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Eron Falbo: [0:05] Alô, alô! Sejam bem-vindos! Só esperando o José Castelo Branco entrar. Vamos fazer hoje uma live especial com uma celebridade portuguesa.
José Castelo Branco: [0:19] Olá!
Eron Falbo: [0:21] Olá, José! Como é que vai?
José Castelo Branco: [0:23] Vou muito bem! E você? Como é que está?
Eron Falbo: [0:26] Graças a Deus, tudo certo, tudo certo. Você está me ouvindo bem?
José Castelo Branco: [0:30] Estou ouvindo bem, apesar de não ter de estar a falar apenas para o meu telefone diretamente.
Eron Falbo: [0:37] Ah, está ótimo, dá para te ouvir bem. Se alguém tiver algum...
José Castelo Branco: [0:41] A iluminação está boa? É que você está com uma iluminação fantástica. Eu não sei se estou com o mesmo tipo de iluminação. Não faço ideia.
Eron Falbo: [0:50] Eu tenho uma daqueles ring lights que...
José Castelo Branco: [0:54] Eu também tenho, mas eu não sei funcionar muito bem com isto. É um horror.
Eron Falbo: [0:59] Vou ajeitar aqui. Ok, vamos começar, tá? Oficialmente. Eu vou fazer aqui uma introduçãozinha. Sejam bem-vindos, meus amigos. Espero que todos estejam bem. Estamos aqui hoje com uma figura excêntrica, bastante conhecida na televisão de Portugal, José Castelo Branco, um especialista em arte e moda. Além de ser um grande influencer, conhecido por dizer exatamente o que pensa, tanto quanto por dizer o que poucos pensam. José, seja bem-vindo. Obrigado por aceitar o convite. E, por favor, conte-nos um pouco sobre você. Você está hoje... Você está vivendo aonde?
José Castelo Branco: [1:40] Eu, neste momento, estou em Nova Iorque. Estou no meu apartamento em Nova Iorque.
Eron Falbo: [1:45] E por que você vive em Nova Iorque e não em Portugal?
José Castelo Branco: [1:48] É que eu vivo em Nova Iorque e não em Portugal por uma razão: desde 2015, a minha mulher, com quem eu estou casado há 25 anos, começou a ter problemas de saúde, a idade dela começou a avançar e, portanto, nós, por amor, temos que fazer opções. Eu, durante anos e anos, passava temporadas diferentes em Portugal e Nova Iorque. Agora, estou mais preso em Manhattan.
Eron Falbo: [2:23] Ah, entendi. Então, você passou um tempo entre... Nesta...
José Castelo Branco: [2:27] Altura, para mim, é muito complicado, porque Manhattan não está com vida, como sabe. Tudo parou. Os restaurantes não têm graça nenhuma, portanto as pessoas têm de ficar na esplanada, ainda não se pode entrar para dentro. Portanto, repare, os restaurantes que eu conheço e os que eu frequento praticamente não têm esplanada. Tiveram que inventar esplanadas na cidade, o que é muito desagradável.
Eron Falbo: [3:02] Eu não sabia dessa história.
José Castelo Branco: [3:04] Tornou-se um ambiente quase impossível, quase impossível de se viver, em que, de repente, a cidade mais segura do mundo começa a ter problemas de assaltos. Veja, por exemplo, a minha própria mulher, que anda sempre com 10 carats, 15 carats em cima, portanto, só com um anel. E, de repente, ela, quando está na rua, vira o anel para baixo. Diz-me: mas porquê? E ela diz: be careful, it's dangerous. Eu não tenho medo, eu estou sempre... Porque eu acho que tenho aquela defesa, que sou amiga da Rainha de Inglaterra, tenho. Nós afastamos, afastamos o mal.
Eron Falbo: [3:55] Mas você tem saída na rua? Como é que... Você tem saída na rua?
José Castelo Branco: [4:01] Não, querido. A minha saída na rua é muito relativa. Eu vou... vou onde? Ao supermercado. Nem à igreja posso ir. Não posso ir assistir à missa. Portanto, nem as igrejas estão abertas.
Eron Falbo: [4:17] E você é católico?
José Castelo Branco: [4:18] Vou comprar cigarros, de vez em quando. Eu vou de vez em quando ao médico com a Bete, acompanhá-la, toando linhas, portanto. Mais não se pode.
Eron Falbo: [4:31] Me diz uma coisa, José. Você é católico? Você é católico praticante?
José Castelo Branco: [4:36] Sou. Sou católico apostólico, de confissão e de comunhão. Mas atenção, respeito qualquer religião, porque eu acho que o verdadeiro católico não é dizer só "eu sou católico, eu rezo, eu vou a Fátima, eu faço isto, eu vou ver o Papa", não. O verdadeiro católico é uma pessoa que tem que ter amor. E quando se tem amor, quando se ama o próximo, nós aprendemos a amar a todos de igual forma, sejam de que religião forem, sejam judeus, sejam muçulmanos, sejam evangélicos, sejam da Assembleia, sejam protestantes.
Eron Falbo: [5:31] Quando você falou evangélico, você fez assim, foi de propósito?
José Castelo Branco: [5:34] Não, não, não.
Eron Falbo: [5:36] Estou a brincar. Não, eu não faço.
José Castelo Branco: [5:39] Não, eu tive empregados evangélicos. São pessoas maravilhosas, pessoas corretíssimas. Não, eu fiz assim porque estava a falar.
Eron Falbo: [5:48] Eu sei, eu estou a brincar.
José Castelo Branco: [5:50] Eu tenho os óculos na mão, está a ver?
Eron Falbo: [5:53] Não quero te sabotar.
José Castelo Branco: [5:55] Não, estava eu a dizer. Se as pessoas tivessem noção da importância da espiritualidade na nossa vida, talvez tivessem uma aceitação maior em relação a tudo, não é? Em relação aos budistas, em relação a tudo. Porque, por exemplo, veja, a igreja inglesa: a minha mulher é da igreja, da Church of England. Ela pertencia à Church of England e continua a pertencer. Um dos meus amigos é um dos bispos principais da Church of England. E vou lhe dizer que ela, atualmente, vai comigo há muitos anos já, há 25 anos, que ela frequenta comigo a Igreja Católica. Está a ver? E, parecendo que não, a diferença não existe.
Eron Falbo: [6:55] A Church of England é mais parecida com os católicos do que com os evangélicos hoje em dia. É mais cerimonial, muito parecida com o católico em termos de ser tradicional.
