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#20 Como ser imprevísivel e autêntico

com João "Rasta" Nogueira · 14 de out de 2020

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Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Papo descontraído sobre lenha e frio (0:00)

Eron Falbo: [0:06] Boa noite, Rasta. Seja bem-vindo. Fala, meu amigo. Tudo bem?

João "Rasta" Nogueira: [0:11] E aí, Rasta. Tudo certo?

Eron Falbo: [0:13] Beleza.

João "Rasta" Nogueira: [0:15] Eita!

Eron Falbo: [0:17] Tá com vizinho aí, não?

João "Rasta" Nogueira: [0:19] Hã?

Eron Falbo: [0:20] Tá com vinho?

João "Rasta" Nogueira: [0:21] Vou abrir ele agora.

Eron Falbo: [0:23] Tá certo.

João "Rasta" Nogueira: [0:23] Eu me atrasei um pouco na minha chegada aqui. Eita, deixa eu pegar o meu copo aqui, por sinal.

Eron Falbo: [0:27] Relaxa. Vai com calma.

João "Rasta" Nogueira: [0:30] Eu me atrasei um pouco aqui porque eu tive que comprar lenha, porque tá frio, né, cara? O lugar que eu geralmente compro lenha, que é uma hardware store aqui perto, ele tava sem. Aí eu tive que ir lá no madeireiro meu, na puta que o pariu, pra buscar.

Eron Falbo: [0:50] Mas você não corta a sua própria lenha? Eu acho que eu já vi... Eu me enganei, eu já vi esse vídeo de você.

João "Rasta" Nogueira: [0:57] A gente corta, só que, tipo, a lenha que a gente cortou e que guardou, a gente tá guardando ela para o inverno realmente, né? Tipo, essa é bom porque é madeira que a gente cortou recentemente, né? Então ela tem que secar, né?

Eron Falbo: [1:14] Ah, é? Não saco dessas coisas.

João "Rasta" Nogueira: [1:16] Você queima ela e ela queima mal, tá ligado? Ela queima, tipo, queima sem produzir tanto calor, demora para queimar, fica aquele fogo meia boca assim, sabe? Então, eu fui lá no madeireiro, tipo, até quando chegar dezembro eu acho que a gente começa a queimar.

Eron Falbo: [1:37] Porque também você não quer ficar saindo, né? Em dezembro aí, nessa área de Nova York, é o pior lugar do mundo, muita neve, né? Ainda mais nas montanhas.

João "Rasta" Nogueira: [1:47] É, principalmente aqui. Aqui a coisa fica preta, na verdade fica branca, né? Fica coberto de neve. Ficou complicado, cara. Ficou complicado. Agora deixa eu te dar boa noite, deixa eu me servir aqui um copo, né? Porque, poxa, ninguém é de ferro.

Apresentação de João Nogueira, o Rasta (2:02)

Eron Falbo: [2:07] Tá ligado, deixa eu fazer uma pequena introduçãozinha aí pro público que... Peraí, acho que... Ah, você tá aí! Acho que você tinha congelado, né? Beleza.

João "Rasta" Nogueira: [2:16] Não, estou aqui.

Eron Falbo: [2:17] Pessoal, todo mundo, sejam muito bem-vindos. A gente tá aqui hoje com o João Nogueira, o Rasta. O Rasta é uma figura totalmente única, que eu tive a sorte de encontrar pela internet e nem lembro como, mas ele é um músico internacional renomado que toca na banda de Sean Lennon, que é o filho de John Lennon com Yoko Ono, para quem não sabe (inclusive, quem não sabe isso está no canal errado), a banda se chama The Claypool Lennon Delirium, mas esse é só o headline do jornal. O Rasta é um filósofo, um pensador muito autêntico e profundo. Ele tem o canal Pergunte ao Rasta, o curso dele que é... Qual é o nome mesmo do seu curso?

João "Rasta" Nogueira: [3:02] A Escola de Recuperação de Bigodes.

Eron Falbo: [3:05] A gente vai entrar nesse assunto logo mais. Mas o canal dele, Pergunte ao Rasta, basicamente ele responde perguntas do público dele sobre conservadorismo, e eu fiquei realmente muito impressionado, Rasta. Primeiro, dá para ver que você não fica checando nenhum papel, mas, pelo menos aparentemente, você tem uma profundidade e uma acuidade, detalhes de histórias e casos de empresas que fizeram XYZ e diferentes pensadores que falaram QPR. Fiquei bastante impressionado com essa sua diligência aí, além da música, que você já mostrou uma excelência, vamos dizer, bem reconhecida. Então, você é muito bem-vindo aqui no programa. Obrigado por ter aceitado o convite, me honra bastante.

João "Rasta" Nogueira: [4:08] Está chegando um pessoal do meu perfil agora, que eu estou vendo aqui também. Para o pessoal que já segue e tal.

Eron Falbo: [4:17] Sejam muito bem-vindos, obrigado por participar. Eu queria, para o pessoal que não é do seu perfil, só uma primeira introdução. Eu também fico curioso: por que Rasta? Porque você não parece muito do reggae. De onde veio isso, mais ou menos, essa história por trás?

Origem do apelido Rasta (4:26)

João "Rasta" Nogueira: [4:39] Então, tem umas coisas que eu gosto... Eu sou um cara que gosto do absurdismo, digamos assim, né? Tipo, tem coisas que são absurdas mesmo. Tipo, eu claramente não sou um rasta, né? Dá pra ver que eu não sou um rasta. Eu desconfio, inclusive, que qualquer pessoa seja realmente rasta, até mesmo os rastas, né? Porque eu não sei se você sabe muito sobre a cultura rastafári, mas... Sei um pouquinho. Basicamente, o Marcus Garvey, que foi um ativista jamaicano e tal, ele chegou à conclusão de que existia uma das doze tribos meio-indígenas de Israel na Etiópia. Então, que houve uma linhagem do rei.

Eron Falbo: [5:28] Salomão com a rainha de Sabá.

João "Rasta" Nogueira: [5:31] E que a segunda vinda, o Second Coming do Messias, ele ia vir na Etiópia. Então, tipo, pro rastafári, essa figura foi o imperador, o Haile Selassie. Foi um rei na Etiópia, não foi um rei ruim, não. Mas também, porra, um messias fica complicado, né? Inclusive, tem uma porrada de regueiro comunista, né, velho. Foram os comunistas que mataram o Haile Selassie no final da vida dele.

Eron Falbo: [6:03] É, isso aí é complicado. Não, mas comunista sempre se mata, né? É normal.

João "Rasta" Nogueira: [6:07] Mas, enfim, esse lance de rasta veio porque, na época que eu morava em Recife ainda, eu sou originalmente de Recife, né? A gente tinha um grupo de amigos, né? A gente tocava reggae, a gente tinha uma banda de reggae, a gente tocava nos MFs e tal. E aí todo mundo se chamava de rasta: ei, rasta, vamos ali, ei, rasta, vamos ali. O pessoal se chamava de rasta não porque ninguém fosse rasta.

Eron Falbo: [6:34] É tipo camarada.

