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#107 Como fazer acontecer? A inspiração a partir da arte

com Lucas Vasconcelos · 25 de mai de 2021

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Transcrição gerada automaticamente a partir do áudio, com revisão automatizada parcial. Os nomes dos interlocutores foram atribuídos automaticamente. Em caso de dúvida, o áudio do episódio prevalece.

Início na carreira aos 14 anos (0:00)

Eron Falbo: [0:04] Estamos aqui falando com o Lucas Vasconcelos, o grande cineasta. Então, Lucas, voltando aqui. Você está aí? Está comigo?

Lucas Vasconcelos: [0:19] Estou contigo.

Eron Falbo: [0:20] Beleza. Então voltando, cara, Lucas, você é diretor de curtas. Eu queria agora fazer uma pergunta um pouco diferente. Fiquei sabendo que você começou essa sua trajetória com 14 anos. Eu já me aventurei um pouquinho em direção também. Eu sei que é muito trabalho. Como é que você conseguiu começar com 14 anos? Você é que nem eu, que não pegava ninguém na escola, então era mais na sua?

Lucas Vasconcelos: [0:51] Cara, não, eu pegava gente na escola. Brincadeira. Na verdade, como muitos alunos por aí, eu realmente não me enquadrava no sistema educacional, né? Que é estabelecido na escola, né? Então, eu nunca fui muito bom em matemática, ciência, física, essas coisas. Mas eu era bom em fazer filme. E eu descobri isso com 14 anos, e desde então descobri que era a coisa que eu mais gostava de fazer na vida, e não parei. Eu não queria fazer outra coisa a não ser isso.

Eron Falbo: [1:26] E como é que você começou com 14 anos? Você começou a fazer o seu estudo, né? Pegou a câmera e ia editar sozinho. Como é que era o retrato com 14 anos? O que estava acontecendo?

Lucas Vasconcelos: [1:39] Cara, assim, eu sou um pouco suspeito porque eu passei minha infância no set de filmagem. Meu pai é diretor de cinema, diretor de novela, então sempre me levou para o set de cinema, set de novela. Tem uma brincadeira que falam que eu nasci debaixo do tripé da câmera, né? Então, isso sempre teve o meu acesso, isso sempre esteve presente na minha vida, na minha família, né? Acho que um dia eu peguei meu celular, que na época acho que era um iPhone 3, um iPhone 4, aqueles iPhones mais antigos, né? E comecei a filmar meus amigos com roupa, com terno, brincando de atirar um no outro. Tentando imitar os filmes do Tarantino. E eu acho que começou aí essa onda de gostar de reproduzir as cenas, de gostar de reproduzir os filmes. Aí depois eu fui me aprimorando, fazendo meus próprios roteiros e, enfim, começando a entender o que era o cinema mesmo.

Primeiros filmes caseiros e covers (1:40)

Eron Falbo: [2:38] Você começou, então, fazendo cover, né? Tipo, fazendo uma reprodução.

Lucas Vasconcelos: [2:41] Exatamente. Comecei fazendo cover de cinema.

Eron Falbo: [2:44] Cara, os Beatles viraram os Beatles fazendo cover, né? Tocando em Hamburgo.

Lucas Vasconcelos: [2:50] Exatamente.

Eron Falbo: [2:51] E se aprimorando dessa forma. E essa coisa dos Beatles, que você tinha uma banda influenciada, era música própria?

Lucas Vasconcelos: [3:00] Cara, não. Na época, acho que com 14 anos, eu não era nada original, né? Você vê que eu imitava os filmes e imitava as músicas também. Então, era cover de Beatles mesmo.

Eron Falbo: [3:11] Não, mas eu boto muita fé nisso, porque assim é uma forma de aprender. Tipo assim, Mozart, com as primeiras sinfonias dele, eram estudos sobre Bach.

Lucas Vasconcelos: [3:18] Exato. Obrigado por ter me comparado com o Mozart, já gostei muito de você. Cansa?

Eron Falbo: [3:25] Foi, comparei com os Beatles também.

Lucas Vasconcelos: [3:28] Boa a sua comparação, obrigado. Mas sim, concordo. Eu acho que é isso. A gente tem que começar influenciado pelos artistas que a gente admira, né?

Eron Falbo: [3:38] É, total. Eu acho que isso falta, né? É uma das coisas que eu vejo no mundo moderno como um todo: a gente vê as pessoas supervalorizarem muito o novo, como se o novo fosse bom só por ser novo.

Lucas Vasconcelos: [3:54] Exato.

Eron Falbo: [3:55] Eu também fui muito dessa sua escola de: pô, tem que aprender a fazer, não importa quem compôs, porque compor, ou ser criativo, é uma coisa que se aprende inevitavelmente.

Lucas Vasconcelos: [4:10] Exato. Eu acho que é muito importante o que esses artistas deixaram pra gente, que foi um legado de aprendizado, né, na verdade. Então, se as pessoas hoje tocam as músicas dos Beatles, ou se fazem filmes que são inspirados em outros filmes que já existiram, é porque alguém já passou por esse processo também, e alguém deixou um legado pra que as pessoas pudessem começar a fazer os seus próprios filmes, as suas próprias músicas. Então, eu acho que, mal ou bem, uma obra original sempre vai estar à mercê de ser um instrumento de aprendizado.

Filmes que marcaram sua formação (4:37)

Eron Falbo: [4:47] Total. Cara, se eu puder te perguntar sobre seus gostos, acho que talvez seja o melhor jeito de começar. Quando você tinha 14 anos, eu imagino que seu pai tenha sido uma influência em você também, mas tem algum filme, ou um ou dois filmes, que te influenciaram para você dizer: pô, eu quero fazer isso, é isso que eu quero fazer.

Lucas Vasconcelos: [5:11] Cinema Paradiso.

Eron Falbo: [5:12] Ah, eu adoro Cinema Paradiso.

Lucas Vasconcelos: [5:14] Cinema Paradiso foi o filme que me fez querer ser diretor de cinema. Não tem jeito. Eu lembro de ver uma exibição do Cinema Paradiso... Ai, caraca, onde é que foi? Acho que foi lá no Laura Alvim, né? O Laura Alvim tem, acho eu, duas salas de cinema. E fizeram uma exibição do Cinema Paradiso. Eu lembro que foi inesquecível. E eu só fiquei tipo: caraca, acho que é isso que eu quero fazer pro resto da minha vida.