José Castelo Branco: [7:08] Dentro da Church of England você tem duas correntes. Tem uma corrente que é mais cerimonial, como você falou, que é dos bispos, do arcebispo de Cantuária, falando em português, e depois tem a outra corrente, que é uma corrente mais popular, que é diferente. Porque não se esqueça que a Church of England nasce com o Henrique VIII, quando quer casar com a Ana Bolena. E é quando ele se faz chefe da própria igreja e torna-se, e forma a igreja anglicana. Mas é essa a igreja que, imediatamente quando ele morre, se converte ao catolicismo. Aliás, o Lutero foi outro exemplo. Lutero nunca foi protestante. Ele morreu convertido, católico. E tinha sido excomungado pelo Papa. Mas não se esqueça que na altura do Lutero...
Eron Falbo: [8:11] Mas pra ele, ele era católico, né?
José Castelo Branco: [8:13] Havia aquela guerra entre Avignon e Roma. Havia aquela divisão. E, portanto, parecendo que não, tudo isso influenciou. E a agenda que o Lutero fez foi ter traduzido a Bíblia para sete línguas.
Eron Falbo: [8:30] Concordo. Mas, José, me diz uma coisa: você se vestindo de mulher, sendo homem, dentro da comunidade católica, como que isso é visto aí em Nova Iorque? Como que as pessoas que frequentam, sendo católicos e tradicionais, eles são mais mente aberta? Como é que está isso hoje em dia?
José Castelo Branco: [8:54] É engraçado. Na igreja foi dos únicos sítios que eu nunca tive problema nenhum, pelo contrário. Eu, a igreja que eu frequento em Portugal, é uma igreja... Portanto, tanto quando vou às igrejas perto da minha casa, que eu tenho uma casa do século XVIII em Sintra, uma casa muito grande, mas vou normalmente à Missa dos Turil, de Santo António dos Turil. E, portanto, há imensa gente conhecida, encontramos toda a gente, quase que chega a ser um ato social. No fim da missa, quase que é um ato social. Mas eu não gosto. Eu, quando vou à missa, gosto de ir a uma igreja muito humilde, dentro de um hospital, uma capela muito simples, que está completamente em decadência, percebe? Nós, em francês, utilizamos o termo... está completamente decayed, como dizem os ingleses. E é onde eu me sinto melhor, onde as pessoas mais simples deste mundo, mas tem um padre maravilhoso e eu adoro lá, e é lá que eu me sinto bem, entende? Em que eu posso estar vestido de Chanel, dos pés à cabeça, mas as senhoras que vão à missa, os senhores que vão à missa, têm o maior respeito por mim, e no fim vêm todos pedirem-me autógrafos ou dar um beijo, agora não se pode dar beijo. E, portanto, é muito interessante, porque acontece-me o mesmo quando eu vou ao Santuário de Fátima. Quando eu vou ao Santuário de Fátima, por vezes eu tenho surpresas maravilhosas, que chega a parecer que há pessoas que sentem quase que é uma graça divina eu ter-me aproximado delas e encontrarem-me em Fátima. Já me aconteceu uma série de vezes. Portanto, já tive uma série de vezes essa experiência. De tal forma que um amigo meu, por vezes, brincava comigo e, com uma certa ironia, dizia: um dia destes a senhora de Fátima vai sair do altar, da sua peanha, e dizer: "Zé Castelo Branco, venha para aqui, toma o meu lugar, que eu já não tenho paciência."
Eron Falbo: [11:35] Entrando um pouquinho na ideia de igualdade de gênero, identidade de gênero, que a gente combinou que ia conversar um pouco sobre isso: em Portugal você já é uma pessoa bastante conhecida. Eu conversei até com os meus primos de Portugal e todo mundo sabia quem você era, absolutamente todo mundo sabia. Aqui no Brasil não tanto, aqui no Brasil as pessoas não te conhecem tanto. Então, se você puder falar um pouquinho sobre o seu trabalho, como você começou na televisão, como é que você passou a ser conhecido, e depois, com essa introdução, a gente entra no assunto da igualdade de gênero, para explorar isso um pouco.
José Castelo Branco: [12:26] Bem, eu acho que as coisas se relacionam com as pessoas. Eu acho que tudo nasce connosco, nada acontece ao acaso, eu não acredito em acasos. Eu recordo, desde a minha infância, desde muito pequeno, a primeira vez que eu comecei a sentir que era gente. Estávamos hospedados, eu estava com os meus pais numa viagem pela Europa. Porque o meu irmão... Eu tenho, portanto, quando eu nasci, o meu pai tinha 65 anos, 66 anos. E a minha mãe tinha 45 ou 46 anos.
Eron Falbo: [13:16] Uau!
José Castelo Branco: [13:17] Por isso, eu tenho um irmão que tem 80 anos neste momento, vai fazer 80 anos. E eu recordo-me de ter os meus dois, três anos de idade. E eu estou em Paris, estou num hotel, estava no nosso quarto, e estou a ver televisão, e de repente fiquei muito fixo a olhar para o ecrã, e começo a ver um ensaio do ballet de L'Opéra de Paris. Eu começo a imitar a barra. A minha mãe olhou para mim e achou absolutamente normal, mas o meu pai não: "Isso, o que é que se passa consigo? Você agora virou..." Em português dizem maricas. Maricas quer dizer viado. "Você é... Não me diga que você é maricas, meu filho." O meu pai era um homem muito, muito elegante, era um homem chiquíssimo. Posso dizer que era um verdadeiro gentleman, até nas palavras ele tinha um cuidado brutal. Depois, recordo mais tarde, porque o meu irmão vivia no exílio, porque o meu irmão era contra o regime anterior de Salazar, certo? E ele foi um dos fundadores, porque eu nasci em África, numa colónia. E, como nasci na colónia, o meu irmão foi defender a colónia. Portanto, ele foi defender, digamos, o seu próprio povo, os seus próprios criados de casa, os empregados de casa, foi a eles que ele foi defender. Ele vai para o exílio nos anos 60, como era o usual, como sabe, em que havia só duas posições: ou se estava no regime, ou se era contra o regime. E para ser contra o regime, tinha que ser obrigatoriamente comunista. Mas ele era absolutamente brilhante, de tal forma que, quando ele vai para Paris, é imediatamente convidado para ser professor na Sorbonne, não como assistente, mas como professor. E foi assim que eu cresci, porque tomei dessa família, porque eu descendo de uma série de governantes e de políticos, não é?
Eron Falbo: [15:44] Ah, sim.
