ciência por trás, mesmo que eu já vi que cê entende... Qual que é a lenda e qual que é a verdade sobre o que causa ressaca, de fato?

Marco de La Roche: [23:36] Então, esse é um... Eu vou simplificar a teoria aqui pra gente. Enfim, tá muito técnico o assunto. Essa era uma coisa que fazia sentido muitos anos atrás, sei lá, década, duas, três décadas atrás, quando as bebidas não tinham a qualidade que tem hoje. A gente tem aí alguns grupos específicos de pessoas que não se dão muito bem com destilados e fermentados juntos. Então a pessoa fica só em um ou fica só no outro. Porém, a maior verdade que eu vivi na minha trajetória de quase 20 anos é que a pessoa reclama que tomou um destilado e um fermentado, depois de ter tomado uma garrafa de cada. E aí não tem fuga do que eu digo, não tem como. Então, sim, a culpa é sempre da mistura. Mas a pessoa tomou duas garrafas...

Eron Falbo: [24:38] O corpo não dá conta de tanto absurdo, entende?

Marco de La Roche: [24:42] Então assim, você comentou muito bem: as pessoas... a gente saiu daquela época dos anos 90, 2000, que era tudo plastificado, a gente estava muito na vodka, que era um destilado neutro, sem história, sem gosto, sem nada. E hoje a gente quer provar os destilados saborosos, ricos em história. Então as pessoas estão tomando um pouco mais lentamente, elas não querem simplesmente beber, beber, beber e ficar louco, e no fim da noite, no dia seguinte, ter ressaca.

Eron Falbo: [25:17] Eu acho que rolou na humanidade, assim, no geral, uma decepção muito grande com a praticidade. Acho que você deu uma pausada no vídeo, Marco. Vou continuar falando, ver se ele volta. Voltou, voltou.

Marco de La Roche: [25:38] Voltei.

Eron Falbo: [25:40] Acho que a gente ficou meio obcecado com praticidade. Eu lembro aquelas coisas single serving, tinha um xampuzinho pequeno, uma obsessão com coisas pequenas que cabiam na mala para viajar, tudo emplastificado, empacotado, fácil, single serving. Até aquele filme Fight Club, Clube da Luta, fala muito sobre isso: a reação da galera do Clube da Luta é justo uma revolta contra esse mundo de praticidade, né? Vamos fazer uma coisa que não é nada prática, que é um clube da luta, uma coisa que é totalmente contra o intuitivo, que faz a gente se sentir vivo. E eu acho que isso tem muito a ver com a Mixology, né? Você tá perdendo tempo com uma coisa que vai fazer você perder tempo, entendeu? Então é uma coisa que não tem, vamos dizer, conceito nenhum além de ser mais vida por ela mesma, né? Porque não tem objetivo, você não tá alcançando algum objetivo com isso, é a vida por ela mesma. Então você tá gastando tempo fazendo um drink pra você se sentir bem, pra ficar num estado de espírito exaltado com os amigos, pra se sentir bem. Então é uma coisa totalmente não prática e, filosoficamente falando, é o que na Kabbalah chama de objetivo da vida. Porque a gente trabalha para poder chegar nesses momentos de descanso, de tomar um drinque com os amigos e tudo mais. E tem muita gente que vive numa rodinha de rato, que nunca para o trabalho e constantemente está buscando alguma coisa, desejando, reclamando, pedindo, etc. Eu acho que é muito bonito isso da arte da Mixology estar se expandindo e tudo mais, porque é isso, cara, é uma coisa bonita. Você está parando para saborear a vida de uma forma mais intensa. É tipo química. Eu já vi suas palestras também, que você sabe detalhadamente como as coisas são feitas e tudo mais. Só que é uma química em que você não tá fazendo algum produto, algum remédio. Você tá fazendo alguma coisa pra você ingerir e ter uma sensação. É incrível isso.

