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#114 Especial Dia das Bruxas

com Leo Lousada · gravado em 27 de out de 2021 · episódio inédito

Transcrição automática do áudio do episódio.

Eron Falbo: [0:01] O que é um alvo? Algo que você quer muito acertar. Mas na vida real, os alvos aparentes enganam. E temos que ralar para encontrar o alvo, muito antes de tentar acertar. No Alvo, um programa sobre alvos ocultos, sobre a jornada da autodescoberta. Entrevistamos pessoas únicas que nos ajudam a encontrar o único dentro de nós. E acertar o alvo.

Locutor: [0:23] O programa a seguir contém linguagem que pode ser elucidativa e ou cômica e deve ser evitada por moradores de cavernas. No Alvo, com o Herói Alvo! O único top show feito para tirar todos nós da zona de conforto e ampliar os horizontes. Nossos heróis são desenvolvidos em nossos laboratórios internários de acordo com os poderes e feitos extraordinários. Hoje teremos uma super participação com assuntos diversos, interessantes e inspiradores. Fiquem agora com o nosso anfitrião, Herói Faldo!

Eron Falbo: [1:31] A CIDADE NO BRASIL Sejam bem-vindos, meus amigos! Aqui quem fala o narrador de suas mais intensas emoções, Herói Faldo. Vamos sair dos nossos tempos agora. Vamos subir a bordo de um barco. Existem sete grandes oceanos nesse mundo. Agora nós vamos juntos para o oitavo oceano. Um oceano que é abaixo desse mundo. Abaixo da terra sólida. Eu descobri há muito tempo atrás que é mais divertido ser a bruxa malvada do que a princesa indefesa. Tommy Faith no livro She's Magic and Midnight Lace. Queria apresentar para vocês agora, senhoras e cenouras, o abridor do obra-cadabra, o desabruxador das bruxas, o santo santíssimo de santos, só que não, o animador de animais da alma, Léo Lousada! E aí, Léo? Beleza?

Leo Lousada: [2:49] E aí, Heron? Beleza? Obrigado pelo convite, cara. Prazerzão estar falando aqui com você.

Eron Falbo: [2:55] O prazer é meu, cara. O prazer é meu. Seja bem-vindo. Eu vi muito bem falar de você e estou empolgado para a gente entrar nas nossas loucuras.

Leo Lousada: [3:06] Vamos aí, vamos.

Eron Falbo: [3:07] Hoje eu acho que o bate-papo vai ser longo e a gente vai falar de bastante coisa louca hoje.

Leo Lousada: [3:11] Estou com certeza.

Eron Falbo: [3:13] Cara, se você está com algum drink aqui, eu estou com um vinho, se tiver.

Leo Lousada: [3:16] Opa! Vou pegar meu vinho aqui.

Eron Falbo: [3:18] Ah, então para aí, vamos brindar. Para a gente brindar.

Leo Lousada: [3:25] E aí, um vinho, bebida sagrada, a sabedoria.

Eron Falbo: [3:31] É isso, então. Vamos fazer um brinde à nossa conversa, ao ocultismo, a coisas secretas. E o que eu ia dizer? Eu ia dizer sobre os animais secretos que tem na nossa mente. Eu sei que você fez uma animação sobre isso. Um brinde.

Leo Lousada: [3:52] Um brinde.

Eron Falbo: [3:55] Na verdade, isso é só uma questão, né? Se é na nossa mente ou se é na vida mesmo. Se anjos, demônios e espíritos são em outra dimensão. O que você acha sobre isso? É uma coisa que você tem uma opinião já formada ou você está em dúvida?

Leo Lousada: [4:15] Eu acho que até pela minha vivência nesse meio, é alguma coisa que eu já tenho, por causa dela, uma opinião um pouco mais formada. Mas o universo está sempre aí para surpreender a gente. Até o começo do século XIX, a gente nunca falava que um demônio era um processo da nossa mente, que era alguma coisa relacionada a isso. Quando a gente começa a falar isso, com algumas ordens iniciáticas, ou até com o nascimento da psicologia, quando a gente tem Freud, Jung, esses caras, aí começa a ter esse tipo de associação. O que eu vi ao longo da minha vida estudando isso? Que, na maioria dos casos, é produto da nossa mente. A nossa mente é maluca o suficiente para criar uma realidade e essa realidade pode ser habitada por anjos e demônios de todos os tipos que a gente quiser criar. Mas tem sempre aquele 1% ali que a mente não consegue ser explicada, que não consegue ser explicada pela psicologia, pela psiquiatria. E aí essa parte que foge, aí eu acho que sim, são os anjos e os demônios que habitam esse mundo externo.

Eron Falbo: [5:25] Eu estou lendo agora aquele livro vermelho de Jung, e ele até fala nisso, que ele chegou à conclusão de que... que... Aí eu estou... Ainda não sei exatamente o que isso significa, mas ele acaba falando que existem seres no inconsciente, que existem... seres vivos, eles chamam de seres vivos, dentro do inconsciente. Então, assim, é a mente, só que são seres vivos, independentes, como se fosse. É mais ou menos isso a ideia.

Leo Lousada: [6:03] É, o livro vermelho, ele é um diário do Jung, né, cara? Então é um livro difícil de ler. Se você está lendo, boa sorte, porque ele não é fácil. Ele conta a história do Jung ali com 39 para 40 anos, que é quando ele tem a virada de chave da vida dele.

Eron Falbo: [6:17] É, é por isso que eu estou levando isso em consideração. Não, porque a gente vê muito essas explicações da psicologia, e é a que eu gosto mais também, porque eu acredito que dentro do ocultismo tem muita superstição. Só para você... Eu não sei quanto que você sabe sobre mim, mas eu sou iniciado da OTO, da Horta do Tempo Oriente, e... Orientes, né? E, assim, minha vida inteira, a coisa que eu mais pratiquei na minha vida foi o ocultismo. Além de, assim, várias religiões e seitas e muita esperança. Mas, assim, mesmo assim, eu sempre gostei muito das explicações de Jung, de Freud, da psicologia no geral, e também dos ocultistas mais racionais. Porque até do Alistair Crowley, que apesar de... Bom, Alistair Crowley se contradiz em muitos momentos, então não dá para usar como referência. Mas ele é muito racional também em muitos momentos. Mas sempre preferi essas teorias. Mas por quê? Porque você deve ter vivido isso também. Dentro desse mundo, né? De tarologia, de astrologia, de tudo mais, tem, assim, uma grossa camada de desperdição, de más interpretações, de... Aí, assim, eu acho que a gente acaba preferindo, né? Uma coisa mais limpa, mais objetiva. Só que, ao mesmo tempo, eu concordo com você que existe o... aquela gordura, né? Aquele lugar, assim, que é difícil você explicar com facilidade.