José Castelo Branco: [15:45] Sim, sim. Do lado do meu pai era tudo vice-reis e governadores-gerais da Índia, porque o meu pai nasce em Goa, na Índia portuguesa, na corte, e o pai era o governador-geral, o avô era governador-geral. Aliás, o meu bisavô, o meu trisavô, o meu treta-avô, que eu salto uma série de gerações, era o melhor amigo do amado rei Dom Miguel, que lutou contra o irmão, que era o Imperador Pedro, em Évora Monte. E o meu treta-avô direto, Silva Vieira, que é o meu último apelido, que era o bisavô do meu pai, exatamente, era um acérrimo miguelista, e ele ia ser nomeado vice-rei da Índia. E, como Dom Miguel perde a guerra contra o seu irmão em Évora Monte, e mais tarde o Brasil se torna independente, como sabe... Estamos a falar em 1700. Estamos a falar no século XVIII. Daí eu também ter bastantes familiares no Brasil, na minha linhagem, tanto de um lado como do outro. Sabe que nós, na Europa, as famílias são todas primas uns dos outros. Portanto, dentro da aristocracia, somos todos primos, não há dúvida, entramos em todas as casas. Quando ele perde, quem vai, inclusivamente, com D. Miguel ao Papa Inocêncio, a Roma, para anular o casamento com D. Maria, é o meu treta-avô, que o acompanha. Ele e o Conde do Prado. Ele era Visconde de Vila Nova de Orém, e o Conde do Prado. São as três pessoas que vão, que são testemunhas, as duas testemunhas principais de sua majestade, o Rei, e que anulam o casamento. Como sabe, ele era casado com a sobrinha, com a Dona Maria.
Eron Falbo: [18:01] E você tem algum título? Há pessoas na sua família que ainda retêm títulos?
José Castelo Branco: [18:08] Se eu vivesse em França, teria título, claro. Em Portugal, não, porque eu não sou o primeiro filho, sou o terceiro filho. Mas quanto a ter direito a Dom, tenho direito a Dom.
Eron Falbo: [18:24] E você acompanha o movimento monarquista português com o Dom Duarte?
José Castelo Branco: [18:36] Não, eu conheço bem o Dom Duarte. O Dom Duarte, inclusive, foi várias vezes à nossa casa; eu era muito próximo, e sou muito próximo do Sr. D. Miguel, do infante, agora não é infante, que é o Duque de Viseu, Sua Alteza Real o Duque de Viseu. E o Sr. D. Duarte foi algumas vezes à nossa casa, e eu acompanhei-o muito antes dele se casar com a Herédia. Inclusive, no dia anterior do casamento, nós estivemos a jantar todos na cozinha de Sintra, da casa dele, de Sintra, porque ele é meu vizinho em Sintra. Depois, temos grandes amigos em comum. Um deles é o chefe de protocolo do Príncipe Carlos, do St. James's Palace. E esse chefe de protocolo ficava sempre em nossa casa no verão, hospedado. Nós recebíamos muito. Temos nove suítes... dez, dez suítes.
Eron Falbo: [19:41] Esse eu adoraria entrevistar, chefe de protocolo deve ser cheio de...
José Castelo Branco: [19:46] Não, é um grande amigo nosso. Grande, grande, grande amigo nosso. Ainda há dois dias falamos com ele ao telefone. E, portanto, o Sr. Dom Duarte vinha tomar chá frequentemente à nossa casa, em Sintra, com a Lady Betty, com a minha mulher, e com o Antony.
Eron Falbo: [20:10] Eu vou fazer uma pergunta agora sobre a sua vestimenta. Você falou um pouquinho da sua juventude, vendo balé, e que o seu pai te chamou de marica, ou te perguntou se você era marica, na verdade. Como você se identifica? Como heterossexual ou homossexual, como mulher ou como homem? Como é a identidade para você?
José Castelo Branco: [20:41] Eu acho que tudo isso não cabe em rótulos. Eu não gosto de pôr carimbo em nada. Nós não somos gados, especialmente eu. Como rainha, jamais serei gado. Ter uma marca, um stamp, marcado na minha carne, acho isso péssimo, acho de mau gosto. Eu acho que nós somos seres que temos a liberdade de escolha, desde que saibamos manter a nossa dignidade, a nossa coerência, porque o que se faz entre quatro paredes, entre quatro paredes fica, certo?
Eron Falbo: [21:26] Sim, e como é para você estar casado há 25 anos com uma mulher? O que a sua esposa pensa da sua...
José Castelo Branco: [21:41] Portanto, o porquê de eu gostar de mulheres... e ao meu segundo casamento. A mãe do meu filho foi do meu primeiro casamento. Eu tenho um filho maravilhoso, não sei se vocês já viram... Pronto, é lindo. Meu filho é lindo de morrer, super bem educado. O Guilherme, meu filho, é maravilhoso, super bem resolvido. Ele é o meu maior orgulho. E o Guilherme foi do meu primeiro casamento. No meu primeiro casamento, eu casei-me com uma PA, que era a minha assistente. Contra a família, contra as regras da família, eu comecei a ser manequim com 16 anos. Na altura em que eu ia entrar na faculdade é que eu começo a trabalhar como manequim, porque eu sempre gostei de aventuras.
Eron Falbo: [22:35] Que aqui no Brasil é o modelo de passarela.
José Castelo Branco: [22:39] Exato, modelo, mas de alta costura. Comecei a trabalhar com alta costura, e fui, no fundo, dos primeiros mannequins de haute couture, que era um homem que vestia roupa de mulher, e nessa época eu criei uma identidade. E essa identidade que eu criei, porque eu não podia... Portanto, estamos a falar dos finais dos anos 80, nós não podíamos assumir o género. Então, eu tinha um nome de guerra.
Eron Falbo: [23:15] De mulher.
José Castelo Branco: [23:16] Que era Tatiana Valesca Romanov. Claro, tinha que ser tzarina. Era Tatiana Romanov. Inclusive, eu fui, durante bastante tempo, manequim de cabine do Yves Saint Laurent. Depois eu conheço a mãe do meu filho. Porquê? Porque eu precisava de assinar cheques, eu precisava de andar nos aeroportos, e eu comecei a ter uma secretária, uma PA, para estar sempre à minha frente. Aliás, quando eu tive de me apresentar no serviço militar, aos 18 anos, eu fui com ela e entrei com ela. Eu nunca mais me esqueço, foi muito engraçado, porque eu ia com um vestido, tinha rimuglã, cor-de-rosa, minissaia bem curta, mas ia com flat shoes, ia de bailarinas da Chanel, claro. E quando eu chego para fazer a inspeção, eu disse ao soldado que estava na porta: olha, chama o oficial. Porque eu vim fazer a inspeção sem perceber nada. Quando o oficial chega, eu disse assim: eu só entro se a minha secretária entrar, eu não entro sozinho, jamais. Ele olhou assim para mim e disse: pois, com certeza. Portanto, sem me conhecer, ficou tipo apavorado: mas quem é que é esta pessoa que diz que vem fazer a inspeção e que tem a ousadia de mandar em mim? Porque eu logo entrei em termos de dominatrix: abra a porta, porque eu só entro se for acompanhado. Fomos para uma sala, eu e a minha secretária, na altura, e chega um graduado acima do oficial e diz-me: posso ter o bilhete de identidade? Eu dei. Ele olhou o bilhete de identidade e depois mandou-nos subir. Quando eu subo, encontro-me com o comandante do quartel. Estava o médico, o comandante e o outro oficial. E quando chegamos à porta, diz assim o comandante: afinal, qual das meninas vem fazer a inspeção? Eu nunca mais me esqueço, eu faço assim, levantei o dedo, e sou eu. Claro que tinha as luvas calçadas, porque se não tivesse as luvas, jamais mostraria os meus dedos. Portanto, fiz assim. E ele ficou assim a olhar para mim. Entretanto, eu perguntei: é por isso que me dizes, pá? E o médico disse: não, não, não, é que a minha mulher é sua fã, adora vê-lo desfilar. Então mandaram-nos acompanhar, mandou um carro, acompanhámos, porque eu ia cheio de valises. Então mandou-nos acompanhar para um hotel numa praia, e ficamos lá instalados durante 10 dias. Foi o meu serviço militar, foi assim cumprido, num hotel de 5 estrelas. Depois, mais tarde, fiz uma tropa, fiz a tropa das celebridades, que era um reality show em que eu era a cabeça de cartaz. Acabei por fazer uma recruta.
