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Dra Camila Ribeiro: [0:00] Psicólogos Anônimos. É muito importante a gente buscar esse sentido e esse propósito, e eu posso me considerar privilegiada de ter percebido o meu propósito e encontrado um espaço para poder vivenciar isso. Hoje, nós usamos essa terminologia nesse encargo de custódio, que é um guardião das tradições de Alcoólicos Anônimos. Eu estou tendo a oportunidade de perceber o quanto eu fui privilegiada e também o quanto a minha história profissional já estava um pouco atrelada ao que eu tenho vivido nesses últimos tempos. E eu acho que isso é uma grande riqueza. E ter essa oportunidade de perceber, numa irmandade que é o AA, a riqueza de desenvolver pessoas, de possibilitar que essas pessoas reencontrem a sua dignidade, se reinsiram socialmente, restabeleçam os vínculos familiares, é muito bacana. Então, eu acho que, realmente, faz muito sentido, não só para o meu trabalho enquanto psicóloga, mas como ser humano. Então, quando vi você falando sobre isso lá, eu falei: poxa, que legal, eu acho que é muito interessante.
Eron Falbo: [1:41] Você encontrou o seu propósito, você se sente em casa, você se sente autorrealizada. Na pirâmide de Maslow, você está ali, você escalou.
Dra Camila Ribeiro: [1:50] Eu acredito que sim. Você sabe, tem uma história que eu sempre conto para as pessoas, os amigos em AA. Quando eu era pequena, eu via um homem, ele era meu vizinho, e eu via o desafio que era para ele ficar em sobriedade. E quando ele estava muito alcoolizado, eu também vi essas cenas. Eu devia ser muito pequena, porque depois eu fui perguntar à minha mãe quantos anos eu tinha naquela época: entre 10 e 11 anos. Era meu vizinho, eu via ele perambular. Eu falo que eu acredito que naquele momento despertou em mim esse interesse por conhecer o ser humano, entender o que leva a ele ter certos tipos de comportamento. E anos depois eu fui reconhecer isso, quando eu estava em AA e ele era membro da Irmandade de Alcoólicos Anônimos. E eu falo: olha que privilégio, anos depois, celebrando esse ano, eu celebro 20 anos de profissão nesse cargo, podendo estar à frente, falando isso.
Eron Falbo: [3:11] Você está há 20 anos nesse cargo?
Dra Camila Ribeiro: [3:14] Exatamente, desde 2001.
Eron Falbo: [3:19] Estou falando desse cargo específico dentro do AA.
Dra Camila Ribeiro: [3:22] Na verdade, como amiga de Alcoólicos Anônimos, eu atuo desde 2004, quase isso. Agora, esse encargo tem uma rotatividade.
Eron Falbo: [3:35] Você não tem cara de que tem idade para isso.
Dra Camila Ribeiro: [3:38] Pois é, não é?
Eron Falbo: [3:41] Mas deixa eu te perguntar, só para a gente entender melhor: é uma posição única a que você está, e eu estou super curioso para saber muitas coisas legais dessa posição sua. Agora, para começo de conversa, vamos entender essa posição: o que significa ser presidente da... Como é que é? Serviços? O que significa ser isso? Porque o AA em si não tem um chefe, não tem uma chefia.
Dra Camila Ribeiro: [4:10] Verdade. Eu falo que a estrutura de Alcoólicos Anônimos é fantástica, porque não existe uma chefia. Existe, na verdade, uma estrutura legal para Alcoólicos Anônimos que é representada por membros de diversas localidades do Brasil. E vamos colocar da seguinte forma: o AA no Brasil tem 45 áreas hoje, quer dizer, espalhado pelo Brasil inteiro. Dessas representações, nós temos as representações regionais, que compõem essa junta de serviços. E dessa junta de serviços, somos quatro membros não-alcoólicos. Porque Alcoólicos Anônimos, como o nome já diz, eles têm como princípio espiritual o anonimato. Eles não podem ir à mídia falada, rádios, televisão, fazer esse trabalho que a gente está aqui conversando, divulgando, falando um pouquinho do que é. Então, para esses serviços, eles contam com a colaboração de profissionais.
Eron Falbo: [5:25] Como você.
Dra Camila Ribeiro: [5:26] Como eu, que conhece a irmandade através de terceiros, né?
Eron Falbo: [5:32] Então você, desculpa eu perguntar objetivamente, mas então você não é alcoólico, você não teve um problema, uma trajetória, vamos dizer, daquelas poucas pessoas que têm um problema mais sério com álcool.
Dra Camila Ribeiro: [5:46] Perfeitamente. E nem tive, ao longo da minha história, algum familiar que tivesse problema que pudesse justificar, porque, você sabe, muitos familiares vão procurar ajuda para entender aquela pessoa que está sofrendo com a doença do alcoolismo.
Eron Falbo: [6:06] E uma pergunta: vocês que são membros de AA, vocês precisam ser totalmente abstinentes também? Vocês não podem tomar qualquer bebida? Como é que é essa relação?
Dra Camila Ribeiro: [6:18] Perfeito. Os membros de AA, o programa ensina a abstinência, preconiza isso. Agora, para os amigos de AA, alguns amigos até fazem uso de algum tipo de bebida. Eu, particularmente, já há alguns anos não tomo nenhum tipo de bebida alcoólica, mas por uma opção pessoal, profissional, por entender, enfim, os riscos, até porque eu estou fazendo todo um trabalho de desintoxicação, de tentar ser o mais natural possível, me alimentar melhor, e aí, enfim, o álcool, eu creio que não compõe isso.