Fight Club, praticidade e sentido da vida (25:41)

Marco de La Roche: [28:14] Sim, sim. Eu acho que você pegou num ponto incrível. Pra mim, a gente... Hoje a coquetelaria, o beber socialmente, ele é muito mais sobre quem é que vai me conduzir pra um momento único com as pessoas que eu tô, do que a pressa de chegar num lugar, e esse lugar vai durar um segundo e acabou. Então, realmente, eu vejo que, embora a gente ainda tenha festas e clubes aí, e o consumo desenfreado, as universidades, as faculdades estão aí para não me deixar mentir, mas elas estão curtindo essa caminhada mesmo. Então assim, vamos, que a gente vai aprender junto hoje. Então isso é incrível, realmente. E só complementando o que você comentou: eu tento, nos meus discursos sobre a coquetelaria, tornar a coisa cada vez mais legal e menos técnica. Eu preciso saber a técnica profissional, eu preciso saber as combinações químicas dos ingredientes e como que eu vou aplicar eles em quais proporções. Mas o consumidor final, o cliente no balcão, ele tem que se divertir.

Eron Falbo: [29:40] Uma coisa que eu percebo, assim, que é muito legal, é que por isso que eu pergunto até para os convidados o que você vai tomar. Eu faço questão da gente tomar, normalmente, a mesma coisa. É claro que você é um mixologista profissional e eu não queria competir com você, eu fiz a exceção para você, mas os dois estão bebendo, vamos dizer, alguma coisa preparada. Mas por que eu faço isso? Porque isso gera um rapport, gera uma conexão. Quando tem esse ritual das pessoas estarem bebendo a mesma coisa, eu até recomendo isso para as pessoas. Muitas vezes as pessoas não levam isso a sério: eu gosto de cerveja, eu gosto de vinho. Mas, cara, se todo mundo tiver bebendo a mesma coisa, gera um espírito comum, entendeu? Gera uma coisa muito legal, que a bebida em si já gera, né? Só de ficar um pouquinho mais alto já gera um espírito fraternal, né? Se não for, obviamente, exagerado. Mas funciona muito bem ter esse rapport, esse concordar: vamos concordar o que a gente vai beber hoje, né? Muitas vezes eu chamo amigos aqui em casa e falo: hoje é tal coisa, vem beber um vinho aqui em casa, vem beber uma piscina aqui em casa. Bom, eu queria aproveitar para falar disso e recomendar isso para a galera, que realmente é uma coisa que funciona, funciona bem. Ontem eu falei no jantar que eu estava com os amigos, eu falei sobre o que eu acho que é legal falar para a gente entrar um pouco na história da Mixology, das bebidas em geral, que é sobre as regras, ou não regras, vamos dizer, os costumes da Grécia Antiga de fazer simpósios, de fazer banquetes, como o Banquete de Platão, por exemplo. Então, no Banquete de Platão, eles têm, não lembro exatamente como que é, mas eles têm como se fosse um barril, uma jarra de vinho, e eu sei que o vinho era muito diferente naquela época, mas tinha, vamos dizer, cheio até a metade. E eles perguntavam, tinha 10 pessoas presentes numa mesa, e perguntavam para os convidados: a gente tem que trabalhar amanhã, o que a gente tem que fazer? Aí todo mundo falava: eu tô bem e tal. E o anfitrião perguntava quanto de água que a gente vai misturar no vinho. Não tinha a opção de alguém não beber, entendeu? A questão é: vamos concordar quanto de água a gente vai misturar no vinho. Se a gente tem que acordar 8 da manhã, vamos misturar três quartos de água, entendeu? E conversar. Então isso tem a ver com essa coisa do rapport, né? Outra coisa que eu descobri recentemente, eu vi uma palestra de um filósofo falando disso, é que existem evidências arqueológicas de que era muito comum, chamava a poção de Hécate, que era muito comum na Grécia Antiga as pessoas misturarem o princípio ativo de LSD, LSD, ácido lisérgico, acho que, no vinho. Então eles tinham uma microdosagem de LSD no vinho. O que você sabe sobre isso? Na nossa sociedade moderna existe uma separação muito grande. Até fiz uma live sobre legalização das drogas e tudo mais. Mas hoje em dia a gente trata álcool como se não fosse droga e outras coisas como se fosse. Antigamente não tinha essa distinção, era tudo dentro de um pacote completo. Como é que você vê isso?

