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Eron Falbo: [0:05] Alô, boa noite. Sejam bem-vindos a mais um Viva Total com Fellipe Carvalho. Eu e Fellipe, a gente se conhece desde criança. Eu lembro que a primeira memória que eu tenho de você é de você andando de patins com a Tuca, lembra? Fazia aula com a Tuca.
Fellipe Carvalho: [0:24] Cara, eu não fazia aula com a Tuca. Eu andava com o pessoal da Tuca.
Eron Falbo: [0:29] Ah, tá. Eu fazia aula e você andava com o pessoal. Você era mais avançado. Quando eu te conheci, você já era patinador. Sei lá como é que é o nome disso.
Fellipe Carvalho: [0:40] Cara, eu nunca fui excelente de patins. Porque eu tinha medo um pouco.
Eron Falbo: [0:45] É, mas eu lembro que você pulava lá na rampa, fazia os truques.
Fellipe Carvalho: [0:48] Dava uns mortais e tal. Mas nunca fui excelente, não.
Eron Falbo: [0:52] Porra, isso aí já é pro meu nível...
Fellipe Carvalho: [0:56] É, já é alguma coisa, né?
Eron Falbo: [0:58] Tipo, alguma coisa não, porra. Pra maioria dos cidadãos... Você já é um patinador, sei lá qual é o nome disso. Qual é o nome disso mesmo, cara?
Fellipe Carvalho: [1:07] Não sei, cara. Inline skater, alguma coisa assim.
Eron Falbo: [1:11] É?
Fellipe Carvalho: [1:11] Acho que é, não sei.
Eron Falbo: [1:14] Seja bem-vinda, Cassi. Então, eu acho que a primeira pergunta que eu quero fazer para você, que eu estava pensando que é muito legal, é que, cara, crescendo, você era o cara do esporte, né? Seu apelido era Bomba, porque você era mais forte que os professores todos. E, em contrapartida, eu era um pessoal mais antissocial. E você era sociável, cheio de amigos. Eu era mais antissocial, introvertido. Ficava citando poesia, não sei o quê. E você era o cara mais sociável, esportista e tudo mais. Só que no final, hoje, eu virei do mercado financeiro. E você é um professor universitário, sociólogo, filósofo. Como é que você acha que é isso? Como é que você vê essa coisa de a gente ser... De a gente mudar tanto durante a vida? Como é que foi isso para você?
Fellipe Carvalho: [2:14] Eu entendo a sua pergunta, aquela parte de um pressuposto que as duas coisas são dissociáveis. Dissociáveis, né? A parte, digamos assim, a familiaridade com o corpo que é o que o esporte precisa. Você tem um relacionamento diferente com o seu corpo. Você tem uma certa inteligência corporal e tal. E a parte intelectual. Mas na minha cabeça isso está muito longe de ser dissociado. Para mim tem tudo a ver. Inclusive o esporte tem uma coisa de inteligência emocional muito grande. Uma coisa de inteligência. Uma questão intelectual importante também. Os gregos, mente e corpo, tinha tudo a ver. Era parte do esporte e da excelência corporal com a excelência intelectual. E pra mim, cara, eu acho que tem tudo a ver. Eu acho que o esporte me ensinou muita coisa sobre mim mesmo, sabe? Sobre o relacionamento com as pessoas, meu relacionamento comigo, aprender a ganhar, aprender a perder, treinar. E principalmente autoconhecimento, cara. Até hoje, eu sou professor de yoga hoje, mas eu digo que a minha principal fonte de autoconhecimento até hoje foi o esporte, disparado.
Eron Falbo: [3:40] É, mas só pra gente ficar na mesma página, eu tô perguntando isso porque o propósito do nosso programa Viva Total é justo conciliar coisas que, no imaginário coletivo, né?
Fellipe Carvalho: [3:52] Sim, sim.
Eron Falbo: [3:53] Na cabeça das pessoas são dissociadas, né?
Fellipe Carvalho: [3:56] Exato.
Eron Falbo: [3:56] É, ou desassociadas. É, então, a ideia... tô te perguntando por causa disso. Eu concordo com, tipo assim, eu tô totalmente com você nisso. Inclusive, pra mim, assim, respondendo a mesma pergunta que eu fiz pra você, pra mim, né? Eu só recentemente que, teoricamente, eu sempre mais ou menos, porque, pô, eu lia Platão desde os dezoito anos, eu teoricamente acreditava que você acredita, mas só foi recentemente que eu tô começando a realmente dar importância pra prática de ioga, de esportes, aquela coisa lá que a gente conversou com o Tiago, de estar presente no momento, que o esporte traz isso muito, sem contar metáforas. Tem milhões de metáforas que você deriva da prática do esporte, que a gente consegue e depois a gente estuda alguma coisa e a gente imediatamente já associa, porque a gente tem a prática e não só a observação.
Fellipe Carvalho: [4:50] Exatamente, o yoga é bem isso, o yoga é exatamente isso, o corpo. Muito por causa do desenvolvimento da história do yoga, que tem uma influência muito forte de tantra, o yoga tem aí, depois do Tantra, veio o Hatha Yoga, o que se chama de Hatha Yoga, que é um uso bem corporal das práticas para você se conectar com você mesmo enquanto mente, enquanto espírito, entre aspas. E o corpo, na verdade, é um portal, entendeu? Ele é um lugar por onde você passa. É assim que eu vejo, que eu entendo. É um lugar pelo qual você passa para atingir essa conexão consigo mesmo, sabe? E eu entendo que o esporte é assim, né? O esporte faz isso. O esporte utiliza o corpo como um portal de autoconhecimento, de conexão consigo mesmo, sabe?
Eron Falbo: [5:48] Inclusive, cara, eu estava ouvindo um TED Talk sobre consciência. E aí, Tiago, seja bem-vindo, cara.
Fellipe Carvalho: [5:58] Tiagão!
Eron Falbo: [6:01] Estava vendo um TED Talk sobre consciência, e o cara estava falando sobre como os estudos mais cutting edge científicos sobre o cérebro, a neurociência, e de onde vem a consciência, dizem muito sobre como a consciência está intrinsecamente relacionada com o corpo, com o que está acontecendo, as sensações do corpo. Dizem, por exemplo, que hoje acham muito difícil a inteligência artificial produzir consciência, por causa das conexões que existem entre o cérebro e o sistema nervoso, que são muito mais complexas do que a inteligência por si só. Então é uma rede de conexões que, no final, se transforma numa presença, né, que a gente chama de consciência. Então acho que isso tem muito a ver com o que a gente tá falando, com o esporte e tudo mais, porque você precisa do corpo, né, como esse canal pra coisas maiores, pra consciência coletiva, talvez consciência superior, qualquer coisa que você possa chamar de divindade, ou coisa do tipo, né? Porque se você não tem esse canal com o seu próprio corpo, você não tem com a sua própria consciência, e assim por diante, né? Então...