João "Rasta" Nogueira: [6:37] É, exato. E tipo, eu acho engraçado o jeito de falar assim, sei lá, cheio assim pra uma pessoa. Tipo, ei rasta, tudo bem? Tipo, a pessoa: como assim, que porra é rasta, né? E aí gera aquele absurdo. Eu tenho algumas idiossincrasias mesmo que não têm explicação, entendeu?

Eron Falbo: [6:56] Na verdade, isso foi uma das coisas que mais me atraiu, na verdade, em você, porque o Pergunte ao Rasta, eu tinha certeza que era ideologia rastafári, entendeu? Aí eu comecei a ver as respostas das perguntas e não tinha nada a ver com o Salvador Iza, aí eu comecei a ver suas fotos e ver seu estilo e tudo mais, e ver que era uma coisa realmente paradoxal. Eu, como você, gosto muito dessa coisa também de brincar com a realidade, brincar com a percepção das pessoas e o que elas esperam escutar, o que elas esperam ver, e você meio que dá uma...

João "Rasta" Nogueira: [7:37] Mas, enfim, no final das contas, o negócio de rasta é muito pontual e pouco importante na escala das coisas. Entendeu?

Eron Falbo: [7:49] Entendo. E essa coisa da bigodagem, eu vi que você explicou o que era bigodagem, que é uma forma de charlatanismo. Ou as pessoas vão dizer...

Bigodagem como oposto de accountability (7:51)

João "Rasta" Nogueira: [8:05] Engloba tudo isso, né? Engloba tudo isso. A ideia da bigodagem foi o seguinte: tem uma palavra, certo, que não tem tradução direta para o português, que é a palavra accountability, em inglês. O pessoal pode tentar traduzir como responsabilidade, pode tentar traduzir como compromisso. O próprio... eu sempre falo isso, né, o Bruno Garschagen traduziu, que é um grande amigo meu, ele traduziu o livro Como Ser um Conservador, do Roger Scruton, para o português, e o Roger Scruton usa a palavra accountability inúmeras vezes, né? O Edmund Burke também usa a palavra accountability inúmeras vezes. E o Bruno, quando traduziu, você vê que, em determinado momento, ele traduz como responsabilidade, em outra, ele traduz como compromisso, em outra, ele traduz como transparência, em outra, ele traduz como responsabilidade civil, ainda por cima. Então, ela é uma palavra que não tem um correspondente direto em português, que nem chapéu.

Eron Falbo: [9:07] No mundo de business, o pessoal usa accountability mesmo, não tem outra...

João "Rasta" Nogueira: [9:12] Pois é. A falta de accountability, que é um problema que a gente tem no Brasil, é que as responsabilidades, quando dizem respeito ao poder, elas são sempre passadas adiante numa cadeia infindável de burocracia. Eu resolvi brincar: bom, já que não tem accountability, vamos fazer o antônimo. O antônimo de accountability é a bigodagem. O que é que consiste a bigodagem? Você está bigodando toda vez que você propõe uma ideia, pode ser uma ideia maravilhosa, entendeu, mas que você não é quem vai arcar com os custos dessa ideia, caso ela falhe. Esse é o grande negócio, né? É o que o Nassim Taleb chama de skin in the game.

Eron Falbo: [10:07] Eu gostei do jeito que você fala, de quem é o cu. Acho que isso é uma forma...

João "Rasta" Nogueira: [10:14] É a coisa mais importante, porque quem tem, tem medo. E isso, cara, se aplica... Essa pergunta, beleza, parece uma pergunta chula do jeito que ela é colocada, de quem é o cu. Mas, se você for parar pra pensar, esse é o grande teste de toda a ideia política. Sempre que vier, não interessa o nome, porque geralmente as ideias políticas, as propostas políticas, as propostas de políticas públicas, sempre vêm com algum nome maravilhoso. Sempre vai vir como igualdade de alguma coisa, vai vir como neutralidade de rede, vai vir como preço cidadão. Vem sempre com uma coisa que nunca vai ser, tipo, vou comer o seu dinheiro e vou fugir. Nunca vem com esse nome, até porque acho que ninguém pegaria e assinaria um acordo desses. Então, como as coisas parecem, sempre que um político vai tentar fazer um programa, ele vai vestir aquilo de uma...

Eron Falbo: [11:31] Com...

João "Rasta" Nogueira: [11:31] Palavras doces, neutras, amigáveis, você tem que sempre olhar para a substância do que é o programa, o tal programa social.

Eron Falbo: [11:45] E esse é o trabalho dele, do político: o trabalho dele é tentar se safar com o máximo de coisa possível. E acho que isso precisa ser entendido pela população em geral, que não precisa nem culpar eles, é a natureza da coisa.

João "Rasta" Nogueira: [12:01] Infelizmente, é isso que tem hoje nas nossas democracias liberais. Mas, se você for olhar... e, para mim, essa é a grande coisa do conservadorismo: se você for olhar os escritos do Edmund Burke, por exemplo, ele está sempre falando que um homem público, um homem político, o primeiro instinto que ele tem que ter é o instinto de preservação das coisas. O instinto de mudar, a questão de mudança, de improvement, de melhoras, essas coisas não devem ser um instinto, devem ser uma habilidade. É uma habilidade cultivada com o tempo, estabelecida pelo precedente e tudo mais. Hoje em dia, a gente tá muito distante disso. Até os políticos que se dizem conservadores, que aparecem sob uma legenda, partir do conservador, ouçam a voz do conservadorismo, da puta que o pariu, esses caras não têm esse grasp, eles não têm esse entendimento. Claro. E você veja que o Burke nem um político conservador ele era, porque ele era um meio, ele era um torre. Então, eu sinto isso, eu sinto que falta esse entendimento de que é muito fácil você cagar com as coisas.

Otimismo irracional e corrupção do Estado (13:18)

Eron Falbo: [13:31] É muito fácil você cagar com as coisas. Falta muito isso, acho que falta, porque todo mundo meio que presume que, como existe um governo, saúde, como existe um governo, está estabelecido, que é o melhor governo que pode existir. E meio que as pessoas têm um otimismo, até o Roger Scruton fala sobre a importância do pessimismo, né? Que as pessoas têm, como se fosse, um otimismo para evitar desespero. Eu acredito psicologicamente nessas pessoas, porque eu lembro de ter tido esse tipo de sentimento. Quando você começa a pensar na máquina do Estado e nas possibilidades de corrupção, e levar isso em consideração, você começa a ficar um pouco desesperado, que é quase sem fim e quase sem solução a situação. Então, para não enfrentar esse pensamento e essa dor, eu acho que você cria uma máscara, uma armadura de otimismo exacerbado e irracional, para você não ter que assimilar isso e digerir isso. Porque custa muito caro, como você sabe, tipo, essas nuances de conservadorismo e, vamos dizer, questões que você tem que entrar, detalhadas e profundas. Pô, exige muito, né? Exige muito estudo, exige muita mente aberta, muita coragem, né, pra estudar essas coisas. Então, realmente é um problema, assim, quase existencial, né? Porque também não culpa as pessoas, vamos dizer, comuns, o povão, o povo, as massas e tudo mais, porque, pô, exige muito da pessoa mesmo, né? Saber essas coisas.

