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#15 É possível aprender verdadeira nobreza?

com Rafael Nogueira · 25 de ago de 2020

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Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Apresentação de Rafael Nogueira (0:00)

Eron Falbo: [0:05] Boa noite, boa noite. Sejam bem-vindos para a entrevista com o Rafael Nogueira. Então, eu queria fazer só uma introduçãozinha. Estou aqui com o meu amigo Rafael Nogueira, presidente da Biblioteca Nacional e um grande estudioso de vários assuntos: filosofia, ciência política, direito, história, todo tipo de coisa. Como é que fala em português? Polímato? Polymath? É o que fala em inglês?

Rafael Nogueira: [0:35] Polímata.

Eron Falbo: [0:36] Polímata, ok. Polímata. Um grande polímata, se alguém pode ser chamado disso, é o nosso Rafael Nogueira. Desculpa que eu tô com uma alergia enorme, então tô um pouco fanho. Espero que você me entenda direitinho.

Rafael Nogueira: [0:52] Não, não, tá tranquilo. Não dá para reparar.

Eron Falbo: [0:54] Tá tranquilo? Beleza. Então, Rafael, vamos começar, se você me permitir, com a pergunta sobre o seu ciclo de estudos clássicos, se você puder me falar mais ou menos como é que você chegou nessa ideia, por que você fez isso. Acho que é um bom começo.

Rafael Nogueira: [1:24] Valeu, Eron. Obrigado, primeiro, pelo convite, pela pergunta e, enfim, pela própria proposta dessa live, que muitas vezes as pessoas veem os resultados e não sabem como é que nós chegamos a eles. Então, essa primeira pergunta já dá exemplo de que vai ser um papo muito interessante e até pedagógico para aqueles que queiram ver. Então, vamos lá. Os ciclos de estudos clássicos são, na verdade, um método pedagógico que eu criei para mim mesmo a princípio. Por que eu criei esse método para mim mesmo? Primeiro, no ensino médio, eu gostava mais de ler livros por fora daqueles indicados pelo ambiente escolar. Eu entrei em Filosofia, que foi a primeira faculdade que eu cursei, e notei que existia um número imenso de textos importantes que eu não teria capacidade de ler nos três ou quatro anos. Eu peguei em três anos o bacharelado em Filosofia, e no quarto ano eu fiz só com matérias pedagógicas e didáticas para adquirir também o diploma de licenciado em Filosofia. Nesses quatro anos, eu percebi que, meu Deus, parece que eu só comecei. Eu ganhei o diploma, mas ainda não estou me sentindo perfeitamente formado. Então, eu criei um sistema que, na verdade, transformaria a minha rotina de vida, na verdade, a organização da minha vida, num projeto de estudos continuado e vitalício. Então, anualmente, eu me proponho a mim mesmo algumas leituras. Não é uma questão só de lista de leitura, não é bem assim. Eu chamei de ciclos porque eu voltaria a alguns assuntos várias vezes durante a vida, sabendo que isso é necessário. Ainda que não relendo, se fosse um assunto ou se fosse um momento histórico, eu leria uma outra coisa vinculada àquilo que eu já havia estudado. Então são ciclos justamente porque eu sigo o percurso da natureza. Então, em um ano, o tempo no qual a Terra leva para girar em torno do Sol, eu levo para completar um ciclo de estudos, que não são só leituras, são estudos. Eu leio e, a partir disso, eu desenvolvo uma compreensão que pode ou não vincular o lido com outros textos, com a minha própria experiência pessoal de vida e, então, forma a minha capacidade interpretativa do mundo de uma forma bastante original. Desculpa te interromper.

Origem dos ciclos de estudos clássicos (1:45)

Eron Falbo: [3:46] Não, pelo que eu entendi, você tem tipo uma espécie de espiral, que você volta para o mesmo paradigma, para o mesmo padrão, só que num novo nível, uma nova camada de compreensão e nova profundidade, talvez.

Rafael Nogueira: [4:05] Exato, você pegou a ideia perfeitamente, acho que esse símbolo da espiral tem muito a ver com isso que eu faço. E aí eu percebi que funcionava para mim, porque me estimulava, não me dava aquela, digamos, sensação, aquela ansiedade, aquele pânico de, meu Deus, nunca vou conseguir ler todos os livros importantes, ou de não bater metas. Às vezes a gente precisa ler, sei lá, 80 livros por ano e não conseguir bater metas e ficar desesperado. Então assim, eu já percebo, vai ser para o resto da vida, e se der tempo para outra vida também. Então assim, continuar estudando indefinidamente. E aí eu percebi, quando eu fiz direito, Eron, que os estudantes de direito, muitas vezes os professores também, têm uma visão sobre outras disciplinas, inclusive aquelas muito vinculadas com o direito, como sociologia, filosofia, história e economia, é muito simplificada ao ponto de estar errada, certo? Aquelas, por exemplo, introduções ao direito, que explicam um pouco da história do direito, a história do direito civil, tá cheio de problemas ali, que aquele que entende de história percebe, aquele que entende de filosofia percebe que tá faltando cultura jurídica, ou seja, cadê os cérebros que inventaram essas coisas? Eles só mencionam de passagem e às vezes de forma muito simplificada. Então, eu criei um grupo de estudos na Faculdade de Direito da Católica de Santos, que chamei de grupo de estudos jusfilosóficos, e ali eu propus esse estudo anual, esses ciclos de estudos clássicos, pela primeira vez a um grupo e não a mim, e funcionou muito bem. Depois eu comecei a oferecer em Santos, para grupos de estudo aqui do Núcleo de Ensino e Cultura, e depois ofereci para várias cidades do Brasil.

Eron Falbo: [5:45] Legal. Você falou que o primeiro cara que te inspirou nisso, que tinha uma espécie de metodologia, era o Mortimer Adler, é isso aí?

Influência de Adler e Olavo de Carvalho (5:53)

Rafael Nogueira: [5:57] Isso, isso mesmo. O Adler me inspirou muito nesse modelo, porque ele falava muito na educação a partir dos grandes livros, porque os grandes livros documentam as grandes ideias, e aí seria, digamos, o meio mais rápido de você adquirir uma cultura sólida, né? Porque ele fica lendo o manual, é tudo muito mastigadinho, é como se estivessem digerindo pra você, e muitas vezes aquilo é um pouco mal entendido e falso.

Eron Falbo: [6:24] Entendi. E como é que você chegou no Mortimer Adler? Qual que é a história por trás disso aí?