Fellipe Carvalho: [7:31] Exato, é isso aí. É ver a pessoa, ver as coisas como uma coisa integrada, né? Como uma coisa total, totalizante, assim. Isso é o que tem a ver com o que você faz, assim.
Eron Falbo: [7:46] Total, né?
Fellipe Carvalho: [7:47] Vivo total, né? Porque a gente tem... Eu entendo assim: a inteligência tende a fragmentar as coisas para dar conta da realidade. É uma coisa pedagógica, a linguagem faz isso, isso é isso, isso é isso. Mas não significa que, na prática, no mundo objetivo, isso seja dissociado. As coisas não são assim dissociadas. Por exemplo, você pega a utilização do corpo em si: ela também não pode ficar dissociada da forma como o corpo se conecta com a mente. Porque senão você fica no fetiche do corpo, né? O corpo é uma coisa.
Eron Falbo: [8:28] Exatamente. E isso também existe muito, né?
Fellipe Carvalho: [8:31] Principalmente, né? A sociedade ocidental hoje, com o Instagram, por exemplo, que é foto, né, cara? Foto é você ver a forma, né? Mas isso não está dissociado do que está acontecendo dentro. O tantra é uma filosofia oriental que tem uma importância muito grande, não só no desenvolvimento do yoga, mas no desenvolvimento de várias teorias filosóficas dos ocidentais. Existe uma influência no romantismo alemão que depois influencia o Freud. Sabe, o Freud fala, mas fala de corpo. Eu entendo que o Freud está falando, e está falando ainda do corpo. A gente não está falando porque eu tendo a ver as coisas de uma forma, não só a parte material. Eu acho que existem coisas nesse universo que não são materiais, entende? Inclusive do nosso próprio ser, que é o que a gente chama de espiritualidade.
Eron Falbo: [9:31] Cara, eu moro no Rio de Janeiro, e pra mim sempre o Rio de Janeiro foi uma coisa difícil de tragar, por causa dessa coisa de culto ao corpo que existe aqui muito.
Fellipe Carvalho: [9:43] Essa é a cidade em que as pessoas passam mais tempo na academia do mundo.
Eron Falbo: [9:48] Então pra mim, eu era meio monge, era totalmente desconectado do corpo, meu corpo foi passear enquanto eu ficava... Hoje eu moro aqui no Rio de Janeiro, então pra mim tá sendo muito legal essa reconexão com o meu corpo, redescobrir o meu corpo. E hoje eu tô descobrindo o outro lado dessa parada, descobrindo muita gente legal pra caramba aqui e ver o Rio de Janeiro com outros olhos. Mas como eu era viciado em Platão muito cedo na vida... Aí o Platão era muito crítico da sociedade ateniense, sempre chamava, era por causa do culto ao corpo que existia na época dele e tudo mais. Eu sempre associava o Rio de Janeiro com a Atenas moderna, né? Tipo, a galera andando de toga, malhadona. Mas, cara, antes da gente filosofar demais, né? Porque eu acho que a gente dá pra ver que a gente tem essa tendência. Vamos tentar botar a galera pra participar aí, falar pra todo mundo fazer perguntas, pra gente se manter aí juntos, todo mundo. Deixa eu começar a viajar muito na tangente. Me diz uma coisa, você tá bebendo qual chá, cara?
Fellipe Carvalho: [11:05] Chá de hibisco, cara. Eu gosto de chás mais frutados, né? Esse chá de erva eu acho muito forte. Bom, depende, né?
Eron Falbo: [11:17] Não, eu tô bebendo aqui uma fruta indiana chamada Kipiku Xanawawa. Kipiku? Mentira, é de hortelã mesmo. Acabou meu chá inglês.
Fellipe Carvalho: [11:34] Bom, adoro, cara. É chá marroquino, né? Bom, é hortelã. Eu sempre... Hortelã e menta são coisas diferentes, né? Ou é a mesma coisa?
Eron Falbo: [11:44] Sei lá, bicho. Aqui tá na embalagem. Eu não sou muito do chá, né? Eu poderia ter feito uma pesquisa aqui antes e aparecido tudo. Eu gosto.
Fellipe Carvalho: [11:57] De bebida quente, só que... Eu curto muito café, cara. Adoro café, mas café não é muito bom pro meu estômago, assim, e ativa demais, né? Eu já tenho muito fogo, sabe?
Eron Falbo: [12:13] Cara, eu sou o contrário. Mas café também, cara: se eu tomar três cafés, aí eu fico mal. Mas eu preciso de estimulante, sabe? Ah, entendi. Estimulante, senão eu fico muito retrospectivo, sei lá.
Fellipe Carvalho: [12:28] Entendi. Pois é, eu tenho que... Eu sou o contrário, cara. Eu sempre fiz muito esporte até por isso também, cara. Eu tenho muita energia, sabe? Energia. Eu preciso gastar, na verdade, né? Porque quando você tem energia assim, não tem como travar ela, tem que gastar. Mas fora isso, eu também não defendo.
Eron Falbo: [12:47] Mas isso é verdade, porque quando eu faço esporte, eu não consigo dormir. Que de repente é isso que me falta, fazer esporte mesmo. Eu faço exercício todo dia, mas esporte é outra parada.
Fellipe Carvalho: [13:00] É outra parada. Eu sou sempre favorável a esporte. Exatamente o que a gente já falou mais cedo, porque ela exige uma outra parte sua, não só o corpo, né? Você tem que pensar, você tem que... Pô, eu sei que você joga tênis. Minha mãe joga tênis também, cara. Tênis ou xadrez, né? Tênis, jiu-jitsu, são dois que eu tenho feito muito. E é xadrez, cara. Jiu-jitsu é xadrez.
Eron Falbo: [13:23] Pô, bora jogar. Chega aí no Rio, cara. Você tem plano pra chegar no Rio ou não?
Fellipe Carvalho: [13:27] Como é que é?
Eron Falbo: [13:29] Você tem plano pra vir pro Rio?
Fellipe Carvalho: [13:30] Cara, não tenho um plano, mas eu tenho que ir. Mas mais hora, menos hora, eu vou, cara. Eu tô devendo visitas aí, bastante. Mas vamos jogar quando for. Eu adoro jogar tênis, cara. É uma super estratégia, né? É tipo um xadrez.
Eron Falbo: [13:43] Tá aqui o Tiago, que claramente conhece o Kipico Xanauau. Ele tá aqui chetando, tá te perguntando se você já tomou chá de ayahuasca.
Fellipe Carvalho: [13:54] Cara, já tomei, já tomei. A ayahuasca é divino mesmo, é uma coisa divina, certamente. É assim, a analogia que eu tenho...
Eron Falbo: [14:08] Com a ayahuasca... Vai falando que eu já volto.
Fellipe Carvalho: [14:11] Tá.
Eron Falbo: [14:11] Fala, tá.