Eron Falbo: [7:04] Sim, existem muitas pessoas que não são da AA, que fazem escolha de lifestyle, e inclusive que não têm problemas com alcoolismo, que fazem escolha de não consumir o álcool, sem julgamento.
Dra Camila Ribeiro: [7:18] Perfeitamente. E veja, então, esses amigos, alguns podem até fazer uso recreativo, enfim, não terem problemas com o álcool. É um pouco incomum até, eu acredito que muitos acabam adotando o estilo de vida abstinente. E nós, amigos, então, somos profissionais que conhecemos o trabalho e colaboramos com essa divulgação. Essa junta de serviços, então, ela elege, de quatro em quatro anos, esses membros que a compõem. Atualmente, somos quatro profissionais não alcoólicos que compõem essa junta, que, na verdade, dá legalidade para toda a estrutura legal de Alcoólicos Anônimos no Brasil. E, além de nós quatro, dez representantes membros de AA. Então, esse encargo de presidente, eu falo que é um encargo legal, porque tradicionalmente em AA ele é regido por, como eles chamam, um poder superior, na verdade, que se manifesta na consciência de cada membro. Então todos têm uma autoridade no sentido de responsabilidade com a irmandade. E é uma forma de funcionar muito interessante. Essa experiência desses últimos quatro anos, o meu encargo encerra agora em dezembro de 2021, essa experiência muito rica de ver o quanto a irmandade se organiza para...
Eron Falbo: [9:02] Mas é tudo trabalho voluntário. Porque o que eu gostaria de entender: você falou que é meramente, vamos dizer, jurídico, esse cargo, não sei a palavra que você usou, mas como que é feito, porque eu costumo dizer aqui que o nosso programa, a gente é um navio pirata, mas até um navio pirata tem um capitão. Então, como é que o voluntariado, como é que é feito o marketing? Que, apesar de não ser uma coisa... Existe marketing, existem vídeos que vocês fazem, informativos, você mesmo escreveu um manual, né? Como que isso é decidido, como é colocado para a frente sem uma hierarquia, sem uma liderança?
Dra Camila Ribeiro: [9:44] Tudo é feito através da consciência coletiva dos grupos, que se reúnem em assembleias frequentes e que vão fazendo recomendações para a nossa conferência de serviços. Então, ali se reúnem essas representações do Brasil todo e passamos um período de uma semana ao longo do ano para conversar, deliberar e decidir as ações que serão tomadas para o ano seguinte em Alcoólicos Anônimos.
Eron Falbo: [10:13] Então tem como se fosse um conselho, um conselho administrativo.
Dra Camila Ribeiro: [10:18] Exatamente, e é um serviço voluntário.
Eron Falbo: [10:22] Mas, você falou que o seu cargo é mais jurídico, mas dentro desse conselho também você lidera o conselho?
Dra Camila Ribeiro: [10:33] Na verdade, estou nesse encargo de presidente.
Eron Falbo: [10:37] É, mas é isso que estou perguntando, porque você falou que é jurídico, mas tem um conselho que é prático também, que vocês fazem decisões de liderança, decisões de rumo, porque qualquer instituição, qualquer grupo organizado que faça ações em grupo precisa de um direcionamento. A gente vai fazer A e não B. Só para deixar claro isso, todo mundo com quem eu falo do AA fala que todo mundo é igual. Eu falo: legal, bonito, mas quem está direcionando? Realmente, para eu entender.
Dra Camila Ribeiro: [11:14] Isso, e é muito importante essa sua pergunta, porque, veja, a primeira ideia que a gente tem é que existe uma liderança que vai dando o rumo para as coisas. E, na verdade, eu posso dizer que o meu papel é muito mais de mediar, de ir fazendo a condução e a mediação, mas as decisões nunca são tomadas individualmente, elas são sempre consensuais. E parece muito estranho isso, porque a gente imagina uma irmandade com tanta representatividade, com membros no Brasil inteiro, como conseguir isso?
Eron Falbo: [11:46] Mas do conselho, porque não é cada membro do AA que faz as decisões de marketing, por exemplo, só realmente para eu entender o funcionamento.
Dra Camila Ribeiro: [11:56] Então, veja, nós temos, nessa Junta de Serviços, os nossos comitês de assessoramento. Um deles é o Trabalhando com os Outros, que faz, por exemplo, todo esse trabalho de divulgação nas mídias, nas redes sociais, né? Alcoólicos Anônimos tem no YouTube, tem no Instagram, enfim.
Eron Falbo: [12:18] E aí, como eles fazem essas decisões de rumo? A gente vai tomar essa postura sobre o problema político do Brasil? A gente vai tomar essa postura sobre o que está acontecendo em Brumadinho?
Dra Camila Ribeiro: [12:34] Isso. Então, na verdade, assim, as ações de A.A. são sempre conversadas. Por exemplo, o CTO, o representante do CTO, ele se conecta, através de reuniões que acontecem com uma certa frequência ao longo do ano, com os representantes de CTOs de todo o Brasil. E aí, através das ideias, daquilo que é conversado, vai se dando um direcionamento, aquilo que é comum.
Eron Falbo: [13:04] O que são os CTOs?