João "Rasta" Nogueira: [15:19] Mas é que ocorreu um acanalhamento geral no mundo, no sentido de que... Veja, eu lembro, a minha madrinha, por exemplo, tá entendendo? Minha madrinha tem 83 anos. Ela vota. Ela vota, eu não sei nem o que ela votou na última eleição, ela não me disse. Pra essa gente, certo? Pra essa gente, a vida era aquilo que estava, para aquela gente que é massa, mas sem grandes pretensões, a vida é aquilo que está diretamente na sua esfera de ação mesmo. Quais eram as preocupações? A madrinha não tinha grandes preocupações metafísicas, não tem grandes preocupações filosóficas, nem nada. Ela vai, né, comprar a galinha dela, vai fazer o almoço dela, ela pode fazer algumas coisas, algumas operações, né, do tipo do cálculo de preços e tudo mais. Poxa, subiu o preço do negócio e tal. Mas ela, você não vai ver ela engajada, certo, num grande processo reformador da humanidade. E veja, isso é uma pessoa, né, no interior do Nordeste, lá na puta que pariu. Mas, até a história recente da humanidade, do século XIX pra cá, a regra era essa. O pessoal ia cuidar dos bichos, ia criar um porco, ia cuidar do que ia ser a janta. O pessoal não estava tendo grandes preocupações sobre qual vai ser o rumo do mundo, até porque o mundo pra eles era aquela coisa ali.

Eron Falbo: [16:58] E uma elite intelectual estava ocupada com essas questões.

João "Rasta" Nogueira: [17:01] Exato, exato. Ela é intelectual e de nobreza também, no sentido de ter um padrão de conduta, um padrão que é realmente elevado no nível de exigência. Toda a saúde de um esquema liberal de democracia, ele reside em que não é a massa, não é a galera do lado do sol, a galera da geral que mija e joga copo. E veja, eu não tô falando isso do ponto de vista econômico, não, tá entendendo? Eu tô falando isso do ponto de vista espiritual realmente, do ponto de vista... Sim, sim. Do ponto de vista cósmico, tá entendendo? Que o homem médio chega lá e queira pegar e tomar o rumo da história. Porque, quando isso acontece, a primeira coisa que acontece é a violência.

Monarquismo, república e experimento americano (17:38)

Eron Falbo: [17:57] Mas o jeito que eu vejo, que os movimentos republicanos... Porque muita gente hoje em dia que é republicano e é anticomunista, por exemplo, não percebe que eu sou monarquista. Quem me conhece sabe que eu sou monarquista. Mas muita gente não percebe que o republicanismo como um todo era chamado de a onda vermelha. No século 19 era tido como os caras mais demagogos e revolucionários. Sem tirar o mérito do presidencialismo americano, se eu tivesse chapéu eu tirava o chapéu pra ele, porque eu gosto muito dos papéis federalistas e tudo mais, mas o presidencialismo em quase nenhum outro lugar deu certo e, pelo contrário, criou ditaduras.

João "Rasta" Nogueira: [18:43] E veja, o presidencialismo nos Estados Unidos ele só deu certo, e deu certo assim, né, aos trancos e barrancos, mas a gente pode dizer que deu certo, né? Ele deu certo porque a estrutura da república americana é muito bem fundamentada. Eles nunca quiseram que virasse uma democracia pura, né, uma... E também preservar o colégio eleitoral. Exatamente.

Eron Falbo: [19:08] Preservar uma elite. Eles conseguiram preservar através de sociedades secretas, através de clubes sociais. Existe, nos Estados Unidos, uma preocupação até hoje com preservar uma... As universidades foram feitas desse modo.

João "Rasta" Nogueira: [19:26] Porque o problema é que a primeira coisa que acontece é, tipo, quando você pega e você fica botando... Isso a mídia faz, a mídia fica botando na cabeça de um monte de menino de colégio, tá entendendo, que ele tem que ter uma posição em relação ao mundo, que ele tem que ter uma posição que a avó dele não tinha, tá entendendo? A avó dele, que se não fosse ela, ele não existia, que criou a mãe dele, sustentou a mãe dele, né? A mãe e o pai criaram, sustentavam, tipo, essas coisas. O cara vem pro mundo e acha que é isso mesmo: não, então eu tenho que ir lá e tomar as rédeas, as pessoas fizeram um péssimo trabalho até agora e eu tenho que tomar as rédeas disso daí. E, obviamente, que é muito tentador isso, né, cara? Porque aquilo que não existe, que é o que tá em toda a agenda progressista, toda a agenda progressista, ela é uma inovação, ela é a nova moda do verão, ela é algo inventado, ela é aquela coisa sexy que tá ali, tipo: olha, a gente nunca tentou isso aqui, a gente nunca tentou botar o dedo na tomada. Então, quando acontece isso aí, o jovem é incitado, né? Tipo, eu não digo o povão, mas digo a massa, né, realmente, é incitado a, tipo, não, realmente, eu tenho que ter uma opinião sobre isso mesmo. E aí, pronto, aí começa a pressa, e a primeira opinião que você, tipo, a opinião mais fácil que tem de você ter, é você ter uma opinião de que existe uma cabala de pessoas orquestrando tudo que acontece no mundo, certo? E que elas querem sempre cada vez mais poderosas, sempre cada vez mais ricas, e que as pessoas que estão na base da pirâmide estão assim por causa dessas pessoas. É a coisa mais fácil que tem no mundo, porque, porra, eu não preciso provar nada disso. Depois eu posso fazer alguns estudos fraudulentos, assim, como, por exemplo, essas pesquisas da Oxfam da vida, que pega saldos e débitos, subtrai e faz a distribuição. Pronto, aí você... Duas pessoas do mundo têm toda a riqueza do mundo, né?

Eron Falbo: [21:30] Você tem ambiguidade, né?

João "Rasta" Nogueira: [21:32] Exato, você tem ambiguidade, porque você está chamando forças para o processo civilizacional que não têm nenhum apreço pelo que já existe. Porque é difícil, né, cara? Você defender o que existe já é muito complicado, porque é fácil você olhar... Qualquer coisa que exista, você vai poder olhar e dizer: olha aquela merda que aquela instituição fez, olha aquela merda que aquela instituição fez. Mas você não avalia... O homem prudente não vai avaliar a instituição por isso, ele vai avaliar a instituição, primeiro, qual que é o fundamento da instituição, e quais que são os mecanismos que existem dentro da instituição para você corrigir erros.

Eron Falbo: [22:16] É assim, mas vamos conversar sobre o assunto, que eu acho que vamos levar a conversa para esse lado. Que é assim, eu acredito, eu concordo totalmente com praticamente tudo que você fala. Eu digo praticamente porque eu não ouvi o suficiente, não vou botar minha mão no fogo.

João "Rasta" Nogueira: [22:35] Não existe ninguém que você vai concordar 100%, né, cara?