Fellipe Carvalho: [14:12] Cara, eu já fiz alguns retiros de meditação, fiquei um mês. Aí... ayahuasca você tem em casa, legal. Eu já fiz alguns retiros de meditação que eu fiquei assim um mês, você faz silêncio, você faz meditação, você faz... Cara, não existe telefone, não existe televisão, não existe nada, então você tá ali. E aí, no final desses retiros de um mês, dois meses, cara, você entra em um estado, entendeu? Um estado... um estado interior, não um estado pra fora, um estado pra dentro. E a analogia que eu tenho é que tipo a ayahuasca te coloca nesse estado, é tipo um atalho, né? Você não precisa ficar um mês em retiro de silêncio. Ele te coloca nesse estado, que eu entendo que é um estado de não-ego, digamos. É onde você consegue... Você não tem uma intermediação entre você e você mesmo, entre você e o amor que você é, entre você e a conexão espiritual que você é, sem intermediação do ego, da sua história, etc. É um atalho, cara, e é importante. Eu entendo que é importante a gente estar mais tempo nesse lugar, sem ego. O que eu faço é meditação para estar nesse lugar, yoga e tal, mas existem outras formas.
Eron Falbo: [15:37] Claro.
Fellipe Carvalho: [15:37] O Daime é um deles.
Eron Falbo: [15:40] Eu acho que também é muito intenso. Também não é para toda hora.
Fellipe Carvalho: [15:46] Exatamente. É, como um atalho, é uma coisa que você deve usar de vez em quando, eu acho, né? Não sempre, assim. Mas é importante passar mais tempo nesse lugar, assim, sabe? Passar tempo nesse lugar pra se sentir confortável, né?
Eron Falbo: [16:00] É voltar um pouco, né? É voltar pra lembrar e dar uma recarregada, né?
Fellipe Carvalho: [16:07] Exatamente, exatamente. Porque, cara, a gente não tá acostumado a estar nesse lugar, né, cara? Esse lugar de silêncio, né? Esse lugar de silêncio, do que os budistas chamam de Sunyata, né, que é o nada, o vazio. Isso pra gente causa ansiedade, né, cara? Falar em nada... porra, eu não quero estar num nada. Isso dá uma ansiedade na gente. Não sabe nem o que é. Nossa mente ocidental não consegue entender isso. Mas é importante passar tempo nesse lugar, cara.
Eron Falbo: [16:31] E cada vez menos, né? Porque também a gente tá assim com tanto mais distração e, porra, tem os algoritmos e o jeito de... Big Data hoje em dia é o que mais dá dinheiro para as empresas e é baseado em pegar mais atenção de usuários. Quanto mais atenção você puxa no celular, no computador e qualquer coisa, mais as companhias ganham dinheiro. Então a gente tá perdido. A gente tem uma máquina de estar tirando a gente de si, tirando a gente do centro.
Fellipe Carvalho: [17:08] Isso. A verdade é que a gente tá viciado em estímulo. Isso é a verdade. É uma verdade meio ruim de aceitar, mas a gente tem um vício, uma compulsão por estímulo, seja externo, seja interno. Os estímulos internos que a gente é viciado é pensamento, preocupação. A gente não consegue ficar sem pensar. Não consegue ficar sem se preocupar. É sempre alguma coisa. E quando a gente não tá nessa, a gente tá buscando alguma coisa, né? Celular, é disso que... Cara, parar e ficar calado, em silêncio, isso não é uma opção. Não é uma opção pra ninguém, cara. De vez em quando eu faço uns retiros na minha escola de yoga, né, cara? Eu faço uns retiros aí, todo retiro tem uma parte de silêncio que eu faço. Normalmente é 24 horas, sem falar, sem contato visual, sem nada. E, cara, é engraçado a ansiedade que isso gera nas pessoas, sabe? Tipo assim: você vai ficar sem falar, sem televisão, sem celular, sem nada.
Eron Falbo: [18:08] Eu sei bem, cara. Gera em mim também, então.
Fellipe Carvalho: [18:11] Em mim também, é. Eu já fiz retiro de silêncio de vários dias, assim, e eu sempre fico ansioso antes de... Mas, cara, por que a gente fica ansioso de ficar com você mesmo, né, cara? É estranho isso.
Eron Falbo: [18:20] É, porque o povo...
Fellipe Carvalho: [18:22] É um sintoma isso, né? Eu acho que esse é um sintoma desse vício.
Eron Falbo: [18:28] E eu acho que também muitos dos problemas do mundo são sintomas desses sintomas, né? Tipo, muito do que acontece aí de discussões e de... Qualquer coisa que você pode imaginar, eu acho que é causado por ansiedade, por uma desordem, né? Uma verdadeira pandemia que a gente tá vivendo.
Fellipe Carvalho: [18:51] É, exatamente. É o mal do século, né? É, cara, isso cria na gente uma reatividade, né?
Eron Falbo: [18:56] Inclusive, a paranoia que foi gerada agora no coronavírus, cara, pra mim, tem tudo a ver com essa descentralização, né? Uma incapacidade de conseguir enxergar a coisa e enxergar com realismo, né, com objetividade. Uma coisa que tá tão perdida nos...
Fellipe Carvalho: [19:18] Exatamente. É, eu acho que essa foi uma das mensagens do universo, sabe? Pra gente, com o coronavírus. Foi assim: para, calma, espera, para, para um pouco, sabe? Apesar de que a gente não parou como deveria, como sempre, né. Mas... já foi alguma coisa, comparado com...
Eron Falbo: [19:36] Quando a gente estava, deu uma boa parada.
Fellipe Carvalho: [19:40] Com certeza, cara. É fundamental parar, cara. A gente não aguenta viver no... viver no contágio lá no vermelho, cara, a gente não consegue. E já, como você falou, já era reatividade, né, cara? Já era reatividade. Já virava uma parte da gente que toma as decisões pela gente, sabe? Não é sem presença, sem tá aqui agora, e observar o que tá acontecendo dentro de você, tá acontecendo fora. A gente vira uma reatividade ambulante, né? E as coisas vão acontecendo sem a gente querer. Depois você para e fala: cara, por que eu falei aquilo, bicho? Não era pra eu ter falado aquilo. Não era pra eu ter reagido assim. Falta presença, né?
Eron Falbo: [20:23] Quando você para, né? Porque a maioria das pessoas nem para.
Fellipe Carvalho: [20:27] Mas fica ali, né, cara? Fica aquela coisinha ali martelando, criando e se construindo dentro. Quando você vai ver, tá com o peito cheio, não consegue respirar.
Eron Falbo: [20:37] Mas manifesta, né, cara?
Fellipe Carvalho: [20:39] Manifesta.
Eron Falbo: [20:39] Vira doença, vira...
Fellipe Carvalho: [20:41] Exato, é.
Eron Falbo: [20:42] Tanto que a gente tá tendo aí todo tipo de depressão, câncer, né? Todo tipo de coisa.