Dra Camila Ribeiro: [13:06] Então, são os Comitês Trabalhando com os Outros, é o termo desse comitê de assessoramento, entende? Então, a gente tem ali... como se...
Eron Falbo: [13:14] Fosse ministérios, ministérios de diferentes assuntos, departamentos.
Dra Camila Ribeiro: [13:21] Nós usamos essa terminologia, são as comissões de assessoramento para essas atividades, porque veja, nós publicamos uma revista, que é a Revista Vivência. Então, existe um comitê que se chama Comitê de Publicações Periódicas. Tem ali um representante, que é um dos colaboradores, mas ele tem toda uma equipe de colaboradores que assessoram, mas que recebem informações dos representantes de cada área do Brasil. Então, nunca é uma decisão isolada. Nem pode ser. Sabe por quê, Eron? Alcoólicos Anônimos, veja, há mais de 85 anos, no mundo, vem salvando vidas seguindo essa forma de funcionamento. Então, nós temos um manual, que eu digo que são sugestões de como a gente deve funcionar, o nosso regimento interno. E esse manual vai fazendo essas sugestões de como as decisões são tomadas, baseadas naquilo que são tradições que foram deixadas pelos fundadores da A.A. Então, por que isso? Para que não prevaleça a minha visão ou a visão isolada sobre a A.A. Porque uma visão isolada pode ser muito básica, muito pequena, unilateral, e isso não é interessante.
Eron Falbo: [14:52] Camila, como não haver cisões? Já houve alguma que você viu? Porque existe uma certa falta de centralização. Você está falando que existem comitês diferentes que se conversam. Nenhum comitê fala: poxa, eu acho que eu quero fazer isso? Isso nunca aconteceu? Não tem cisões históricas?
Dra Camila Ribeiro: [15:15] Na verdade, é sempre desafiador chegar a um consenso quando se tem uma série de pessoas pensando e trazendo suas opiniões a respeito das coisas. Agora, o que é interessante, o que eu vejo em Alcoólicos Anônimos, que é uma grande riqueza e que eu tenho aprendido muito com isso, é que, como existe o diálogo e sempre um apadrinhamento, essa expressão que nós usamos, que é esse cuidado daqueles que têm um pouco mais de experiência na irmandade, de ir dando suporte, de ir dando orientação, de ir apadrinhando, conduzindo e mediando para que essas cisões realmente não aconteçam. Isso é um princípio também de A.A., a unidade. Nós falamos que temos três princípios: unidade, serviço e recuperação. Então, o que norteia isso? Esses princípios tradicionais que são descritos, e o membro de A.A. se dedica a conhecê-los e a vivenciá-los. E com isso, obviamente, existem desafios, mas eles são sempre olhados com muito cuidado, com muito respeito, e sempre viabilizando a unidade. Então, por incrível que pareça, é um sistema que funciona e que assegura que o bem-estar comum aconteça. Por isso, Eron, que isso também é um princípio de A.A.: A.A. é apolítico. Nós não entramos em controvérsias. Questões políticas, questões sociais que envolvam controvérsias não são do nosso assunto.
Eron Falbo: [17:12] Isso me lembra maçonaria, sem querer fazer uma comparação. Eu fui maçom, eu seria de novo, e estou falando isso pelo lado positivo, no sentido de que é uma fraternidade, e as pessoas acham que é uma fraternidade extremamente política, envolvida em polêmicas de todo tipo, em guerras etc. E de fato, assim, membros são envolvidos, assim como membros da A.A. podem muito bem ter se conhecido na A.A. e fazer ações juntos, só que não estão necessariamente representando a A.A. como um todo enquanto estão fazendo essas ações. Na maçonaria também tem muitos casos assim. E eu queria entrar nesse ponto que você falou: você começou dizendo que a A.A. é uma fraternidade. Quando você fala nesse sentido, muitas pessoas chamam a A.A. de uma religião, de uma seita, de uma fraternidade, talvez seja outra palavra que tenha a ver com essas, de uma maneira não pejorativa, vamos dizer. Eu queria que você me comentasse como é isso pra você pessoalmente, como é isso no Brasil, como é essa visão de diferentes formas de ver a... entre um centro de terapia, de reabilitação, ou uma coisa mais científica, mais metodológica, até seita, o espectro. Acho que tem todas as possibilidades de visão. Como é isso para você, no Brasil?
Dra Camila Ribeiro: [18:58] Nós usamos um termo, Alcoólicos Anônimos, como uma irmandade. E eu gosto de dizer que essa irmandade traduz para a gente essa rede de solidariedade. Então, enquanto profissional, a gente pensa os grupos de Alcoólicos Anônimos como um grupo de ajuda mútua, o que acontece dentro de uma grande rede de solidariedade, onde as pessoas se ajudam entre si. Como você mesmo disse, não tem cunho religioso nenhum. Existem pessoas de diversas religiões que são membros de Alcoólicos Anônimos e se utilizam desse programa pra se manter em recuperação, assim como também pessoas que não professam nenhuma religião, ou não acreditam em Deus, enfim.
Eron Falbo: [19:58] Mas dentro dos 12 passos, não tem quatro deles que mencionam Deus? Como é que dá pra fazer os 12 passos sendo ateu? Isso é uma curiosidade. Não é necessário acreditar em Deus? Na maçonaria, por exemplo, é um pré-requisito, só pode entrar se acreditar em Deus.