Rafael Nogueira: [6:29] Boa pergunta. Foi o próprio Olavo de Carvalho. Em 2003, 2004, eu conheci o professor Olavo de Carvalho numa palestra em Santos e passei, peguei o e-mail dele e fiquei enviando perguntas. Eu era tão chato que ele me mandou o telefone dele. E aí eu liguei e comecei a insistir, fazendo perguntas. E ele começou a me indicar obras nas quais eu pudesse sozinho me encontrar, entre as quais foi o Como Ler Livros do Adler, e ele pediu para eu ler os livros do Adler. Em geral, parece que combinava muito com o que eu queria para montar essas ideias. Daí também o Sertillanges, o Padre Sertillanges, A Vida Intelectual. Mas eu peguei muito mais do Adler pra montar o meu método, né? O Sertillanges é uma coisa mais de personalidade, de vida intelectual. O Adler me ajudou mais. Método, escolhas de livros a ler, como ficar lendo pro resto da vida, a compreensão de que sem a vida da inteligência a própria democracia se fragiliza, a ideia de sentido de vida também se fragiliza. Então, essa ideia de uma vida para inteligência, que todos deveriam ter, veio do Adler. A ideia de que só alguns devem constituir uma elite intelectual vem mais do Sertillanges. Aí já é uma coisa assim, eu acho que todos têm que, assim como fazem exercícios físicos e cuidam da dieta, precisam cuidar de dieta intelectual e de exercícios de inteligência. Mas eu entendo também que uma elite é como se fosse os campeões, digamos, olímpicos da coisa. Uma elite precisa estar à frente.

Aristocracia, oligarquia e mérito intelectual (7:29)

Eron Falbo: [7:48] Sim, como os campeões olímpicos, né? Todo mundo pode correr, mas não é todo mundo que vai querer, nem conseguir, nem ter o apoio financeiro, talvez, pra poder correr que nem o Usain Bolt.

Rafael Nogueira: [8:02] É isso. É isso.

Eron Falbo: [8:04] É isso. A gente precisa apreciar que alguns... Às vezes as seleções são naturais.

Rafael Nogueira: [8:09] Isso, isso. Alguns vão se dedicar. É que eu realmente acredito numa subida de nível geral, eu acho que todo mundo tem que ter uma vida da inteligência. Eu não acho que deva haver uma superioridade tão grande de uns em relação aos outros, mas é fato que existe, e não só superioridade, diferença de vocação, caminho de vida e tudo. Mas é preciso que alguns também... Não é só uma coisa de se sentir superior, isso aí faz com que as pessoas sintam raiva, inveja, ressentimento. Na verdade, alguns que têm certos talentos e, digamos, disponibilizam tempo, se autossacrificam para se desenvolver, esses alguns precisam servir os outros, ou seja, precisam ajudá-los a ser guiados, orientados, vencer dificuldades. É nesse sentido que eu enxergo que alguns têm que ir para a vida intelectual, outros têm que ter a vida normal da inteligência com exercícios constantes. Não sei se eu fui claro, desculpa falar tanto.

Eron Falbo: [9:06] E uma aristocracia, uma elite, vamos dizer, uma liderança boa sempre vai querer iluminar os seus, vamos dizer, pessoas que se inspiram neles, seguidores, ou o que seja. Só um oligarca, alguém que é um tirano, usa de manipulação para manter as pessoas no escuro, na escravidão intelectual.

Rafael Nogueira: [9:34] Exato. É bem legal você ter trazido essa terminologia que remonta à antiguidade. Pelo menos no diálogo político de Platão já está, depois em Aristóteles. Justamente, o oligarca é aquele, digamos, que tem uma certa superioridade e acaba usando os outros, a sua força, a sua riqueza, a sua inteligência, faz com que ele use os outros para os seus próprios fins. E o aristocrata, na verdade, seria aquele que, por ter essa maior capacidade, ou dinheiro, ou força, ou inteligência, ou tudo mais ou menos combinado, ele consegue servir os outros, fazer bem aos outros. Então é nesse sentido que eu acho positivo falar em aristocracia. Hoje essa palavra tá fora de moda e algumas pessoas entendem que falar em aristocracia é falar em alguém que quer privilégios, privilégios hereditários. Na verdade é um servir, é um autossacrifício. Eu acho que é um pouco diferente a perspectiva.

Hereditariedade e talentos desperdiçados (10:28)

Eron Falbo: [10:30] É, com certeza, até porque, se você está voltando para a analogia olímpica que a gente falou, se todo mundo da sua família é corredor olímpico, é muito mais fácil você ser corredor olímpico. Não significa que uma pessoa que não tem os pais assim não consiga ser corredor. Significa que é muito mais fácil, e qualquer pessoa concordaria com isso, que não há como dizer que não, porque a pessoa já sabe, já tem onde treinar desde cedo, já tem coach, sem ter que ultrapassar nenhuma grande barreira. Então a pessoa chega no mínimo: se você tem dois pais que são corredores olímpicos, você no mínimo vai ser saudável. Você pode não ser corredor olímpico, mas você vai ser uma pessoa exatamente saudável. Então você não tá ultrapassando barreiras. Claro que não. Eu ia até fumar, mas eu tô com essa alergia, acho que eu vou ficar mais congestionado. Então é isso que eu vejo na questão da herança. Eu era muito contra, até porque eu já te falei isso, que desde os 16, 17 anos eu era platonista, me considerava platonista. E Platão não é tão a favor dessa coisa da hereditariedade. Ele tem aquele sistema lá das almas de prata, que ficam ali para serem pescadas, para fazerem a liderança, e não necessariamente... Tudo bem que são os filhos da alma de prata, tem uma certa hereditariedade ali no meio, mas não tem essa coisa de literalmente o pai do líder, quer dizer, o filho do grande líder ser o sucessor.

Rafael Nogueira: [12:19] Sim, sim. Eu vejo que acontecem... As duas possibilidades estão abertas para o ser humano. Aquele que nasce numa família que já realizou algo e traz um legado, ele tem muito mais facilidade de seguir. Por isso que muitas vezes quando adolescentes... Eu dei aula para adolescentes por muito tempo também nas escolas. Eles iam me perguntar que profissão seguir ou qualquer coisa, eu perguntei algumas perguntas para entender da família, porque às vezes é um caminho já trilhado e facilita, e às vezes ele tem um dom que nem sabe que tem. Então essas coisas existem. Por outro lado, existem pessoas que dão saltos para além das características familiares, ou ficam aquém? Isso existe. Existe só nas famílias dinásticas para verificar que tem sempre o além e o aquém. Então, existem as duas possibilidades. Isso, isso. Mas sempre é bom considerar essa possibilidade, né? Se as famílias também cuidarem de, por exemplo, pavimentar aí o caminho, é muito mais provável que, se nascer um talento para aquilo, ele seja bem aproveitado, né? Então, de fato, há uma probabilidade maior.