Fellipe Carvalho: [20:48] É uma epidemia de depressão, cara. Depressão é uma epidemia hoje, né?
Eron Falbo: [20:52] Mas vamos falar só de coisas um pouquinho mais alegres. Mas, pessoal, só pra lembrar vocês aí que tá assistindo: pode fazer perguntas aí do lado, do negocinho aí que tá escrito 'comentar', tem um botão que você pode fazer perguntas, que a gente pode deixar aí, mas também pode fazer nos comentários. Vamos ver alguma pergunta. Eu fiz algumas perguntas, tem perguntas aqui de outras pessoas. Eu não vou te falar quem é quem, mas acho que você vai saber. Vamos lá, tem algumas perguntas aqui. Ou eu, ou alguém que pensa muito parecido comigo.
Fellipe Carvalho: [21:38] Vamos dar uma voltada com o mais simples.
Eron Falbo: [21:44] O que você faz na prática de espiritualidade e religião?
Fellipe Carvalho: [21:49] O que eu faço na prática? Cara, é meditação, yoga, né? Meditação, principalmente. Silêncio, cara. Silêncio. Fazer silêncio. Não tem... é aquela coisa, a saída é pra dentro.
Eron Falbo: [22:03] Você pode se colocar um pouquinho mais pra cima? Porque tá... a pergunta aqui tá te... Vou botar o celular, seu celular. É, tá bom.
Fellipe Carvalho: [22:11] A saída é pra dentro, cara. Então, são coisas que fazem voltar pra dentro, entende? Silêncio. Então, é o que a gente chama de meditação, cara. Eu paro todo dia, sento no meu tapetinho ali e faço 20 minutos de meditação. Isso aí é o que a gente chama de sadhana, né? A prática diária de meditação.
Eron Falbo: [22:35] Mas você falou alguma coisa sobre o espiritismo também, e esse tipo de coisa... Como é que é?
Fellipe Carvalho: [22:42] Cara, eu já fui espírita há muito tempo. Eu me considerei espírita há muito tempo. Hoje eu não me considero mais espírita, mas foi uma religião que teve muita influência sobre mim, estudei muito e aprendi muita coisa, mas eu trabalhava em centro espírita, por uns 15 anos eu fiz isso. E aí, cara, eu saí e acabei indo para o yoga, abri uma coisa de yoga porque eu sentia que eu precisava me aprofundar um pouco mais em mim mesmo, sabe? Eu acho que a filosofia oriental tem mais essa coisa. Ela se aprofundou muito mais no ser humano. Acho que ela conhece mais o ser humano, sabe?
Eron Falbo: [23:26] Você falou oriental?
Fellipe Carvalho: [23:28] Oriental, é. Eu acho que ele tem 5 mil anos de história, pelo menos. Tem mais, na verdade.
Eron Falbo: [23:34] Eu acho que a gente perdeu um pouco no Ocidente. Porque antigamente no Ocidente era muito parecido, não tinha tanta... Acho que a gente se perdeu com o racionalismo grego. Eu também acho. A parte política do cristianismo, talvez.
Fellipe Carvalho: [23:52] Eu acho também. Eu acho que esse excesso de racionalidade, meio cartesiano, foi um pouco ruim. A gente ficou preso nessa. E beleza, a gente chegou na Lua, né? Mas a gente não tem o mínimo conhecimento sobre a gente mesmo.
Eron Falbo: [24:08] Só que a gente não conhece a Lua, né? Os orientais conhecem melhor.
Fellipe Carvalho: [24:13] Exatamente. Todas as outras estrelas, todas as estrelas.
Eron Falbo: [24:19] Então, vou trocar aqui a pergunta. O Tiago tá fazendo pergunta sobre wakeboarding, se você vai competir muitos anos no wakeboarding. Você vai voltar para o campeonato brasileiro. É bom você falar sobre isso, que eu nem conheço sobre isso. Fala um pouco sobre sua história de wakeboarding e como é que você tá hoje.
Fellipe Carvalho: [24:39] Cara, então, não vou estar no campeonato não, cara.
Eron Falbo: [24:44] Tá doido.
Fellipe Carvalho: [24:45] Eu tô velho. Tô aposentado.
Eron Falbo: [24:49] Não, cara.
Fellipe Carvalho: [24:50] Eu competi de wake bastante tempo, assim. Comecei... sei lá, desde 2010 eu participei... Não, eu parei em 2010, na verdade, eu competi uns 12 anos de wake e aí eu fui campeão... O meu melhor título foi campeão sul-americano, o melhor da América do Sul, em 2007, na categoria profissional, né? Foi uma carreira legal, assim, de sucesso, digamos, mas eu parei, hoje eu ando...
Eron Falbo: [25:26] É, porque isso aí tem um monte de coisa em volta, né? Que eu acho que muita gente não para pra pensar, mas, pô, tem mídia, né? Você tem umas experiências únicas, né? Que não são só o esporte, né? Tem a ver com exposição, né? Com entrevistas...
Fellipe Carvalho: [25:43] Não, sim, sim, sim. É, eu era atleta, né, cara? Assim, eu tinha que ter sucesso no esporte, ganhar campeonato e aparecer, né? Então assim, eu vivia dessa... Assim, eu ganhava dinheiro, né, e tudo, eu era tanto profissional, então eu vivia dessa exposição. Tinha patrocínio, então eu tinha uma questão de imagem, tinha um monte de coisa. Mas assim, se eu pudesse voltar atrás, cara, eu teria feito muita coisa diferente, assim, porque eu virei profissional com 13, 14 anos, cara, eu era muito novo. E, cara, eu fiz muita besteira em negociação com patrocínio, sabe? Eu fico pensando assim, cara, nem que me passou pra trás.
Eron Falbo: [26:29] Claro, é muito normal, cara.
Fellipe Carvalho: [26:31] Era muito novo.
Eron Falbo: [26:32] O atleta, o artista, ele é usado, né? Eu já fui músico aí durante um bom tempo e esse é o processo da indústria. Tem um monte de velho barrigudo que se aproveita da inocência.
Fellipe Carvalho: [26:49] Exatamente. Me faltou, digamos, uma pessoa mais velha e tal pra mim, me empresariar e me orientar.
Eron Falbo: [26:57] Bateu ferro. E tanto que o Ronaldinho Gaúcho foi preso por falsificar o passaporte. Aí não sei se é muito grande. Ele já, depois de anos e anos já nessa indústria, ele não tinha aprendido.
Fellipe Carvalho: [27:12] Passaporte, cara. Eu não gosto desse, né? Pelo amor de Deus.
Eron Falbo: [27:19] Mas, cara, conta um pouquinho sobre essa experiência, tipo, de mídia, de entrevista, o que isso causa no ego. Eu acho que você vai ter uma boa experiência, tipo, uma boa história pra contar sobre isso.