Eron Falbo: [26:51] E isso foi quanto tempo depois de você ser modelo? Você era modelo e depois como é que você entrou na televisão?
José Castelo Branco: [26:59] Pois... Aos 19, para 20 anos, eu comecei a ficar com uma espiritualidade muito grande. De repente, dou por mim a casar com a mãe do meu filho e... Começo a entrar num processo de mudança, e nada acontece em vão. E quando entro nesse processo de mudança, eu começo a trabalhar em tapeçaria, porque eu tinha que sobreviver, de qualquer forma, não é? Portanto, começo a desenhar e a fazer tapeçarias. Fiz o curso superior de Belas Artes, na Escola Superior de Belas Artes. Depois, mais tarde, fiz um mestrado em História da Arte. Também me tornei marchand de arte, não é? Fui sempre um marchand com muito sucesso.
Eron Falbo: [27:52] Marchand, você diz, é negociador de arte?
José Castelo Branco: [27:54] Exatamente, sou negociador de arte e curator também. Portanto, eu faço escolhas e faço exposições em museu de vez em quando. Agora não tenho muito tempo para me dedicar, mas continuo a vender, portanto. Ainda há pouco tempo eu vendi uns Calder, vendi três Calder. E vendi um Francis Bacon no início do ano. Portanto, eu continuo sempre marchand, isso nunca vai se desfazer. Marchand é sempre marchand.
Eron Falbo: [28:28] Só um segundinho, por favor, com licença, só para avisar para o público que quem quiser fazer pergunta pode botar no... Tem um ponto de interrogação aí do lado dos comentários. Pode botar no ponto de interrogação, porque a gente tem muita gente assistindo, então a gente não consegue ver todas as perguntas. Se colocar no ponto de interrogação, a gente responde para vocês, porque alguém estava reclamando aí que a gente não estava respondendo. Mas uma curiosidade minha: sua esposa atual chama-se Betty, é isso?
José Castelo Branco: [28:59] Sim.
Eron Falbo: [29:00] Como que ela vê...
José Castelo Branco: [29:02] O nome dela é Elizabeth, mas toda a gente a conhece por Betty. Ela é Betty Grabstein.
Eron Falbo: [29:10] E como elas se relacionam com a sua identidade sexual? Não sexual, desculpa. Sua identidade em termos de aparência.
José Castelo Branco: [29:19] Ah, eu não tenho de contar. Sobre a minha sexualidade, muita gente questiona-se o porquê da minha sexualidade. Eu devia ter os meus nove anos de idade e o namorado de uma prima estava em nossa casa e abusou-me sexualmente. Abusou sexualmente de mim e traumatizou-me. Mais tarde, eu andei sempre em colégios internos, portanto, os meus pais me puseram sempre em colégios internos, como qualquer pessoa bem educada mandou os filhos para os melhores colégios, não é? Eu estive nos melhores colégios de Portugal, depois também estive na Suíça, mas agora é absolutamente indiferente. E nos colégios, claro, o assédio era brutal, de tal forma que eu tinha que me refugiar nas enfermarias. Eu tinha que arranjar doenças para ir para a enfermaria. Porque se eu estivesse com os outros coleguinhas, era para esquecer. Entendeu onde é que eu estou a chegar? Portanto, queriam todos, festa todos os dias.
Eron Falbo: [30:36] Mas mesmo na escola, mesmo no colégio interno, você já se vestia como mulher? Você já tinha algum indicativo para poder sofrer esse bullying?
José Castelo Branco: [30:44] Eu era naturalmente feminino. Era naturalmente feminino. Eu recordo-me, com 12, 13 anos, de entrar nos sítios e os homens levantarem-se para me darem um lugar. Eu entrasse, por exemplo, quando nós somos estudantes, nós andamos, como qualquer estudante, vai-nos buscar a carrinha do colégio e depois, de vez em quando, nós vamos ver a amiguinha e não vamos de táxi ou não vamos de chofer, não é? Portanto, vamos no metrô. E em Lisboa era muito seguro andar de metrô. E eu entrava no metrô e tinha homens que se levantavam para eu me sentar, porque achavam que eu era a menina.
Eron Falbo: [31:29] Então já tinha uma coisa meio natural. É isso que eu estava tentando entender.
José Castelo Branco: [31:32] Era absolutamente natural.
Eron Falbo: [31:33] Como é que começou?
José Castelo Branco: [31:34] Você diz no início... Foi muito difícil. Foi a minha transição para o homem. Isso é que foi a altura mais difícil da minha vida. Mas graças a Deus que tudo aconteceu. Eu nunca digo... Eu nunca me sento na cadeira do psiquiatra, na coisa dessas, neste caso, para reclamar do problema de identidade do meu pai, da minha mãe, o meu édipo, o meu eletra, não. Eu acho que tudo acontece por uma razão. Por isso eu tenho a força que eu tenho.
Eron Falbo: [32:13] Você tem uma aceitação do seu destino.
José Castelo Branco: [32:18] Por ter passado por tudo e por ter vencido todos os obstáculos. Porque sempre soube o que queria, sempre segui o meu caminho, nunca temi nada, nem ninguém, e foi isso que me deu a força que eu hoje tenho.
Eron Falbo: [32:37] Agora, José...
José Castelo Branco: [32:39] O José Castelo Branco todos conhecem.
Eron Falbo: [32:42] José, hoje em dia, você sabe, imagina, ainda mais morando em Nova Iorque, que tá tendo uma discussão muito grande de identidade de gênero e muitas pessoas fazendo lobby com universidades, com o governo, etc., para poder legislar uso de pronomes diferentes, como Z, Zer, para pessoas que se identificam não como he or she, não como ele ou ela, mas se identificam com formas diferentes. Você se chama de José Castelo Branco.