Eron Falbo: [22:38] Eu acho muito importante também analisar as coisas em termos quase evolucionários. Esse movimento de demagogia que a gente vê, especialmente pela esquerda, de, vamos dizer, superficializar as informações para criar uma reação emocional e, assim, criar movimentação em massa, mobilização em massa das pessoas. Porque os movimentos de esquerda, o socialismo no geral, a gente chama de socialismo, mas, para mim, começa com o republicanismo. Porque iniciou assim, e a gente hoje em dia só fala de socialismo, mas socialismo foi como se fosse um turbinar, uma turbinação desse movimento republicano que iniciou bem antes. Então eu fico pensando assim: isso é natural, com a democratização. E quando eu digo democratização, não quero dizer um termo governamental, mas simplesmente o acesso a mais informação. Teve a imprensa com Gutenberg, o baratear de impressão de livros, foi criando o jornal e outras coisas. A informação foi indo para pessoas que antes não aprendiam nem a ler. E depois veio o industrialismo, as pessoas criaram essa coisa de escolas, e a maioria da população em países mais desenvolvidos ia para a escola para poder aprender a operar máquinas e coisas do tipo. E isso gerou, muito rapidamente, pessoas que não tinham acesso a nenhuma informação agora podiam ter acesso a dados. Não a conhecimento, mas a dados. Porque conhecimento você tem que ter um certo preparo para poder receber. Mas eles tinham acesso a dados.

Democratização da informação e educação técnica (23:35)

João "Rasta" Nogueira: [24:34] O que você está descrevendo é educação técnica, realmente.

Eron Falbo: [24:37] Exatamente.

João "Rasta" Nogueira: [24:39] Hoje em dia, com os tais direitos dos homens, com o direito à educação, a única educação que se tem acesso no mundo é educação técnica. Não tem educação no Brasil.

Eron Falbo: [24:49] Exatamente. Aí, com isso, com essa questão de educação técnica, e também o Estado tem muito mais viés para educação técnica do que para qualquer outro tipo de educação verdadeira, sabedoria, etc. Então, isso aconteceu no final do século 19, começo do século 20. E aconteceu uma coisa psicológica muito louca: pessoas que não tinham acesso à informação agora tinham, e pessoas que eram demagogas, às vezes, e até muitas vezes eu vejo, até por ter amigos assim que infelizmente caíram nessa, mas às vezes são pessoas que têm boas intenções, mas que elas próprias têm lacunas de conhecimento que levaram elas a talvez abraçar um certo ideal por serem mais sentimentais, emocionais, e talvez não irem tão a fundo em assuntos. Aí eles tomaram posições, esse tipo de pessoa tomou posições de liderança e começou a influenciar pessoas que só tinham acesso a dados e não ao preparo para adquirir conhecimento verdadeiro. Aí, o que aconteceu? Abriu um blue ocean de possibilidades de experimentação de esquerda. Porque a coisa mais fácil de vender do mundo é o maniqueísmo esquerdista, que você fala um monte de palavras bonitas, sem muito aprofundamento, e as massas seguem isso, e vai se espalhando os tentáculos disso. Eu não acho que é por conspiração, até discordo do Olavo de Carvalho com isso, acho que ele dá muito crédito pra esquerda, e acredito que é tudo muito centralizado. Eu sei que ele não acredita exatamente assim, mas o jeito que é colocado, às vezes, eu acredito que... O jeito que eu colocar, dá crédito demais. Eu acredito que dá crédito demais pra esquerda. Eu acho que é uma coisa, é um fenômeno psicológico muito mais do que uma conspiração. Claro que eu entendo que, sim, existem grupos, esses grupos são fomentados, etc. Mas eu acho que eles discordam muito mais do que concordam, assim como, sei lá, os muçulmanos e coisas do tipo.

João "Rasta" Nogueira: [27:02] Eles concordarem muito mais que discordarem não significa que não se deva dar o crédito que o velho dá para eles, porque é exatamente disso aí que eles vivem. Veja, o socialismo não pode jamais triunfar, ele não tem como triunfar. Tipo, ele não tem como triunfar economicamente, ele não fornece uma base para nenhuma civilização se sustentar. Em todos os lugares que ele foi instalado, o que fez com que a sociedade se mantivesse no mínimo possível foi o que tinha de nação no lugar. O que fez a Rússia socialista funcionar foi o que eles tinham de russo, e não o que eles tinham de marxista. A mesma coisa com qualquer outro país. Mas a coisa que mais fortalece eles é essa porra dessas divisões internas dele, porque quanto mais divisão interna você cria, certo...

Eron Falbo: [28:04] Então, mas aí não tem o "eles"... Quando você tem uma divisão, e eu sei que existe teoria, o gramscismo, existem teorias, existem, vamos dizer, formas de tornar esse processo consciente. Eu só tô falando, eu concordo que eles estão divididos e tudo mais, só que, no momento que você fala "eles", aí parece que há um grupo...

João "Rasta" Nogueira: [28:25] Ele... Você tá dando um conjunto, você tá descrevendo um conjunto, a esquerda, certo? Aí, dentro dessa esquerda, você tem o seu grupo e tudo mais, que é... E isso aí é normal, cara. Ninguém matou tanto comunista quanto os comunistas. Isso aí faz parte...

Eron Falbo: [28:43] Eu sei, mas eu não tô falando isso pra criticar. Eu tô falando isso pra arrumar uma forma, de repente, de expressar que seja, talvez, mais em direção a uma solução. E o que eu tô propondo, nesse sentido, é que é um fenômeno psicológico. É um fenômeno que aconteceu, e as próprias pessoas que estão engajadas nisso são vítimas desse fenômeno psicológico. Eu acredito que é uma limitação mental, e por causa desse mundo que a gente vive pós-industrialista, que as coisas aconteceram muito rápido, por ganância e tudo mais. Também não estou criticando isso, porque também é natural isso, eu não sou longe de ser anticapitalista, pelo contrário. Mas só analisando, pra gente ver, agora a gente tem esse problema, entendeu? A gente tem esse problema, e a gente tá todo mundo no mesmo barco, porque, mesmo que a gente tenha alguma consciência sobre esse problema e não caia na bigodagem dos outros, não significa que a gente não sofre os resultados da bigodagem das pessoas. E o próprio bigodeiro sofre essas consequências também, apesar de estar indo pra passeata e vestindo a camisa do Strokes e com a pranchetinha na Paulista, que você falou um dia. Então, cê entende o que eu tô dizendo? Porque isso causa um pensamento mais humanista, só que conservador, no sentido de que, pô, vamos salvar essas pessoas também, né? O tipo, eles e nós, entendeu? Ah, tipo...

João "Rasta" Nogueira: [30:22] Não, não é um nós versus eles nesse sentido. Mas é um "eles" no sentido de que quem se coloca na condição de "eles", e isso é a minha visão do negócio, são os socialistas. Porque qual é o grande problema de todo o projeto esquerdista? É que você não é você. Você é desprovido da sua individualidade, você é desprovido da sua humanidade, você é uma peça dentro de um mecanismo, e você serve um propósito que é o propósito da sua classe, da sua raça, do seu privilégio, do não sei o que lá. Então, ali, eles se colocam como "eles" porque é impossível que eles reconheçam você como uma outra entidade. O que faz a esquerda tão violenta é justamente isso: eles não têm como dialogar com a pessoa. Aquela pessoa não é uma pessoa, aquela pessoa é um monstro.