Eron Falbo: [5:40] Cara, coincidentemente, eu quase virei diretor também, né? Acabei indo mais pela música. Que maneiro! Eu fazia direção dos meus próprios filmes também, e acabei virando mais músico. Mas eu posso te dizer que os dois filmes que mais me influenciaram foram Cinema Paradiso e Papillon.

Lucas Vasconcelos: [6:03] Ah, sim! A versão antiga, porque tem uma versão nova. Isso.

Eron Falbo: [6:09] Qual é o nome? Frank Darabont? Quem fez o...

Lucas Vasconcelos: [6:13] O primeiro?

Eron Falbo: [6:14] Não lembro o diretor.

Lucas Vasconcelos: [6:16] Eu sei que tem uma versão nova agora, com a cor do Fred Merckx.

Eron Falbo: [6:22] Mas, pô, coincidência. Uma pergunta um pouco diferente do que fazem. Dos filmes hoje que são considerados um clássico, qual que você acha que é uma merda que não deveria ser considerada um clássico?

Clássicos superestimados e filmes trash (6:30)

Lucas Vasconcelos: [6:40] Um filme clássico que eu acho uma merda e que não deveria ser considerado clássico? Cara, eu acho que uma merda é uma palavra muito forte, mas eu acho que existem alguns filmes que talvez.

Eron Falbo: [7:00] Então, vou mudar a questão, vou mudar o ângulo. Os filmes que estão super em voga hoje em dia, que talvez você ache que não deveriam estar em voga, ou tem coisa melhor que talvez poderia estar em voga?

Lucas Vasconcelos: [7:17] Você diz os filmes atuais, os filmes de hoje em dia, eu acho que... Eu até hoje não consegui entender como é que as pessoas veem Sharknado, né? Sharknado é o filme lá do Tubarão no Tornado, não sei como é que as pessoas realmente percebem isso. Eu acho que esse é um filme que eu posso até usar a sua palavra de merda.

Eron Falbo: [7:41] Não, eu sei, você não quer falar mal dos seus co-diretores.

Lucas Vasconcelos: [7:47] Exato, mas eu acho que não é problema você falar mal também, é normal. Falam mal do meu filme, eu falo mal do outro filme, é normal. É preferível falar mal do filme na frente das pessoas do que pelas costas. Mas eu acho que é isso, eu acho que esses filmes experimentais de terror. Eu acho que são filmes que a mim não me agradam, mas surpreendentemente tem seu público, né?

Eron Falbo: [8:18] Cara, surpreendentemente total. Até música ruim é mais fácil de entender, mas filme tem filme de ação que mantém as pessoas engajadas e que são aceitáveis. Tem filme de terror e filme de ação. Desse tipo, né? Cara, lembra aquele... Tem um com Samuel L. Jackson, eu acho que é o Deep Blue Sea, eu acho, tem um filme de um tubarão, né?

Lucas Vasconcelos: [8:52] Cara, os tubarões no submarino, eu lembro, isso é bem trash, né?

Eron Falbo: [8:58] E eu ficava pensando assim, como é que essa galera aceita ser ator nessas paradas? É aquela cota do estúdio, né?

Lucas Vasconcelos: [9:05] Não, e dinheiro também, isso aí geralmente paga bem. Eu acho que assim, eu concordo, eu tô ligado nesse filme. Eu acho que a gente descobriu que a fórmula é não fazer filme que envolva tubarão. Eu acho que chegamos aí nessa conclusão de que não são feitos a não ser o tubarão, né?

Eron Falbo: [9:25] Tipo assim, Jaws, o tubarão acabou aí.

Lucas Vasconcelos: [9:29] Fizeram um muito bom e o resto não deu certo.

Eron Falbo: [9:33] Tipo isso. Vamos concordar com isso, que todos que estiverem nos ouvindo aí entrem nessa aliança de parar de fazer filmes do Barão. Total. Bicho, me conta sobre essa sua trajetória, você continua sendo ator? Você foi ator da Malhação?

Passagem como ator em Malhação (9:43)

Lucas Vasconcelos: [9:51] Cara, fui ator da Malhação e eu acho que foi uma ótima experiência na minha vida. Eu sempre quis ser diretor de cinema. Eu fiz curso de atuação, fiz teatro, porque eu sempre acreditei que o teatro, a atuação, o diretor precisa entender da atuação para poder lidar com o ator. Cara, eu acabei dirigindo, acabei fazendo meus filmes, e um dia surgiu a oportunidade de eu fazer a novela Malhação. E eu queria muito experimentar, eu queria muito saber, eu gosto de experimentar as coisas na minha vida.

Eron Falbo: [10:36] Mas você não continua, foi só um on-off, experimento?

Lucas Vasconcelos: [10:40] É, foi só uma vez, porque não é que eu não goste, eu sou muito grato por todas as pessoas que me ajudaram a entrar na Malhação e todas essas coisas. Mas eu acho que foi aquela experiência que eu queria ter, mas que, depois de ter, eu sei que não é pra mim, que eu sei que o meu negócio mesmo é... Porque uma coisa muito engraçada é que, quando eu tava atuando, eu não tava atuando, eu tava prestando atenção nas câmeras me filmando. Eu olhava pro lado e ficava tipo aquele... Botando a câmera no ângulo errado, aquela câmera não deveria estar aqui, aquela lente não é certa pra essa cena, ele tá usando uma 35, ele tinha que usar uma mais fechada. Entendeu? Eu tava com outros pensamentos.

Eron Falbo: [11:19] Tava na parte mais técnica, né, do bastidor.

Lucas Vasconcelos: [11:22] É, eu acho que era um fator de pensamento.

Eron Falbo: [11:24] E a parte de ser vilão, essa coisa... Você era um vilão. Eu não assisto Malhação desde que eu tinha 14 anos. Mas essa coisa, você gostou de ser vilão? Cara, eu gostei.

Lucas Vasconcelos: [11:41] Eu lembro que, na época que estava passando, eu tomava algumas broncas na rua. Geralmente vem uma senhora, uma mãe, uma pessoa assim, e fala: 'Meu filho, por que você está fazendo isso?' E aí você tem que explicar: 'Minha senhora, é uma novela, eu não sou assim, no real.'