José Castelo Branco: [33:16] O meu nome é José Castelo Branco. O meu nome completo é José Alberto Castelo Branco de Silva Vieira. E eu só uso José Castelo Branco, por uma razão que depois mais tarde irei lhe explicar, para dar continuidade ao meu lado Castelo Branco, que também está ligado ao vosso lado Castelo Branco, que tiveram presentemente um presidente que era do meu ramo, que são de Sampaio Castelo Branco. E que são os Marqueses de Alencar. Inclusivamente, a Marquesa de Alencar era nossa visita de casa em Sintra, que era Castelo Branco. E nós tratávamo-nos por primos. Eles são pombeiros também. São pombeiros e Belas. O que se sabe é que é tudo uma... Há umas linhagens, depois há umas misturas. Mas o pai é tudo o mesmo. E o que é que acontece? Sempre me assumi como homem. Eu não preciso mudar de identidade. Quem gosta, gosta. Quem não gosta, vira a página.
Eron Falbo: [34:29] E você sempre pensou assim ou em algum momento você pensou em fazer cirurgia, em adotar uma identidade feminina, alguma coisa do tipo?
José Castelo Branco: [34:40] Sim, pensei, pensei, com os meus 17 anos, porque achei que era mais fácil para mim eu assumir uma identidade feminina. Mas aí é que foi o caricato da situação. Eu comecei numa noite a ter relações com a minha mulher. Fiquei espantado e disse: meu Deus, mas afinal o que é que eu sou? Não sou bicha? Eu sou tão bicha, tão bicha, tão bicha, que virei uma sapatona, já virei sapatão. E aconteceu no Plaza Athénée, Paris. Nós ficamos no mesmo quarto. Foi uma noite maravilhosa, nunca mais me esqueço. E ela foi dormir, porque não tínhamos quartos separados, não conseguimos, tivemos de ficar no mesmo quarto. Ela pôs a camisa a dormir, eu pôs o meu negligê também, e fomos as duas a dormir. E a cama era única, era cama de casal, não eram separadas. E ela fez-me qualquer coisa assim, tipo, night-night, sleep tight. Não sei, direi Lioa. Tirei Lioa, completamente de Lioa. E pronto, e foi a partir daí que eu disse... E não, comecei na minha confusão. E foi essa confusão, graças a Deus, que aconteceu, que eu realmente soube discernir o trigo do joio e separar as águas. Entendeu? Em que depois, quando eu me caso com a Betty, a Bete deixou que eu, aos poucos, desabrochasse como uma flor. Eu, como um nenúfar, comecei a abrir, a abrir, a abrir e a abrir. E foi isso tudo que aconteceu.
Eron Falbo: [36:41] Mas o que você quer dizer? Depois com a Bete, você adotou talvez uma sexualidade mais masculina, é isso que quer dizer?
José Castelo Branco: [36:51] Não, não, não. Não estou a falar de sexualidade. Estou a falar da parte exterior. Eu, quando me divorciei da minha primeira mulher, foi um grande sofrimento para mim como católico, inclusivamente, certo? Foi um grande, grande sofrimento. E quando eu conheço a Betty, nasce uma grande amizade. Uma grande, grande, grande amizade. Uma amizade que ultrapassava os cânones que não existem, até que chegou uma altura em que nós dizemos: não, nós temos que casar, porque a nossa vida é estarmos juntos. Porquê? Por uma razão: a Betty representa tudo aquilo que eu sou. E representava toda a mulher que eu era. E a minha primeira mulher nunca conseguiu. Entende-se? Nunca conseguiu ser a mulher que eu era, apesar de eu ter feito um verdadeiro pigmalião. Então transforma as pessoas.
Eron Falbo: [37:53] Mas o que significa ela ser a mulher que você era? Isso que eu não estou entendendo.
José Castelo Branco: [38:01] Estou a dizer, em toda a estética, eu identifiquei-me com a Betty e não com a minha mulher, com a minha primeira mulher.
Eron Falbo: [38:14] Mas você está dizendo com a estética dela?
José Castelo Branco: [38:17] Com a estética dela, evidente. Ela é uma estética elevada à última casa. E como eu sou um esteta, por natureza, é lógico que esta estética dela, de toda a cultura, os mesmos gostos, por tudo, nós somos iguais, somos dois em um. Apesar de termos quase 40 anos de diferença, nós somos dois em um. Não tem a ver com sexo, tem a ver com uma ligação emocional.
Eron Falbo: [38:53] E ela te vê desse mesmo jeito? Ela aprecia do mesmo jeito a sua estética feminina e a sua sexualidade masculina?
José Castelo Branco: [39:06] Tenho o maior respeito por isso. Apesar de ela ser uma mulher da sociedade, ela sempre foi uma pioneira em tudo. Até no próprio marido que ela escolheu. O primeiro marido era diferente, era o Sir Albert Grapstein, que foi um dos maiores diamanteiros de Nova York. E ela é joalheira, ela desenha joias. E, aliás, tudo o que eu trago é da Betty. Tudo. Tudo o que eu trago é da Lady Betty. E, parecendo que não, eu encontrei na Betty a minha alma gêmea, e ela deixou-me ser aquilo que eu hoje sou. Não sufocou a minha personalidade.
Eron Falbo: [39:58] E isso quer dizer desabrochar ela? Ela te fez encontrar sua personalidade?
José Castelo Branco: [40:03] Desabrochar-se como uma flor. Eu comecei, no fundo, a libertar-me mais desde dois mil e quatro. Na altura em que eu fiz a fazenda, como faz aí no Brasil, que é uma cópia do reality que eu fiz, o primeiro reality que eu fiz em Portugal, que era A Quinta das Celebridades, que eu ganhei. Ganhei esse reality.
Eron Falbo: [40:29] Ah, ganhou. Era a primeira edição, não?
José Castelo Branco: [40:31] Foi a primeira edição. A primeira edição real da Fazenda, que foi depois uma cópia, entre aspas, aí no Brasil, chamada A Quinta das Celebridades, The Celebrity Farm.
Eron Falbo: [40:47] Ok?
José Castelo Branco: [40:50] E eram doze celebridades atiradas para dentro de uma quinta, no meio dos animais, e tinham que viver como se fossem agricultores. E eu fui realmente a cabeça do reality, de tal forma que eu ganhei. Eu pus o país inteiro a falar de couture, de arte. Eu dava lições de arte, depois dava lições de espiritualidade, todos os dias. Portanto, os outros iam trabalhar para o campo. Eu, todos os dias, vestia-me de Hermès ou de Chanel, para ir ter com as vacas, ia conversar com as vacas.
Eron Falbo: [41:36] E isso tem no seu canal de YouTube?