Desumanização promovida pelo pensamento de esquerda (30:39)

Eron Falbo: [31:35] Concordo, absoluto.

João "Rasta" Nogueira: [31:36] Aquela pessoa é um monstro, aquela pessoa é um monstro. Eu estava falando hoje, desculpa interromper, mas o próprio Burke já mencionou isso da Revolução Francesa. E eu acho que é muito importante esse negócio da Revolução Francesa, porque todas essas coisas que a gente vê hoje estavam vívidas, muito vívidas lá. Qual que é o negócio? O negócio é que o entendimento da humanidade de esquerda é o entendimento satírico. É como se o cara tivesse visto um monte de sátira, um monte de comédia exacerbando os vícios dos personagens. Então você não está lidando mais com a pessoa em si, você está lidando com uma caricatura da pessoa. Isso aí é um problema. Você vai ter que concordar comigo: quando a gente tem um diálogo, um confronto que acontece entre liberais e conservadores, você vai ter dois campos que têm as suas discordâncias, mas que têm um core em comum. Existe uma certa comunalidade nos dois, que dá para você conversar. Tanto um quanto o outro vão se considerar indivíduos racionais, razoáveis: "essa política aqui, vamos debater assim, discordo e tal". O comunista não tem isso. Ele vive em estado eterno de emergência, tá entendendo? E, cara, aqui nos Estados Unidos é muito gritante isso. As pessoas estão com medo do Trump, assim, já são quatro anos de Trump, não aconteceu nada com eles, eles continuam bem, né? A pandemia tá aí, tá todo mundo ainda, né, tranquilo. Não mudou a vida das pessoas substancialmente dessa maneira, entendeu? Mas, tipo, não é o Trump que tá concorrendo, é o Thanos, tá entendendo? É o Thanos do Avengers. O Trump não é uma pessoa, pô, ele é um demônio, realmente.

Eron Falbo: [33:50] Claro, claro. E isso é clássico também, né, dessa demagogia: você demonizar... O que você tá falando? Não só criar caricaturas, mas o máximo possível criar uma coisa que não gera um questionamento, que é tão engessada, tão arquetípica, que você já entendeu e por isso não precisa entender melhor. Tudo que você falou eu concordo absolutamente. Eu acho que o que eu adicionaria a isso é que... O que eu percebo é que a maioria das pessoas que estão seguindo essas coisas não estão conscientes sobre esses graus, esses níveis, essas camadas, entendeu? A maioria das pessoas está tendo ressonância no coração delas porque elas viram fotos de criancinhas na África, borboletas no Afeganistão, que nem você falou, ou o Mamonas Assassinas, né, e se sensibiliza com isso. Aí, porque elas têm essa ressonância do coração, elas se fecham para o argumento mais racional, mais profundo, mais acurado, mais sábio, com mais conhecimento. Então o que eu tô dizendo é que, por um certo lado, muita gente que tá teorizando até são pessoas que caíram num buraco, entendeu? Tavam andando e viram uma borboleta, literalmente, e caíram num buraco, e estão com boas intenções, estão tentando salvar a humanidade por causa de uma alienação econômica: a gente se mudou para as cidades, a gente mora com estranhos e tudo mais, a gente não olha mais para o cara do lado e vê como parte da nossa comunidade, a gente olha para a África e vê o que eu posso salvar longe, e isso gera uma psicopatologia de pessoas que querem fugir do que elas conseguem, de fato, ajudar, que conseguem contribuir, e olhar para coisas que... Ambiente, meio ambiente, coisas que estão ali no Oriente Médio, qualquer coisa assim, que elas não vão ter que sujar as mãos, que não vão ter que se transformar em pessoas melhores, de fato. Então isso é um processo psicológico que faz sentido. Todo adolescente foge da responsabilidade.

João "Rasta" Nogueira: [36:16] Você está descrevendo exatamente o entendimento satírico. Isso que você falou da África, por exemplo, é o entendimento satírico, porque é uma terra distante. Você vai ver, sei lá, As Aves, de Aristófanes, é o quê? É Cuconu, Rolândia. Eles deixaram Atenas, estão em Cuconu, Rolândia, agora é um outro lugar. O Alienista é lá em Itaguaí, que é a puta que o pariu. Beleza, ele escolheu uma cidadezinha pequena assim, lá na puta que o pariu, que seja, onde tudo fique só na imaginação das pessoas. Então as pessoas têm isso, né? É a África. Ninguém pensa que a África é uma caralhada de países, uma caralhada de povos e tudo mais. Tipo, "vamos salvar a África".

Eron Falbo: [37:04] Ninguém nem sabe isso.

João "Rasta" Nogueira: [37:05] Aqui nos Estados Unidos, o grau dessa dissociação satírica é uma coisa tão imensa que, uma vez, eu falei, zoando, para testar, que tinha uma tribo na Amazônia que tava sendo destruída por uma companhia de óleo americana, né? E eu disse que era a tribo, uma tribo milenar, a tribo dos mama na piroca. Falei isso com um americano, tá ligado? Um americano educado, tá ligado? Isso foi na faculdade. E, cara, o cara ficou indignado: "Está vendo? A América não faz nada a respeito disso. A gente fica se metendo no Iraque."

Eron Falbo: [38:03] Qualquer informação.

João "Rasta" Nogueira: [38:04] Mas, quer dizer, está vendo? Acabei de inventar essa informação aí. Então isso aí é justamente esse entendimento satírico, cara: a pessoa pega um lugar, aquele famoso lugar do caralho lá dos...

Eron Falbo: [38:21] Os jupitermassá.

João "Rasta" Nogueira: [38:24] E tomam aquilo como verdade, uma verdade onde ele pode depositar os sentimentos dele. Vamos combinar: é difícil você depositar os seus sentimentos mais nobres nas coisas que existem aqui ao seu redor. Por quê? Você vai ver um monte de gente cuzona, um monte de gente errada.

Eron Falbo: [38:49] Não, você vai ter que se tornar uma pessoa melhor mesmo, vai ter que enfrentar certas coisas, vai ter que trabalhar em si próprio. Mas, antes que eu esqueça, uma coisa que eu esqueci de avisar: tem muita gente no chat, tem muita pergunta vindo aí. Se vocês quiserem fazer pergunta, coloquem no ponto de interrogação. Como é que faz aí? Tem um ponto de interrogação aí embaixo.

João "Rasta" Nogueira: [39:10] Eu vou pedir inclusive aqui, encarecidamente, para a galera do Rastagram, né? Deixa a galera poder perguntar aqui, tá entendendo? Vocês fazem o chat e o culto oculto de vocês depois, tá certo? Deixa o pessoal aqui do Eron conversar normalmente. Vocês ficam... Aqui tem uma patota, cara, é uma patota que...

Eron Falbo: [39:31] Mas é bom, dá pra ver que o pessoal engaja bastante. Porra, gosta de conversar e brincar, muito legal.