Leo Lousada: [8:01] Cara, eu passei por muitas ordens iniciáticas. Se a gente começa a estudar um pouco da ideia delas, de como é construída a magia, a gente vai ter uma ordem que vai ser muito importante, que vai ser a Golden Dawn, que é a ordem que vai atrair grandes mentes e ela vai ali no final do século XIX, começo do século XX, começar a se espalhar. É uma época que tem um renascimento, um reiluminismo do ocultismo nessa época. E aí é muito comum você começar a ver os textos do Matters, por exemplo, que eram um dos fundadores da Golden Dawn. E aí automaticamente o Crowley, que é um cara que foi para lá dentro, bebeu muito da Golden Dawn, para depois quando ele saiu reformular a OTO, fundar a Telema. É muito comum você já ver a psicologia entrando muito forte nessa época. Acho que talvez um dos maiores indícios é quando o próprio Matters fala, olha, Goécia são demônios do inconsciente, que quando a gente faz o ritual de trazer esse demônio entre associação, na verdade é o complexo, que são esses seres vivos que o Jung chama, esses complexos que a gente cria, um complexo desse toma a frente e aí ele se apresenta como uma entidade, como... Só que, para os magos mais tradicionais, isso é uma psicologização da magia. E aí a magia, ela se coloca como uma ciência, entre aspas, porque ela não pretende ser, mas ela entende que a psicologia e a ciência tradicional são braços para ajudar no entendimento dela. E por que ela se coloca desse jeito? Porque quando a gente estuda, uma das coisas que é a base do ocultismo ocidental é a Kabbalah. Existe a Kabbalah judaica tradicional, mas existe a hermética, que é uma que virou base de todas essas ordens.

Eron Falbo: [9:50] Sim, aquela com Q, né?

Leo Lousada: [9:52] Isso. Essa aí, ela tem um desenho, que é a árvore da vida, que vem de um rabino, era um rabino mesmo kabbalista, que usou isso de forma didática.

Eron Falbo: [10:04] Que depois se converteu para o cristianismo, você está sabendo disso? Um deles, um deles... É o Christianini, não sei o quê.

Leo Lousada: [10:11] É, mas a gente tem o Isaac Luria e o Baal Shentov, que usavam essas técnicas, e eles foram os primeiros.

Eron Falbo: [10:17] Eu estou falando esse clássico aí, que é um retrato específico aí, que é do cara que se converteu para o cristianismo. Desculpa, desculpa.

Leo Lousada: [10:26] Mas até que... Esses caras às vezes se convertiam mesmo, porque ou ele era convertido, ou ele morria na fogueira. Ele não tinha às vezes muita opção. Esses caras, o Baal Shentov, o Isaac Luria, ficaram no norte da África, no leste europeu. Então a igreja católica não conseguiu abarcar esses caras e chegar neles. Mas eles fizeram esse desenho. Esse desenho da árvore da vida, ele ensina que a nossa mente tem um limite onde ela chega. Que é o que a gente chama na Kabbalah de reino de Etzirah. Então você tem ali o reino físico, que é onde a gente está, onde tem os nossos cinco sentidos, aqui o nosso corpo, tudo que a gente sente. Aí a gente sobe para um plano, que seria o mais próximo do que a gente chama no ocidente, de plano emocional, dos desejos, dos instintos. E aí é o limite da nossa imaginação, não esse mundo. Quando a gente transcende esse mundo e chega num plano mais mental, que a gente vai começar a cessar os arquétipos, que são aqueles modelos originais, da onde tudo se deriva, a nossa mente não consegue chegar lá. Então é aí que a magia entra. Ela fala, legal, psicologia é bacana, ela explica um monte de coisa que acontece com a nossa mente, inclusive ela entende a nossa mente como uma ponte entre essas coisas, mas a magia quer ir além. Ela diz que depois desse limite que a nossa imaginação alcança, a gente ainda tem mundos lá para cima, que aí a gente só vai alcançar em estados alterados de consciência, muito específicos.

Eron Falbo: [11:51] É, aí eu até concordo com isso, em termos teóricos, mas aí a minha questão é como é que a gente sabe, com a nossa mente limitada, se a gente está navegando um complexo ou vivenciando uma experiência com um complexo ou realmente atingindo níveis em ABIAR, os mundos cabalizos. Como é que a gente pode ter certeza? Essa não é a questão fundamental no final das contas?

Leo Lousada: [12:24] Ela é, ela é. A gente tem dois caminhos que a gente pode escolher. Um é o caminho que muito ocultista segue, de tentar trazer essa ciência, de explicar isso de alguma forma. E aí, o que esse cara vai fazer? Ele vai usar desses métodos de acesso a níveis de consciência mais elevados, através de yoga, ou de meditação, ou de tambor xamânico. E aí esse cara vai começar a absorver coisas que ele não consegue absorver normalmente pela inteligência ou pela imaginação dele. O que acontece nesses casos? É aquele caso, por exemplo, que você pega uma pessoa que é analfabeta e que, de repente, ela atinge um nível de consciência diferente e que ela começa a falar alemão fluentemente. E aí como é que você explica isso? Porque o complexo, teoricamente, ele é uma dissidência da mente principal. Por mais que ele possa criar uma personalidade própria e tudo, quando a mente principal não tem o aparelho cognitivo para, por exemplo, ter um aprendizado de uma alfabetização e, de repente, em algum momento, aquele complexo ou aquela entidade se apresenta falando alemão, como é que você explica isso?

Eron Falbo: [13:42] Cara, primeiro, eu acho que tem duas possíveis explicações para isso dentro da própria teoria do Jung. Na verdade, uma é a teoria do Jung e a outra é através de coisas desenvolvidas por... Qual é o nome dele? Não, o Mesmer, o outro... O... Pinotista da Fala. Esqueci o nome dele. Eu tenho aqui. Eu não vi dele em algum lugar, cara. Bom... Caraca, é impossível, cara. O cara que é o maior... Bom, sei lá.

Leo Lousada: [14:18] Mas o que é exatamente?

