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#12 As metáforas da natureza

com Felipe Caltabiano · 4 de ago de 2020

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Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Introdução e a banda de rock (0:00)

Eron Falbo: [0:05] Boa noite, boa noite, sejam bem-vindos a um Viva Total com o Felipe Caltabiano.

Felipe Caltabiano: [0:11] Meu nome é Felipe, eu moro em Lençóis, Bahia, Chapada Diamantina, nada mal. A gente vai fumar um charuto, né?

Eron Falbo: [0:22] Eu trouxe aqui.

Felipe Caltabiano: [0:25] Bom, eu cresci, como muitos brasilienses, cresci na Asa Sul, playboy do Plano, famoso, atravessando o eixão, e conheci o Eron, sei lá, no século 19, mais ou menos. Quer dizer, quando eu tinha 19 anos. E a gente, um pouco antes, uns 16, 15, alguma coisa assim. A gente teve banda junto, né? Formamos, tentamos ser estrela do rock. E, por uns anos, viajamos nos cruzeiros juntos.

Eron Falbo: [1:03] Então, mais ou menos, né, pô?

Felipe Caltabiano: [1:05] A gente foi, né?

Eron Falbo: [1:07] Pô, a galera tirava foto com a gente, acho que esse é o... esse é o Marco.

Felipe Caltabiano: [1:14] Deixa eu abrir aqui a janela pra não esfumaçar a minha casa. Mas, bom, então naquela época a gente tava... Eu tinha uns 18, 19 anos, a gente tinha banda junto, foi meu primeiro empreendimento profissional, sério. Os Julianos.

Eron Falbo: [1:38] Sério, mais ou menos.

Felipe Caltabiano: [1:40] Pô, foi super sério. E a gente... Essas pessoas veem as roupas que a gente usava e não era muito sério.

Eron Falbo: [1:51] A gente tinha uma roupa dourada, que era toda dourada.

Felipe Caltabiano: [1:55] Não, mas essa história da banda é muito importante pra como eu cheguei aqui hoje, né? Mas vamos por partes. Então, a gente teve a banda, né? A história vai um pouco antes, né? Eu ia me tornar militar, eu tava pronto pra entrar, tinha carreira militar, eu ia entrar pro exército. Eu fiz as provas pra entrar na escola de cadetes, passei nas provas e tudo, tudo certinho. Na última hora, quando saiu o resultado, que eu tava sendo chamado pra ir pra lá, aí eu decidi não ir. A gente tava morando junto no apartamento na época, pra gente poder tentar o lance da banda, pra gente poder levar a banda à frente, senão eu ia ter que sair. E aí eu joguei tudo pra fora, né. Hoje eu seria, tipo assim, major do exército ou piloto de caça, um dos dois. Tá me ouvindo? Parece que o vídeo parou.

Carreira militar trocada pela banda (2:07)

Eron Falbo: [2:57] Não, cara. Tá parado pra você? Tá todo mundo ouvindo? Eu tô ouvindo você bem, cara. Tá todo mundo ouvindo bem? Seja bem-vindo, Daniel Caltabiano, que não tem nada a ver com Felipe Caltabiano, só com pura coincidência.

Felipe Caltabiano: [3:13] Bom, aí não fui, né? Desisti, joguei por água abaixo a carreira militar, ficamos com a banda, aí essa banda continuou uns três, quatro anos, né? E aí depois, numa nova mudança, né, nova decisão de vida, eu decidi largar a música e virar jogador de pôquer profissional, junto com esse Dani Caltabiano aí, que tá aí no chat.

Anos como jogador de pôquer profissional (3:39)

Eron Falbo: [3:39] Essa coincidência, né, hein? A história tem o mesmo sobrenome como...

Felipe Caltabiano: [3:43] Seguimos essa carreira de pôquer, como também foi jogador de pôquer, e a gente morou no mesmo apartamento por muito tempo. Só falta dizer que a gente nasceu da mesma mãe. Mas aí, coincidência demais. E aí... Pô, fomos jogadores de pôquer profissional por um ano e meio. Foi o segundo empreendimento sério que eu tive.

Eron Falbo: [4:06] Fiz charuto, pô. Acende o charuto aí, Dani.

Felipe Caltabiano: [4:09] É profissional, irmão. Charuto, cervejinha. Então, fui jogador de pôquer por um ano e meio, dois anos quase, até quando o pôquer me deu um tapa na cara. E aí eu tive que lembrar da época da banda, quando eu tava deixando o Marlon em casa depois do ensaio. O Marlon, pra quem não sabe, era o nosso baterista.

Eron Falbo: [4:34] E mascote.

Felipe Caltabiano: [4:34] O melhor de nós. E mascote. Ele continua sendo o mascote. Aí, na verdade, o Marlon... A história foi que uma vez eu tava deixando ele em casa depois do ensaio, né? E aí, aquele... Típica coisa Marlon, né, cara? Ele, tipo, tava saindo do carro, aí ele virou... Tem uma parada que você vai gostar, chama permacultura, e saiu. Foi embora, sem falar mais nada, sacou? Beleza. E três anos depois, eu tava meio deprê com jogar pôquer e tal, porque você só ganha muito dinheiro, mas você não tá construindo nada, né? Não é muito significativo.

Crise existencial e conselho do Marlon (4:56)

Eron Falbo: [5:22] Pô, você construiu uma pilha de dinheiro, porra. O que isso tem de ruim?

Felipe Caltabiano: [5:28] Não tem nada de ruim, só que na hora eu senti que eu queria fazer uma parada que eu tivesse um resultado construtivo na minha volta, sabe? Porque não faz isso, você tá fornecendo entretenimento pras pessoas em troca de dinheiro, basicamente, no final das contas, é isso. E aí, nessa época, né, que eu tava meio pra baixo e tal, eu lembrei do que o Marlon tinha falado, sabe, o Marlon, há três anos atrás, de falar tal, permacultura. Eu fui dar uma pesquisada nessa parada, descobri tal, achei massa, não sei o que, tal, li os livros, saí para viajar, fiquei um mês viajando pelo Brasil, indo pra Cachoeira e andando... É verdade, Daniel, seria muito mais prático.

Eron Falbo: [6:22] Continuou ganhando dinheiro, cultura.