João "Rasta" Nogueira: [39:37] É, total, total, total. Só que eu sou que nem aquele professor gente boa, sabe? Aí, o professor de jeito bom, o que acontece? Os vagabundos da turma adoram o professor de jeito bom. Por quê? Eles ficam conversando. Aí chega uma hora que a aula do professor de jeito bom fica uma bosta, fica uma zona do caralho. Esses alunos bagunceiros.

Eron Falbo: [40:00] E você tá botando ordem aí na casa, né? O pessoal se comporta.

João "Rasta" Nogueira: [40:05] Exato. Controla o seu entusiasmo.

Eron Falbo: [40:08] Total. Cara, então eu vou fazer uma pergunta aqui que eu tinha escrito, porque, senão, é foda: eu escrevi um monte de coisa e vou me sentir inútil por não fazer nenhuma pergunta. A gente tinha conversado brevemente sobre o Intellectual Dark Web, né? O que, pra você, é o Intellectual Dark Web, você que tá nos Estados Unidos aí? E como se aplica ao Brasil? Como é que tá no Brasil?

Origem do Intellectual Dark Web nos EUA (40:21)

João "Rasta" Nogueira: [40:36] Cara, veja: esse negócio de dark web da direita, realmente, começou aqui pelas comunidades que você menos pensaria. Um monte de gamer, nerd, que é a galera dos memes, tipo a galera do 4chan, a galera do 8chan, a galera dos chans da vida, do Reddit e tudo mais. E foi esse pessoal que gerou esse movimento, que terminou empossando o Trump. Aconteceu de maneira muito análoga isso aí no Brasil, né? E, obviamente, aqui nos Estados Unidos isso gerou... Pessoas viram esse movimento acontecendo, intelectuais, e foram tentar reagir a isso. Alguns reagiram de maneira meio estranha, como o Milo Yiannopoulos e tudo mais.

Eron Falbo: [41:39] Eu gosto dele.

João "Rasta" Nogueira: [41:41] Não, ele é legal, mas ele é maluco, né, cara?

Eron Falbo: [41:44] É, ele é maluco, mas é por isso que eu gosto dele.

João "Rasta" Nogueira: [41:46] O Milo é maluco, realmente. Tem coisas que não dá, realmente. E aí, obviamente, o Milo adotou uma maneira de se relacionar com isso que foi mais satírica, realmente, mais assim, tipo: "vou trazer essa irreverência ao máximo", até que ele cruzou a linha definitivamente em algum momento. Outro cara que surgiu foi o Ben Shapiro. O Ben Shapiro, qual que foi a dele? Ele viu que tinha um espaço para ser de direita mais adstringente, realmente, né? E ele se especializou em debates. Não... Ele se especializou em derrotar as pessoas, em bullying de esquerda. Ele percebeu essa característica da esquerda que tem, realmente, de coisa de colégio mesmo.

Eron Falbo: [42:52] Eu acho que o Intellectual Dark Web, no geral, a única coisa que eles têm em comum é essa, vamos dizer, indignação com os exageros da esquerda no geral.

João "Rasta" Nogueira: [43:05] Não é só com os exageros, mas é com a hegemonia, né, cara?

Eron Falbo: [43:08] Sim, é.

João "Rasta" Nogueira: [43:09] Durante muito tempo, cara, o show business inteiro, tipo, sei lá, tem clean issue desde, sei lá, dos anos 50 e 60, que é de direito, mas é isso, né, cara? O show business inteiro de esquerda, as universidades cada vez mais ficando de esquerda. Chegou um momento que o pessoal disse: basta, né? E, obviamente, a esquerda foi com aquele blefe, né? É muito parecido com crianças numa sala de aula, realmente, né? Você tem aquele grupinho da galera que faz bullying e tal, e a pessoa começa a chamar o outro de coisas que afetam o outro, né? Tipo, chama de viado, chama de não sei o que lá. Por exemplo, quando eu era pequeno, tinha aquele negócio, eu tocava piano, tipo, é viado, é viado, e aquilo entrava em mim, tipo, eu ficava, porra, véio, a galera me chamando de viado, não sei o que lá. E o pessoal faz isso com a direita, tipo, vocês são insensíveis, vocês são racistas e não sei o que lá. Da mesma forma que a criança que supera o bullying faz, que é tipo: vai me chamar de viado, beleza, me dá aqui esse pau, tá ligado? E dá-te esse pau, filha da puta. E aí o cara, opa, o cara que faz o bullying nunca espera que ele vai ser chamado no bullying dele, assim, para realmente, né? Então, o que a direita fez foi isso. Vai me chamar de misógino, de racista, não sei o que, uma beleza. Ok, eu vou fazer uma piada. Cara, tem um meme do Bernie Sanders, tá ligado? Que é aquele candidato, o candidato das crianças americanas. É um cara, uma mulher, dois brancos, com uma criança, tá ligado? Uma criança negra. Obviamente, o que o meme implicava é que o cara tava assumindo o filho de uma mina que ela teve com o Black Lives Matter da vida. Tá entendendo? E aí, tipo, tinha a foto dessa família e embaixo escrito Bernie Sanders, ou seja, é um negócio ultrajante, né? Só até eu descrevendo isso aqui, tipo, parece meio de baixo calão, mas é isso aí, porra. Aí, tipo, a galera pinta os memes, porque tem a questão do anonimato, a galera começou a reagir dizendo: é mesmo? Se vamos chamar de racista, vamos chamar, tipo, não sou mesmo, né? Então vou, vai. Aí faz.

Eron Falbo: [45:33] Um dos problemas disso é que a gente teve direita e conservadorismo durante 6 mil anos, então a galera meio que adormeceu um pouquinho, e a esquerda é nova. Estou falando esse tipo de coisa, e ainda mais ganhar esse tipo de poder, ainda mais ganhar espaço na mídia social, espaço internacional, hegemônico, esse tipo de coisa, é uma coisa que vem se fortalecendo nos últimos 200 anos.

João "Rasta" Nogueira: [45:59] Eu não sei, esse statement que você fez, tipo, a gente teve direita conservadora por 2 mil anos, tipo, a principal...

Eron Falbo: [46:04] Dificuldade... 2 mil anos, 6 mil anos, desde a Mesopotâmia.

João "Rasta" Nogueira: [46:08] Sei lá, a dificuldade que eu tenho em lidar com isso é porque os próprios termos direita e esquerda, né?

Eron Falbo: [46:14] Ah, não existia, total.

João "Rasta" Nogueira: [46:16] E o termo conservadorismo é um termo pós-iluminismo.

Eron Falbo: [46:20] O que eu quero dizer com isso, só para clarificar, é que o status quo, os governantes, as pessoas que tinham propriedade, elas eram, por natureza, um pouco mais conservadoras, porque tinham o que defender, o que proteger.

João "Rasta" Nogueira: [46:40] O temperamento conservador, a disposição conservadora, ela existe em todo mundo que já tentou manter uma vida. Exatamente.

