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#16 Segredos de Florença, a cidade humana

com Mario Nogueira · 15 de set de 2020

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Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Abertura e apresentação do convidado (0:00)

Eron Falbo: [0:05] Alô, alô, boa noite. Testando, som, som. E aí, Mario, tudo bem? Boa noite.

Mario Nogueira: [0:11] Tudo ótimo. Muito obrigado pelo convite.

Eron Falbo: [0:14] Está com o seu Aperol Spritz aí?

Mario Nogueira: [0:16] Tá aqui. Depois eu pensei, a bebida florentina não é o Aperol. Eu devia ter falado de estar tomando um Negroni, que é o drink típico de Florença, que foi criado lá. Inclusive o hotel onde foi criado, o bar, tá tudo lá. Quem quiser ir pode ir que tá lá. O barman eu imagino que não seja o mesmo, mas o resto tá lá.

Eron Falbo: [0:39] Eu não duvidaria nada, a galera lá.

Mario Nogueira: [0:41] Sendo lá, é capaz de ser o mesmo.

Eron Falbo: [0:43] Tem uns garçons de cento e poucos anos.

Mario Nogueira: [0:46] É, deve estar a mesma turma lá.

Eron Falbo: [0:50] Então, sejam bem-vindos todos os amigos aí, eu espero que todo mundo esteja saudável. Eu acabei de recuperar de um pouquinho de Covid, a gente estava conversando aqui. E agora já não estou mais, graças a Deus. Passei da quarentena e eu posso agora encontrar com vocês todos aqui no Instagram. A gente está aqui hoje com o meu amigo Mario Nogueira. Ele é a letra N do prestigioso escritório NHM em São Paulo. Ele se especializa em M&A, Mergers and Acquisitions, grandes negócios, compras e vendas de ações de empresas privadas. É um cara internacional, já viajou o mundo inteiro várias vezes. E tem uma casa em Florença, que todo mundo já está invejando um pouquinho. Ele é um grande apreciador de arte e de história. E nossas conversas, como sempre, foram muito edificantes. Resolvi convidá-lo aqui para todo mundo ter um gostinho também das nossas conversas, né, Mario?

Mario Nogueira: [1:48] Obrigado pelo convite. Hoje eu estou em São Paulo. Bom, agora a gente não consegue sair daqui, né?

Eron Falbo: [1:54] É, mas você não tem viajado mais, não, né?

Mario Nogueira: [1:57] Esse ano, não. Eu estive na virada do ano, estava na Itália, em Florença, mas depois que voltei, em meados de janeiro, a minha ideia era agora, no meio do ano, ter viajado. Minha filha é para um lado, meu filho é para o outro, e eu, eventualmente, ia com a minha mulher para Florença. Mas aí, com a pandemia, não dá nem para entrar na Europa, nem que a gente queira.

Pandemia e turismo na Itália (2:11)

Eron Falbo: [2:20] E você ficou sabendo lá se Florença foi muito afetada pela pandemia?

Mario Nogueira: [2:26] Foi. A Itália toda foi bastante afetada. Então, por exemplo, nós temos grandes amigos nossos que têm... Vamos chamar de hotel para facilitar o serviço. Não é bem um hotel, é um misto de apart-hotel com hotel. E durante três ou quatro meses eles tiveram zero de hóspedes. Zero. Nenhum hóspede. Ou seja, o turismo... Eu acho que a Itália deve receber qualquer coisa com uns 40, 50 milhões de turistas por ano. Deve ter caído pra... Porque nem europeu podia ir, né?

Eron Falbo: [3:01] Deve ter fechado muitos hotéis, né?

Mario Nogueira: [3:04] Muitos hotéis, muitos restaurantes, muita coisa deve ter fechado. Na Itália, durante algum tempo, o turismo interno estava proibido. Se você morava na Lombardia, você não conseguia sair para ir para a Toscana, sair para o sul. Então, o pessoal do turismo foi muito, muito duro na Itália. E eles têm uma dependência grande. Florença, por exemplo, tem alguma indústria ali na Toscana, tem alguma coisa, mas eles, a cidade especificamente, são altamente dependentes do turismo. Então, você ter aquilo fechado durante meses... E é essa história, meses sem perspectiva. Isso eu acho que é o grande... pior dessa pandemia toda é isso, é a falta de perspectiva. Quando é que abre? Amanhã, semana que vem, daqui a um mês? Não abre mais, vai morrer todo mundo e não vai abrir nunca mais. Então, foi um negócio muito complicado lá. Foi bem pior que aqui.

Eron Falbo: [3:52] E foi uma resposta muito rápida e com muito pânico, né? Especialmente na Itália, que foi um dos primeiros lugares a ter...

Mario Nogueira: [3:59] A ter um negócio de um tamanho violento. Primeiro na Itália e logo depois na Espanha, que foram os dois piores lá na Europa. E é uma coisa que muita gente se queixou. O problema é que a gente aprendeu essa doença ficando doente. Ninguém sabia como funcionava esse negócio. Então, realmente, no princípio, vai todo mundo para a direita, corria todo mundo para lá. Na verdade, não precisa ir tanto para a direita. Agora vai todo mundo para a esquerda, aí volta todo mundo para cá. Põe máscara, tira a máscara, porque estava se aprendendo. Os médicos não sabiam, eles tinham uma ideia, que em grande parte acertaram, mas tinham umas dúvidas. Minha mulher trabalha com vários médicos e tem contato muito com hospitais, e vários deles comentaram: hoje em dia a gente não trata mais a doença, a gente trata o doente, nós aprendemos isso. Então, provavelmente, o seu Covid foi diferente do Covid do seu vizinho. Ele teve uma experiência diferente, teve que ter um tratamento diferente.

Eron Falbo: [4:55] É, com certeza.

Mario Nogueira: [4:56] Eu estou dizendo os mais graves, os que foram parar em hospitais.

Eron Falbo: [5:00] Eu, por exemplo, não tive sintoma nenhum daqueles que todo mundo fala, de perder o olfato e o paladar, esse tipo de coisa eu não tive. Eu só tive febre e tosse.

Mario Nogueira: [5:14] Um caso interessante, por exemplo, um sócio meu, um rapaz bem mais novo que eu, super atleta e surfista. A família dele toda teve. O pai, a mãe e ele. Os pais têm mais de 60. Dentro daquele padrão geral é o seguinte, os pais estão condenados e ele vai ter uma gripezinha. Ele ficou mal pra burro, não chegou a ser hospitalizado, mas ficou muito mal. Depois ele descrevendo que ele se sentia muito mal e tal. O pai dele não teve nada. Perdeu um pouco o paladar e tal e passou. Ao contrário de tudo que a gente previa dentro da mesma família. E o irmão dele conviveu com todo mundo e não teve nada. Fez o exame, negativo.

Eron Falbo: [5:57] Não dá pra esperar nada, né? Não tem uma coerência.

Mario Nogueira: [6:00] Exato. Nós estamos aprendendo como é que funciona esse raio desse troço. Aí, quando a gente aprender tudo, é mais ou menos como criar filho. Um dia que você sabe tudo, ele já cresceu, saiu de casa. Aí você descobre que fez um monte de coisa errada. Mas não tem como. Não vem com manual.

Filhos, educação e planos futuros (6:02)

Eron Falbo: [6:13] É verdade. Eu também, você sabe, tenho dois filhinhos e todo dia...

Mario Nogueira: [6:19] Eu tô começando a acabar os meus, você ainda tá começando os seus.

Eron Falbo: [6:22] Tá correndo já, que eu tô terminando ele já.

Mario Nogueira: [6:24] É, mais ou menos. Meus filhos estão com uns 17, 18, outro com quase 17.

Eron Falbo: [6:28] Daqui a pouco você fala, vai embora daqui, tchau.

Mario Nogueira: [6:32] O mais velho, em meados do ano que vem, se forma e já está querendo estudar fora. Ele estuda na escola britânica aqui em São Paulo, então já está se preparando para ir para a Inglaterra.

Eron Falbo: [6:44] Ah, ele estuda na Saint Paul's?

Mario Nogueira: [6:45] Estuda na Saint Paul's.

Eron Falbo: [6:47] Ah, que legal.