Felipe Caltabiano: [6:25] E compra um Lego e constrói, é muito mais prático. Por que você não estava lá com essas ideias?

Eron Falbo: [6:32] Pô, ele estava lá com as ideias. Ele provavelmente falou que te deu essa ideia. Ele sempre teve as melhores ideias, cara.

Felipe Caltabiano: [6:41] É o melhor de nós. Enfim, aí saí na minha missão de me reconectar com a natureza e toda aquela balela. Fui para as cachoeiras, fui andar, né? Sei lá como é que chama, hiking, né? Caminhadas e tal.

Eron Falbo: [7:02] Cogu, ah, lá! Vizu, cogu, cachu.

Felipe Caltabiano: [7:09] Quase isso, quase isso. Fui com o Ed, inclusive, né, nessa viagem. Essa viagem foi... Cadê o Ed? Chama o Ed, pô.

Eron Falbo: [7:15] É, cadê o Ed, pô? Ô, alguém chama o Ed aí. Daniel, chama o Ed. E aí...

Felipe Caltabiano: [7:22] Ricardo... Drogas é o Gás?

Eron Falbo: [7:27] É, ele não é Drogas, o Ricardo Gás... Hiking, o Gás está num projeto de hiking, já faz três anos que ele tá pesquisando no YouTube. Ele ainda não saiu do YouTube.

Felipe Caltabiano: [7:41] Já conseguiu descobrir o que é, cara? Isso, eu levei o Gás pra cachoeira aqui em Lençóis, né, cara? Porra.

Eron Falbo: [7:52] Continua falando aí que eu tô com um negócio sem fio aqui, vou pegar uma cerveja.

Felipe Caltabiano: [7:56] Tá, eu também tô com um negócio sem fio aqui. Onde é que eu tava mesmo?

Eron Falbo: [8:03] Você tava na Bahia, cara.

Felipe Caltabiano: [8:07] Não, não, eu tava viajando. Aí, beleza, eu saí numa viagem com o Ed, né? Tem até uma história engraçada essa viagem, depois eu posso contar. Coisas que só acontecem em Minas Gerais. Ah, enfim, saí, fui Serra da Canastra, São Paulo, não sei o quê. Enfim, fui fazer essa viagem, voltei para Brasília e decidi que eu queria aprender mais sobre essa tal de permacultura, não sei o quê. Aí fui atrás de fazer uns cursos. Dentro da permacultura eu descobri essa tal da agrofloresta, que é com o que eu trabalho hoje. E eu lembro que quando eu fiz esse curso de agrofloresta, em agosto, setembro, sei lá, de 2010, eu saí do curso decidido que eu queria fazer aquilo, né? Falei, não, é isso aqui que eu quero fazer. E aí, no mês seguinte, eu larguei o pôquer. E fui me dedicar, né, 100% a isso. Mas o pôquer foi um marco muito grande na minha vida, tanto porque a minha espiritualidade é baseada no pôquer, basicamente.

Decisão de virar agrofloresta (8:27)

Eron Falbo: [9:14] E...

Felipe Caltabiano: [9:15] Eu juntei dinheiro para poder passar os próximos dois anos estudando permacultura, saindo, dando rolê, trabalhando de graça nas fazendas, essas paradas. E aí, depois eu consegui uma terra lá em Planaltina, onde sempre que eu escuto...

Eron Falbo: [9:39] Uma coisa que é um parênteses rápido: eu conheci o Ed... O Ed da história dele é um parênteses, falei parente.

Amizade com Ed e mudança para a Chapada (9:48)

Felipe Caltabiano: [9:49] É... O Ed é o nosso guru.

Eron Falbo: [9:54] É, então, aí eu conheci o Ed quando eu tinha, porra, 15 anos, sei lá, a gente era de escolas rivais, aí a gente se conheceu porque os dois eram antissociais, então a gente virou amigo só porque todo mundo era rival. E o Ed, cara, eu levei ele lá em casa e minha mãe falou, cara, esse cara é má influência. Aí ela claramente falou, você estava bem, estava ganhando dinheiro, ele te levou para o mato. Ele te levou para um curso de agricultura.

Felipe Caltabiano: [10:28] E aqui estamos hoje, né, cara?

Eron Falbo: [10:30] Então assim, minha mãe sabe pra caramba.

Felipe Caltabiano: [10:35] Por que ela não me falou isso antes?

Eron Falbo: [10:38] Provavelmente ela falou, né?

Felipe Caltabiano: [10:41] Eu não escutei as pessoas na minha infância.

Eron Falbo: [10:48] Mas diz aí, continue aí. Desculpa aí, você estava... Como que você abandonou o pôquer e foi?

Felipe Caltabiano: [10:55] Foi isso aí. Decidi que eu ia fazer isso. Decidi, pronto, e aí fui. Aí fui trabalhar de voluntário nas fazendas. Eventualmente consegui minha terra lá em Planaltina. Depois eu decidi fazer um curso de agronomia. Fiquei oito anos... Quer dizer, sete anos em Brasília, e depois decidi me mudar para Chapada, trabalhando na fazenda de uma amiga, que é onde estou plantando hoje. E é isso. Hoje eu trabalho como produtor rural, também presto consultoria para pessoas que queiram trabalhar com agrofloresta e tenho alguns outros projetos aí rolando.

Eron Falbo: [11:39] O Ricardo Henrique de Montenegro Sima, que é um dos participantes que eu não conheço, tá dizendo... hashtag solo. Acho isso muito importante, porque realmente você sempre teve a manha aí de ser meio George Harrison, né? Sair aí pelo mundo sozinho, sem necessidade de uma parceria fixa. E eu sempre achei isso admirável, na verdade, que eu sempre viajei em gangues, né? Então, fala sobre isso. Como é que é essa parada de você ter a manha de ir sozinho, fazer as paradas e se mudar para um lugar, conhecer um lugar novo?

Personalidade e viajar sozinho (12:07)

Felipe Caltabiano: [12:26] Cara, eu acho, na verdade, que isso é muito uma coisa de solo, terra, animal.

Eron Falbo: [12:35] Porra, mas valeu a pergunta, e mesmo assim, podia ter tido sorte.