Eron Falbo: [13:23] É, exatamente. E eu acho que um ponto que muita gente esquece é que, mesmo assim, as pessoas podem criticar o príncipe Harry, mas ele tem muitas coisas que outras pessoas não teriam só porque ele nasceu lá naquela circunstância. Então, um certo senso de diplomacia, de comunicação, apesar de ele abusar disso de vez em quando, comparado com, vamos dizer, um político comum, que está no governo, um governo mais comum, dá para ver a diferença de berço, a diferença de... E eu estou falando isso não em termos de... Vamos dizer que as pessoas são muito rápidas para criticar esse tipo de coisa, mas estou dizendo, não em termos de elitistas, mas em termos de simples fatos: comunicação, vocabulário, o quanto que ele leu ou não, o tipo de pessoa que ele já conheceu na vida. São coisas que você absorve por osmose, independente de você estar lá engajado. Se você for uma alma de ouro, de bronze, se você estiver em certo contexto, você vai se melhorar por causa do próprio contexto.

Rafael Nogueira: [14:46] Sim, sim. Eu acredito que isso funciona no panorama nacional também. Se, por exemplo, nós temos muitas oportunidades para as pessoas se desenvolverem... Há muitos jovens que nascem em famílias problemáticas e muitas vezes em comunidades, em favelas, em circunstâncias muito difíceis. Nascem com talentos e esses talentos são desperdiçados. Isso é o maior desperdício para a nação. É o maior desperdício. Talento de todo tipo, desde o esporte, a literatura. Se você dá, por exemplo, o Machado de Assis, ele tinha tudo para ser um talento perdido e ele conseguiu, porque tinha ali o gabinete português de leitura, porque ele se desenvolveu, ele fez exercícios constantes. Mas isso é raro. A gente precisa mesmo também, é assim que eu vejo, do ponto de vista nacional, dar oportunidades para essas pessoas também se descobrirem e desenvolverem esses talentos. Isso é patrimônio nacional. Eu vejo muita gente, muitas crianças que estão em casa no Brasil, mas muitos adultos, muitas pessoas na fase madura, desperdiçadas.

Eron Falbo: [15:43] Com certeza, acho que isso é uma coisa que não está em pauta. A gente está conversando sobre pronomes a usar com o transgênero e não está conversando sobre como talvez dá oportunidades ou não dá oportunidades, mas... usufruir, como você está falando, de todo o talento que a nação tem. Todo mundo que é brasileiro vê isso na prática. A gente vê isso conversando com os empreendedores que estão dirigindo o Uber, conversando com o vendedor de cachorro-quente, com a perspicácia brasileira, a qualidade pessoal, de comunicação pessoal, de alegria, de positividade do brasileiro, que, se tivesse sendo... em inglês chama honed, não lembro como é que é em português, é otimizado, utilizado, cultivado, pode ser cultivado ao máximo, a gente teria só com isso, mesmo deixando com o mesmo governo confuso, galinha sem cabeça que a gente tem, a gente já teria um outro país. Porque a nação é feita de seres humanos, é feita de desenvolvimento de talentos e coisas do tipo. Infelizmente, o que a gente tem aqui é o contrário. A gente tem pessoas se desenvolvendo e sendo exportadas. É um êxodo intelectual.

Rafael Nogueira: [17:24] Exatamente. É muito comum ver brasileiros extremamente talentosos em todo canto do mundo, muito bem empregados, dando os melhores resultados e produtos. E aqui no Brasil, a gente precisa também ter as condições para que essas pessoas queiram ficar. Há muita coisa que desencoraja, muitos cientistas que não ficam aqui. E não é só questão de falta de investimento, é porque justamente todo o processo educacional não traz para eles aqueles alunos que estão preparados. Às vezes falta sim investimento, por exemplo, na rede privada, tudo tem que ser público. Então tem uma série de coisas para mexer. E eu só estou falando da ciência. Eu gosto muito dos esportes, por exemplo, podíamos falar dos esportes. Um êxito muito grande no futebol, mas não é usado como paradigma para vários outros esportes também. Tivemos, claro, êxito em outros esportes, mas o Brasil, nas Olimpíadas, por exemplo, não compete com as grandes potências esportivas em número de medalhas de ouro, prata e bronze. Então só dei dois exemplos aí, ciência e esporte. Então precisamos mesmo, eu acho, começar a pensar nisso. Tanto desse que estão as famílias, é bom que as famílias pensem que essa quebra constante, essa ideia de não resgatar legados, de não ensinar os seus filhos naquilo que eles aprenderam, sempre deixar tudo em aberto para recomeçar, isso não é útil. Ao mesmo tempo, as nações precisam aproveitar os seus talentos.

Eron Falbo: [18:49] Que a gente volta de novo para aquela coisa da hereditariedade. Depois do industrialismo, as pessoas começaram a comprar essa ideia de que indivíduos são indivíduos e são separados da geração anterior, e tudo mais. Aí entra esse tipo de coisa: eu não quero fazer como meu pai fazia. Mas você se facilita muito se aprender com a geração anterior, se aprender com o que está em volta de você. E se você motivar isso na nação também, falar: vamos otimizar as coisas que já existem, continuar as coisas que estão dando certo.

Família, capitalismo e nação (18:52)

Rafael Nogueira: [19:24] Isso, sem dúvida.

Eron Falbo: [19:26] Acho que tudo está nessa corrupção, e se você não tem uma força... Essa corrupção, vamos dizer, eu não sou anti-industrialista nem anti-capitalista, pelo contrário, acho que é o único sistema que a gente tem. O neoliberalismo capitalista é o único sistema que a gente tem vigente, que se mostrou funcionando, mas o que eu quero dizer é que algumas coisas, os países que continuaram com a cultura e com a herança tradicional e moralidade, esse tipo de coisa, tiveram alguma força contrária à força do livre mercado, que faz com que as nações queiram ser mais cobradoras de impostos e que as famílias estejam mais divididas, para que o indivíduo seja mais consumidor e a família seja menos provedora. Isso é uma coisa que eu estudo bastante, eu sou gestor de patrimônio de profissão, e eu trabalho com muitas famílias multimilionárias, que têm patrimônio grande, e isso não é um problema só na classe média, entendeu? É um problema em todas as classes: as pessoas estão totalmente divididas, as famílias são educadas para se dividirem, para não trabalharem juntas, para não se verem como uma unidade de provenção, pode-se dizer, de prover para a nação, e sim de consumir da nação. Então mudou essa coisa. Antes do século XIX, a unidade familiar era o núcleo político básico da nação. O primeiro grau político da nação era a família. Hoje em dia é um político. Sim, isso mesmo. É o vereador, sei lá qual que é o mais baixo, qual que é o mais perto do esgoto, né?