Eron Falbo: [14:19] A primeira explicação seria do inconsciente coletivo, então você pode... Você tem acessos... Jung, eu acho que ele estava tentando explicar justo esse tipo de coisa, porque é claro que é arquétipos e tudo mais coisas primárias que a gente tem, mas a gente tem, de acordo com essa teoria, um canal direto com basicamente qualquer outra pessoa. Então isso é uma teoria. É a segunda teoria através de rapport. Na verdade tem três. A segunda através de rapport, que ilusionistas, mentalistas, fazem esse tipo de coisa, que é tipo desenhar um retrato que outra pessoa está desenhando em outra sala, eles fazem isso na prática. Eles não chamam isso de... Eles não fazem isso com tambor xamânico. E assim, tem um cara chamado Darren Brown, que é um mentalista, que ele é totalmente ateu e cético e ele sai debunking, sai desprovando certas coisas, porque ele é um especialista nessas técnicas. Então isso é uma outra forma de fazer. E... Qual era a terceira, cara? Bom, mas vamos ficar com essas duas, que eu esqueci agora a terceira. Mas assim, no final das contas, antes de ouvir sua resposta sobre isso, eu acredito... Sei lá, vou tentar resumir a minha opinião, que é meio aporia, assim, meio perplexidade no final das contas. Mas o que me satisfaz no final das contas é que essas... essas coisas são metalinguísticas, são formas diferentes de falar uma mesma coisa que é inefável na prática. Então, você pode usar religião para se aproximar. Kabbalah, por exemplo, que eu estudei também muito. Depois vou te perguntar onde você estudou, que você parece ter estudado bastante disso. E o que eu fico feliz, a explicação que eu fico feliz hoje é isso. Você pode inventar uma teoria que satisfaz a mente moderna, tipo Jung, ou estudar uma língua nova que é tipo Kabbalah ou Xamanismo, que não é nem língua, que são danças, que são formas mais estásicas de chegar a não compreensões diretas, como Jung chama, compreensões míticas da coisa. Só que no final das contas a gente está descrevendo ou se aproximando de uma realidade que eu acho que todos concordam, tanto Jung quanto qualquer outra pessoa, que é inalcançável por causa do mecanismo da mente. O jeito que a mente funciona, a gente só consegue se aproximar dessas coisas de forma indireta.

Leo Lousada: [17:22] Vamos lá. Você trouxe muito bem a questão do Jung, do estudo do inconsciente coletivo, da sincronicidade, todas as coisas que o Jung estuda para tentar explicar isso. E é muito legal porque a explicação do Jung e de um mago é basicamente tida como a mesma. Por quê? Porque o Jung não é considerado pela ciência como ciência. Ele é considerado uma pseudociência. A gente tem poucas linhas dentro da psicologia que são consideradas ciências. Como, por exemplo, a comportamental, que é uma ciência. Agora, quando a gente fala de Jung, a gente está falando de uma pseudociência para os cientistas.

Eron Falbo: [18:02] Sim, sim.

Leo Lousada: [18:02] Então, olha que louco. A gente tem, de um lado, magos, que são pessoas que sempre tiveram pé na fé e na ciência, para poder estudar as duas coisas e fazer essa ponte de complementação. A gente tem o Jung, que é um cara, por exemplo, se estivesse vivo hoje, se a gente chamasse ele de místico, ele ia ficar muito bravo, porque ele tentava só entender como é que aqueles fenômenos aconteciam, e linkar aquilo com a mente, e trouxe algumas explicações muito bacanas com relação a isso. Mas a gente continua num patamar ainda do que é uma pseudociência. Ou seja, algo que pretende ser uma ciência. A magia em si, ela não pretende ser uma ciência. Ela nem quer. Ela não aspira por isso. Então, no fundo, na verdade, quando a gente pergunta para uma pessoa assim, ah, você faz terapia, não faz, faz. Você está melhor? Estou. Poxa, melhorei muito. Anos de psicanálise, melhorei muito. Mas, poxa, você está fazendo um negócio que é uma pseudociência, não é muito diferente de floral. Mas a pessoa fala, mas eu tive um resultado concreto. Eu melhorei como pessoa. Então, acho que quando você sai de um campo de querer provar que aquilo tem um lado científico...

Eron Falbo: [19:11] Vai ser funcional, né?

Leo Lousada: [19:12] Isso. Isso é funcional. Não estamos enganando ninguém. Não tem charlatanismo. Não é algo que está prometendo uma cura milagrosa. Mas se é algo que realmente é funcional, no fundo, é isso que vai importar. Esse resultado que traz de melhora, desde que não tenha ali nenhum tipo de abuso psicológico, financeiro, esse resultado de melhora, ele no fim é o que é buscado. A magia nada mais é do que uma ferramenta, no fundo, no fundo, de busca de autoconhecimento. Se o processo final for o autoconhecimento, for o aprendizado, for o engrandecimento, já está valendo. Porque esse engrandecimento pessoal, ele é uma expansão de consciência. A hora que você expande consciência, ou seja, você sabe mais, você conhece mais, você reconhece mais, tirou essas coisas do inconsciente, não tem caminho de volta. Você não consegue se tornar mais inconsciente. A hora que você iluminou, está iluminado aquilo. Então, a partir do momento que você consegue fazer isso, você automaticamente, mesmo sem perceber, entrou no estado alterado de consciência. Porque agora a sua consciência é mais ampla. Ela está alterada no sentido de que ela é mais capaz de perceber detalhes que até então ela não conseguia perceber. Compreender coisas que ela não conseguia compreender. Lidar com certas emoções que ela não conseguia lidar. E transformar tudo isso dentro de você no que eu sempre chamo de coerência. Que nada mais é que aquilo que você acredita, o que você pensa, o que você sente e o que você faz, estarem 100% integrados. Isso é um estado alterado de consciência. A gente às vezes acha que o estado alterado de consciência, ele só vai ser provocado ou por um tambor xamânico, como você exemplificou, ou por uma substância enteógena, que é aquela substância que você usa dentro ali de um ritual, como a ayahuasca, por exemplo. A gente acha que é só isso. Mas quando você tem um momento de intuição, isso é um processo de consciência alterada. Porque você se permitiu ampliar um pouco a sua consciência, além daquela realidade pontual. E isso faz com que você consiga trazer uma sabedoria ou algo que não estava visível naquele momento.

Eron Falbo: [21:28] A gente concorda nisso. E acho que realmente, no final das contas, é isso que importa. E acredito que a gente está começando a voltar para essa capacidade de aceitar as coisas por serem funcionais. Graças a Deus, nos nossos tempos, a gente está vendo muita coisa sendo aceita que antes não era, em termos de medicina alternativa e práticas. E as pessoas estão realmente tocando foda-se. Tipo, cara, funciona ou não funciona? Funciona para mim. As pessoas estão recomendando fazer a cama de manhã. Tipo, fazer a cama de manhã. Não é a científica. Foda-se, funciona. Faz a cama de manhã que você vai se sentir melhor. Você vai fazer outras coisas. Aquele cara lá do Navy Seals. E realmente, eu crescendo, eu vivi em outro mundo. Você deve ter uma idade parecida comigo. As pessoas eram muito mais fechadas ao que funcionava. E era muito... Ao que funcionava não. Ao que era explicado. Independente se a coisa funcionava ou não. E eram agressivas com coisas que eram alternativas. E hoje, cara, graças a Deus, a gente está vendo uma diferença nisso. Eu queria te perguntar... Antes de te perguntar de cabala, porque a gente senão vai entrar num buraco sem fim. Eu queria te perguntar, porque a gente está fazendo esse programa com o especial Dia das Bruxas, Halloween. E eu queria entrar um pouquinho, que eu sei que você tem seu site. Seu site é... Qual o nome mesmo?