Felipe Caltabiano: [12:39] Tipo, o significado... Cara, eu acho que na verdade é muito uma questão de personalidade, né? Eu acho que isso é muito uma questão de personalidade, de traços, realmente, de personalidade de cada um. Acho que tem pessoas que conseguem com muito mais facilidade fazer as paradas sozinho. Não é uma coisa que, pra mim, é uma coisa que eu penso sobre, entendeu?

Eron Falbo: [13:06] Tá dizendo que tem gente que não é insegura, tipo... Tem gente que é de boa...

Felipe Caltabiano: [13:09] Não, mas não é necessariamente insegurança. Lógico que pode ser insegurança. Porque você pode tanto ter insegurança para ficar sozinho, para fazer alguma coisa sozinho, quanto você pode ter insegurança para fazer alguma coisa com as outras pessoas. Uma coisa, né? As duas existem, mas é questão de personalidade. Eu acho que tem muito uma questão de personalidade, né?

Eron Falbo: [13:32] De traço, de personalidade.

Felipe Caltabiano: [13:34] Você precisa dar um teste de personalidade.

Eron Falbo: [13:36] Mas uma das coisas que a gente está fazendo aqui é tentar tirar as pessoas da zona de conforto, fazer coisas que elas não fizeram antes. Você não acha que é possível a pessoa ser de um jeito e depois encontrar uma forma de se sobressair?

Felipe Caltabiano: [13:53] Com certeza. Eu, particularmente, acredito que cada um tem um cerne de personalidade. Não vamos entrar no de onde isso vem, se é uma parada espiritual, se é uma parada de quando era criança, cresceu e tal, mas acho que a gente tem a nossa conformação em um cerne. E, lógico, a gente pode explorar várias coisas fora desse cerne, a gente deve fazer isso para a gente crescer. Mas, ao mesmo tempo, acho importante a gente explorar ao máximo as nossas forças, as nossas maiores potencialidades, as nossas... Como fala? Eu acho que a gente tem que focar nas nossas, digamos assim, nas vantagens que a gente tem na vida, naquilo no qual a gente pode ser mais produtivo. Ao mesmo tempo que a gente vai explorando, digamos assim, as nossas fraquezas ou aquelas coisas que a gente se sente menos confortável de fazer. Eu acho que a gente tem que ir meio que jogando dos dois lados, sabe? Mas com certeza, eu acho que uma questão que talvez seja chave pra essa questão de fazer as coisas sozinho...

Eron Falbo: [15:19] Alô? Você parou de falar?

Felipe Caltabiano: [15:21] Eu tava só te imitando, cara, você não pegou a piada.

Eron Falbo: [15:25] Eu não peguei porque, pô, o texto tá na frente da sua cara aqui, eu não consigo te ver.

Felipe Caltabiano: [15:29] Pô, texto?

Eron Falbo: [15:31] É, pô, o Instagram é mal feito pra caramba, botou aqui, ao invés de te dar outro celular pra poder olhar o texto.

Felipe Caltabiano: [15:41] Mas você pode tirar essa parada. Tem um X aqui, ó. Mas fica alguma coisa ainda. Mas enfim, eu acho que entra muito numa questão de validação. As pessoas em geral ficam buscando validação nas pessoas à sua volta. E quando você vai fazer uma parada sozinha, você não necessariamente tem essa validação das pessoas. Então eu entendo que muitas vezes se questiona, né? Mas eu vou te dizer uma coisa.

Eron Falbo: [16:13] Faz sentido mesmo? Cara, eu vou te dizer uma coisa. Tipo assim, você falou que é questão de personalidade.

Felipe Caltabiano: [16:19] Mas me diz uma coisa aí, cara. Me diz uma coisa aí.

Eron Falbo: [16:21] Vou te dizer uma coisa, cara. Tô prestes a dizer uma coisa. Vai ser uma coisa inacreditável, que ninguém nunca ouviu antes.

Felipe Caltabiano: [16:25] Fala aí, cara.

Eron Falbo: [16:26] Três, dois, um...

Felipe Caltabiano: [16:28] Calma aí. Por que você não me diz uma coisa?

Eron Falbo: [16:32] Cara, eu botei essa roupa aqui por causa de você, cara, pra mostrar natureza. Você viu que temático a parada aqui? Você sentiu a mensagem subliminar?

Felipe Caltabiano: [16:44] Eu senti porque sua voz ficou igual um robô assim na hora.

Eron Falbo: [16:48] Quando eu vou fazer um hiking, essa roupa que eu uso.

Felipe Caltabiano: [16:54] Ah é? Deixa eu ver as calças que você tá usando.

Eron Falbo: [16:57] É melhor não, cara. Nas lives eu não uso calças. Mas, olha, sinceramente, cara, eu, com todo respeito a você e sua família, eu não acredito nessa coisa de ter personalidade e tudo mais, porque eu acredito que, cara, se a gente acreditar nisso, a gente se limita, entendeu? Então, se você fala assim: 'Pô, eu sou de...' O gajo está falando uma coisa engraçada, que ele tá me avisando é que botaram um broche... A produção botou um broche na minha roupa aí, só agora que eu tô vendo. Puta que pariu, como é que tira essa porra agora.

Identidade, astrologia e autoconhecimento (17:14)

Felipe Caltabiano: [17:47] Não tem como, cara. Só que não.

Eron Falbo: [17:49] Tem como, cara? Não tem como, porra, é o terno inteiro, que é o blazer inteiro, que é assim... Então.

Felipe Caltabiano: [17:58] Você tá me dizendo que você não acredita em personalidades? É isso?

Eron Falbo: [18:01] Não, não acredito. Eu acredito que é possível que exista aquela parada de arquétipos jungianos, eneagrama, tem personalidade diferente, etc. Só que eu acredito que, no momento que você se identifica com uma coisa, você imediatamente se limita. Porque eu acredito que o ser humano não necessariamente é fixado em uma categoria. E eu acredito que ele é bem capaz de se transportar, de se manusear entre as diferentes categorias. Então, por causa disso, não serve para o ser humano, não te serve muito você se identificar com uma parada. Tanto que na Bíblia tem uma proibição com astrologia, e eu acho que tem a ver com isso, se você estudar mais a fundo. Tem a ver com você não se identificar, né, com isso, a idolatria, né, que chama na Bíblia, que você identifica com uma estrela, com uma constelação, né? E diz: aquela constelação sou eu. Só que, porra, a gente tem que ser o céu inteiro, entendeu? O ser humano é tudo e é capaz de tudo.