Mario Nogueira: [6:48] Desde pequeno, desde os três anos de idade. Eu sei, numa época vocês estudaram lá. Eles gostam muito da escola. E meu filho, o final do ano agora, está acabando. E minha filha, ainda falta um pouco mais, ainda faltam dois anos. Quer dizer, dois anos mais esse, né? Mas também quer ir para o exterior. Então, daqui a três ou quatro anos, vão ficar eu e minha mulher só.

Eron Falbo: [7:13] E eles querem fazer o quê? Eles já sabem? Querem...

Mario Nogueira: [7:16] O meu filho quer fazer ciências políticas. E minha filha, a vida toda, falou que ela queria trabalhar com moda. Então, queria fazer administração em moda e tal. Cinco meses pra cá, descobriu que não, ela quer fazer... não. E descobriu que existe um negócio que são chamados ciências criminais, que é um pouco dessa psicologia aplicada ao crime. É o CSI. E ela descobriu que existe um... Nossa, mas esse curso em Londres é maravilhoso, é tudo que eu sempre quis estudar, não sei o quê. Tá ameaçando mudar. Vamos ver, como pra ela ainda faltam três anos, ela tem bastante tempo.

Eron Falbo: [7:49] Esses técnicos do CSI da vida, especialistas, sei lá como é que chama isso, perícia criminal, eles ganham muito mais do que o pessoal do mercado da moda.

Mario Nogueira: [8:00] É menos glamouroso, mas deve ganhar mais.

Eron Falbo: [8:09] Mas o glamour não enche a geladeira.

Mario Nogueira: [8:16] Mas, então, em princípio, tem mais dois ou três anos aqui, só que eu consigo, vamos dizer, ainda educar as crianças depois.

Eron Falbo: [8:23] Qual foi a última vez que você foi para Florianópolis?

Réveillon em família em Florença (8:24)

Mario Nogueira: [8:27] Foi em janeiro desse ano. Nós passamos o Ano Novo. Nós tínhamos combinado com a família da minha mulher: meu cunhado mora nos Estados Unidos, nós aqui, a outra irmã da minha mulher aqui também. E aí nós terminamos, fomos todos para lá, e esse casal de amigos nossos que eu falei, que tem esse hotel, como nós fechamos, sei lá, talvez um terço de um dos hotéis deles, eles cederam uma sala para nós. Nós contratamos um catering daqui, indicado por eles, ela mandou várias opções de catering lá, de buffet, nós contratamos aqui do Brasil. Coincidentemente, nós não sabíamos disso, foi pelo preço e pelo menu que eu ofereci, e contratamos uma senhora que tinha trabalhado no Brasil. Então, ela falava português correntemente, além de tudo. A dona Elisabetta. E aí nós começamos: todo mundo que a gente encontrava, vamos passar o Ano Novo. E vários aceitavam. Para você ter uma ideia, nós acabamos conseguindo juntar 31 pessoas no Ano Novo lá em Florença.

Eron Falbo: [9:31] Uau, caramba!

Mario Nogueira: [9:32] E aí teve gente que chegou, passou o Ano Novo e foi embora para outros lugares, que ficou um pouco mais e voltou. Nós ficamos até o dia 15 lá e foi muito divertido. Foi uma experiência muito boa lá.

Eron Falbo: [9:44] E é bom lá o Ano Novo? Como é que a Florença e o pessoal festejam? Porque ali, no geral, tem festa?

Mario Nogueira: [9:50] Tem. Eles, tradicionalmente, a prefeitura organiza várias festas. E é publicado antes. Então, cada praça tem um tipo de música. A praça perto desse hotel, onde nós passamos o Ano Novo, tinha música dessas bem modernosas. Mas na Piazza della Signoria, que é aquela praça que todo mundo conhece, que tem as estátuas, a cópia do Davi, normalmente é música clássica. Aí no fundo tem o Inocente, eles tinham aquelas músicas americanas, não eram negro spiritual, mas coisas do tipo, aquelas músicas religiosas americanas. Tipo gospel. Exato, gospel. Então, na verdade, você pode escolher a festa que você quiser.

Eron Falbo: [10:38] Ah, legal.

Mario Nogueira: [10:39] Agora, esquema europeu: público vai até uma hora, um pouco da manhã, aí acabou, apaga a luz, todo mundo faz silêncio e tal. Obviamente, aí você tem as festas privadas, que vão até a hora que quiser. Mas em público eles costumam ser um pouco mais contidos, mesmo sendo italianos, são um pouco mais contidos. E aí tem foguetório à meia-noite, aquela coisa toda.

Eron Falbo: [11:02] Ah, legal. E você, com que frequência você costuma voltar para a Florença, para o seu apartamento? Você que se considera morador lá, né?

Mario Nogueira: [11:13] Não, eu não chego a ser morador lá. Eu passo, no máximo, somando tudo, não chega um mês por ano. Eu tento ir duas vezes por ano. Houve um ano excepcional, que minha mulher conseguiu, por razões de trabalho, essas coisas todas, ir mais vezes. Então, ela foi num ano, ela foi quatro vezes. Mas foram três que ela foi a trabalho e uma que nós fomos passeando. Ela tinha que trabalhar em Roma. Hoje em dia, de Roma a Florença, de trem, você gasta uma hora e quarenta. Você vai lá na Termini, pega o trem, uma hora e quarenta.

Eron Falbo: [11:51] É mesmo? Uau!

Mario Nogueira: [11:52] É, é muito rápido.

Eron Falbo: [11:54] Muito rápido.

Mario Nogueira: [11:54] Se você estiver em Milão, é um pouco mais, umas 2 horas, 2 horas e 40 minutos.

Eron Falbo: [11:57] Eu já fui de carro, de carro é bem mais, não? Eu me lembro que eu fui... de...

Mario Nogueira: [12:01] Carro é bem mais, de carro é bem mais, bem mais. Claro que o carro tem a vantagem de ser o carro. Agora, o carro, nas cidades italianas em geral, e Florença especialmente, se você vai fazer uma viagem, então você chega em Roma, visita Roma, pega o carro, vai pra Florença e tal, faz aquele tradicional Roma, Florença, Veneza, é muito bacana, você tem um carro, você pode parar no meio, cada cidade que você para no meio desse caminho aí tem uma igreja maravilhosa, tem alguma coisa para você visitar. Para citar só uma, você tem Verona nesse meio de caminho, que é um troço. Mas se você vai fazer só Roma e Florença, o carro é um mico, você vai pagar um assalto de estacionamento, no centro da cidade você não anda. A minha rua específica, se o seu carro for um pouco maior, ele não sai da rua, porque o meu prédio é um prédio do século XIV, era parte de um convento, o convento que acaba numa igreja. E essa igreja, o padre precisava de espaço, ele simplesmente puxou: você vai descendo numa reta, de repente tem um ângulo assim, e ele cortou um metro da rua. Só que ele deve ter feito isso em 1400 e bolinha, quando passava um cavalo. Continuou passando o cavalo, ninguém se importou com o assunto. Fora que era o padre, ninguém ia falar do padre. Hoje em dia, se você tem um carro maior, já teve caso: o carro desce e fica parado lá.

Eron Falbo: [13:29] Mas em Florença as pessoas não gostam muito do clero, não é? Historicamente o florentino é meio rebelde, né?

Mario Nogueira: [13:36] Não, eles têm uma relação de amor e ódio com a igreja. Lá tudo acaba, o cardeal, o bispo da cidade, a pessoa toda, tem um monte de procissão. Aliás, tem uma coisa muito divertida, eles têm um monte de festas históricas. E aí você tem uma série de grupos que se vestem com roupas históricas e fazem o desfile da cidade. O desfile mais tradicional sai do Palácio Pitti, depois da Ponte Vecchia. Estou falando como se todo mundo conhecesse a cidade: Florença tem um rio grande no meio, que é o Arno. O Palácio Pitti fica do lado de lá do Arno, e o centro histórico, que todo mundo mais conhece, onde fica a catedral, aquela torre, o Davi, etc., fica do lado de cá do Arno. É basicamente uma rua que liga essas duas coisas. Aí o pessoal se reúne lá dentro do Pitti, que hoje em dia é um museu muito bonito, aliás, na verdade, são quatro museus, se veste lá e sai andando. Então sai um cortejo enorme.

Festas tradicionais e calcio storico (13:49)

Eron Falbo: [14:39] Mas isso é o quê, na época do carnaval?

