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Eron Falbo: [0:03] Chiquinho, quando que você vem para o Rio?
Chiquinho Scarpa: [0:05] A primeira festa que é na Maria Dé, depois da pandemia, eu estou ali.
Eron Falbo: [0:10] Vamos fazer uma aqui em casa, a gente sempre faz aqui em casa.
Chiquinho Scarpa: [0:14] Com imenso prazer.
Eron Falbo: [0:16] Você é de São Paulo mesmo, ou não?
Chiquinho Scarpa: [0:18] Eu nasci em São Paulo, aqui na Praça Nicolau Scarpa.
Eron Falbo: [0:22] Ah, é, e você estava falando que você morou a sua vida inteira na mesma casa.
Chiquinho Scarpa: [0:25] Eu nasci com parteira, então minha mãe e meu pai, acho que tomaram porre, e não tomaram nota da hora em que eu nasci. Então eu não consigo fazer nenhum horóscopo, porque perguntam: que hora você nasceu? Aí não sei. Na minha certidão de nascimento também não tem. Então não é um sustento, porque eu não sei que ascendente eu sou, etc., todo aquele negócio de horóscopo, né? Eu tive uma educação muito dura. Quer dizer, meu pai e minha mãe, como tinha uma diferença muito grande de idade comigo e com a Fátima, né, tá certo? Por exemplo, meu pai nunca me abraçou, nunca me deu um beijo, nunca falou parabéns. Então, quando eu fazia uma coisa certa, ele pegava e falava assim: olha, não fez mais nada do que a sua obrigação. E aos 15 anos, tá certo, eu estudava no São Luís, aqui em São Paulo. O que aconteceu? Ele pega e me coloca na Fiação Intensivos do Sr., em Sorocaba. Então o meu primeiro emprego foi nessa fábrica de tecidos, no primeiro lugar, que era receber os fardos de algodão. Naquela época, hoje eu peso 50 quilos, cada fardo pesava 60. Aí o filho da puta chegava e dizia assim: esse é o filho do patrão, o fardo em cima de mim. Aí eu fui indo, quer dizer, abridores, chedeiras, sei lá, e tal. Tudo isso foi muito bom para mim, porque primeiro foi a Fabricteci, depois foram as cervejarias, depois a Metalúrgica, depois a Luzines e a Sul.
Eron Falbo: [2:03] Você teve experiências em cada um desses lugares de trabalho?
Chiquinho Scarpa: [2:06] Quando dou uma ordem, a peça é aquele parafuso, sei onde é o parafuso. Aprendi isso porque passei por todas as etapas. Mas isso é difícil, porque, para você ter uma ideia, uma história que pouca gente sabe: quando eu tinha 16 anos, eu ainda estudava no São Luís e ia para Sorocaba à tarde. Na rua da Consolação tinha, hoje não tem mais, as lojas de lustres. E um amigo meu, Otávio Prínio Botelho do Amaral, chegou para mim e falou assim: escuta, você não faz um estacionamento aqui? Ah, desculpe, esqueci, pulei um pedaço. Meu pai era sócio do Paulo Machado de Carvalho na TV Record, e quando desmanchou a sociedade, ele ficou com o teatro, que na época era o teatro onde faziam os festivais da canção, essas coisas todas. Meu pai, que não entendia nada de teatro, quando fechou o teatro, ficou o terreno. Aí o Otávio chegou para mim e falou assim: olha, Chiquinho, por que você não pega esse terreno e faz o estacionamento? Porque as lojas de lustres não têm estacionamento. Aí eu fiz o estacionamento. Saía, preste atenção: eu saía de manhã para ir para o colégio, passava lá, pegava R$1,00. Depois, ao meio-dia, antes de ir para Sorocaba, pegava mais R$1,00. À noite, quando eu voltava, pegava mais R$1,00. Ou seja, dava R$3,00 por dia, que seriam R$90,00 por mês. Estou dando um exemplo só. Um dia, meu pai compra um Electrolux e chega para mim, eu tinha 16 anos: você vai junto com o assessor Jovino, que hoje não está mais entre nós, para assinar lá em Buenos Aires. Lá fui eu, no sábado, dia 31, fim do mês. Fui de manhã, quando chegou a noite, voltamos, e quando estava o jantar em família, meu pai falou assim: poxa, o seu estacionamento está indo muito bem, eu passei lá, fui pegar a féria do dia, e deu R$3,00 por mês. Quando meu pai falou R$3,00, eu falei assim: ó, não foram R$3,00, foram sim R$90,00. Quando ele escutou que eram R$90,00, ele ligou para o senhor Adolfo Lindenberg, que é uma construtora aqui de São Paulo, quer dizer, do Brasil, né, e mandou construir um prédio nesse parque que existe até hoje. Então meu pai nunca me deixou ganhar dinheiro fora, nas organizações dele.