Felipe Caltabiano: [19:16] Então, concordo com isso. Eu, na verdade, não acho que são ideias opostas, né? Sim, sim. Uma coisa é você se identificar e aí se tornar incapaz de explorar outras coisas.

Eron Falbo: [19:34] O que eu estou dizendo é estrategicamente: você pode até ser de alguma categoria no seu cerne, como você falou, mas, no momento que você começa a gostar de procurar essa categoria, o ser humano adora uma zona de conforto, você vai lá e se encaixa na parada. Eu, estrategicamente, não me encaixo, entendeu, para poder explorar cada vez mais. Eu não estou dizendo que não é a verdade o que você está falando, entendeu? Estou falando que eu não sei... Claro...

Felipe Caltabiano: [20:04] Você não busca entender isso? Bota fé. Pra mim, faz sentido... E pra mim, na verdade, serviu muito bem compreender onde que eu me encaixo, justamente porque eu comecei a mudar algumas coisas e explorar algumas coisas para além disso, entendeu? Coisas que talvez, se eu não tivesse uma consciência muito clara de onde eu tô, como é que eu sou, eu teria muito mais dificuldade de explorar. Então, eu acho que faz sentido assim, serve muito bem para se entender, entendeu, se compreender. E não é uma parada estática. Isso é importante entender.

Eron Falbo: [20:44] É importante dizer isso, né?

Felipe Caltabiano: [20:47] É meio que uma visão assim: pô, onde é que eu tô agora? Isso eu acho que a gente tem que estar sempre acessando. E o que eu preciso melhorar no meu jogo?

Eron Falbo: [20:53] Mas você entende que a gente vive numa era que as pessoas, pô, adoram horóscopo e adoram, tipo, falar: 'Eu sou peixes com ascendente sagitário e com a lua...' Adoro, mas... E não sei o quê... E, pô...

Felipe Caltabiano: [21:07] Eu entendo. Mas é besteira.

Eron Falbo: [21:10] Mas não tira o mérito de uma.

Felipe Caltabiano: [21:13] Avaliação real de si.

Eron Falbo: [21:16] Total, total.

Felipe Caltabiano: [21:18] Isso, concordo. Não tira, de uma avaliação mal feita, o mérito de uma avaliação real do seu ser.

Eron Falbo: [21:24] Gnóthi seautón. Conheça-te a ti mesmo. Não sei por que tem esses dois termos. Conheça-te a ti mesmo, que é a coisa mais importante que tem. Mas eu só acho que você não precisa usar categorias pra isso. Você pode usar os 12 signos inteiro. Mas eu ia te falar, na verdade, uma história pessoal minha.

Felipe Caltabiano: [21:45] Mas eu nem tava falando de signo, né? Eu tava falando de personalidade.

Eron Falbo: [21:50] Mas a galera normalmente usa signo. É uma história pessoal minha. Eu vou contar e isso vai ser super revelador. Que é o seguinte: tô agora saindo do armário, gente. Eu, quando era mais novo, era muito mais, como eu te falei, muito mais dependente de reconhecimento externo, de aprovação externa. E na medida que, bom, fui amadurecendo um pouquinhozinho, prometo que eu amadureci um pouquinho, eu fui sobressaindo disso. Hoje em dia eu prefiro muito mais fazer coisas sozinho. Viajar sozinho. Hoje eu moro sozinho. Fui casado durante cinco anos. Tenho uma família, tenho dois filhos. E hoje eu moro sozinho e hoje eu tô confortável com isso. E é a primeira vez na minha...

Felipe Caltabiano: [22:49] Vida que eu estive.

Eron Falbo: [22:52] Então isso eu tô falando pra dizer como que é possível a gente ter, de um jeito, pro pessoal que tá assistindo: é possível a gente nascer com a personalidade mais voltada pro externo e voltada pra aprovação dos outros e conseguir encontrar um jeito de ser suficiente.

Felipe Caltabiano: [23:18] É isso.

Perguntas do público sobre vocação (23:19)

Eron Falbo: [23:21] É isso. Vamos para algumas perguntas, não?

Felipe Caltabiano: [23:23] Vamos. Pergunta que não quer acabar.

Eron Falbo: [23:27] Ela só tem várias perguntas. Vamos começar com a galera que fez antes, né? Val Oliva! Da caravana... Não tenho a mínima ideia, na verdade, de que caravana que ela é.

Felipe Caltabiano: [23:43] A pior coisa que eu faço na cama é levantar dela. E você, qual a pior coisa que você faz? Cara, eu faço coisas muito piores na cama, viu?

Eron Falbo: [23:52] Eu nem li a pergunta, cara. Se eu tivesse lido, eu ia te colocar nessa posição. Foi mal, mas se quiser elaborar...

Felipe Caltabiano: [24:01] Nessa posição? Que posição?

Eron Falbo: [24:02] Cara, eu não quero fazer mais piadas do que é necessário. Vamos com uma pergunta mais...

Felipe Caltabiano: [24:14] Não, mas a primeira pergunta fazia sentido, pô, porque teve uma pergunta antes perguntando como eu tinha que ter certeza, aí, de você ter certeza.

Eron Falbo: [24:30] Ah, é isso aí. Então, eu errei aqui. Cara, vamos lá! Valeu, Val. Desculpa aí. Na verdade, essa é a pergunta que eu tinha escolhido. Eu apertei errado na outra, cara. Foi mal.

Felipe Caltabiano: [24:42] Eita, o Bonfim entrou.

Eron Falbo: [24:45] Eita. Ô Bonfim, faça perguntas aí, hein?

Felipe Caltabiano: [24:50] Faça perguntas aí, Bonfim. Cheguei. Então, na verdade, esse processo não foi muito bem um processo. Para mim, pelo menos, foi uma coisa muito pontual, do que eu acho que é o ponto mais importante para a minha vida hoje, que é o trabalho com agricultura e pecuária. Foi um clique, então isso foi muito interessante. Foi simplesmente um clique que me deu e foi uma coisa que eu decidi na hora. Eu decidi: eu vou pra isso, eu vou me dedicar a isso e não voltei atrás nunca. Então isso foi interessante. Agora, por exemplo, quando eu comecei a jogar pôquer, foi uma coisa gradual. Foi um negócio que eu tinha... Achei divertido a possibilidade de ganhar dinheiro com esse tipo de coisa. E fui jogando e tal, com um pouquinho, consegui 50 dólares de graça online, que é como todo mundo começa. E pô, comecei a crescer o dinheiro, vi que era possível, aí de 50 dólares eu cheguei a 1.000 dólares e eventualmente eu estava com 10.000 dólares e eu falei: pô, realmente dá para viver disso. E isso foi um processo mais gradual, mas com agrofloresta realmente foi um clique, foi um negócio assim que não teve muito processo.