Dra Camila Ribeiro: [20:19] Então, veja, muitas pessoas chegam em Alcoólicos Anônimos tão descrentes da vida como um todo, e de uma crença em algo maior. Em Alcoólicos Anônimos, nós falamos de poder superior. Nem usamos essa expressão, Deus, mas falamos de poder superior, que pode ser interpretado como cada um representa. Então eu, particularmente, tenho uma religião, sigo uma religião, tenho uma crença, e toda vez que eu penso num poder superior, já me remeto aqui à minha crença religiosa. E por isso, eu acho que isso, na verdade, Eron, isso foi a grande... eu vou usar essa expressão, a grande sacada para surgir Alcoólicos Anônimos.
Eron Falbo: [21:14] Por quê?
Dra Camila Ribeiro: [21:15] Porque lá na sua fundamentação, Bill W., que é um dos cofundadores de Alcoólicos Anônimos, ele não tinha crença religiosa e nem mesmo acreditava em algo maior. Então, quando o Ebby, que era um amigo de escola, foi procurá-lo para falar que ele estava vivenciando um programa que auxiliava a se manter em recuperação, ele participava dos grupos Oxford, que era um grupo de fundamentação religiosa. Quando ele chegou para conversar com o Bill W., o Bill W. primeiro pensou assim: 'olha, eu te dou 15 minutos.' E eles sentaram para conversar, e conversaram por horas. E num dado momento dessa conversa, o que aconteceu? Bill W. fala pra ele: 'mas em qual Deus eu devo acreditar?' E aí o Ebby responde: olha que interessante, olha que sabedoria nisso. Porque, assim, quando eu decreto uma forma de pensar, primeiro eu não respeito a autonomia, a identidade do outro. E o Ebby diz pra Bill W.: 'creia na forma que você concebe.' Tanto é que nós falamos, em Alcoólicos Anônimos, no poder superior na forma que cada um concebe. E isso dá uma liberdade para as pessoas crerem naquilo que elas quiserem, independente de religião. Então eu acho que isso, fundamentalmente, em AA, permite não só esse exercício de liberdade, mas de autonomia. Agora, quem chega em AA normalmente chega sofrendo as agruras do alcoolismo e muito descrente da vida como um todo, da sua verdade, até mesmo de que é capaz, porque muitos chegam falando: 'eu não consigo passar um dia sem beber', enfim. E o programa, porque tem essa liberdade de você conceber o seu poder superior na forma como se manifesta para você, enfim, isso vai permitindo que o outro vá criando espaço e condição de vivenciar essa espiritualidade de alguma forma. E os passos vão ensinando isso. Então é de uma riqueza.
Eron Falbo: [23:54] Porque eu vejo que essa conexão com um ser superior tem muito a ver com o que a gente começou a conversar, a palavra propósito. Eu costumo dizer isso muito no programa e para os meus amigos, para quem puder ouvir, que as substâncias nunca são o problema, que na verdade o problema é o vazio que você sente, a razão que você busca certas coisas na vida. Então, talvez o programa dos Doze Passos... eu tô chutando, você me diz melhor do que ninguém: você acha que tem a ver com isso? Se você não tem uma crença num ser superior, talvez a dificuldade de achar um propósito seja muito maior. O seu propósito às vezes vai ser muito frágil também, porque você pode encontrar um propósito e depois perdê-lo, e buscar álcool, drogas, sexo, jogo, comida, tudo.
Dra Camila Ribeiro: [25:06] Objetos, a gente tem mil para poder se ligar e tentar suprir essa falta. Eu concordo com isso que você falou: se a gente consegue se entender como um ser, parte desse contexto todo maior que, obviamente, foi criado por algo, por alguém, enfim... Se a gente consegue se conectar e se enxergar dessa forma, eu imagino que talvez seja mais fácil encontrar um propósito, diferente de quando a gente se vê como o centro de tudo. E já vivemos isso em momentos históricos, o homem como o centro de tudo, enfim. Eu acredito muito nisso, e acredito muito na necessidade de desenvolver essa dimensão espiritual. Por quê? Porque a gente vive um momento, um contexto onde os valores são muito fluidos, e a sociedade precisa de algo para poder se fundamentar. E eu acredito que a espiritualidade seja um caminho.
Eron Falbo: [26:33] Camila, entrando um pouco mais no AA em si, aqui ainda se mantém que o foco do AA é para pessoas com problemas sérios de alcoolismo, ou você acha que o AA já se expande? Eu não tô falando dos amigos do AA, tô falando dos membros, tem membros e amigos assim que falam?
Dra Camila Ribeiro: [26:56] Sim.
Eron Falbo: [26:57] Então dos membros em si, o target audience, as pessoas que são... Eu lembro de uma vez, em determinados momentos da minha vida, na verdade em um momento específico da minha vida em que eu estava bebendo mais do que comendo, eu fui verificar o site do AA para ver quais eram os requisitos.
Dra Camila Ribeiro: [27:17] Estavam batendo problemas.
Eron Falbo: [27:19] Exatamente, para ver se o nível já era a ponto de precisar do AA. Aí eu lembro de ler algumas coisas lá no site dizendo assim: não estava batendo em ninguém, não estava sendo preso... pelo menos na época, não sei se é a mesma coisa, se estava no site certo, mas lembro de ter visto algo assim. Ainda continua assim, que o objetivo mesmo é ajudar pessoas que estão nesse grau, vamos dizer, exacerbado de alcoolismo?