Leo Lousada: [23:13] Conhecimentos da Humanidade.

Eron Falbo: [23:15] Conhecimentos da Humanidade. Cara, isso, by the way, é uma coisa que eu sempre quis criar. Tipo assim, um canal para falar de... Um compêndio de diferentes tecnologias de conhecimento da humanidade. Então, pô, legal. Temos isso comum. E, cara, vamos falar então um pouco do Dia das Bruxas. Que, na verdade, entrando na categoria de feriados. Da importância de rituais e ritos de passagem do ano. No ano e não na vida. Porque escolhendo, né? E... E... e também de resgatar tradições e culturas antigas, porque o Halloween nasceu de um ritual, de um feriado celta, o Samen, eu acho que é o nome. Então acho que o Halloween, apesar de ser uma coisa que a gente aqui no Brasil não tem muita tradição...

Leo Lousada: [24:26] Cultura, né?

Eron Falbo: [24:28] Hoje em dia as pessoas estão até se vestindo, mas não tem aquela coisa de trick or treating, não tem uma coisa mais completa, a gente tem mais se fantasiar e ir para a festa. Mas acho que todo mundo meio que já viu algum filme, sabe mais ou menos como funciona. Qual é a sua visão do Halloween especificamente e dessa categoria como um todo?

Leo Lousada: [24:52] Então vamos lá, cara. A gente tem um povo que vai nascer, vai aparecer ali ou vai se constituir no centro da Europa em uma determinada época, que é um povo que a gente chama de indo-europeu, que são os celtas, e eles vão se espalhar pela Europa inteira. Eles vão de um lado até a Turquia e do outro lado eles vão até a Irlanda. Então eles vão tomar a França, a Espanha, Portugal. Não era um povo unificado, os caras eram várias tripos diferentes que tinham algumas coisas de características em comum que faziam com que eles, antropologicamente, fossem considerados um povo por causa da língua, dos costumes, das religiões. O lance dos druidas, que eram a grande cola dessa sociedade. Os druidas eram sacerdotes, legisladores, médicos, resolviam conflitos. E esses caras, eles sacaram em determinado momento, porque isso já era mais antigo, mas eles organizaram isso de uma forma em que eles começaram a olhar para o céu e ver que tudo que acontecia no céu era um mapa do que acontecia na Terra. Então quando eu tinha os solstícios, que eu tenho solstício de inverno e solstício de verão, que marca o início do inverno e do verão, a natureza se comportava de um jeito específico. Quando eu tinha os equinócios, a natureza se comportava de outro jeito específico. E aí eu tinha os outros quatro grandes rituais que ficavam no meio, que eram os picos das estações. E aí eles criaram um negócio chamado roda do ano. O que era a roda do ano? Oito rituais que ao longo do ano marcavam aquele período que era muito importante. Por quê? Primeiro porque ele já era, em termos climáticos, importante, porque ele determinava o que as pessoas iam fazer, se era hora de plantar, se era hora de colher. E segundo, o que eles serviam, a criação da ritualística, ela serve para ensinar uma lição. Então o próprio ritual, desses oito grandes rituais, ele servia para ensinar às gerações seguintes o quão importante aquilo era. A gente está falando de uma época que não tinha supermercado. Se você não plantasse na hora certa e não colhesse na hora certa, a sua tribo morria de fome e acabou. Não tinha outra opção. Você ia ficar num lugar com as estações mais especificadas. Você tem um inverno que são três meses dentro de casa porque está cheio de leve lá fora. Não tem opção de errar no quanto de comida. Então isso se torna uma forma de marcar a forma com que aquele povo se comporta. Isso foi passando de tradições em tradições. Esse específico do Dia das Bruxas, que a gente chama de Halloween, mais futuramente, mas o nome original dele é o Salwin, que é esse ritual de conexão com os mortos. Esse era o ano novo dos celtas. Era o ano novo que no momento que para eles o ano acabava e que naquele momento existia uma ponte de espadas que ligava o mundo espiritual ao mundo físico. Nesse momento, essa ponte de espadas baixava e os mortos podiam visitar os vivos. Então é daí que vem todas as lendas do Dia das Bruxas. Você põe a abóbora lá com a lanterna dentro, o Jack O'Lantern, que é o nome daquela lanterna, para espantar os espíritos que você não quer na sua casa, para só vir os espíritos da sua família. Então era um momento de renovação, de lidar com a energia da morte, de lidar com a energia da ancestralidade, porque você estava...

Eron Falbo: [28:24] Eu queria entrar nesses aspectos psicológicos, só para te dar uma informação. O nosso programa, o nosso objetivo aqui é tentar sondar coisas que são raras e que a gente não vê sendo sondado. Então só para a gente tentar pegar essa informação, que obrigado pela informação precisa. Eu assisti vários documentários antes de falar com você sobre Halloween, e você está dando informação que até que não vi em vários documentários. Então fico impressionado com a sua pesquisa. Cara, eu quero ir além, para a gente tentar ver como que a gente hoje está vendo esse feriado, o que a gente pode extrair desse feriado de fato, e quais são algumas das conclusões mais profundas dessa... disso que você falou, de ser... é uma passagem de entrar no outono, de sair do verão e indo para o outono, assim como tem outras passagens, como Pesach, no judaísmo, de sair do inverno e entrar na primavera. Essa passagem é uma passagem drástica, que é uma passagem de um frio, como se fosse de uma realidade para outra realidade. E eu acho que... eu sinto que um dos significados é esse, de um crepúsculo, você está no meio...

Leo Lousada: [30:07] Sim, sim.

Eron Falbo: [30:08] No começo do... do... do outono, é uma coisa assim que você não está certo se você está em um mundo ou está no outro mundo. E aí que eu acho que... que exemplifica essa coisa do mundo dos mortos, que eu acho que é o inverno, né? Que é o mundo de...

Leo Lousada: [30:28] Que está chegando.

Eron Falbo: [30:29] É.

Leo Lousada: [30:30] O inverno está ali na frente.

Eron Falbo: [30:31] É.

Leo Lousada: [30:31] Porque, na verdade, esse ritual, ele marca o ápice do outono.

Eron Falbo: [30:34] É o ápice.

Leo Lousada: [30:35] Então é o lugar que a galera olhava e falava o Deus morreu. Quem é o Deus? É o Sol. O Sol é a luz. Então agora a escuridão vai tomar conta. Então é mesmo um momento que as pessoas se fantasiam.

Eron Falbo: [30:47] É o downhill, né? A descida para a escuridão.

Leo Lousada: [30:50] Total. Total. Então é um momento que...

Eron Falbo: [30:52] A gente herdou isso psicologicamente. Isso veio...