Fellipe Carvalho: [27:31] É, foi. Não, realmente, cara, eu vou te falar que, começando do final, assim, foi um momento em que... Realmente, é muito louco, cara. Você, tipo assim, tem um momento em que você... Eu acho que todos nós estamos nessa luta um pouco de entender de fato quem a gente é, e de discriminar quem você é e quais são as máscaras que você tem que vestir. Você tem que usar de vez em quando a máscara do profissional, a máscara da pessoa da família. E, cara, quando você tem uma questão da imagem que você tem que usar, você se perde um pouco. Aí, cara, é mais difícil, se perde nessa, tipo assim, qual é, quem é o Fellipe, quem é o atleta, sabe? E eu, com esse processo de autoconhecimento, de auto-observação e tal, me peguei um pouco assim, no final, e falei: cara, eu preciso me entender aqui. E é nessa que nego se perde assim, sabe? Que nego famoso, né? Eu não era famoso, né? Relativamente, dentro do meio só.
Eron Falbo: [28:34] Dentro do nicho do esporte.
Fellipe Carvalho: [28:37] Exatamente, dentro do nicho, né? Assim, de repente, localmente, meio que fora também, enfim, mas não era pra andar na rua.
Eron Falbo: [28:47] Eu digo isso para você e para todo mundo que está assistindo: cara, às vezes dentro do nicho você tem uma fama muito mais fervorosa, tipo assim, eu sei disso estudando a indústria musical, que eu sou formado em music business, você vê que os fãs de pequenos nichos são muito dedicados, né? Tipo assim, se você é fã de Taylor Swift, você troca muito rápido entre Beyoncé e Taylor Swift. Agora, se você é fã de um cara de wakeboarding, porra, é um grupo pequeno de pessoas relativamente, comparado com futebol, entendeu?
Fellipe Carvalho: [29:27] Isso é verdade.
Eron Falbo: [29:28] Então as pessoas são muito mais dedicadas.
Fellipe Carvalho: [29:30] É verdade. Não, e faz sentido o que você tá falando. Então assim, eu vestia a máscara do atleta, principalmente dentro de campeonato, ou lugares, festas e tal. Aí eu fico imaginando pessoas que são famosas mesmo, assim, cara. Bicho, e eu conheço algumas, bicho, é muito... Nego se perde nessa loucura de fama, sabe? Tipo, você não sabe mais quem é você, você não sabe mais o que é máscara, o que é fama, isso aqui, e aí nego vai se perdendo, sabe? Aí começa a beber demais, aí começa a arrumar amortecedores, porque você está desconectado. E foi um amigo meu que uma vez me deu um toque. Falou: "Cara, você fica meio esquisito no campeonato de away. Por que você fica assim?" Eu era muito novo. Quando ele me falou isso, eu tinha 17, 18 anos. Mas me caiu a ficha. Eu não estou sendo em público o que eu sou no privado, e não tô sendo no privado o que eu sou no público, sabe? Tá faltando uma integridade.
Eron Falbo: [30:39] Tá desintegrado.
Fellipe Carvalho: [30:39] Tô desintegrado, exatamente. E aí, tipo, caiu uma ficha, assim. Eu comecei a me observar mais, e eu acho que isso me fez muito bem, inclusive pra competir, cara, pros campeonatos, sabe? Me colocou na presença. Porque, cara, tem uma coisa: quando você tá participando de campeonato, você pega o Romário, cara. O Romário é um cara... É o que a gente chamaria no wake de campeonateiro, sabe? Ele é muito bom em campeonato. Ele é frio, cara. Ele nasceu pra aquilo, pra estar dentro da área, receber a bola e meter pra dentro do gol, sabe?
Eron Falbo: [31:12] Ele entra apreendendo.
Fellipe Carvalho: [31:14] Ele entra. Tem gente que entra ali, cara, tá super bem treinado. Isso aconteceu comigo até esse momento, até uns outros momentos. Depois disso, eu busquei psicólogo esportivo, comecei a ler psicologia esportiva. Percebi uma fragmentação da minha cabeça, percebi que eu tava querendo ganhar demais e com medo de perder, medo de perder o Otávio, digamos. E, cara, não é isso. O negócio é confiança, autoconfiança, é presença.
Eron Falbo: [31:38] Pô, eu sei fazer o negócio. E eu digo assim, cara, na minha opinião, quem... Os melhores, nem sempre, mas os melhores dos melhores, o 0,1%, os gênios dos esportes, das artes e tudo mais, são as pessoas que conseguem transcender a desintegralidade, essa tensão que sempre existe, e ele consegue ultrapassar a tensão e ficar totalmente presente. Eu, por exemplo, saí da música, saí da minha carreira musical porque eu percebi que eu não estava, na época pelo menos, conseguindo ganhar disso, sabe? Eu percebi que estava tendo aquela batalha e eu percebi que eu estava perdendo sempre, entendeu? E eu falei: cara, preciso sair. Eu saí fora do mundo da música, apesar de ter uma crescente boa com a Universal Music, com contratos bons, turnê e não sei o quê. Porque, pra mim, cara, você fazer isso com essa tensão e perder não vale nada. Não vale a pena pra você e pro mundo, né? Eu vi uma...
Fellipe Carvalho: [32:52] Exatamente.
Eron Falbo: [32:53] Uma citação do Alan Moore, né? Sabe o Alan Moore, escritor de comics? Que escreveu Watchmen e V de Vingança. Escreveu um dos melhores gibis da história, pra quem conhece essas coisas. Ele fala isso, que ele se arrepende muito de tudo que ele escreveu que não foi totalmente integrado, autêntico, que assombra ele até hoje, sabe? Aí eu falei: cara, isso...
Fellipe Carvalho: [33:19] Exatamente isso, e tem gente que tem estômago pra isso, cara. E tem gente que, na verdade, não sei se tem estômago, mas pelo menos consegue arrumar subterfúgios que a gente falou: a bebida, a depressão, ansiedade, droga e tal. A galera cria esses subterfúgios para aprender a lidar com isso, com essa desintegração, porque realmente eu acho insuportável. É insuportável você não fazer uma coisa do coração, não fazer uma coisa de dentro que te preenche. O esporte tem um pouco menos disso do que as artes em geral, ou as outras artes, se você entende que esporte é uma arte. Porque eu acho que... não sei dizer, cara. Mas eu acho que tem uma coisa de genialidade, né?
Eron Falbo: [34:10] Cara, mas eu não concordo com você, não. Porque, cara, esporte eu acho que tem a mesma coisa. Eu acho que... Porque você sabe que a arte, do grego antigo, que é de onde deriva a palavra arte, antigamente não era nesse contexto de certas artes, tipo escultura, pintura, etc. Não era assim. Arte era um skill, uma técnica que você aprendeu. Então eu acho que tudo que é uma técnica existe, sim, essa separação entre a autenticidade, entre você estar presente mesmo e você não estar presente. Porque se você tá performando num palco, se você tá pintando um quadro, tem sempre o momento da execução da arte. E o fato de que hoje em dia o esporte, por exemplo, fica na televisão, fica no vídeo, entendeu? Então é praticamente uma performance pra mim.