Eron Falbo: [26:14] Você acha que existe essa coisa, então, que eu vejo que você se encontrou, né? Eu vou tirar aqui a pergunta para o pessoal poder ver sua cara. Você acha que tem essa coisa de você se encontrar, a vocação mesmo, a parada que você está... E também outra pergunta junto com essa: você acha que é uma coisa que não muda? Ou isso muda depois? Ou depende de toda a fase?

Felipe Caltabiano: [26:41] Isso com certeza tem o potencial de mudar. Eu realmente acho que... eu acho que talvez a essência... existe uma essência que não necessariamente vai mudar. Mas a forma, a abordagem que eu tenho com isso hoje é completamente diferente da abordagem que eu tinha quando eu comecei. Quando eu comecei, eu fui obcecado por isso, por muito tempo. E isso eu acho que é uma coisa importante, entendeu? Se você quer ficar bom em alguma coisa, você vai ter que ser obcecado.

Obsessão como caminho para maestria (26:49)

Eron Falbo: [27:11] E como a gente faz pra se obcecar? Como é que a gente... Ô, chegou o Ed!

Felipe Caltabiano: [27:15] Chegou o Ed!

Eron Falbo: [27:17] Putz, agora...

Felipe Caltabiano: [27:19] Eu acho que você tem que se obcecar, entendeu? Você tem que parar de pensar em outras coisas. Você tem que se dedicar àquilo como se aquilo fosse a única coisa da sua vida. E você tá pensando naquilo todo dia, entendeu? Então, eu lembro que eu acordava... Por exemplo, às vezes eu trabalhava nas fazendas, eu trabalhava de voluntário, eu era sempre o primeiro a acordar, eu era sempre o primeiro a estar na roça, eu estava sempre à disposição. Quando chegava a noite que todo mundo ia fazer outra coisa, eu estava folheando livros, lendo. Eu lembro de ler livros super técnicos de ciência do solo e não entender nada, cara. Eu li 450 páginas sem entender nada, mas eu estava obcecado, entendeu? Eu lembro de andar... eu dirigia na cidade. Era perigoso porque eu ficava olhando para as árvores, cara, porque eu tava aprendendo a identificar as espécies. Então eu não olhava pra pista. Tipo, andando no Eixão, sacou? Eu andava assim.

Eron Falbo: [28:13] Você ficou meio doido, né?

Felipe Caltabiano: [28:14] Você ficou meio...

Eron Falbo: [28:17] Obsessão tem a ver com ficar meio doido com a parada, né?

Felipe Caltabiano: [28:21] Tá meio doido e esqueceu o resto, sacou? Você esquece as outras coisas do mundo. Eu acho que isso nem é uma mentalidade muito boa de ser mantida por muito tempo, entendeu? Acho que é perigoso, tanto que a gente vê que, se você for pegar assim os melhores de algum determinado ramo, em geral existem vários outros problemas na vida, porque eles são extremamente obcecados a vida toda com aquilo. Então eles deixam tudo... As relações pessoais deles são uma merda, às vezes a saúde deles é uma merda, eles têm vários problemas. Mas o cara é um guitarrista foda.

Eron Falbo: [28:58] Então você acha que a minha obsessão com o charuto tá indo longe demais?

Felipe Caltabiano: [29:06] Foi isso que eu quis dizer, cara. Na verdade, essa conversa toda, desde que eu sentei aqui, desde inclusive eu propus para você que a gente fizesse uma conversa com o charuto, para trazer a intervenção, tópico, a esse tópico que é sensível você abordar de uma vez só com um amigo.

Eron Falbo: [29:28] Caraca, Paola Bonzanini, seja bem-vinda, Paola Bonzanini! Fala uma coisa, que charuto está fumando e se tem charuto bom ou não?

Felipe Caltabiano: [29:39] Não, cara, aqui ainda não chegou a essa tecnologia. O charuto mais caro que a gente tem aqui é R$12,00.

Eron Falbo: [29:46] Caraca.

Felipe Caltabiano: [29:47] Mas eu tenho cerveja ótima.

Eron Falbo: [29:50] Mas aí é mais perto também da República Dominicana, né?

Felipe Caltabiano: [29:53] Exatamente, esse é o ponto. Mas é um pouquinho mais longe de Cuba.

Eron Falbo: [29:59] Olha, a Paula Bonzanini chamando a gente de amores. O Ricardo falou de solo de novo. Cara, é questão de ser sozinho mesmo, né? Tipo, questão de... Posso escrever aqui? Pode. Você pode, cara. Eu não sei o que vai acontecer, se vai pifar a parada, mas... Aí, é total. É isso que eu tava achando aquele dia que você tava falando dessa vez, cara, que no México é conhecido como Juan Solo.

Felipe Caltabiano: [30:31] Ó, a pergunta do Bonfim. Tá montando onde, Felipe? Montando o quê, Bonfim? Montando...

Eron Falbo: [30:40] Charuto!

Felipe Caltabiano: [30:41] É porque ele tá falando...

Eron Falbo: [30:43] Não tem charuto aí. Cara, vamos pegar outra pergunta. Peraí... Vou pegar uma pergunta de alguém que tá aqui participando. Peraí, que alguém fez uma pergunta que eu lembro.

Felipe Caltabiano: [30:58] Eu moro no Lençóis, Bonfim, Bahia. Conhece?

Eron Falbo: [31:02] Ah, cara, eu perdi. Quem fez a pergunta aí, que era um amigo do sexo masculino? Faz de novo aí o que eu perdi, beleza? Foi mal.

Felipe Caltabiano: [31:12] Só tem um amigo do sexo masculino? Assim, a pessoa vai saber.

Eron Falbo: [31:17] Eu só tenho uma.