Eron Falbo: [4:51] Mas eu acredito, sinceramente, que isso te dá o seu caráter. Claro que é duro, não é todo mundo que sobrevive a esse tipo de coisa, e hoje em dia as pessoas se preocupam muito com filhos traumatizados e coisas do tipo. Mas eu, sinceramente, acho que vale o risco, porque isso lapida muito o caráter e constrói. Claro que não precisa ser tão drástico, talvez, mas parte disso certamente te edificou. Você concorda com isso?
Chiquinho Scarpa: [5:24] Concordo fundamentalmente, Eron. E tem mais: por exemplo, eu fiz três faculdades de Psicologia e falo todas as línguas. O chinês eu arrasto um pouco, porque na minha época não tinha chinês, entendeu? E agora temos outros lotados, né? Mas eu falo todas as línguas, e meus pais ensinaram todos os esportes para nós três. Então, eu sei que não sou campeão em nada, mas eu sei jogar tênis, jogar golfe, jogar basquete, jogar polo a cavalo, polo na água. Então, por quê? Porque a gente chega, por exemplo, na Inglaterra, o príncipe Filipe chegava, queria fazer uma partida de polo, aí eu tinha que falar: ah, não sei jogar. Então, a gente aprendeu tudo, falamos e escrevemos os três.
Eron Falbo: [6:16] É porque essa é a educação aristocrata. Você precisa ser um exemplo, precisa também competir na alta sociedade, na altíssima sociedade. Quando eu digo competir, é nesses termos sutis, porque isso são barreiras de entrada. Eu acho que as pessoas que talvez nos ouçam, muitas delas, talvez não entendam a sutileza dessa importância, a importância de, por exemplo, quando alguém fala: eu vou visitar o Brasil e eu gostaria de organizar uma partida de polo. E se você não sabe jogar polo, isso diz muito sobre você. Diz muito sobre a sua criação, diz muito sobre o tipo de círculo que você frequenta. E, no final das contas, como você vive num mundo vasto, cultural, internacional, ainda mais sendo brasileiro, você tem que se expor a muitas diferentes vertentes: a inglesa, a italiana, a francesa, para poder se instalar dentro da sociedade.
Chiquinho Scarpa: [7:26] Mas o que eu fico triste é com essa juventude de hoje, porque antigamente, por exemplo, você cantava uma mulher, então você tinha que chegar para o meio da boate, arrumar o endereço dela, depois arrumar o telefone dela, mandar flores, mandar bombons, jantar fora, ir em uma boate, depois em uma casa de samba. O negócio demorava dois, três meses. Hoje o negócio chega lá, hello, e volta para o tempo. Então, eu sempre digo que, para ser um homem de verdade, tem que ter três T's: tempo, tesão e tutu. E ser inteligente, ponto e acabou.
Eron Falbo: [8:13] Eu acho assim, indo mais além do que você falou das mulheres hoje em dia, é verdade que as mulheres trans vão com muito mais facilidade, mas também elas não se comprometem em termos assim de se entregar emocionalmente, carinhosamente, elas também ficam meio frias, meio distantes, não tem envolvimento, e eu não tô dizendo envolvimento do que as mulheres também querem, que é o comprometimento de relacionamento, tô falando de estar presente mesmo, elas podem até transar, mas eu imagino que nessa época você tinha que se esforçar muito pra baixar as calcinhas de uma mulher. Mas, ao mesmo tempo, também tinha uma dedicação. A mulher ficava apaixonada por você.
Chiquinho Scarpa: [8:57] Exatamente. Não era uma transa. Você tinha que conquistar a mulher. E o prazer da conquista é uma coisa tão bonita. E esses jovens, hoje em dia, cujos pais, o pai já dá, o menino faz 17 anos, já dá Ferrari, já dá helicóptero, já dá dinheiro. Ou, por outro lado, aqueles que não têm dinheiro não ajudam os filhos. Os filhos se metem todos em drogas e fazem coisas erradas. Então, é muito triste. Eu vejo essa nova juventude que não quer nem trabalhar e nem estudar. Eu estou falando da Europa e dos Estados Unidos. É um problema isso.