Simpósios gregos, LSD e políticas sobre álcool (31:10)

Marco de La Roche: [33:17] Cara... Vamos sair um pouquinho da coquetelaria aqui. Eu acho que o álcool é inevitável pra humanidade no momento que a gente vive, com os hábitos que a gente carrega, com a herança que a gente tem. Então não dá pra gente partir por uma hipótese de restrição, a gente tem que partir por uma hipótese de consciência e reinventar, renovar os laços com a bebida. É muito triste, de fato, quando a gente vê o consumo de álcool sendo a via para uma série de agressões, de todas as formas, seja familiar, seja no seu prédio, seja na sua cidade, no seu ambiente. E, porque a gente acabou, em algum momento, criando uma conexão com o álcool sendo um... Como que eu digo? Uma válvula de escape para alguma coisa que você não está conseguindo lidar. E ele é um catalisador, na verdade. Então, acho que a gente poderia pensar numa política pública de renovação dos laços com o álcool, que, quando a gente pensa em hospitalidade, é de uma beleza enorme você poder receber as pessoas na sua casa e tratá-las como você... Sem se importar quem elas são e de onde elas vêm, mas elas vão receber o melhor tratamento. As pessoas poderiam começar a utilizar o álcool? Na verdade, sim, as pessoas não... A gente podia criar políticas públicas que formassem, já desde a adolescência até o começo da vida adulta, essa ideia de que tem outras maneiras de você resolver.

Eron Falbo: [35:14] Algo que não está legal.

Marco de La Roche: [35:16] Não necessariamente, do consumo bem regrado.

Eron Falbo: [35:19] A gente tem muita demonização das coisas e isso acaba criando uma falta de conhecimento, uma falta de domínio do assunto. As pessoas simplesmente falam que o álcool é do mal, e isso vale para qualquer tipo de vício ou coisa que é visto pela sociedade como uma coisa que pode levar... Então não se fala tanto sobre o lado bom, que é o lado fraternal. É visto como uma coisa... Não, é sexo, é falta de controle, é agressão, é violência. Só que a gente não fala sobre a leveza, sobre a abertura de coração que é gerada em determinados momentos. Só que... Bom, eu não queria te expor, assim, politicamente, aqui no No Alvo, nem fazer essa pergunta. Eu queria saber, assim, sobre o que você sabe em termos de história, né? Desses diferentes, vamos dizer, de como era a Mixology na antiguidade, por exemplo. O que você sabe, assim, de histórias interessantes, entendeu? Coisas que te vêm, que te impactou, que você sabe da história da Mixology. Acho que ia ser bem legal a gente conversar um pouco sobre isso.