Felipe Caltabiano: [31:18] Como você integra o que você faz?

Eron Falbo: [31:19] Ah, ele sabe, ele sabe. Como você integra o que você faz com tudo que acredita?

Felipe Caltabiano: [31:28] Integridade, né? Não sei... uma resposta idiota, mas eu acho que é uma questão de princípios. Isso é uma coisa que eu posso dizer de mim: eu sempre tive muita integridade, no sentido de não tolerar na minha vida coisas que eu realmente não acreditasse. E não só eu acho que isso sempre foi uma coisa que eu tive, como eu tô sempre buscando fazer cada vez mais.

Eron Falbo: [32:03] E eu acho que isso tá sempre aprendendo mais, né?

Felipe Caltabiano: [32:06] Tá mudando.

Eron Falbo: [32:07] Só uma coisa rapidinho, você pode botar sua cara um pouco pra cima? Tipo, botar a câmera pra baixo, pra quando você responder as perguntas, dar pra ver pelo menos quem você é?

Felipe Caltabiano: [32:17] Tipo assim?

Eron Falbo: [32:18] Desculpa aí, desculpa aí. É, é erro da produção. Ô, Costela!

Felipe Caltabiano: [32:23] Ô, produção! E o Emílio, hein? É, eu preciso ficar um pouco pra trás, é bom também. Mas então é uma questão de... eu acho que a gente tem que estar sempre revendo os nossos valores e tem que ter sempre muito claro os nossos valores. E isso eu acho que é uma coisa que eu nem sempre tive: meus valores e princípios muito claros, objetivamente. Mas eu acho que intuitivamente a gente meio que tem, e com o tempo a gente vai desenvolvendo ele. E lógico que tem muitas coisas que mudam ao longo do tempo: a gente vai desenvolvendo mais, a gente vai aprendendo mais coisas sobre como o mundo funciona, sobre como as pessoas funcionam, e algumas coisas mudam. Mas uma coisa que eu faço questão de sempre fazer, e desde muito tempo que eu tenho essa prática constante, que não necessariamente é uma prática de sentar e pensar sobre isso, embora às vezes também seja, é que eu estou sempre medindo minhas ações, vendo se o que eu faço correlaciona com o que eu estou falando, com o que eu faço. E acho que a gente tem que estar sempre aprimorando nossos valores e tentando entender se o que a gente faz realmente é congruente com o que a gente acredita. E, para isso, a gente tem que saber o que a gente acredita e estar sempre tentando rever isso. Acho que isso é um problema muito grande para muitas pessoas: elas não agem de acordo com o que elas acreditam. É aquela lógica de você não ser seu próprio ponto de origem. Eu acho que a gente tem que ser o nosso próprio ponto de origem, né? Entendeu? Ser proativo. Você tem que ser proativo, e não reativo ao que tá acontecendo a sua volta. Só que, pra isso, entra tudo aquilo que a gente já falou, né? Você tem que se conhecer, você tem que entender. Tem que ter uma foto de quem você é agora. Você tem que entender suas falhas, o que você gostaria de aperfeiçoar. Você tem que entender pra onde você quer ir. E você tem que saber quais são aqueles princípios que você não quer violar: eu não quero violar esses princípios, então vou agir dessa forma, independente da situação na qual você vai se encontrar. Eu acho que essa é a grande medida mesmo. Eu lembro que Platão falava... acho que é aquela história que ele contava, que você só reconhece o homem bom, só pode confirmar que ele é bom, quando a sociedade toda trata ele como um canalha. E mesmo assim ele mantém as ações dele de acordo com os princípios, e os comentários dele mesmo, todo mundo falando que ele é um idiota, que tentam criminalizar ele por aquilo que ele acredita. Então esse realmente é o homem bom, é o homem íntegro: ele age independente do que as outras pessoas estão falando dele.

Eron Falbo: [35:24] Você é tipo Carlinhos Bild.

Felipe Caltabiano: [35:26] Exatamente. Eu não conseguiria pensar em um exemplo melhor. Você deveria fazer uma live com o Carnes Bilt, meu irmão.

Eron Falbo: [35:37] Porra, cara, se ele estiver vivo, pode ser que ele é o meu próximo convidado.

Felipe Caltabiano: [35:42] Eu quero participar também.

Eron Falbo: [35:47] Eu não sei se dá pra fazer isso, não, mas... Olha o Gleiton falando Felipe Neto, cara, é equivalente. Cara, eu vou pegar outra pergunta aqui, pode ser? Porque acho que você já respondeu melhor, é impossível. Então desculpa te cortar, mas... Tendo eu chegar, mas outras pessoas fizeram perguntas. Aí, ó, tem uma... Pô, tem sido muita pergunta babaca aqui, cara. Uma coisa que a gente tem que falar é o seguinte, gente: eu e o Felipe, a gente é amigo há muitos anos e, pô, a gente tem muita gente aqui de panelinha, então, tipo, a galera tá fazendo muita piada. Só queria lembrar pra essas pessoas que tão aí fazendo piadinhas de mau gosto, que só a gente vai entender, que, pô, tem aí um milhão de pessoas assistindo, galera. Como é que vocês esperam que a gente vai, pô, endereçar essas perguntas canalhas?

Felipe Caltabiano: [36:58] Com erros gramaticais? Erros gramaticais não dá, não.

Eron Falbo: [37:03] Tá, vou botar isso aqui, ó.

Felipe Caltabiano: [37:06] Você abandonou a música? Não pretende voltar? Como vai juntar com o resto que faz? Eu não abandonei a música, não. Eu tenho um violão. Inclusive, recentemente eu investi uma quantidade de dinheiro significativo num violão bom, que foi um dos melhores investimentos que eu fiz nos últimos tempos. Então eu toco em casa, eu gosto de ouvir música muito, eu gosto de tocar violão, só não tô fazendo isso em troca de dinheiro.

Eron Falbo: [37:39] Então não é bem um investimento, né?

Felipe Caltabiano: [37:39] Apesar que, se alguém quiser me pagar pra... aí é questionável. Não é um investimento com retorno financeiro, né?

Eron Falbo: [37:46] Mas, aí também, pô, ficar bêbado na sarjeta é um investimento.