Mario Nogueira: [14:41] Qualquer coisa. Você falou, eles fazem um desfile desses. O que a gente costuma ver é o desfile dos Reis Magos.

Eron Falbo: [14:48] Qualquer desculpa para vestir a roupa.

Mario Nogueira: [14:50] Para vestir a roupa. O que a gente costuma ver, porque a gente está lá, nós costumamos ir para o Ano Novo, é o do dia dos Reis Magos. Então, no dia 6, eles fazem um desfile grande desse, que vai até a catedral, e aí na catedral tem uma cerimônia, o cardeal tá lá, abençoa todo mundo, etc., etc., etc., e depois é o dia que então desmontam o presépio, aquela coisa toda. Então essa cerimônia começa com isso. E aí começa com um casal que imita os Médici lá, os arquiduques, lindo, depois vem... E aí as diversas cidadezinhas próximas ali de Florença, então eles vêm... E tem aquelas famosas, vocês já devem ter visto, que é muito tradicional, não sei se tem em toda a Itália, certamente na Toscana, que é aquela brincadeira com bandeira: você joga a bandeira pra cima, pega a bandeira, um joga pro outro, então eles ficam fazendo aquele movimento, vira a bandeira pra cá, depois joga tudo pra cima. Então vários grupos que fazem isso e fazem todos sincronizados.

Eron Falbo: [15:48] E você já chegou a ver o Calcio Storico lá, aquele esporte sangrento?

Mario Nogueira: [15:54] O Calcio Storico é dia 24 de junho. Você falou que eles não gostam muito de padre, mas, por falta de santo patrono, em vez de um, eles têm dois. Eles têm uma santa que é a Santa Reparata e tem São João Batista. Então, dia 24 de junho, mesmo dia que a gente faz forró aqui no Nordeste, eles fazem lá.

Eron Falbo: [16:14] Eles, historicamente, eram uma espécie de democracia, mais ou menos, uma espécie de oligarquia, não é verdade?

Mario Nogueira: [16:23] Não, não, era uma oligarquia.

Eron Falbo: [16:24] Mas eles nunca concordavam com nada, não é? Por isso que eles deviam ter dois santos patronos, porque não conseguiram chegar a um consenso.

Mario Nogueira: [16:33] Provavelmente, provavelmente. Mas o João Batista, no dia 24, divide a cidade em quatro... é mais do que bairro, regiões, cada região tem uma cor, então tem azul, branco, vermelho e amarelo, sei lá, verde, não sei, disputam dois a dois, é o mata-mata, se eliminam no dia 24 e tem a final. E o negócio é uma mistura de futebol com rugby, salve-se quem puder, e eles pegam em frente à praça, são três grandes igrejas, Florença tem mais igreja do que gente, tem um monte de igreja, mas tem três grandes. A Catedral de Santa Maria del Fiore, que fica no centrão, que é a que todo mundo conhece, que é aquela verde, vermelho e branco. Você olhando para a Catedral, se você virar para a esquerda e for em direção à estação, você tem a igreja Santa Maria Novella. E se você for para a direita, para o fundo da Catedral e continuar em frente, você chega na grande igreja franciscana, que é Santa Croce, que é o Panteão. A turma toda é importante, está todo mundo enterrado lá. Uma coisa importante, o florentino mais famoso de todo lugar, que é o Dante, não está enterrado lá. Tem o túmulo dele lá, mas é vazio. Não tem ninguém lá dentro. Ele está enterrado em outra cidade.

Eron Falbo: [17:54] Foi comemorada a morte dele anteontem? E uma pergunta sobre, vamos dizer, Florença atualmente, porque Florença a gente vê em filme, a gente lê em livro. Florença é uma cidade assim que influenciou muita arte, cultura, da Renascença para cá. Só que o que eu queria saber é o que você acha, hoje em dia, da cultura. Se hoje em dia tem artistas, como é que está a cidade, viva? Ela é uma cidade vibrante ou é só turística, meio histórica?

Cena de arte contemporânea em Florença (18:04)

Mario Nogueira: [18:31] Não, tem muita coisa. E não tem nada mais fantástico do que você estudar arte em Florença. Quando digo estudar arte, Florença tem muita coisa. Você pega desde a Idade Média para adiante. Se você estudar Renascimento, a vantagem é que você fala, vamos falar de Botticelli. Minha mulher passou por isso. Ela estudou seis meses de arte em Florença. Daí que começou a história toda de Florença. Então, vamos falar de Botticelli. Peraí. Aí cata todo mundo, leva pra rua, entra nos Uffizi. Fala, tem uma sala de Botticelli aqui dentro. Agora vamos falar de escultura. Vamos falar de Cellini. Tem Cellini. Vamos falar do Michelangelo. Tá todo mundo lá. Você anda na rua, você tropeça nessas coisas. Então, você tem esse sentimento de arte muito grande na cidade. Hoje em dia, é claro, você tem movimentos mais novos, e aí, por exemplo, coincidentemente, esse bairro que fica do outro lado do Arno, onde fica esse hotel que a gente estava, que chama-se... Na hora que tenho que falar o nome, eu esqueço. San Niccolò. É um bairro de artistas, então você tem vários ateliês de artistas, e agora, por exemplo, você tem artistas lá que fazem grafite, tem grafites muito típicos. Por exemplo, tem um sujeito lá, não sei o nome do artista, mas todo o grafite dele é como se fosse uma figura qualquer, uma paisagem qualquer, como se fosse embaixo d'água. E ele coloca, por exemplo, um mergulhador ou alguma coisa, o que ele diz é arte sob a água. E ele grafita isso pela cidade, e você pode comprar originais, que obviamente custam caríssimo, ou então reproduções, que você compra nesses ateliês que tem nessa região de San Niccolò. Então tem muita coisa de arte, tem muito estúdio ensinando arte, tem muita coisa de preservação de arte lá. E uma coisa que eles têm fantástico lá, que a cidade exige, quem se interessa é pelo assunto, são ateliês de restauração. Então você tem todo o material de restauração, 550 mil cursos de restauração, e dos melhores restauradores do mundo estão lá, porque aquilo é uma restauração permanente. Você tem quadros lá de 500, 600 anos, do melhor que a humanidade produziu em arte, que aquilo tem que ser mantido.

Eron Falbo: [20:50] E também tem antiquários, tem galerias vendendo?

Mario Nogueira: [20:55] Tem, muita coisa. Isso aí também, lembrando da história do rio, você atravessa a Ponte Vecchio, se você atravessar a Ponte Vecchio e for para o lado esquerdo, você vai para San Niccolò, que é essa região dos artistas mais novos. Se você for para o lado direito, você tem um bairro, Santo Spirito. Tudo isso que eu estou falando corresponde a uma igrejinha. Então você tem a igrejinha de Santo Spirito, que é uma igrejinha super bonita, e na região tem vários ateliês de restauração e antiquário. Então é uma região muito agradável de se caminhar.

Eron Falbo: [21:30] A última vez que eu fui para Florença, eu era jovem e incompetente artisticamente. Eu não comprava. Hoje em dia, eu estou muito mais interessado em comprar coisas ricas.

Mario Nogueira: [21:45] Mas lá é coisa cara. Lá é coisa boa.

Eron Falbo: [21:48] Imagino, imagino. Mas onde tem muita coisa, você consegue achar algumas barganhas?

Mario Nogueira: [21:55] Eu gosto de arte, mas eu não sou um entendedor de arte. Então, eu não sou capaz de entrar num lugar e sair procurando e dizer: ah, isso daqui é um achado, isso aqui é uma maravilha e ninguém deu bola, eu consigo achar. A pouca arte que eu já comprei na vida, eu gosto e compro. Quando consigo comprar, eu compro. Mas eu não sou um sujeito que entende o suficiente para dizer: ah, isso aqui é um achado, isso aqui é um... Ninguém sabia que era da Vinci, eu achei, tá escondidinho e tal.

Eron Falbo: [22:23] É, eu também...

Mario Nogueira: [22:24] Eu não tenho esse faro.

Eron Falbo: [22:25] Eu tô começando, quem sou eu?