Leo Lousada: [30:55] É isso.

Eron Falbo: [30:56] Com as nossas gerações.

Leo Lousada: [30:57] Então é um momento de olhar para dentro, de ver o que precisa ser deixado para trás, do que a gente pode olhar para frente. Porque é aquela coisa, a luz está morrendo, a escuridão vai tomar conta. No momento em que estiver mais escuro, eu tenho que estar pronto para lidar com essa escuridão, porque ela não é só externa. A natureza é um simbolismo do que está acontecendo dentro do homem. Você, no inverno, come mais porque você tem uma memória...

Eron Falbo: [31:22] O simbolismo também é simbiótico, né? Tipo assim, uma coisa afeta a outra. Se você está sem comida o suficiente, ou se você não guardou comida para o inverno, e você está no mundo antigo, é porque a gente vive hoje num mundo meio anestesiado de muitas dessas coisas. Só que as realidades psicológicas ainda existem, como você falou. Só que no mundo antigo, para a gente poder entender a dimensão, as pessoas de fato morriam. A taxa de mortalidade aumentava em três a cinco vezes na época do inverno. Então essa coisa de o mundo dos mortos começou... a chegar é uma realidade, não é uma superstição.

Leo Lousada: [32:04] Não. E era isso. Esses rituais eram para marcar esses momentos porque aquilo ia acontecer. A morte ia se apresentar. Ia chegar um momento em que, hoje em dia, a gente no inverno, a gente come pra caramba no inverno. E isso é algo que a gente herdou psicologicamente lá de trás. A gente continua replicando esse comportamento por um comportamento dos nossos antepassados. Então tudo isso vem que nem uma bomba nessa hora. A gente comemora com o Halloween, brinca ali com o trick or treat. Tem a brincadeira, mas também tem o lado sério. Tem a ameaça. O que é a ameaça? É a morte que está ali. É o inverno que está chegando. É a escuridão que vai tomar conta. E aí, automaticamente, a tua mente, por mais que você, é o que você falou, a gente está anestesiado, mas o nosso inconsciente percebe as mudanças da natureza. E ele começa a jogar para o consciente coisas como assim, ó, você precisa comer mais. Vai chegar o inverno, está vindo o inverno. Ó, tem comida disponível e abundante. Come, porque pode faltar. A gente está no inverno. E aí, quando chega no verão, aí começa aquele correr para emagrecer, porque engordou pra caramba no período de frio. Esse período, para os celtas, era o período que eles chamavam de roda escura do ano. Então, você começa no início do verão a roda clara e no começo do inverno ali, efetivamente, a roda escura. Esse momento da roda escura era o momento em que todos esses caras criaram rituais que perduraram no nosso inconsciente até hoje de momentos de reflexão. Então, essa hora de outono, de inverno, esse momento da roda do ano é o momento em que a gente está mais introspectivo, é o momento em que normalmente a gente não tem muita energia para lançar projetos novos, coisas novas. Você faz, porque hoje a gente está mais anestesiado pelo mundo moderno. Mas era uma época que a galera lá atrás nem pensava em fazer nada. E quando eu estou falando lá atrás, eu estou falando de 50, 60 anos atrás. Eu não estou falando de milhares de anos atrás. O inverno sempre foi muito rígido em muitos lugares. Até hoje é. Então, esse pessoal, por exemplo, que está mais conectado a esse tipo de estação, o inconsciente desses caras funciona como regulador do que eles fazem e do que eles não fazem.

Eron Falbo: [34:23] E também a gente tem que lembrar que a gente está aqui, grande parte da população do mundo está em metrópoles e tudo mais. Mas só grandes densidades de população. Mas a maioria das populações do mundo estão em cidades pequenas, espalhadas em interiores. E essas pessoas vivem mais a natureza, vivem a realidade da natureza muito mais. O que acontece é que quem está exportando cultura são as metrópoles que estão alienadas. Aí acaba que as tradições acabam sendo corrompidas e acabam mudando. Só que a realidade psicológica acaba ficando, como você falou.

Leo Lousada: [35:03] Exatamente.

Eron Falbo: [35:04] Eu acho que uma coisa fantástica do Halloween, o Dia de Todos os Santos, em português, não sei nem se tem no Brasil, o Dia de Todos os Santos.

Leo Lousada: [35:14] Aqui virou o Dia de Finados.

Eron Falbo: [35:16] Ah, o Dia de Finados. Ah, tá. Então, isso é uma corrupção ainda maior. Porque antes era... Agora qualquer finado...

Leo Lousada: [35:25] E é invertido. Porque o nosso finados deveria ser em maio, não em outubro. A gente tem... Essa roda do ano, toda essa construção de ritual que está no nosso inconsciente, ela foi construída no Hemisfério Norte.

Eron Falbo: [35:38] Sim, é.

Leo Lousada: [35:39] A gente replica os rituais do Hemisfério Sul, como Natal, Festa Junina, Halloween, que é uma corrupção da forma como a natureza está se comportando.

Eron Falbo: [35:49] Já é mais uma abstração, né?

Leo Lousada: [35:52] Exato.

Eron Falbo: [35:52] É mais uma fuga da conexão, né? Com ciclos reais da coisa.

Leo Lousada: [35:58] É verdade.

Eron Falbo: [35:59] Eu nunca te parado pra pensar que aqui no Brasil, a gente está mais... Na verdade, isso é bem grave, né? Porque a gente está totalmente invertido, né?

Leo Lousada: [36:08] Total.

Eron Falbo: [36:08] E a gente é descendente europeu. A gente pode falar o que quiser, né? Nas universidades, mas é tipo assim, nossa cultura europeia, né? A gente não está no Guarani-Lândia, a gente está no Brasil. E, cara... Aí eu ia falar sobre... Essa... A questão que pra mim foi muito profunda... Eu sempre meio que desqualifiquei o Halloween como uma coisa banal, né? Só que essa parada de você abrir uma possibilidade pro mundo dos mortos entrar... O mundo dos mortos não é só como a gente herdou essa coisa de, tipo, espíritos assustadores. O mundo dos mortos, metaforicamente, é a sua tradição, a sua cultura, a sua ancestralidade.

Leo Lousada: [37:03] Isso.