Dra Camila Ribeiro: [27:52] Eu digo que o propósito do AA é o membro se manter sóbrio e levar mensagem a quem deseja parar de beber. Porque veja, não existe nenhum requisito para ser membro de AA. Qualquer pessoa pode ser membro, basta ter o desejo de parar de beber. Se o meu beber é esporádico, recreativo, mas eu quero deixar de beber e quero fazer parte, eu posso.
Eron Falbo: [28:19] Então, vamos só desenhar uma distinção para ficar bem claro: quem deseja parar de beber, não diminuir a bebida.
Dra Camila Ribeiro: [28:30] Exatamente.
Eron Falbo: [28:32] Isso é uma distinção importante, né? As pessoas que estão nos ouvindo talvez não entendam isso. Acho que muita gente procura, ou acha que o certo seria procurar o AA, quando na verdade eles estão vivendo uma fase, que era o meu caso, by the way, vivendo um momento da minha vida que estava saindo um pouquinho do controle. E eu estava assim, sabe quando o cavalo começa a correr e você começa a falar: 'pera lá, eu quero continuar andando de cavalo, mas não tão rápido', entendeu? Aí eu estava mais ou menos com essa intenção. Eu não estava assim: 'pera lá, eu tô com um problema tão sério que, se eu não apertar o pause ou o eject, eu vou acabar com a minha vida.' Eu não estava nem um pouco perto disso. Eu acho que essa distinção é muito importante para a conversa.
Dra Camila Ribeiro: [29:30] Perfeito. Acho que é fundamental a gente fazer essa caracterização: o que identifica quando uma pessoa perdeu o controle? Quando toda a sua rotina começa a ser mudada para que o objetivo principal seja beber. E fora que, quando essa pessoa já não consegue mesmo parar, no sentido de que ela faz um voto, 'hoje eu vou para a festa e vou tomar X', e ela não consegue parar no X, ela sempre deseja mais, vai até mesmo fazer todo um movimento para conseguir mais... Então isso já é um grande sinalizador do descontrole: quando a vida começa a girar em torno só disso e as outras coisas vão perdendo sentido. Porque veja bem, muitas pessoas se socializam através da bebida alcoólica, a bebida alcoólica compõe isso historicamente, é bíblico até, o primeiro relato de porre foi... não é? Exato. Então veja o quanto ela compõe a nossa sociedade. Agora, o problema é que algumas pessoas têm uma predisposição física, genética, emocional, social para esse descontrole, que nós chamamos de dependência, que é caracterizado por esse não conseguir frear, por viver em função do consumo, pela vida se estreitar, e ela vai deixando de reexercer outras funções na sociedade. Ou, quando ela fica sem a ingestão da bebida, começa a emitir alguns sintomas, alguns sinais dessa falta, irritabilidade, enfim, eu acho que é um dos grandes sinais. E quando ela, na falta, se utiliza dessa substância, no caso o álcool, para poder amenizar todas essas sensações, isso são indícios da dependência. Agora veja, a gente está falando do caso da dependência, mas a gente também hoje vê episódios arriscadíssimos de consumo de bebida, que é o consumo do beber pesado, episódico, que é o que acontece entre muitos jovens que vão para as festas e, sim, bebem grande quantidade em um curto espaço de tempo, e o comprometimento físico disso, social, porque a gente sabe, né, acidentes de trânsito são vinculados a isso, a violência doméstica. Então veja, se a gente for falar dessas questões que envolvem o consumo de álcool, é porque não existe consumo isento de risco, por menor que seja.
Eron Falbo: [32:35] Como a gente caracterizou, como você colocou: o AA está tratando principalmente do parar de beber, para pessoas que desejam, por qualquer razão que seja, parar de beber. Encontram uma comunidade, uma rede de apoio, que substitui a rede de apoio atual, que é uma rede, na verdade, de apoio a continuar a beber. Se você quiser continuar a beber, continue com seus amigos atuais; e substitui isso por uma comunidade de apoio, de abstinência, e com um... como é que chama? Sponsor? Como é que fala o cara que vira seu amigo e parceiro? Padrinho! Padrinho, exatamente. Você tem um padrinho, que já é um velho membro de AA, que você pode ligar quando precisar, quando sentir vontade de beber, ou só pra bater um papo, etc. Ou seja, existe um aspecto psicossocial muito forte nisso, também o aspecto em termos do que a gente estava falando, de propósito, talvez teleológico, sei lá qual é o nome certo para isso. Legal, só que eu acho que a minha pergunta é sobre essas pessoas que não querem parar de beber. Como você falou, existem adolescentes, existem pessoas como eu, que às vezes bebem bastante em curto espaço de tempo, eu não tenho desejo nenhum de parar de fazer isso, só para a gente estreitar as relações. Então eu não sou uma dessas pessoas, mas algumas pessoas estão... pô, eu tô fazendo isso demais e gostaria de ter uma maturidade maior, um conhecimento maior. O AA não é o lugar pra se encontrar isso, mas dentro do AA existem outros tipos de apoio para essas pessoas, vamos dizer, que não são alcoólatras puros mesmo, os que não são 'de pai e mãe', que são só um terço alcoólatra.