Eron Falbo: [11:56] Deve ser a mesma galera que assiste Sharknado, né?

Lucas Vasconcelos: [11:59] Exato. Mas, entendeu? Tipo, foi uma experiência bem bacana, na verdade. Mas, no final das contas, dirigir sempre foi o que mais me atraiu no mundo artístico. Não tem jeito.

Estreia como diretor de longa-metragem (12:03)

Eron Falbo: [12:12] Bota fé. E assim, para projetos de longa-metragem, esse tipo de coisa, você tem coisas em mente? Ou você vai ficar mais especializado em curta?

Lucas Vasconcelos: [12:24] Não, não, curta não. Curta pra mim foi só meu...

Eron Falbo: [12:27] Deu uma cortada.

Lucas Vasconcelos: [12:32] Opa, tá me ouvindo?

Eron Falbo: [12:32] Agora sim, sim.

Lucas Vasconcelos: [12:33] Ah, perfeito. Então, os curtas foram pra mim uma formação, e eu acredito que eu nunca mais vou fazer curta na minha vida. Porque agora, a partir de agora, é só longa-metragem e daí pra frente. Os curtas foram só um momento de formação, e formação não só de entendimento cinematográfico, mas também da construção de um nome dentro do meio artístico, né? E agora, começar a fazer os longas. Eu tenho um longa pra rodar no ano que vem, que se chama Eu, Meu Pai e as Cinzas da Minha Mãe, que é um road movie que eu vou rodar do Rio de Janeiro até Ushuaia, lá no fim do mundo.

Eron Falbo: [13:09] Mas um road movie, não documentário, um road movie movie mesmo.

Lucas Vasconcelos: [13:13] Road movie movie.

Eron Falbo: [13:15] Ah, tá, mas quando você diz rodar, você vai filmar mesmo?

Lucas Vasconcelos: [13:19] É, desculpa, é porque, realmente, por ser road movie, rodar parece que é com carro, mas a gente fala rodar é filmar mesmo.

Eron Falbo: [13:26] Sim, sim, eu só não tinha certeza.

Lucas Vasconcelos: [13:28] Isso. A gente vai fazer esse filme, a gente só tá esperando a pandemia dar uma melhorada. E assim que der, a gente já tá com a previsão de começar a rodar no ano que vem.

Eron Falbo: [13:40] But fair, but fair. E vai ser o seu primeiro longa-metragem? Você nunca fez, você nunca teve nenhuma outra experiência com longa-metragem, a primeira vez?

Lucas Vasconcelos: [13:50] Eu estagiei nos longas, no Fala Sério, Mãe e no Dona Flor e os Seus Dois Maridos. Editei o último filme aqui da produtora, que foi o Mágico de Oz, que é uma versão nordestina do musical Mágico de Oz. Editei esse longa, e, enfim, mas como diretor mesmo vai ser uma primeira, né? Vou perder minha virgindade, que dizem.

Eron Falbo: [14:15] O que mais está me destacando na sua descrição é o tanto que você é regrado, planejado e bem resolvido sobre o que você quer, o que você não quer. Você já falou que não quer mais fazer curta, que não quer mais ser ator. Isso, pra você, você acha que você tirou de onde?

Propósito de vida e vocação (14:20)

Lucas Vasconcelos: [14:42] Cara, eu tenho uma filosofia própria de, tipo, fazer o que eu quero fazer, sabe? Eu acho que a gente tem que sempre ditar na nossa cabeça, assim, fazer o que eu quero fazer. Porque existem muitas pessoas que, ah, mas eu vou fazer malhação mesmo não gostando, pra ganhar visibilidade. Ou, ah, eu vou fazer curta, porque curta é... Eu tô na minha zona de conforto e é mais fácil do que fazer um longa. E eu acho que é muito importante de nós, artistas, a gente quebrar isso, sabe? A gente realmente decidir o que a gente quer fazer. Eu quero fazer um longa, eu quero ser indicado a um Oscar, eu quero realmente traçar esse caminho de ir longe com meus filmes, sabe? Eu quero que meus filmes sejam exibidos nos streamings, nas salas de cinema. E eu acho que a única pessoa que pode impedir isso é a gente mesmo. Então, é muito importante que nós mesmos a gente tenha a consciência de fazer o que a gente quer.

Eron Falbo: [15:37] E como você se sente tão confortável tendo certeza que você sabe, né? Porque eu acho que tem muita gente confusa sobre o que quer.

Lucas Vasconcelos: [15:46] Cara, eu acho que... Eu juro pra você, muita gente já me perguntou isso, e eu não sei até hoje como que eu explico. Eu já tive diversos amigos que falam: cara, eu sou confuso, eu não sei o que eu quero, eu tenho 28 anos e eu não sei ainda o que eu quero ser. Com 14 anos já sabia que queria ser cineasta. Eu só explico isso de uma forma, é um contato muito divino, é uma coisa muito bizarra. Eu acho que nós, seres humanos, nós viemos na Terra com uma missão. Eu acho que cada um tem um propósito aqui. Por exemplo, Steven Spielberg tinha o propósito de ser diretor de cinema, e eu acho que eu também tenho esse propósito de ser diretor de cinema. Assim como outras pessoas que encontraram esse propósito, eu acho que cada um encontra o seu propósito na Terra. E, a partir do momento que eu tive o primeiro contato com esse propósito, é como se não houvesse outra coisa que eu pudesse fazer na vida. Eu não aceitaria fazer outra coisa. Eu seria infeliz, não poderia, então eu escolhi ser feliz.

Eron Falbo: [16:44] Eu sinto isso, eu acho que isso te dá muito poder, te dá muito... Sua força de vontade te ajuda a ganhar de muitos obstáculos e vencer dentro da carreira. Porque você sabe, bom, melhor que ninguém, que independente de quem for seu pai, nessa carreira você precisa ter muita resiliência, né? Você tem que não só lidar com o mercado, né, com o cliente, coisas novas, como com o estresse, né, com saber de muita coisa ao mesmo tempo. Agora assim, a minha perspectiva, porque eu já mudei de, vamos dizer, de rumo algumas vezes. Eu também já tive muita certeza astrológica, pensando o que eu queria ser. Aí eu te pergunto assim, como conciliar essa parada de força de vontade, ponta de lança, afiada, saber exatamente o que você quer, ter essa firmeza e ao mesmo tempo se permitir a flexibilidade, aprender com a vida, crescer.