Fellipe Carvalho: [35:06] Tem uma estética.
Eron Falbo: [35:09] Entendeu? Pra mim é equivalente. Ou você tá presente ou você não tá. Vai ser bonito, vai tocar as pessoas, vai se conectar com as pessoas se você tiver sendo atento. E vai afastar as pessoas se você não tiver.
Fellipe Carvalho: [35:22] Não, você tem razão. Esporte é uma coisa de estética importante. Ainda mais esporte de prancha, que tem essa cultura dos esportes de prancha, você aliar estética com isso. It's not what you do, but how you do it. Tem essa coisa. Você pode fazer uma coisa super simples, mas tem que fazer ela bonita. Mas eu não sei, eu não estou conseguindo expressar a minha ideia. Eu não sei se... Sabe que tem aquela coisa da arte do dom maldito, sabe, do talento maldito, que a pessoa tem o talento, não consegue fugir dele, mas não gosta do talento que tem. Mas não sei explicar, o esporte não tem isso. Às vezes você tem o talento, mas tem como fugir dele. Às vezes você nunca põe uma prancha de wake no pé e você não vai nem saber. Sabe?
Eron Falbo: [36:07] Eu não sei, eu não sei. Talvez porque você se desenvolveu muito no esporte e você, talvez, gostaria de ter se desenvolvido um pouco mais na arte, não sei. Porque eu sinto, tudo que você tá falando, eu sinto, eu vejo isso no esporte. Tipo, eu vejo gente que... Porra, eu tava vendo uma entrevista com uma âncora de TV famosa, esqueci o nome dela, tava fazendo um curso dela, na verdade, sobre comunicação, e ela falou que ela era jogadora de basquete e é frustrada. E ela falou junto do que você tá falando, que ficou uma coisa assim, acompanhando a vida dela o tempo todo, que ela nunca foi jogadora de basquete. Ela acabou tirando um cruz-tevê e tudo mais, e super bem-sucedida, né? Mas existe isso. De repente, como você... Tipo assim, muita gente me fala que existe genialidade na música, né? Tipo assim, pô... Você faz o que você faz porque você nasceu com dom. E eu falo: porra nenhuma, eu treinei pra caramba. E eu comecei a ser muito ruim.
Fellipe Carvalho: [37:15] É aquela grande coisa. O gênio, eu entendo que o gênio alia a disciplina com o talento. Enfim, tem gente que tem só talento e tem gente que tem só disciplina. Os dois vão ser muito bons, mas gênio mesmo, assim, eu entendo, posso estar errado, mas falaram, tipo, o Vinícius de Moraes, né, cara, o João Cabral de Melo Neto, eu que sou, a minha, meu proveito estético, ele certamente é na literatura, principalmente, assim, apesar de que eu me amarro em música, cinema e tudo, mas na literatura em geral. Então o João Cabral de Melo Neto... Eu tenho um cantinho aqui em casa, cara. Eu comecei a brigar com o outro aqui. Mas o João Cabral de Melo Neto falou para o Vinícius de Moraes isso, falou assim: "Cara, se juntasse a minha disciplina com o seu talento, a gente teria um grande poeta no Brasil." E é isso, né? O Vinícius de Moraes era um cara talentosíssimo, mas era boêmio, né, cara?
Eron Falbo: [38:29] Mas tem que ter uma certa... Eu entendo o que ele tá falando, mas acho que isso é aqueles vícios da sociedade. Ele tá usando uma linguagem aceitável. Todo mundo que escuta isso aí entende exatamente o que ele tá falando. Mas a ideia do vivo total é começar a transcender essas definições. Então, é tipo... existe talento no esporte e disciplina na arte. O Vinícius de Moraes tinha uma disciplina que o outro... esqueci o nome, não sei o que você falou.
Fellipe Carvalho: [38:58] João Cabral de Melo Neto.
Eron Falbo: [39:00] Que talvez ele tinha... Ele não era do esporte, né? Eu não conheço.
Fellipe Carvalho: [39:06] O João Cabral de Melo Neto foi um poeta que... Morte e Vida Severina.
Eron Falbo: [39:11] Ah, tá. Então foram os dois da arte.
Fellipe Carvalho: [39:13] Os dois da arte.
Eron Falbo: [39:14] Ah, entendi. Mas mesmo assim, você pode dizer que o Vinícius de Moraes podia ter uma disciplina de outra maneira, uma disciplina sobre ser honesto, entregar, conseguir, no momento que ele tá escrevendo, estar mais presente, e o João Cabral de Melo Neto, tá certo?
Fellipe Carvalho: [39:41] É isso mesmo.
Eron Falbo: [39:42] E, obviamente, não pode dizer que ele não tem talento, senão ele não é esse cara...
Fellipe Carvalho: [39:48] Sim, sim. É, ele...
Eron Falbo: [40:08] Então vamos tentar entrar aí no Tolstói político, acho que eu botei uma pergunta aqui.
Fellipe Carvalho: [40:24] Tem tudo a ver, Tolstói político.
Eron Falbo: [40:26] É, com certeza. Agora quero ver, que isso aí vai dar pano pra manga, que vai abrir a caixa de Pandora.
Fellipe Carvalho: [40:33] Já até sei o que que é.
Eron Falbo: [40:35] Mas vamos lá. Vamos começar com isso aqui, que já é polêmico pra caramba. Como você acha que Tolstói inspirou o bolchevismo?
Fellipe Carvalho: [40:47] Cara, acho que não influenciou, não.
Eron Falbo: [40:51] Não?
Fellipe Carvalho: [40:52] Eu acho que nem um pouco, na verdade. Nem um pouco.
Eron Falbo: [40:56] Bom, tá bom, eu vou dar meu...
Fellipe Carvalho: [40:58] Argumento, mas... Cara, o bolchevismo, eu entendo que ele foi muito mais influenciado pelo Tchernichévski. Cara, o livro do Tchernichévski, um livro que chama O Que Fazer, é o livro mais revolucionário, mais louco que existe. O Tolstói, cara, ele era radical pra caralho, mas ele era radical pra caramba na não violência, né? Ele era híper, mega não violento. Então, o bolchevismo, cara, ele tava longe de ser não violento, né? O Tolstói escreveu um livro chamado O Reino de Deus Está em Vós. O Tolstói teve uma iluminação, uma epifania religiosa, né, cara? Ele parou de escrever literatura e começou a escrever livros políticos. Só que a grande política dele era do pacifismo, era radicalmente pacifista.
Eron Falbo: [41:50] Ele tinha uma seita, a galera morava na casa dele.
Fellipe Carvalho: [41:54] Não, ele não. Isso aconteceu depois dele, com os discípulos.