Rafael Nogueira: [21:28] Coitados, mas de fato é o mínimo. O que eu vejo é que algumas poucas famílias, sei lá, bilionárias no mundo, mantêm um pouco desse espírito de dinastia. Só que essa quebra das famílias faz mal a todos, a elas mesmas e ao não desenvolvimento de habilidades especiais para entregar às nações e à humanidade. Então eu vejo que a quebra dos conceitos de família impede essa continuidade de que os conservadores tanto falam, mas é bom que todos tenham em mente: para conservar, precisa ter algo para conservar. Para ter esse algo, eu preciso ter justamente esse legado, passado de geração em geração. Então, além dessa questão política, de que é preciso resgatar a história, eu tenho trabalhado muito com o resgate da memória. Eu chamo de amnésia histórica a doença pela qual passamos. É preciso primeiro começar a lembrar. Tem gente que não sabe o nome do avô, do bisavô, é uma coisa muito brasileira isso também. E é normal, eu tenho vários ramos na família, de alguns eu não tenho notícia nenhuma, de outros eu tenho um livro que vai até a Idade Média. Então, assim, tem muita coisa que eu acho que é uma cultura de família que se perdeu, né?

Amnésia histórica e memória apagada (22:09)

Eron Falbo: [22:51] Eu acho que amnésia é um termo generoso, né? Pra mim, sabe aquele coisinho do Homem de Preto, Men in Black, aquele ferramentinho que apaga a memória? Eu acho que a amnésia é uma coisa que ocorre naturalmente. É um filme de Hollywood, então, provavelmente, você não perde tempo com essas coisas. Eu vejo muito, sim. Eu sou de uma amnésia. Então, eles têm alienígenas na Terra e tudo mais, aí tem uma agência que, quando os caras veem alienígenas, vão lá e apagam a memória. No Brasil tem muito isso também, né? Porque tem um esforço na esquerda brasileira, tem um esforço muito forte de apagar a memória, não só na esquerda, mas sobretudo, vamos dizer, só de pensar que o atual regime brasileiro vem de um golpe militar já explica o porquê da motivação em apagar a história anterior. Se você quer se legitimar no poder, isso é uma das primeiras coisas que você faz, como Khrushchev derrubando a estátua de Stalin, ou Stalin matando os outros bolchevistas. Esse tipo de coisa, se você quer se consolidar numa coisa ilegítima, é uma coisa que eu recomendo, entendeu, para todo mundo, se essa sua intenção... funciona bem.

Rafael Nogueira: [24:25] Mas é muito perverso, né? E, graças a Deus, não dura para sempre. Sempre tem alguém que escava e descobre a farsa, né?

Eron Falbo: [24:35] Mas é... Você tem o fio de Ariadne, né? Você tem o... Pra sair da... Pra chegar na verdade.

Rafael Nogueira: [24:42] Isso, e os ciclos de estudos clássicos têm relação com isso, porque, na medida em que nós resgatamos os grandes livros, nós resgatamos um contato com o grande legado que civilizações anteriores nos deixaram, e é um tesouro esquecido, sabe? Também faz parte dessa amnésia. Nós herdamos coisas da Grécia, de Roma, da Idade Média, da África, do Egito, herdamos muitas coisas dos árabes, enfim, eu conheço mais a civilização ocidental, mas existem muitas heranças comuns à humanidade que você só recebe se merecer, e merecer muitas vezes é estudar. Então, se aqueles que nós chamamos de campeões olímpicos não vão lá e conseguem encontrar as chaves do tesouro, não tem como entregar para o restante da população. Então, eu vejo que, quando me propus a isso, veio ao mesmo tempo que eu ia descobrindo tesouros, veio quase que um mandato, como se Deus me dissesse: agora você vai ter que, de alguma forma, ajudar os outros a também fazer parte dessa riqueza e a conhecerem essas coisas. Eu senti essa obrigatoriedade moral, então por isso que eu tenho trabalhado muito como professor. Eu vejo a docência como uma espécie de caridade do conhecimento, sabe? Mesmo que eu faça isso ou gratuitamente ou recebendo, porque eu preciso pagar as minhas contas e mereço, né? A pessoa que também trabalha e tem tesouros a entregar merece a recepção de renda. Então eu acho que isso é também um serviço, é um bem que eu tô entregando, e o melhor de tudo é que eu não perco, eu perco o tempo, a energia muitas vezes, mas eu não perco o conhecimento quando eu dou. Então isso é muito bom.

Eron Falbo: [26:26] E você, Rafael, além disso, assim como Aristóteles diz, o ensinar é o ápice do aprender, o ápice da nossa obrigação como estudantes da sabedoria, como filósofos. E além de você fazer isso, você também é uma pessoa que está totalmente aberta a participar. Você está aqui, foi generoso o suficiente para aceitar meu convite, apesar de eu ser uma formiga perto de você intelectualmente. Você está aqui comigo, aceitou meu convite muito generosamente. E não é só comigo, eu vejo você participando de muitas coisas, né? Sempre com a mesma boa vontade, alegria, simplicidade. Simplicidade, eu digo, não intelectual, mas... Sim, eu gosto. Em termos... sem complicação, né?

Sócrates, sofistas e ensino remunerado (26:50)

Rafael Nogueira: [27:23] Sem muitas exigências, complicações, protocolos, nesse sentido, de fato.

Eron Falbo: [27:29] E isso, acho que é essencial: a gente que preza por isso, que gastou tempo se dedicando a alguma coisa, se unir com outras pessoas e se abrir pra isso, e de fato se dedicar a ensinar, mesmo que seja de graça. Mas, obviamente, a gente vai conseguir atingir mais pessoas e conseguir fazer isso mais se estiver sendo remunerado apropriadamente. Isso faz total sentido. Eu acho até que Sócrates, quando dizia que não era para ser pago, eu acho que não é para ser pago além... Você não precisa ser um Protágoras. O Górgias, que vivia... que era da elite, porque tinha discípulos da elite, e por isso virou...

Rafael Nogueira: [28:22] O que eles cobravam é, por exemplo, um curso de três anos do Protágoras, ou de outro sofista, eu conheço muito do Isócrates, que era um outro sofista. Um curso de três anos dele, e eu já dei, por exemplo, três ciclos, serão três anos. Teve turma minha que fez isso: cada aluno tinha que pagar o valor de uma propriedade, à vista, de entrada. Você está entendendo?