Lucas Vasconcelos: [17:58] Eu acho que é uma coisa que só a gente pode criar entre nós mesmos. Eu acho que tudo parte do princípio em que a gente precisa criar essa certeza dentro da gente. Se a gente realmente encontra alguma coisa que a gente quer fazer, que a gente acha que a gente nasceu pra fazer, eu acho que é batalhar por isso. Eu tenho muita discussão com meus amigos sobre uma coisa que muitos deles discordam, e talvez você discorde, eu não sei, mas enfim, é a minha opinião. Cara, eu acho que é o seguinte: eu acredito muito nas pessoas que não têm plano B. Eu acho muito legal quem não tem um plano B, porque a maioria dos pais, principalmente de artistas, sempre falam assim: pode fazer arte, mas, por favor, tem um plano B. E eu acho que um plano B, às vezes, pode até ser pior do que ajudar. Pode atrapalhar mais do que ajudar.

Filosofia sobre ter plano B (18:23)

Eron Falbo: [18:59] Pode confundir, né? Te dar uma porta de saída. Eu acho que, se eu não me engano, era uma tática de guerra antiga, alguma coisa assim, que os generais queimavam pontes, né? Quando o exército passava para um certo lugar, eles queimavam a ponte para o exército não poder mais voltar. Se depois que quebrou, que ganhou a batalha, aí pode reconstruir e tudo mais. Mas vai ter que lutar a batalha e não tem escolha. Então isso dá uma coragem muito maior.

Lucas Vasconcelos: [19:34] Eu acho que quando você quebra a ponte, quando você quebra o seu plano B, é ou ganhar ou ganhar, sabe? Eu acho que... por que não existem vários Steve Jobs ou Steven Spielberg ou grandes pessoas da nossa época? Porque essas pessoas tinham um plano B, e quando elas realmente enfrentaram a dificuldade, elas foram para o plano B. Eu acho que a pessoa que realmente quer aquilo, ela não desiste. A gente só não tem tantos Steve Jobs assim na nossa vida, no nosso planeta Terra, porque os que iam ser desistiram, entendeu? Eu acho que é um mundo...

Eron Falbo: [20:17] Eu concordo com você nisso, e acho que eu, por exemplo, agora eu me sinto realizado fazendo isso que a gente está fazendo agora, o programa. Mas ao mesmo tempo, por exemplo, quando eu era músico, eu acho que eu estou mostrando uma terceira opção. Quando eu era músico, eu, aos poucos, fui me cansando de ser músico, porque o que eu achava que era ser músico, ou que ia ser ser músico, era uma coisa na minha cabeça. Na prática, quando eu comecei a executar isso, eu vi que tinha outras coisas que eu não sabia, por ingenuidade, dentro da indústria, dentro da carreira de músico no geral, que eu descobri que não era pra mim. Talvez parecido com você testando ser ator, sei lá. E eu desisti da carreira de músico por causa disso. Eu vi, cara, eu não tô a fim de fazer essas paradas. Eu não tô a fim de lidar com esse tipo de gente. Eu não tô a fim de lidar com esse tipo de exigência. Então, pra mim, não era, que nem você tá falando, realmente. Não era uma coisa que eu queria. Eu não queria ao ponto de lidar com aquele tipo de coisa. Eu queria mais ou menos, achava interessante, até hoje eu componho, só que não era pra mim a indústria fonográfica, aquela coisa toda. E acho que é isso: se você sabe muito bem o que você quer, e você tá alinhado com isso, e você tá tendo obstáculos, e você fala assim, porra, tá difícil pra caramba, eu vou então fazer o meu plano B, eu concordo com você que é vacilo, porque você tem que lutar pelo que você realmente quer. Só que eu acho que, às vezes, você descobre melhor sobre o que você quer, e você às vezes muda também o que você quer. Acho que isso é importante também. Eu digo isso porque aconteceu isso comigo, e eu achava que não ia acontecer também.

Lucas Vasconcelos: [22:18] Eu acho que quando a gente fala sobre isso, que a gente está falando sobre queimar a ponte, eu acho que ela é diferente de você se abrir para outras coisas, sabe? Porque eu acho que quando a gente fala em quebrar a ponte, é a gente tirar o play safe, sabe? A gente tirar a zona de conforto, queimar a zona de conforto. Por exemplo, você ser artista e você fazer engenharia, que é uma coisa nada a ver, só para você não morrer de fome, sabe? Diferente, por exemplo, do caso que você deu agora, que se relaciona com a gente, que é você fazer um tipo de arte, mas não se sentir enquadrado nessa arte, e aí você preferir fazer uma outra arte, sabe? Eu acho que isso é só a gente tentando achar o nosso dom. Eu acho que é a partir do momento que a gente acha, sabe? Eu, por exemplo, namorei uma garota quando acho que eu tinha uns 18 anos, que o sonho dela era fazer design gráfico, e os pais pediam pra ela fazer direito. E ela não foi feliz o curso inteiro de direito dela, porque não era o que ela queria, sabe? Então, muitas pessoas, eu acho, hoje em dia, abandonam os sonhos delas para fazerem coisas que provavelmente dariam uma estabilidade financeira, ou não, né? Mas eu acho que é sobre isso.

Custo do sonho e sacrifícios (23:32)

Eron Falbo: [23:35] E tem aquele livro do Mark... Qual é o nome dele? Caraca, sempre esqueço. Aquele... A Sutil Arte de Ligar o Foda-se, sabe?

Lucas Vasconcelos: [23:46] Já ouvi falar, não li, mas já ouvi falar.