Eron Falbo: [41:58] Eu sei, mas durante a vida dele já tinha alguma coisa, já existiam seguidores, a galera tratava ele como um grande guru.
Fellipe Carvalho: [42:07] Honestamente.
Eron Falbo: [42:08] Eu não tô falando que ele queria isso, eu não tô falando que ele comentou isso.
Fellipe Carvalho: [42:12] Não, quer dizer, honestamente eu não conheço, já li algumas biografias dele, não conheço essa parte. Eu sei que existiam pessoas que veneravam ele, mas não assim, não como uma seita. Alguns discípulos, os primeiros discípulos dele.
Eron Falbo: [42:25] Tô brincando, sei lá.
Fellipe Carvalho: [42:28] Mas ele era radicalmente pacifista, cara. Inclusive, ele fala que nem pra defesa.
Eron Falbo: [42:36] Pessoal, você tá falando desse ponto do bolchevismo. Eu tô falando de outros pontos. Por exemplo, o jorgismo de Henry George, que é essa coisa de tudo que é natural, recursos naturais... O Tolstói adotou isso no final da vida, né? Ele acreditava que tudo que era recurso natural e tudo mais tinha que ser igualmente dividido. Os lucros advindos desse tipo de coisa tinham que ser igualmente divididos entre a população que era proprietária daquela coisa. Isso, para mim, é uma ideia totalmente bolchevista. É uma ideia...
Fellipe Carvalho: [43:15] Não, então, eu discordo, porque isso é um tipo de socialismo, mas... vamos lá. Ele não acreditava em propriedade privada, isso é verdade. E eu discordo dele...
Eron Falbo: [43:27] Não, propriedade natural privada. Ele acreditava em propriedade privada em termos do que o homem criou. Então, se você construiu em cima, dentro do... Tipo assim, você tem uma terra, você não pode cobrar o aluguel da terra em si. Você tem que dividir. Mas sobre o prédio que você construiu, você não precisa dividir, é uma melhoria daquela terra.
Fellipe Carvalho: [43:50] Sim, sim. Então, vamos lá: o bolchevismo é marxista, certo? E o Marx não é porque... Digamos, o Tolstói tinha um tipo de socialismo. Ele era socialista de uma determinada forma, mas nem todo socialista é marxista. Total, total. Então, por exemplo, eu entendo que é um socialismo mais profundo, assim, o do Tolstói, sabe? Que é um socialismo meio radical, mas não é marxista. O bolchevismo eu entendo que é marxista.
Eron Falbo: [44:20] Por quê?
Fellipe Carvalho: [44:21] Por que é marxista? O marxismo é uma teoria de relações de trabalho, primariamente, fundamentalmente falando. O socialismo marxista é um socialismo que quer, na verdade, regular as relações de trabalho, e não necessariamente a propriedade privada, não necessariamente o Estado, e não necessariamente a produção econômica, na verdade. Para o marxismo, a produção econômica era uma coisa boa.
Eron Falbo: [44:49] Então, mas eu concordo com você totalmente. Eu não tô falando que o Tolstói é, vamos dizer, um sine qua non do bolchevista. Eu só tô falando que o solo que ele deixou na Rússia, entendeu? O realismo que ele trouxe, por exemplo, na literatura, que foi em contrapartida com o romantismo, talvez, literário, entendeu? O socialismo das ideias dele também, o pacifismo que é usado... Apesar do bolchevismo não ser pacifista, eles muitas vezes sequestram as ideias pacifistas para usar como demagogia, para acusar as classes mais ricas de violência contra a nossa governadora.
Fellipe Carvalho: [45:43] Sim, sim.
Eron Falbo: [45:44] E coisas desse tipo.
Fellipe Carvalho: [45:45] Esse era um solo da Rússia mesmo. Existiam ideias revolucionárias na Rússia muito fortes, mas, como eu disse, o Tolstói era talvez um deles. Sim, sim, mas, pô, o Chernyshev... E esse realismo literário, cara, era uma coisa muito forte, muito forte, apesar do Tolstói. O próprio Dostoyevsky, o Turgenev, um cara que escreveu um livro, alguns livros, na verdade, importantes, meio revolucionários também. O Turgenev é mais uma coisa mais milista, talvez, mas era uma coisa que estava acontecendo. Aquela monarquia, especificamente aquela da Rússia, até por ser completamente absolutista e completamente anti-reformista, exagerada, né? Isso promove, cara, revolucionarismo, digamos. Então, assim, existem vários fatores, assim, eu não acho que...
Eron Falbo: [46:49] Eu só joguei isso pra gerar essa discussão, né? É que eu sabia que ninguém fala isso, é raro falarem isso, e foi um insight que eu tive, e achei que ia gerar essa discussão. Então, deu certo.
Fellipe Carvalho: [47:05] O Lenin leu o Tchernichevsky com muito vigor. Ele andava com o livro do Tchernichevsky na mão, muito mais do que com Marx, inclusive.
Eron Falbo: [47:17] Então vamos dar doce de Dânia para esse assunto e vamos para outro, menos polêmico, talvez. Acho que a gente já cobriu o Tolstói um pouquinho. Vamos falar sobre o Brasil, cara. Olha, outro assunto polêmico.
Fellipe Carvalho: [47:35] É, menos polêmico.
Eron Falbo: [47:37] Você acha que o Brasil precisa de um Martin Luther King gigante?
Fellipe Carvalho: [47:41] Cara, eu não acho que o Brasil precisa, não. Eu acho que o mundo precisa. Todo mundo precisa, cara. Eu acho que precisa de um Martin Luther King em cada bairro desse mundo, velho. Sério, a gente precisa aprender a resolver conflitos de forma pacífica, cara, não passiva. Os dois são completamente combativos, né? A gente precisa de gente combativa, mas pacifista, cara. A gente precisa de gente lá na presidência, ou pra lidar com a presidência, combatendo, mas sendo pacifista. Não é falar em arma, não é falar em... Ah, vamos armar a população. Ah, vamos invadir o Congresso. Ah, não, vamos pegar os bolsonaristas e vamos fazer não sei o quê com os bolsonaristas. Velho, nada disso. Bicho, isso é... A gente tá voltando pra idade média, cara.
Eron Falbo: [48:24] Apesar de eu acreditar que certas pautas são certas, eu concordo com você no sentimento, né? Eu acredito que esse sentimento precisa ser prioridade, né? Precisa ser prioridade número um pra gente poder transcender a coisa do barbarismo básico, do começo da pirâmide de Maslow, pra gente poder ir pra...