José Castelo Branco: [41:39] Hã?
Eron Falbo: [41:39] Isso tem no seu canal de YouTube?
José Castelo Branco: [41:43] A Quinta das Celebridades, não sei, que eu até fiz com um ator, que era da Globo e que depois perdeu-se, mas hoje melhorou e já é deputado, com o Alexandre Frota. Nós fizemos uma dupla maravilhosa na época.
Eron Falbo: [42:02] Ah, acho que já ouvi falar disso. Tem uma pessoa aqui chamada Laura que está apaixonada por você, está pedindo para você casar com ela. Não, não posso com ninguém.
José Castelo Branco: [42:11] Estou muito bem casado. Obrigado, Laura. Fico lisonjeado, mas não.
Eron Falbo: [42:20] Eu não faço ninguém. Vamos responder alguma pergunta aqui do público? Se incomoda?
José Castelo Branco: [42:27] Não, de todo.
Eron Falbo: [42:29] Ok, vamos ver aqui alguma coisa. Agora veio bastante perguntas. Aqui uma boa: José, você pretende voltar a viver em Portugal?
José Castelo Branco: [42:41] Não sei. Eu acho que uma rainha tem que viver no seu exílio, tem que viver no seu exílio até o seu povo clamar por ela. Quando o meu povo verdadeiramente clamar por mim, eu regresso ao meu reino.
Eron Falbo: [43:00] Assim também pensa as grandes famílias em exílio, incluindo a família Orleans e Bragança aqui do Brasil.
José Castelo Branco: [43:11] Porque eu sou Bragança... Eu vou até ao quarto do Bragança.
Eron Falbo: [43:21] Incrível.
José Castelo Branco: [43:24] Eu vou até ao quarto do Bragança.
Eron Falbo: [43:28] Eu queria te contar uma história, não sei se você já ouviu falar disso, mas tem um homem que se identifica como mulher, chama Fallon Fox, era um lutador de MMA, Mixed Martial Arts, e por causa do lobby de igualdade de gênero, ele foi aceito como uma lutadora de Mixed Martial Arts. E o Fallon Fox, que é uma lutadora de Mixed Martial Arts, lutava com mulheres que nasceram com corpos de mulheres. Entendeu? Então isso é uma questão muito polêmica nos Estados Unidos hoje, que as pessoas estão tentando legislar que a identidade de gênero seja também legislação de gênero, ou seja, que mesmo que você tenha um corpo de homem, se você se identifica como mulher, você lute e faça competição olímpica e coisas do tipo como mulher.
José Castelo Branco: [44:34] Eu, se quisesse mudar de nome, e se quiser que no meu passaporte conste texto feminino, é muito fácil. Aqui nos Estados Unidos é muito fácil. Basta eu fazer, portanto, um registro e dizer, a partir de agora, mesmo sem ter cirurgias, portanto que eu não tenho cirurgias nenhumas. E se eu quisesse ter quatro rins, punha quatro rins. Mas não é isso. Pelo contrário, acho que isso iria me tornar mais vulgar. Eu acho que o ser andrógino me torna mais interessante. Com persona, eu me sinto melhor com persona.
Eron Falbo: [45:16] Mas o que você pensa...
José Castelo Branco: [45:19] A minha androginia faz-me sentir bem com persona.
Eron Falbo: [45:24] O que você pensa sobre essa questão de identidade de gênero? Homens e mulheres são iguais? Você acredita que as diferenças são construções sociais ou existem diferenças, vamos dizer, essenciais?
José Castelo Branco: [45:40] Oh, meu querido, existem diferenças físicas, não é? Existem diferenças físicas. Você não se esqueça que a criança, quando nasce, não sabe a sua identidade. Portanto, é a família que começa a mostrar que é um rapazinho, porque tem uma pilinha, tem que fazer xixi de pé, e a menina tem que sentar para fazer xixi sentada. Certo? Portanto, nós nunca sabemos exatamente aquilo que nós somos. Nós vivemos numa própria ambiguidade sexual até uma determinada fase da nossa vida, não é?
Eron Falbo: [46:22] Pronto.
José Castelo Branco: [46:25] Portanto, as regras da sociedade nos empurram para determinados caminhos. Eu, nesse aspecto, fui uma pessoa que se resolveu sempre muitíssimo bem, conseguimos resolver muito bem. Primeiro, eu recordo-me quando eu fui primeiro para a primeira escolinha, para o primeiro colégio, chamavam-me, eram um pequeno nome, era aluno portanto, deram-me um pet name feminino e aquilo chocava-me imenso. Mas eu também não me queixo do bullying que eu sofri. Pelo contrário, o bullying que eu sofri deu-me a força que eu hoje tenho. Pude levantar-me em qualquer salão e dizer: I am here, I am José Castelo Branco.
Eron Falbo: [47:23] Eu entendi esse ponto de vista. Agora, a minha pergunta é mais: essa identidade que você falou, a menininha treinada pra sentar e o menino pra ficar em pé, etc, que vamos dizer que, eu imagino que você tá dizendo que isso foi ensinado pra eles, né? Apesar deles terem genitais diferentes e isso também ser designado, vamos dizer, pela própria genética deles, né? Porque é mais fácil pra uma mulher ficar sentada, quer dizer, é mais difícil para uma mulher fazer xixi em pé do que para um homem fazer xixi em pé. Então, você está sugerindo que isso é só ensinado ou que foi extraído da genética?
José Castelo Branco: [48:11] Isso é adquirido, isso é ensinado. É lógico, é ensinado. Portanto, nós até aos nossos três anos, dois, três anos, não temos muita noção daquilo que somos, na verdade. Certo? Nós não temos essa noção. E nós, depois, é que vamos descobrindo, à medida que vamos crescendo, vamos descobrindo e vamos seguindo o nosso caminho. Por exemplo, eu vejo pelo meu filho, que é um rapaz super bem resolvido, que tem os seus amigos gays, inclusivamente, que não é gay, que vive com a sua namorada, é super bem resolvido, que assume o pai que eu sou. Eu nunca me esqueço, em 2018, numa das minhas viagens, o meu filho foi-me buscar ao aeroporto, e chegam os meus seguranças, e chega o meu filho, e quando eu estou a descer começam os fotógrafos todos, tudo é loucura, tchau, tchau, tchau. E o homem olhou para o Guilherme e disse assim: você está brincando? E o Guilherme disse: não, é o meu pai. O homem morreu, caiu, suicidou-se, atirou-se, não acreditou. Mas é prazer, como ele é bem resolvido.
Eron Falbo: [49:42] Que bom, isso é fantástico.
José Castelo Branco: [49:44] O Instagram dele, o Instagram do meu filho, é Guilherme underscore Castelo Branco.