Eron Falbo: [37:03] Então, é um momento pra você largar de mão da vida do hoje, né? Que é o verão, é o lado consciente, entrando até na coisa psicológica que a gente entrou, e visitar as coisas que estão te influenciando, que estão no lado escuro, no inconsciente, e a gente sabe, né? Através de anos, décadas de estudo psicológico, que os ancestrais e a cultura que a gente vê é grande parte do que está no nosso inconsciente, né? É grande parte do que está nos afetando. E mesmo se não for em termos psicológicos, a gente deve a quem a gente é quase 100%, né? Tipo, a gente tem uma pequena coisinha que a gente vive em nossa vida e muda, mas 90%, sei lá quantos porcentos, mas muitos porcentos, para o que foi vivido pelos nossos ancestrais, que a gente herdou. Mesmo que a gente ache que não, né? Então, eu acho que a nossa sociedade hoje em dia está vivendo muito na luz, vivendo muito no verão, no consciente, e achando que isso é consciente, na verdade, sendo que está sendo muito influenciado por forças que eles não sabem. Eu acho que isso é uma das coisas, talvez uma das maiores mensagens do Halloween, que não é sobre o assustador, né? É sobre o bom, porque, claro, a gente usa máscara para que os espíritos ruins não nos reconheçam, né? Mas não é só espírito ruim que tem, né? A gente tem, dentro do inconsciente, a gente tem tudo. E a gente está ignorando o bom com o ruim, né?

Leo Lousada: [38:46] É, metaforicamente falando, a gente tem isso que é o ruim, que é o espírito ruim, na verdade, é aquilo que a gente tem que deixar para trás. São os aspectos do nosso passado ou da nossa ancestralidade que, de alguma forma, não cabem mais para a gente. E o que a gente chama de espíritos bons são os aspectos da nossa ancestralidade que continuam ensinando coisas para nós. E você falou uma coisa que é verdade. As pessoas vivem uma ilusão de que elas acham que a ancestralidade delas não tem nenhum tipo de aspecto sobre elas. Só que você nasce num mundo que, quando você nasce, as leis já estão definidas, a ética já está definida e a moral já é definida. É como se você entrasse num barco que ele já tem um destino certo, já tem as regras próprias. A própria universidade que te ensinou o pós-modernismo, que diz que só importa o que é agora e nada do passado importa, já existia quando a gente nasceu. A gente deve, mesmo se você acredita nisso, você deve a algum pensador que veio antes. Qual que é a sua escolha, então? Primeiro, você entender que, mesmo inconscientemente, você afetar... Você afetar... o tempo todo por esses rituais, porque isso marca a sua vida. Da mesma forma que um relógio marca as horas, que você sabe se é cedo ou se é tarde para alguma coisa, os rituais marcam num contexto mais macrocósmico. Quando você sabe que chegou junho, que tem festa junina, aquilo marca para você uma ideia de que você está chegando no meio do ano. Quando vem o Natal, o ano acabou. Então, essas coisas entram no nosso psicológico de uma maneira muito forte. Então, até quem acha que não é influenciado é muito influenciado. E, normalmente, quem acha que não é influenciado é o mais influenciado, porque isso é o mais inconsciente possível. Quando você entra nesse barco, que já tem o destino chamado vida, que já tem um destino ali traçado e já tem as regras estabelecidas, você tem duas opções. Ou se é o cara que vai ficar no beiral olhando para a paisagem, ou se é o cara que vai subir lá, vai pegar o timão do navio e vai falar não, eu vou escolher para que porto eu quero ir. É isso que o tal do... A psicanálise, através da terapia, é isso que a magia, é isso que o autoconhecimento, que tenta te trazer. Tomar esse controle desse barco e falar, ok, a minha vida não precisa ser nascer, estudar, casar, ter filho, ter neto e morrer. Isso é o que muita gente tem como sucesso. Minha vida não precisa ser isso. Minha vida pode ser exatamente o que eu quiser. Em todos os níveis você vai estar sendo, de alguma forma, influenciado por algum tipo de ancestralidade. Nesse momento do Halloween isso fica muito evidente de que é o momento de se voltar para dentro, os dias estão ficando mais curtos, tem menos luz solar, o seu corpo começa a entender que é o momento mais de ficar mais resguardado. Então automaticamente você volta para o estado de mais reflexão e aí você começa a sacar coisas. Se você usar bem esse momento de reflexão para refletir, por isso que era o ano novo celta. Porque os caras olhavam para o último ano e falavam, o que eu fiz de certo e o que eu fiz de errado? É por isso que no nosso ano novo, que já é mais romano, na época de janeiro, o deus Janus, que tem a face nova e a face antiga, ali naquele primeiro dia, a gente faz um monte de promessa. Não, ano que vem eu vou começar a academia, vou fazer curso de inglês, vou fazer não sei o quê. Porque é como se fosse um renascimento, você olhou para trás, viu tudo aquilo que você não gostou e faz promessas para coisas que você gosta. E o ser humano precisa de ritualização, porque senão ele não consegue criar o mínimo de rotina para que ele se insira dentro de algo. E aí ele cria esses rituais. Então a gente tem esses rituais grandes, como você trouxe, os rituais da roda do ano, e o Halloween é um ritual muito específico para revisitar esse passado e olhar para um futuro melhor. E a gente tem as pessoas que olham para isso e falam ah, mas isso aí é só mais uma festa.

Eron Falbo: [42:51] Eu gostei disso que você falou, que a pessoa que está menos conectada com essas coisas é a pessoa que está mais inconsciente. E aí eu estou adicionando que ela está fadada a repetir mais o que os ancestrais, o que ela herdou. Porque ela está com menos livre-arbítrio, está com menos consciência e por isso ela pode escolher menos e ela está só repetindo.

Leo Lousada: [43:19] Repetindo. Ela está mais automatizada. Ela compra e fala ah, isso funcionou, vou repetir.

Eron Falbo: [43:24] Isso é ótimo, porque a nossa sociedade preza muito por liberdade. Então é uma forma muito boa de convencer ou trazer a importância desses rituais, dessas passagens de estação do ano para as pessoas. Eu, cara, vou estar em festa de Halloween e tal e eu dei esse estudado para conversar com você e já estou assim, muito mais, isso me trouxe uma consciência muito grande sobre que eu sou judeu e celebro as passagens judaicas. Então Halloween sempre foi uma coisa meio pagã dentro da minha comunidade. Então foi uma coisa sem muita... a gente faz a mesma coisa, até que é uma coisa até para a gente conversar que é interessante. Em Púrim a gente veste roupas e etc. E é justo na mesma época só que na passagem do do do inverno para a primavera. Mas tem uma característica muito parecida. Até essa coisa de confusão do do do do do crepúsculo que você tem que beber o suficiente para não saber a diferença entre Mordechai e Raman que era o inimigo de Mordechai.

Leo Lousada: [44:43] Eu acho que inicialmente na Babilônia antiga era ou na Pérsia antiga era entre Istari e Marduk.

Eron Falbo: [44:52] Que pode ter vindo de Istari e de Mordechai inclusive os dois deuses.

Leo Lousada: [44:56] Não, a teoria na verdade é que Istari e Mordechai que vem de Marduk e de Istari.