Eron Falbo: [28:48] Ou se fosse assim, eu ia ficar muito rico. O equivalente hoje em dia é a Cientologia, esse tipo de coisa.

Rafael Nogueira: [28:57] Isso.

Eron Falbo: [28:58] A gente acha que entende o que Platão está querendo dizer, mas quando a gente entra nesses detalhes, a gente vê que tem um ângulo diferente.

Rafael Nogueira: [29:08] Tem que estudar com o contexto. De fato, o Sócrates já estava aposentado, ele era muito humilde, considerava que a vida dele já estava tranquila. Muitas vezes ele tinha até problemas econômicos, mas ele tinha muitos alunos ricos que bancavam, que tranquilizavam. Ele não recebia valores em troca das conversações que ele promovia, porque não eram aulas formais, ele não tinha uma escola, eram conversações em praça pública, como se eu, para publicar no Instagram, cobrasse das pessoas. Não é exatamente assim, eu participo gratuitamente de muita coisa no Instagram, no Facebook, no Twitter. Então ele tinha essa participação pública, mas é bom que a gente saiba que ele aceitava muitas vezes a ajuda dos alunos. Por exemplo, o próprio Platão era um aluno muito rico. Então, assim, eles facilitavam a vida dele, pagavam as contas dele na feira, entendeu? Então também tem isso, né? As pessoas esquecem disso: ele aceitava a generosidade daqueles que queriam ajudá-lo.

Eron Falbo: [30:07] Tanto que as últimas palavras dele, a gente está devendo uma galinha pra Asclépio, né? Então, quem vai pagar essa galinha, não é? Mas, voltando pro ciclo de estudos clássicos, é só para lembrar o pessoal que o Rafael Nogueira vai lançar o site dele em breve, provavelmente em setembro. Isso vai ser bom.

Rafael Nogueira: [30:34] Está pertinho, mas... porque já está pronto. A gente só está passando para o link, que vai ser justamente rafaelnogueira.org. Facinho: rafaelnogueira.org. A gente está fazendo essas transições, fazendo testes. Se der certo, eu lanço junto com o aniversário do Brasil, 7 de setembro.

Eron Falbo: [30:50] Ah, perfeito, seria perfeito! Anúncio de primeira mão, hein, Eron?

Rafael Nogueira: [30:55] Você me provocou para ter data.

Eron Falbo: [30:58] Ótimo, mas acho que você devia tentar manter isso e conseguir, né? Tem que falar com o seu webmaster aí. Se conseguir, eu acho perfeito, perfeito, tem tudo a ver com você. E vamos divulgar, pessoal. Tem muita gente assistindo aí, 195 pessoas. É o recorde das minhas lives aí.

Rafael Nogueira: [31:16] Que legal!

Eron Falbo: [31:17] Pode fazer os recordes hoje já, então. Qual foi o primeiro? Você correu mais que o Zé Bolsa?

Rafael Nogueira: [31:25] Com a editora LVM, também, me disseram que foi o recorde de audiência.

Eron Falbo: [31:30] Ah, é? Pô, que bom, que bom. Então é isso, você merece, você tá bombando aí, dá pra ver que você tá cada vez bombando mais aí, e merece totalmente, tenho certeza que todo mundo concorda. Tá aí um monte de coraçãozinho eterno aí pra você. Pra quem estiver escutando depois só em áudio, a gente tá no Instagram, né, coraçãozinho do lado.

Artes marciais, Japão e Musashi (31:47)

Rafael Nogueira: [31:52] Peraí, agora me conta uma coisa, por que você me perguntou de artes marciais?

Eron Falbo: [31:57] Então, é porque, juntando aí a sua pergunta pra mim com o nosso assunto de hoje de currículo, né?

Rafael Nogueira: [32:06] Sério?

Eron Falbo: [32:06] Primeiro, eu suspeitava desde o princípio que você tinha um pezinho no Japão, entendeu? Porque você é uma pessoa controlada, regrada, só que não de uma maneira afetada, né? Acho que a maneira alemã é uma maneira muito afetada de se controlar. E o outro exemplo que a gente tem disso é o Japão, que é uma maneira mais pacífica e por dentro das coisas, e eu vi isso em você. Então eu suspeitava que você tinha uma coisa assim. Mas eu acredito também que o currículo, falando do ciclo de leituras clássicas, não é só leitura. Eu venho sendo platonista, até neoplatonista, eu acredito muito em prática, como os estoicos. Na verdade, isso é uma coisa que falta até no mundo ocidental. Óbvio, a gente tem os nossos textos falando disso, mas no mundo ocidental, a gente entrou muito numa obsessão nas universidades e tudo mais com textos, com análise de textos. A gente acha que entende Platão porque a gente tem grego traduzido, só que quando você estuda artes marciais, por exemplo, você entende certas coisas na prática que você poderia ler vários livros durante vários anos e não entenderia. Ou na própria prática das artes marciais em si, como o kendô, a paciência, esse tipo de coisa que o cara pode escrever uma enciclopédia e você não vai aprender com aquela prática.

Rafael Nogueira: [33:52] Sim, sim.

Eron Falbo: [33:54] E é isso. Eu acho que se puder até falar sobre isso um pouco, o que você acha disso, seria interessante.

Rafael Nogueira: [34:02] Você acertou muito bem, porque eu fui um adolescente encantado com o Japão. É principalmente porque eu gostava de artes marciais. Eu fiz karatê quando criança, fiz o karatê Shorin-ryu, que é muito famoso em Santos, onde nasci e fui criado, e depois eu fiz o karatê Shotokan. Eu cheguei a estar na beira de pegar a faixa marrom e parei. Fiz também taekwondo por um ano e meio para aprimorar os meus chutes, porque eu era muito bom de chutes. Fiz também capoeira por um tempo, porque eu queria fazer as piruetas. Eu treinei um pouco de jiu-jitsu, mas foi bem pouquinho, eu era ruim de jiu-jitsu, preciso melhorar. Olha aí, mais de 30 anos ainda querendo, mas se der tempo eu vou fazer. E fiz também kendô e iaidô. Kendô é justamente o caminho da espada, e iaidô é justamente o desembainhar da espada já atacando.

Eron Falbo: [35:01] Esse é mais ainda da paciência, que você treina só isso.