Mario Nogueira: [22:26] Mas o que eu faço, eu morro de inveja de andar por aquelas ruas lá e ver as coisas super bacanas que eu tinha vontade. Até porque meu apartamento é muito pequenininho, se eu comprar tudo que eu tenho vontade, um dos dois não cabe lá dentro, ou as coisas que eu comprar ou eu. Então eu tenho que maneirar.

Eron Falbo: [22:43] Está certo.

Mario Nogueira: [22:44] Mas tem muita coisa lá. Para quem gosta disso, tem muita coisa. E quem gosta de pintar ou de restaurar, quem trabalha com arte, lá é um paraíso. Você tem dezenas de lojas vendendo, tem demais. Não é o único lugar. Agora, o fantástico de Florença é que tudo isso numa cidade de 350 mil habitantes. Quem é aqui de São Paulo, vou fazer a comparação, 350 mil habitantes é pouco maior do que Itu. Você imagina, Itu a 80 quilômetros aqui de São Paulo, e achar tudo isso. Na praça central de tudo tem um orelhão gigante, você tem o daqui. Florença é assim.

Eron Falbo: [23:22] Então indo um pouquinho para o assunto aqui de M&A e advocacia, etc. Você hoje tem um escritório chamado NHM, que é relativamente recente. E antes você foi, durante muitos anos, sócio do Demarest Almeida.

Trinta anos no escritório Demarest (23:41)

Mario Nogueira: [23:43] 30 anos.

Eron Falbo: [23:45] 30 anos, uau, 30 anos. Isso que eu ia te perguntar primeiro. E o que você fazia principalmente lá no Demarest?

Mario Nogueira: [23:52] Eu entrei no Demarest sempre para fazer essa parte de M&A. Na ocasião... Bom, se você fizer a conta para trás, você vai ver que dá nos anos 80. Anos 80 é crise, crise da dívida, aquela coisa toda. Então, o M&A no Brasil era muito mais devagar do que veio a ser depois, a partir dos anos 1990. Então, nós não tínhamos um departamento de M&A dentro do Demarest, embora na ocasião o Demarest já fosse um dos maiores escritórios de São Paulo e do Brasil. Era o segundo ou terceiro em tamanho. Ficava dentro do societário. Então, eu fazia um pouco de societário, um pouquinho de M&A, mas acabei enveredando mais nessa área de M&A. Nós trabalhávamos muito com clientes estrangeiros, então, tradicionalmente, eu fiz M&A pela ponta compradora, representando algum cliente estrangeiro. Então, nessa história toda, as coisas divertidas, por exemplo, das primeiras operações de M&A que eu fiz, foi quebrando a minha regra, era uma venda, eu estava na ponta vendedora, vendendo um negócio que você já viu, que você já visitou muito museu, você conhece, é um negócio chamado máquina de escrever. Eu vendia divisão de máquina de escrever da IBM. Exato. Quem tem menos de 30... A máquina de escrever, minha avó dizia que tinha. A gente vendeu e teve gente que comprou. Havia interesse em comprar. A gente tinha que ver estoque. Não sei quem lembrava. Aquelas bolinhas que você punha na máquina da IBM, que você trocava para fazer diferentes tipos de letra. Então tinha o estoque das bolinhas. Aquela coisa toda. Então, uma das primeiras operações que eu fiz foi a venda da divisão de máquinas de escrever da IBM.

Eron Falbo: [25:35] E você chegou a conhecer o senhor Demarest, o fundador do escritório?

Mario Nogueira: [25:42] Não, na verdade, o Demarest... nós temos um sócio no escritório, que é o sócio mais antigo do Demarest. Depois de 30 anos, eu continuo chamando o Demarest de nosso e meu. Eu esqueço, não tem mais nada a ver com o Demarest. Há três anos que eu saí, mas... Me perdoem aí a apropriação indevida, mas o sócio mais antigo do Demarest, o Dr. Naum, ele hoje é um senhor de 94 anos. Está lá no escritório até hoje, vai de segunda a sexta, lúcido, perfeito, está lá todo dia. Ele foi a única pessoa que trabalhou com o Kenneth Demarest. O Demarest, em 1962, voltou para os Estados Unidos e nunca mais voltou para o Brasil. Saiu do escritório, voltou para os Estados Unidos, e ele era americano. Só manteve o nome. E o outro sócio, o Almeida, eu conheci, e conheci bastante bem. Ele faleceu, se não me engano, foi em 90... em 86... Exato, foi em 96. Então, eu conheci bem, cheguei a conviver com ele, cheguei a trabalhar com ele.

Eron Falbo: [26:53] Eron Falbo: E ele continuou como a figura principal depois que o Demarest foi embora?

Mario Nogueira: [26:58] Mario Nogueira: Ele criou uma aposentadoria compulsória aos 65 anos. Para dar o exemplo, ele se aposentou compulsoriamente aos 65. Então, quando ele se aposentou, eu não estava no escritório, isso foi antes. Mas... o que eu estava falando, doutor Batista? Ah, sim: ele se aposentou, mas continuou no escritório. Era uma pessoa encantadíssima e tal, mas fazia alguns trabalhos pontuais, obviamente conhecia todos os clientes. E era aquela história: a gente chegava no escritório, dizia alguma coisa, e todo mundo, sim senhor, não senhor. Mas ele já não trabalhava, já não estava à frente das operações.

História de espionagem de Kenneth Demarest (27:53)

Eron Falbo: [27:53] Eron Falbo: Entendi. Mas ele ficou no escritório até morrer. Eu vi uma história, um dia que você me contou, que o Demarest tinha um envolvimento com espionagem, com os Estados Unidos.

Mario Nogueira: [28:05] Mario Nogueira: É verdade, é verdade.

Eron Falbo: [28:07] Eron Falbo: Se você puder mais ou menos contar essa história, e uma pergunta fica no final: você acha que é por isso que ele foi embora do Brasil?

Mario Nogueira: [28:16] Mario Nogueira: Bom, a história é o seguinte: o Demarest era um cidadão americano que veio para o Brasil pela primeira vez em 1930 e pouquinho, como advogado de uma empresa de eletricidade, não a Light, uma concorrente da Light que existia aqui em São Paulo. Aí ele trabalhou aqui, e nisso estoura a Segunda Guerra. Eu não sei se ele já tinha algum vínculo com o governo americano, mas tinha algum conhecimento dessa língua estranha chamada português. E quem tem algum conhecimento da Segunda Guerra deve lembrar que Portugal, como ficou neutro, era o paraíso de todas as espionagens: alemã, americana, inglesa, todo mundo foi parar em Portugal. Aí ele foi ser attaché da marinha americana em Lisboa, e com isso trabalhava no departamento de espionagem, de contraespionagem, lá. E uma história que não é invenção, nem foi contada por ele, nem por ninguém da família dele. Isso é um fato histórico, está citado em vários livros. E hoje em dia, quem quiser pesquisar, os arquivos da Segunda Guerra começaram a ser abertos há alguns anos. Hoje em dia são de livre acesso, é só digitar na internet: Kenneth Demarest vai aparecer. Quem conhece um pouco da história da Segunda Guerra deve lembrar de um famoso agente duplo chamado Garbo, que era um sujeito brilhante. Para se ter uma ideia, ele criou, da cabeça dele, uma rede completa de espionagem. Tinha os espiões dele, sabia todos os nomes, onde ficavam, o que faziam, mas nenhuma daquelas pessoas existia, era tudo na cabeça dele. E ele vendeu esse serviço para os alemães. Só que antes ele tentou vender para os ingleses, e os ingleses não acharam que ele fosse um agente duplo, não compraram. Aí ele foi à embaixada americana e convenceu o Demarest, que intercedeu junto à embaixada inglesa: olha, vocês têm que ouvir esse sujeito, vocês têm que contratar esse cidadão. E ele ajudou o Garbo, que passou várias informações falsas, inclusive relativas ao Dia D. Tanto que o Garbo, se não me engano, depois da guerra, recebeu... Era um homem, embora tivesse esse apelido de Garbo em homenagem à Greta Garbo. Era um espião masculino.

Eron Falbo: [30:29] Eron Falbo: Era um homem.