Marco de La Roche: [36:44] Legal. Cara, a gente tem a fermentação há muitos e muitos e muitos anos atrás. A gente estava falando aí dos nossos índios. Todos os povos indígenas que viveram no Brasil, eles fizeram uso da fermentação, através de bebidas como o cauim, que tem a sua cultura e está ligada aos rituais de passagem e festejos. A gente está falando dos povos da Ásia, dos povos da África, dos povos da Europa, todo mundo fez uso da fermentação. A gente tem, principalmente no Oriente Médio, o começo da destilação, que vai parar direto na Europa, e ali a gente vê uma cultura sendo desenvolvida rapidamente. Mas aí a gente já está falando de próximo de 1000 a 1500. A coquetelaria é algo recente, se você for pensar, porque ela é fruto da oportunidade da troca dos ingredientes, coisa que a gente não tinha tanto tempo atrás. Então, se você for pensar assim, bruscamente, a gente está falando de 1700 e alguma coisa, quando a gente viu os primeiros punches, que eram combinações em tigelas enormes que as pessoas compartilhavam. Então você tinha ali destilado, você tinha um suco, você tinha uma diluição com água, açúcar e um bitter. E em algum momento, por volta de 1800, as pessoas resolveram que nem todo mundo quer tomar. Então, prepara o seu. Aí a gente acabou fazendo os coquetéis. E aí a gente tem o old fashioned, por exemplo, que é uma miniatura desse punch: é destilado, água, açúcar, cítrico e bitter. E desse amargo, que é um potente alcoólico e amargo, você tem toda uma família surgindo. Do outro lado você tem um cítrico, que são os juleps: hortelã, açúcar, bourbon e gelo, que era um refrescante do sul dos Estados Unidos. Daí a gente vê pipocando. Mas a gente tem também os clássicos sours, que são daiquiris, caipirinhas, que foram pipocando cada um na sua região conforme a colonização foi se expandindo pelo planeta. A história da coquetelaria é recente. A gente está falando aí de um estilo de consumo alcoólico que vem das cidades, um estilo urbano. Eu tenho essa paixão em falar disso. Conforme ela foi se expandindo pelo mundo, ela foi, de alguma forma, colonizando a maneira tradicional de se consumir os outros estilos. Então vai chegar o momento em que a gente vai começar a resgatar a maneira como os povos nativos faziam uso da bebida alcoólica. E, de repente, chegou o vinho, chegou o conhaque, chegou a bagaceira, chegou a cachaça, falando do Brasil aqui, chegou... E aí a gente abriu mão dos nossos mocororós, dos nossos cauins e de todas as bebidas.

História da fermentação e bebidas indígenas (36:45)

Eron Falbo: [40:19] E quais são? Porque eu não conheço... Essas bebidas, mocororó, cauim, eu não conheço. Você pode falar um pouquinho sobre isso? Até porque, desculpa a ignorância, mas talvez outras pessoas também sejam que nem eu e não saibam.

Marco de La Roche: [40:34] Não, eu também estou aprendendo com isso, porque a gente tem muito para desvendar. Mas, por exemplo, mocororó é um fermentado de caju que era feito por índios no Nordeste. A gente tem aqui na Mata Atlântica, principalmente, os tamoios e os tupinambás, que consumiam bastante o cauim, que era feito... é um suco, um fermentado de mandioca. Eu tenho a impressão de que eram as virgens das tribos que mastigavam para fazer a amilase entrar em contato ali, transformar em álcool. E deixavam a mandioca fermentando para depois elas finalizarem o cauim. Aí a gente tem outros povos fazendo, cada um, as suas misturas. Tem a Luá, que é uma mistura de milho roxo ou de abacaxi com algumas ervas, especiarias. Então, assim, a coquetelaria é um estilo de consumo alcoólico que vem dos Estados Unidos e da Europa, mas a gente tem, no mundo inteiro, uma série de expressões etílicas que são interessantes também, e que a gente está começando a olhar com curiosidade para esse caminho.

Eron Falbo: [41:56] Eu acho muito interessante que, historicamente, boa parte das primeiras bebidas, vamos dizer, da antiguidade e tudo mais, eram fermentadas. E justo o início da civilização, seis mil anos atrás, na Mesopotâmia e tudo mais... Bom, a gente pensa, os nossos arqueólogos e teóricos pensam que veio por causa da agricultura, veio por causa do acidente que houve com o trigo e o vento. Não sei se eu vou falar isso, mas teve um vento, e um trigo selvagem virou o trigo branco que a gente tem hoje. E a gente foi capaz de fazer o pão, que é justamente uma coisa fermentada, para poder se expandir e virar o pão que a gente come. E a gente não se nutre do trigo puro, né? A gente tem que passar por um processo aí pra ser, ou seja, é como se fosse o berço da civilização, é a fermentação. E a gente tem: a fermentação que nos nutre o corpo, e aí tem a fermentação que nutre a alma, que é a cerveja, que são os diferentes drinks aí que a gente vê em vários lugares do mundo. E é interessante que isso foi desenvolvido em todos os lugares, né? Foi desenvolvido pelos astecas, foi desenvolvido pelos egípcios antigos. O que eu acho, vamos dizer, fascinante é que é como se fosse... Como é que se diz? Uma coisa harmoniosa, uma coisa que, no final das contas, as duas coisas vêm da fermentação, que na verdade é uma espécie de cogumelo, uma espécie de fungo. A fermentação causa um certo fungo. Então, assim, eu tenho certeza que no começo as bebidas e tudo era visto com um viés religioso, com viés ritualístico. Isso eu sei até porque existem registros disso mesmo. E isso me interessa muito. Não sei se você viu minha live com o Eduardo Cianca, que a gente falou sobre a ayahuasca, que não deixa de ser uma espécie de Mixology, que você pega...