Eron Falbo: [23:48] É um livro best-seller, né? Atual, super atual. E o grande lance do livro, que eu acho que super vale pra nossa conversa, é que ele diz que você tem que entender o custo do seu sonho. E acho que isso é válido para isso que a gente está falando. Porque muitas vezes a gente tem um sonho, que era o meu caso, por exemplo, quando eu era músico. Eu achava que eu tinha esse sonho e, hoje em dia, nem se me pagasse muito dinheiro eu faria de novo certas coisas que eu já fiz como músico. Mas assim, o que ele diz no livro é que a gente tem que... o que vale pra gente é estudar pelo menos o tanto, se você acha que você tem um sonho, dá uma pesquisada sobre o custo, sacou? De você ser bem-sucedido naquilo. E não é o custo financeiro, é o custo de... que nem eu te falei, né? Tipo, mesmo se você tiver todo o dinheiro do mundo, ser diretor não é fácil, sacou? Porque você tem que lidar com pessoas, você tem que ser líder. Você tem que aguentar a pressão de várias pessoas da equipe, a pressão de atores, você tem que lidar com egos. Tem um monte de coisas que você tem que lidar como diretor que, se você não entender isso, você pode achar: porra, eu gosto muito de filme, eu gosto muito de cinema. E falar: porra, eu não tenho o que precisa pra ser um líder, pra lidar com pressão, entendeu? Aí você fala: porra, de repente você deveria ser um editor, entendeu? Deveria ser. Você entende o que eu estou falando?

Lucas Vasconcelos: [25:28] Entendo. Eu acho que é buscar não abandonar o sonho, mas se encaixar.

Eron Falbo: [25:35] E também entender melhor o seu sonho, acho que é isso que eu estou tentando desembuchar.

Lucas Vasconcelos: [25:42] Essa frase foi boa: entender melhor o seu sonho.

Eron Falbo: [25:45] Você tem um sonho, porque o sonho não é tão claro, ele não chega assim: tenho 14 anos e é diretor, é só isso. Vai ter que ser... é tipo, eu adoro filmes.

Lucas Vasconcelos: [25:56] É, tipo, eu gosto de ver filmes, gosto de fazer assinaturas.

Eron Falbo: [25:58] E, by the way, se já estou fazendo direção com 14 anos, aí a história é bonita, né, retrospectivamente. Mas, de repente, com 14 anos você tinha outras coisas que você estava explorando também. Você tinha uma banda.

Lucas Vasconcelos: [26:08] Com certeza. Música, tudo. A única certeza era que eu seria artista. Essa era a única certeza.

Eron Falbo: [26:16] É isso que eu acho que eu queria chegar juntos, assim, eu e você, a gente que é artista, oferecer alguma coisa pra quem tá nos ouvindo aqui, né? Tipo, tem muita gente que tá nessa dúvida ou até tá num momento de encruzilhada ou de transição.

Lucas Vasconcelos: [26:35] Sim.

Eron Falbo: [26:36] Ou tá precisando dessas palavras suas aí de, porra, vamos queimar as pontes mesmo e foda-se, né? É isso mesmo, sacou? E vai nessa, tipo... Porra, acho que é importante isso.

Lucas Vasconcelos: [26:49] Na verdade, eu acho que só completando isso, eu acho que não existe caminho errado nem certo, mas eu tendo a falar isso pros meus amigos, porque senão daqui a pouco vai, imagina, vou receber mensagem falando: 'Lucas, eu queimei a ponte, agora eu tô fudido, pô, cê é filho da puta, você pediu pra fazer isso?' Eu acho que cada um faz o seu caminho, mas eu sei que muitas pessoas que realmente não tiveram plano B, elas realmente obtiveram muito sucesso, porque elas foram pessoas que realmente não podiam perder, elas só podiam ganhar.

Eron Falbo: [27:21] Assim, para ir mais além dessa parada de queimar ponte ainda, tipo, cara, se eu tô aqui falando com você, artista, que está aí na sua casa, na dúvida, entendeu, com o coração na mão, pensando, olhando para a ponte: o que eu faço com essa ponte, será que eu atravesso ela ou queima? O que eu acho que a gente chegou aqui juntos é que, cara, primeiro questiona muito o seu sonho para saber se você conhece ele, se você entende o custo do seu sonho, se você está disposto a pagar o custo do seu sonho. Aí, uma vez que você, porra, não, eu estou disposto. Aí, cara, isso vale pesquisa, tipo assim, conversa com, tipo, manda e-mail para, tipo assim, o Spielberg não vai te responder provavelmente, mas, cara, o Lucas Vasconcelos talvez vá.

Lucas Vasconcelos: [28:14] Eu respondo, eu respondo. Eu adoro responder mensagem de quem quer fazer cinema. Eu respondo tanta mensagem, cara, de gente que manda mensagem: 'Lucas, eu quero fazer cinema, mas eu não sei se eu devo.' Então assim, gente, se vocês querem fazer cinema, não hesitem e mandem uma mensagem.

Eron Falbo: [28:30] Eu respondo tudo também, então qualquer coisa, se tiver músicos aí, ou se tiver charlatões que estejam em treinamento, que queiram fazer perguntas, podem mandar e-mail aí, que eu sei tudo sobre isso. Mas o que eu queria dizer é que, tipo, faça essa pesquisa de mercado, de campo, sacou? Para entender qual que é o custo do seu sonho, entender qual que é o seu sonho de verdade. E depois, se você entendeu tudo isso e você está seguro que você não está sendo ingênuo e você sabe os custos, está disposto a pagar, aí, meu irmão, queima a porra da ponte. Não tem jeito. Se você não souber isso, às vezes queimar a ponte pode ser uma parada.

Lucas Vasconcelos: [29:18] A Fernanda Montenegro tinha uma frase, talvez você conheça, que ela disse para um grupo de atores de teatro assim: 'Vocês querem realmente saber se vocês nasceram para ser artistas? Vocês vão fazer o seguinte: fiquem longe do teatro, atores, não apareçam aqui por uma semana. Se vocês sentirem mal, se vocês sentirem saudade, se vocês sentirem falta, que vocês não conseguem viver sem isso, aí vocês voltam, porque aí é porque vocês são do negócio mesmo, não tem jeito.' Então eu acho que a gente precisa sentir a necessidade.