Eron Falbo: [9:42] Eu converso muito aqui com a minha governanta, que é a mulher da minha vida depois que eu me divorciei. E a gente fala muito sobre isso, como realmente, até nas comunidades, em bairros desfavorecidos, as pessoas estão mimadas. As pessoas não estão mais trabalhadoras, não estão mais engajadas, não estão querendo se expor ao risco. Mas isso mostra que, mesmo nas grandes fortunas, nesse documentário, mesmo nas maiores herdeiras do mundo, as pessoas estão semi-debitmentais, os sucessores das grandes fortunas. E, até hoje, isso é verdade: dentro das famílias mais aristocráticas, mais, vamos dizer, tradicionais, ainda se mantém uma certa sucessão, uma certa educação e coisa e tal. Então, se até eles estão questionáveis, é óbvio que todos os outros, classes também estão perdidos em termos de educação.
Chiquinho Scarpa: [10:49] É uma pena, porque deixam de aproveitar tanta coisa. Mas a culpa é dos pais, tenho certeza disso. Não é a situação do país, não é nada. Porque educação é uma coisa que todo mundo pode aprender e pode dar.
Eron Falbo: [11:04] Infelizmente, as pessoas compraram a ideia de que é o país que dá educação. Então eles começam a falar: 'Poxa, mas o Brasil não tem escolas', como se isso mudasse alguma coisa. Tinha uma época que no mundo inteiro não tinha nenhuma escola. E tinha muita gente muito bem educada, muito obrigado, alfabetizada. Na Judeia antiga, a taxa de alfabetização era 80% e não existia uma escola.
Chiquinho Scarpa: [11:33] Exato.
Eron Falbo: [11:34] Essas coisas, acho que as pessoas realmente... Isso vale, a nossa conversa vale muito por causa disso, porque essa perspectiva é única no mundo. Uma pessoa como você, com o seu upbringing, o jeito que você foi criado, sua... é muito precioso hoje em dia. Com a sua história, muita pessoa poderia dizer: 'Coitado do Chiquinho, o pai dele foi muito rígido', mas, pelo contrário, coitado daquelas pessoas que os pais foram lenientes demais.
Chiquinho Scarpa: [12:05] Exatamente. E eu senti um pouco de falta, mas depois, mais velho, a gente vê que os pais têm razão, que a educação tem que ser rígida mesmo.
Eron Falbo: [12:17] Comparado com os amigos, a gente acha que tem que ser mais oba-oba, mas quando a gente é mais velho, a gente agradece. E você é conhecido como um grande bon vivant. E, mesmo assim, teve essa educação rígida, essa educação formal, e claramente é uma pessoa de valores, de princípios. Porque no mundo moderno tem muito julgamento, como você sabe muito bem. As pessoas presumem que, se a pessoa tá numa festa, se a pessoa não acordou 5 horas da manhã, que ela não trabalha, que ela nunca trabalhou, que ela não sabe o que ela tá fazendo, que ela é playboy no pior dos sentidos.
Chiquinho Scarpa: [13:00] Por exemplo, eu sou sozinho, não tenho ninguém, não sou casado, não tenho filhos, nunca entrei numa agência de banco, nunca tive um cheque recusado, nunca tive uma concordata, uma falência. Acho que uma pessoa que pode, aos 70 anos, falar isso num programa, da sua altura, entendeu? E falar abertamente: nunca fui preso, nunca nada. Então, nunca tive problema. Acho que fui para Brasília duas, três vezes, em festa, no semanal.
Eron Falbo: [13:41] Chiquinho, não sei se você sabe, mas eu trabalho como gestor de patrimônio. Então, eu faço em family office. E eu tenho alguns clientes, mas eu lido com muitos tipos de família, e eu posso te dizer, boa parte, talvez maioria, 60%, 70% das pessoas que eu encontro hoje no Brasil não são como você. Quando eu digo assim, pessoas que têm patrimônio, que cresceram ou fizeram um grande patrimônio com muita rapidez, você é uma raridade, especialmente no Brasil, uma pessoa que não está perdida, uma pessoa que nunca esteve perdida. Em termos que... é que nem você falou, essa coisa de não ter concordata. Uma pessoa, talvez, neomarxista, poderia pensar que não tem concordata porque sempre foi rico. Mas não é bem assim. A grande maioria dos ricos brasileiros entraram em problemas criminais, tiveram seu nome na justiça, entraram em concordata de uma maneira ou de outra. Eu não sei se você chegou a esbarrar com o meu tio-avô, o Eron Alves de Oliveira, da Eurotex?
Chiquinho Scarpa: [15:02] Sim, conheço, claro.