Dra Camila Ribeiro: [35:01] Eron, não vamos entrar nessa questão, né? Eu sei, mas eu também quero levar dessa forma. Porque, veja, muitas pessoas ainda não conseguiram identificar a consequência desse consumo da bebida na vida delas. Porque é difícil, porque a gente tem um contexto social que muitas vezes estimula, que banaliza e que não colabora nesse reconhecimento dos riscos e consequências. Então eu penso que essa pessoa que se reconhece bebendo, ok, e a sua vida está seguindo bem, obviamente que Alcoólicos Anônimos não vai fazer parte da vida dela. Por quê? As pessoas que estão em AA têm esse desejo profundo e essa necessidade da abstinência, porque elas têm um descontrole de tal grau que um gole é muito, dez caixas é pouco. Existe até esse lema em Alcoólicos Anônimos. Obviamente que, com certeza, existem equipamentos de saúde, aí a gente está falando até da rede de saúde, que oferece serviços que fazem esse trabalho, que é um pouco de redução de danos, vamos dizer assim. Em AA, nós não vivenciamos essa prática, nós vivenciamos abstinência por reconhecer o risco que é, para o indivíduo que tem a dependência do álcool, consumir um gole que seja. Às vezes, um bombom licorado já desperta todo leão que está ali dentro, mantido enjaulado. Agora, o que eu acho que é interessante é fazer sempre essa reflexão: como está a minha relação com a bebida? Porque, longe de fazer esse julgamento, de dizer: fulano tem problemas, ah, não faz isso.
Eron Falbo: [37:11] E, Camila, também com todo tipo de hábito que a gente tem.
Dra Camila Ribeiro: [37:15] Perfeito, perfeito.
Eron Falbo: [37:16] Na minha opinião, eu acho até hábitos que a gente acredita que são saudáveis, né? Por exemplo, as pessoas que são namorandeiros seriais, né? Tipo assim, mulheres que precisam estar sempre com o namorado, senão não tá feliz, ou coisas do tipo. A gente revisitar qual é a falta que tá me levando... Às vezes a falta é uma falta humana e uma falta saudável, que é tipo assim: pô, por que eu tô visitando meus filhos tanto, né? Porque eu sei, eles são muito legais. Se você fizer a reflexão, a resposta pode até ser positiva, mas a reflexão vale de qualquer jeito. Se você tem um hábito recorrente e você sente que você tá sentindo um pouquinho de culpa, um pouquinho de peso, se o seu inconsciente tá mandando qualquer tipo de sinal, se tá te mandando sonhos recorrentes, se tá te mandando uma vozinha na cabeça que conversa com você, o inconsciente dá sinais de inúmeras maneiras, e a gente não precisa entrar nesse mérito de psicanálise no momento, mas, vamos dizer, qualquer tipo de... pode ser um tique nervoso, pode ser qualquer coisa que indique que algum hábito tem um red flag, tem alguma coisa lá alertando que aquele hábito precisa ser revisitado, precisa ser questionado. Eu, pessoalmente, recomendo isso para todos os hábitos, e certamente para alguma coisa que é socialmente aceita dentro da sociedade ocidental e, praticamente, em todas as sociedades, sem contar os islamistas. No mundo, praticamente todas as sociedades aceitam livremente o consumo de álcool, desenfreado praticamente, sem muita visão julgadora, sem muito tabu. E isso é um problema muito sério, porque você tá com uma abertura de uma energia muito forte sem as cercas necessárias. É que nem o sexo: se o sexo se tornar uma coisa aberta pra crianças de 12, 13 anos que não entendem as consequências, o que a gente...
Dra Camila Ribeiro: [39:48] E que nem fisiologicamente tá preparado pra isso.
Eron Falbo: [39:53] Exatamente. Não tem maturidade psicológica, nem fisiológica, nem de vários aspectos, nem pra fazer, nem pra participar, nem pra enfrentar as consequências dos danos, sejam doenças e coisas do tipo. Então acho que, ao invés de demonizar o álcool e entender mais como uma energia muito forte que algumas pessoas não têm o outlet, a educação ou o costume necessário para poder acolchoar essa energia, e a própria, às vezes, comunidades inteiras não têm essa maturidade, aí você abre um portal, uma caixa de Pandora para todo tipo de dano.