Eron Falbo: [29:55] É, total, cara. Esse tipo de coisa é importante. Eu acho assim, cara, tipo, tem muita gente que, porra, não tem dinheiro e não tem a capacidade de ser diretor de cinema pela vida deles, e isso realmente existe, né? E às vezes é uma questão de nem ter a vontade tanto, porque você tá com fome ou coisa do tipo. Então eu acho que vale também esse aviso paroquial, que de novo é sobre o custo, o custo que você tem que pagar. Às vezes o custo para certas pessoas vai ser ver os pais passando fome. Aí você tem que se perguntar isso, se você realmente quer, sacou? Você tá disposto a não ajudar a sua família pra você... Cara, tem gente que tá disposta a isso, que tá tão que nem a Fernanda Montenegro falou, é tão desesperador, né? Tipo, a vontade de estar nisso, etc. Que o cara fala, desculpa, mas... Por isso que tem que ter consciência, eu acho, desse custo. E o custo é diferente pra cada pessoa, tem que botar aí, porra, se você tem filhos e você vai ser músico de turnê, sacou? Saiba que sua família vai ser quebrada, sacou? Vai ser complicada, vai ser simples, entendeu? Esse vai ser um custo, sua mulher vai ficar com ciúme o tempo todo, dependendo do tipo de pessoa que ela for. Mas você tem que entender, analisar que tipo de vida você vai ter e saber esses porras e esses custos. Uma vez que você sabe tudo isso, aí você tá pronto pra pagar o custo. Aí, se não, aí eu realmente recomendo: cara, faz direito. De repente diminui o custo.

Lucas Vasconcelos: [31:56] Sim.

Eron Falbo: [31:57] Tudo tem um preço, né, cara? É, é outro preço, exatamente. Eu tenho aqui, direito, eu sou advogado, e ao mesmo tempo eu faço um curso noturno ali de cinema, faço uns filmes, etc. Aí, quando eu tô em outra época da vida, o custo é bem menor, tais coisas não estão... Aí, se joga essa coisa.

Lucas Vasconcelos: [32:16] É isso.

Eron Falbo: [32:16] Essa complexidade aí. É isso.

Lucas Vasconcelos: [32:22] Concordo, Eron.

Eron Falbo: [32:23] Bota ferro? Tamo junto nessa?

Lucas Vasconcelos: [32:26] Tamo junto nessa.

Eron Falbo: [32:28] Eu só não queria deixar, porque eu não quero, cara, eu não quero ninguém, tipo, em casa, porra, não dormir na noite, porque talvez, sei lá, não tão queimando as pontes ou tão... Eu comecei a fazer esse programa, cá entre nós e todos que estão acompanhando hoje, para passar um pouquinho de inspiração, um pouquinho de aprendizado dos meus convidados e, obviamente, das minhas experiências também. Então, cara, é pra isso que a gente tá aqui e valeu aí pelo seu insight nesse quesito. Eu acho que a gente fechou bem essa parada aí de queimar pontes e tudo mais.

Lucas Vasconcelos: [33:17] Com certeza.

Eron Falbo: [33:18] Foi a melhor versão que eu já ouvi, pelo menos.

Lucas Vasconcelos: [33:21] Sem dúvida, sem dúvida.

Eron Falbo: [33:23] Muito fé, cara. Então é... Sobe um pouquinho. Cara, uma pergunta que eu queria te fazer, que estava escrito aqui no meu script. Agora que eu estabeleci que você... tá na onda de longa. Na verdade, antes de fazer essa pergunta, fala um pouco sobre sua longa, cara. Tipo, é um road movie, tem influências, tipo... O que você pode falar sem dar spoiler, né, pra gente poder ir pro cinema sem existir spoiler.

Lucas Vasconcelos: [33:54] Cara, é um road movie. Eu vou rodar do Rio de Janeiro até Ushuaia, que fica lá no fim do mundo. O filme se chama Eu, Meu Pai e as Cinzas da Minha Mãe, que é a história de um pai e um filho que levam as cinzas da mãe para serem despejadas no fim do mundo, uma promessa que eles fizeram para a mãe deles. E o que eu posso falar do filme por enquanto é isso: a gente já tem um elenco, mas infelizmente ainda não posso revelar quem tá no elenco, por questão de contrato.

Eron Falbo: [34:25] Mas tem gente reconhecida. Exatamente.

Lucas Vasconcelos: [34:28] E também, a gente já deve ter contrato com o streaming, mas essas coisas também não posso falar.

Eron Falbo: [34:36] Ah, que bom. Mas, na verdade, eu ia te perguntar junto dessas coisas, não precisa dos nomes, mas... é isso, já está tudo encaminhado, graças a Deus.

Lucas Vasconcelos: [34:46] Então assim, já tem elenco, já tem lugar pra todo mundo assistir quando estrear.

Eron Falbo: [34:51] Boa diferença. Será que ainda vai existir cinema?

Lucas Vasconcelos: [34:55] Essa dúvida aí é boa, hein? Eu acho que cinema nunca vai morrer, não tem como.

Reabertura dos cinemas pós-pandemia (35:00)

Eron Falbo: [35:00] Mas já voltou, porque eu nem estou acompanhando. Estou com uma saudade.

Lucas Vasconcelos: [35:04] Voltou, já voltou.

Eron Falbo: [35:04] Estou com aquela parada de crack, tipo, cadê o cinema?

Lucas Vasconcelos: [35:09] Gente, não me cancelem, tá? Eu estou respeitando todos os processos da quarentena, mas liberou o cinema ali. Aí eu fui ver num dia muito vazio.

Eron Falbo: [35:23] Liberou?

Lucas Vasconcelos: [35:24] É, liberou já há um tempo. Aí eu fui ver Tenet e fui ver Judas and the Black Messiah. Mas eu vi que tava bem vazio, então assim, foi super...

Eron Falbo: [35:35] Esse é do Spike Lee, esse Judas and the Black Messiah?

Lucas Vasconcelos: [35:38] Perdão?

Eron Falbo: [35:38] É do Spike Lee?

Lucas Vasconcelos: [35:40] Não, esse Judas and the Black Messiah, eu esqueci agora o nome do diretor. Mas é com o Daniel Kaluuya e ele ganhou o Oscar.

Eron Falbo: [35:51] Ah, esse é que ele é um espião, ele trabalha na polícia.

Lucas Vasconcelos: [35:57] Todos os Panteras Negras, isso.

Eron Falbo: [35:59] Eu vi esse aí, não é do Spike Lee, mas esse nome é tipo clássico pra Spike Lee. É um outro diretor legal que eu gosto, esqueci agora qual que é.

Lucas Vasconcelos: [36:09] Eu também não tô me recordando.