Rafael Nogueira: [35:06] Porque você ficava naquela posição, com o joelho doendo, e mesmo assim você tinha que levantar atacando, e os katas eram desse jeito. Eu gostei muito de treinar kendô e iaidô, e uma aula ou duas de kyudô, que aprendi só a usar o arco e flecha japonês, em alguns momentos. Não cheguei à maestria, mas fui um pouco mais longe, foram dois anos de kendô e iaidô. E eu gostei muito. Então assim, ao mesmo tempo eu lia sobre o Japão, gostava da história do Japão. Gostei, por exemplo, do texto Shogun, escrito por James Clavell.

Eron Falbo: [35:44] Eu gostei muito do trabalho. Adoro isso.

Rafael Nogueira: [35:47] Eiji Yoshikawa, que escreveu a história de Musashi, foi um divisor de águas na minha vida.

Eron Falbo: [35:52] Adoro os dois, adoro os dois.

Rafael Nogueira: [35:54] É, eu li aos 17 anos. E o Brasil foi privilegiado, foi a primeira tradução para uma língua ocidental, por causa da Liberdade, do bairro da Liberdade de São Paulo. Então assim, nós somos privilegiados no acesso que temos ao Japão, à comida japonesa. Claro que ela foi bastante abrasileirada, mas nós temos muita coisa japonesa aqui por causa da comunidade japonesa. E Santos tem muita coisa japonesa. Então eu pude ter esses acessos aí por causa da história do Brasil, porque os japoneses vieram para cá. E aí, lendo o Musashi, tem muita coisa ligada à minha vida. Por exemplo, o Musashi era muito bruto, e eu, por mais que tenha sido alguém muito introspectivo numa fase da infância, quando cheguei na adolescência e o hormônio pesou, eu fiquei muito bruto. Eu quase que gostava de arrumar confusão, enfim, fiz bastante.

Eron Falbo: [36:43] Eu posso imaginar. Você fazia bullying, ou você sofria bullying?

Rafael Nogueira: [36:52] Mais ou menos. Eu sentia pena dos mais fracos, mas às vezes eu torturava. Então assim, o que acontecia? Eu enchi o saco de muita gente, queria aparecer, eu tava com a cabeça fora do lugar. E quando eu li Musashi aos 17 anos, eu vi que ele era meio assim, mais bruto do que eu, inclusive muito mais bruto do que eu. E como é que ele se transformou num homem maduro, né? Por um lado, ele apanhou muito de um monge, que era o mestre dele, e eu estava apanhando da vida, então encarei como se fossem lições a mim também. E ao mesmo tempo, ele foi trancado por esse monge num castelo, onde ele tinha que ler os clássicos sino-japoneses, ou seja, os clássicos chineses e japoneses. Ele teve que estudar a língua clássica e teve que ficar lendo aquilo dos 17 aos 21. Foi exatamente o tempo que eu fiz faculdade de filosofia, dos 17 aos 21. Quando ele saiu de lá, ele era uma pessoa tão diferente, ele soube unir o lado, ele não jogou fora, ele soube unir o lado mais forte e brutal dele com o lado do pensamento, e ele se transformou numa espécie de cavaleiro, ele já tava sofisticado e ao mesmo tempo forte, e foi aí que ele virou o famoso Musashi, que foi provavelmente o maior guerreiro daquele século.

Eron Falbo: [38:00] Escreveu uma obra de fato, né? Porque assim, eu pergunto isso porque pra mim ele sempre foi samurai, mas você tá falando que ele nasceu bruto, e normalmente o samurai tem pedigree, né?

Rafael Nogueira: [38:09] Pra isso, ele se tranca nesse castelo onde ele foi criado. Tinha uma lembrança, porque o monge Takuan resolveu levá-lo a esse castelo, porque ele sabia que os ancestrais dele tinham vivido naquele castelo. É como se fosse uma coisa assim: lembre-se de seus ancestrais. E estude os clássicos. Olha só que interessante, foi o mesmo processo pelo qual eu passei. Ele saiu de lá e se transformou, o nome dele era Shinmen Takezo. Com uma breve mudança nos ideogramas, ficou Miyamoto Musashi. Em português fica totalmente diferente, a transliteração fica muito diferente, mas nos ideogramas japoneses é sutil. E eu tinha o nome de registro que era diferente, eu peguei o nome da minha mãe, passei a usar Nogueira, que ainda não está no registro, porque foi justamente a família que me deu um livro explicando todas as origens, e que gosta do Brasil e está no Brasil há quase 500 anos. Então eu passei a usar o Nogueira, assim como ele mudou de nome, eu também mudei. Entendeu? Então foi... o Japão foi, em alguma medida, um divisor de águas na minha orientação, tanto pelo treinamento de artes. Mas eu participei de campeonatos, eu ganhei um paulista em 1999, que era o paulista de novos, e eu ganhei medalha de ouro.

Eron Falbo: [39:20] Então, em qual deles? Shotokan? Ah, no Shotokan, uau, incrível. Eu vou te dizer que o Iaido, que se chama Iaido, para mim é um favorito. Eu treinava muito Aikido, tinha Aikido também. Só que aí eu falava: pô, você vai escolher Aikido? Tipo assim, só treina uma coisa, entendeu? Não era que nem você, várias coisas. Você não vai escolher Aikido porque, pô, não tem muito glamour, né? Visualmente. Quer dizer, na verdade, artisticamente, esteticamente, tem muito glamour. Mas não tem em termos, assim, de ação, né? Você tá lá fazendo uma coisa muito... Que a coisa tá acontecendo nos bastidores, né? Tá acontecendo dentro da pessoa. Mas isso você conseguia ver, né? Pra quem é sensível, consegue ver a beleza disso e a superioridade até dessa arte de outras que são mais brutas, né? Que são mais externas, né? Eu gostei muito do Iaido por isso.

Rafael Nogueira: [40:28] Exato, perfeito. Eu gosto muito do Aikido. Morihei Ueshiba foi o criador, tem uma história belíssima. E isso que você falou de samurai é interessante. Samurai em japonês é justamente aquele que serve, que dá a noção de aristocracia e nobreza da qual falamos. Mas ele serve a um senhor. No caso de Musashi, quando ele sai desse castelo, tinha naturalmente um senhor feudal, um dono, o Daimyo. E ele recebe um título desse Daimyo, assim que ele se forma, digamos assim. Ele termina essa fase de estudos, é como se fosse um curso superior. E ele recebe um título, só que ele não aceita, aí que tá. Ele resolve continuar o caminho de estudos independente. É como se ele fosse um outsider. Então ele vira um ronin. Ele prefere se manter outsider. É como se hoje fosse um... Tem o PHD, que pegou o pedigree da academia, no sentido intelectual, e tem o outsider, que é o estudioso independente, que muitas vezes... Claro, ronin é...