Fermentação, religião e ayahuasca (43:21)

Marco de La Roche: [44:15] Você pega duas plantas diferentes, mistura num processo de decocção, de calor, e é incrível isso mesmo, porque eu fico pensando que os efeitos da ayahuasca, hoje, eles são tão assustadoramente incríveis quanto uma fermentaçãozinha simples lá nos egípcios. As pessoas deviam olhar aquilo como um Deus mesmo: quem é que me transforma nisso, né? E o que eu faço com isso a partir de agora? Eu vou venerar esse Deus que me transformou nisso. Isso é incrível, realmente. E é tão recente que as pessoas podiam levar pra sua experiência com álcool nos bares, né? Sim, em quem eu me transformo quando esse Deus me habita, né? Eu realmente acho que é uma pergunta aí pra gente se levar pra frente.

Eron Falbo: [45:13] Com certeza, é o entusiasmo. Entusiasmo, etimologicamente, do grego, significa que você está com um Deus dentro de você, entusiasmo, a etimologia vem disso. E o álcool, em uma dosagem certa, te causa um entusiasmo. Quando você ultrapassa, ele te causa letargia, ele te causa o contrário. Então, acho que vale realmente, é uma das coisas que eu mais defendo na vida: que eu não sou a favor de legalização das drogas, eu sou a favor de um bom uso da natureza, o sábio uso da natureza, e o uso da natureza para fazer o bem, para juntar as pessoas, para harmonizar ambientes, para consertar problemas, para unir esse tipo de coisa. A gente tem muita coisa aí na natureza, graças a Deus, que tem essa ajudinha, né? E eu considero, assim, como se fosse uma ajudinha de Deus mesmo, né? A gente tá aqui brincando no Jardim do Éden, algumas coisas que a gente vai encontrando por aí ajudam a gente, como se fossem ferramentas, né? Pra gente sozinho a gente não consegue fazer certas coisas, e a gente tem um impulsionamentozinho, né? De algumas coisas.

Marco de La Roche: [46:31] Eu tô absolutamente de acordo com você, e a gente fica na ilusão da grande cidade e de todos os gadgets que ela nos proporciona. Mas, realmente, é só a gente olhar para a Terra que a gente vai ver ali as pequenas respostas.

Harmonizando drinks, música e experiência do bar (46:42)

Eron Falbo: [46:49] Isso me leva a uma coisa que eu queria falar com você, que é a Mixology dos drinks, dos elementos químicos, junto com a iluminação, junto com a música, porque isso aí você está criando uma coisa que... Eu acho que hoje em dia a gente foi treinado, depois do industrialismo e das assembly lines, linha de produção e tudo mais, a separar as coisas. A gente separa um produto do resto do cosmos. Só que, na verdade, quando a gente aprende a harmonizar essa coisa com as outras coisas, a experiência que a gente tem na vida é muito mais completa e muito mais intensa. Então, o que você me diz sobre isso, sobre a arte da Mixology de harmonizar todas as coisas juntas?