Felipe Caltabiano: [37:56] Cara, pode ser, mas você pensa o seguinte: tocar música, e tocar num violão bom, me dá uma serenidade mental tão grande que me torna muito mais produtivo e permite que eu produza mais dinheiro ainda. Então, indiretamente, é um investimento.

Eron Falbo: [38:18] Touché. Touché, mon ami.

Sistemas agroflorestais e espiritualidade (38:20)

Felipe Caltabiano: [38:21] Como dito, guys.

Eron Falbo: [38:23] A gente tá estudando francês, cara, mas é irrelevante pra nossa conversa.

Felipe Caltabiano: [38:26] Até hoje.

Eron Falbo: [38:28] É, até hoje. Você acredita? Por que escolheu especificamente sistemas agroflorestais? Primeira vez que eu consegui falar essa palavra, dentro de tantas opções em biodiversidade.

Felipe Caltabiano: [38:39] Tá escrito errado. Tá escrito 'agroflorestais'. Então, você mandou bem.

Eron Falbo: [38:43] Caraca, eu falei certo mesmo assim. Acho que eu preciso... desse jeito eu consigo falar, entendeu?

Felipe Caltabiano: [38:49] Exatamente. Foi a primeira coisa que me foi apresentada e eu me encantei diretamente. E, na verdade, os sistemas agroflorestais... É um termo extremamente amplo. Dentro dos sistemas agroflorestais, você tem várias modalidades, digamos. Eu, particularmente, venho da Escola da Agricultura Sintrópica. E a gente não preza tanto pela biodiversidade, no sentido de que a gente não se importa com a biodiversidade, mas ela não é o nosso foco final. O meu foco é saúde e enriquecimento de ecossistemas, independente do número de espécies envolvidas. Então, eu trabalho muito mais com a lógica de sistemas com suas funções e nichos preenchidos do que o sistema com o máximo de diversidade possível, que eu sei que muitas pessoas são presas especificamente pela biodiversidade. Então, assim, pra mim, a agrofloresta nem é uma opção, uma possibilidade dentro de opções de biodiversidade.

Eron Falbo: [40:05] Pra ficar um pouco mais técnico, qual que é a diferença, porque eu sempre tive essa dúvida, entre sintrópico e psicotrópico?

Felipe Caltabiano: [40:19] Então, cara, as duas são proparoxítonas, tá? Caraca! Mas sintrópico é uma palavra petasílbica.

Eron Falbo: [40:33] Você sabe contar essa parada de sílaba?

Felipe Caltabiano: [40:36] Sintrópicos é uma palavra pentasílbica, silábica. Silábios. Basicamente é isso.

Eron Falbo: [40:44] Bota o céu. Vamos pra outra pergunta. Tem uma pergunta aqui do Ed, mas eu não ouso colocar, porque... Ah, essa aqui é boa.

Felipe Caltabiano: [40:55] Essa aí pode ficar pro after-party.

Eron Falbo: [40:59] Pode ser. Vai rolar um after, gente, aqui em casa. A sua prática espiritual é relacionada à natureza?

Felipe Caltabiano: [41:07] Com certeza. Hoje eu não sigo uma prática espiritual específica, né? Mas, pra mim, é uma prática extremamente espiritual tá fazendo qualquer interação com a natureza, né? Desde ir pro rio ou subir o morro e contemplar.

Eron Falbo: [41:30] Caraca, o que você vai comprar? Você vem pro rio e sobe o morro?

Felipe Caltabiano: [41:38] E aí? Psicotrópicos. E aí? Tanto trabalhar na agrofloresta, que aí é uma interação muito mais íntima com a natureza, digamos. Aí, estou realmente influenciando e impactando o ambiente com as minhas ações. Mas é uma coisa extremamente espiritual, porque você está contemplando o fluxo da vida. Você está contemplando a vida, você está compreendendo o funcionamento da vida, dos princípios pelos quais a vida funciona. E isso é uma coisa extremamente humildificante. E, ao mesmo tempo, você aprende muito, né? São tantos aprendizados que você pode ter. É realmente uma conexão com algo maior do que você, que você sabe que te supera em escala.

Eron Falbo: [42:40] E você acha que isso te ajudou? Você entrou no agroflorestamento?

Felipe Caltabiano: [42:48] Não, agrobusiness.

Eron Falbo: [42:52] Tem gente que tem a sua religião e tem o seu business. Eu vejo que você vê religião, você vê inspiração espiritual dentro do que você faz em business. Você acha que isso foi bom pra você? Fala sobre isso, sobre essa mistura das coisas.

Felipe Caltabiano: [43:14] Eu acho que é muito bom, por um lado, e tem um lado prático um pouco negativo. Vou falar um pouco do lado prático negativo primeiro. É que a gente acaba se sabotando, a gente corre o risco de se sabotar para ganhar dinheiro. Porque você, assim, como é uma parada espiritual e a tua missão e é tudo, você topa qualquer coisa, independente de você estar gerando renda ou não com isso, né? Então, eu acho que isso é uma coisa que pode parecer meio besta, mas é uma coisa que a gente tem que ficar ligado, porque é aquelas coisas, né? Você fala: porra, eu amo fazer isso mesmo, então não importa ganhar dinheiro. Só que importa ganhar dinheiro. Pra mim, importa. Isso foi uma coisa que eu fui perceber ao longo dos tempos, eu falo: pô, não preciso fazer isso, assim, independentemente de ganhar dinheiro, é importante você conseguir juntar as duas coisas e não abrir mão dessa parte também, de você ter sucesso financeiro fazendo uma coisa que você considera que é sua missão, que você considera que é uma coisa espiritual até. Então, digamos assim, isso é um risco. E eu acho que nem todo mundo tem esse problema, mas para mim foi um lado que eu tive que ir trabalhando aos poucos. Isso realmente foi uma coisa, por muitos anos eu tive que ir trabalhando esse lado de ganhar dinheiro fazendo isso que, para mim, é uma missão espiritual, poderia se dizer, né? Agora, por outro lado, foi maravilhoso juntar as duas coisas, né? Aquela atividade que você tá fazendo no dia a dia e isso é a sua prática espiritual, entendeu? Eu tô juntando... E, na verdade, tá aqui meu celular, porque tá usando bateria.

Eron Falbo: [45:09] É a própria.