Eron Falbo: [15:03] Conhece? Então, ele é meu tio-avô. É como se fosse um avô pra mim, meu único avô realmente que eu cresci foi o tio Eron. Como você sabe muito bem, ele já teve 100 vezes mais do que tem hoje em dia. Entrou na Justiça. Eu sei, da minha própria família, que isso não é fácil, você manter essa liberdade.
Chiquinho Scarpa: [15:28] Vou lhe dizer uma coisa, já que você tocou no assunto: eu sou muito amigo do Eron, muito amigo. Desde o tempo da Eurotex. Eu chegava e falava assim: 'Eron, estou com a minha fábrica lotada de tecido, manda tudo para cá.' E ia tudo para lá. Daí, o casamento dele... agora ele está em Nova York, não está mais aqui no Brasil. Mas grande pessoa, o Eron, grande. Namorava a Rosemary.
Eron Falbo: [15:58] A Rosemary reclama até hoje dele. Um beijão para você, Rosemary, se estiver assistindo.
Chiquinho Scarpa: [16:11] Mas ele, como amigo, sempre foi uma pessoa extraordinária. Eu só tenho a falar bem do Eron.
Eron Falbo: [16:18] Que maravilha, obrigado.
Chiquinho Scarpa: [16:20] O hotel dele em Brasília, as três ou quatro vezes que fui a Brasília, fiquei hospedado lá, quando existiu o hotel dele, o Eron Palace Hotel. Entendeu? E é um grande amigo, que, aliás, eu não vejo há uns 3, 4 anos.
Eron Falbo: [16:37] Só 3, 4 anos? Faz mais tempo que eu não o vejo. Você está mais próximo dele que eu.
Chiquinho Scarpa: [16:45] Mas ele é fabuloso. Agora que eu vi, da hora que veio, sua simpatia toda.
Eron Falbo: [16:52] Você não sabia que eu era da família dele?
Chiquinho Scarpa: [16:55] Não, não sabia.
Eron Falbo: [16:55] Ah, que maravilha.
Chiquinho Scarpa: [16:57] Eu até cheguei aqui e falei assim, Nossa, eu tenho um amigo que chama-se Eron. Eu não conheço ninguém que chama Eron.
Eron Falbo: [17:04] Ele é uma das pessoas mais simpáticas do mundo, não é, Chiquinho?
Chiquinho Scarpa: [17:07] Não, é só uma simpatia.
Eron Falbo: [17:09] É um sorriso maravilhoso.
Chiquinho Scarpa: [17:12] Parabéns pelo seu programa, porque, realmente, fiquei fã. Agora não perco mais. Todos os meus amigos estão assistindo.
Eron Falbo: [17:22] É mesmo. Obrigado, Chiquinho. Muito obrigado. Depois, quando a gente terminar nossa gravação, eu te mando o link para espalhar. Até manda para o meu tio. Eu vou mandar esse momento que a gente falou.
Chiquinho Scarpa: [17:34] Não esqueça, não esqueça. Nós vamos ligar para ele, vamos ligar para ele hoje à noite.
Eron Falbo: [17:41] Boa ideia, boa ideia. Poxa, que maravilha. Eu fiquei tocado com isso, sinceramente, porque eu amo muito o meu tio, eu sinto muita saudade dele, faz muitos anos que a gente não se vê. Ele está em Nova York com a Amanda?
Chiquinho Scarpa: [17:54] Ele está em Nova York.
Eron Falbo: [17:55] Com a filha dele?
Chiquinho Scarpa: [17:56] Com a filha.
Eron Falbo: [17:57] Ah, que coisa, nem sabia disso.
Chiquinho Scarpa: [17:58] E ele não se casou mais, né?
Eron Falbo: [18:00] Não, não, não se casou.
Chiquinho Scarpa: [18:02] Quem saiba, né?
Eron Falbo: [18:03] É, eu sabia que ele tinha uma namorada, mas faz tempo que não falo com ele, então não sei. Você sabe que ele é que nem você, gosta de mulher para caramba, não é?
Chiquinho Scarpa: [18:11] É que tinha cada mulher, nossa Senhora, uma mulher histórica, uma mulher histórica.
Eron Falbo: [18:18] Sabe que eu sou o sucessor dele na família, não é?
Chiquinho Scarpa: [18:21] Nós vamos continuar a falar aqui em São Paulo, aqui no Rio e em São Paulo.
Eron Falbo: [18:26] Rio e em São Paulo, vamos lá.
Chiquinho Scarpa: [18:28] Desde lá em Nova Iorque. E um abraço para nós todos aqui, sobrando. Saúde!
Eron Falbo: [18:33] Saúde! Saúde! Muita farra para nós, Chiquinho. Grande prazer.