Mario Nogueira: [30:29] Mario Nogueira: Eu não sei o nome dele original. E ele, se não me engano, inclusive foi condecorado nos Estados Unidos, na Inglaterra e tal, pelos trabalhos que fez. Ele ajudou grandemente as forças aliadas do meio para o final da guerra. E o fantástico dele é essa história: ele criou uma rede de espionagem que não existia, tudo na cabeça dele, e nunca foi pego pelos alemães. Com todos os inquéritos lá, ele nunca tropeçou e falou alguma besteira. E o Demarest teve o mérito de acreditar nele e vendê-lo para o serviço secreto inglês.

Eron Falbo: [30:59] Eron Falbo: E não tinha uma história de que o Demarest... poderia ter existido uma especulação de que o escritório tinha sido uma espécie de frente para poder justificar o...

Mario Nogueira: [31:15] Mario Nogueira: Não, o escritório é muito depois disso. O escritório surgiu em 48, isso já tinha acabado.

Eron Falbo: [31:19] Eron Falbo: Mas não tem nenhuma especulação sobre isso? Eu achava que tinha lido isso em algum lugar.

Mario Nogueira: [31:24] Mario Nogueira: Se ele continuou ligado ao serviço secreto americano, eu não tenho informação. Talvez isso até não seja puro, pode ser que ele tenha continuado. Eu tenho a desconfiança que sim, por isso que em 62, quando a coisa começou a esquentar, ele sumiu. Mas isso é achismo puro, eu obviamente não o conheci. Uma vez eu conheci a filha dele e perguntei na bucha: por que vocês foram embora do Brasil? Ela falou: não faço a menor ideia, meu pai e minha mãe nunca tocaram no assunto. Um dia nós chegamos em casa e ele falou: arrume suas coisas que nós vamos voltar para os Estados Unidos. Nunca mais voltou para o Brasil, e como bom espião, bem treinado, nunca tocou no assunto. A filha dele não fazia a menor ideia por que razão eles tinham voltado para os Estados Unidos. Ou ela também foi muito bem treinada e não comentou uma palavra comigo. Olha, foi um jantar regado a muito vinho, no final ela devia estar bem alegrinha, mas não entregou.

Eron Falbo: [32:25] Eron Falbo: Legal, essa história é muito boa.

Mario Nogueira: [32:27] Mario Nogueira: Então, a primeira parte é verdade, é pública, está aí, existe.

Eron Falbo: [32:32] Eron Falbo: Ele era espião com certeza, não? Envolvido no serviço secreto, isso é certo.

Mario Nogueira: [32:36] Mario Nogueira: Durante a guerra, da Segunda Guerra, isso é certo. Ele era o attaché naval em Portugal e trabalhou na espionagem americana, não tem menor dúvida. Depois de 45, é conjectura. Eu posso estar dizendo uma grande mentira sobre ele, como pode ser uma verdade, mas é pura conjectura da minha parte.

M&A na pandemia e criação da NHM (32:50)

Eron Falbo: [32:55] Eron Falbo: Mario, como é que está o mercado de M&A ultimamente, especialmente com a pandemia? Os investidores estão mais cautelosos? Como é que está a cena no geral?

Mario Nogueira: [33:07] Mario Nogueira: No começo da doença, eu acho que o mercado deu uma parada, porque as pessoas ficaram meio assustadas com a insegurança de toda a situação, de como seria. Acho que os ativos perderam muito valor. Vou usar um exemplo que pode ser até péssimo, mas só para ficar bem claro: quanto é que valia a cadeia Hilton antes da pandemia e depois da pandemia? Será que esse troço vai abrir de novo? Uma das grandes cadeias de hotel do mundo, vai vender ou não vai vender? Vai ter hotel ou não vai ter hotel? Vai ter turismo daqui a um ano ou não vai ter turismo? Ou daqui a dois anos? Pode ser que seja daqui a cinco anos. Ou seja, sua empresa vale 100 bilhões de dólares, ou vale 1 bilhão de dólares, ou vale 20 reais. De uns meses para cá a coisa começou... eu não sei se a coisa clareou, mas as pessoas começaram a não dar muita pelota mais. Você que está no Rio de Janeiro, é só olhar pela sua janela aí no domingo: a quantidade de gente que está na praia se lixando para o vírus. Estão começando a retomar, a gente sente que as pessoas estão começando...

Eron Falbo: [34:21] Eron Falbo: Mudou muito já, mudou totalmente.

Mario Nogueira: [34:23] Mario Nogueira: Já estão começando a haver interesse. Eu acho que hoje em dia você já consegue razoavelmente precificar um ativo. Então eu acho que vai retomar, sim. O Brasil teve um evento que foi uma desvalorização grande em relação às moedas fortes, euro e dólar e as outras. Então, provavelmente, nós devemos ter um fluxo de estrangeiros fazendo compras aqui no Brasil. Então eu imagino que nos próximos seis, oito meses, deve retomar com alguma força esse mercado de M&A, porque o pessoal já está começando a se agitar.

Eron Falbo: [35:00] Eron Falbo: E a NHM faz outras coisas também, além de M&A.

Mario Nogueira: [35:06] Mario Nogueira: Exato.

Eron Falbo: [35:07] Se tiver gente precisando de serviços, só para a gente informar as pessoas.

Mario Nogueira: [35:13] Basicamente, quando eu saí do Demarest, a minha ideia era continuar fazendo M&A mais alguns anos. E a minha visão é que você fazer M&A sem tributário não existe, você não consegue fazer. Você até faz, mas a operação vai custar R$ 100, em vez de custar R$ 10, como ela deveria. Então, você precisa de um bom tributarista do seu lado. Minha primeira providência foi procurar alguém que abrisse o tributário comigo, que foi o H. Então, o escritório começou com NH. É uma tributarista, com grande formação acadêmica, que é a Florence, entende tudo de imposto, já está há muitos anos no mercado e tal. Ela concordou, vamos montar. Aí, coincidentemente, saíram mais dois sócios do Demarest, por outras razões, que não têm nada a ver com a minha saída. Um deles fazia societário comigo, que é o Thiago. Veio completar isso na área societária. E veio o Henrique, que é da nossa parte trabalhista, que já tinha quase 20 anos de experiência na parte trabalhista. Então, basicamente, a partir daí nós vamos montando. Hoje em dia temos outras áreas, temos a área regulatória, temos a área de direito público, agora está entrando uma pessoa que faz também a parte de energia. Hoje em dia temos um aspecto bastante maior, fazemos a parte de contencioso, contencioso tributário e tudo. Basicamente, o escritório está preparado para atender empresas, nossa vocação não é atender pessoa física, embora tenhamos um ou outro. Quando você está montando um escritório, você faz qualquer coisa, tem um ou outro, mas não é o nosso perfil. Então, o que eu acho é o seguinte: o escritório pode atender uma pessoa física? Pode, podemos atender. Mas a nossa formação, a nossa direção é, por exemplo, se você chegar para mim e disser: olha, Mario, eu tenho interesse em investir em uma empresa ou estou me associando a um grupo para montar um negócio, então o nosso perfil de pessoa física é esse. O que eu não vou atender é se você chegar para mim e disser: olha, eu estou separando da minha mulher, ou eu pulei o muro e tenho um filho fora do casamento, eu preciso reconhecer. Eu posso até te ajudar, mas eu não tenho expertise nisso, eu provavelmente não serei o melhor. O teu problema é que eu conheço pessoas que podem te assistir melhor.

Eron Falbo: [37:38] Vocês ajudam a montar sociedades, fundos, esse tipo de coisa também?

Mario Nogueira: [37:43] Montamos as sociedades. Fundos, especificamente, ainda não. Nós não temos alguém que seja ligado à área bancária. Temos vários escritórios parceiros com quem a gente pode trabalhar, com quem nós já trabalhamos no passado. Funciona super bem. Mas aí, o que nós vamos fazer? Por exemplo, nós estamos começando um trabalho agora, que é de uma empresa familiar que está em fase de sucessão, que era uma coisa que começou quase que informalmente, e ele quer organizar tudo. Então nós vamos preparar tudo isso, preparar toda a sucessão. Provavelmente deve entrar um sócio novo, então nós vamos fazer acordos de acionistas, vamos organizar isso. Como é um sócio minoritário, nós já vamos preparar para amanhã, ou para os sócios saírem, ou para eles comprarem um ou outro sócio. Então, começar a profissionalizar essa empresa, que é uma empresa extremamente bem-sucedida, mas que começou mais informalmente, familiar, e atingiu o tamanho que não dá mais para ser familiar. Você tem que começar a organizar para continuar crescendo, ter uma marca conhecida, uma marca de sucesso, e não pode correr o risco de começar a ter problemas de uma empresa familiar. Então... Oi, diga.