Marco de La Roche: [47:45] Sim. Um dos avanços que a gente tem nessa última geração dos bares é realmente a preocupação não só com os setores: a coquetelaria tem que ser incrível, a comida tem que ser incrível, o salão tem que ser incrível. Mas como que eles estão conversando entre si? Essa seleção de drinks que eu tenho aqui, que é o meu cardápio, o que ela diz e como ela conversa com a minha arquitetura, com a minha decoração, com a minha iluminação, com o som que eu tenho, com a linguagem que eu uso nas redes sociais? Porque você está fazendo um caminho do consumidor, a experiência dele, que começa desde o momento que ele entra no carro e liga o Waze para chegar no seu bar. Nesse momento, se for possível, você já deve receber ele, né? O seu bar está cadastrado, por exemplo, no Waze, né? Se não está, deveria, porque a pessoa já quer se sentir acolhida. E quando ela chega, ela quer se sentir acolhida, ela quer se sentir livre para poder ser quem ela é lá dentro. Então, a gente tem... Eu acho que é um grande avanço mesmo. A gente tem números mesmo, assim, de mercado, de que quando você harmoniza tudo isso, você eleva a experiência e eleva o lucro do bar também. Que, no fim das contas, o bar quer ter o seu lucro, quer poder se manter vivo pagando seus funcionários.

Eron Falbo: [49:19] E o consumidor não está procurando um lugar onde ele pode fugir. Talvez em outros tempos, mas agora que a gente está se sofisticando e tudo mais, o consumidor está procurando uma experiência. Ele consegue pedir no supermercado online, no Rappi, o que for, tudo o que tem no bar, em casa. Então, hoje, os bares precisam entender que o que eles estão fornecendo, assim como o cinema está oferecendo 4D, qualquer coisa assim, é cada vez mais uma experiência. E é isso que você faz na sua consultoria, que você ajuda os bares a harmonizar esse tipo de coisa, a sofisticar o que eles podem oferecer. Está certo?

Marco de La Roche: [49:59] Exatamente. A gente tem a oportunidade de unir a coquetelaria com a gastronomia, com a experiência que o cliente vai ter no salão, com a iluminação, e contar a mesma história em detalhes. O cliente não precisa mais de um bar hoje em dia. Melhor, o cliente não precisa mais de um novo bar. Ele tem tantos bares para curtir, ele tem a casa dele, ele tem drinks engarrafados, ele aprendeu a fazer coquetéis, que ele não vai lá para tomar o seu drink ou para comer a sua pizza. Ele vai lá porque ele está com saudade de você, porque o teu bar traz memórias boas para ele. Então a gente está vendendo hoje memórias, e a oportunidade da pessoa conhecer você uma vez, uma vez que você traga boas memórias para ela, ela vai passar a ser parte do seu meio. E um exemplo: eu inaugurei um bar no Itaim essa semana, em São Paulo.

Eron Falbo: [51:06] Parabéns.

Marco de La Roche: [51:08] Obrigado. Chama Bonita. É um bar incrível. E remonta Cuba antes da Revolução. E eu bati o olho no salão e eu falei: cara, tá faltando uma informação no bar. A gente foi até em Budazartes, que é uma cidade aqui perto, comprar alguns barris de carvalho para envelhecer rum dentro dos barris, para poder servir para as pessoas na hora. E, assim, na festa que a gente fez no sábado, as pessoas estavam curtindo demais essa experiência. Então, você vê, a gente colocou mais uma informação para a pessoa curtir essa experiência.

Eron Falbo: [51:45] É, muito legal.

Marco de La Roche: [51:46] É muito legal.

Eron Falbo: [51:48] Quando a gente tem uma experiência, a gente não esquece mesmo. Então, o bar, por si só, pode ser qualquer coisa. E o boteco, né? O boteco é padronizado. É a mesma coisa, você sabe que vai ter uma cervejinha lá, e se você pedir uísque não é uma boa ideia, né? Se você pedir qualquer coisa...

Marco de La Roche: [52:07] Mas olha como é, todas as pessoas que frequentam um boteco, elas elegeram qual é o boteco do coração delas. E a pessoa serve a mesma cervejinha e o mesmo bolinho em todos os lugares, mas a pessoa tem a memória afetiva com aquele lugar. E é disso que a gente está falando, para que os bares possam ter sucesso financeiro, sobreviver no meio de uma crise dessa, que não está fácil, e que eles possam gerar uma experiência memorável, que a pessoa vai querer estar ali com os filhos dela daqui a dez anos, e isso vai se renovar, esse ciclo. Então, não é sobre bebida alcoólica mais hoje em dia, é sobre a experiência que você gera enquanto consome uma bebida alcoólica de qualidade.