Chiquinho Scarpa: [18:40] A Ana Maria é uma amiga minha. Eu não vou falar quantos anos, porque ela vai ficar puta da vida. Ela é uma amiga minha de muitos anos e realmente é a maior promotora que tem, não só no Brasil, como no mundo. Eu já vi festas dela em Monte Carlo, em Paris, em Londres, em Nova Iorque, entendeu? Aqui, no Baile do Copacabana, enfim, todos os bailes que tinham lá do Pão de Açúcar, coisa antiga, né? Do Scala, tudo era organizado pela Ana Maria, e continua a ser. É por isso que nós estamos nessa pandemia.
Eron Falbo: [19:19] Agora é na minha casa, Chiquinho. Agora as melhores festas do Rio de Janeiro são na minha casa, e é a Ana Maria que organiza.
Chiquinho Scarpa: [19:25] É só você me avisar uma hora e meia antes que eu estou aí.
Eron Falbo: [19:30] Olha lá que eu vou avisar mesmo.
Chiquinho Scarpa: [19:33] Uma hora e meia eu estou pousando aí em Santos Dumont.
Eron Falbo: [19:37] Pessoal da produção, favor anotem isso aí. A gente vai mandar esse vídeo depois para a Ana Maria Tornaghi. E ela vai virar a Ana Maria Tornado. A gente vai chamar o Chiquinho Scarpa e vai causar um furacão.
Chiquinho Scarpa: [19:51] Oba! Mas vamos no mesmo.
Eron Falbo: [19:54] Eu quero saber, Chiquinho, porque eu não sabia dessa sua educação maravilhosa. Porque, assim, a gente ouve só a parte boa, a gente não ouve o trabalho duro de você ter feito estágio, você ter aprendido nas empresas do seu pai. Isso é uma coisa realmente muito bonita. Eu já te admirava sem saber esses detalhes, agora cresceu muito no conceito. Agora quero saber o que você acha da sua infâmia, do jeito que o público te vê, como você se porta diante disso?
Chiquinho Scarpa: [20:28] Eu sempre explico que não sou ator, então não preciso de voto. Eu não sou político, então não preciso de voto. Eu sou apenas uma pessoa que gosta das pessoas. Eu não tenho um inimigo. Posso até ter, não declarado, mas declarado eu não tenho nenhum, nenhum, nenhum inimigo. E todos os meus amigos, eu faço o possível para eles, e todas as mulheres que eu tive, nenhuma deixa de gostar de mim, assim como eu não deixo de gostar delas. Então eu trato todo mundo primeiro, por igual, evidentemente. Se é um general, eu bato continência. Se é um... Você segue.
Eron Falbo: [21:16] O protocolo de vida.
Chiquinho Scarpa: [21:17] O protocolo de vida.
Eron Falbo: [21:19] Mas o seu coração é igual?
Chiquinho Scarpa: [21:20] É igual, é de todo mundo, entendeu? Raça, cor, idade, é tudo a mesma coisa. Tanto é que a minha mulher... é quase mulher, porque eu sou praticamente casado. Nós temos 31 anos de diferença, entendeu? E ela não aguenta. Eu falo assim: minha filha, eu tenho 31 anos mais que você, você não aguenta o trampo? Hoje em dia, por exemplo, ela procura fazer ginástica. Não mora aqui em casa, mas tem o quarto dela, os pertences dela, e tem a sala de ginástica, ela gosta de fazer ginástica. Ela tem um corpaço, faz uma hora de ginástica por dia, certo? Se não tiver, né...
Eron Falbo: [22:06] Que maravilha, Chiquinho, que bom. Isso eu acho importante também a gente falar para o nosso público, para as pessoas que estão se inspirando com a nossa conversa: a delicadeza desse assunto, de a gente poder ser ao mesmo tempo alguém que goza da vida, alguém que desfruta, alguém que não tem medo, não tem uma preocupação em se divertir, em aproveitar, mas ao mesmo tempo tem uma enorme preocupação em tratar todo mundo com respeito, em ser cordial com as pessoas, em poder dizer o que você está me dizendo hoje: eu não tenho dívidas, eu sempre tratei bem as mulheres, apesar da minha fama e qualquer coisa. Muita gente prefere agir de uma forma para não ser cancelado, entre aspas, para não entrar nessa onda de sofrer julgamento e qualquer coisa. Aí finge ser uma certa pessoa e toma cuidado para não ser visto em público sem máscara, não sei o quê, fica preocupado com o que as outras pessoas falam. Então não desfrutam da vida e não têm princípios, só ficam fingindo, na verdade. É muito melhor você ser julgado por todos, mas na verdade ter princípios, tratar todo mundo bem e poder falar isso abertamente.