Eron Falbo: [36:11] É, mas é fera esse filme, pô. E esse ator é muito bom, né, cara? O primeiro coisa que eu vi dele é Girls, aquele seriado. Você viu Girls?

Lucas Vasconcelos: [36:19] Girls não, não vi. Eu vi o Black Mirror dele, né? O que ele faz no episódio 2.

Eron Falbo: [36:24] Ele está falando do cara negro ou do cara branco?

Lucas Vasconcelos: [36:31] Não, é porque são dois negros. Tem o Daniel Kaluuya e o outro maluco.

Eron Falbo: [36:36] Então a gente tá falando de dois filmes diferentes.

Lucas Vasconcelos: [36:38] Não, não estamos não. É porque você deve estar achando que...

Eron Falbo: [36:40] O cara da CIA...

Lucas Vasconcelos: [36:41] Não, o cara da CIA ele não é o espião não. O que que acontece? Ele contrata um cara negro pra... Ah, não.

Eron Falbo: [36:52] Eu tô confundindo os filmes assim, cara, com outro cara que eu esqueci o nome desse ator que faz o vilão do novo Guerra das Estrelas.

Lucas Vasconcelos: [37:04] Ah, sim, você tá confundindo. Esse é do Spike Lee, esse que você tá falando.

Eron Falbo: [37:11] É, pô. Eu confundi tudo.

Lucas Vasconcelos: [37:16] E filtrados na clã. É porque eles têm uma sinopse parecida.

Eron Falbo: [37:21] Caraca, é bizarro isso. Aí você vê, tem tudo a ver essa confusão. E o Black Message também é um título que o Spike Lee usaria.

Lucas Vasconcelos: [37:30] Também, exatamente. É uma confusão que outras pessoas já devem ter cometido também.

Eron Falbo: [37:36] Pode ser, pode ser. Cara, que bom que você é uma enciclopédia dessas paradas.

Lucas Vasconcelos: [37:42] Mas é isso, o Felipe voltou e...

Eron Falbo: [37:44] Enfim... Pô, bom, gente, cara. Inclusive, quem estiver ouvindo aí e quiser ir comigo... Porque hoje em dia é difícil achar amigo, né? Tipo, quem tá disposto a sair... Mas, cara, a pergunta que eu ia te fazer é tipo assim, velho: você fez seu primeiro longa, mas imagino que você passou sua vida com vários projetos em mente, imagino que você deve ter uma lista no Evernote, sei lá, no Keep, cheio de projetos possíveis, futuros.

Lucas Vasconcelos: [38:18] Cara, eu adoro usar o Evernote, é muito bom o Evernote. Cara, eu tenho muitos filmes sim, muitos filmes parados, eu tenho uma lista de roteiros...

Projeto dos sonhos sem limites (38:27)

Eron Falbo: [38:30] Não, é... mas a pergunta é o seguinte, é mais de entretenimento: se você tivesse todo o budget do mundo e tivesse todo o acesso a todos os lugares de filmagem, todos os governos do mundo lá bem perto de você, qual é o projeto que você faria?

Lucas Vasconcelos: [38:49] Qual o projeto que eu faria? Eu com certeza dirigiria algum Star Wars, né? Sou viciado em Star Wars, então... Acho que eu me candidataria a ser diretor de algum filme de Star Wars. Mas assim, eu acredito muito numa coisa... É muito engraçada essa sua pergunta, eu entendi ela. Entendi que, se eu tivesse total acesso pra dirigir as coisas... Você tem.

Eron Falbo: [39:16] Algum sonho, algum projeto, entendeu?

Lucas Vasconcelos: [39:18] É, eu entendi total, mas eu queria compartilhar um negócio que eu acho muito legal, que é assim: eu acho muito interessante diretores que trabalham com pouco dinheiro, porque o cinema, às vezes, a gente vê um filme como Transformers, vamos usar de exemplo, que é um filme com um orçamento milionário e é um filme que é tão criticado pelo público, é tão, vamos usar assim, um clichê hollywoodiano do século XXI. E filmes que têm pouco orçamento forçam o diretor a ser mais criativo. Então, eu sou um grande admirador de filmes com pouco recurso. Eu entendi essa pergunta, e por isso que eu falei que eu dirigiria Star Wars, porque eu acho que Star Wars é uma coisa com bastante orçamento, mas com muita criatividade. Mas eu acho muito legal a galera.

Eron Falbo: [40:04] Que trabalha com poucos recursos... Claro, é um ótimo disclaimer, né?

Lucas Vasconcelos: [40:10] É, você força a sua criatividade, né?

Eron Falbo: [40:13] E é caro, tipo assim, eu lembro de assistir na época que eu queria ser diretor, porque, na verdade, isso aí eu não abandonei não; na verdade, eu ainda seria diretor. É uma parada que ainda tá assim, eu tô lidando com os custos aí dentro da minha vida. Porque, assim, ser diretor é caro, né? Não só financeiramente, também é caro em termos de tempo e tudo mais, você tem que estar muito dedicado mesmo. E hoje, sinceramente, eu não estou pronto pra lidar com essas coisas. Mas eu lembro, na época que eu queria muito ser diretor, lançou o Blair Witch Project, um dos primeiros filmes que tem.

Lucas Vasconcelos: [40:57] Eu lembro.

Eron Falbo: [40:58] É meio que fingindo que é documentário, mas no final vira...

Lucas Vasconcelos: [41:04] Isso, é um fake doc.

Eron Falbo: [41:05] É, cara, porra, o neguinho fez com, sei lá, duas câmeras, handhelds, na época que nem tinha celular filmando. Então, cara, genial, assim, o roteiro, fazer uma parada daquelas, e assustador pra caralho, assim.

Lucas Vasconcelos: [41:22] Tipo... Recriou um gênero, né?

Eron Falbo: [41:25] É, porra, isso aí é... Bizarro. Ao mesmo tempo, um dos meus diretores favoritos é o Christopher Nolan, sacou? Ele pega, assim, altíssimo orçamento e sai da caixa, assim, cria coisas... Cria ciência, né? Inventa coisas novas.

Lucas Vasconcelos: [41:44] É, mas o Christopher Nolan, ele é realmente incrível. Ele é um exemplo dessas pessoas que têm orçamentos gigantescos e que fazem filmes ótimos, né? Excelentes. Mas ele, por exemplo...