Eron Falbo: [46:50] E os governantes antes tinham mais essa característica. Hoje os governantes, por causa desse fenômeno de ganhar mais consumidores e o poder passar para a mão das massas, por causa da tecnologia, por causa do industrialismo, etc., isso gerou que os governantes começaram a virar cada vez mais de esquerda, porque era mais fácil ganhar poder e posição com demagogia do que era protegendo propriedade e tudo mais. Entendeu? É isso que eu quero dizer. Então, eu não culpo tanto a direita por estar meio que dormindo, e agora, só com o Intellectual Dark Web e esse tipo de coisa, está começando a acordar. E eu dou graças a Deus por isso, porque teve um desequilíbrio nos últimos anos.

João "Rasta" Nogueira: [47:32] Ainda sobre esse negócio de Intellectual Dark Web, aí a gente tem figuras como Milo, a gente tem figuras como Ben Shapiro, mas ao mesmo tempo começaram a surgir pessoas como o próprio Eric Weinstein, que já é um cara mais moderado, um cara que não tem grandes stakes e opiniões a respeito disso. Aí tem caras como o Joe Rogan, que querem ser facilitadores, simplesmente, de servir como um canal para que essas ideias cheguem. Aí tem uns caras mais palhaços, tipo o Alex Jones. E tem o cara que, para mim, é o mais interessante. Os dois caras mais interessantes que tem nessa reação que aconteceu: um é o E. Michael Jones, que é um autor católico tremendo, escreveu um livro chamado Libido Dominandi, que é só sobre revolução sexual, sobre marxismo cultural... Ah, nunca leram. Exato. E, obviamente, ele tem uma pegada católica e tudo mais. E tem inúmeros outros problemas que surgiram por causa disso, não por causa do catolicismo, mas como reação ao E. Michael Jones. E tem o Jordan Peterson.

Jordan Peterson e riscos da direita radical (48:07)

Eron Falbo: [48:51] Que é o meu favorito.

João "Rasta" Nogueira: [48:52] O Jordan Peterson é o cara que consegue agradar a gregos e troianos. Por quê? Porque ele chega num conservadorismo, ele chega numa metafísica, ele chega nessas grandes questões que foram ignoradas a partir do tempo, ele chega na questão da responsabilidade civil, da responsabilidade pessoal e tudo mais, através de influências que geralmente produziriam os resultados avessos. Você vê que as grandes influências de Jordan Peterson é Nietzsche, a grande influência de Jordan Peterson é Jung. Esses autores, você pegar eles e chegar a uma conclusão bigodeira, misantrópica, realmente e completamente niilista da humanidade, é bem fácil. No entanto, e isso é uma coisa que o Olavo apontou com razão, essa questão da influência não interessa, se o cara está fazendo filosofia realmente, se o cara está olhando para a realidade. E o Jordan Peterson é um cara que trouxe... Eu diria que, por exemplo, o Milo é um cara que trouxe a comédia para o negócio, do ponto de vista poético. O Ben Shapiro trouxe a retórica, realmente.

Eron Falbo: [50:25] E a rapidez de falar.

João "Rasta" Nogueira: [50:27] E o Jordan Peterson já é um cara que engloba tudo isso e está fazendo uma filosofia real. Ele não se separa do real em hora alguma, até quando ele está analisando os arquétipos, até quando ele está examinando...

Eron Falbo: [50:48] E ele não é partidário, ele não se coloca como de direita, ele se coloca como defensor de fatos, da verdade, do que está realmente acontecendo. Eu, particularmente, sou mais partidário desse tipo de coisa, não só como monarquista, mas no geral na minha vida. Na verdade, eu virei monarquista por ser assim. Eu sou conciliador, eu gosto de ver o que está por trás da coisa, para entender como é que a gente vai chegar na síntese, não na perpetuação da tese versus antítese. Como é que a gente vai chegar no próximo momento? Qual vai ser a próxima evolução? Como é que a gente vai solucionar as coisas? Então, para mim, a razão que eu sou muito fã do Jordan Peterson, porque, para mim... e eu gosto do Joseph Campbell, já li, já escutei tudo que existe do Joseph Campbell, e o Jordan Peterson também é muito influenciado pelo Joseph Campbell, só que, pra mim, o Jordan Peterson foi muito além do Joseph Campbell, porque ele trouxe fatos... E outra coisa, ele se engajou na discussão política, que é uma coisa que intelectuais, até como Jung, não fizeram. Ele se colocou pro jogo, ele se colocou na linha de tiro, né? O Jordan Peterson. E ele sofreu muito por isso, né? Ele tomou muita porrada.

João "Rasta" Nogueira: [52:14] O Russi falou, tipo, que esse negócio de Intellectual Dark Web existe por causa da questão nas universidades, né, com uma reação a essa tirania que realmente ocorreu nas universidades. Só que isso tudo vem associado a esse movimento da internet. Os próprios memes, o próprio 4chan, essas coisas, Reddit e tudo mais, são uma espécie de dark web. São fóruns, realmente, em que as pessoas podem publicar de maneira anônima, sem ter que sofrer grandes riscos de retaliação e tudo mais, e essas ideias começaram a borbulhar lá. Eu acho que o Jordan Peterson é uma força boa nesse sentido, porque ela traz um grounding nisso daí. O E. Michael Jones é mais profundo, eu acredito, do que o Jordan Peterson.

Eron Falbo: [53:21] Eu nunca me aprofundei nisso.

João "Rasta" Nogueira: [53:24] Essa profundidade do E. Michael Jones é o que o transforma mais suscetível a ser seguido pelas piores pessoas que tem, tá entendendo? Entendi. Eu já vi, por exemplo, existe um pedaço da direita americana, que é uma minoria, certo? Mas ela faz um barulho e tal, e ela tem conquistado a déficit, que é uma direita racialista, certo? E ela é... americano, né, cara? Americano, tipo, é foda. Americano, para entender as coisas de maneira errada, é muito forte, porque é muito fácil, que os caras não têm conhecimento de geografia, não têm conhecimento histórico.

Eron Falbo: [54:14] Eles não tem preparo, mas eles têm muita informação, muita informação da Tilt, né?

João "Rasta" Nogueira: [54:21] Então, por exemplo, eu tinha um amigo que seguia a gente nos shows e tal, e ele era um cara que tinha uma página de memes e tal, e que ele veio... Veja, eu amo assistir o E. Michael Jones, nem terminei o livro dele, do Libido Dominandi, em que ele critica realmente essa questão da supersexualização da sociedade, só que não é só isso que ele faz, ele pega um fenômeno e esse fenômeno termina abarcando muito mais coisas. A tirania política emana disso aí, essas formas frívolas de vida emanam de tudo isso aí, só que o pessoal embarcou para uma de antissemitismo. Tem um pessoal que embarcou pra isso.

Eron Falbo: [55:19] Que também é uma coisa que acontece mesmo. A gente vê que existe isso. Isso é um fenômeno, como se fosse o mundo conservador e de direita, até de aprofundamento, de mitologia. Tem uma portinha ali que algumas pessoas entram, acabam entrando em eugenia.