Chiquinho Scarpa: [23:26] Exatamente. Matou a charada, no Alvo. E eu, realmente, tenho um carinho muito grande por pessoas, entendeu? E eu tenho respeito. Eu nunca, por exemplo, levantei a voz. Isso eu aprendi com o meu pai. Vou dar um exemplo, falando baixo: eu nunca levantei a voz, nem com o Pacheco Pafusso, que é meu cachorro, juro. Inclusive tem Instagram, tá certo? Sigo o Pacheco, Pacheco underline Pafusso underline Scarpa. É formidável, vem da entrevista, faz o diabo a quatro. E eu não tenho Instagram, não tenho Facebook, não tenho mais nada, infelizmente. Infelizmente? Não, felizmente. Uma vez... graças a Deus, dez milhões e quatrocentos mil.
Eron Falbo: [24:26] O resto é centavos. Dez milhões está ótimo.
Chiquinho Scarpa: [24:29] No Facebook. E daí aconteceu: teve a greve dos caminhoneiros. A greve dos caminhoneiros prejudica todo mundo. Então, escrevi lá um texto: voltem a trabalhar e discutam trabalhando, porque você está...
Eron Falbo: [24:45] Prejudicando... Claro, prejudicando vocês mesmos e a economia.
Chiquinho Scarpa: [24:49] E eles mesmos.
Eron Falbo: [24:51] Esse é o problema do neomarxismo, dessa criação de vítimas e opressores.
Chiquinho Scarpa: [24:58] Seis milhões e pouco de pessoas desceram o cacete mesmo. Falei assim: esquece essa má coisa, poupa. A puta que pariu, fechei o...
Eron Falbo: [25:05] Facebook, fechei... Porque você não precisa deles.
Chiquinho Scarpa: [25:08] Não tenho mais nada. Então, aí, acabou isso lá.
Eron Falbo: [25:12] Mas vamos voltar, hein, Chiquinho. Vamos voltar para as redes sociais, porque a gente pode fazer bem para as pessoas. Vamos junto, estou falando sério. A gente pode ter conversa como essa, pode convidar outras pessoas, porque é isso que estou fazendo. Eu não ganho dinheiro com isso. Estou fazendo isso porque é uma forma de contribuir, é uma forma de eu me exibir também.
Chiquinho Scarpa: [25:33] Conte comigo, para estar do seu lado. Nós vamos animar essas pessoas.
Eron Falbo: [25:41] É isso, exatamente. Trazer mensagens bonitas, trazer coisas inspiradoras.
Chiquinho Scarpa: [25:46] Isso. Agora, temos a pandemia, então é só usar máscara, respeitar o distanciamento e sair com os amigos. Não estou dizendo para sair, estou dizendo...
Eron Falbo: [26:01] Para se juntar com os amigos. Dentro do razoável.
Chiquinho Scarpa: [26:07] Não, porque não sai de casa. Tudo bem, mas se tiver que sair...
Eron Falbo: [26:15] Claro, não tem que fingir pra ninguém que você tá fazendo nada. Cada um é responsável por aquilo que tem que fazer.
Chiquinho Scarpa: [26:21] Exatamente. Eu já tomei as duas vacinas, infelizmente...
Eron Falbo: [26:25] Ah, que bom, então vamos...
Chiquinho Scarpa: [26:27] Eu tomei a vacina errada, tomei a CoronaVac, que não vale nada, porque não pode entrar em país nenhum. Hoje, o Davi, que é muito esperto aqui do meu lado, ele falou assim, mas você tem passaporte japonês e passaporte italiano. Você pode entrar na União Europeia porque você tem passaporte italiano? Eu não tinha me lembrado disso.
Eron Falbo: [26:49] Você tem três passaportes também?
Chiquinho Scarpa: [26:51] Tenho três passaportes.
Eron Falbo: [26:52] Eu tenho três. Você é a segunda pessoa, depois de mim, que eu conheço que tem três passaportes.
Chiquinho Scarpa: [26:56] Sou o quarto, porque eu sou faixa preta, terceiro de Aikido.
Eron Falbo: [27:01] Não acredito nisso, Chiquinho. A Aikido foi a arte marcial que eu mais fui longe. Não acredito, Chiquinho. Agora quebrou. A gente vai ficar amigo para sempre, Chiquinho.
Chiquinho Scarpa: [27:17] Olha a outra história aí.
Eron Falbo: [27:18] Não acredito nisso. Você treinou Aikido com o Wagner Buu, ou não?