Felipe Caltabiano: [45:16] Proposta do Viva Total que você fala que é essa junção, né? Política, religião, espiritual e ciência. E eu acho que para a arte e ciência é isso que eu falei. Então, tudo... Para mim, a agrofloresta se encaixa muito bem nisso tudo, entendeu? Porque para mim é uma coisa espiritual. Isso é arte. É tudo, é tudo. Eu consigo ligar qualquer coisa da minha vida a isso, a essa missão primordial.

Polarização e vozes políticas influentes (45:47)

Eron Falbo: [45:53] Então, a gente tem mais dez minutos só pra avisar a galera aí, se quiser fazer perguntas. Dá pra fazer perguntas aí através desse ponto de interrogaçãozinha aqui. Nem do lado do comentário.

Felipe Caltabiano: [46:13] O meu não tem esse ponto de interrogação.

Eron Falbo: [46:16] Depois a gente descobre isso. Vamos lá. Vamos falar um lado que a gente não falou ainda. Muita gente não gosta de se posicionar politicamente hoje em dia. Por que você acha que acontece isso?

Felipe Caltabiano: [46:28] Eu acho que tem dois motivos. Primeiro, eu acho que talvez as pessoas não conheçam muito bem a política, elas não sabem realmente como se posicionar politicamente. É um ponto. Segundo, eu acho que a gente vive num momento de muita agressão política, né, cara? Tá tendo muita, como fala, falta de tolerância, de opiniões, polarização. Então, acho que as pessoas ficam receosas de expressar opiniões políticas. Eu sei que eu mesmo já me encontrei nessa situação várias vezes. Eu nem sou um cara muito político. Acho que de pouco tempo pra cá que eu comecei a prestar um pouco mais atenção.

Eron Falbo: [47:19] Sem se posicionar, o que você gosta dentro do diálogo político internacional? Que vozes você gostou e por quê?

Felipe Caltabiano: [47:30] Cara, ultimamente eu tenho estado muito antenado com figuras principalmente norte-americanas, a galera que se coloca, que se chama de Intellectual Dark Web. São um grupo de várias pessoas de diversos backgrounds políticos. Tem gente de esquerda, tem gente de direita, tem homossexual, tem tudo que é jeito. E eu gosto muito disso para eles. Então, são pessoas como David Rubin, Ben Shapiro, o Joe Rogan, embora o Joe Rogan não necessariamente político, né? Mas tem muita conversa de político lá. O Jordan Peterson, o... Quem mais?

Eron Falbo: [48:24] Cara, eu juro que eu achei que você ia falar o Jordan Peterson primeiro, sacou? Você falou ele por último, pô. Mas tudo bem, exceções.

Felipe Caltabiano: [48:32] E daí, cara, isso não foi lista de preferência, não.

Eron Falbo: [48:36] Pra mim foi.

Felipe Caltabiano: [48:37] Ah, esse cara é babaca. Tem um cara muito massa que é o James Lindsay. Você conhece esse cara?

Eron Falbo: [48:50] Não conheço não.

Felipe Caltabiano: [48:51] Pô, você tem que ver, cara. O James Lindsay, ele e mais duas pessoas, eles fizeram um... Eles publicaram vários trabalhos, são os... Ah, esqueci o nome. Trabalhos que foram completamente falácias, entendeu? Eles conjuraram uns trabalhos sobre as coisas mais absurdas possíveis, do tipo estupro de cachorro, né? Não de pessoas em cachorro, mas de cachorro em cachorro. E eles publicaram isso, cara. E os trabalhos são absurdos, que não deveriam passar de forma nenhuma na revisão, e eles passaram. Eles foram publicados em revistas prominentes, foram aplaudidos por estudiosos e tal. E aí eles trouxeram isso mostrando como a academia é extremamente tendenciosa para um lado e deixa várias coisas passarem. Então, ele é um cara que eu recomendo muito, você ir atrás desses trabalhos que ele publicava.

Eron Falbo: [50:06] Isso é muito legal, né, que a gente vê nos nossos tempos: as coisas precisam ser muito demonstradas, né? Porque a gente acredita muito em formação. A gente tá muito viciado nessa coisa iluminista, acadêmica, né? De, porra, tem um trabalho publicado e a gente acha que isso, por alguma razão, tem alguma autoridade, né? Exatamente. Só porque é publicado, só porque é não sei o quê, mas a gente vê que tem uma ridicularização disso, né? Começou a virar uma coisa... As pessoas começaram a usar isso pra promover agenda pessoal, né? Promover coisas, agendas políticas, agendas... No geral, mais pessoal, né? Mesmo que seja político, as pessoas começaram a sequestrar essa metodologia pra usar de uma maneira que, pô, não é séria. No final dos contos, não é mais séria. E eu acho que isso que você tá falando é uma coisa incrível, porque é muito reveladora do jeito que a gente vai quebrar esse feitiço da academia e de tudo mais, que é ridicularizando, né? Tipo, pô, vamos publicar coisas que são tão ridículas que as pessoas vão... Vão por si só perceber que elas precisam pensar por si próprias, que elas precisam sair dessa dependência do papai e dizer pra elas o que é certo e o que é errado. Eu acho que a gente vive nesse tempo. O Viva Total tem tudo a ver com isso. Tem a ver com a emancipação da sociedade, emancipação pessoal dos agentes externos, da universidade, de Harvard, dos Estados Unidos, de todas essas coisas que são parte do inconsciente coletivo, que todo mundo acredita de uma maneira ou de outra. Tipo assim, se sentar aqui um cara, se a gente for falar mesmo, a gente vai falar: pô, o cara estudou em Harvard, entendeu? Já tem autoridade e credibilidade. Aí ele fala uma baboseira e tudo bem, né?

Felipe Caltabiano: [52:19] Exatamente. E acho que volta àquilo que a gente falou mais cedo, da importância das pessoas agirem a partir do seu próprio ponto de origem. Primeiro, reconhecer o seu ponto de origem, e não ficar simplesmente reagindo e repetindo o que outras pessoas estão falando, que acho que é o que acaba que a maioria das pessoas faz. Acho que é uma parcela muito pequena da população que realmente age a partir de princípios, age delas mesmas para fora, elas estão agindo, e não reagindo ao que acontece em casa. Isso é uma coisa muito importante.

Eron Falbo: [52:55] Cara, isso que você falou, pra mim, é a chave. A gente tá numa geração reacionária.

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