Eron Falbo: [38:56] Eu ia dizer, só para as pessoas que quiserem conhecer melhor ou precisar de serviços desse tipo: o site de vocês é nhmadv.com.br, nhmadv.com.br.

Mario Nogueira: [39:14] Exato.

Eron Falbo: [39:15] E lá tem todas as informações, o currículo de todo mundo.

Mario Nogueira: [39:22] Os sócios todos têm, no mínimo, 15, 20 anos de experiência. O escritório tem três anos, mas ninguém lá é recém-formado, todo mundo teve experiência nos grandes escritórios de São Paulo. Para citar só dois, Demarest e Queiroz Neto. Está começando agora uma nova sócia que, trazendo sangue novo, passou por outros escritórios de igual tamanho, passou pelo Mattos Filho, quer dizer, só gente com formação dos...

Eron Falbo: [39:51] Melhores escritórios do Brasil.

Mario Nogueira: [39:53] Os melhores escritórios do Brasil. Todo mundo com muita experiência. E a minha ideia, até por todo esse tempo, é não vamos vender solução fácil, coisa de... Eu posso até te vender uma... Você fala: não, estou disposto a correr um risco gigantesco. Está bom, o problema é seu. Mas a minha tendência é fazer uma coisa que funcione. Tá bom, vamos fazer, você tem que estar consciente do risco, e vamos tentar fazer tudo com o menor risco jurídico possível, para que, quando uma operação for feita, você vá botar a cabeça no travesseiro no dia seguinte e dormir, não imaginando que a Receita Federal vai bater na sua porta.

Negociações com clientes asiáticos (40:19)

Eron Falbo: [40:33] Na sua experiência de M&A, você fez muita viagem. O M&A é um mercado que, especialmente no Brasil, atrai muita gente de fora, muitos investidores de fora que compram participações ou a empresa completa aqui, brasileira. E você fez muitas negociações, participou de muitas negociações na Ásia, não foi? Você fazia isso no Demarest, no Zero Parts Trade?

Mario Nogueira: [41:04] Exato. Durante muitos anos, no escritório, eu trabalhei principalmente com clientes americanos, trabalhei com alguns clientes europeus também, atendi clientes franceses, clientes suecos, um pouco de tudo, mas principalmente americanos. E aí, nos últimos dez anos, no Levi-Arieste, eu acabei passando a atender os clientes coreanos, coincidiu com a época em que a Hyundai se instalou no Brasil. Eu não advoguei para a Hyundai montadora, mas para várias empresas do próprio grupo Hyundai e outras empresas que vieram se instalar na região de Piracicaba para atender, gente de autopeças, construtora. Nessa hora, até uma brincadeira, não faltava nada, nós constituímos dois restaurantes coreanos em Piracicaba para atender o pessoal da Hyundai. Como você vê, a gente montou desde uma empresa de autopeças de algumas dezenas de milhões de dólares até o restaurante... enfim. E depois, junto disso, nós acabamos trazendo um outro parceiro asiático também que ia atender empresas chinesas. Então, eu fiz várias viagens à China e à Coreia para visitar esses clientes lá. E trabalhar com asiáticos é uma experiência completamente diferente. Você está acostumado a trabalhar com europeus, americanos. Trabalhar com um cliente asiático é um aprendizado, realmente é um aprendizado. Eles têm uma língua completamente diferente, então já têm essa dificuldade, não usam nem sequer os nossos alfabetos, então você chega lá e fica analfabeto. E a filosofia deles, o jeito deles trabalharem é completamente diferente. A mentalidade, o jeito como eles encaram o negócio, como eles encaram o risco, as expectativas, o que eles esperam. Os primeiros clientes coreanos que eu comecei a atender, eu tinha um advogado coreano, ele é um coreano que veio para o Brasil com 17, 18 anos, então ele fala coreano correntemente e tudo, e ajudava não apenas na tradução da língua, como na tradução da cultura. E eu lembro as primeiras demandas de clientes coreanos quando chegaram: eu estava acostumado com o cliente americano, que é um negócio absolutamente objetivo, o sujeito chega, olha, você vai analisar o meu contrato, na hora que tiver o ponto final, você para, você não mexe um milímetro daqui. Aí chegavam as primeiras demandas de coreanos, diziam assim: eu tenho uma empresa, uma indústria, onde eu instalo? Como assim, você quer que eu te ajude a achar uma empresa que vai pesquisar benefícios fiscais, questão de logística, etc? Não, não, não, eu quero que você me diga onde é que eu instalo, em que cidade eu vou. Eu não sei, meu senhor, se você que é um industrial, eu sou advogado, não faço a menor ideia onde é que uma empresa produtora de plásticos deve se instalar. Eu imagino, pelo que eu vejo em outras empresas de plástico, sei lá, estão perto dos polos petroquímicos para ter matéria-prima, mas eu não faço ideia, não sei. E eles têm essa expectativa, era uma pergunta honesta da parte deles. Eu imagino que os escritórios lá prestem também esse serviço. Aqui nós temos inclusive restrições legais, escritório de advocacia não pode prestar um serviço que não seja de advocacia. Mas aí, com o tempo, você vai aprendendo, vai aprendendo, vamos dizer, um pouco a contornar isso e dizer: olha, então, pera aí, eu vou te ajudar, mas vamos com calma, não sou bem eu, vou trazer alguém que vai nos ajudar com tudo isso e tal.

Eron Falbo: [44:38] Mario, a gente tem agora mais uns 10 minutos restantes para a gente conversar. Eu vou, se o senhor não se incomodar, ver algumas perguntas do público aqui, que ainda não fiz nada, pode ser?

Perguntas do público sobre riscos e arte (44:46)

Mario Nogueira: [44:52] Claro, claro.

Eron Falbo: [44:53] Vamos ver. Essa aqui é interessante. Você consegue ver a pergunta aí? Qual o risco que você já correu que o resultado foi extraordinário?

Mario Nogueira: [45:06] Assumiu o risco?

Eron Falbo: [45:10] É, você assumiu.

Mario Nogueira: [45:15] Vamos separar as coisas: como pessoa física e como advogado. Eu acho que o maior risco que eu assumi como pessoa física, eu estava há poucos anos no escritório.

Eron Falbo: [45:36] A Ana está dizendo que quer casar com ela.

Mario Nogueira: [45:41] Eu tinha poucos anos de escritório, era um advogado superjovem, e era um cliente nosso, tinha uma empresa no Brasil, foi uma das primeiras operações que eu peguei. Eles tinham uma empresa no Brasil, venderam, e na época, remeter dinheiro para o exterior era uma coisa maluca, era superdifícil. Na época era a época da máquina de escrever, então era tudo em papel, você manter atualizado o registro no Banco Central, um inferno, etc. Resumindo a história, a gente não conseguia mandar o preço para o exterior. Só que, todo mês, o comprador pagava. Era uma compra parcelada, acho que eram 36 meses. Todo mês o comprador ia lá e pagava alguns milhões de dólares, sei lá, era um milhão de dólares, um milhão e meio de dólares por mês. Era um negócio assim. Só que ninguém tinha conta no Brasil. E eu recebi aquele dinheiro. Era época de inflação. Eu cheguei pro cliente e falei assim: olha, o que eu faço com esse dinheiro? O sujeito era mais maluco que eu, ele falou assim: põe na sua conta. Eu pus. Eu cheguei a ter 6 milhões de dólares na minha conta pessoal, que era 100% dinheiro do cliente, na minha conta corrente pessoal, em nome de Mario. Eu devia ter sumido, não sumi, entreguei cada centavo pro cliente. Ou seja, eu assumi um risco maluco. Na época, a vida era bem mais tranquila, não tinha Receita Federal... Não tinha computador, não tinha nada disso. Não, a Receita nunca... Eu posso contar essa história porque tem mais de 30 anos, já prescreveu tudo. Mas eu tinha... se eu tivesse... é a tal história, eu tinha explicação para cada centavo que estava na conta. Mas até explicava à Receita Federal como é que um advogado ia ser informado, tinha 6 milhões de dólares na conta, ia ser um trabalho do capeta. Então, esse é o risco que eu... mas é a tal história.