Chiquinho Scarpa: [27:25] Muito, mas muito, muito, muito, muito.
Eron Falbo: [27:29] Que maravilha. Takemotsu, não? O Chitu Takemotsu?
Chiquinho Scarpa: [27:34] Não me lembro agora.
Eron Falbo: [27:36] Alguma coisa assim.
Chiquinho Scarpa: [27:37] Mas o meu instrutor foi o Maruyama. Entendeu? Então, eu sou presidente do Instituto Maruyama de Aikido. O Valerio era colega nosso. Escreveu livros.
Eron Falbo: [27:49] É, eu comecei a treinar com ele, li todos os livros que ele escreveu e tal.
Chiquinho Scarpa: [27:56] Ele é muito bom, muito bom mesmo.
Eron Falbo: [27:58] Pô, eu adoro Aikido, é minha arte marcial favorita de longe. Hoje em dia eu faço Kung Fu, mas só porque Kung Fu inclui outras coisas, né, de defesa pessoal que eu gosto, mas Aikido é minha favorita.
Chiquinho Scarpa: [28:11] Morihei Ueshiba. Eu recebi o neto dele aqui em São Paulo.
Eron Falbo: [28:22] Eu já.
Chiquinho Scarpa: [28:29] Estava com ele aqui em casa.
Eron Falbo: [28:31] Para o Morihiro Ueshiba?
Chiquinho Scarpa: [28:34] É?
Eron Falbo: [28:34] Não, sério? Caraca! Só para quem não sabe, Morihiro Ueshiba foi o cara que fundou o Aikido. Uma figura gigantesca. Uau, Chiquinho!
Chiquinho Scarpa: [28:46] Olha aqui. Está vendo?
Eron Falbo: [28:54] Estou vendo, claro. Morihiro Ueshiba. Que incrível! Pô, eu estou emocionado, sinceramente.
Chiquinho Scarpa: [29:05] Olha a foto, tem várias. Eu tinha uma Maserati Quattroporte e peguei e coloquei uma bandeira brasileira e uma bandeira do Japão.
Eron Falbo: [29:14] Não acredito, Chiquinho, você vai virar meu sensei de Aikido hoje, Chiquinho.
Chiquinho Scarpa: [29:19] E você sabe, eu fico tão emocionado porque ele gostava de Maserati. E eu, por acaso, tinha uma Maserati. Fiz à disposição dele, mas foi assim o máximo. E agora dou aula. Eram 60, agora são, acho, uns 40.
Eron Falbo: [29:42] Que isso, Chiquinho, não deu tempo. Como é que ninguém sabe disso?
Chiquinho Scarpa: [29:45] Alunos da comunidade. Então, a coisa mais difícil para eles é a palavra obrigado, a palavra com licença, e a palavra por favor, entendeu? São três coisas. E isso é uma dificuldade. Primeiro, pedir por favor, por licença para entrar. Depois, por favor para lutar. Depois, agradecer ao companheiro, ao aluno que esteve com vocês. Então, isso é o tópico da disparada de óculos. E eu dou uma aula, uma vez por semana, no final da tarde.
Eron Falbo: [30:23] Uau, que incrível. Chiquinho, eu vou pra São Paulo só pra treinar com você. Você tem na sua casa aí, ou onde você tem um dojo?
Chiquinho Scarpa: [30:31] Eu tenho um dojo na minha casa, mas nós vamos treinar no dojo do Recife Central aqui de São Paulo.
Eron Falbo: [30:37] Que maravilha, eu tô emocionado.
Chiquinho Scarpa: [30:39] Eu vou chamar o Varda também.
Eron Falbo: [30:42] Que isso, que maravilha.
Chiquinho Scarpa: [30:43] Ele vai ficar super feliz. Para eles, um beijo ao Wagner Bu, um beijo ao Maruê Machiavelli. Os dois são chefes.
Eron Falbo: [30:52] Grande beijo ao Wagner Bu, que me inspirou tanto a minha vida inteira.
Chiquinho Scarpa: [30:57] Não estão mais seis e seis, são xixi.
Eron Falbo: [30:59] Uau, que incrível. Chiquinho, infelizmente, acabou o nosso tempo aqui, mas olha só, a gente está conectado agora. Chiquinho, eu já era seu fã, agora eu virei seu discípulo. Eu quero ser, além de sucessor do meu tio, quero ser sucessor do Chiquinho Scarpa também.
Chiquinho Scarpa: [31:18] Claro, nós vamos juntos fazer... Que sucessor? Nós vamos juntos fazer muito trabalho. Muito trabalho. Leonor vai ficar com o país, é isso?