Eron Falbo: [41:20] Esse conceito é o leão nômade, né? É o que saiu do... Como é que chama o coletivo de leão em português?

Rafael Nogueira: [41:28] Eu não sei.

Eron Falbo: [41:29] Pride, em inglês. O leão que não tá mais na estrutura, né? Mas continua sendo um leão.

Perguntas do público: monarquia e Platão (41:38)

Rafael Nogueira: [41:38] Exato, exato.

Eron Falbo: [41:39] Mas, Rafael, pra gente não viajar muito, que eu acho que a gente tem muito pano pra manga, vamos só honrar os amigos aí que fizeram perguntas. O pessoal, tem aqui três perguntas novas e várias pessoas fizeram antes, até. Se incomoda a gente fazer algumas perguntas públicas?

Rafael Nogueira: [41:57] Vai em frente. Claro que não.

Eron Falbo: [41:59] Vamos lá. Vamos tentar só responder rápido porque a gente tem pouco tempo só para pegar mais gente aqui. O que Pedro Primeiro imaginava que José Bonifácio passasse para D. Pedro II?

Rafael Nogueira: [42:16] O Pedro I, quando ele estava abdicando, percebeu, primeiro, que não havia, entre aquelas pessoas próximas a ele, alguém tão culto, tão experimentado e tão capacitado de transmitir, está na carta dele, honra, patriotismo e saber pro Pedro II. Então, creio que essas três palavras resumam bem. Vou responder muito rápido pra gente poder...

Eron Falbo: [42:37] Ok, beleza, beleza. Vamos ao próximo, então. O que você entende de vocação?

Rafael Nogueira: [42:44] Vocação é um chamado, ao mesmo tempo, de um dom, de um talento que você tem naturalmente, ou dado por Deus, ou hereditário, ou por circunstâncias que você pode herdar uma técnica, treinar uma técnica muito bem, e que ela combina com a circunstância. Não adianta, por exemplo, hoje, alguém ter a habilidade de manejar carros de guerra assírios. Hoje não cabe mais, então não adianta ter só o dom, entendeu? É preciso ter o dom e a circunstância. Então, a adaptação do indivíduo feita em relação à sua capacidade, ao seu talento, a realidade mediante muito treinamento e muita capacidade justamente adaptativa ao meio. Então raras pessoas conseguem chegar nisso. E uma maneira de fazer uma pedagogia útil a todo o Brasil seria fazer com que mais pessoas atingissem, digamos assim, um encontro com a vocação.

Eron Falbo: [43:43] Essa vai para os colecionadores de CD, que já está obsoleto. Vamos aqui. Aqui o Marcelo. Marcelo é gente boa e hoje é dia do soldado. Queria honrar o Marcelo, mas ele fez a pergunta dele em quatro partes. Vamos ver se dá pra ir rápido. Forma de governo, a primeira pergunta.

Rafael Nogueira: [44:06] Forma de governo?

Eron Falbo: [44:07] Para alterar o sistema do governo, necessariamente teríamos que alterar a nossa forma de governo? Não, é tudo uma coisa só, vamos ver aqui. Precisaríamos de uma maioria esmagadora do Congresso para voltar a algo dessa magnitude? Ele quer saber como é que a gente vira monarquia. Existe, por mais remota, alguma forma de que isso aconteça?

Rafael Nogueira: [44:27] Eu entendo que a mesma coisa que eu falei para a vocação se aplica aqui. Não dá para a gente querer, por exemplo, voltar no tempo. Dom Pedro II não sairá da tumba e aquele sistema funcionou para o século XIX com muitas alterações. Nós não tivemos uma só monarquia, nós tivemos várias monarquias, uma com o Reino Unido a Portugal, outra no primeiro reinado, outra nas regências e algumas no segundo reinado. Então, voltar no tempo não funciona. Nós precisamos verificar qual é a forma mais adaptável ao Brasil. E se o modelo adaptativo for república, que seja. Se o modelo adaptativo que eu prefiro for a monarquia parlamentar e constitucional, eu gosto mais desse modelo, melhor que seja. Mas nós precisamos ter essa noção de que é uma coisa meio reacionária e eu entendo que equivocado é querer voltar no tempo. Nós precisamos olhar para frente, nos instruir com a experiência do passado e construir algo que funcione hoje.

Eron Falbo: [45:21] E tem uma forma que todo mundo pode contribuir, que é vote Luiz Felipe de Orleans e Bragança.

Rafael Nogueira: [45:27] Exatamente, mas é possível, claro que é possível. Eu tenho uma consciência histórica porque eu estudo muito história. O Brasil, a cada 20, 30 anos, ele muda o seu sistema. Nós tivemos várias monarquias e várias repúblicas. Então é claro que é possível, mas a gente tem que verificar aquilo que é ideal para o momento, sem esse excesso de idealismo e também sem ser preguiçoso, só fazendo mudanças mínimas. Precisamos ter uma certa ambição para o bem.

Eron Falbo: [45:56] Esse aqui é polêmico. Qual a sua opinião sobre a ideia de que Platão foi o primeiro socialista?

Rafael Nogueira: [46:02] Ah, é uma ideia de uma leitura equivocada de A República, né? Tem um aspecto ali que é assemelhado ao socialismo, e é assemelhado muito de longe, que é a convivência entre os cidadãos de prata, que seriam os guerreiros entre si. Todo o resto não tinha muito a ver com socialismo, era um pequeno estatismo.

Eron Falbo: [46:20] Eu tinha até esquecido disso. Eu tinha até esquecido que eles eram meio comunistas, as almas de prata.

Rafael Nogueira: [46:29] É um anacronismo muito grave. Uma das coisas que mais caracteriza o socialismo é a crença de que nós chegaremos num estágio que é o comunismo. Isso não existe em Platão. Existem algumas semelhanças episódicas.

Eron Falbo: [46:46] O que eu acho que existe mesmo é que Marx e outros pensadores socialistas e comunistas sequestraram ideias de Platão, que já estavam ali no imaginário coletivo, que já estavam presentes ali na cultura de ideais e como viver dessa forma. É a mesma coisa de chamar Nietzsche de nazista, entendeu? Você pega uma pessoa que está falando uma coisa que não tinha nada a ver com isso, e você pega dez por cento do que ele falou e você sequestra esses dez por cento e faz virar o seu ideal infantil, banalizado.