Fellipe Carvalho: [48:47] É, exato. Não, e eu concordo plenamente com você, cara. É exatamente por isso que eu não sou marxista, exatamente por isso que eu não sou socialista. Quer dizer, hoje em dia é aquela coisa, essa polarização, né? Você é de esquerda? Ah, você é socialista, é comunista. Você é de direita? Você é fascista. Cara, existem esquerdas e direitas, né? Então, assim, eu falo: eu sou de esquerda. Falo: você é socialista? Não, cara, eu não sou socialista, exatamente pelo que você falou. Porque o marxismo acredita, e o socialismo marxista acredita, no materialismo dialético: tudo muda pela mudança econômica, pela mudança material, primeiro, e depois a mudança cultural acontece. Eu sou o contrário, eu sou exatamente o contrário: eu acredito primeiro na mudança cultural, cara. A gente criar esse sentimento de que tá todo mundo no mesmo barco, de pacifismo. Beleza, a gente tem discordâncias políticas, e isso é o que faz a política ser política, inclusive. O dissenso faz a política ser política, entendeu? Porque o consenso não é política, o consenso é a polícia, né? Então, beleza...
Eron Falbo: [49:52] Eu costumo dizer, cara, que eu sou assimista. Esquerda ou direita, eu gosto do lugar de cima, que em outras palavras é isentão. Mas, sinceramente, é por isso que eu sou monarquista. Você sabe que eu sou monarquista. E a razão que eu sou monarquista é porque eu acredito em monarquia parlamentarista e constitucionalista, o que significa que é uma instituição que serve pra fincar, como se fosse um monumento, e garantir que sempre há esquerda e direita pacífica dentro do governo, entendeu? Porque existe um chefe de estado que é como se fosse o comentário fixo, que eu deixei aqui, o Viva Total com o Fellipe Carvalho, é o comentário fixo. Os outros comentários são flutuantes. Você tem lá uma coisa explicada, enquanto a esquerda e a direita ficam girando.
Fellipe Carvalho: [50:53] É uma legitimação pela tradição, né? Existe uma legitimação aí, né? É, eu acredito que é legitimação de outras formas: é pela lei, né? Pela Constituição.
Eron Falbo: [51:03] Não, mas a Constituição tá lá, também é uma legitimação. É só porque o povo tem uma história em comum. Então, como o povo tem uma história em comum, ele perde essa história em comum se o líder dele não tiver advindo daquela história. Tanto que você é um mestre aí em Proclamação da República, você sabe que, depois da Proclamação da República do Brasil, houve fortes tentativas de se desconectar da história do Brasil imperial. Durante esses últimos 100 anos da história republicana brasileira, a gente quase que se desconectou. As pessoas normais com quem eu converso na rua até acham que o Brasil ainda não era independente antes da República.
Fellipe Carvalho: [51:50] Mas eu concordo com o pressuposto, com a afirmação, mas não concordo com a causa. Existe uma desconexão com a história, mas eu não acho que seja por causa dessa legitimação. Eu acho que foi pela forma de colonização. Cara, não existia... No Brasil, até a vinda da família real pra cá, era proibido imprimir livro. Então, a nossa educação é nula. E se não existe educação, não existe realmente uma formação de povo nossa, como brasileiro, de uma forma civilizada (não é uma boa palavra), mas uma formação de povo que promovesse a construção de uma sociedade, um contrato social.
Eron Falbo: [52:38] Eu concordo com isso também.
Fellipe Carvalho: [52:41] A construção de povo foi feita de uma forma muito... Trazendo gente daqui, escravidão. Ah, ele não tem livro, ele não tem não sei o quê.
Eron Falbo: [52:49] Cara, eu tô com você nisso até certo ponto, eu não conheço essa coisa do livro e pra mim é contraditório com outras coisas que eu conheço sobre a época do Império. Mas isso aí tem que... Eu pessoalmente não conheço tanto...
Fellipe Carvalho: [53:05] Não, é pré-império, né?
Eron Falbo: [53:08] Ah, pré-império, tá bom. Você tá falando quando o Dom João VI veio.
Fellipe Carvalho: [53:13] Exatamente. Porque quando ele veio, cara, ele tinha que promover... dar um impacto civilizatório, porque ele tava aqui, era a casa dele, mas até lá, cara, não tinha banco, não tinha, pô, religiões... Ah, sim, sim.
Eron Falbo: [53:27] Tá bom, mas eu tô falando do Império. Eu também gosto muito do Dom João VI, mas o meu argumento era Brasil independente, né?
Fellipe Carvalho: [53:39] É então.
Eron Falbo: [53:41] Depois de 22.
Fellipe Carvalho: [53:44] No Império, principalmente no segundo reinado, existia uma tentativa, na verdade, de criação de um imaginário brasileiro através do romantismo e tal. É que não funcionou, né, cara, na verdade. Porque tava tentando criar uma coisa através da arte.
Eron Falbo: [54:02] Cara, eu não acho que não funcionou. Eu acho assim, que também nos Estados Unidos isso tava sendo criado, né, depois da Guerra Civil e tudo mais. Eles queriam, eles tinham que criar uma coisa unificada americana e tudo mais. Isso aí era muito normal em colônias, no geral. Nessa época, no século XIX, tá sendo criado ativamente essa coisa. Eu acho que olhando o que foi a República, isso a gente sabe. A República conscientemente estava tentando diminuir a importância da monarquia justa para poder legitimar, porque foi um golpe militar. Em qualquer golpe militar isso é feito. Você tira lá Khrushchev derrubando a estátua de Stalin. E colocando... Aqui no Brasil foi feita essa tentativa. Você vai lá na Praça Tiradentes, aqui no Rio, no centro, e tem lá a estátua de Dom Pedro I. Então isso é muito engraçado, porque eles tentaram derrubar a estátua, só que o povo era monarquista.
Fellipe Carvalho: [55:05] Sim, mas veja, cara, a época moderna é marcada por revoluções liberais. Em todos os países modernos, todos, inclusive a Inglaterra, que é uma monarquia, teve uma Revolução Liberal, né, cara? Que é da Carta Magna, etc. E a Revolução Francesa foi uma derrubada...
Eron Falbo: [55:27] Eu sou fã disso, é importante, eu sou democratista, né?
Fellipe Carvalho: [55:31] Então, você vê, a Revolução Americana, todas essas revoluções tiveram derrubadas, né? A Proclamação da República foi uma tentativa de Revolução Liberal. Que por causa da história, porque não tinha nenhum estofo civilizatório, etc. Não funcionou assim, no sentido que a...
Eron Falbo: [55:48] Gente entende... Cara, falta 30 segundos aí, vai acabar aí, então desculpa interromper, mas queria só te agradecer pela presença aí, por ter aceitado o convite. Valeu mesmo, cara.
Fellipe Carvalho: [56:00] Tranquilo, eu sabia que não ia dar tempo, cara.
Eron Falbo: [56:02] Foi mal, cara.
Fellipe Carvalho: [56:04] Depois a gente continua.
Eron Falbo: [56:06] Valeu, Fellipe. Valeu, Guilherme. Um abração, cara. A gente se encontra de novo aí.
Fellipe Carvalho: [56:10] Beleza, fechou.
Eron Falbo: [56:11] Um abraço, tchau, tchau.
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