Eron Falbo: [47:28] E você era novo ainda? Você era novinho, você não teve tentação?

Mario Nogueira: [47:32] Eu não tinha casado, eu tinha 30 anos de idade. Não, não tinha 30 anos de idade, tinha 25, 26 anos. E todo mês eu mandava o extrato pro cliente, ele sabia direitinho quanto dinheiro tinha e tal, mas tava na minha conta pessoal. O mais maluco que eu era ele, e deixou o dinheiro ficar na minha conta. Falei: não, tudo bem, eu consigo, você está aí, não tem problema, pode ficar. Até que a gente, depois de muito rolo, conseguiu resolver. Mas é a tal história. Esse é um risco meu, pessoal. Então, eu arrisco muito mais a minha vida pessoal do que a do cliente. Eu tenho muito mais medo de assumir alguma coisa. Nesse caso, claro, o cliente estava assumindo isso, mas para a Receita era eu, e aí eu fiz.

Eron Falbo: [48:13] Claro, com certeza.

Mario Nogueira: [48:15] E deu um bom resultado, porque depois de muito tempo a gente conseguiu resolver. Mandamos 100% do dinheiro, foi para fora, como deveria ir, sem problema nenhum, mas eu fiquei bastante tempo com o dinheiramento. Meu pai queria morrer de catapora. Você é maluco! Você é um menino doido!

Eron Falbo: [48:31] Vamos ver outra pergunta aqui.

Mario Nogueira: [48:36] Hoje em dia eu não faço mais não, tá? Se alguém tá pensando aí se dá pra colocar na minha conta, não.

Eron Falbo: [48:41] Eu faço, eu faço, quem quiser botar na minha conta. Olha só, de... Ah, tá, essa aqui é uma pergunta: "De que maneira os espiões..." Oi?

Mario Nogueira: [48:58] Eu não sou especialista na história da Garbo, mas o que ele dizia era o seguinte: ele chegava para os alemães.

Eron Falbo: [49:04] E olha... Rapidinho, rapidinho, deixa eu só ler a pergunta pra quem só estiver ouvindo. De que maneira os espiões existiam só na cabeça dele? Comunicavam telepaticamente ou falsidade ideológica?

Mario Nogueira: [49:16] Não, era todo mundo inventado. Então ele chegava para os alemães, porque ele era um agente duplo, ele atuava contra os alemães, e ele chegava e dizia: "Olha, eu tenho um espião que trabalha no Ministério da Guerra inglês e que me conseguiu essa informação." E passava para os alemães. Só que aquela pessoa não existia. Não é que existia, vamos dizer, um inglês que o Departamento de Guerra dizia: "Olha, passa essa informação." Não, não existia. A rede dele era toda criada por ele. É como se fosse um livro, ele criou todos os personagens do livro e conseguiu, durante dois anos, três anos, eu não lembro quanto tempo ele atuou, manter uma lógica que ninguém desconfiou que aquela rede de espiões não existisse. Inclusive não tinha risco nenhum de alguém ser pego por um contra-espião alemão e torturar o sujeito. Não, porque não existia. Só existia ele. Ele era o único que podia ser preso. O resto tudo estava na cabeça dele. Estava tudo montado na cabeça dele.

Eron Falbo: [50:13] Tinham feito uma pergunta para mim. Como raramente fazem uma pergunta para mim, eu vou responder rapidamente. Tinha perguntado qual era... que tipo de arte que eu gostava. Então, rapidamente falando, a gente estava falando de Florença, de arte. O meu tipo de arte favorito é... Eu sou classicista, eu gosto de coisas mais tradicionais e realismo. Mas uma coisa ou outra moderna eu também consigo digerir. Só para ter essa resposta rápida.

Mario Nogueira: [50:47] Eu vou mais ou menos na sua linha.

Eron Falbo: [50:49] É, concorda também?

Mario Nogueira: [50:52] Dos modernos, que não é tão moderno assim, eu adoro o Dalí, acho o Dalí fantástico.

Eron Falbo: [50:56] Ah, também, mas aí o Dalí é outro nível, né? O Dalí é... Qual o melhor restaurante de Florença?

Mario Nogueira: [51:06] Comer na Itália é um problema seríssimo. Italiano é o bicho mais chato do mundo pra comer. Há restaurantes fantásticos lá, depende do que você quer. Há um restaurante específico, um restaurante mais sofisticado, eu vou citar o exemplo. E eu vou contar, eu adoro contar a história, eu vou contar a história desse restaurante pra dizer até por que ele é tão bom. É um chefe fiorentino, chama-se Fábio Picchi, P-I-C-C-H-I. Ele tem um restaurante que se chama... meu Deus, como é que chama o restaurante? Ana, escreve aí como é que chama. É muito engraçado porque ele tem vários restaurantes, são todos um em volta do outro. Tem vários restaurantes, um deles de comida asiática, ele chama-se oficialmente Cibrèo. Ele goza os asiáticos na bucha. E o Cibrèo é um restaurante cinco estrelas, etc, etc. E eu fui com a minha família, meus filhos eram menorezinhos, eu, minha mulher, as crianças. Chegamos lá, o sujeito botou um troço, era uma divina comédia em cima da mesa. Falei: "Meu Deus, até a gente andar nesse cardápio aqui." Comecei a olhar o cardápio, não tinha uma comida, só tinha vinho. E nada dele botar cardápio na mesa. Daí a pouco veio o cidadão, puxou uma cadeirinha, sentou e falou: "Olha, o que nós temos hoje é o seguinte." E depois ele explicou, eles são relativamente próximos de um mercado, então o jantar do dia é o que o chefe vai e acha que está bom no mercado. Então não adianta você ir lá comer um determinado peixe ou um fruto do mar ou uma carne. Se naquele dia ele não gostou daquele produto que vai naquela receita, ele não fará pro jantar. Mas não significa que é um cardápio pequeno, não. Ele tem 4, 5 entradas, depois uns 3 peixes, depois umas 4, 5 carnes, ave, etc. É um cardápio relativamente grande. Aí pedimos aquela coisa toda e meu filho pediu uma lula recheada com a própria tinta, aquela coisa. Aí o rapaz que anotou lá, o chefe que anotou, o mesmo falou: "Olha, essa receita é muito forte, você tem certeza que vai querer?" E aí meu filho falou: "Não, eu gosto muito de lula, vou comer." Quando ele botou a primeira garfada na boca, realmente o negócio tem um sabor fortíssimo. Quem já comeu tinta de lula sabe que é um sabor superforte. Aí ele ficou enrolando, enrolando, enrolando, e a pouco veio o sujeito e falou assim: "Você não tá gostando disso aí, né? Olha, sua irmã pediu aqui uma... não é o Mônaca, é uma polpeta que tá maravilhosa. Por que que você não... eu trago pra você a polpeta." Aí meu filho, nessa altura ele tinha assim 12 anos, 13 anos, subiu um machão, ele falou: "Não, isso aqui tá bom." E ele percebeu que não tava. Cinco minutos, ele discretamente colocou a polpeta do lado: "Não come isso aqui não, isso aqui tá ruim. Come essa polpeta que tá ótimo." Aí meu filho comeu a polpeta, eu tive que fazer o sacrifício, mas imagina, eu ofender um chefe daqueles e não comer a lula que ele tinha pedido. Aí quando chegou a hora da sobremesa, pedimos a sobremesa, ele trouxe uma sobremesa especial para o meu filho e falou assim: "Você foi muito bravo, então eu te dou de presente essa sobremesa."

Eron Falbo: [54:14] A gente boou aí pra chefe italiana, a gente boou não, a gente é mais esnob.

Mario Nogueira: [54:17] Exato. Mas quando acabou o jantar, nós fomos falar com ele: "Muito obrigado, puxa, que gentileza." Ele falou assim: "Não, o senhor tem que entender, as pessoas... nós queremos que as pessoas saiam daqui felizes. Seu filho não estava feliz. Eu não tô aqui pra vender comida, eu tô aqui pra vender felicidade."

Eron Falbo: [54:32] Mas é muito carinhoso pro chefe italiano esse cara aí, hein?