Rafael Nogueira: [47:27] Isso. Eu não acho que Nietzsche tenha sido nazista. De qualquer maneira, ele estava muito mais perto do nazismo do que Platão. Então, pô, falar que Platão era socialista é um anacronismo tremendo.

Eron Falbo: [47:38] É, com certeza. É, eu até tenho que rir pra... Mas vamos ver se tem outra aqui, que acho que as outras aqui são meio... Caraca, tem umas aqui que eu não ouso te perguntar. Essa aqui é boa. O que falta nos currículos escolares?

Rafael Nogueira: [48:01] Os currículos escolares são complicados desde o seu conceito. Por que o Estado tem que criar currículos escolares? Só se você tem uma ausência completa de lideranças educacionais nos diversos locais. Senão, isso é uma ingerência muito grande. De qualquer maneira, os currículos precisam de mais liberdade, na verdade. Parâmetros mais vagos pelo governo federal e mais desenvolvidos pelas escolas para que os pais possam escolher escolas mais diferentes. Por exemplo, o pai quer escolher uma escola que crie os filhos mais para esse lado. Isso não estou falando só de valores e de política, gente, eu estou falando é uma escola mais voltada para desenvolver os esportes sem descuidar do resto, uma escola mais voltada para ciências, uma escola mais voltada para justamente os clássicos greco-romanos. Essa maior liberdade para que os educadores específicos formulem os seus parâmetros é ideal. Claro, com algumas exigências pequenas, nacionais, para que não haja espertinhos fingindo vender educação, porque no Brasil tem muito esperto fingindo vender educação quando vende porcaria.

Currículos escolares e educação (48:06)

Eron Falbo: [49:09] Uma coisa que eu sempre brinco é como é que pagar imposto, como é que preencher o... Como é que chama? Agora me deu branco, o que a gente faz todo ano, o imposto de renda. Eu trabalho com isso. Preencher o imposto de renda, isso não é ensinado na escola, mas tem outras coisas desnecessárias e a gente não precisa se prolongar. Mas isso deveria ser o básico que estava na escola, como preencher o imposto de renda.

Rafael Nogueira: [49:44] Você tem um filho com habilidade de futebol, o Neymarzinho. E aí você vai fazê-lo estudar até o terceiro ano do ensino médio, química e física naquele nível, matemática naquele nível, não tem necessidade. De repente uma escola que fortalecesse a língua portuguesa, os princípios básicos da ciência, essa questão de administração econômica, noção de direitos, com muito esporte. Podia aproveitar melhor o tempo do garoto. Isso é uma das maneiras de desaproveitar talentos, um parâmetro curricular muito engessado para o Brasil inteiro, para todas as pessoas as mais diferentes possíveis.

Eron Falbo: [50:19] Bom, eu vou fazer a última pergunta agora. Mas antes de terminar, já está acabando o tempo aqui, o Instagram é muito rígido com isso, ele acaba o tempo sozinho. Então, eu queria dizer, primeiro, obrigado, Rafael Nogueira, que está virando aí o meu querido amigo. Mal posso esperar até você chegar no Rio de Janeiro para a gente poder tomar uma cerveja, almoçar, o que seja, e trocar uma ideia mais prolongada do que uma hora. Mas muito obrigado mesmo de coração, vai ser um prazer, e obrigado a todo mundo que tá participando, que fez as perguntas, que tá honrando a nossa discussão. Queria dizer, alguém tá perguntando se vai ficar gravado. Se Deus quiser, vai ficar gravado.

Rafael Nogueira: [51:08] Desliga e põe o negócio aí, pô, e fica gravado aí.

Eron Falbo: [51:13] Vai ficar gravado, e depois eu vou lançar também como podcast no Spotify, para quem quiser ouvir. Em breve vai estar no Spotify, no meu podcast No Alvo com o Eron Falbo, porque rima. É isso, agora vamos à última pergunta: força é sinônimo de virtude?

Força, virtude e encerramento (51:31)

Rafael Nogueira: [51:37] Força? Depende. Força também é uma palavra polissêmica, ou seja, tem vários sentidos. Virtude vem de vir, e também no grego era areté, que quer dizer, por um lado, excelência, e vir é força. Vir é uma visão mais romana, excelência.

Eron Falbo: [51:55] É uma visão mais grega. Você foi diplomático, mas masculinidade... é masculinidade.

Rafael Nogueira: [52:06] E masculinidade, porque eles tinham a interpretação de que masculinidade era força.

Eron Falbo: [52:09] Eu entendi que você foi diplomático.

Rafael Nogueira: [52:14] A virtus era justamente essa capacidade do cidadão de ter forças de fazer as conquistas as quais ele se propõe. E no grego tem a questão da excelência, a areté como excelência, e a virtude cristianizada já tem as características mais especiais do cristianismo, que você tem as virtudes cardeais e as virtudes teologais. Então você vai ter, por exemplo, a coroação das cardeais com a prudência, mas tem também a justiça, a temperança e a fortaleza. Fortaleza, então, pro cristianismo é uma virtude, e não todas, e depois você tem a fé, a esperança e a caridade. Então você tem vários parâmetros aí de virtude, mas de qualquer maneira tem relação com a virtude mas não é sinônimo. Eu não considero sinônimo.

Eron Falbo: [52:58] Perfeito. Até então. Então é isso. Obrigado mais uma vez. Só para dizer que virtudes é meu assunto favorito, eu sigo a máxima estoica de que virtude é a razão que a gente vive. É o único bem que existe nessa vida. Então a gente devia fazer, a qualquer momento, uma live sobre virtudes, só sobre virtudes.

Rafael Nogueira: [53:23] Eu vou falar de virtude agora também no meu canal do YouTube, né? O café da noite, que eu chamo, e ao mesmo tempo a virtude pro Aristóteles era o caminho mais curto pra você atingir a eudaimonia, que é uma espécie de felicidade, de realização vocacional também. Então é bem legal isso aí.

Eron Falbo: [53:43] Então é isso, pessoal. Lembrando aí aos ouvintes, ao nosso público: rafaelnogueira.org, dia 7 de setembro. Essa é a expectativa de todos nós, e vai ter cursos exclusivos, vai ter material exclusivo, vai ter um blog, vai ter coisas que com certeza não tem em outro lugar: rafaelnogueira.org. Valeu mais uma vez, Rafael.

Rafael Nogueira: [54:10] Obrigado, Eron.

Eron Falbo: [54:11] Se precisar, estamos aí. Eu te espero aqui no Rio.

Rafael Nogueira: [54:13] Estamos juntos.

Eron Falbo: [54:14] Valeu. Valeu. Um abraço. Tchau, tchau. Tchau a todos.

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