Dra Camila Ribeiro: [40:36] Exatamente. E é muito interessante isso que você está falando. Vem reforçar um pensamento que eu tenho refletido muito por esses últimos anos: o quanto é importante a gente estar conectado com quem nós somos, com as nossas verdades, com as nossas limitações. Porque é isso que vai reforçar as nossas ações no mundo. E aí existe, obviamente, várias formas de se conectar: religiosamente, enfim, através do conhecimento. Então, eu penso que não só o programa de AA, porque ele vai permitindo, ao longo dos passos, ir fazendo esse reconhecimento de quem nós somos, da nossa história, das nossas crenças, mas eu penso que, como pessoa, a gente precisa disso. E isso está intimamente ligado com esse senso de quem somos e do que devemos fazer aqui, que é o propósito. Então, eu acho que é o que liga toda essa questão, porque isso que você falou: se eu estou muito atento ao meu tempo físico, ao meu tempo emocional, à minha condição emocional, o que eu posso dar de respostas às coisas que vêm na vida? E, se for pensar na psicologia, a psicologia é um recurso que vai trilhando caminhos, estratégias, com o paciente ali para ir se fundamentando, fazendo esse reconhecimento. Um momento como esse, eu acredito muito nesse momento de bate-papo, numa conversa, o quanto isso permite a gente se conectar e reconectar com o outro, com a gente mesmo. Porque, você sabe, eu sou adepta do bom papo, eu também faço, criei um espaço, essa pandemia foi maravilhosa, que viabilizou um monte de projetos legais, e um deles é o Diálogos Virtuais, que é esse espaço de conversa que tem esse objetivo de conectar, de levar informação, de permitir a reflexão, o reconhecimento das coisas, e aí cada um vai fazendo o seu reconhecimento, e isso vai colaborando para a humanidade como um todo. Então eu acho que as coisas se convergem. Por isso que eu disse no início, Eron, que esse trabalho com o AA foi um grande presente de Deus para mim, porque está super conectado com a minha escolha de vida, e isso desde a minha origem. Eu falei para você dessa história da infância, então eu só fui entender isso anos depois, estando em Alcoólicos Anônimos neste encargo. E aí eu fui ter esse insight, esse despertar espiritual, porque eu fui escolher a psicologia jovem. Minha mãe falava assim: você não vai morar fora de casa, imagina, mulher que mora em república não pode. Todas essas coisas, né? E eu fui trilhar esse caminho. Então eu vejo assim, o ponto já estava conectado. Então eu acredito muito nisso, que tem a ver com essa questão de se colocar inteiro nas coisas da vida.
Eron Falbo: [44:11] Eu acho que esse ponto da abstinência realmente... É porque aquela coisa em inglês tem uma palavra chamada cold turkey, não sei como é que é em português, que é você parar a coisa por completo, você não parar gradativamente, você não usar substitutos temporários e coisas do tipo. Isso realmente tem um poder enorme, porque a sombra, a mente que te engana, a parte da mente que é defensiva, que te coloca em situações às vezes de perigo para tentar te salvar inconscientemente, às vezes te dá escolhas que não são bem escolhas. E, se você eliminar absolutamente a escolha, você acaba tendo um portal mais saudável, um caminho mais saudável. O que eu costumo dizer é assim: mesmo se Deus não existisse, seria saudável a gente inventar Deus, porque realmente é um propósito transcendental, é uma coisa que não está nesse mundo e permeia esse mundo ao mesmo tempo. E, se você não acredita em algo assim, você está confuso pelas forças, as diferentes e divergentes forças que existem no universo, e a sua mente, ao escolher entre essas forças, acaba se confundindo, e você acaba se perdendo para as suas próprias fraquezas, porque quem está escolhendo no final é a sombra. Se você estiver num momento de fraqueza, ou se você for uma pessoa, até aquele ponto, é mais fraca. Então, eu pessoalmente aprovo e aplaudo o trabalho de vocês e de todos os voluntários que estão envolvidos aí. Queria te agradecer, acabou nosso horário aqui, queria te agradecer imensamente pela presença. Queria que você terminasse falando um pouquinho, você já falou do seu programa, mas falar onde a gente pode encontrar o seu programa e qualquer outra coisa que você esteja fazendo, para aqueles que estão nos ouvindo, te achar com mais facilidade.
Dra Camila Ribeiro: [46:23] Legal. Bom, para alguém que queira conhecer um pouquinho mais de Alcoólicos Anônimos, no aa.org.br, é o site oficial da Irmandade, tem uma série de informações. Esse questionário que você falou, das perguntas, tem lá. Bom, além do Espaço Iragibe, que é o espaço onde eu atuo como psicóloga clínica, agora tem esse espaço virtual, que é o Diálogos Virtuais, que acontece no Instagram. Hoje tem live. Hoje a gente vai, como maio é o mês das mães, a gente hoje vai falar de amamentação com uma consultora, enfim. Então, a cada quinta-feira tem convidados lá. Também é um espaço onde a gente consegue fazer essa interação, levar informação, enfim. E, Eron, eu quero muito agradecer poder estar aqui com você e falar sobre esse assunto, porque eu acho que é muito importante a gente desmistificar essa questão do alcoolismo, falar de abstinência. A abstinência é um exercício muito difícil, de qualquer substância. O corpo que está acostumado, habituado, ele pede por aquele objeto, por aquele hábito. Vai criando caminhos neurológicos até para buscar isso. Não é uma tarefa fácil. Então é legal poder falar disso e falar que funciona. Existem metodologias, programas como o Doze Passos, que funcionam e ajudam muito e salvam muitas vidas, com as reuniões virtuais. Então a gente consegue compartilhar com membros de todo o Brasil e fora do Brasil.
Eron Falbo: [48:12] E aonde a gente encontra aquelas pessoas que estão com vontade de parar completamente, que fizeram essa decisão? Aonde se encontra o AA, aonde se reúne?
Dra Camila Ribeiro: [48:24] Isso. No site oficial tem uma aba que chama Reuniões à Distância, e tem o link das reuniões. Agora está começando uma reunião. Todos os dias, às 20 horas, acontecem reuniões no site oficial, e várias reuniões por todo o Brasil, mas lá condensa todas essas informações de onde acessar uma sala de reunião.
Eron Falbo: [48:44] E são extremamente organizados. Isso é difícil, centralizadamente, ainda mais do jeito que vocês fazem, com essa irmandade, com essa igualdade, com essa horizontalidade.
Dra Camila Ribeiro: [48:59] É a unidade que acontece entre cada membro de área. É uma experiência única fazer parte, conhecer, entender esse funcionamento. É muito diferente daquilo que a gente vê no sistema que a gente vive hoje no Brasil como um todo.