Eron Falbo: [31:26] A gente convida ele.
Chiquinho Scarpa: [31:30] A hora que ele souber que nós estamos juntos, ele vem para cá imediatamente.
Eron Falbo: [31:34] Eu não sei nem o que dizer.
Chiquinho Scarpa: [31:38] Nós temos que fazer mais programas, porque tem tanta coisa para contar, para você contar, para eu contar. Vamos ensinar a essa molecada, a esses jovens todos, a viver a vida, a viver, trabalhar e viver. Duas coisas que sempre... Num playboy, por exemplo, com um baby na tarde. Ele ia acordar às cinco horas da manhã pra trabalhar, mas ia dormir à meia-noite e partia com tudo.
Eron Falbo: [32:02] Work hard and play hard.
Chiquinho Scarpa: [32:04] Exato.
Eron Falbo: [32:07] Chiquinho, que maravilha, que bênção te conhecer. Ana Maria, muito obrigado, meu amor, amor da minha vida, por me apresentar a esse cavaleiro, esse nobre, esse exemplo de pessoa. E a gente está conectado agora, a mesma família. Chiquinho, muito obrigado. Você pode esperar na linha aí, só um minutinho. Vou fazer uns avisos paroquiais. Depois eu volto, tá bom? Beijão, tudo de bom. Tchau, tchau.
Chiquinho Scarpa: [32:33] Beijo, querido. Obrigado.
Eron Falbo: [32:35] Um abração. Eu queria dizer pra vocês o que eu aprendi com o Chiquinho Scarpa, além do que ficou óbvio pra todos nós. Antes disso, só queria insistir que vocês, por favor, tenham pena de nós, entendeu? A gente tá aqui trabalhando por cesta básica. A gente ganhou esse vinho por uma cesta básica. Veio uma cesta avançada, na verdade. Mas basicamente a gente não tá ganhando nada com isso. A gente não pretende ganhar nada com isso, mas talvez a gente conseguiria manter esse programa por mais tempo, por mais anos, com mais gente, cada vez mais legal, como o Chiquinho Scarpa foi hoje. Se vocês nos ajudassem com likes, com seguidas, movimentassem essa parada pra mais pessoas ficarem sabendo, do Evangelho, do jeito que a gente tem crescido, do jeito que a gente tem melhorado o programa. Então, por favor, nos sigam, a gente tá em todos os canais possíveis do Planeta Terra. E eu vou dizer agora o que eu aprendi com o Chiquinho. Eu aprendi, cara, impressionante, eu escutei do Chiquinho a minha vida inteira e as pessoas só contam a parte do Bon Vivant. Ele vem aqui me falar que ele é terceiro dan em Aikido, que pra quem não conhece é a arte marcial mais nobre que existe no mundo, que é só de autodefesa. Não existe o ataque, não existe a possibilidade de você tacar alguém com Aikido. Não existe realmente, é pra você usar a energia do oponente contra ele mesmo e neutralizar a briga e nem machucar ele, se possível. Então é uma arte das mais nobres que existe. Sem contar as diversas outras coisas, ele trabalha nas fábricas e coisas do tipo. Ou seja, as pessoas, na hora de contar, só contam a parte glamourosa e faz a pessoa parecer um playboy. Quando na verdade a pessoa é uma pessoa das mais nobres que eu conheci na vida. E eu convivo com aristocratas, eu tenho amigos com títulos, etc. E ele realmente, apesar dele ter também títulos, se não tivesse, isso muitas vezes não importa, né? Você pode ter pessoas da favela que são nobres, que são educados, como o próprio Chiquinho falou. A nossa educação não vem da escola pública, vem de uma linhagem, vem de uma família. Eu acho que a gente esqueceu isso hoje em dia e muitas famílias estão delegando para o Estado, para as escolas do mundo, para o MEC, a educação dos filhos. Então, o que eu aprendi com o Chiquinho é que noblesse oblige, como diz o ditado clássico francês: a nobreza, a gente vindo de uma família de raízes boas, nos obriga a ser boas pessoas e a gente sempre tem que lembrar disso. E lembre-se que, quando você ouvir histórias de alguém e julgar alguém e cancelar alguém, lembre-se que tem uma pessoa verdadeira por trás. E essa pessoa às vezes tem princípios, às vezes você não entende o porquê ela tá fazendo as coisas que ela tá fazendo. É isso, gente. Estamos ao vivo todos os dias, às sete horas da noite. E nunca se esqueçam: mais vale um pássaro na mão do que dois voando. Obrigado.
No Alvo com Eron Falbo · episódio #109 · todos os episódios