Eron Falbo: [49:52] Então, você concordaria com essa facilidade que você mencionou, que se hoje você quisesse botar feminino no passaporte, você poderia? Você concorda com isso? Você acha que isso é saudável?
José Castelo Branco: [50:05] Oh, meu querido, para mim é absolutamente indiferente. Eu acho que nós temos a liberdade. Eu, nesse aspecto, sou muito democrata. Acho que nós todos temos a liberdade de escolha. Se há pessoas que se sentem mal pelo seu corpo, que não é o meu caso, e que queiram mudar de sexo, não é o meu negócio. Eu não me importo. Quem importa? Entende?
Eron Falbo: [50:32] Sim.
José Castelo Branco: [50:33] Pois, é a mesma coisa. Eu estou a falar consigo. Você é um homem. Eu quero saber se você gosta de homens, se gosta de mulheres, se gosta de... Sei lá. Eu não tenho nada a ver com isso. Não é o meu negócio. Eu não me importo.
Eron Falbo: [50:51] José, só pra colocar um pouquinho da minha posição nisso, eu acredito pessoalmente que as pessoas deveriam, vamos dizer, ter uma abertura pra poder se expressar e viver do jeito que elas querem viver, na privacidade da vida delas, do mundo delas, etc e tal. Agora, o que eu fico um pouco confuso é sobre como a gente vai progredir socialmente, é sobre as definições na legislação, né? Então, por exemplo, homens ficarem com homens no exército.
José Castelo Branco: [51:30] Eu já tive discussões muito saudáveis, claro, com grandes sociólogos, e aqui nem sequer é uma questão. Não vamos entrar em mitos e muito menos nas grandes feministas como Simone de Beauvoir. Mas vamos pensar que, dentro... já chegamos a uma certa conclusão: já há estudos que dizem que, dentro de 15 a 20 anos, pá, deixa de haver identidade. As pessoas vão ser naturalmente bissexuais.
Eron Falbo: [52:09] Isso, ok, mas isso em termos mentais de identidade? Só que no exemplo do artista marcial, do Fallon Fox, que era um homem, nasceu com corpo de homem, e foi lutar com mulheres, com corpo de mulher. Aí o que aconteceu? Ele lutou com uma lutadora chamada... Cici, agora, acho que eu não notei o nome dela. Lutou com uma lutadora mulher mesmo, indiferente do nome dela.
José Castelo Branco: [52:41] Eu também sou muito ignorante em termos de lutadores. Não é exatamente... Se você falar de ópera, se me falar de balé, se me falar de tênis, se me falar de golfe...
Eron Falbo: [52:53] Não faz diferença, na verdade.
José Castelo Branco: [52:56] É coisa. Agora, de lutadores não é exatamente o meu caso forte.
Eron Falbo: [53:00] Mas o que aconteceu foi que esse Fallon Fox, com corpo de homem, lutou com uma mulher, com corpo de mulher, e levou ela para o hospital. Com concussion, ela ficou em coma e com a cara desfigurada. Por quê? Porque ele tem os hormônios, o corpo, cromossomos masculinos e se identifica como mulher. Então a capacidade do corpo físico dele de força é muito maior do que a dela.
José Castelo Branco: [53:31] Desculpa, mas isso acho uma injustiça brutal. Porque repara uma coisa: se a genética dele é masculina, apesar da identidade dele ser feminina, ele podia escolher outros tipos de desporto, não é? E entrar em competição, do que entrar em competição com as mulheres, acho eu. Acho isso até uma falta de respeito. Isso foi uma falta de respeito, porque ele próprio sabia, ou ela própria sabia, da sua própria força e da sua própria brutalidade. Porque uma mulher, por muita brutalidade que tenha dentro dela, em termos de força física, não tem a mesma força que tem um homem.
Eron Falbo: [54:23] Então, mas essa é a questão, essa é a questão da sociedade hoje em dia. A gente tem a identidade, que é uma coisa mental, mas como que a gente pode fazer competições? Como que a gente pode mudar o passaporte de alguém? Porque, no momento que você mudou o passaporte baseado no que tá na sua mente, que é a sua identidade, você pode competir no Mixed Martial Arts como mulher. E se você faz isso, não é justo para as mulheres que estão competindo, que nasceram como mulheres. Entende? Então esse que eu tô apresentando como problema social que a gente tá vivendo, por um lado, mas isso...
José Castelo Branco: [54:56] É vice-versa, isso é muito controverso, é a mesma coisa. Imagina as mulheres transgênero que se transformam em rapazes, em homens, certo? Sim. Ah, eles também não podem competir com o homem, vão ficar em desvantagem, certo?
Eron Falbo: [55:16] Claro. Absolutamente.
José Castelo Branco: [55:19] É a mesma coisa. Portanto, eu acho que tem que haver uma determinada coerência connosco próprios e sabermos os nossos limites e sabermos respeitar o limite do próximo. Portanto, eu acho que a pessoa, uma coisa é o género, outra coisa é a competição. Então, se quer competir, vai competir com mulher, mas, portanto, se é homem e se transformou em mulher, certo, que vai competir com os outros homens. Se é mulher que se transformou em homem, que vai competir com outras mulheres.
Eron Falbo: [56:06] Mas isso é decisão de cada um?
José Castelo Branco: [56:09] Mas você está-me a tocar num ponto. Para mim é muito complicado, porque eu nunca me debrucei sobre esse assunto, que eu acho tão controverso, tão pouco importante, porque nem sabia que isso tinha acontecido, nem nunca imaginei. Por exemplo, eu sei que, atualmente, as transexuais podem fazer tropa aqui nos Estados Unidos. Uma transexual pode ser polícia nos Estados Unidos. Agora, eu ia pensar... nunca me pus a meditar: e se ela for para uma competição de ténis, vai competir na classe das mulheres ou vai competir na classe dos homens? Claro que a força dela pode ser... nunca vai ser igual à do homem, querido, se for transexual. Desculpa. Porque há uma coisa: por muita força que tenha na sua própria essência, agora tu ou eu pensaste, estou a pôr os meus neurónios a pensar, portanto, é impossível, é absolutamente impossível ela ter a força de um homem, porque não tem. Como é que eu lhe vou dizer? Eu não tenho medo de enfrentar um homem, eu enfrento qualquer homem. Mas eu vou lutar com o homem como se fosse uma mulher, naturalmente. Portanto, eu vou usar as minhas unhas, vou usar o cabelo, vou, não sei, eu penso assim, entende? Pronto, porque realmente, se nós estivermos a pensar com cabeça, tronco e membros, é assim que nós vamos pensar. Portanto, eu não estou a ver eu a lutar com o macho-man, não é? Com os músculos deste tamanho. Portanto, seria absolutamente ridículo. Mas se ele me fizer referente, claro que eu não vou a cobardagem. Eu até já apanhei touro pela frente. Se você for à internet, vai ver um programa que eu fiz, em que eu fiz uma pega de um touro, de frente.