Eron Falbo: [45:04] Claro, por isso que eu estou falando desse jeito. Então, isso é outra coisa que a gente pode iniciar esse assunto como a gente vê os mesmos padrões sendo repetidos e às vezes em épocas diferentes só que não é épocas aleatoriamente diferentes do ano. São a mesma época do ano só que em um inverso. É a mesma coisa que você falar o sol se pondo é uma passagem o sol nascendo também é uma passagem é um momento onde há confusão então eu vou usar fantasia porque há confusão quem é quem o que é o que os dois momentos a gente herda o carnaval brasileiro desse momento o carnaval brasileiro é em fevereiro que é na época de Puri então a gente usa fantasia então aqui no Brasil por exemplo a gente usa fantasia no Halloween e no carnaval na época do carnaval então cara é isso acho que pra mim a mensagem que a gente está trazendo que eu acho que é muito legal é a gente eu acho que a coisa que eu mais gostei que você falou foi foi da internalização que lembrar que a gente vem de europeus e realmente eu pelo menos sinto isso acho que muita gente sente essa essa essa autoanálise nesse momento de introspecção que está começando a chegar para o final do ano mesmo se você quiser ser sair da natureza você fala não daqui a pouco vai fechar o ano do imposto de renda entendeu então a gente está pensando o que que é você tem você tem rituais você tem rituais burocráticos

Leo Lousada: [46:49] é porque se você for pensar no passado o Lamas que era o ritual da colheita ele era um ritual burocrático você tinha que ir lá fazer a colheita o ritual ele era a festa da colheita o esse momento do Halloween ele era um ritual burocrático que fala galera está no meio do outono não dá mais agora para ter desperdício agora é a hora de guardar tudo porque o inverno está ali na frente então não deixa de ser burocrático quando a gente pensa por exemplo está chegando ali um momento de declarar imposto de renda é um ritual burocrático talvez daqui a mil anos alguém vai olhar para trás nossa eles tinham um ritual antigo que eles tinham que ir lá no grande governo e dizer o quanto eles ganhavam para poder pagar os impostos e esse era um ritual chamado imposto de renda talvez vai ser assim que eles vão ler o nosso imposto de renda

Eron Falbo: [47:37] eu pensei em uma coisa aqui que no Rosh Hashanah no ano novo judaico tem uma coisa que você decide quem vai morrer quem vai viver quem vai ganhar dinheiro quem não vai ganhar dinheiro naquele dia aí não importa o que você faça se você trabalhar muito aquilo vai acontecer daquele jeito sendo decidido no ano novo judaico agora se você O Ano Novo Judaico também é no começo do outono, então é uma época parecida com o Halloween, num tempo parecido. Tem um ritual celta, um conceito celta, que é que durante o Halloween você pode resgatar as almas mortas e trazer para o mundo dos vivos. Talvez se juntando os dois conceitos, porque o celta a gente na verdade não sabe tanto para entender a filosofia deles, eles não têm escrita, os druidos proibiam eles de escrever. Mas imagina que eles tivessem a mesma coisa, que durante o Ano Novo a coisa já é decidida, então significa que já está decidido se a pessoa vai morrer ou não. Então você tem um tempinho onde você pode resgatar aquela pessoa que já morreu, que já está para morrer, como guardando o suficiente para o inverno, que a pessoa não ia guardar, e fazendo as coisas burocraticamente de uma forma sensata, e aí você vai salvar a pessoa do mundo dos mortos.

Leo Lousada: [49:21] E a maioria das mitologias, se não todas, elas nascem de algo extremamente visível da realidade humana.

Eron Falbo: [49:35] E aí assim, isso é muito perigoso. Se você decretar que você vai morrer nesse período, e morrer nesse período é talvez, lembra lá da historinha da cigarra e da formiga? Talvez a cigarra é a que vai morrer naquele período, porque ela não está fazendo nada. Então se você está decretado, a formiga é quem pode salvar a cigarra, porque a cigarra não fez nada para isso.

Leo Lousada: [49:58] Quem é a formiga nessa história? A formiga é a experiência, é aquela que já sabe, é a sabedoria que já sabe o que tem que ser feito. E as mitologias são construídas para serem as grandes formigas. Para que a cigarra, que é aquele que não sabe qual é a consequência daquilo, quando ouça as grandes histórias das mitologias, aprenda que a cigarra tem que ser formiga. Porque senão ela vai morrer.

Eron Falbo: [50:20] E por isso a gente tem que, nessa época de finados, resgatar os nossos finados, os nossos antepassados, aquelas formigas que sobreviveram, porque as cigarras, a gente não herdou nada das cigarras. Porque elas morreram historicamente. A gente tem aí a cultura dos cártagos, a cultura dos próprios celtas. Tem muita gente aí que, apesar de ter prós e contas, não estou julgando ninguém aqui, mas no final das contas não sobreviveram. E a gente está honrando aqui a cultura que a gente herdou. A gente está honrando aqui os nossos finados, que no final das contas sobreviveram. Acho que é uma coisa quase paradoxal que tem uma profundidade...

Leo Lousada: [51:11] Bem grande, cara. Talvez um dos países que mais honrem essa tradição é o México. Olha como é o Dia dos Mortos no México. Eles têm uma santa, a Santa Muerte. Eles têm toda uma cultura de, no Dia dos Mortos, de olhar para os antepassados e entender que eles estão vivos, que eles estão ali por causa dos antepassados. Por causa de tudo que esses caras sobreviveram, aprenderam e deixaram de legado para quem ficou depois. Então é muito legal ver a festa do Dia dos Mortos dos mexicanos, porque é um Halloween, é a mesma ideia de mitologia, mas é uma expressão cultural totalmente diferente.

Eron Falbo: [51:57] Você lembra quando que é? Em maio?

Leo Lousada: [51:59] É agora também.

Eron Falbo: [52:00] Agora também?

Leo Lousada: [52:01] É, agora. Eles comemoram o Dia dos Mortos agora também.

Eron Falbo: [52:05] Eles estão no Esfério Norte também.

Leo Lousada: [52:07] É, isso, isso. Mas vão comemorar junto com a gente também nesse período agora. Então, poxa, é uma baita de uma cultura que tem isso muito forte.

Eron Falbo: [52:16] É o Halloween do jeito deles, né? E eles realmente resgataram, talvez porque eles tinham um império tão forte, né? O remanescente maia e os aztecas, eles eram fortes e acho que mantiveram muito da cultura pagã deles, bem mais forte que outros lugares.

Leo Lousada: [52:37] Não, totalmente. Isso não é uma cultura europeia, ao contrário do que muita gente acha. Claro que rolou um sincretismo. Essa ideia de associar a santa à morte, isso vem do sincretismo dos espanhóis. Mas a cultura azteca era uma cultura que prezava também por observar, obviamente. A gente tem calendários solares extremamente evoluídos dos aztecas. A gente tem um deles, inclusive, lá, gigante, lá no Museu de Antroposofia, lá na Cidade do México, aquele super famoso, né? Um calendário solar. Os caras, eles eram obcecados. Os aztecas eram obcecados com o céu e com a agricultura. Então, para eles, eles também tinham os mesmos rituais, com outros nomes, com outras simbologias, com uma cultura diferente. Isso sobreviveu. E isso também ficou no Dia dos Mortos para eles.