Consumo consciente e despedida (52:54)

Eron Falbo: [52:58] E uma coisa que eu acho muito legal, que acabou de me vir à mente, é que essa reeducação cultural sobre como se sofisticar em termos de consumo do álcool, como ter experiências mais agradáveis e coisas do tipo, eu acho que os bares se beneficiariam muito de participar disso, de ter informações, garçons que cuidam dos clientes, porque existe uma coisa histórica dos bares serem tipo inimigos, estão lá causando, como se fosse um drug dealer, um dealer de drogas que está lá para fazer o cliente tropeçar, para fazer o cliente cair e tirar o máximo de dinheiro dele, e dar o máximo de álcool para ele, e causar o máximo de baderna. Eu acho que existe um convite natural no ar, para os bares começarem a mudar um pouquinho, começar a cuidar dos clientes. É de costume aqui nesse bar tomar água depois de tanto... Porque nos lugares chiques, você pede um vinho e imediatamente as pessoas já oferecem água. Por que é isso? Porque se trata disso, que se você está num lugar chique significa que você é um líder da sociedade, por isso você é controlado e sabe seus limites, e por isso é óbvio que você vai querer uma água. Junto com o Nick. E eu tô falando isso sobre outras pessoas, porque eu só exagero na bebida e vou longe demais, e realmente preciso aprender a arte de beber água enquanto eu bebo. Mas eu gosto muito, vamos dizer, eu tenho uma praga em mim mesmo, que não é todo mundo que é meu amigo aí que sabe disso, que eu bebo muito e eu fico ainda relativamente sob controle, mesmo depois de beber muito. Aí acaba que eu não tenho necessidade de tanto controle, porque eu nunca fiz escândalo, nunca fiz muita coisa que eu não queria fazer. Então, aí, no dia seguinte, eu fico com ressaca, como eu estou hoje. Que, inclusive, eu estou de ressaca hoje, em homenagem à nossa conversa, eu pensei assim: pô, tem que beber muito, mesmo sendo segunda-feira, porque eu tenho que estar de ressaca pra conversa com o Marco.

Marco de La Roche: [55:20] Mas o álcool ensina também, né? É isso, o álcool ensina também. Cara, eu acho que os bares têm que... Aliás, a gente começa a ver um movimento que parte de bartenders conscientes. Por exemplo, uma campanha que a gente tem, que é Um Drink a Menos. É a sugestão de você não consumir um drink a mais, você consome um drink a menos. E você vai pra sua casa tranquilo. Até convido a quem estiver nos assistindo aí pra procurar saber um pouco mais sobre isso, que é a campanha Um Drink a Menos, e que você pode reverter isso em algumas festas que tem hoje em dia, como a Marginália, que é você reverte isso pra uma instituição. Você já compra os seus drinks, esse é o seu limite saudável. Porque a gente percebe que no último drink é quando você come a galinha.

Eron Falbo: [56:24] É, claro. E isso é muito legal. Isso também aprendi na Kabbalah, que é uma coisa que ele fala. Não existe limite para o tanto de diversão que você pode ter, ou de tanto de entrega, ou tanto de perda de controle que você pode ter, contanto que você delimite um tempo exato que você vai fazer isso e tenha começo, meio e fim. Então, isso é uma coisa muito interessante. Você organiza antes qual que é o seu limite, e se chegar com uma carteirinha paga antes... É uma ideia interessante, pode pagar online, de repente, já antes de ir para o bar. Tem vários que, se não pode pagar no momento, pagar online antes e servir o bar do bem. Uma coisa assim seria interessante. Mas, Marco, agora que a gente está acabando o nosso tempo, desculpa. Eu gosto de manter uma hora, apesar do Instagram ter liberado. E mais gente está entrando agora, porque depois vira podcast, o pessoal pode sempre contar com uma hora de conversa. Só queria que você falasse um pouco sobre as coisas que... Que você gostaria que as pessoas conhecessem, né? Você tem canal de YouTube, tem o seu Mixology News, que é uma das únicas fontes acuradas e profundas e detalhadas de Mixology no Brasil, em português. O seu Drink Lab, que para todo mundo que tiver bar, eu tenho amigos aí com certeza que estão assistindo aí que ou tem bar ou conhecem. Então espalha isso, que ele tem uma consultoria muito boa de aumentar o nível da experiência do consumidor com drinks, com Mixology, com harmonização do ambiente junto com os drinks e tudo mais. Me diz o que mais você se envolve, o que você gostaria de falar.