Mario Nogueira: [54:35] Exato. E não cobrou nem o segundo prato, nem a sobremesa.

Eron Falbo: [54:38] Isso.

Mario Nogueira: [54:39] Então eu falo pra todo mundo: vai no Cibrèo, puta restaurante. Não garanto que todo mundo vai comer de graça, mas você vai comer maravilhosamente bem, e é um restaurante que quer ver você sair de lá feliz. Então, esse é... Não digo que é o melhor de Florença, mas é muito bom.

Projeto Yes News de jornalismo digital (54:52)

Eron Falbo: [54:57] Mario, você está envolvido num projeto novo, Yes News, né? Qual é o seu envolvimento e por que você escolheu se envolver nesse projeto? E o que é o Yes News? Se você puder nos falar um pouquinho.

Mario Nogueira: [55:12] Na verdade, eu tenho um sócio, nós somos meio malucos os dois, a gente faz uns investimentos paralelos, ele também é advogado, e o Yes News é uma empresa de tecnologia. Na verdade, ele é um... acho que eu posso definir como um portal. E o conceito é você criar um jornal, como se fosse um jornal real, um jornal de papel, esse que a gente está acostumado a comprar na banca todo dia, ou que você assina, só que 100% virtual. Então ele vai ter todas as editorias, vai permitir que as pessoas, estejam onde estiverem, você aí no Rio, eu aqui em São Paulo, quem estiver no Paraná, todo mundo entre nessa sala de editoria, trabalhe com o editor, monte o jornal como se fosse um jornal. Quais as vantagens de você ter um jornal eletrônico? Não tem o tempo de impressão, ou seja, o jornal necessariamente trabalha com a matéria de ontem. A minha mulher, que é jornalista, costumava dizer que o jornal de ontem só serve pra forrar a gaiola de passarinho. Hoje em dia, o jornal de hoje só serve pra forrar a gaiola de passarinho, porque você já leu a mesma notícia na internet 12 horas antes. O que o jornal traz é um pouco mais esmiuçado, um pouco mais... Você vai poder ter a agilidade da internet com a profundidade que um jornal escrito permite ter. E fora que é um objetivo também desse jornal, do Yes News, é de nós conseguirmos reavivar o jornalismo local. Então, você mora aí no Leme, eu garanto que você não sabe o que está se passando no quarteirão seguinte. E deve ter um monte de eventos, de shows, de novos restaurantes, de coisas que estão aí há dois, três quarteirões da sua casa que você não sabe, porque simplesmente não existe mais a imprensa local. Você não sabe o que a prefeitura do Rio de Janeiro está fazendo, quer dizer, a do Rio de Janeiro a gente sabe o que está fazendo, quando ela não está no complexo lá do coisa.

Eron Falbo: [57:18] Ou a gente sabe o que não está fazendo, não é?

Mario Nogueira: [57:20] Exato. Mas, enfim, você não sabe o que a prefeitura está fazendo, o que está fazendo pelo seu bairro, o que está fazendo ali, e um monte de informações locais, e com isso você pode ter, você consegue ter o jornalismo local atuando ali. Por quê? Porque, vamos dizer, a internet tem essa vantagem: você pode ter uma coisa, aspas, infinitamente grande. Então, o conceito é esse: você pode ter um jornal que, no Rio, vai ter um monte de informações do Rio; eu, aqui em São Paulo, vou ter um monte de informações de São Paulo; e, ao mesmo tempo, toda a informação de Brasil, de esportes, que um jornal normal deve ter.

Eron Falbo: [57:57] E a plataforma vai empoderar o produtor de conteúdo local com ferramentas, com profissionalismo, etc. E distribuição.

Mario Nogueira: [58:08] E você, por exemplo, uma notícia que está aí todo dia no jornal, do incêndio do Pantanal. Hoje em dia, exceto grandes veículos de informação, obviamente um pequeno veículo já não tem a menor condição de mandar alguém. Você vai ter que usar fotografia de terceira, de quarta, de quinta origem. Se você puder ter um jornalista, no caso aí nós estamos falando de fotografia, mas pode ser um jornalista que vai cobrir, que está lá no Pantanal, ele está a uma internet de distância. Ele pode ir lá in loco e dizer: 'Olha, o problema é o seguinte, nessa cidade de 15 mil habitantes, aqui no meio do Pantanal, olha aqui, o céu está vermelho.' Isso aqui, então, estão dizendo lá: 'Não tem incêndio.' Como não tem incêndio? Está aqui, pô! Minha casa está pegando fogo no quintal da minha casa. Estou te dando fotografia, estou vendo aqui. E, no contrário, estão exagerando, dizendo que está tudo bem. 'Não, não é. Olha aqui, eu estou aqui.' Vamos pegar 10, 20 cidades na região. Então, você consegue ter também essa visão muito próxima do local, que hoje em dia, para um veículo de comunicação um pouco menor, é impossível. Você não tem como deslocar uma pessoa de São Paulo e Rio. Ou, no mínimo, para você tirar alguém de São Paulo e Rio para botar no interior do Mato Grosso, você perdeu um dia. Se o sujeito está lá, hoje em dia, com a internet, em questão de minutos você consegue ter informação absolutamente local do sujeito que está ali vivendo o evento. E você pode ter isso com um acidente, com um evento positivo, enfim, com o que você quiser. Então, nessa rede, você vai aumentando, enquanto houver, enquanto você estiver interessado.

Eron Falbo: [59:41] Então, trata-se de uma empresa que está iniciando agora, está começando a crescer agora?

Mario Nogueira: [59:47] Está iniciando agora o portal; do ponto de vista eletrônico, está basicamente pronto. Falta pouquíssima coisa. O problema é que o nosso sócio técnico é hiperperfeccionista, então toda vez que fica pronto ele faz assim: 'Não, mas aqui dá para melhorar um pouquinho.' Não dá, não! Bota esse troço no ar. Está praticamente pronto.

Eron Falbo: [1:00:09] Mas não sei se já pode divulgar, mas já existe o site, e é YZZ, que é uma mistura de Yes com Jazz. Yesyzz.news.com.br.

Mario Nogueira: [1:00:25] Mas hoje em dia... news.com.br. Hoje em dia ele ainda está em fase de teste, então as pessoas vão entrar e vão dizer: 'Não, mas o Mario prometeu uma coisa muito maior.' Porque nós estamos testando, mas nós já temos uma rede razoavelmente montada de jornalistas para começar a tocar isso. A nossa expectativa é que esse troço entre no ar, não 100% de velocidade, mas entre agora e novembro, dezembro, já esteja muito mais próximo disso que eu estou descrevendo do que ele está hoje.

Eron Falbo: [1:01:00] Entendi.

Mario Nogueira: [1:01:01] A gente pode ter mais de um jornal também. Nada impede você ter dois ou três. E aí vai entrar do gosto de cada um.

Eron Falbo: [1:01:10] Tá certo. Bom, acho que não tem mais. Se alguém tiver mais alguma pergunta, fale agora ou cale-se para sempre. Queria te agradecer, Mario, a gente está acabando, daqui a pouco vai acabar o tempo do Instagram. Queria te agradecer sua presença. Muito obrigado por conversar comigo aqui. Foi um prazer. E espero que a gente se veja em breve, volte ao novo normal, para poder aparecer em São Paulo, se você tiver disposto a vir para o Rio, não?

Mario Nogueira: [1:01:39] Não, mas eu tenho família no Rio, é a família da minha mãe, é do Rio, então tem primos, tem uma família enorme. Então a possibilidade para isso sempre tem.

Eron Falbo: [1:01:48] Então tá bom. Boas ordens aqui.

Mario Nogueira: [1:01:52] Obrigado.

Eron Falbo: [1:01:53] Valeu, Mario, então tudo de bom para vocês todos. Muito obrigado. E a Ana tá me chamando pra jantar na sua casa. Eu vou com o maior prazer. Sempre muito bom. Maior prazer. Assim que eu tiver em São Paulo, eu aviso.

Mario Nogueira: [1:02:08] Ótimo.

Eron Falbo: [1:02:09] Então valeu, Mario. Tudo de bom. Boa noite. Boa noite a todos.

Mario Nogueira: [1:02:12] Obrigado. Um abração. Obrigado a todos.

Eron Falbo: [1:02:14] Um abraço. Tchau, tchau.

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