Eron Falbo: [49:19] Bom, contem comigo. Qualquer coisa, se vocês precisarem, eu me considero um amigo de um amigo.
Dra Camila Ribeiro: [49:24] Não, fantástico. Só essa oportunidade de divulgar na sua rede de contatos vai ser maravilhoso. Essa informação precisa ir a todos os lugares. Então, eu te agradeço, Eron, em nome de cada membro de Alcoólicos Anônimos do Brasil, poder estar aqui falando com você. Foi uma honra. Muito obrigada.
Eron Falbo: [49:45] É uma maravilha, Camila. Muito obrigado mesmo pela sua presença. Se você não se importar, só me responder uma última pergunta, que agora, para você, eu gostaria de fazer mais do que muitas outras pessoas. Eu tenho uma pergunta que eu sempre faço no final da entrevista, que eu esqueci de fazer dessa vez.
Dra Camila Ribeiro: [50:07] Vamos lá.
Eron Falbo: [50:09] Camila, você que ajudou tantas pessoas, continua ajudando e vê propósito de vida em ajudar, em estar onde você está hoje. Dessas coisas todas que você já fez, de tudo que você quer fazer na vida, hoje, para você, qual é a coisa mais importante nesse mundo?
Dra Camila Ribeiro: [50:28] Uau, que difícil! São muitas coisas. Eu acho que esse mundo está carente de muitas coisas. Mas, se eu puder elencar uma, diálogo. Eu acho que um diálogo aberto, livre de julgamentos, ele permite unir, ele permite agregar, ele permite resolver. Uma pessoa que consegue dialogar com ela mesma e com o outro, ela consegue resolução de diversas formas de conflito. Eu acho que, de todas as que eu penso que são muitas, talvez essa seria um grande caminho.
Eron Falbo: [51:14] Ótimo, perfeita resposta. Porque tem tudo a ver com o que a gente faz, né?
Dra Camila Ribeiro: [51:21] Exatamente, é porque eu acredito nisso.
Eron Falbo: [51:25] Exatamente, tamo junto, Camila, muito prazer, tudo de bom pra você. A gente se encontra daqui um minuto ou dois, eu só vou fazer uns avisos paroquiais rapidinho. Ok, tá bom, beijão, tchau, tchau. Pessoal, vou falar agora o que eu aprendi com a Camila e, antes disso, eu vou pedir apoio de vocês. Todos os membros do AA que estão ouvindo, sigam nosso canal. Eu sou um apoiador do AA, apesar de eu não ser membro. Mas eu vejo que ajuda muitas pessoas, eu tenho amigos que são do AA, eu tenho pessoas da minha família e vejo que realmente funciona, funciona para muitos tipos de pessoa. Não precisa ser para todos, nenhuma metodologia precisa ser tão absoluta assim. Mas então, nos apoiem, por favor. A gente não ganha nada com isso que a gente tá fazendo, a gente adoraria os seus likes, e eu sigo essas pessoas para a gente poder continuar fazendo o que a gente tá fazendo. O que eu aprendi com a Camila hoje foi que, bom, eu não falei isso muito na conversa, mas eu passei horas pesquisando várias pessoas falando mal de AA e criticando, e trazendo várias fontes diferentes. Só que a Camila, que é a presidenta, sei lá qual é a maneira certa de falar isso, do AA, fala por si só. Então, uma pessoa que tem tanta abertura, que tem tanta bondade, que expressa tanta bondade com o seu tom de voz, com os seus gestos e tudo mais, convido você a acreditar que existem ótimas intenções nessa irmandade. E aí eu joguei fora todas as evidências que eu ia levantar e a gente só falou de coisas a favor. Então, o que eu aprendi é que a gente deve não olhar para debates e pontos e racionalidade, e sim olhar para as pessoas, as pessoas que fazem parte, as pessoas que estão envolvidas em coisas. Eu acho que, cá entre nós, eu já fiz parte de muitas seitas diferentes. Já fiz parte, como eu falei, da maçonaria, Rosa Cruz. Quando eu digo seitas, eu digo com total apreço, porque eu gosto. Eu gosto de grupos com força, com determinação, com líderes carismáticos. Então, eu não estou sacaneando de maneira nenhuma, e nem dizendo que há uma seita. Estou falando que eu mesmo fiz parte de muitas seitas. E digo assim: se você faz parte de alguma seita, porque, na verdade, tudo no mundo é. A Apple é uma seita, da galera que compra tudo na mesma loja, etc. Tem muitas formas de você fazer parte de uma ideologia que te força a agir de uma certa maneira, ou que pelo menos te influencia, pode ser positivamente ou negativamente, a agir de uma maneira específica. Mas a maneira que eu acredito que a gente julga se a gente deveria estar naquele lugar ou não é o fruto que cai daquela árvore. Então, você experimentando o fruto que cai daquela árvore, você entende se você deveria estar. Então, óbvio que ninguém deveria comprar iPhone porque olha o tipo de pessoa que tem iPhone, não é isso que eu quis dizer, mas quis dizer que a AA é claramente representado pela Camila. É claramente, se as outras pessoas forem como ela, uma organização saudável e que tem nossa aprovação. É isso, gente. Lembrem-se, assistam a gente todos os dias às 19 horas, conto com a presença de vocês, e não se esqueçam: a união faz a força.
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