Marco de La Roche: [58:19] Não, é isso mesmo. Eu sou diretor de educação do BCB São Paulo, que é um evento global que acontece em Berlim, no Brooklyn, nos Estados Unidos, em São Paulo. É o Bar Convent de São Paulo. Eu sou editor-chefe do Mixology News, que é um site que tem mais de 10 anos, tem mais de 1.500 conteúdos disponíveis. Até chutei a câmera aqui quando eu fui falar dele. E além disso, vocês podem me encontrar... Ah, eu tenho um podcast também, que quem quiser conhecer um pouco sobre a vida e a voz do bartender, pode visitar lá, que é o Bar Talks. Ele vai virar um talk show, agora passando a pandemia. A gente vai gravar mesmo, estilo mesa redonda mesmo, com plateia, vai ser bem legal. E vocês podem me encontrar no Mixology News, no canal do YouTube, que é o próprio Mixology News, e passa depois no meu Instagram, que vocês já sabem aqui onde é que vocês me encontram.

Eron Falbo: [59:24] Marco de La Roche, pra quem estiver ouvindo.

Marco de La Roche: [59:28] Além disso, eu dou cursos de Mixology Clássica, Mixology Brasileira e Consultoria e Gestão de Bar. E vou fazendo aí consultorias, vou lançar um aplicativo de drinks mês que vem.

Eron Falbo: [59:42] Caramba, calma, cara, você tá fazendo coisa demais, tá ficando muito ocupado.

Marco de La Roche: [59:48] Pois é, e eu gosto.

Eron Falbo: [59:51] É, dá pra ver, você tá...

Marco de La Roche: [59:54] Eu sinto que tem muita coisa pra fazer, o mercado tá querendo muito falar de coquetelaria, e eu tenho essa vontade de realmente mostrar pro consumidor final uma coquetelaria que ela é menos elitista e menos técnica, e ela é leve, ela é simples, ela cabe no bolso de todo mundo e ela é agradável. É só a gente não ter tantas expectativas e curtir a caminhada.

Eron Falbo: [1:00:23] E para os meus amigos pessoais, bom, primeiro eu queria agradecer mais uma vez, muito obrigado, Marco, você é uma pessoa muito gente boa, você passa uma coisa muito legal mesmo. Espero que a gente possa se conhecer pessoalmente em breve, e o Marco já prometeu, mentira, mas gostaria muito que ele viesse aqui para o Rio e a gente fizesse uma festinha com drinks de todo tipo, pode ser aqui em casa, pode ser na casa de alguém que tem mansão, para a gente fazer com os meus amigos pessoais e outras pessoas que vão ser bem-vindas também. Então, acabo com essa intimação, para ficar essa promessa pública, que você vem aí em qualquer momento assim que você puder. E mais uma vez, muito obrigado, Marco. Foi muito bom conversar com você.

Marco de La Roche: [1:01:17] A gente se vê em breve aí. Saudades do Rio.

Eron Falbo: [1:01:22] Valeu, e se eu for para São Paulo, te aviso também.

Marco de La Roche: [1:01:24] Boa.

Eron Falbo: [1:01:25] Valeu, abração, boa noite.

Marco de La Roche: [1:01:28] Valeu.

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