Eron Falbo: [53:30] A gente, cara, então assim, para a gente encerrar nosso papo hoje, vamos deixar uma mensagem. Tem uma hora marcado, tá? Só para você saber que a gente tem um horário aí para as pessoas não se perderem muito. Cara, eu acho que a gente chegou numa coisa muito legal. Porque estamos pegando um dia, na verdade, que no final virou o Dia dos Finados. Que mesmo que tenha sido uma tentativa da Igreja Católica para fazer sincretismo, etc. Ainda totalmente válida, porque Finados tem tudo a ver com o que passou, com os antepassados, etc. Não é sem sabedoria.

Leo Lousada: [54:18] A Igreja Católica não foi infeliz nisso. Estava tentando satisfazer aquelas pessoas.

Eron Falbo: [54:26] E deve ter... Os celtas, que eles dominaram, devem ter... Para satisfazer pessoas, ainda mais quando você tem uma cultura engrenada, assim como tem no México até hoje, você precisa bater numa essência. Você tem que... Para você enganar, né? Tipo assim, falar... Agora passa a comemorar o dia de Lênin. E não o dia lá do cristianismo. Você tem que pegar e entrar dentro do que é importante para aquele povo naquele dia.

Leo Lousada: [55:04] Você tem que manter a essência daquela ideia. Você pode dar uma roupa diferente, mas você precisa manter a essência da ideia.

Eron Falbo: [55:12] Eu acho que é por isso que a gente ainda é salvo. Eu acho que a humanidade só não acabou totalmente, não voltou a ser macaco, sei lá. Por causa disso. Porque a gente, apesar de estar criando roupagens novas o tempo todo e apagando as coisas, e às vezes apagando partes muito significativas e importantes, a gente está secretamente, os memes estão ali sequestrando as coisas e mantendo a coisa viva de uma maneira ou de outra. Então, eu acho que o que a gente pega para pessoas pensantes, pessoas que querem ter vidas mais significativas, nesse dia de finados a gente pode... Os memes... Os memes... Zapra, pra se conectar com quem trouxe a gente até onde a gente tá hoje. Tanto os romanos antigos quanto os nossos avós. E, cara, acho que vai ser muito mais produtivo esse dia.

Leo Lousada: [56:18] Cara, nós somos produto de tudo que aconteceu no passado. Desde um romano, um japonês, um chinês, com os nossos antepassados europeus, africanos. A gente é produto disso. Não dá pra fugir disso. Essa hora do dia das bruxas é a hora da gente entender duas coisas importantes. Primeiro que mitologia não é uma mentira. A mitologia é a verdade de um povo. E se ela é a verdade de um povo é porque, no fundo, ela tem uma história ali, um aprendizado, uma essência pra ser absorvida. Então, todas as religiões, todos os povos, todos eles são mitologias. Porque eles, no fundo, são a verdade daquele povo. E a segunda coisa é a gente aprender a olhar essas mitologias, como muitas vezes a gente olha isso como matéria de escola e esquece depois, mas esquece que aqueles ritos, aqueles mitos, eles contam histórias que têm sabedorias, que falam da nossa conexão com o mundo que a gente vive. seja ele o mundo natural ou o mundo humano. Seja ele um mundo mais próximo dos fenômenos astronômicos e de estações, ou mais próximo de fenômenos políticos e sociais humanos. Mas, no fim, uma mitologia nada mais é do que uma grande escola pra ensinar isso pra gente. Então, quando a gente consegue olhar pra um ritual desse, como o Halloween, o antigo Solwing, que é esse ritual de reconexão com o seu passado, de reflexão, de, meu, eu vou entrar agora num período de inverno que é bem puxado, eu vou ter que olhar pra dentro de mim. Eu preciso olhar pra dentro de mim com amor. Porque se eu não tiver amor na hora de olhar pra dentro de mim, eu não vou perdoar meus erros. E eu não vou trazer os meus acertos pra uma consciência de que aquilo são joias pra eu manter pros próximos ciclos. Então, é hora de, quando a gente fala de finados, quando a gente fala de revisitar nossos antepassados, é hora de ver o legado que essas pessoas deixaram pra gente, de erros e acertos, e entender que todo dia a gente constrói o nosso legado de erros e acertos. Só que se a gente não olha pra dentro, não analisa isso, a gente se perde, a gente não aprende, a gente se automatiza, e aí o dia vira uma rotina, a vida fica chata, e a gente fica buscando o sentido da vida fora, quando ele tá dentro. Então, eu acho que essa é, talvez, a maior lição que o Halloween tenha pra gente em termos simbólicos.

Eron Falbo: [58:52] Muito bom, muito bom, Léo. Léo, eu queria te agradecer muito pela sua presença, foi fantástico. Antes da gente terminar, eu queria fazer uma pergunta que eu faço pra deixar uma mensagem pra todos os nossos convidados. Baseado nisso tudo que a gente falou, o que pra você, Léo, se você pudesse mudar uma coisa sobre o mundo hoje, qual seria essa coisa e por quê?

Leo Lousada: [59:26] Eu acho que hoje seria a empatia pro momento que a gente vive. Acho que as pessoas são muito rápidas hoje de julgar e de, até pra não serem julgadas, criarem uma fantasia, uma ilusão de uma vida que não existe. E no fundo, no fundo, isso é uma falta de empatia. Acho que a gente precisa mudar isso. A gente precisa resgatar essa característica humana de não julgar rápido, de quando olhar pra alguma coisa que não entende ou não concorda, ir lá e ouvir. E aprender a ouvir as pessoas pra tentar um pouco se colocar no lugar e entender o porquê que as coisas são do jeito que elas são. Acho que a partir do momento que a gente sai de uma bolha de que a gente sabe tudo e se abre pra aprender com todo mundo, a gente vai ganhar, vai ganhar muito. Vai evoluir muito com a humanidade. Então acho que hoje, o que eu mudaria, ser essa capacidade de empatia, de todo mundo poder empatizar mais com as pessoas.

Eron Falbo: [60:29] Ótimo, perfeito, cara. Cara, você pode só esperar cinco minutos, eu vou fazer uma mensagem pro público, depois a gente se encontra de novo offline. Pode ser?

Leo Lousada: [60:38] Combinado.

Eron Falbo: [60:39] Então valeu, tudo de bom, boa noite, abração.

Leo Lousada: [60:41] Valeu, tchau, tchau.

Eron Falbo: [60:42] Tchau.

Leo Lousada: [60:43] Tchau.

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