João "Rasta" Nogueira: [55:40] Os conservadores americanos clássicos não tem isso aí, não tem problema. Mas isso aí é uma coisa que tá vivendo nas franjas da direita. Esse é um caminho que você não entra, tá entendendo? Esse é um caminho que você não entra. Ali você estabelece a linha, acabou. Aqui eu não entro. Posso conversar, posso entreter a ideia... Claro.

Eron Falbo: [56:11] Pra ter conhecimento, pra poder... Você não...

João "Rasta" Nogueira: [56:16] Vai deixar de ler os historiadores fascistas...

Eron Falbo: [56:20] Mein Kampf, né? Você não vai deixar de ler Mein Kampf, né?

João "Rasta" Nogueira: [56:23] Mas você não vai levar aquilo a sério, de maneira alguma.

Eron Falbo: [56:34] Rasta, a gente tem mais cinco minutos, então eu gostaria de continuar conversando para sempre, eu gosto de manter uma lealdade ao público, uma promessa de uma hora de conversa. Mas eu queria que você só terminasse falando um pouquinho para os meus seguidores que estão aqui sendo floodados, flooded, pelo papo marginal que está rolando aqui. Mas eu queria que você falasse um pouquinho do seu curso e o que a gente pode encontrar no seu curso, como é que é, e um pouquinho também, eu acho que é a mesma coisa mais ou menos, mas o seu canal Pergunte ao Rácio, só pra gente ficar com isso.

Curso, canal e pensadores do monarquismo (56:40)

João "Rasta" Nogueira: [57:24] No Pergunte ao Rácio você vai encontrar de tudo realmente, porque as pessoas me perguntam sobre tudo. Na Escola de Recuperação de Bigodes, o que você vai encontrar é uma tentativa de reconcilio... Não é que essas coisas estejam dissociadas, mas é uma reconciliação, de certa forma, entre... a literatura e a filosofia. Então, o que eu faço? Eu botei algumas peças, botei alguns romances para as pessoas lerem e depois eu coloquei dois livros de filosofia densos. Um foi A Rebelião das Massas e o outro são as Reflexões sobre a Revolução na França, que não é um livro de filosofia propriamente, mas ele termina sendo, pela maneira, por ser tão extenso e por terem ali tantas coisas sendo exemplificadas. Então, o que eu quero mostrar para as pessoas, e é por isso que se chama Escola de Recuperação de Bigodes, é como o bigode chega a se manifestar, como essa ideia de exportar a responsabilidade, de exportar os custos, ela chega a se manifestar. Porque, obviamente, se você tem um entendimento disso aí, o entendimento abstrato da coisa, você não vai cair nisso, você diz, jamais cairia nisso aí, mas aí eis que a bigodagem está ali atrás, naquele canto que você pediu. Então, o meu ponto é justamente que as pessoas possam enxergar essas tendências totalitárias, essas tendências que levam ao totalitarismo dentro da gente. E isso é melhor, às vezes, você observar através de personagens do que você simplesmente pegando, tipo, a descrição, as datas de um tratado de filosofia e tudo mais.

Eron Falbo: [59:14] Se defender dos mestres da caverna.

João "Rasta" Nogueira: [59:18] Exato, exato.

Eron Falbo: [59:22] Muito bom. Só para não dizer que o público aqui não botou as perguntas no ponto de interrogação, então só tem uma pergunta aqui, e eu vou, só para não dizer que não fez nenhuma: eu conheci hoje quem, quais são os pensadores que te levaram ao monarquismo. Vou falar isso bem rapidamente porque isso aí dá muito pano para a manga. Mas eu acho que primeiramente Platão. É muito cedo na vida, com 14, 15 anos, eu li Platão, Maquiavel, outros pensadores que abordavam esse tipo de assunto, mas Platão especialmente, porque eu acho que Platão falou do assunto em termos metafísicos. Então o ideal do rei, para mim, isso é muito importante. O rei metafísico, o rei, vamos dizer, acho que o Rasta falou isso em algum momento, a ordem cósmica, existe uma ordem cósmica e a gente espelha essa ordem cósmica nesse mundo. Então, para mim, esse é o primeiro ponto de partida do monarquismo. Se você não entende o cosmos como uma coisa que se repete, uma coisa que tem padrões, e existe em cada grão de areia o mesmo padrão que existe nos corpos celestes, vamos dizer. Se isso não tem ressonância com você, eu acredito que o monarquismo, no geral, não vai ter. Mas se tem, se você vê o mundo, o universo, como uma ordem cósmica, eu acredito que não é muito difícil o monarquismo, especialmente a monarquia constitucional parlamentarista, que é uma monarquia que mantém a participação pública e mantém a representação pública. No geral, para não me prolongar, eu vou ficar com isso. Platão é muito importante, e não só ler A República e sair fora, existem os neoplatonistas, desenvolveram currículos de como, uma ordem para se ler o diálogo de Platão que funciona como uma iniciação filosófica, para você, vamos dizer, abrir a sua percepção e entender conceitos muito interessantes. Eu estudei dessa forma e, realmente, para mim, funcionou. Quem sou eu, mas eu sinto... Platão.

João "Rasta" Nogueira: [1:02:02] É a sua grande influência monárquica.

Eron Falbo: [1:02:05] Inicial, pelo menos. É claro que depois disso tem um milhão, mas como a gente acabou o tempo aqui, não quero entrar em coisas. Mas eu acho assim, se... se entender o rei metafísico, para mim, e até o Jung fala muito sobre isso, eu acho que o resto fica meio que óbvio, o porquê das coisas. Inclusive, eu acredito que o conservadorismo, para todos vocês que são seguidores do Rácio, o conservadorismo é muito, muito próximo e aliado do monarquismo, são correntes assim muito parecidas. Eu não acho que são necessariamente a mesma coisa, uma coisa não significa outra, mas são irmãos, são aliados, são primos, são o que for. Então é isso, a gente fica com essa. Tinha um monte de coisa que eu queria te perguntar que não deu tempo pra perguntar. Mas qualquer dia a gente...

João "Rasta" Nogueira: [1:03:04] Eu não tô com pressa de sair, não. A minha live não vai terminar, a sua live não vai terminar. Se você quiser perguntar, a gente...

Eron Falbo: [1:03:11] Não, não. Isso é um policiamento próprio, assim. É mais por manter, pra coisa não ficar diferente, né? Porque se eu for me permitir, aí vai ficar... Entendeu?

João "Rasta" Nogueira: [1:03:20] Então a gente vai, uma ou outra, em que você faz essas perguntas, tá bom?

Eron Falbo: [1:03:23] Vê-lhe. Eu agradeço. Seria fantástico.

João "Rasta" Nogueira: [1:03:26] Agradeço. Foi ótimo o bate-papo aqui. Valeu pelo seu convite. E a gente vai se falando.

Eron Falbo: [1:03:32] Valeu, valeu, Rasta. Muito obrigado mesmo por aceitar, e muito sucesso aí. Espero te ver aí com milhões de seguidores, que vai fazer bem para o Brasil.

João "Rasta" Nogueira: [1:03:43] Igualmente, cara, igualmente.

Eron Falbo: [1:03:45] Valeu, Rasta, tudo de bom. Boa noite.

João "Rasta" Nogueira: [1:03:48] Tchau, tchau.

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