Eron Falbo: [58:26] É, então, assim, a minha pergunta era em relação a isso, porque, como a gente falou aqui, existe uma grande diferença entre você se sentir bem, você ter uma identidade, e você participar socialmente em coisas oficiais como homem ou como mulher. Então, acho que, pelo que você está dizendo, você percebe que existe... apesar de você poder se vestir de um certo jeito, ter a sexualidade que você quiser, etc., momento que você entra num ringue, por exemplo, com uma mulher, isso seria injusto, né? Seria uma coisa aí, seria injusto.
José Castelo Branco: [59:10] Se eu tivesse em vantagem... mas atenção, não é tão injusto, se nós tivermos a pensar, não é tão injusto assim, porque repara uma coisa: uma transexual, neste caso, se transforma em mulher, não vai ter a mesma força que um homem em bruto, no seu estado natural. Eu acho.
Eron Falbo: [59:34] Sim.
José Castelo Branco: [59:35] Percebe? Mas, por outro lado, isso é muito controverso e é muito tricky, chega a ser tricky. Porque, rapaz, eu vou pensar: mas ela tem vantagem geneticamente, tem vantagem. Sim, pode ter geneticamente vantagem. Mas, portanto, e depois eu fico sem perceber, mas ela transforma-se em mulher para ser uma lutadora de boxe. Coisa mais estranha.
Eron Falbo: [1:00:06] Não é? Mas aconteceu isso. Isso é factual.
José Castelo Branco: [1:00:10] Mas isso são desequilíbrios, aí já são desequilíbrios totais. Porque, normalmente, a transexual que se transforma em mulher... o homem que se transforma em mulher e que tem essa liberdade, repare, ele vai buscar o lado feminino da mulher, o lado mais estético da mulher, não o lado de brutalidade da mulher. Então, para isso, mantinha-se homem, mantinha-se macho.
Eron Falbo: [1:00:41] José, esse assunto é extremamente polêmico, mas eu achei interessante que a gente iniciou essa conversa.
José Castelo Branco: [1:00:49] Eu começo assim a pensar: pera lá, mas como é que é possível? Isso acontece num milhão.
Eron Falbo: [1:01:03] Mas vai acontecer cada vez mais, porque não é só no MMA, vai ser no tênis, nas Olimpíadas.
José Castelo Branco: [1:01:09] Desculpe, se ela se transformou em mulher, pôs mamas, certo? Se pôs as mamas, se vai...
Eron Falbo: [1:01:18] Não, não, mas não necessariamente pôr as mamas, porque nos Estados Unidos, o jeito que as pessoas estão vendendo isso é que você se identifica do jeito que você quiser se identificar.
José Castelo Branco: [1:01:27] Ai, desculpa, isso acho ridículo.
Eron Falbo: [1:01:29] Mas é isso que estão tentando vender.
José Castelo Branco: [1:01:31] Se ela pôr as mamas, o implante vai...
Eron Falbo: [1:01:34] Mas não necessariamente. No Canadá, nos Estados Unidos, os alunos de universidade, se você falar... Você vê aqui que eu pareço relativamente como um homem. Você olha pra mim, você pensa: pô, é provavelmente um homem, né? Mas se eu quisesse, eu podia falar: eu me identifico como mulher, e você tem que me chamar de mulher.
José Castelo Branco: [1:01:57] Não, não, não, não, não.
Eron Falbo: [1:01:59] É isso, isso existe.
José Castelo Branco: [1:02:01] Não, não. Não é assim, não é assim. Você agora quer dizer que chegava aos Estados Unidos e dizia: a partir de agora, eu sou uma mulher.
Eron Falbo: [1:02:10] Mas tem muita gente que defende isso. Não estou falando que eu defendo isso. Não pode.
José Castelo Branco: [1:02:14] Se você ser mulher nos Estados Unidos, ou para uma mulher ser homem nos Estados Unidos, tem que, no mínimo, ter dois, três anos de vivência com... nesse próprio género. Isso é um pouquinho impensável, desculpa.
Eron Falbo: [1:02:36] Mas o lobby de igualdade de gênero está defendendo que você não precisa, porque isso é uma identificação. Eles falam: independente do seu genital, independente das suas mamas ou não mamas, o jeito que você se identifica mentalmente é o jeito que você deveria ser chamado e tratado.
José Castelo Branco: [1:02:56] Portanto, se você se identificar, de repente... Imagino que você agora resolve ser mulher, vai começar um processo de transformação hormonal, estética... Era o telefone a tocar. Infelizmente, as pessoas não sabem que eu estou num live. Eu tenho que começar a te pôr uma mensagem muito grande a dizer: quando eu estou em live, não me telefonem, que acho uma falta de respeito brutal.
Eron Falbo: [1:03:26] Mas, José, para a gente terminar o nosso assunto... É porque este assunto é muito polêmico.
José Castelo Branco: [1:03:31] Não, mas realmente é muito complexo, e acho que é interessante até.
Eron Falbo: [1:03:34] Sim, sim. Mas eu queria te agradecer por ter aceitado o meu convite. Para mim, foi uma conversa super profunda e com muitos pontos muito, muito interessantes. Eu te agradeço de coração por ter aceitado esse convite. Vamos terminar por aqui. Talvez outro dia a gente possa fazer uma outra live e retomar esse assunto com um pouco mais de tempo, porque já passou do nosso tempo combinado, e eu não quero tomar seu tempo.
José Castelo Branco: [1:04:01] Não, a mim não me está a incomodar nada. A mim não me está a incomodar rigorosamente nada. Mas fez-me uma pergunta muito tricky, muito, muito, muito tricky. Porque realmente eu acho inconcebível uma coisa dessas acontecer, acho completamente inconcebível. Portanto, se a pessoa está em vantagem, não vai... Portanto, uma transexual não se vai assumir, ou vice-versa. Portanto, homem que se transforma em homem, ou homem que se transforma em mulher, não vai estar a lutar com o sexo oposto, acho eu.
Eron Falbo: [1:04:34] Ok, eu estou com você também.
José Castelo Branco: [1:04:36] Não concordo com isso. Portanto, uma coisa é força, uma coisa é cabeça: jogo de inteligência. Outra coisa é força física. Força física tem sempre vantagem, claro.
Eron Falbo: [1:04:50] Estamos juntos nisso. Então, é isso. Muito obrigado a todos por participarem hoje com a gente. Obrigado, José, mais uma vez. E espero que a gente se veja em breve. Se você vier aqui pro Rio, ficaria muito feliz de te encontrar. Tudo de bom, boa noite pra você.
José Castelo Branco: [1:05:07] Obrigado.
Eron Falbo: [1:05:10] Tchau, tchau.
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