Eron Falbo: [41:55] Ele começou com baixo também, né?

Lucas Vasconcelos: [41:57] Ele começou fazendo um curta chamado Doodlebug, que é um filme sobre um cara que se encontra em formato miniatura, em preto e branco. Se botar no YouTube, vocês acham. É assim, exatamente, pouco recurso, mas uma criatividade gigantesca, né? Então eu acho que pessoas que primeiro elas se passam por um teste de criatividade...

Eron Falbo: [42:18] É, quando?

Lucas Vasconcelos: [42:19] Um bom recurso.

Eron Falbo: [42:20] Cara, a gente pensa muito parecido em termos do caminho do artista, isso é muito legal. E também o primeiro filme que ele ficou famoso é o Memento, né? Ele também é super baixo orçamento, né?

Lucas Vasconcelos: [42:31] Isso, exatamente.

Eron Falbo: [42:32] É criatividade total.

Lucas Vasconcelos: [42:35] É, Godard falava que é uma ideia na cabeça e uma câmera na mão, é tudo que você precisa.

Eron Falbo: [42:39] Total, total. Cara, inspirador pra caralho esse nosso papo que a gente teve hoje. A gente tá no final, eu vou fazer uma última pergunta pra você antes de realmente agradecer a sua presença aqui.

Lucas Vasconcelos: [42:55] Eu que agradeço.

Eron Falbo: [42:56] Super inspirador, a gente procura isso, a gente tá fazendo esse programa pra inspirar as pessoas, e acho que vou recomendar pra todos os amigos artistas, especialmente aqueles que ainda não se encontraram, né, porque a gente falou coisas legais aqui hoje. Então, obrigado pela sua presença mesmo, agradeço por me...

Lucas Vasconcelos: [43:18] Receber. Agradeço a você e a toda a sua equipe também, por trás das...

Eron Falbo: [43:23] Câmeras. Valeu, valeu, querido, muito obrigado mesmo. É a última pergunta, eu queria dizer, a gente falou um pouco disso, mas eu queria que, se você tiver algum insight a mais pra adicionar, eu queria te perguntar: o que hoje, nesse mundo, é mais importante pra você?

Reflexão final sobre amor e conexão (43:25)

Lucas Vasconcelos: [43:47] O que hoje, nesse mundo, é mais importante para mim? Eu acho que é uma pergunta muito difícil pra ser respondida tão imediatamente, mas se for pra eu pensar em alguma coisa pra responder agora, eu vou ter que ser clichê e dizer que a gente realmente precisa de mais amor e de mais carinho, principalmente no momento que a gente tá vivendo. Eu acho que é um momento que a gente realmente precisa juntar, aproximar as fronteiras, um momento que a gente realmente precisa ficar junto, quer dizer, fisicamente distante, mas emocionalmente junto. Então, eu acho que eu termino a entrevista com esse insight que... pode ser bastante clichê, mas que agora, no momento...

Eron Falbo: [44:37] Eu concordo, acho que é certo isso. Eu tô com você 100% e não tem clichê nisso. Eu faço essa pergunta justamente pra gente poder ter essa inspiração e falar um pouquinho do coração, pra que as pessoas tenham essa coisa de estar vendo gente como a gente falando coisas... pode ser óbvio, mas isso precisa ser repetido.

Lucas Vasconcelos: [45:04] É óbvio e precisa ser relembrado, exatamente.

Eron Falbo: [45:07] Nesses tempos, realmente, a gente está polarizado, o mundo está meio que explodindo de várias maneiras. Então é isso, cara. Obrigadão. Eu vou só te pedir, se você puder esperar só um minutinho, eu vou fazer uns avisos paroquiais aqui.

Lucas Vasconcelos: [45:22] Claro.

Eron Falbo: [45:22] Depois, se a gente puder, fora do ar, a gente conversa um minutinho, pode ser?

Lucas Vasconcelos: [45:28] Perfeito, claro. Sem problema algum.

Eron Falbo: [45:30] Valeu, querido. Então, tudo de bom. Um abração, cara.

Lucas Vasconcelos: [45:33] Um abraço, viu?

Eron Falbo: [45:34] Valeu. Então, pessoal, foi super inspirador essa conversa aí com o Lucas. Agora eu vou dar a minha pílula de um minuto resumindo a nossa conversa de uma hora e vou dizer para todo mundo o que, de coração, aprendi com o Lucas hoje. Mas antes disso só queria dizer para vocês que a gente não ganha nada com esse programa, e para vocês contribuírem, se vocês estão gostando, avisem para as pessoas que vocês amam. A gente tá aqui fazendo isso, a gente tá convidando pessoas de altíssimo calibre intelectual, de coração, artistas, políticos, intelectuais, e tá fazendo indagações sem amarras. A gente não tá amarrado à CNN, à Globo, não tá amarrado a nenhuma oligarquia. A gente tá aqui de fato tentando abrir a cabeça das pessoas, tentando abrir o coração das pessoas e revelar verdades, revelar sabedoria para todo mundo. Então, galera, o que eu aprendi com o Lucas hoje é que, porra, primeiro, essa parada de relembrar... ele me inspirou um pouco da coisa, apesar de eu ter lutado pra me justificar, né? Porque eu, na minha vida, queimei algumas pontes e depois... cadê a ponte, porra? Mas, ao mesmo tempo, eu acho que esses ângulos, essa energia artística da força de vontade de você atropelar os obstáculos, atropelar as dúvidas, atropelar as dificuldades que aparecem no meio do caminho, a gente realmente só tem com essa energia que ele me relembrou, que ele me trouxe de volta. E também me voltou esse espírito, porque a gente teve muito parecido com a coisa de ter sido músico e diretor no começo da vida artística. Me voltou uma nova inspiração para revisitar essas velhas coisas. E, no geral, foi isso, essa conversa foi... foi uma abertura de portal artístico, assim, de pôr uma nova inspiração para todo mundo que está nos ouvindo, para mim mesmo, para o Lucas, para todos nós, para acreditar na arte, acreditar no fazer, na criação, e a gente usar nossa força de vontade para derrubar tudo. É isso, gente, estamos aqui ao vivo de segunda a quinta, 19 horas, e nunca se esqueçam: água mole, pedra dura, tanto bate até que fura.

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